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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

As mulheres contra Einstein


Em 1933, quando Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha, Albert Einstein, judeu de nascimento e pacifista por convicção, achou que não poderia viver mais no seu país e aceitou um convite para lecionar na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Não contava, porém, que também houvesse americanos partidários de Hitler e da guerra capazes de identificá-lo como comunista e ateu, e por isso teve de enfrentar algumas manifestações de repulsa. A mais pitoresca foi a de uma liga de mulheres americanas que lhe enviou um longo e irado memorial. Bem humorado, o cientista respondeu: "Jamais encontrei, da parte do belo sexo, reação tão enérgica contra uma tentativa de aproximação. Se agora isto acontece, jamais, em uma só vez, tantas mulheres me repeliram. Não têm razão estas cidadãs vigilantes? Deve-se acolher um homem que devora os capitalistas calejados com o mesmo apetite, a mesma volúpia com que, outrora, o Minotauro cretense devorava as delicadas virgens gregas e que, além do mais, se revela tão grosseiro que recusa todas as guerras, com exceção do inevitável conflito com a própria esposa? Escutai, portanto, vós, mulheres prudentes e patriotas: lembrai-vos também que o Capitólio da poderosa Roma foi outrora salvo pelo cacarejar de suas gansas fiéis".
Revista Superinteressante

domingo, 25 de abril de 2010

Albert Einstein - A estrada da paz


VEJA, Agosto de 1945
Quando bombas atômicas arrasaram Hiroxima e Nagasaki, o físico Albert Einstein foi chamado de responsável indireto pelas tragédias. Neste artigo, ele nega esse papel, sugere a criação de uma nova organização global e se diz alarmado com a hipótese de uma nova guerra: ela aniquilaria a Terra.

Minha responsabilidade na questão da bomba atômica se limita a uma única intervenção: escrevi uma carta ao presidente Franklin Roosevelt. Eu sabia ser necessária e urgente a organização de experiências de grande envergadura para o estudo e a realização da bomba atômica. Foi o que disse a ele. Conhecia também o risco universal causado pela descoberta da bomba. Mas os sábios alemães se encarniçavam sobre o mesmo problema e tinham todas as chances para resolvê-lo. Assumi, portanto, minhas responsabilidades. Sou, no entanto, um pacifista apaixonado, e minha maneira de ver as coisas não é diferente diante da mortandade em tempo de guerra e diante de um crime em tempo de paz.

Já que as nações não resolvem suprimir a guerra por uma ação conjunta, já que não superam os conflitos por uma arbitragem pacifica e não baseiam seu direito sobre a lei, elas se vêem inexoravelmente obrigadas a preparar a guerra. O horror nesta escalada consiste em sua aparente inevitabilidade. Cada progresso parece a conseqüência inevitável do progresso precedente. Participando da corrida geral dos armamentos e não querendo perder, as nações concebem e executam os planos mais detestáveis. Precipitam-se para a guerra. Mas hoje, a guerra se chama o aniquilamento da humanidade.

"O perigo está em
que cada um, sem
fazer nada, espere
que ajam em seu
favor. Cada um de
nós tem culpa."


Os gênios mais notáveis das antigas civilizações sempre preconizaram a paz entre as nações. Compreendiam sua importância. Agora, esta posição moral é rechaçada pelos progressos técnicos. E nossa humanidade civilizada conhece o novo sentido da palavra paz: significa sobrevivência. A descoberta das reações atômicas em cadeia não constitui para a humanidade perigo maior do que a invenção dos fósforos. Mas temos de empregar tudo para suprimir o seu mau uso. Quando tivermos reconhecido isto, encontraremos então a força de realizar os sacrificios necessários para a salvaguarda do gênero humano. Cada um de nós seria o culpado se o objetivo não fosse atingido a tempo. O perigo está em que cada um, sem fazer nada, espere que ajam em seu favor.

A indústria dos armamentos representa concretamente o mais terrível perigo para a humanidade hoje. Em todos os países do mundo, grupos poderosos fabricam amas ou participam de sua fabricação; em todos os paises do mundo, eles se opõem à resolução pacifica do menor litígio internacional. Contra eles, porém, os governos atingirão este objetivo essencial da paz quando a maioria dos eleitores os apoiar energicamente. Porque vivemos em regimes democráticos e nosso destino e o de nossos povos dependem inteiramente de nós. A vontade coletiva se inspirará nesta intima convicção pessoal. Só a supressão definitiva do risco universal da guerra dá sentido e oportunidade à sobrevivência do mundo. Daqui em diante, eis nosso labor cotidiano e nossa inabalável decisão: lutar contra a raiz do mal e não contra os efeitos. O homem aceita lucidamente esta exigência. Que importa que seja acusado de anti-social ou de utópico? ...
Autoridade internacional - Os progressos da técnica militar tornam possível o extermínio de toda a vida humana, a menos que os homens descubram, e bem depressa, os meios de se protegerem contra a guerra. Este ideal é capital e os esforços até hoje empregados para atingi-lo são ainda ridiculamente insuficientes. Procura-se atenuar o perigo pela diminuição dos armamentos e por regras limitativas no exercício do direito à guerra. Mas a guerra não é um jogo de sociedade onde os parceiros respeitam escrupulosamente as negras. Quando se trata de ser ou de não ser, regras e compromissos não valem nada. somente a rejeição incondicional da guerra pede salvar-nos.

"Não é possível o
desarmamento por
etapas, só de uma
vez por todas. E a
solução é clara -
é tudo ou nada."


Enquanto a possibilidade da guerra não for radicalmente extinta, as nações não consentirão em se despojar do direito de se equipar militarmente do melhor modo prossivel para esmagar o inimigo de uma futura guerra. Não se poderá evitar que a juventude seja educada com os tradições guerreiras, nem que o ridículo orgulho nacional seja exaltado paralelamente com a mitologia heróica do guerreiro, enquanto for necessário fazer vibrar nos cidadãos esta ideologia para a resolução armada dos conflitos. Armar-se significa exatamente isto: não aprovar e nem organizar a paz, mas dizer sim à guerra e prepará-la. Sendo assim, não se pode desarmar por etapas, mas de uma vez por todas ou nunca. A solução é clara: tudo ou nada. Até este momento, os esforços empregados para conseguir a paz fracassaram, porque ambicionavam somente resultados parciais insuficientes.

Não se pode chegar a uma paz verdadeira se se determina sua política exclusivamente pela eventualidade de um futuro conflito, sobretudo quando se tornou evidente que semelhante conflito significaria a completa ruína. A linha diretriz de toda a política deveria ser: Que podemos nós fazer para incitar as nações a viverem em comum pacificamente e tão bem quanto for possível? A eliminação do medo e da defesa recíproca, eis o primeiro problema. A solene recusa de empregar a força, uns contra os outros, impõe-se absolutamente. Tal recusa somente será eficaz se se referir à criação de uma autoridade internacional judiciária e executiva, à qual se delegaria a resolução de qualquer problema concernente diretamente à segurança das nações. A declaração por parte das nações de participar lealmente da instalação de um governo mundial restrito já diminuiria singularmente o risco da guerra. A coexistência pacifica dos homens baseia-se em primeiro lugar na confiança mútua. ...
"Nós não podemos
nos desesperar dos
homens, pois nós
somos homens. A
solução, acredito,
está com o povo."


Uma nova etapa - As gerações anteriores talvez tenham julgado que os progressos intelectuais e sociais apenas representavam os frutos do trabalho de seus antepassados, que conseguiram uma vida mais fácil, mais bela. As cruéis provações de nosso tempo mostram que há aí uma ilusão. Compreendemos melhor agora que os esforços mais consideráveis devem ser empregados no sentido de que nossa herança se torne, para a humanidade, não uma catástrofe, mas uma uma oportunidade. Continuo inabalável neste ponto: a solução está no povo, somente no povo. Não podemos nos desesperar dos homens, pois nós mesmos somos homens. Se os povos quiserem escapar da escravidão abjeta do serviço militar, têm de se pronunciar categoricamente pelo desarmamento geral. Enquanto existirem exércitos, cada conflito delicado se arrisca a levar à guerra.

Que os povos compreendam. Que se manifeste sua consciência. Desta forma galgaríamos uma nova etapa no progresso dos povos entre si e nos recordaríamos do quanto a guerra foi a incompreensível loucura de nossos antepassados. O destino da humanidade repousa essencialmente e mais do que nunca sobre as forças morais do homem. Se quisermos uma vida livre e feliz, será absolutamente necessário haver renúncia e restrição. Desarmamento e segurança só se conquistam juntos. A segurança não será verdadeira a não ser que todas as nações tomem o compromisso de executar por completo as decisões internacionais. Estamos portanto na encruzilhada dos caminhos. Ou tomaremos a estrada da paz ou a estrada já freqüentada da força cega, indigna de nossa civilização. É esta nossa escolha e por ela seremos responsáveis. De um lado, liberdade dos indivíduos e segurança das comunidades nos esperam. Do outro, servidão dos indivíduos e aniquilamento da civilização nos ameaçam. Nosso destino será o que escolhermos. Albert Einstein ,de 66 anos, é professor de Física na Universidade de Princeton, nos EUA. Alemão naturalizado americano, ele recebeu o Prêmio Nobel em 1921 e realizou dezenas de estudos científicos de espetacular impacto nas últimas décadas.

Revista Veja na História

domingo, 7 de março de 2010

Albert Einstein - A Estrada da Paz


Agosto de 1945

Quando bombas atômicas arrasaram Hiroxima e Nagasaki, o físico Albert Einstein foi chamado de responsável indireto pelas tragédias. Neste artigo, ele nega esse papel, sugere a criação de uma nova organização global e se diz alarmado com a hipótese de uma nova guerra: ela aniquilaria a Terra.

Minha responsabilidade na questão da bomba atômica se limita a uma única intervenção: escrevi uma carta ao presidente Franklin Roosevelt. Eu sabia ser necessária e urgente a organização de experiências de grande envergadura para o estudo e a realização da bomba atômica. Foi o que disse a ele. Conhecia também o risco universal causado pela descoberta da bomba. Mas os sábios alemães se encarniçavam sobre o mesmo problema e tinham todas as chances para resolvê-lo. Assumi, portanto, minhas responsabilidades. Sou, no entanto, um pacifista apaixonado, e minha maneira de ver as coisas não é diferente diante da mortandade em tempo de guerra e diante de um crime em tempo de paz.

