Mostrando postagens com marcador Proclamação da Republica no Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Proclamação da Republica no Brasil. Mostrar todas as postagens

domingo, 27 de maio de 2012

Rapidinhas ... Proclamação da República no Brasil

A implantação da República no Brasil ocorreu no mesmo ano dos festejos do centenário da Revolução Francesa.
Os jacobinos republicanos brasileiros idealizavam um início de República com o povo lutando pelas ruas, mas a realidade foi bem outra: a república foi proclamada por um grupo de militares, sem participação popular, fosse de apoio aos republicanos ou de defesa da monarquia que caía. Na interpretação decepcionada de Aristides Lobo, protagonista da República, o povo teria assistido `bestializado` à instalação da nova forma de governo.
Muitos intelectuais e jornalistas procuraram demonstrar a posição neutra do povo no evento. Hoje, a participação do povo e sua compreensão sobre o momento político têm outras interpretações.
Fonte: História - Ronaldo Vainfas e ouros. Saraiva, 2010.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Estratégias populares de sobrevivência: o mutualismo no Rio de Janeiro republicano


Cláudia Maria Ribeiro Viscardi

Professora Associada do Programa de Pós-Graduação em História da UFJF. Doutora em História Social pela UFRJ. Bolsista de produtividade do CNPq. Laboratório de História Política e Social (LAHPS), Departamento de História/ICH, salas 26 e 27. Campus Universitário (UFJF), Bairro Martelos. 36036-330 Juiz de Fora – MG – Brasil . claudia.viscardi@ufjf.edu.br


Historicamente, o olhar sobre a pobreza permitiu diferentes abordagens em relação a suas causas, sua contingência real ou ilusória e alternativas de sua superação. Como narra a historiografia sobre o tema, especialmente relacionada à Europa Ocidental, no período medieval a pobreza era vista como virtude daqueles que por ela optavam com o fim de expurgar pressupostos pecados. Mais tarde, constituiu-se em indício da presença de vícios, como a preguiça, o desânimo, a imprudência, ou da ausência de caráter. Ao final do século XIX, passou a ser vista como um mal derivado das circunstâncias históricas, e responsabilizaram-se agentes econômicos impessoais, como o mercado, os mecanismos desiguais de distribuição de renda, o desemprego e tantos outros.2

Tais diferentes olhares sobre a pobreza foram acompanhados de estratégias construídas para a sua superação ou amenização, as quais igualmente variaram no tempo e no espaço. As elites políticas e econômicas, os religiosos, os filantropos laicos, os intelectuais e os cientistas, entre outros setores sociais, não se eximiram de opinar sobre o problema ou de agir sobre ele. Tão logo a pobreza foi estigmatizada, deixando de ser uma virtude responsável pela salvação de suas vítimas, os filantropos (laicos ou religiosos) empenharam-se para minorála mediante inúmeras ações, que incluíam a doação de alimentos, roupas, remédios e dinheiro, entre outros itens. Como o pauperismo não regredia, a solução foi investir na construção de abrigos, que assumiram o formato de hospitais, hospícios, albergues, orfanatos ou asilos. Em todo o mundo ocidental tais soluções se repetiram, de forma minimamente diferenciada.

Em geral, quando se aborda o tema da pobreza, as preocupações se voltam para os não pobres, que lutam por dirimi-la. Pouca atenção é conferida para as estratégias que os próprios pobres engendravam, em sua luta cotidiana pela sobrevivência. Quando o tema é assistência ou seguridade social, pouco se fala sobre os incontáveis momentos em que os próprios pobres se ajudavam mutuamente. Mesmo vitimados por mazelas comuns, encontravam meios de expandir laços de solidariedade entre si, responsáveis pelo fortalecimento de elos comunitários, sem os quais dificilmente se manteriam vivos. Ações simples como o cuidado com as crianças dos vizinhos, os pequenos empréstimos e o abrigo voluntário a quem dele não dispusesse, entre outras colaborações, são fartamente encontradas nas mais diversas comunidades carentes, desde tempos imemoriais. Por essa razão, Robert Castel chamou-nos a atenção para o personagem que adveio no novo roteiro inaugurado com a implantação do capitalismo no campo: o "desfiliado". Para o autor, esse personagem se definia como o trabalhador que, ao não encontrar mais condições de ocupação no campo, em razão das mudanças lá introduzidas, abandonava a sua comunidade de origem e se lançava numa aventura nova em busca de sobrevivência, normalmente migrando das áreas rurais para as cidades. Tal movimento migratório rompia com os laços de proteção comunitária em que esse personagem se enredava, tornando-o um desfiliado (Castel, 1998, p.43).

Os pobres possuem à sua disposição algumas estratégias de superação da pobreza. Mas elas podem ser agrupadas em duas modalidades de escolha, raramente excludentes: o apelo por proteção de alguém que dispõe de bens disponíveis a serem doados, e o recurso à ajuda mútua, na qual o próprio grupo se apoia, estabelecendo redes de colaboração entre seus membros.

Daí decorrem dois tipos de relação social. No primeiro caso, o outro a quem se recorre pode assumir a face de uma Igreja, do Estado, do cidadão benemérito ou do coronel, e outras tantas variações que se encaixam bem no conceito de paternalismo. Tal relação tende a ter um trajeto verticalizado, no qual o doador estabelece com o receptor uma hierarquia cujo tom, à revelia das intenções ou motivações, será o do poder de quem doa sobre quem recebe. Nessa situação, o receptor se encontrará submetido ao doador, mesmo que este último não se utilize da relação em seu próprio proveito. No segundo caso, o outro é um igual, aquele que compartilha das mesmas necessidades e potencialidades. Juntos, desenvolvem relações de reciprocidade que tendem a ser mais balanceadas. Todos contribuem e todos recebem a contribuição. Realçam o ethos da obrigação mútua e a responsabilidade coletiva pelo bem-estar dos outros. Nesse contexto as relações tendem a ser mais horizontalizadas, e as hierarquias, menos definidas. A dependência persiste, mas assume um caráter mútuo.

