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domingo, 11 de outubro de 2009

O FAMOSO BANDITISMO DOS BANDEIRANTES

Belmonte: Criador de Juca Pato - Vítima de tanto levar na cabeça, Juca Pato tinha que conformar-se, pois sempre "podia ser pior"

"O artista tem que viver entre o povo, embora não deva fazer concessões à popularidade. Ser popular não é o mesmo que ser vulgar. O "xis" da questão está em tomar um assunto complicado e difícil, digerí-lo, simplificá-lo e torná-lo acessível ao grande público. Resumir numa charge, por exemplo, um problema econômico ou financeiro, eis o ideal(...) fazer arte para ser entendido por algumas pessoas é criar uma aristocracia artística."
Belmonte




domingo, 24 de novembro de 1935
Neste texto foi mantida a grafia original
Iniciava-se, assim, o tumultuoso cyclo da caça ao indio:

As terras ferteis se estendiam, promissoras de séaras opulentas, mas arranhadas apenas, aqui e ali, desordenadamente, em culturas primarias, pela ausencia quasi absoluta do operario rural. No norte, após o ensaio quasi inoperante da escravidão selvicola que, mesmo assim, conseguira arrancar do sólo o esplendor da cultura da canna, o indio fôra substituido, no problema servil, pelo negro africano que, em levas successivas e systematicas, atravessava o oceano, despovoando a Costa da Mina e a Guiné em favor das terras virgens do novo mundo.

Mas o Norte nadava em ouro. Os ricos senhores de engenho, graças ao concurso do braço indigena, podiam, quando o quizessem, dar-se o luxo de comprar "peças" africanas, dispensando os riscos da captura e forrando-se aos onus da exploração dos autochtones, embora a legislação das cortes portuguezas, tendentes a assegurar a liberdade dos índios, não passasse de puro despistamento juridico. Leis, alvarás e cartas-regias sahidas, com tão impressionante exhuberancia, através tres seculos, das immediações da Real Fazenda, nada mais eram, no dizer de Taunay, do que "refalsada hypocrisia".

Até então, escravizavam-se indios no Brasil inteiro. Já em 1550, Manuel da Nobrega escrevia ao seu provincial: "Nesta terra, todos ou a maior parte dos homens têm a consciencia pesada por causa dos escravos que possuem contra a razão".

E se, no seculo do bandeirismo, apenas os paulistas realizavam, com intensidade, esse trafico, foi pela razão muito natural de que, sendo elles no geral pobres, não podiam ser humanitarios... comprando negros na costa da Africa. Dir-se-á, para suprema ignominia dos chefes bandeirantes, que uma coisa é comprar escravos e outra, muito diferente, é escravizal-os. O argumento, como se constata, é irretorquivel, e lembra o caso daquelle santo homem da anecdota que era um grande amigo dos animaes. Não matava um frango porque, dizia elle, lhe confrangia fundamente a alma judiar das pobres avesinhas. O que, aliás, não o impedia de lamber os beiços e sentar-se soffregamente a mesa, empunhando um facalhão, toda vez que lhe apresentavam um frango assado ou uma gallinha de molho pardo...

Todos quantos se lembram de investir contra os bandeirantes, accusando-os de terem praticado as maiores atrocidades contra os "pobres selvicolas", fiam-se excessivamente na documentação dos missionarios hespanhoes - parte interessadissima na secular contenda entre as duas forças que se chocaram, vezes sem conta, nas terras barbaras do novo mundo. Emquanto os hespanhoes se apossavam do territorio sul americano, pelo sul e pelo oeste, na tentativa de estabelecer o seu grande imperio theocratico hispano-guarany, os paulistas, na sua ansia expansionista, rompiam a linha tordezilhana que tentava contel-os no ambito asphyxiante da capitania, e sahiam - como dizem os documentos coévos - em busca de "remedio para a sua fraqueza", isto é, dos braços de que necessitavam para suas lavouras.

Incidem num juizo falso e absurdo, todos quantos suppõem que, nas suas arremettidas contra as reducções, fossem os bandeirantes encontrar, sempre, indios inoffensivos e missionarios inermes. Tanto isso não é verdade que, em innumeros documentos escriptos pelo punho dos proprios jesuitas, se constata, a todo passo, a bravura com que elles se defendiam e, muitas vezes, atacavam. Numa carta dirigida em 12 de novembro de 1648, ao governador do Paraguay pelo padre Justo Mansilla, escrevia este:

Ihs - Senor governador. Sabado y noviembro 7 dieram los nuestros assalto al enemigo en su real que era el puesto en donde, el ano passado, por otra invasion del mismo enemigo, se avia retirado la segunda reducion y sacaran al Padre xpl de arennas, a quien el enemigo tenia preso y con guardas de dia y de noche e dias avia, y mataram a seys o sete Portugeses a pelotassos, y algunos Tupis, con mucho animo y brio", etc. (1).

Mas não era sempre que as reducções atacavam os paulistas, matando-os a pelotaços, com "mucho animo y brio". Defendiam-se, tambem, com armas de fogo e eu acho que tolos seriam elles se são o fizessem. No assalto a uma das villas do Paraguay, segundo relata o capitão Domingos Gonzales a Sebastian Solorçano, secretario da Casa de Contratação de Sevilha, foram mortos 140 paulistas. Como se vê, os bandeirantes não investiam contra gente inerme. As reducções viviam, aliás, em constantes questões com as autoridades hespanholas, quer do Paraguay, quer do vice-reino do Prata e mesmo da Côrte. Na documentação colhida no enorme acervo do "Archivo General de Indias", em Sevilha, carinhosamente colligidas nos "Annaes" do Museu Paulista, é constante, insistente mesmo, o encontro de cartas vindas da Côrte, e dirigidas às reducções que se esparramavam pelas regiões do Guayrá, Tape e Uruguay, pedindo-se a devolução de armas e munições. Num desses documentos pede-se ao provincial ibero que "todas las armas que esa Religion tenia em las doctrinas de ellas y las que huviesse repartido a los indios de que se conponen, se la entregassen para que estuviessen a disposición de esa Religion, ni se entrometiesen los religiosos a exercitar los yndios en lo manejo dellas ni en los allardes otra acion politica ni militar", etc. (2).

... Noutra carta, pede a Côrte ao governador do Paraguay que retire 150 arcabuzes e mosquetes, 70 "botijas" de pólvora e 70 quintaes de chumbo, sendo que havia nas reducções jesuiticas, então, segundo testemunho do governador, nada menos de 800 boccas de fogo. As reducções defendiam-se bravamente e faziam muito bem.

Como se vê, os hespanhóes não andavam absolutamente tranquilos, ao saberem que seus indios estavam de tal modo armados. Forneciam-lhes armas, é verdade, quando os paulistas ameaçavam as reducções, mas tratavam prudentemente de recolhel-as, logo depois, porque, como escrevia don Gregorio Henestrosa, governador do Paraguay, ao presidente da Real Audiencia de La Plata "a estos yndios no se deben consentir estas armas de fuego, aun que sean para su defensa, fundandose em que pueden con el tiempo venir a usar mal de ellas, volviéndolas contra los espanoles de estas partes".

Tudo isso é symptomatico e quem quer que saiba lêr nas entrelinhas, se convencerá de que as famigeradas "atrocidades" dos paulistas não foram tantas nem tamanhas como pretendem. Tanto isso é provavel que, muitas vezes, os indios das reducções adheriam logo aos invasores: "los yndios reducidos se dan la mano con los que entram por el ytatin". Numa "Real Cedula" dirigida ao vice-rei do Peru', marquez de Mansera, narrando occorrencias no Sul, confessava a Côrte que os paulistas tinham se apoderado de tudo, porque "todos, indios e residentes, tinham-se juntado aos invasores, davam-lhes informações e os guiavam a outras villas e reducções".

Seria insensatez, evidentemente, rogar-se a grandiosidade da obra evangelizadora dos jesuitas na America, principalmente diante das figuras impressionantes de Anchieta e Nobrega no Brasil e de Jumpero Sierra e Garcez na California. Innumeros jesuitas foram, póde-se affirmar, mais santos do que homens. Isso, todavia, não quer dizer que, para o Brasil, seria uma das sete maravilhas do mundo o estabelecimento do Imperio Theocratico que, na opinião de Sylvio Romero, os hespanhóes, com tanta pertinacia, levavam à realidade na America, escorados no meridiano de Tordesilhas. Nesse sentido, a devastação leva a effeito pelos bandeirantes na Guayrá, no Tape e no Paraguay, é um feito que deve orgulhar a raça paulista porque dahi resultou a extincção definitiva da sorrateira ameaça e o avanço implacavel das fronteiras orientaes do Brasil até quasi a cordilheira dos Andes.

Dêmos de barato, porém, para argumentar, que a escravização de indios pelos paulistas, nesse tempo, fosse uma ignominia. E concordemos também em que os bandeirantes, nessas lutas, commetteram atrocidades.

Já dissémos - e todo o mundo o sabe - que não foram os paulistas que inventaram a escravidão, nem tiveram privilegio della. No Brasil inteiro se escravizaram indios, façanha que só terminou no Norte, quando se percebeu que o escravo negro, caçado na Africa, era mais submisso e mallevavel do que o indigena. Todavia, essa submissão e essa maleabilidade produziram, sabe Deus porque, a dantesca tragedia dos Palmares, para cuja extincção se appellou, em ultima instancia, para os "famigerados" bandeirantes de São Paulo... E se os negros da Guiné e da Costa da Mina, tão conformados e tão humildes, chegaram àquelle extremo, fugindo aos senhores de engenho como diabos que fugissem da cruz, deviam ter razões muito poderosas para fazel-o...