Já que as nações não resolvem suprimir a guerra por uma ação conjunta, já que não superam os conflitos por uma arbitragem pacifica e não baseiam seu direito sobre a lei, elas se vêem inexoravelmente obrigadas a preparar a guerra. O horror nesta escalada consiste em sua aparente inevitabilidade. Cada progresso parece a conseqüência inevitável do progresso precedente. Participando da corrida geral dos armamentos e não querendo perder, as nações concebem e executam os planos mais detestáveis. Precipitam-se para a guerra. Mas hoje, a guerra se chama o aniquilamento da humanidade.

"O perigo está em
que cada um, sem
fazer nada, espere
que ajam em seu
favor. Cada um de
nós tem culpa."


Os gênios mais notáveis das antigas civilizações sempre preconizaram a paz entre as nações. Compreendiam sua importância. Agora, esta posição moral é rechaçada pelos progressos técnicos. E nossa humanidade civilizada conhece o novo sentido da palavra paz: significa sobrevivência. A descoberta das reações atômicas em cadeia não constitui para a humanidade perigo maior do que a invenção dos fósforos. Mas temos de empregar tudo para suprimir o seu mau uso. Quando tivermos reconhecido isto, encontraremos então a força de realizar os sacrificios necessários para a salvaguarda do gênero humano. Cada um de nós seria o culpado se o objetivo não fosse atingido a tempo. O perigo está em que cada um, sem fazer nada, espere que ajam em seu favor.

A indústria dos armamentos representa concretamente o mais terrível perigo para a humanidade hoje. Em todos os países do mundo, grupos poderosos fabricam amas ou participam de sua fabricação; em todos os paises do mundo, eles se opõem à resolução pacifica do menor litígio internacional. Contra eles, porém, os governos atingirão este objetivo essencial da paz quando a maioria dos eleitores os apoiar energicamente. Porque vivemos em regimes democráticos e nosso destino e o de nossos povos dependem inteiramente de nós. A vontade coletiva se inspirará nesta intima convicção pessoal. Só a supressão definitiva do risco universal da guerra dá sentido e oportunidade à sobrevivência do mundo. Daqui em diante, eis nosso labor cotidiano e nossa inabalável decisão: lutar contra a raiz do mal e não contra os efeitos. O homem aceita lucidamente esta exigência. Que importa que seja acusado de anti-social ou de utópico? ...
Autoridade internacional - Os progressos da técnica militar tornam possível o extermínio de toda a vida humana, a menos que os homens descubram, e bem depressa, os meios de se protegerem contra a guerra. Este ideal é capital e os esforços até hoje empregados para atingi-lo são ainda ridiculamente insuficientes. Procura-se atenuar o perigo pela diminuição dos armamentos e por regras limitativas no exercício do direito à guerra. Mas a guerra não é um jogo de sociedade onde os parceiros respeitam escrupulosamente as negras. Quando se trata de ser ou de não ser, regras e compromissos não valem nada. somente a rejeição incondicional da guerra pede salvar-nos.

"Não é possível o
desarmamento por
etapas, só de uma
vez por todas. E a
solução é clara -
é tudo ou nada."


Enquanto a possibilidade da guerra não for radicalmente extinta, as nações não consentirão em se despojar do direito de se equipar militarmente do melhor modo prossivel para esmagar o inimigo de uma futura guerra. Não se poderá evitar que a juventude seja educada com os tradições guerreiras, nem que o ridículo orgulho nacional seja exaltado paralelamente com a mitologia heróica do guerreiro, enquanto for necessário fazer vibrar nos cidadãos esta ideologia para a resolução armada dos conflitos. Armar-se significa exatamente isto: não aprovar e nem organizar a paz, mas dizer sim à guerra e prepará-la. Sendo assim, não se pode desarmar por etapas, mas de uma vez por todas ou nunca. A solução é clara: tudo ou nada. Até este momento, os esforços empregados para conseguir a paz fracassaram, porque ambicionavam somente resultados parciais insuficientes.

Não se pode chegar a uma paz verdadeira se se determina sua política exclusivamente pela eventualidade de um futuro conflito, sobretudo quando se tornou evidente que semelhante conflito significaria a completa ruína. A linha diretriz de toda a política deveria ser: Que podemos nós fazer para incitar as nações a viverem em comum pacificamente e tão bem quanto for possível? A eliminação do medo e da defesa recíproca, eis o primeiro problema. A solene recusa de empregar a força, uns contra os outros, impõe-se absolutamente. Tal recusa somente será eficaz se se referir à criação de uma autoridade internacional judiciária e executiva, à qual se delegaria a resolução de qualquer problema concernente diretamente à segurança das nações. A declaração por parte das nações de participar lealmente da instalação de um governo mundial restrito já diminuiria singularmente o risco da guerra. A coexistência pacifica dos homens baseia-se em primeiro lugar na confiança mútua. ...
"Nós não podemos
nos desesperar dos
homens, pois nós
somos homens. A
solução, acredito,
está com o povo."


Uma nova etapa - As gerações anteriores talvez tenham julgado que os progressos intelectuais e sociais apenas representavam os frutos do trabalho de seus antepassados, que conseguiram uma vida mais fácil, mais bela. As cruéis provações de nosso tempo mostram que há aí uma ilusão. Compreendemos melhor agora que os esforços mais consideráveis devem ser empregados no sentido de que nossa herança se torne, para a humanidade, não uma catástrofe, mas uma uma oportunidade. Continuo inabalável neste ponto: a solução está no povo, somente no povo. Não podemos nos desesperar dos homens, pois nós mesmos somos homens. Se os povos quiserem escapar da escravidão abjeta do serviço militar, têm de se pronunciar categoricamente pelo desarmamento geral. Enquanto existirem exércitos, cada conflito delicado se arrisca a levar à guerra.

Que os povos compreendam. Que se manifeste sua consciência. Desta forma galgaríamos uma nova etapa no progresso dos povos entre si e nos recordaríamos do quanto a guerra foi a incompreensível loucura de nossos antepassados. O destino da humanidade repousa essencialmente e mais do que nunca sobre as forças morais do homem. Se quisermos uma vida livre e feliz, será absolutamente necessário haver renúncia e restrição. Desarmamento e segurança só se conquistam juntos. A segurança não será verdadeira a não ser que todas as nações tomem o compromisso de executar por completo as decisões internacionais. Estamos portanto na encruzilhada dos caminhos. Ou tomaremos a estrada da paz ou a estrada já freqüentada da força cega, indigna de nossa civilização. É esta nossa escolha e por ela seremos responsáveis. De um lado, liberdade dos indivíduos e segurança das comunidades nos esperam. Do outro, servidão dos indivíduos e aniquilamento da civilização nos ameaçam. Nosso destino será o que escolhermos.

Albert Einstein ,de 66 anos, é professor de Física na Universidade de Princeton, nos EUA. Alemão naturalizado americano, ele recebeu o Prêmio Nobel em 1921 e realizou dezenas de estudos científicos de espetacular impacto nas últimas décadas.

Revista Veja na História

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Alfredo Tolmasquim - Historiador conta como o humor de Eisenstein foi se alterando durante a viagem à América do Sul

Historiador conta como o humor do cientista foi se alterando durante a viagem à América do Sul
Neldson Marcolin - Dezembro 2008
Edição Impressa - Especial Einstein
Pesquisa FAPESP - © Marcia Minillo

Tolmasquim: anúncio de 1919 foi grande evento de mídia

A comprovação da teoria geral da relatividade na cidade de Sobral, no Ceará, e na ilha de Príncipe, no golfo da Guiné, em 1919, fez mais pela fama de Albert Einstein do que todos os artigos revolucionários publicados entre 1905 e 1916. O resultado foi anunciado por pesquisadores ingleses em uma sessão solene da Academia de Ciências de Londres e noticiado como de grande importância para a ciência primeiramente no jornal The Times e depois pela imprensa de todo o mundo. “Foi um dos primeiros grandes eventos de mídia no século XX”, contou o pesquisador em história da ciência e diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), Alfredo Tiomno Tolmasquim. Ao se tornar uma celebridade mundial, o cientista alemão começou a viajar pelo mundo para divulgar suas idéias científicas, receber homenagens e defender o pacifismo e o sionismo. “Foi dentro deste contexto que ele visitou o Brasil, em 1925.” Tolmasquim falou no Parque do Ibirapuera na agenda cultural paralela à exposição Einstein, com o tema “Um cientista nos trópicos: a viagem de Einstein à América do Sul”, no dia 9 de novembro.

Para entender melhor as motivações do cientista em visitar países sem muita expressão em um lugar distante, Tolmasquim lembrou que o reconhecimento pelos artigos de 1905 ocorreu muito lentamente. Foi apenas em 1914, aos 35 anos, que ele recebeu e aceitou um convite atraente para trabalhar na Universidade de Berlim: não precisaria dar aulas, apenas seminários e palestras. O salário era confortável e incluía uma vaga na Academia Prussiana de Ciências e a diretoria do instituto de física que viria a ser criado. Quando pensou que finalmente teria tempo e tranqüilidade financeira para trabalhar, quatro meses depois que chegou a Berlim eclodiu a Primeira Guerra Mundial e, pela primeira vez, Einstein começou a se envolver em questões políticas.

Os intelectuais e cientistas da época se engajaram diretamente na polêmica sobre o conflito. “Para os não-alemães existiam duas Alemanhas: a do Kaiser, beligerante, e a da ilustração, do conhecimento, da cultura, da ciência”, contou o diretor do Mast. Os principais cientistas e intelectuais alemães reagiram a essa posição e fizeram o “Manifesto dos 93”, em que diziam que a Alemanha era uma só, a do Kaiser. Ocorre que Einstein não assinou o manifesto porque acreditava que os cientistas não deveriam se envolver na questão. Para ele, ciência e cultura teriam de estar acima das fronteiras nacionais. Essa posição o levou a escrever um contramanifesto, conclamando “os bons europeus” a se unirem contra a guerra, algo imediatamente considerado uma espécie de ato de traição. Foi nesse período que Einstein assumiu de vez o pacifismo e passou a apoiar o sionismo, movimento de criação de um Estado judaico na Palestina.

Personalidade mundial
Mesmo com o envolvimento político, ele continuou dando palestras e trabalhando na teoria geral da relatividade, que publicou em 1916. Uma das idéias básicas da teoria diz que um corpo de grande massa, como o Sol, deforma o espaço em torno de si e qualquer objeto que passar na região vai seguir essa deformação, inclusive a luz. Como se poderia comprovar a hipótese? Observando a luz de uma estrela passando perto do Sol. “Você olha a luz da estrela perto do Sol, depois olha a luz da estrela longe do Sol e vê se houve alguma mudança”, explicou Tolmasquim. A única maneira de fazer a observação seria no momento do eclipse do Sol – quando a Lua encobre a luz solar e é possível ver as estrelas que estão próximas. No artigo de 1916 Einstein previu qual seria a deflexão da luz de uma estrela próxima calculando pela massa do Sol. Para fazer a comprovação da teoria saíram as duas expedições britânicas, para o Ceará e para o golfo da Guiné, na África, que comprovaram a deflexão prevista pelo físico.

“Aí sim vai acontecer o que não aconteceu em 1905”, disse o pesquisador. A imprensa faz uma cobertura enorme e transforma Einstein em uma personalidade mundial. Se por um lado ele era muito festejado, por outro ficou na berlinda e começou a receber muitas críticas de alemães nacionalistas contra a posição que tomou durante a guerra. Nessa época também foi lembrado o fato de ele ter abdicado da nacionalidade alemã, ainda muito jovem. Além disso, era judeu e os nacionalistas alemães consideraram que houve uma conspiração dos judeus para derrubar o imperador alemão. Quando acabou a guerra, o Kaiser abdicou e foi proclamada a República de Weimar. Não bastasse tudo isso, existiam setores que não concordavam com a teoria geral da relatividade. Começou uma campanha chamada por Einstein de campanha anti-relatividade, que envolvia nacionalismo, anti-semitismo e divergências científicas.

No centro de todas essas questões, Einstein pensou em ir embora para outro país e deixar as polêmicas para trás, mas foi convencido por alguns colegas a ficar – a Alemanha, afinal, era o centro da física no mundo. “Foi naquele momento que ele decidiu começar a se manifestar com mais ênfase e usar sua voz para divulgar suas idéias científicas e pacifistas”, disse Tolmasquim. Começou, então, a dar muitas palestras, não só divulgando a relatividade e a nova física, como interagindo com os cientistas. Foi a Holanda, Noruega, Dinamarca, Praga, Viena, Estados Unidos, Inglaterra, França, Japão, Palestina e, em 1925, Argentina, Uruguai e Brasil.

viagem começa pela Argentina, na época um país muito diferente do Brasil, então extremamente agrário. A Universidade do Rio de Janeiro, a primeira do Brasil, havia sido criada em 1922. Na Argentina, porém, existiam cinco universidades no mesmo ano, além de alguma pesquisa em física. Havia também a presença relativamente alta e organizada de imigrantes alemães. Eles criaram a Instituición Cultural Argentino-Germana, que reunia cientistas alemães e argentinos interessados na ciência e cultura germânicas. Um dos objetivos era trazer pesquisadores importantes para dar palestras e um dos primeiros nomes citados foi o de Einstein. Mas o convite não se concretizou de imediato porque existia entre seus integrantes a mesma divergência no âmbito da instituição que já ocorrera na Alemanha sobre as posições políticas de Einstein.

Outra instituição cultural, a Associação Hebraica da Argentina, também tinha o objetivo de trazer judeus eminentes em artes e ciências. Ao tentar contatar o cientista, descobriu-se que ele só aceitava convites feitos por instituições científicas para evitar que sua imagem fosse usada de uma forma ou de outra. A Associação Hebraica sugeriu, então, que a Universidade de Buenos Aires fizesse o convite, colocaram dinheiro à disposição para ajudar nos custos e, em dezembro de 1923, seguiu uma carta para Berlim. Einstein disse que aceitava, mas apenas em 1925.

O Brasil entrou na história por iniciativa também da Associação Hebraica. Os líderes da comunidade judaica da Argentina alertaram os líderes no Uruguai, Brasil e Chile sugerindo que aproveitassem a visita de Einstein à América do Sul para convidá-lo a ir aos seus países. No Rio de Janeiro, o rabino Isaiah Raffalovich, líder judeu local, conseguiu que a Escola Politécnica o convidasse. “A carta para Einstein não saiu da universidade, mas foi feita pelo próprio rabino em nome de Paulo de Frontin, na época diretor da Escola Politécnica, e do diretor da Faculdade de Medicina, Aloysio de Castro”, contou Tolmasquim. O cientista alemão também aceitou vir ao Brasil e Uruguai.

Estado de espírito
Einstein desembarcou no Rio no dia 21 de março, ficou apenas um dia e embarcou para Buenos Aires, onde chegou dia 24. Um mês depois foi para Montevidéu, ficou uma semana e, em seguida, voltou ao Rio para ficar mais uma semana. “Ele escreveu suas impressões em um diário de viagem que indica como seu estado de espírito foi se alterando durante a estadia na América do Sul”, disse o pesquisador. “No primeiro dia achou tudo maravilhoso, mas na volta para a Alemanha, quase dois meses depois, não suportava mais o calor, a comida e as homenagens.” Uma das primeiras anotações quando ele chega ao Rio, antes de ir para a Argentina, é: “O Jardim Botânico, bem como a flora de modo geral, supera o sonho das mil e uma noites. Tudo vive e cresce a olhos vistos por assim dizer. Deliciosa mistura étnica nas ruas: português, índio, negro, com todos os cruzamentos. Espontâneas como plantas, subjugados pelo calor. Experiência fantástica! Indescritível abundância de impressões em poucas horas”.

Semanas depois, sozinho, sem muitos interlocutores científicos, assediado pela imprensa, participando de inúmeros eventos, solenidades e discursos, o humor dele foi mudando sensivelmente. “A palestra que deu no Clube de Engenharia do Rio, por exemplo, foi uma catástrofe.” O público era composto de militares e diplomatas com as esposas e filhos. O calor era grande, a sala estava superlotada e a janela teve de ser aberta. Piorou, porque havia o barulho da rua. Einstein deu a palestra em francês e desenhou uma série de fórmulas no quadro. Depois escreveu no diário: “Compreensão impossível a começar pela acústica. Pouco sentido científico. Eu sou um tipo de elefante branco para os outros, eles para mim uns tolos”. Na segunda palestra na Escola Politécnica, apesar do grande número de pessoas, restringiram a entrada e o evento foi mais agradável.

Na terceira e última palestra dada no Rio de Janeiro, na Academia Brasileira de Ciências (ABC), houve algo diferente: um artigo específico escrito por ele especialmente para a ocasião. Naquele momento, no Brasil, a teoria da relatividade ainda provocava muita curiosidade entre os poucos cientistas e intelectuais. Mas, para Einstein, em 1925, sua teoria já estava estabelecida e o que o interessava eram as questões relacionadas à constituição da luz, sobre a qual ainda havia debates no meio cientifico europeu. Ele escreveu o artigo “Observações sobre a situação atual da teoria da luz” em alemão, em papel timbrado do Hotel Glória, onde ele se hospedou, com a data de 7 de maio de 1925, e posteriormente publicado no primeiro número da revista da Academia Brasileira de Ciências, em abril de 1926. O texto original, deixado no Brasil para ser traduzido, foi achado por Tolmasquim, que tratou de divulgá-lo em congressos de história da ciência nos anos 1990.

Um cientista nos trópicos: a viagem de Einstein à América do Sul
Alfredo Tiomno Tolmasquim
, graduado em engenharia química, diretor e pesquisador titular do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) do Rio de Janeiro, autor de Einstein: o viajante da relatividade na América do Sul (Vieira e Lent)

Revista FAPESP

José Luiz Goldfarb - A trajetória do físico brasileiro Mário Schenberg

Historiador conta a trajetória do físico brasileiro Mário Schenberg, admirado pelo cientista alemão
Marcos de Oliveira - Janeiro 2009
Edição Impressa - Especial

Pesquisa FAPESP - © Folha Imagem

Schenberg: físico, político e crítico de arte

Entre as pessoas mais admiradas por Albert Einstein estava o físico brasileiro Mário Schenberg. Segundo uma possível lista elaborada pelo famoso pai da teoria da relatividade, ele foi considerado um dos dez cientistas mais representativos na ciência do século XX. “Nós não temos comprovação dessa lista, não há documentos, o que sabemos é que Schenberg não trabalhou com Einstein, eles se conheceram na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, durante um período de estudos do brasileiro em que Einstein teria ficado muito impressionado com Schenberg”, disse o professor José Luiz Goldfarb, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, no dia 29 de novembro, na palestra “Albert Einstein e Mário Schenberg nas fronteiras da ciên­cia no século XX”. “Em determinado momento após essa visita, não sabemos exatamente quando, alguém pediu para Einstein fazer uma lista de dez pessoas, dez inteligências, e Schenberg estaria nessa lista. A partir daí surgiu essa história, essa lenda”, diz Goldfarb. “As salas de Einstein e de Schenberg eram pró­ximas e às vezes eles se encontravam por ali”, lembrou Goldfarb, um estudioso da vida e obra do físico brasileiro, sobre quem publicou o livro Voar também é com os homens – O pensamento de Mário Schenberg” (Edusp, 1993).

Na sua trajetória científica, Schenberg interagiu com muitos pesquisadores que deram contribuições importantes para a física. Trabalhou, por exemplo, em Roma, na Itália, com Enrico Fermi, ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1938, e com George Gamow, um russo naturalizado norte-americano, na Universidade de Washington, nos Estados Unidos, responsável pelos estudos que resultaram na teoria sobre a grande explosão da criação do Universo, o Big Bang. Atingir esse patamar representou um grande salto para esse pernambucano nascido no Recife, em 1914, que queria estudar na Europa, mas não conseguiu logo de início porque a situação financeira de seu pai não permitia. Ele foi para o Rio de Janeiro, mas em 1930 voltou para o Recife e entrou na Escola de Engenharia, devido à crise de 1929. Em 1934, ano da fundação da Universidade de São Paulo (USP), se transferiu para a Escola Politécnica da universidade paulista, onde se formou em 1935. Licenciou-se em ciências matemáticas no ano seguinte e logo foi trabalhar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, no Departamento de Física. Saiu do Brasil em 1938 para a Europa em uma viagem de estudos financiada pelo governo paulista que durou nove meses.