Tudo isso, porém, estava no espirito da epoca e, principalmente, nos costumes da terra semi-barbara. Todos quantos observam, e tentam julgar, os acontecimentos do seiscentismo e do setencentismo paulistas através do prisma civilizado dos nossos dias, devem lamentar-se de não terem os indios americanos se munido de "habeas corpus" preventivos contra as incursões dos bandeirantes, nem, ante a ameaça da escravização, appellando para a Lei de Segurança Nacional...

Todavia, não parece impertinente esta pergunta: quem, ante os tumultuarios e arrazantes "rushs" dos paulistas, poderá atirar-lhe a primeira pedra?

Tudo o que os bandeirantes fizeram de possivelmente barbaro no cyclo da caça ao indio, está longe, astronomicamente longe, do que fez aquelle antigo guardador de porcos que se chamou Francisco Pizarro, devastando, com indescriptivel ferocidade, a maravilhosa civilização incaica e trucidando um povo que viera amigavelmente ao seu encontro, um povo cuja cultura estava ao par, senão àcima de muitos outros da civilizadissima Europa (3). E, todavia, não faz ainda um anno que se inaugurou em Trujillo, uma estatua do conquistador...

Longe ainda, infinitamente longe, das famigeradas crueldades dos bandeirantes, estão as incriveis façanhas de Fernando Cortez, reduzindo a escombros a incomparavel civilização aztéca, no Mexico, tão maravilhosa quanto a incaica do Peru. E o que este ibero feroz realizou no imperio de Montezuma, não está muito distante do que fizeram La Salle De Soto na America do Norte. E, se estes ainda não possuem estatuas glorificadoras, estão emprestando o nome illustre a duas marcas de lindos automoveis.

Longe, ainda, estão, as crueldades dos paulistas, das arripiantes incursões do francez Dlonnais que arrazou Maracalbo, S. Antonio de Gilbraltar, Puerto Cavallo e S. Pedro. Esse tremendo filibusteiro só não incendiou mais porque, a paginas tantas, os indios conseguiram agarral-o e, depois de o assarem com todas as regras culinarias, devoraram-no.

Foi assim que povos civilizados, cometteram as maiores scenas de barbarie, não só no Novo Mundo, como tambem no Velho. Não ha quem desconheça as atrocidades praticadas pelos anglo-saxões contra os Pelles-Vermelhas nos Estados Unidos, pelos hespanhóes contra os "yumas" do Colorado, os "quixúas" do Peru e os "guaranys" do Paraguay; pelos francezes contra os indios da Guyanna; pelos germanos na Venezuela, na sua ephemera tentativa de colonização.

"O inicio dos "estabelecimentos", diz Cochin, é um misto de heroismo e de desordem, de sublime devotamento e de cupidez feroz. Foi um heroico navegante, Enambuc, de Picardie, o fundador da colonização das Antilhas. Foi um soldado heroico, o cap. D'Olive, quem, com M. de Plessis, pediu, em 1635, aos Senhores da Companhia das Ilhas, uma commissão para occupar Guadalupe. Sabe-se, porém, com que selvageria, depois da morte do seu companheiro, elle se atirou sobre os infelizes "caraibas", declarando-lhes - segundo o relato de um jesuita - uma guerra tão injusta quão vergonhosa". (4).

A propria Inglaterra que, no anno de 1102, tinha extinguido a escravidão, restaurou-a alguns seculos depois, "aperfeiçoando-a" com o famoso tratado anglo-hespanhol que lhe dava o monopolio do trafico, apezar dos clamores indignados do general William Wilberforce (5).

A barbarie, nesse periodo torvo da humanidade, era geral, mas, pode-se affirmar que os indios escravizados em S. Paulo não soffriam mais, não soffriam tanto como os que se entregavam ao labor martyrizante nas minas de Potosi, nos hervaes paraguayos de Maracaju, nos engenhos do Norte do Brasil ou nas lavouras de Cuba, Haiti e S. Domingos...

Couto Magalhães affirma: "tempo houve em que, só ao redor de São Paulo, existiam mais de 60.000 indios". Ora, conhecendo-se a rebeldia innata no selvicola e sabendo-se que, nessa época, a população de S. Paulo não ia além de 4.000 brancos e mestiços (6), não se faz mistér muita imaginação para calcular-se a facilidade com que os senhores seriam chacinados pelos escravos, caso tentassem martyrizal-os...

É verdade que, nesse cyclo tumultuario e dramatico da Historia do mundo, surgiam, às vezes, visionarios - como foi o caso de "sir" Walter Raleigh. Este, porém, além de aventureiro era poeta. E, na conquista dos Estados Unidos, quiz agir como poeta, à moda romantica.

Resultado: "tres expedições successivas foram tres irremediaveis desastres: a fome e, principalmente, os indios, mataram os expedicionarios."

"Sir" Raleigh só acordou de seu sonho de visionario muitos annos depois. E voltou à America, não mais como poeta, mas como um homem do seu tempo:" Il suivit l'usage du temps ou la piratarie etait encore la guerre, ou Draka illustra son nom em arretan les galions de l'Espagne, avec laquelle l'Anglaterra etait en paix: Releigh se vengea de sa mauvaise fortune, en pillant et en destruisan l'establishment espagnol de Saint Thomas" (7).

Seria fastidioso enumerarmos o que de atrós e de barbaro se praticava no mundo, nesse periodo cyclonico. A historia da Inquisição ahi está no conhecimento de todos; ahi estão ainda os arripiantes "pogromos" com que, desde a Edade Média, a civilizada Europa vem estarrecendo os proprios selvagens da Africa: judeus trucidados ou queimados vivos, na praça publica, na França, Allemanha, Russia, Portugal, Hespanha, desde o anno 1000 até aquem do seculo XIII; chacina de mulheres judias na Ukrania em 1918, já em pleno seculo da Civilização; creanças massacradas em Ekaterinoslaw e Bilostok, em 1905...

Para que proseguir?

Deante de tudo isso e de tudo quanto, nas guerras de conquista, se tem praticado no mundo; deante dos horrores que se testemunharam ha vinte annos atrás, durante a guerra européa; deante das horipilantes invenções chimicas e mecanicas e das composições bacteriologicas com que as potencias do mundo se preparam para uma proxima guerra de vingança e de odio - deante de tudo isso, as famosas "atrocidades" dos bandeirantes como que se ennevôam, se esgarçam, se diluem...

E, entretanto, para certos juizes apressados, os unicos bandidos do mundo continuam sendo os paulistas do bandeirismo...

Do livro

"Bandeiras e Bandeirantes" em preparo.

_____________

(1) - Doc. sobre as Bandeiras Paulistas. - Do "Archivo General de Indias" em Sevilha, Sep. t. V dos "Annaes" do Museu Paulista, pag. 7.

(2) - "Real Cedula al provincial de la Comp. de Jesus del Paraguay. - Op. Cit.

(3) - William Prescott - "Les Incas et la conquête du Perou".

(4) - A. Cochin - "L'Abolition de l'escelavage", pag. 4.

(5) - Rob, and Sam Sons - "The life of W. Wilberforce.

(6) - A. Taunay - "Hist. Geral das Bandeiras Paulistas", vol. 1,pag. 70.

(7) - E. Laboulaye - "Hist. Des Etats Unis", pag. 66.