Nos estudos com Fermi, em Roma, ele menciona a possível existência do neutrino, uma partícula subatômica. “O neutrino era absolutamente uma hipótese, uma partícula que apenas nos anos 1960 é que vai ser observada, mas ela fazia parte do contexto teórico pincelado por Schenberg na Europa”, diz Goldfarb. Naquele mesmo ano, muito intuitivo, ele volta rápido ao Brasil, por ser judeu, antes do início da Segunda Guerra Mundial que estava por começar. Aqui ele concorre e consegue uma bolsa da Fundação Guggenheim dos Estados Unidos para trabalhar na Universidade de Washington para onde se transfere em 1939. Lá trabalha na equipe de Gamow, que havia conhecido em São Paulo. Schenberg começou então seus estudos sobre astrofísica, área em que acontece sua maior contribuição à ciência. É o efeito Urca, chamado erroneamente de Ultra Rapid Catastrophe em sites e enciclopédias. “Eles tinham dados empíricos sobre supernovas que eram observadas e que não batiam com a teoria existente sobre a constituição de estrelas. Schenberg, numa conversa com Gamow, disse que não se estava levando em conta a emissão de neutrinos. Gamow põe a mão na cabeça – essa é a descrição literal de Schenberg – e diz: ‘Essa é a solução’”, lembrou Goldfarb. A emissão de neutrinos esfria o centro da estrela e produz um colapso e uma expansão na parte mais externa do astro. “Eles elaboraram e recalcularam a teoria e esse efeito passou a fazer parte do estudo das estrelas até hoje.”


© Pedro Palhares Fernandes

Goldfarb: estudioso da vida e da obra de Schenberg

Gamow chama o efeito de Urca porque ele e sua esposa encontraram Schenberg no Rio de Janeiro e depois seguiram para o então cassino da Urca. “Lá a esposa de Gamow só perdeu dinheiro e então ele brincou: ‘A energia some no interior da estrela por causa da emissão dos neutrinos igual ao dinheiro da minha mulher que sumia naquela roleta no cassino da Urca’. Daí o nome”, disse Gold­farb. No Brasil, entre o final dos anos de 1950 e começo da década de 1960, o brasileiro foi fundador e chefe do Departamento de Materiais e Mecânica do Instituto de Física da USP e teve um papel de incentivador da física do estado sólido, embora não fosse sua área. “Schenberg falava que a nova revolução viria da física dos materiais com silício, cristais, que posteriormente resultou nessa sociedade da informação, e não na física nuclear como muitos acreditavam”, disse Goldfarb.

Schenberg participa de muitas contribuições à física do século XX. “Ele acha ou às vezes indica soluções. O poeta Haroldo de Campos o chamava ‘Leonardesco’, em referência a Leonardo da Vinci, porque ele tinha uma característica semelhante à do artista italiano. Às vezes, achava que já resolvera o problema e passava a trabalhar em outra questão como Da Vinci fazia com pinturas que não terminara.” O aspecto multifacetado presente no italiano também foi marca registrada de Schenberg. Além da física, o pernambucano trilhou outros caminhos, como crítico de arte, área em que cultivou muitas amizades. “Ele dizia que não era crítico, mas acabou se tornando um estudioso e, nos estudos que fiz, acabei encontrando resenhas ao longo de 40 anos, de 1944 a 1984”, lembra Goldfarb.

Aliado à física e às artes, Schenberg também tinha um profundo interesse por política e filosofia. Ele era filiado ao Partido Comunista Brasileiro – caminho de grande parte da intelectualidade das décadas de 1930 e 1940 que se engajavam no movimento social – e foi eleito duas vezes deputado estadual em São Paulo. “Política para ele era a possibilidade de as pessoas se organizarem e terem uma direção, uma bandeira, para poderem realizar o que querem, desenvolvendo suas possibilidades. Com o golpe militar de 1964, ele foi cassado, preso e aposentado da USP pelo Ato Institucional nº 5, uma situação revertida em 1979, com a anistia. Segundo Goldfarb, ele era um comunista peculiar porque teve grandes desentendimentos com o líder do partido, Luís Carlos Prestes, além de, na arte, apoiar tendências completamente diferentes do realismo socialista da ex-União Soviética. Schenberg também era muito interessado por religião. “Ele dizia que a religião tem um fundo de coisas que não entendemos mas que ainda vamos entender”, lembra Goldfarb. “Ele ia à umbanda, à sinagoga, à igreja.” No final da vida aproximou-se do budismo. Schenberg morreu em São Paulo, em novembro de 1990, aos 76 anos de idade.

Albert Einstein e Mario Schenberg nas fronteiras da ciência no século XX
José Luiz Goldfarb
, físico, historiador da ciência e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, autor de Voar também é com os homens – O pensamento de Mário Schenberg (Edusp)

Revista FAPESP

Rubens Machado Júnior - Cinema e Questão do Tempo em Eisenstein

Professor de história do cinema explica como os filmes exploram a questão do tempo
Marcos Pivetta - Janeiro 2009
Edição Impressa - Especial

Pesquisa FAPESP - © Marcia Minillo

Machado Júnior: filmes para estudar as cidades

Inventado em 1895, o cinema entrou no século XX recorrendo à noção de tempo de artes mais antigas, como a música e o teatro. Aos poucos, ao longo dos últimos cem anos, criou sua própria linguagem e tornou-se capaz de expressar diferentes pontos de vista. Ao dominar as técnicas de edição das imagens em movimento, a sétima arte adquiriu meios de fazer o espectador viajar no tempo e no espaço. “Os filmes são um material rico para estudar a história das cidades do século XX”, disse Rubens Machado Júnior, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), na palestra “O tempo no cinema”, feita no dia 13 de dezembro passado.

Muitos cineastas e teóricos contribuíram para a formação da linguagem cinematográfica. Diretor do longa-metragem racista O nascimento de uma nação, D.W. Griffith foi um dos pais da gramática do cinema já na década de 1910. Criou a montagem paralela, técnica que cria a sensação de suspense ao explorar a noção de simultaneidade entre dois eventos que ocorrem em locais diferentes. Nos anos 1920, o russo Serguei Eisenstein, autor do famoso filme O encouraçado Potemkin, criou a chamada montagem dialética. O recurso era usado para estabelecer o conflito entre imagens antagônicas mostradas em sequência. Contemporâneo de Eisenstein, o cineasta russo Dziga Vertov, propositor do cinema-olho (em que a câmera é pensada como extensão do corpo humano), passou a defender a ideia de que a linguagem do cinema deveria se libertar da influência das outras artes. Em 1929, Vertov lançou a fita experimental Um homem com uma câmera em que mostra a vida urbana nas cidades da então nova União Soviética.

O cinema pode trabalhar a questão do tempo de maneiras muito distintas. Para exemplificar algumas dessas possibilidades, Machado falou de dois movimentos importantes na história dessa arte. Citou os filmes que exploraram o cotidiano das grandes cidades, mais ou menos na linha de Um homem com uma câmera. No documentário Berlim, sinfonia de uma cidade (1927), de Walter Ruttmann, as situações típicas da metrópole alemã são mostradas ao longo de um dia, desde o amanhecer até o anoitecer. A fita, que serviu de inspiração para produções semelhantes rodadas em parte do globo (inclusive em São Paulo), é editada de forma a criar a sensação de que o ritmo da cidade oscila com o passar das horas. “No final da tarde tudo fica mais dinâmico no filme”, afirmou Machado. Antes de terminar o expediente de trabalho, a intensa mobilidade urbana cria a sensação de vertigem. O turbilhão humano e das máquinas na cidade em movimento culmina com o suicídio de uma pessoa que se joga de uma ponte.

A segunda corrente cinematográfica mencionada pelo professor da USP foi o neorrealismo, surgido após a Segunda Guerra Mundial. Em filmes italianos como Roma, cidade aberta (1945) e Stromboli (1950), ambos de Roberto Rossellini, ou A noite (1961), de Michelangelo Antonioni, o tempo começa a se tornar arrastado, parado, em razão de os diretores usarem poucos cortes e planos longos em suas narrativas. “Esse cinema não explica muito o que ocorre na frente das câmeras”, comentou Machado. “Há mais dificuldade de fruição e se desenvolve certa ambiguidade nesses filmes.” O professor da USP disse que a escola realista voltou a ganhar força nos últimos 20 anos.

O tempo no cinema
Rubens Luís Ribeiro Machado Júnior
, graduado em arquitetura e urbanismo, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e professor titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

Revista FAPESP

Edgar de Decca - As noções de tempo

Historiador comenta as noções de tempo que prevaleceram da Antiguidade até hoje
Marcos Pivetta - Janeiro 2009
Edição Impressa - Especial

Pesquisa FAPESP - © Marcia Minillo

De Decca: o tempó hoje é uma experiência social

Até a época do cientista inglês Isaac Newton (1643-1727), os filósofos si­tuavam a noção de tempo como uma dimensão da natureza, algo objetivo, pertencente ao Universo. Posteriormente, surgiram concepções que o definiam em termos menos ligados ao mundo natural. Ao longo de grande parte da história, o tempo foi, portanto, ora encarado como uma definição objetiva, ora como uma criação amparada em conceitos mais subjetivos.

Hoje, com o surgimento de teorias formuladas após o impacto dos trabalhos revolucionários de Albert Einstein sobre os conceitos de espaço e tempo, a questão é vista por outro prisma, uma espécie de terceira via. “Acredita-se que o tempo não é objetivo, nem subjetivo. O homem e a natureza estão mais integrados do que dissociados”, disse Edgar de Decca, historiador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O tempo é uma experiência social, resultado do desenvolvimento da linguagem, que é uma capacidade exclusivamente humana e permite criar representações das coisas.” O pesquisador fez uma apresentação sobre o tema “O tempo na história” no dia 13 de dezembro.

Por meio da linguagem, o homem (e não a natureza) produz sistemas de medida e de representação do tempo, como o calendário. “O tempo se torna abstrato, de difícil percepção, e é sempre definido em função da comparação de uma coisa com outra”, explicou o historiador. A palavra amanhã, por exemplo, é carregada de sentido temporal, que pode ser captado apenas pelos seres humanos. Qualquer pessoa sabe que amanhã é o dia que vai surgir depois que a noite de hoje se dissipar. Depois de explicitar a noção corrente de tempo, De Decca falou das diversas formas como certas sociedades do passado encararam a questão.