Folha de São Paulo

PIRATININGA: 1532 - 1560

SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

domingo e segunda-feira, 24 e 25 de janeiro de 1954.
ROMA, janeiro (Via Panair do Brasil) — A fundação, há quatrocentos anos, de um povoado de portugueses apartado doze leguas do litoral atlantico, em sertão quase invio —só acessivel através de asperas veredas, que até ao seculo passado seriam o tormento ou o espantalho dos viajantes— sugere problemas que transcendem o alcance de uma simples historia regional. Em parte alguma das suas conquistas, certamente em lugar algum do Brasil, tinham os lusitanos formado um assento urbano tão longe da costa maritima ou dos rios navegaveis. O principio que, expresso ou não, governa por essa epoca toda a sua expansão ultramarina, manda que as regiões de terra a dentro não se povoem antes de assegurado o povoamento, a defesa e a posse da marinha. O contrario seria desampararem-se, com funesto efeito, as mesmas conquistas, sobretudo se em sitios infestados de inimigos e corsarios.
Precisamente no Brasil, aquele principio, ditado pelas condições especiais de sua metropole européia, que não dispunha de gente numerosa e nem, por isso mesmo, de poderosa milicia, para ensaiar em seu longo imperio uma empresa de molde aparatoso, comparavel à que se vinha realizando nas Indias de Castela, é manifesto já nas cartas de doação das capitanias, onde se estipula que aos donatarios será licito erigirem tantas vilas quantas queiram junto ao mar ou aos rios navegaveis, porem que pela terra a dentro as não poderão fazer, salvo se entre uma e outra corra espaço minimo de seis leguas. A idéia era, claramente, conterem-se os povoadores nas imediações dos portos de embarque e pontos vulneraveis da costa, pois não seriam os colonos em tamanho numero que pudessem ser encaminhados ao sertão sem se despovoarem aqueles sitios. Em resultado de uma tal providencia, o Brasil quinhentista não abriria exceção à regra então dominante no mundo português, que um historiador dos nossos dias definiu sugestivamente dizendo que constava de "uma linha de fortalezas e feitorias de dez mil milhas de comprido" (1)
Mas a exceção existe. Existe, paradoxalmente, no ponto exato onde a barreira das montanhas, que no Brasil acompanham a orla costeira, parece oferecer maior estorvo ao acesso e penetração do territorio. Ainda mais: "O empenho de triunfar sobre esse natural obstaculo e de se instalar serra acima parece perseguir os colonizadores logo depois de familiarizados com o litoral vicentino".
Nada, ou quase nada, sabemos das entradas daqueles portugueses —reinóis ou mazombos, brancos e mestiços da terra— que, antes de chegar a armada de Martim Afonso de Sousa, tinham na ilha de São Vicente um povoado estavel, onde se dedicavam ao trafico de escravos indigenas. Mas não foi certamente por acaso que o capitão português, tendo corrido toda a costa conhecida dos demonios portugueses na America, elegeu aquele ponto para penetrar o sertão e ali levantar pelourinho nos campos de Piratininga. Como, por falta de comodidade, logo se dispersasse essa primeira vila, nem assim esmorece o empenho de povoar o planalto. Passados quase vinte anos, em 1550, o padre jesuita Leonardo Nunes escala, por sua vez, a serra fragosa, encontra ali derramados os cristãos pertencentes ao nucleo disperso, que não tinham tornado ao litoral, e trata de juntá-los novamente. Como não pudessem ter vida civil ou religiosa, por falta de quem curasse disso, fez com que se reunissem todos, desta vez à borda do campo, em torno da pequena igreja que fizera construir. Com razões provaveis supõe Serafim Leite que se tratasse da ermida e povoação, mais tarde vila, de Santo André, o celebre reduto de João Ramalho e de seus filhos mamelucos (2).
O nucleo originario da atual São Paulo é notorio que não foi ali, mas em lugar distante duas leguas para o sertão, à margem do rio que então se chamava Piratininga e, de fato, "onde Martim Afonso de Sousa primeiro povoou" (3). Sabe-se hoje que a fundação dessa nova aldeia, por iniciativa e esforço de Nobrega, ocorreu no dia 29 de agosto de 1553. Quando, a 25 de janeiro do ano seguinte, se inaugurou a casa nova, de taipa, destinada aos irmãos, ainda se conservava no local a velha cabana em que ficara situada a "escola de meninos" do irmão Afonso Rodrigues, diferente da "escola de gramatica", ou de latim, do irmão José de Anchieta. O adjetivo "velhissimo", expressamente aplicado ao edifício ("pauperrimo et vetustissimo... tuguriolum") no texto jesuitico onde vêm consignados estes fatos, não combina facilmente com a suspeita de que datasse apenas do estabelecimento preliminar dos inacianos anterior de cinco meses à fundação oficial e ao batismo do povoado. É perfeitamente natural, por outro lado, a suposição de que subsistisse ainda em 1554, no local, alguma das taperas da vila de Martim Afonso de Sousa. Nesse caso não é audacioso dizer que o povoado de Nobrega se enlaça perfeitamente ao de Martim Afonso e, assim, que as comemorações atuais se hão de referir, não tanto à fundação inicial, como a uma segunda e definitiva fundação. A primeira dataria, em realidade, de 1532.
Nada disso diminui o papel que coube ao Provincial dos jesuitas nas origens da atual São Paulo. Melhor do que outros, melhor do que o primeiro Governador-Geral, soubera ele ver as vantagens, ao menos para o mister da catequese, de uma entrada e fixação nas areas de serra-acima. E ainda que essas vantagens parecessem resumir-se, de inicio, no seu desejo de conservar o gentio da terra livre de contacto assiduo com os colonos, o interesse que depois mostrou na mudança para o novo local dos moradores de Santo André da Borda do Campo —mudança que se fará em 1560 por determinação de Mem de Sá— indica que tal razão não seria preponderante em seu pensamento. E em carta de março de 53, escrita a seu mandado e só agora divulgada por Serafim Leite, diz-se que já era intenção do Provincial ir pela terra dentro e fazer entre os gentios "uma cidade" (4).
Contra esse pensamento, as razões opostas por Tomé de Sóusa, que tratou obstinadamente de embargar o plano de um novo estabelecimento na boca do sertão, obedecem ainda à concepção portuguesa tradicional, que só via em uma tal iniciativa o risco de ficar inteiramente desamparado o litoral maritimo. Esse risco era particularmente sensível no momento em que surgia noticia ou esperança de haver ouro e prata por aquele sertão. À mesma razão alude Nobrega quando tenta discriminar as causas da resistencia do governador. "Porque", observa em carta daquele ano de 53, "fôra abrir as portas a grandes males e a se despovoar esta capitania". Adiante, na mesma carta, justifica-se mais pormenorizadamente aquela noticia, ou esperança, com a alegação de se terem encontrado minas de prata, embora, por falta de quem as fundisse, não se soubesse ao certo o que fosse, "as quais minas", diz-se textualmente, "acharam e descobriram os castelhanos do Paraguai, que estarão daqui desta Capitania (de São Vicente) 100 leguas e está averiguado estarem na Conquista de El Rei de Portugal".
É de todo interesse aproximar-se a essa informação o constante de um documento aparentemente ainda inedito existente no "Archivo General de Indias de Sevilha", onde o espião castelhano Martin de Orue relata os resultados da missão secreta que lhe fora confiada em cedula de sua majestade Catolica, de obter pessoalmente, com a melhor diligencia, em Lisboa, varias informações relativas à expedição de Luís de Melo. Nesse papel, a que tive oportunidade de aludir em outra ocasião (5), declara Orue que, no mês de setembro de 1553, "veio um homem da mesma capitania de São Vicente e vizinho dela, chamado Adão Gonçalves, por parte do capitão daquela terra, o qual trouxe certos metais que houvera da gente do Rio (da Prata), que lhe haviam dado os espanhóis que tinham pousado em sua casa e o que lhes tomou o capitão da terra e parte desses metais diz que eram da Assunção e parte do Piquiri". Acrescenta que, chegando a Lisboa, Gonçalves dera parte do caso a Martins Afonso de Sousa e, feitos dos metais certos ensaios, acharam que era prata e de boa qualidade (6).
A noticia logo se divulgaria em Lisboa e os mesmos Martim Afonso e Adão Gonçalves, juntamente com dois mercadores que tinham seus negocios de açucar em São Vicente, a saber o flamengo João Benyste (isto é Jan Van Hielst, agente dos Schetz de Antuerpia) e o genovês Felipe de Adorno, pleitearam de sua alteza que por nenhum modo permitisse passagem pelo caminho entre São Vicente e Assunção, caminho este que Tomé de Sousa mandaria cegar, por assim convir melhor à real fazenda. Ao mesmo tempo solicitavam lhes fosse autorizado entrar pela terra a dentro em busca de minas e metais, e que onde os achassem e povoassem, pagariam os quintos e direitos pertencentes à Coroa. Outrossim, onde quer que encontrassem os ditos metais, e por espaço de vinte leguas em torno, nenhuma outra pessoa poderia entrar a buscá-los ou descobrí-los.
Segundo o mesmo documento, deferiu El Rei ao pedido, dando aos requerentes o alvará necessario. E seu fim —comenta Martin de Orue— "era ir às minas do Piquiri, porque dizem que aquela terra e ainda a Assunção entram na demarcação do rei de Portugal". Com esse despacho, já em março do ano seguinte saiam de Lisboa, com destino a São Vicente, os ditos Gonçalves e Adorno, decididos a pôr o plano em execução.
Seja qual for a parte de fantasia que possa entrar na relação de Ourue, entregue ao "Conselho de Sua Majestade o Imperador em Valadolid" a 5 de setembro de 1554, suas informações completam e ampliam em partes o que sabemos através das palavras de Nobrega e de Tomé de Sousa. A noticia da existencia de prata no Piquiri resultaria sem fundamento após exames mais acurados do que os que se teriam ensaiado em 1553 no metal ali encontrado. E quando Felipe de Adorno e Adão Gonçalves partiram de Lisboa, em março de 1554 já estava fundada, e com seu nome definitivo, a povoação nova do campo de Piratininga.
Os pretensos achados de minas só indiretamente poderiam ter influido no bom exito do estabelecimento. E no entanto é de todo provavel que de algum modo estimulassem a penetração do territorio. É de crer que a mesma causa tivesse agido vinte e dois anos antes sobre o animo de Martim Afonso quando decidira criar um vila no planalto: por isso ficou dito acima que não seria casual sua decisão de escolher este e não outro ponto dos dominios portugueses para fundar um primeiro nucleo fixo de moradores fora da orla maritima. E tambem não terá sido por acaso —acrescente-se— que, tendo percorrido toda a costa brasileira, foi em São Vicente que obteve seu quinhão ao instituir-se o regime das capitanias.
Em realidade, das terras que quase certamente cabiam na demarcação lusitana da America, era esta, geograficamente, a mais chegada às regiões platinas, já celebres pelas riquezas fantasticas que lhe atribuiam os primeiros navegantes. Já ao sul de Cananéia principiava a area que esses marujos tinham batizado com o nome de "costa do ouro e da prata". Dali os homens da armada de d. Nuno Manuel tinham levado, a partir de 1514, noticias da existencia de um misterioso povo serrano que trazia "ouro batido à maneira de arnez do peito". Ali, segundo se dizia, fora colhido o fabuloso machado de prata que tanto trabalho deveria dar às imaginações quinhentistas. Por ali, conforme tinham apurado marujos castelhanos e lusitanos entre gente da beira-mar, ganhava-se facil acesso ao país do lendario Rei Branco. Do Porto dos Patos, em Santa Catarina, saira o português Aleixo Garcia, um dos naufragos da expedição de Solis para a magnifica jornada aos contrafortes andinos, de onde pudera recolher grande copia de metal precioso antes de ser sacrificado, no caminho de volta, pelos indios carijós. Dessa expedição provinham as peças de ouro que outro componente da armada de Solis, Melchior Ramirez, exibira a Caboto em Santa Catarina. Um companheiro de Ramirez, Henrique de Montes, tambem conservava, consigo, grande quantidade de ouro.
E segundo depoimento de uma testemunha, dizia este à gente da expedição que "nunca ombres fueron tan bien aventurados como los de la dicha armada, que avia tanta plata y oro en el Rio de Solis, que todos serian ricos..." (7). Desse mesmo Henrique de Montes sabe-se que Martim Afonso o levaria consigo como lingua e pratico da terra e não será de admirar se, conhecedor da aventura de Garcia, foi um dos animadores da entrada que o futuro donatario mandou sair de Cananéia rumo ao sertão longinquo, sob o comando de Pero Lobo. Em reconhecimento pelos seus prestimos, apesar do malogro da jornada, foi ele recompensado com uma extensa sesmaria, a mesma que, por sua morte, vitima dos indios, seria dada a um criado do donatario, Brás Cubas.
Se Martim Afonso fixou sua escolha, para a primeira povoação sertaneja, no interior das terras de São Vicente, não no da Cananéia ou de Santa Catarina, a razão estaria em que a adjudicação destas terras à Coroa lusitana tinha menos probabilidades de ser contestada por parte dos castelhanos, inclinados naturalmente a ver ampliadas, tanto quanto possivel as areas de sua demarcação. Os portugueses, por sua vez, pagavam em moeda identica, e vimos como bem mais tarde ainda pretendiam negar os direitos de seus vizinhos sobre Assunção. Contudo uma prudente cautela aconselhava Martim Afonso a não trocar o certo pelo duvidoso ou discutivel, sob pena de deitar a perder todo o seu esforço. Se não faltava entre castelhanos quem reivindicasse para sua coroa a propria São Vicente, tais pretensões eram mais indecisas: prova estava no fato de já existir de longa data no litoral vicentino um povoado de portugueses, e portugueses que mantinham relações amistosas com o gentio de serra acima. Tudo isso era de perfeito conhecimento dos marinheiros espanhóis que frequentavam tais paragens e traficavam com os moradores ou se utilizavam de seus serviços. A simples presença de um tal nucleo onde se incluiam, sem duvida, homens longamente habituados à terra e conhecedores de seus segredos, não era menos, para Martim Afonso, um motivo de boa esperança. Entre esses homens poderia ter colhido o capitão informes sobre a possibilidade de comunicações por terra firme com o Peru ou a Nova Granada. De tal possibilidade há noticia posterior nos curiosos "apontamentos oferecidos a d. João III por certo Diogo Nunes acerca das viagens que realizou em terras peruanas, onde participou da expedição de Mercadillo ao país dos Omagua.
Nesse texto, que Varnhagen encontrou na Torre de Tombo e foi o primeiro a divulgar, diz-se como do Peru se poderia chegar ao Brasil pelo Amazonas, e acrescenta-se: "Tambem poderei ir a São Vicente atravessando pelas cabeçadas do Brasil..." O proprio Varnhagen tentou indentificar o redator do papel com certo Diogo Nuñez de Quesada que em 1544 andou em Lisboa de volta do Peru. Capistrano de Abreu mostra, no entanto, em nota à História Geral do Brasil, a improbabilidade de uma tal identificação. E, por sua vez, associa Diogo Nunes ao mameluco levado do Brasil por Tomé de Sousa, mencionado em uma carta que o embaixador Luís Sarmiento de Mendoza escreveu de Lisboa no ano de 1553. Esse mameluco, filho de um português, tambem fora do Peru ao Brasil levando noticias de ouro e prata. Como argumento em favor de seu alvitre, observava Capistrano de Abreu que "é mais facil existir no mesmo tempo, no mesmo lugar, com os mesmos planos, um só homem do que dois". E ainda acrescenta: "Se Diogo Nunes descendia de pai português e mãe india, é provavel que fosse natural da capitania de São Vicente".
Não obstante tamanhas probabilidades, as conjeturas do grande historiador são prejudicadas pelo seguinte trecho que se lê na relação acima citada de Martin de Orue: "Del peru vyno por el año pasado un pasajero natural português que se dize domyngo nunez natural de moron ques Junto ala Raya de Castilla el qual trajo de veynte a treynta myll ducados este andando persuadiendo al Rey por una conquysta por el (Brasil) para por ally entrar a las espaldas de cuzco". Essa passagem deixa poucas duvidas sobre o assunto. A dificuldade principal para a identificação entre o Nunez natural de Mourão e o dos "Apontamentos", ou seja a diferença nos prenomes, torna-se de pouca monta quando ponderamos que "Domingo" e Diego" são palavras que se podem eventualmente confundir e que, abreviadas, segundo o uso generalizado na epoca, não apresentam diferença alguma.
É certo que as comunicações diretas entre São Vicente e o Paraguai, caminho do Peru, não teriam sido utilizados entre europeus, muito antes da fundação de São Paulo. Do contrario explica-se mal a informação escrita depois de 1554 por d. Mencia Calderon, viuva de Juan de Sanabria, e publicada pelo historiador chileno Morla Vicuña, de que se podia ir a Assunção, de São Vicente "por cierto camiño nuevo que se habia descubierto". Justamente por esse caminho tinham querido alcançar o Paraguai alguns dos naufragos da armada de Sanabria. Nos dois anos anteriores tinha sido ele trilhado por numerosos castelhanos e portugueses que, segundo parece, iniciaram atraves dele um rendoso comercio. Para os castelhanos especialmente, era de grande proveito, depois do abandono da primeira Buenos Aires, por fornecer ocasião de negocios lucrativos com os moradores. Tanto que Tomé de Sousa, em carta de junho de 1553, observava como, em resultado das comunicações frequentes entre as duas cidades, a alfandega de São Vicente rendera, no ano anterior, cem cruzados de coisas que traziam a vender os castelhanos. Já me ocorreu, em outro escrito, apontar alguns nomes de viajantes que nos são conhecidos através de documentos da epoca. Pode-se dizer que essas comunicações constituem, propriamente, uma pré-historia das bandeiras paulistas, ainda que fossem feitas nos dois sentidos e mais ativamente, talvez, por parte dos castelhanos do que dos lusitanos. Contudo, inquieto com as consequencias possivelmente funestas que podiam resultar de tais contatos, principalmente depois das noticias das supostas minas de prata do Piquiri e do Paraguai, o primeiro governador geral ordenou que cessasse de todo o transito. E a partir de então, apesar da viagem clandestina, pelo Tietê, de João de Salazar e seus companheiros —entre eles os dois filhos de Luís de Gois— e, mais tarde, das lutas de Jeronimo Leitão contra os carijós do sul, cessam quase de todo, por longo tempo, os contatos por terra firme com o sul. A propria atração do metal precioso que por essa epoca seria menos forte entre os moradores da capitania do que a caça ao gentio da terra, deveria incliná-los para outras direções. Era esse o resultado das pesquisas de Luís Martins e Brás Cubas como o seriam tambem os dois achados dos dois Sardinhas, pai e filho.
Segundo todas as probabilidades, a um parente do primeiro donatario e do primeiro governador-geral, a d. Francisco de Sousa, se deverá, já em principios do seculo seguinte, a intensificação das entradas em outra direção, que já não será a do Paraguai e do Prata. A bandeira de André Leão, que data de 1601, dirigiu-se para a região do rio São Francisco. E o mesmo rumo tomaria a de Nicolau Barreto, segundo os estudos de Orville Derby, que já hoje nos parecem novamente os mais convincentes, não obstante as conclusões diferentes de historiadores recentes, que resultariam no entanto, de um equivoco na leitura da ata da Camara de São Paulo onde se esclarecem certos pormenores da expedição. E contudo não se perde a lembrança do caminho do sul, revivida, ao contrario, depois que, em 1505, quatro soldados vindos de Vila Rica, provincia do Paraguai, chegam inesperadamente à terra paulista.
Não é improvavel que o projeto inicial de d. Francisco visasse, a partir de São Paulo, localizar mais facilmente as mesmas minas que expedições anteriores tinham procurado a partir das capitanias do centro. É interessante notar-se que, justamente durante seu governo, segundo se apura de documentos existentes no Arquivo Mediceo, de Florença, e ainda mal conhecidos, o então grão-duque de Toscana, Fernando I, pretendeu seriamente criar um estabelecimento no litoral do Espirito Santo, o outro caminho natural para as minas do sertão remoto. E é significativo o interesse que o mesmo grão-duque, mostrou pelas coisas do Brasil, na correspondencia mantida com Baccio de Filicaja, seu sudito, e companheiro de d. Francisco, que o levara a São Paulo como engenheiro das minas. Quando e se forem encontradas a descrição e a relação das suas viagens no Brasil que Baccio escreveu para o grão-duque, é provavel que venham à luz muitos fatos ainda desconhecidos ou mal explicados acerca desse periodo (8). É inegavel, contudo, que a partir de d. Francisco de Sousa, São Paulo estava maduro para a vocação pioneira dos seus moradores. Vocação que germinara contudo desde 1532, com a chegada de Martim Afonso, firmara-se em 1554, quando Manuel da Nobrega, contrariando as opiniões mais tradicionalistas, fundou a Casa de São Paulo —em sitio onde os indios pudessem ter melhor sustento— e se consolida, definitivamente, a partir de 1560, quando, por ordem de Mem de Sá, são mudados para o campo os moradores da vila de Santo André.