Deuses e mortais
Na antiga Grécia coexistiam duas noções de tempo. Havia o tempo da natureza, visto como circular e permeado da ideia do eterno retorno. O homem nascia, crescia, vivia e morria – antes de voltar à Terra e repetir o ciclo. Imortais, os deuses também tinham um tempo circular, mas eterno, absoluto, sem princípio, meio e fim. As divindidades eram eternas porque nunca eram esquecidas. Não é à toa que Mnemosine, a deusa da memória, ocupava lugar de destaque no Panteão. O tempo absoluto era o tempo da memória. No século V a.C, com o advento da história nas cidades gregas, os seres não-divinos também adquiriram a capacidade de serem sempre lembrados e, portanto, eternos. “O homem passou a ter memória”, comentou.

Na Idade Média, dois conceitos de tempo, um profano e outro sagrado, se impunham em ambientes distintos. Nas cidades, o ritmo da vida era ditado pelo tempo do comércio, da acumulação de riqueza. No meio urbano, tempo era dinheiro. “O burguês aproveitou bem o tempo se acordou com uma moeda e foi dormir com dez”, disse o historiador. A Igreja condenava o tempo das cidades. Nos mosteiros reinava a noção do tempo religioso, quase parado. Era o tempo das rezas, dos terços, das homilias.

A despeito da crítica dos religiosos, os habitantes do Ocidente moderno começaram a organizar o tempo em função das tarefas a serem feitas. Medir as horas necessárias para desempenhar uma tarefa tornou-se uma necessidade. O controle do tempo de trabalho dos operários se estabeleceu e surgiram as primeiras greves. Com o advento do relógio mecânico, o homem separou definitivamente o conceito de tempo da natureza. “Passamos a ser homens do tempo”, disse. Outra consequência foi a total laicização do tempo e a perda de influência da Igreja sobre essa questão.

A eclosão de revoluções, como a francesa (1789) e, mais tarde, a russa (1917), sedimentou a ideia de que as sociedades eram resultado do tempo histórico vivido e também de expectativas futuras. Afinal, uma revolução pode ser entendida, no mundo moderno, como uma aceleração do tempo da história. Alterações que demorariam muito a ocorrer ganham forma mais rapidamente em períodos revolucionários. O surgimento de filosofias do progresso, como o marxismo e o positivismo, no final do século XIX se encaixa nesse contexto, em que o homem acredita ser o senhor do tempo. “O homem toma o tempo em sua mão e a história passa a ser também a capacidade de construir o futuro”, afirmou De Decca. “Ele acredita que pode fazer a história acelerar, e não apenas viver a sua aceleração.”

O ritmo inexorável do tempo do progresso humano, que conduziria à sociedade perfeita, pode ser ilustrado por slogans, como o célebre “tudo que é sólido se desmancha no ar”, cunhado por Karl Marx no Manifesto comunista. O historiador não fez um balanço do positivo de toda essa aceleração do tempo na sociedade moderna. Disse que, no estertor do século XX, utopias pregavam o fim da história e o progresso havia produzido catástrofes (como o aquecimento global) e miséria no planeta. “Vamos dar um tempo para fugir de toda essa loucura?”, perguntou De Decca no encerramento da palestra.

O tempo na história
Edgar Salvadori de Decca
, historiador e professor titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp

Revista FAPESP

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Revolução e contra-revolução na trajetória de Eisenstein

Revolução e contra-revolução
na trajetória de Eisenstein

Por Cristiane Nova



Meus filmes são a imagem implacável do inexorável destino (...) Mais tarde eu mesmo fui vítima das garras tenazes da imagem, que agora se tornaram vivas. (Eisenstein)

Obediente e bem educado (...) um típico menino de Riga. Eu era assim aos doze anos, e assim permaneci. (Eisenstein)
Hoje o cinema completa cem anos de história. Muitos estudos estão sendo incentivados no sentido de resgatar a experiência cinematográfica — os fatos, as teorias, os diretores, os atores, os estilos, as escolas e, é claro, a produção. No entanto, poucas pesquisas estão sendo realizadas visando a compreensão da relação entre o cinema e a história, seja através da elaboração de um arcabouço teórico geral, seja pelo estudo de experiências históricas concretas. Esta lacuna é de responsabilidade comum dos historiadores, cuja maioria despreza a importância do cinema para sua profissão, e dos teóricos do cinema, que geralmente negligenciam a historicidade da produção cinematográfica. Alguns dos primeiros estudos historiográficos reconhecidos, que buscavam analisar as relações entre o cinema e a história, afirmaram-se na França, na década de 70, pela equipe coordenada pelo historiador Marc Ferro e pela socióloga Anne Goldmman1. Hoje, existem, em outros países, pesquisadores que se aplicam à problemática da relação cinema-história, mas se constituem em núcleos isolados e numericamente muito reduzidos2. Dessa forma, este é ainda um campo bastante inexplorado, cujo estudo e aprofundamento se colocam, cada vez mais, como questões presentes e fundamentais para o entendimento dos fenômenos históricos do século XX e da própria produção cinematográfica.

Todo filme, à medida que se encontra inserido em uma situação histórica específica, é um documento historiográfico. O cinema, assim como a História, é "filho do seu tempo" e, desse modo, está por ele condicionado.

Um filme, independentemente do seu estilo, gênero, temática ou qualidade artística, possui elementos do período histórico em que foi produzido, seja de natureza política, econômica, social, ideológica ou cultural. O historiador Monterde é ainda mais contundente quando afirma que:

... o cinema produz história de uma forma quase ontológica: pelo simples fato de ser filmado, qualquer acontecimento se converte em histórico3.
Entretanto, a ação do cinema não se realiza apenas pela via passiva, reflexiva. Assim como um filme reflete a sociedade que o produziu, ele também age sobre ela na perspectiva de transformá-la ou de consolidar um status quo estabelecido. E, dessa forma, seja como documento ou como agente, o cinema se transforma em história.

O cinema soviético pós-1917 se constitui em um excelente objeto para o estudo da relação cinema-história. A experiência artística dos anos vinte na Rússia, tão importante para a transformação da estética e da forma cinematográficas, foi resultado de um processo histórico mais amplo, do qual fez parte: a afirmação e a consolidação da tomada de poder pelos bolcheviques, em outubro de 1917. Arte, política e ideologia passaram a caminhar lado a lado, num movimento de projeção e interdeterminação, tornando-se difícil uma separação clara entre seus elementos constitutivos. Compreender os mecanismos dessa imbricada relação, assim como de suas transformações históricas é o objetivo do presente artigo. Para isso, optamos pela análise da trajetória e da obra do cineasta Serguei Mikhailovich Eisenstein, enfatizando as correlações existentes entre as conjunturas políticas soviéticas e a produção eisensteiniana.

Eisenstein foi, sem dúvida, um dos maiores representantes desse movimento de vanguarda e sua obra representa uma síntese da produção cinematográfica do período e, principalmente, da evolução política da União Soviética. Não é por acaso que ele é um dos cineastas mais reconhecidos4 e mais biografados da história do cinema.

Da revolução à arte, da arte à revolução

Em 4 de maio de 1896, cinco meses depois da primeira projeção pública do cinematografh, o incipiente mundo do cinema alcançou a Rússia, através da exibição de um curta-metragem dos irmãos Lumière, que mostrava cenas da vida cotidiana na França. Em pouco tempo, surgiram dezenas de salas de projeção em São Petesburgo e Moscou, patrocinadas pelas companhias cinematográficas francesas (Pathé e Gaumont), conseqüência do processo de penetração de capital francês na economia russa, iniciado em finais do século XIX. Nesse primeiro momento, o cinema produzido na Rússia se limitava ao registro de cenas da vida familiar e cerimonial do Czar Nicolau II. Em 1908, foi realizada a primeira película de ficção russa: Stenka Razin5 , de dez minutos de duração. Em 1911, foi concluído o primeiro longa-metragem produzido em território nacional — A defesa de Sebastopol —, dirigido pelo cineasta Vassili Gontxarov, que tratava da Guerra da Criméia. De 1911 a 1917, a produção de filmes russos cresceu consideravelmente, sobretudo no período da Primeira Guerra Mundial, com a realização de centenas de filmes patrióticos. O cinema pré-revolucionário se caracterizava pela imitação dos estilos ocidentais e pela adoção do realismo e da linearidade como elementos centrais.

A Revolução Bolchevique, em 1917, abriu novas perspectivas para a arte na União Soviética, principalmente na esfera cinematográfica. Com o movimento de Outubro, surgiu uma nova estética revolucionária: a arte foi convertida na materialização do espírito da Revolução. Os jovens artistas deram início à contestação da arte burguesa e proclamaram o direito das massas a terem acesso à cultura. As formas tradicionais de cinema foram rejeitadas. Ao realismo burguês, eles propuseram métodos completamente inovadores. Nesse momento, a arte passou a ser concebida também como um instrumento para a edificação e consolidação do socialismo, cuja função seria educar o espírito do povo. A obra de arte deixou de ser uma obra individual, uma propriedade privada, orientando-se para a mobilização das massas. Ao cinema, caberia um papel de destaque nessa tarefa educacional da arte, visto que a grande maioria da população russa era analfabeta. Pela primeira vez, um Estado consagrava o cinema enquanto arte e lhe atribuía um lugar tão destacado.

Em 1917, foi criado o Comissariado do Povo para a Instrução Pública (Narkomprost), sob a direção de Lunacharsky6 e, em 1918, foi aberta uma subseção de cinema (Kinopotdel), que ficou sob a supervisão de Krupskaia, mulher de Lenin. Um ano depois, toda a produção cinematográfica foi nacionalizada.

A conjuntura político-econômica do recente Estado Operário era extremamente difícil. Em meio à guerra civil, a situação de fome e desespero se alastrava pelo país. Os antigos cineastas haviam emigrado para a França, Alemanha e EUA e faltavam recursos para novas produções. Não obstante toda a precariedade técnica e a carestia de material, começou a se desenvolver um novo cinema na Rússia, inicialmente voltado para a propaganda nas frentes de batalha (Agiptrop e Agitki). A carência de rolos de filmes virgens fazia com que fossem aproveitados pequenos pedaços não revelados, que eram compostos através da técnica da montagem. Essa experiência foi de suma importância para o desabrochar de um movimento cinematográfico inovador que iria revolucionar as técnicas de cinema na União Soviética e no mundo todo. Dessa explosão inicial, emergiram grandes cineastas como Kulechov, Pudovkin, Dziga Vertov e Eisenstein. Toda essa geração de artistas recebeu uma forte influência das vanguardas européias do início do século e, em especial, do futurismo, que muito contribuiu para a construção da nova arte7.