Notas

1. - R.H. Tawney, "Religion and the Rise of Capitalism", Londres, 1936, pg. 72.
2. - Serafim Leite S.J., "Nobrega e a Fundação de São Paulo" Lisboa, 1953, pg. 30.
3. - "Cartas de Nobrega" (Rio de Janeiro, 1931), pg. 145.
4. - Serafim Leite, S.J., op. cit., pg. 18.
5. - "Expansão Paulista em fins do seculo XVI e principio do seculo XVII". Publicação do Instituto de Administração da Faculdade de Ciencias Economicas e Administrativas da Universidade de São Paulo (São Paulo, 1948), pg. 11.
6. - MS. do Archivo General de Indias: 25 - 1/14 R.o 22.
7. - Cf R. Diputazione Veneta di Storia Patria, Di Giovanni e Sebastiano Caboto. Raccolte e Documentate da F. Tarducci (Veneza, 1892), pg. 196, ss.
8. - Carta de Baccio ao Cav. Belisario Vinda, secretario de S. A. Serenissima, de Lisboa, 5 de janeiro de 1609. MS do Archivo di Stato di Firenze - Arch. Mediceo - f. 945, c. 60.

Folha de São Paulo

CLIMA E RAÇA

Os Retirantes - Portinari

Sérgio Buarque de Holanda

terça-feira, 29 de agosto de 1950
Não creio que entre as menores atribuições de um comentador de livros e de idéias figure a de mostrar o interesse amplo de certas obras endereçadas, na aparencia, a reduzidos circulos de especialistas e a estes somente, mas que, não obstante, parecem dignas de maior repercussão. De um livro, por exemplo, cuja publicação recente há de permanecer entre as iniciativas benemeritas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica, e que se encontra, por muitos aspectos, nesse caso, tenho a convicção de que constitui das mais notaveis contribuições que se poderiam desejar para o progresso dos estudos brasileiros. E tambem a de que, não fosse seu titulo, talvez pouco sugestivo para muita gente e capaz de iludir sobre o alcance do conteudo, já teria recebido a atenção que sem duvida merece.
A verdade é que o estudo de Ernst Wagemann sobre a "Colonização Alemã no Espirito Santo" (trad. De Reginaldo Santana. Ed. do Boletim do I. B. G. E., Rio de Janeiro, 1949), só agora posto ao alcance do grande publico brasileiro, embora publicado, primeiramente, há trinta e cinco anos, quando seu autor ainda não alcançara a projeção intelectual que viria a obter depois, está longe de dirigir-se apenas àqueles especialistas ou tecnicos.
Para iluminar toda uma serie de problemas que, dada sua reiteração, às vezes obsessiva, nos quais variados escritos de nossos sociologos, historiadores, geografos, antropologos, pode-se dizer que não pertencem, entre nós, a nenhuma dessas especialidades tomadas de per si, mas se converteram em patrimonio comum a todas elas e, de certo modo, a todos os estudos que vizem à melhor inteligencia dos nossos rumos e destinos nacionais, as observações de Wagemann proporcionam elementos que já agora não poderão ser facilmente desdenhados.
Num país que, como o nosso, se situa, na sua maior extensão em zonas calidas, que futuro está reservado à civilização ocidental, de cuja herança nos orgulhamos e cujos valores desejamos preservar? E ainda: em que grau os povos de raça branca, portadores tradicionais daquela civilização, seriam compativeis com nosso meio fisico e com as condições de vida que esse meio favorece? Até onde, finalmente, as formas de vida importadas de terras frias ou temperadas lograrão subsistir entre nós sem mudança ou, como querem outros, sem degenerescencia?
As observações feitas por Ernst Wagemann referem-se, é certo, a uma area extremamente limitada de nosso territorio e às perspectivas de acomodação a essa area de um unico povo europeu. Mas quando se considere que precisamente os representantes desse povo passam, não raro, por ser dos mais teimosamente aferrados à lembrança de sua terra de origem, ao longo de gerações sucessivas, e dos menos compativeis - como coletividade e raça, se não como individuos - a climas estranhos; quando se sabe, por outro lado, que o Espirito Santo, assim como a parte mais consideravel do territorio brasileiro se insere geograficamente na zona tropical, então certas observações que à primeira vista parecem padecer de uma limitação exclusivista, tomam carater exemplar e tipico. Por esse aspecto, o caso das populações européia, sobretudo germanica, instaladas há mais de um seculo nas terras espiritosantenses, pode ultrapassar em interesse, dado o proprio contraste das situações que naturalmente encerra, o das colonias que se localizam em nossos Estados sulinos, onde o imigrante veio encontrar um clima subtropical ou temperado, que não desafia violentamente sua capacidade de adaptação.
Entretanto, ao passo que o caso do sul, especialmente o do Rio Grande do Sul, já suscitou uma literatura numerosa e respeitavel, que envolve desde os estudos historicos, como os de um Aurelio Porto, até às investigações sociologicas mais modernas e complexas, como as do sr. Emilio Williams - para só me referir à bibliografia brasileira e em lingua portuguesa - o do Espirito Santo permanece virtualmente ignorado e esquecido. Nem o fato de já ter inspirado uma das obras classicas de nossa prosa de ficção - o "Canaan" de Graça Aranha - serviu até aqui de poderoso estimulo contra esse desconhecimento.
Mas não foi apenas entre brasileiros que o caso daquelas dezenas de milhares de colonos germanicos insulados há algumas gerações entre nossas montanhas e florestas, nas bordas da zona torrida, e que às vesperas da guerra de 14 equivaliam numericamente, segundo Wagemann, aos de todas as então possessões alemãs reunidas, pôde provocar grande curiosidade cientifica. É significativo, por exemplo, que em inquerito tão pormenorizado sobre o colono europeu nos tropicos, como o que realizou Grenfell Price, e que a "American Geographical Society" de Nova York fez imprimir em 1939, não se faz sequer menção da existencia dessa verdadeira ilha germanica situada em nossas latitudes tropicais, embora todo um extenso capitulo seja dedicado aos colonos brancos na America do Sul (e na Costa Rica). A quem pretenda conhecer esse problema e não possa investigá-lo "in loco", só cabe o recurso de estudá-lo em obras de alguns especialistas ou viajantes alemães. Nesta de Wagemann, em particular, que acaba de ser traduzida. Ou na de G. Giemsa e E. G. Nauck, sobre os resultados de uma expedição efetuada em 1935 por incumbencia do Instituto Tropical de Hamburgo e cuja tradução nos é prometida. Ou nas extensas e valiosas observações de Otto Maull em seu livro monumental sobre o Brasil: "Vom Itatiays zum Paraguay". Já não me refiro a relator de Lamberg, que tendo percorrido terras capichabas na segunda metade do seculo passado, puderam colher preciosos dados sobre aquelas colonias durante a fase inicial de seu desenvolvimento.
Em muitos casos, as observações feitas por esses pesquisadores obedecem à inspiração de doutrinas raciais e mesmo de ideologias nascionalistas fundadas em tais doutrinas, o que só por curiosa extravagancia puderam oferecer atrativos a certos estudiosos brasileiros. Quando um Nauck, por exemplo, chega a invocar, em 1938, os fundamentos doutrinarios do nacional-socialismo em favor da preservação em sua integridade da pureza racial e cultural dos 40.000 alemães ou teuto-brasileiros estabelecidos entre as florestas capichabas, não vejo como seu ponto de vista tenha precisamente por onde nos encantar. Mas tambem não creio que, tomadas em bloco, as conclusões obtidas nesse caso, e em outros, possam ser fortemente prejudicadas pelo seu colorido racista. Em certo sentido acredito mesmo que a presença de atitudes semelhantes deva ser, ao contrario, um incentivo para que procuremos conhecê-las.
No caso do livro de Wagemann, publicado, aliás, muito antes do surto hutlerista na Alemanha, parece-me que o ponto fraco da recente versão portuguesa, por outros aspectos de tamanha fidelidade, está no empenho do tradutor em limar certas arestas e velar as asperezas de um texto capaz em mais de um caso, de ferir suscetibilidades do leitor brasileiro. Quando, por exemplo, no original, se diz das raparigas de ascendencia teutonica (à pagina 114), que nada adquiririam da graça languida e da elegancia das luso-brasileiras, o que atribui à circunstancia de não se entregarem, como estas, a um constante "farniente" (Nichstum), a tradução suprime o texto talvez desabonador para as brasileiras. Pouco adiante, onde o alemão declara que no clima das baixadas, alguns colonos tendem a degenerar e "abrasileirar-se" (verbrasilianen) o texto do sr. Santana, diz "acaboclar-se". E onde Wagemann, à pagina 141 do original, escreve que, em sintese, "o camponio alemão das matas do Espirito Santo surge aos nossos olhos como uma imagem de robustez, em meio de uma gente depauperada e degenerada" (inmitten eines schwachlichen und entarteten Geschlechts), o brasileiro deixa cair seu ponto final logo depois da palavra "robustez", omitindo cuidadosamente o resto da frase.
Essas pequenas e injustificaveis traições de um tradutor demasiado prudente, não chegam todavia a diminuir a importancia de seu esforço e nem a prejudicar o significado das observações que se compendiam na obra de Wagemann. Em proximo artigo tentarei deter-me em algumas dessas observações.

Folha de São Paulo

FRANZ KAFKA - UM ARTISTA DA FOME


10 de novembro de 1984

FRANZ KAFKA


Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome; diminuiu bastante. Se antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros. Antigamente toda a cidade se ocupava com os artistas da fome: a participação aumentava a cada dia de jejum; todo mundo queria ver o jejuador no mínimo uma vez por dia; nos últimos, havia espectadores que ficavam sentados dias inteiros diante da pequena jaula; também à noite se faziam visitas cujo efeito era intensificado pela luz de tochas; nos dias de bom tempo a jaula era levada ao ar livre e o artista mostrado especialmente às crianças. Embora para os adultos ele não passasse de um divertimento, no qual tomavam parte por causa da moda, as crianças olhavam com assombro, de boca aberta, uma segurando a mão da outra por insegurança, aquele homem pálido, de malha escura, as costelas extremamente salientes, que desdenhava até uma cadeira para ficar sentado sobre a palha espalhada no chão: ora ele acenava polidamente com a cabeça, ora respondia com um sorriso forçado às perguntas, esticando o braço pelas grades para que apalpassem sua magreza e mergulhando outra vez dentro de si mesmo, sem se importar com ninguém, nem mesmo com a batida do relógio - tão importante para ele a única peça que decorava a jaula - mas fitando o vazio com os olhos semicerrados e bebericando de vez em quando água de um copo minúsculo para umedecer os lábios.

Além dos espectadores que se revesavam, havia ali também vigilantes escolhidos pelo público - em geral, curiosamente, açougueiros, sempre três ao mesmo tempo, e que assumiam a tarefa de observar dia e noite o artista da fome para que ele não se alimentasse por algum método oculto. Mas isso era apenas uma formalidade introduzida para tranquilizar as massas, pois os iniciados sabiam muito bem que o jejuador, durante o período de fome, nunca, em circunstância alguma, mesmo sob coação, comeria alguma coisa, por mínima que fosse: a honra da sua arte o proibia. Sem dúvida nem todo vigilante podia entender isso; havia muitas vezes grupos de vigia que à noite exerciam com muita displicência o seu papel, reunindo-se de propósito num canto distante, onde mergulhavam no jogo de cartas com a intenção manifesta de conceder ao artista da fome um descanso durante o qual, no seu modo de ver, ele podia lançar mão de provisões secretas. Nada atormentava tanto o jejuador quanto esses vigilantes: eles turvavam seu estado de ânimo e tornavam o jejum terrivelmente difícil; às vezes, superando a fraqueza, ele cantava, enquanto tinha forças, no período de vigia, para mostrar às pessoas que era injusto suspeitarem dele. Mas isso pouco ajudava, porque então eles se admiravam da sua destreza para comer até cantando. Para ele eram muito preferíveis os vigilantes que se sentavam bem junto às grades, não se contentavam com a fosca iluminação noturna da sala e faziam incidir no jejuador os raios de lanternas elétricas de bolso que o empresário punha à sua disposição. À luz crua não o incomodava de modo algum; embora não pudesse dormir, sempre cochilava um pouco com qualquer luminosidade e a qualquer hora, mesmo na sala superlotada e barulhenta. Com qualquer desses vigilantes estava sempre pronto a passar a noite toda em claro, a trocar gracejos com eles, contar-lhes histórias da sua vida errante e depois escutar as deles - tudo para mantê-los despertos, para poder provar-lhes que não tinha nada comestível na jaula e que jejuava como nenhum deles seria capaz. Mas era de manhã que ficava mais feliz do que nunca, pois então, por sua conta, era servido aos vigilantes um café da manhã suculento, ao qual eles se atiravam com o apetite de homens sadios depois de uma noite de trabalhosa vigia. Na realidade não faltavam pessoas que queriam ver nessa refeição uma influência indevida sobre os vigilantes; mas isso era ir longe demais e quando perguntavam a elas se porventura queriam assumir a vigilância noturna em nome da causa e sem o café da manhã, elas torciam a cara e conservavam suas suspeitas.

Isso no entanto já fazia parte das suspeitas inerentes à profissão do artista da fome. Ninguém estava em condições de passar todos os dias e noites ininterruptamente a seu lado como vigilante, portanto ninguém era capaz de saber, por observação pessoal, se o jejum fora realmente mantido sem falha e interrupção; só o artista podia saber isso e ser o espectador totalmente satisfeito do próprio jejum. Entretanto ele nunca estava satisfeito por outro motivo: talvez não fosse em virtude do jejum que estivesse tão magro - a tal ponto que muitos, lamentando-se por causa disso, tinham que se afastar das apresentações porque não conseguiam suportar aquela visão - mas sim em virtude da insatisfação consigo mesmo. É que só ele sabia - só ele e nenhum outro iniciado - como era fácil jejuar. Era a coisa mais fácil do mundo. Ele não o ocultava, mas não acreditavam nele; no melhor dos casos consideravam-no modesto, no geral porém um faroleiro ou simples farsante, para quem o jejum era fácil porque ele conhecia a maneira de torná-lo fácil e ainda por cima tinha o topete de o admitir só pela metade. Ele era obrigado admitir tudo isso, mas no correr dos anos se acostumou; no entanto a insatisfação o roía por dentro e nem uma única vez, depois de qualquer período de fome - tinham de conceder-lhe esse crédito - deixara espontaneamente a jaula. O empresário havia fixado em quarenta dias o prazo máximo de jejum, acima disso ele nunca deixava jejuar nem nas grandes cidades do mundo - e isso por um bom motivo. A experiência mostrava que durante quarenta dias era possível espicaçar o interesse ativado gradativamente, mas depois disso o público falhava e se podia verificar uma redução substancial da assistência; naturalmente existiam neste ponto pequenas diferenças segundo as cidades e os países, mas como regra quarenta dias eram o período máximo. Sendo assim, no quadragésimo dia eram abertas as portas da jaula coroada de flores, uma platéia entusiasmada enchia o anfiteatro, uma banda militar tocava, dois médicos entravam na jaula para proceder às medições necessárias no artista da fome, os resultados eram anunciados à sala por um megafone e finalmente duas moças, felizes por terem sido as sorteadas, ajudavam o jejuador a sair da jaula, descendo com ele alguns degraus de escada até uma mesinha onde estava servida uma refeição de doente cuidadosamente selecionada. E neste momento o artista da fome sempre resistia. Na verdade colocava voluntariamente os braços ossudos nas mãos das jovens que se curvavam sobre ele, mas não queria se levantar. Por que parar justamente agora, depois de quarenta dias? Ele poderia aguentar ainda muito tempo, um tempo ilimitado; por que suspender agora, quando estava no melhor, isto é, ainda não estava no melhor do jejum? Por que queriam privá-lo da glória de continuar sem comer, de se tornar não só o maior jejuador de todos os tempos - coisa que provavelmente já era - e também se superar a si mesmo até o inconcebível, uma vez que não sentia limites para a sua capacidade de passar fome? Por que essa multidão, que fingia admirá-lo tanto, tinha tão pouca paciência com ele? Se ele aguentava continuar jejuando, porque ela não suportava isso? Além do mais ele estava cansado, bem assentado sobre a palha e devia endireitar o corpo todo e caminhar até a comida: só de pensar nela sentia náuseas, cuja exteriorização porém ele reprimia a custo só em consideração às damas. E erguia a vista para os olhos das moças na aparência tão amáveis, mas na verdade tão cruéis e balançava a cabeça excessivamente pesada sobre o pescoço fraco. Mas então acontecia o mesmo de sempre. O empresário chegava e sem dizer uma palavra - a música tornava qualquer discurso impossível - levantava os braços sobre o artista da fome, como se convidasse o céu à contemplar sua obra sobre a palha, este mártir digno de compaixão - que o artista da fome de fato era, mas num sentido muito diferente; agarrava-o pela cintura delgada, com um cuidado exagerado, como se quisesse fazer acreditar que tinha de lidar aqui com uma coisa muito quebradiça e - não sem sacudi-lo um pouco às escondidas, de tal forma que o artista da fome balançava descontrolado de um lado para o outro com as pernas e o tronco - entregava-o às jovens que nesse ínterim tinham ficado mortalmente pálidas. Aí então o jejuador tolerava tudo: a cabeça caía sobre o peito, como se tivesse rolado para lá e ficasse ali sem explicação; o corpo estava esvaziado; as pernas, para se sustentarem, apertavam-se uma contra a outra na altura dos joelhos, raspando o chão como se ele não fosse o verdadeiro - estes elas ainda procuravam; e o peso inteiro do corpo, embora bem pequeno, recaía sobre uma das damas que, buscando ajuda, com o fôlego entrecortado - não tinha imaginado desse jeito a missão honorífica - esticava o mais que podia o pescoço para livrar pelo menos o rosto do contato com o artista da fome. Mas depois, como não o conseguisse e a companheira mais feliz que ela, não ia em seu socorro - contentando-se em transportar, trêmula, a mão do jejuador, esse pequeno feixe de ossos, sob o riso delicado da sala - rompia no choro e precisa ser substituída por um criado há muito tempo preparado para isso. Em seguida vinha a refeição, na qual o empresário fazia o artista da fome engolir alguma coisa durante um semi-sonho de desmaio em meio a uma conversa divertida que devia desviar a atenção do estado do artista; depois era erguido um brinde ao público, supostamente soprado pelo jejuador ao empresário; a orquestra reforçava tudo com uma grande fanfarra, as pessoas se dispersavam e ninguém tinha o direito de ficar insatisfeito com o acontecimento - ninguém a não ser o artista da fome, só ele, sempre.