Com o fim da guerra e a superação da crise, esse movimento teve as condições materiais básicas para crescer e se desenvolver. Um dos elementos mais importantes nesse processo inicial de criação foi a existência da liberdade de ação e de expressão reinante no universo da arte. Tal condição foi garantida pela postura de Lunacharsky e de alguns líderes bolcheviques. O Estado tinha consciência da importância ideológica da arte e, em especial do cinema, e buscava transformá-la em um instrumento para a construção do socialismo. Mas, ao mesmo tempo, também percebia o valor e o significado da liberdade criadora artística. De todos os dirigentes bolcheviques, Trotsky foi aquele que mais radicalmente defendeu essas duas perspectivas. Em 1923, ele fez a seguinte afirmação:

O fato de, até agora, não termos ainda dominado o cinema prova até que ponto somos desastrados e incultos, para não dizer idiotas. O cinema é um instrumento que se impõe por si só, ele é o melhor instrumento de propaganda8.
Entretanto, ele acreditava que a utilização do cinema como instrumento de propaganda deveria se dar não como conseqüência de uma imposição do Estado, mas como resultado de uma opção conscientemente revolucionária dos cineastas. No domínio da arte, defendia a total liberdade de criação. É isso que nos confirma Maurice Nadeau no prefácio da obra de Trotsky, Literatura e Revolução:

Fora de critérios categóricos: "a favor ou contra a revolução", a política do Partido — e Trotsky a fórmula sem ambigüidades — resumia-se em um princípio: "liberdade total de autodeterminação no domínio da arte"9.
No período posterior à morte de Lenin, essa posição foi sendo, progressivamente, suplantada pelo dirigismo partidário, culminando com a consolidação do realismo socialista nos anos trinta. Os artistas, por sua vez, tornaram-se completamente vulneráveis às pressões do Estado. Este também foi o destino de Serguei Eisenstein.

Eisenstein segue o curso da história

Nascido na cidade de Riga, em fins do século XIX, Eisenstein passou a infância e a adolescência distante da agitação política da Rússia pré-revolucionária. Ao completar 17 anos, mudou-se para Petrogrado para ingressar no curso de engenharia civil, pretendendo seguir a carreira profissional do pai. Durante os dois anos que permaneceu no Instituto dos Engenheiros Civis, desenvolveu o gosto pelo raciocínio lógico, que lhe seria útil alguns anos mais tarde no processo de elaboração de suas teorias cinematográficas. Foi também nesse período que ele iniciou os primeiros contatos com o mundo da arte e da política.

Em 1917, foi convocado para prestar o serviço militar, alistando-se na Escola Preparatória para Oficiais. Seu destacamento foi enviado para o front em agosto. Nesse momento, Eisenstein deu os primeiros passos no sentido de unir a arte aos ideais revolucionários. Ele tornou-se bastante conhecido no exército, em função das caricaturas que fazia sobre o Governo Provisório10.

Após a tomada do poder pelos Bolcheviques e o início da guerra civil, Eisenstein ingressou como voluntário no Exército Vermelho, partindo logo depois para combate no front Noroeste. Sua maior contribuição durante a guerra foi organizar grupos teatrais de propaganda engajada, cujas peças eram exibidas aos soldados. Ao retornar, abraçou definitivamente a vida artística, tornando-se, em 1920, ator, diretor e cenógrafo do Primeiro Teatro Operário, o Proletcult11.

Ainda no teatro, Eisenstein começou a formular as teorias que comporiam a base de sua linguagem cinematográfica. Como a maior parte dos artistas dessa época, Eisenstein estava de pleno acordo com o princípio da utilidade revolucionária da arte. Defendendo a aplicação do método marxista à arte, desejava a união desta com a política, a ciência e a história, lutando pela criação de uma arte totalizante, pela corporificação da idéia da realização da unidade. Dentro dessa linha de pensamento, foi elaborando a teoria da montagem, que estruturaria toda a sua obra ulterior. Compreendendo que o teatro impunha certos limites à aplicação da montagem, logo ingressou no universo cinematográfico. Em 1923, realizou seu primeiro filme (um curta-metragem) — O cinediário de Glumov —, caricatura da classe dominante às vésperas da Revolução. Um ano depois, dirigiu seu primeiro sucesso: A greve.

A greve surgiu como resultado da transformação de um projeto inicial, intitulado Em direção à ditadura12, que visava refletir, através de sete episódios, as mudanças transcorridas na Rússia entre 1900 e 1917. Sua versão final se concentrou na história de uma greve, ocorrida em 1912, duramente reprimida pelas forças czaristas. Na verdade, o filme não contém uma narração linear dos acontecimentos, com intrigas e personagens principais. Trata-se de uma demonstração da força contagiante das massas em revolta. Seu objetivo, nunca negado pelo autor, era propagar o espírito revolucionário, assim como a sua necessidade histórica. Considerado como o primeiro filme proletário, a película obteve uma grande aceitação nos setores governamentais e na intelectualidade soviética.

A greve já contém os elementos teóricos daquilo que Eisenstein chamou de "montagem de atrações". Experiências anteriores já haviam comprovado que a justaposição de dois elementos numa película poderia criar uma nova significação completamente distinta dos significados originais de cada elemento. Esse processo de manipulação de imagens, alcançado através da montagem, passou a ser utilizado voluntariamente pelos diretores cinematográficos. Eisenstein desenvolveu esses princípios elementares da montagem, defendendo ainda a necessidade de momentos abaladores, impetuosos, chocantes (as atrações) que gerassem no espectador, através dos dispositivos emocionais, um efeito psicológico matematicamente calculado pelo autor. Esses "momentos abaladores" seriam conseguidos através da utilização da montagem e de recursos especiais como fortes contrastes, repetição e ritmo frenético das imagens e digressões simbólicas. Muitas de suas conclusões foram baseadas no princípio de condicionamento de Pavlov, nas técnicas de associação e de lavagem cerebral. Com Eisenstein, o cinema se transformou conscientemente em uma máquina-psicológica que, inicialmente, ficou a serviço da revolução. De acordo com os estudiosos Furhammar e Isaksson, as teorias eisensteinianas fizeram do diretor um ditador que aprisionou o espectador, acabando por formular os princípios básicos dos filmes de propaganda que se baseiam na idéia de que

... através da manipulação da imagem cinematográfica da realidade é possível também se manipular os "conceitos" do espectador sobre a realidade — isto é, os conceitos sobre os quais fundamenta suas atitudes e ações13.
Apesar dessas conclusões não serem de todo equivocadas, elas apresentam uma visão parcial da questão, visto que não se trata apenas de compreender que o cinema proposto por Eisenstein visava a fins propagandísticos, o que o próprio autor não escondia, mas sim de analisar esse elemento dentro de uma concepção geral de arte que, de forma alguma, se limitava à propaganda.

Todas as aplicações teóricas realizadas em A greve foram novamente adotadas no segundo filme de Eisenstein — O encouraçado Potemkin —, dessa vez de forma muito mais elaborada e consistente. Encomendado pelo Estado Soviético para a comemoração do vigésimo aniversário da Revolução de 1905, Potemkin assegurou para Eisenstein o maior sucesso de sua carreira artística e mesmo da história do cinema soviético. Ele foi aplaudido entusiasticamente pelos revolucionários de toda a Europa Ocidental, assim como pela intelligentsia e pelos dirigentes soviéticos. Essa recepção foi resultado, em parte, da perfeição plástica do filme e, principalmente, da força do espírito revolucionário que ele transmitia. É o que depreende Sadoul, por exemplo, quando afirma que

... o sucesso da obra deveu-se sem dúvida a uma forma e uma perfeição inegáveis, mas sobretudo ao calor humano e a fé entusiástica que impulsionavam um tema revolucionário jamais abordado na tela14.
O filme tem como tema a revolta dos marinheiros de um encouraçado, Potemkin, contra a opressão a que estavam submetidos. Esse motim, na realidade, foi um dos acontecimentos que marcaram o movimento revolucionário de 1905, que, inclusive, não se encontrava presente na historiografia oficial da União Soviética. Para a produção do filme, Eisenstein teve que realizar um duro trabalho de pesquisa histórica: buscar vestígios, colher depoimentos, consultar a documentação oficial, construindo assim sua imagem do acontecimento. Nas filmagens, ele não utilizou atores profissionais, procurando, ao máximo, aproximar-se do espírito de 1905, ainda vivo na memória de muitos habitantes da cidade. O filme conseguiu documentar não apenas um acontecimento isolado, o motim dos marinheiros do Potemkin, mas a Revolução de 1905 como um todo, a situação de degradação, de opressão, de miséria da população russa e de todos os povos que se encontravam historicamente subjugados. O Encouraçado Potemkin proclama, em última análise, a necessidade da revolução mundial, cujo primeiro passo havia sido dado pela Rússia em 1917.

No entanto, Potemkin, assim como todos os filmes de Eisenstein, não conseguiu agradar ao grande público, às massas, que eram, na verdade, o grande herói das suas primeiras produções e a quem elas visavam alcançar. Isso se deveu, em grande medida, à complexidade da sua linguagem, que estava muito além das possibilidades de entendimento da população russa, composta, em sua maioria, por camponeses iletrados. De acordo com o historiador Arnold Hauser, pode-se dizer que

... o grande público não reage ao que é artisticamente bom ou ruim, mas às impressões pelas quais se sente tranqüilizado ou alarmado em sua própria esfera de existência. Interessa-se pelo que possui valor artístico, desde que seja apresentado em harmonia com sua mentalidade15.
Uma outra hipótese para a "rejeição" popular aos filmes de Eisenstein vincula-se à não aceitação da própria Revolução por grande parte da população camponesa. A tendência natural do espectador médio é apreciar apenas os filmes com os quais se identifica e que compartilham seus valores.

Mesmo não alcançando plenamente seu objetivo final, conscientizar as massas da necessidade da revolução e da construção do socialismo, esses dois filmes desempenharam um grande papel histórico na sociedade soviética. Eles marcaram a primeira fase da história da Rússia pós-1917, da tomada de poder, da luta pela consolidação interna da Revolução e pela sua expansão externa (revolução mundial) e da liberdade de criação. Enfim, essas duas películas registraram, com alto grau de sensibilidade e autenticidade, a existência de um espírito verdadeiramente revolucionário.

Paralelamente ao desenvolvimento do que poderíamos chamar de idade de ouro do cinema russo, a sociedade soviética assistia ao surgimento de forças contra-revolucionárias no interior do Partido Bolchevique. O isolamento da Revolução e as duras condições de sobrevivência do regime facilitaram a criação de uma casta burocrática que, pouco a pouco, foi usurpando o poder revolucionário e se afastando das massas. Esse processo de "degeneração burocrática", como o denominava Trotsky, foi liderado e conduzido por Joseph Stalin que, em 1922, havia se tornado Secretário Geral do Partido16. A morte de Lenin, em 1924, acelerou o processo de burocratização do Estado soviético, pondo fim, definitivamente, à primeira fase da história da União Soviética, caracterizada pela existência de liberdade política. Iniciou-se um período de lutas internas pela sucessão do poder entre a velha guarda bolchevique, liderada por Trotsky, e o aparelho burocrático, conduzido por Stalin. Essa disputa verificou-se, no campo teórico, através da oposição das teorias da revolução mundial, defendida pelos bolcheviques, e a do Socialismo num só país, criação stalinista. Através do jogo político de bastidores e da aplicação do terror generalizado, Stalin conseguiu derrotar seus opositores, assegurando o poder em nome de uma classe privilegiada: os apparatchiks17. No entanto, isso não ocorreu de maneira instantânea e sem a reação de alguns setores da população, contrários à nova linha política do Partido. Somente nos anos trinta, após a dizimação completa da antiga liderança bolchevique e de todas as forças internas de oposição, Stalin conseguiu consolidar sua hegemonia.

Essas transformações no cenário político da União Soviética se refletiram violentamente nas manifestações artísticas e, em especial, no cinema. Lunacharsky foi substituído, segundo ordens de Stalin, por Boris Shumgatsy, homem de sua "confiança". Progressivamente, a atmosfera de liberdade artística foi cedendo lugar à censura, à repressão e à transformação da arte em um instrumento vulgar de glorificação do Partido, de sua política e, mais tarde de seu líder, Stalin. Com a adoção do realismo socialista, em 1934, essa política foi oficializada e tomada como dogma. O cinema passou a servir, de modo irrestrito, aos interesses da burocracia, limitando-se a se constituir em uma ferramenta de educação para o ensino do "socialismo". Na verdade, seu único objetivo tornou-se a exaltação do Partido e de seu líder. Muitos artistas que haviam participado ativamente da Revolução não suportaram conviver com essa atmosfera de terror e acabaram se suicidando, como Maiakovsky e Essenin.

Os cineastas não podiam mais escolher os temas de seus filmes e todos os detalhes de seu trabalho eram submetidos à apreciação do Partido. Cada roteiro, por exemplo, tinha que ser analisado por 28 repartições de censura antes de ser liberado. Sem falar da equipe de produção que era, muitas vezes, indicada por burocratas, sem nenhum critério de escolha que não o político rasteiro.

Em 1927, quando já tinha iniciado as gravações de um filme sobre as fazendas coletivas, denominado, inicialmente, de O novo e o velho, Eisenstein teve que interromper seu trabalho para atender a uma solicitação do partido: realizar um filme sobre a Revolução de Outubro em vistas da comemoração do seu décimo aniversário. Para a produção, Eisenstein contou com abundantes recursos e com toda a infra-estrutura de que necessitou. O Palácio de Inverno ficou a sua disposição durante meses e, como havia racionamento de energia, a cidade de Leningrado teve que permanecer sem luz durante várias noites em função do filme.

Outubro é uma película que, apesar de manter muitas das características dos filmes anteriores do diretor, já demonstra algumas transformações de estilo. Esse filme é o resultado da aplicação de um novo método de montagem elaborado pelo diretor, denominado de "montagem intelectual". Esse método visava a cinematização de conceitos abstratos, de fenômenos intelectuais e de teses logicamente formuladas. Uma película não teria por objetivo a narração de acontecimentos, mas sim de sistemas de noções que seriam apreendidos pelo espectador através do esforço intelectual, auxiliado por estimulantes visuais, auditivos e bio-motores18. O grande sonho de Eisenstein, no que concerne ao cinema intelectual, era realizar um filme que retratasse nas telas O Capital de Marx, o que nunca foi permitido por Stalin.

Outubro apresenta ao espectador alguns episódios que marcaram o período compreendido entre fevereiro e outubro de 1917. A participação do Partido Bolchevique é destacada, mas seu papel não é exaltado. A única liderança que se destaca é a de Lenin. Stalin não aparece no filme nenhuma vez. Na realidade, estamos nos referindo à versão oficial, posterior à censura. O filme original tinha quase três horas de duração: mais de uma hora de filme foi cortada, sobretudo as cenas nas quais Trotsky, Zinoviev e Kamenev apareciam. No único momento da versão final do filme em que Trotsky aparece, sua atuação é distorcida e apresentada de um ângulo negativo19.

A burocratização da arte

No mesmo dia da estréia de Outubro, em Moscou, 7 de novembro de 1927, ocorria também ali a última manifestação da Oposição Unificada de Esquerda20 , derradeiro vestígio da democracia no interior do Estado Soviético.

O filme foi odiado pelos burocratas, rejeitado pelo público e criticado pela intelectualidade russa. A linguagem era ainda mais complexa que a de seus filmes anteriores e, ao Partido, não havia sido dado o lugar que a burocracia desejava. A presença das massas era forte, mas não causava o impacto de antes. Eisenstein não desejava fazer um filme puramente propagandístico, mas já não dispunha da liberdade de antes. Ficou no meio do caminho ... Seria ele uma espécie de Michelet da cinematografia russa?

Outubro é uma película polêmica que suscita muitas especulações. A opção por uma linguagem tão complexa seria gratuita? Poderia Eisenstein estar tentando encontrar uma fórmula na qual sua mensagem não fosse captada pela "sensibilidade" artística dos burocratas? Por que Stalin não se encontra nele presente? Essa ausência não significaria uma espécie de oposição ao poder pessoal de Stalin? E quanto à representação da figura de Lenin? Estaria ele dando início ao culto a sua personalidade21, tão útil aos planos políticos de Stalin?

Algumas dessas questões podem ser interpretadas através da análise do momento histórico da União Soviética naquele momento. Stalin se encontrava no poder, mas sua ditadura pessoal ainda não havia sido consolidada. Havia muita oposição interna à sua política e os principais participantes do movimento de 1917 ainda estavam vivos e atuavam na vida política da Rússia. Stalin agia, mas com limites. A falsificação da história, que o colocaria como o principal herói da Revolução, ao lado de Lenin, não havia sido iniciada. O extermínio em massa da velha guarda bolchevique iria ocorrer somente a partir de 193422. Além disso, Stalin não era ainda uma figura política popular, reconhecida nacionalmente. Era necessário primeiro reforçar seu poder e construir aos poucos sua imagem, projetando-se na figura de Lenin. Após sua morte, Lenin havia sido transformado no grande herói da nação, no "Deus absoluto da Revolução". A nova política do Partido precisava de um herói para ser apresentado às massas. Mas só depois de muito tempo é que Stalin estaria em condições de assumir a condição de "pai do povos", sobrepondo-se à imagem de Lenin.

Não obstante toda a pressão do Partido e a posição contrária da crítica, Outubro é uma película com muitos aspectos positivos. O espírito do internacionalismo socialista, ponto crucial nas discussões da época e tão combatido por Stalin, está presente em toda a obra23. O papel das massas ainda é apresentado como essencial para o processo revolucionário. Em termos estéticos, Outubro é um filme muito bom, ainda que seja inferior a Potemkin.

Após concluir os trabalhos de Outubro, Eisenstein retomou a produção de O novo e o velho, mas encontrou muitas dificuldades para finalizá-lo. O Partido já dava os passos iniciais em direção às coletivizações forçadas das terras. O roteiro original do filme teve que ser modificado, passando a se chamar A linha geral, de acordo com a "nova linha" adotada pelo Estado. Mesmo assim, o filme não agradou aos burocratas. Eisenstein continuava utilizando a montagem intelectual, elevando, cada vez mais, a complexidade de sua linguagem. Após a estréia do filme e a reação provocada nas esferas do poder, Eisenstein foi obrigado a se retratar e a assumir publicamente os "erros" que havia cometido. A linha geral foi o último filme do diretor, cuja temática foi escolhida livremente. Daí em diante, todos os seus filmes seriam imposições do Partido.

Em 1930, realizou uma viagem à Europa e à América com o objetivo de "estudar o cinema sonoro". Na verdade, este não passava de um pretexto oficial para escapar das pressões políticas a que estava sendo submetido. Após algum tempo na Europa, dirigiu-se aos Estados Unidos com a missão de realizar um filme para a Paramount, intitulado de Uma tragédia americana. No entanto, seu roteiro foi sumariamente recusado, porquanto "não se adequava à realidade do cinema americano". Foi então convidado por um político "progressista" americano, candidato ao governo da Califórnia, a realizar um filme no México, que resgataria a história deste país das suas origens até à atualidade. Quando estava finalizando as filmagens, Stalin exigiu o seu retorno à URSS e conseguiu, através de manobras políticas, que o patrocinador do projeto, Upton Sinclair, não o levasse adiante. Eisenstein nem pôde ter acesso aos filmes revelados24. Acreditando que o Ocidente não estava ainda preparado para o tipo de arte que se propunha a fazer, Eisenstein retornou ao seu país para viver um período bastante difícil de sua vida, tanto do ponto de vista pessoal como profissional. Teve muitos problemas com a administração da Indústria Cinematográfica, controlada por Boris Choumiatsky. Em função do prolongamento de sua viagem, recebeu uma pena de sete anos, nos quais não poderia escolher os trabalhos que iria desenvolver. Eisenstein optou por concentrar-se nos seus estudos teóricos e no trabalho enquanto docente. Não levava uma vida social ativa porque acreditava que, dessa forma, estaria demostrando sua desaprovação para com a situação política do país naquele momento. Por não aceitar os convites de inaugurações e de homenagens para qual era convidado a participar, era visto como um "esnobe" e era excluído do meio social da intelectualidade oficial. Nesses anos, em que foi duramente perseguido, sofreu intensamente de problemas nervosos, principalmente de depressão.