Assim viveu muitos anos, com pequenas pausas regulares de descanso, num esplendor aparente, respeitado pelo mundo mas, apesar disso, a maior parte do tempo num estado de humor melancólico, que se tornava cada vez mais sombrio porque ninguém conseguia levá-lo a sério. Aliás, com o que poderia ser consolado? O que lhe restava desejar? E se alguma vez uma pessoa bem-intencionista se compadecia dele e queria lhe explicar que sua tristeza provavelmente vinha da fome, podia acontecer - em especial no estágio avançado do jejum - que respondesse com um acesso de fúria e começasse a sacudir as grades como um animal, para susto de todos. Mas para esses estados o empresário dispunha de um castigo que gostava de aplicar. Desculpava o artista perante o público reunido, admitia que só a irritabilidade provocada pelo jejum - facilmente compreensível por pessoas bem alimentadas - tornava perdoável o comportamento do jejuador; nesse contexto acabava se referindo também à afirmação do artista da fome - igualmente merecedora de um esclarecimento - de que poderia jejuar muito mais ainda do que jejuava; elogiava a elevada ambição, a boa vontade, a grande negação de si mesmo que sem dúvida estavam contidas nessa afirmação, mas depois procurava refutá-la, pura e simplesmente, mostrando fotografias - que eram vendidas naquela hora - pois na imagem se via o artista da fome, no quadragésimo dia de jejum, quase extinto de inanição. Essa distorção da verdade, de resto bem conhecida, mas sempre enervante, era demais para o jejuador. O que era consequência do encerramento prematuro do jejum se apresentava aqui como sua causa! Era impossível lutar contra essa incompreensão, contra esse mundo de insensatez. Embora sempre tivesse ouvido de boa fé o empresário, quando as fotografias apareciam ele largava das grades da janela, às quais estivera ansiosamente grudado, e afundava outra vez na palha, soluçando; e então o público, acalmado, podia aproximar-se e examiná-lo.

Quando as testemunhas se recordavam dessas cenas, alguns anos mais tarde, muitas vezes não compreendiam a si mesmas. Pois nesse meio tempo interveio a virada já referida; isso aconteceu quase de repente; devia haver motivos mais profundos, mas quem iria se preocupar em descobri-los? Seja como for, o mimado artista da fome se viu um dia abandonado pela multidão ávida de diversão que preferia afluir a outros espetáculos. O empresário percorreu novamente com ele meia Europa para ver se aqui e ali não se reencontrava o antigo interesse; tudo inútil; como se fosse por um acordo secreto, em toda parte havia se estabelecido uma repulsa contra o espetáculo da fome. É evidente que na realidade isso não poderia ter sucedido de repente e recordava-se agora, com atraso, de muitos presságios que na época da embriaguez do triunfo não tinham sido suficientemente respeitados, nem suficientemente reprimidos; mas agora já era tarde demais para fazer alguma coisa. Certamente os bons tempos do jejum um dia também voltariam, mas para os que viviam naquela época isso não era um consolo. O que o artista da fome podia então fazer? Quem tinha sido aclamado por milhares de pessoas não podia exibir-se em barracas nas pequenas feiras, e para adotar outra profissão o artista estava não só muito velho, mas sobretudo entregue com demasiado fanatismo ao jejum. Sendo assim, demitiu o empresário, companheiro de uma carreira incomparável, e se empregou num grande circo; para poupar a própria suscetibilidade, nem olhou as condições do contrato.

Um grande circo, com seus inúmero homens, animais e aparelhos que sem cessar se recompõem e se completam, pode utilizar qualquer um a qualquer hora, mesmo um artista da fome - naturalmente se as pretensões dele forem modestas; além disso, neste caso particular não era apenas o próprio jejuador a ser engajado, mas também o seu nome antigo e famoso; de fato não se podia dizer, dada a peculiaridade da sua arte - que com o avanço da sua idade não diminuía - que o veterano artista, passado o auge da sua capacidade, queria se refugiar num posto tranquilo do circo; pelo contrário, o artista da fome garantia que jejuava tão bem quanto antes, o que era perfeitamente digno de fé; afirmavam até que, se o deixassem fazer sua vontade - e isso lhe prometeram logo - desta vez ia encher o mundo de justificado espanto; uma declaração, contudo, que só provocou um sorriso nos especialistas, cientes do espírito da época que, no seu zelo, o artista da fome facilmente esquecia.

Mas no fundo o jejuador também não deixou de perceber as condições reais e considerou natural que ele não fosse colocado com sua jaula como número de destaque, no centro do picadeiro, mas sim fora, num lugar aliás bastante acessível, situado perto dos estábulos. Cartazes grandes e coloridos emolduravam a jaula e anunciavam o que podia ser visto nela. Quando o público, nos intervalos do espetáculo, se comprimia junto às estrebarias para visitar os animais, era quase inevitável que passassem diante do artista da fome e parassem um pouco; talvez permanecessem ali por mais tempo se a multidão que vinha atrás, sem entender aquela parada no meio do caminho aos estábulos, não tornasse impossível uma observação mais prolongada e tranquila. Esse também era o motivo pelo qual o jejuador tremia ao pensar naquelas horas de visita, que ele naturalmente desejava como meta na sua vida. Nos primeiros tempos mal podia esperar os intervalos entre as apresentações; encantado, dirigia o olhar para a multidão que se aproximava, até que logo, - nem mesmo o auto-engano mais pertinaz e quase consciente resistia às experiências - se convenceu de que o objetivo daquelas pessoas era sempre, sem exceção, visitar os estábulos. O mais belo continuava sendo essa visão à distância. Pois assim que os visitantes se aproximavam dele, ensurdeciam-no os gritos e xingamentos dos dois partidos que sem cessar se formavam - o daqueles que queriam vê-lo confortavelmente (tornou-se em breve o mais penoso para o artista da fome), não por compreensão, mas por capricho e teimosia; e o daqueles que queriam ir diretamente às estrebarias. Passada a grande turba, chegavam os retardatários, mas mesmo estes, a quem nada mais impedia de ficar ali quanto tempo quisessem, apertavam o passo e iam direto, quase sem olhar para o lado, a fim de chegar em tempo de ver os animais. E não era um acaso muito frequente que um pai de família viesse com seus filhos, apontasse o dedo para o jejuador, explicasse em detalhe do que se tratava, contasse coisas dos anos passados, quando presenciara apresentações semelhantes, mas incomparavelmente mais grandiosas e as crianças, em vista do seu preparo insuficiente na escola e na vida, continuavam sem entender - o que significava para elas passar fome? - mas traíam no brilho dos seus olhos perscrutadores algo dos novos tempos vindouros e mais clementes. Talvez - dizia às vezes o jejuador a si mesmo - tudo melhorasse um pouco, se o local da sua exibição não estivesse tão perto dos estábulos. Então a escolha seria mais fácil para as pessoas, sem falar que as exalações das estrebarias, a inquietação dos animais à noite, o transporte dos pedaços de carne crua para as feras, os rugidos durante a alimentação, o feriam e deprimiam constantemente. Mas ele não ousava comunicar aquilo à direção; pois ainda assim agradecia aos animais a multidão de visitantes, entre os quais se podia encontrar aqui e ali algum destinado a ele. Como saber em que lugar se esconderiam se ele quisesse lembrar aos outros sua existência e com isso - pensando bem - que era apenas um obstáculo no caminho aos estábulos?

De qualquer forma um pequeno obstáculo, um estorvo que se tornava cada vez menor. As pessoas acostumavam-se à estranheza de se querer chamar a atenção para um artista da fome nos tempos atuais e esse hábito lavrava a sentença contra ele. O jejuador podia jejuar tão bem quanto quisesse - e ele o fazia - mas nada mais podia salvá-lo: passavam reto por ele. Tente explicar a alguém a arte do jejum! Não se pode explicá-la para quem não a sente. Os belos cartazes ficaram sujos e ilegíveis, foram arrancados, não ocorreu a ninguém substituí-los; a pequena tabela com os números dos dias de jejum, que nos primeiros tempos era cuidadosamente renovada, continuava a mesma há muito tempo, pois após as primeiras semanas os próprios funcionários não quiseram mais se dar nem a este pequeno trabalho; assim o artista da fome continuou jejuando como um dia sonhara, e isso não apresentava nenhum grande esforço para ele, tal como havia previsto. Mas ninguém contava os dias, ninguém, nem mesmo o jejuador conhecia a extensão do seu desempenho, e seu coração ficou pesado. E quando certa vez, nesse tempo, um ocioso se deteve diante da jaula, escarneceu da velha cifra na tabela e falou de embuste, essa foi, à sua maneira, a mais estúpida mentira que a indiferença e a maldade inata puderam inventar, já que não era o artista da fome quem cometia a fraude - ele trabalhava honestamente - mas sim o mundo que o fraudava dos seus méritos.

Passaram-se ainda muitos dias e até isso chegou ao fim. Certa vez um inspetor notou a jaula e perguntou aos serventes por que deixavam sem aquela peça perfeitamente aproveitável com palha apodrecida dentro; ninguém sabia, até que um deles, com a ajuda da tabuleta, se lembrou do artista da fome. Levantaram a palha com ancinhos e encontraram nela o jejuador.

- Você continua jejuando? - perguntou o inspetor - Afinal quando vai parar?

- Peço desculpas a todos - sussurrou o artista da fome; só o inspetor, que estava com o ouvido colado às grades, o entendia.

- Sem dúvida - disse o inspetor, colocando o dedo na testa, para indicar aos funcionários, com isso, o estado mental do jejuador - Nós o perdoamos.