Em 1937, recebeu uma nova incumbência do Partido, uma encomenda pessoal de Stalin: realizar um outro filme sobre as coletivizações das terras. O roteiro no qual Eisenstein começou a trabalhar girava em torno do drama de um kulack25 que mata o filho porque este tentava implantar o sistema de coletivização das terras na pequena aldeia de camponeses em que habitava. As gravações de O Prado de Bejin foram interditadas, sob a argumentação de que o filme não se enquadrava nos princípios do realismo socialista. Os autores do roteiro foram presos como "inimigos do povo" e mandados para o Gulag sem direito a julgamento. Eisenstein foi novamente obrigado a se retratar, como se pode deduzir da citação que se segue:

Sinto ardentemente a necessidade profunda de corrigir totalmente os erros do meu ponto de vista, de enraizar um novo ser em mim, e a necessidade do domínio completo do Bolchevismo, de que falou o camarada Stalin durante essa sessão26.
Imediatamente depois, Stalin lhe fazia um outro convite: realizar seu primeiro filme sonoro, cujo tema seria a história do combate entre russos e teutônicos (alemães) no século XIII. Essa luta havia sido ganha pela Rússia, durante a Batalha de Peipos, devido à brilhante liderança do "grande capitão" Alexandre Nevsky.

Em meados dos anos trinta, Stalin havia travado uma aliança antifascista com a França e a Inglaterra. A guerra com a Alemanha nazista era um perigo iminente. Em 1938, o Exército Vermelho estava completamente desorganizado depois do extermínio de quase todo o primeiro e segundo escalões. A ameaça nazista tornava necessária a criação de uma atmosfera patriótica na população, saturada pelo terror stalinista.

Para não correr o risco de um nova decepção com seu grande cineasta, Stalin se incumbiu de "indicar" pessoalmente os assistentes com os quais Eisenstein deveria trabalhar no seu novo filme: como co-autor, Pavlenko e como co-diretor, Vassiliev, ambos cineastas de sua "confiança". Além disso, durante todo o processo de produção (elaboração do roteiro, filmagens, montagem), Eisenstein foi acompanhado por comissários políticos que tinham a tarefa de "orientá-lo" no sentido de não cometer deslizes. O resultado foi "excepcional": Alexandre Nevsky foi muito elogiado pela crítica e pelos burocratas. Em conseqüência do sucesso do filme, Eisenstein recebeu diversas homenagens, prêmios e títulos: a Ordem de Lenin, o título de Doutor em Artes e o Grande Prêmio Stalin.

Alexandre Nevsky tem um estilo muito diferente dos filmes anteriores de Eisenstein. Foi concebido como uma ópera cinematográfica, musicada por Prokofiev. O papel das massas foi relegado a segundo plano, em nome da atuação do grande herói — Nevsky. Sadoul observa que

Nevsky representou uma virada decisiva na obra de Eisenstein, que passou das massas tomadas como heróis para heróis de tragédia, bem caracterizados e transfigurados por sua missão histórica27.
A mesma observação é feita por Furhammar e Isaksson:

Durante a era Stalin, a massa foi tornada anônima até que se tornou virtualmente um pano de fundo frente ao qual atuava o herói positivo28.
O internacionalismo proletário cedeu lugar ao patriotismo. O espírito revolucionário se esvaneceu. Isso pode ser comprovado nas próprias palavras de Eisenstein: "Nosso tema era o patriotismo!"29

O objetivo de Stalin com Nevsky era produzir um clima de patriotismo na população para o caso de invasão alemã e, além disso, mostrar como as lutas internas impediam a construção de um Estado forte, justificando assim todos os abusos que havia cometido. Os cavaleiros teutônicos, adversários russos, foram representados como verdadeiros jovens hitleristas: cruéis, desumanos, bárbaros. Até mesmo os símbolos dos dois exércitos foram colocados em paralelo. A cruz do elmo do cavaleiro teutônico lembrava claramente a suástica nazista, assim como o seu capacete.

No entanto, o filme só pôde ser lançado três anos depois de sua finalização. Em agosto de 1938, Stalin assinava com Hitler o Pacto Germânico-Soviético30. De inimigos, os nazistas se transformaram, repentinamente, em aliados soviéticos. Eisenstein foi obrigado a fazer uma saudação pelo rádio do Comintern a seu "companheiro cultural", Hitler, grande admirador de sua obra. A situação se tornava cada vez mais insuportável!

Em 1939, ao tentar realizar um filme sobre a construção do canal de Fergana, foi imediatamente obrigado a paralisar os trabalhos. Indignado, Eisenstein tentava, num ato de desespero, ridicularizar a figura de Stalin, realizando um paralelo entre sua personalidade política e a de um dos personagens do filme: Tarmelão, um tirano impiedoso e sem escrúpulos. Após a dura reação do Partido, em meio a diversas crises nervosas, chegou a pensar em suicídio. Foi dissuadido por sua esposa, Pera Attacheva.

Em 1941, Stalin encomenda um outro filme a Eisenstein. Deveria ser levada às telas a história de Ivan, aquele que havia sido um dos "fundadores da Rússia". Ivan, durante sua vida política, havia empreendido lutas sucessivas para transformar a Rússia numa grande potência, saindo vitorioso.

A historiografia da época, inclusive a "marxista", apresentava Ivan como uma figura negativa, um verdadeiro tirano. Nada disso foi levado em consideração.

O projeto de Ivan, o Terrível previa a realização de três filmes que tratariam cada um de uma etapa específica da vida do czar. A primeira parte ficou logo concluída e transformou-se imediatamente em um grande sucesso. Stalin ficou muito satisfeito e Eisenstein foi consagrado com o Grande Prêmio de Estado. Porém, a mesma sorte não obteve a segunda parte, finalizada em 1946. Nesta, Eisenstein apresentava Ivan como um louco assassino, como um paranóico que vivia a manipular o poder em proveito próprio.

A identificação do filme com o presente era tão grande, que Eisenstein não hesitou em se auto-retratar. Ele projetava sua angústia e seu desespero frente ao regime stalinista na humilhante relação dos personagens Ivan (Stalin) e Wladimir (Eisenstein).

Após concluir a segunda parte de Ivan, o Terrível, Eisenstein sofreu uma ataque cardíaco. Ao se recuperar, foi "convidado" a comparecer a uma audiência privada com Stalin. Nessa conversa, ficou decidido que refaria a segunda parte do filme, antes de dar início à terceira e que depois dirigiria um grandioso projeto : a produção de Cáucaso, Moscou, Vitória. Neste filme, Eisenstein contaria a trajetória pessoal e política de Stalin. Mas seu estado de saúde não permite que ele prossiga. Em 11 de fevereiro de 1948, Eisenstein morre sem ter tido tempo de concluir "seus" últimos projetos. Com sua morte, a exibição de seus primeiros filmes foi proibida, assim como o ensinamento de suas teorias.

*

A vida e a obra de Serguei Eisenstein constituem-se em testemunhos da evolução política da Rússia revolucionária e da posterior burocratização do Estado Soviético. Seus filmes são um dos maiores documentos dessa trágica história e pontuam claramente as modificações introduzidas através de cada conjuntura. Eles refletem uma busca quase que desesperada do diretor de influir no curso da história e, mais ainda, são exemplos singulares de como a história pode condicionar o cinema.

Eisenstein nunca rompeu abertamente com o regime. Nunca teceu, publicamente, críticas a Stalin. Poderia ter permanecido no Ocidente no momento de sua viagem à Europa e à América (a única consentida pelo Partido), mas não o fez. Poderia ter-se suicidado em protesto, como muitos o fizeram. Mas não o fez. Sem dúvida, teve suas razões. No entanto, sua "conivência", como afirmam muitos, não foi absoluta. Não obstante todas as "concessões", poucos artistas tiveram a coragem de realizar, numa conjuntura como aquela, uma obra como Ivan, o Terrível (segunda parte). E o que nos impressiona, a nós historiadores, é que ele não tenha sido considerado inimigo do povo, enviado aos campos da Sibéria ou simplesmente assassinado. Stalin, como em poucos momentos de sua história, compreendeu a importância de manter, "ao seu lado", um cineasta com o valor de Eisenstein.

As relações dos cineastas com o Estado nos regimes ditatoriais é um ponto fundamental à compreensão da relação cinema-história. Elas não podem ser analisadas através de ótica simplista, superficial e maniqueísta. Não se trata de julgar o artista, de considerá-lo herói ou vilão, stalinista ou não stalinista, mas sim de compreender o fenômeno artístico de uma perspectiva global, levando-se em consideração todas as suas contradições. Um dos que melhor captou a dramaticidade da situação do artista e do papel da arte — ele, ao mesmo tempo artista e revolucionário — foi George Orwell. Foi ele que, a respeito da União Soviética, afirmou que

... numa sociedade como essa, a condição normal do homem é aprender a falar e a pensar com duplo sentido. Tal condição gera inevitavelmente um conflito irreconciliável em todas as esferas, sobretudo a artística. O artista que vive sob a tirania e a censura tem que fazer a verdade transparecer por meios de imagens artísticas e de alegorias metafóricas, de recorrer a meias palavras e àquilo que os russos chamam de "inoskazanie" (nas entrelinhas)31.
Orwell, não por acaso, escreveu A Revolução dos Bichos, 1984 e Homenagem à Catalunha. Neste último, presta não somente uma homenagem à Espanha revolucionária, mas também exibe a tragédia da política stalinista na Guerra Civil Espanhola. Traduzindo de modo sintético a realidade dos anos trinta, afirmou que "aquele que domina o presente domina o passado", sem esquecer da idéia de que apreender e explicar o passado é condição indispensável para se influenciar o futuro. Talvez se Eisenstein tivesse lido Orwell, pelo menos teria encontrado consolo na sua obra. Mesmo sem tê-lo feito, é inegável que da obra deste cineasta, que queria dotar o povo — que para ele se constituía no demiurgo da história — de uma verdadeira consciência, brota a própria história. Portanto, nada mais justo que, no ano do centenário da sétima arte, prestarmos a nossa homenagem a ele que foi um dos seus maiores mestres.

Revista Olho da Historia