- Eu sempre quis que vocês admirassem meu jejum - disse o artista da fome.

- Nós admiramos - retrucou o inspetor. - Por que é que não deveríamos admirar?

- Por que eu preciso jejuar, não posso evitá-lo - disse o artista da fome.

- Bem se vê - disse o inspetor. - E por que não pode evitá-lo? - Porque eu - disse o jejuador, levantando um pouco a cabecinha e falando dentro da orelha do inspetor com lábios em ponta, como se fosse um beijo, para que nada se perdesse. - Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.

Estas foram suas últimas palavras, mas nos seu olhos embaciados persistia a convicção firme, embora não mais orgulhosa, de que continuava jejuando.

- Limpem isso aqui! - disse o inspetor, e enterraram o artista da fome junto com a palha.

Mas na jaula puseram uma jovem pantera.Era um alívio sensível até para o sentido mais embotado ver aquela fera dando voltas na jaula tanto tempo vazia. Nada lhe faltava. O alimento de que gostava, os vigilantes traziam sem pensar muito; nem da liberdade ela parecia sentir falta: aquele corpo nobre, provido até estourar de tudo o que era necessário, dava a impressão de carregar consigo a própria liberdade; ela parecia estar escondida em algum lugar das suas mandíbulas. E a alegria de viver brotava da sua garganta com tamanha intensidade que para os espectadores não era fácil suportá-la. Mas eles se dominavam, apinhavam-se em torno da jaula e não queriam de modo algum sair dali.


Tradução de MODESTO CARONE

Arquivos Folha de São Paulo

ENTRE O ROMANCE E O FOLCLORE


FLORESTAN FERNANDES
sexta-feira, 12 de janeiro de 1945
Especial para a "Folha da Manhã"

Pode-se encarar as relações do romance com o folclore sob vários aspectos, desde o mais elementar aproveitamento do material folclórico como um fator de realce na observação direta, até à possibilidade de uma estética que permita um contato e uma comunhão maior entre o público e o povo. Mas, há uma questão que afeta qualquer tentativa, ampla ou restrita, do aproveitamento dêsse material por parte do romancista: sua validade e limites. Sim, porque é preciso considerar que o romancista faz literatura e não folclore e que além disso os folcloristas podem também ter suas idéias sôbre o assunto. A questão coloca-se, pois, em têrmos das relações entre o folclore e a literatura.

Disse que se deve considerar também o ponto de vista particular do folclorista. Deve-se, é claro, porém, mais por uma razão de ordem, que por uma questão de precedência. O folclorista foi dos últimos a tratar dos fatos folclóricos - lendas, tradições, mitos, superstições, crendices, técnicas de cozimento do barro, de modelação, formas de cultivo da terra, estilos típicos de vida etc. - e quando êle surgia no Século XIX tinha diante de si um trabalho de notação tão grande, que poderia iniciar o estudo do folclore indiretamente, nas grandes obras, começando na antiguidade clássica no teatro grego e em Homero, passando por Vergílio e Petrônio, até chegar a Gil Vicente, Cervantes, Mistral... O folclore confundia-se na literatura, embora não houvesse preocupação alguma em se fazer arte popular. É, aliás, uma sobrevivência dessa fase muito extensa a idéia de que o folclore constitui uma parte da literatura.

O aparecimento dos folcloristas modificou um pouco essa visão das coisas. De um lado porque êles distinguiam o folclore - cujo têrmo também criaram - em folclore subjetivo, em que se procura sistematizar e estudar os elementos folclóricos, buscando por aí atingir uma formulação científica e teórica, sob os auspícios do positivismo, e em folclore objetivo, item sob que seriam agrupados todos os elementos folclóricos, tôdas as danças, as cantigas, as superstições, as crendices, os provérbios, aquêles modos de ser e de agir típicos de um povo ou de uma região, o próprio conteúdo do folclore, pois. Já aí ficou feita uma divisão de trabalho. O estudo propriamente dito do material folclórico compete ao folclorista, ou qualquer outro especialista em ciências sociais. O literato, como tal, nada tem que ver com o "folclore subjetivo". E, é óbvio, pouco lhe interessam as questões teóricas e os aspectos técnicos do folclore; quando o romancista, por exemplo, se utiliza de material folclórico, faz notação ou faz estilização. Põe-se em contato direto com o fato folclórico - um personagem mítico, como a Iara ou o Saci - nas esferas do folclore objetivo sem nenhuma outra preocupação.

Os folcloristas do século XIX e alguns dêste século, entretanto, desvendaram um novo modo possível de se encarar as relações entre o folclore e a literatura - ou, mais precisamente, de situar um e outro, partindo do próprio conceito de folclore. O folclore seria a cultura dos meios populares, das camadas baixas da população - nas zonas rurais e urbanas - em poucas palavras: a "cultura dos incultos". Era, pois, o conjunto de conhecimentos, técnicas e modos de ser dos iletrados, transmitido oralmente. Distinguia-se da literatura, cultura dos meios elevados, dos letrados e dos "cultos". A diferença entre a literatura popular e a literatura erudita é apresentada como uma diferença fundamental, de natureza: duas formas culturais antagônicas e, em certo sentido exclusivas. O burguês e o homem do povo - terminologia de Saintyves e de Maunier - seriam a expressão dêsse antagonismo. Aquêle vivendo a idade positiva contiana, pensando racional e logicamente as coisas, capaz também de progresso; enquanto o segundo revelaria uma etapa anterior do desenvolvimento das sociedades ocidentais surgindo como um homem imobilizado pelo passado e sufocado sob o pêso da tradição, pensando as coisas de modo anti-racional e ilógico. A diferença de mentalidades seria irredutível. Contudo, ela não é inata: o homem herda-a socialmente, revelando-a à medida que traduz o seu próprio meio social e cultural, a sua "cultura" - sua literatura e o seu folclore. Mas, essa irredutibilidade, essa diferença de natureza, abre um abismo entre o folclore e a literatura. Por isso diante do artista - romancista ou poeta - que se orientasse por esta concepção, haveria só três caminhos possíveis: aproveitar o folclore como fonte de sugestão. Aí o tema folclórico seria mero ponto de partida, e o que se incorporaria à literatura seria uma estilização do fato folclórico, e não o próprio fato folclórico. A essência, pois, da literatura, conservar-se-ia salva. O romance "Pedro Malasarte" do sr. José Vieira é um exemplo. Ou então o folclore surge como uma fonte de argumentos estranhos, exóticos e fortes - de motivos e temas novos, dando uma côr ao fundo do romance, um ambiente de vida desconhecido. O trabalho do romancista, no caso, se reduz a um aproveitamento superficial dos fatos folclóricos. É a notação rápida dos "costumes populares" dos românticos. Nunca ultrapassam os limites do descritivo e não há nenhum esfôrço no sentido de entender o homem sob o ângulo daqueles elementos folclóricos. E, ainda, o terceiro caminho, que é a tentativa mais arrojada: tentar uma conciliação entre as duas culturas, entre os dois "tipos" de homem. O tema folclórico deixa de ser simples ponto de partida, para assumir uma importância nova - o artista acaba atribuindo uma realidade essencial do mito, submetendo-se-lhe definitivamente. É a fascinação do abismo, pois o artista pode se despenhar de uma vez no folclore, como Mistral, adotando uma atitude de participação, sem que se possa avaliar até onde a solução pode ser aceita como intermediária. A finalidade maior do artista, entretanto, muitas vêzes é consciente, neste caso! A revelação essencial e integral de um povo, dando uma amostra do conflito das duas mentalidades e um comêço de síntese. Parece-me ser a de Goethe a tentativa mais vigorosa, no gênero; mas êle já estaria esquecido se não ficasse mais próximo da "cultura", que da simples peça de títeres que era o "Fausto". O resultado e o destino dessas aventuras é sempre êsse: fatalmente o artista dá maior ênfase aos valores de seu meio restrito, distanciando-se dos valores do povo à medida que as duas esferas de valores também se distanciam.

Modernamente, esboça-se um movimento que tende ao aproveitamento mais profundo dêsses valores folclóricos. De um lado, liga-se a uma concepção mais ampla de folclore. O folclore como uma expressão das condições presentes, típicas, da vida do povo, envolvendo todo seu estilo de vida. Essa concepção abre uma nova ponte entre a literatura e o folclore porque, então, desaparece aquela imagem do homem do povo vivendo imobilizado pela tradição e incapaz de progresso, surgindo em seu lugar o ser humano que êle é. Ou seja, a atenção do artista desloca-se dos fatos folclóricos pròpriamente dita para as pessoas que êles caracterizam. Surge aí o homem que interessa à literatura contemporânea, revelando em suas canções, em suas cantigas em suas modinhas, em seus desafios, em seus ABC, aquilo que êle pensa, que êle crê no momento e também o que êle deseja e o revolta. Os valores folclóricos como uma forma, mesmo de expressão da história contemporânea do povo e também de sua ideologia política. Aí é possível encarar o aproveitamento do material folclórico de outra maneira. Primeiro, em si mesmo como documentário; segundo, como uma espécie de pesquisa de busca da verdadeira imagem do "homem do povo". É o que acontece por exemplo no romance moderno de um Jorge Amado ou de um Cyro Alegria. A estilização é relegada e à notação segue-se um trabalho profundo de compreensão do homem em função de seus valores típicos. Os limites entre a literatura e o folclore não só tornam-se menos nítidos e rígidos, como a literatura apresenta-se como uma forma fecunda de revelação do folclore.

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