A definição e a mensuração da pobreza sempre se constituíram em problema para os cientistas sociais e, sobretudo, para os historiadores, na medida em que o conceito variou no tempo e no espaço. Para os fins desta pesquisa, optou-se por adotar um conceito mais geral, por ser mais adequado à realidade brasileira nas primeiras décadas do século XX, foco do presente artigo.

Udaya Wagle sugere a junção de três referenciais para que se possa conceituar melhor a pobreza: o referencial econômico, o capacitário e o da exclusão social. Dessa forma, a autora entende a pobreza como a ausência de renda e riqueza (econômico); de educação e saúde, condições que capacitam os indivíduos a adquirirem renda ou riqueza (capacitário); e a presença da exclusão étnica ou de gênero, o que impede que os indivíduos participem politicamente da vida cívica e cultural de uma sociedade (referencial da exclusão social).3

Nesse sentido, os recursos à filantropia e ao mutualismo podem ser lidos como duas das inúmeras alternativas disponíveis aos pobres para a superação de determinadas carências, resultantes da situação de pobreza. Graças à filantropia era possível obter, em parte, condições para complementar a renda, manter ou melhorar a saúde ou ter acesso à educação. No que tange à estratégia mutualista, os trabalhadores poderiam garantir por meio dela uma renda complementar, o acesso ao atendimento médico, ou diminuir os efeitos da exclusão social, na medida em que tais sociedades ofereciam espaços de formação de uma cultura cívica e, eventualmente, de participação política.

É sobre uma dessas alternativas de enfrentamento da pobreza que pretendemos refletir neste artigo. Para tal, escolhemos o recurso à ajuda mútua, através da participação dos trabalhadores em associações mutualistas, muito embora a filiação a uma mutual estivesse longe de garantir imunidade contra o empobrecimento. Além disso, recorrer à autoajuda ou submeter-se à caridade muitas vezes não derivavam de escolhas racionais dos agentes vitimados pela pobreza, mas de inúmeros outros fatores que os levavam à condição ou de sujeitos de sua própria sobrevivência, ou de objetos da boa vontade alheia, ou mesmo de ambos.

Fazem parte do debate sobre o mutualismo as teses que alegam ter sido o movimento composto não por trabalhadores pobres, mas pela "aristocracia operária".4 Ademais, sabe-se que alguns indivíduos bem aquinhoados poderiam compor uma mutual, embora não se constituíssem na maioria de seus sócios. A despeito de tais ponderações, é inegável que o movimento associativo mutualista foi composto, sobretudo, por trabalhadores – assalariados ou não – que por não serem ricos, precisavam garantir a sua sobrevivência e a de seus familiares em momentos de infortúnio. Dessa forma, as mutuais recrutaram seus sócios preferencialmente entre os trabalhadores humildes, que não fossem totalmente destituídos ou marginalizados, mas que delas necessitassem, por não disporem nem da proteção do Estado nem de riquezas acumuladas. Na ausência das mutuais, só lhes restaria a caridade alheia.

A proximidade entre tais estratégias de sobrevivência levou grande parte de seus agentes a ter dificuldade no estabelecimento das fronteiras entre mutualismo e filantropia. Tanto no ocidente europeu como no Brasil, várias mutuais praticavam caridade, e os legisladores tiveram problemas em definir as sociedades como de socorro mútuo, beneficentes, filantrópicas, seguradoras privadas com fins lucrativos, ou mesmo sindicais. Simon Cordery afirma que no Reino Unido, só a partir de 1860 se estabeleceu uma melhor distinção entre caridade e ajuda mútua, após a ocorrência de mudanças culturais e políticas. No Brasil, em trabalho anterior, tivemos a oportunidade de refletir sobre a ausência de distinções entre as duas práticas, ao final do século XIX.5

Com o fim de fundamentar as reflexões aqui propostas, escolhemos a cidade do Rio de Janeiro, nas primeiras décadas do século XX. Pretendemos acompanhar de que forma os pobres se ampararam mutuamente, em um período marcado pelo intenso processo de modernização.

Em definição mais clássica, a modernização pode ser entendida como um conjunto de mudanças sociais e políticas que acompanharam a industrialização. Ao longo desse processo, ocorreu a expansão da autoridade pública e da cidadania. Para Bendix, esse intenso movimento de mudança implicou a coexistência entre o tradicional e o moderno nos países onde ocorreu, na medida em que a modernidade implantada foi necessariamente pautada pela tradição acumulada ao longo dos anos anteriores.6

No Brasil, as primeiras décadas do século XX soaram sob o tom da modernização. A abolição havia retirado as amarras que freavam a expansão da cidadania. E o fim da Monarquia, ao descentralizar as estruturas governamentais, permitira maior expansão da autoridade pública.

No que diz respeito à coexistência entre o tradicional e o moderno, típica desse período de transição, pode-se afiançar que o recurso à filantropia denotava a permanência de relações paternalistas tradicionais, que sedimentavam a cultura política brasileira desde o período colonial. Porém, o recurso à ajuda mútua pode ser lido como uma estratégia típica dos contextos nos quais o processo de modernização entrava em curso, na medida em que era capaz de conferir a seus agentes valores muito difundidos pelo discurso liberal dos contemporâneos, tais como os da respeitabilidade, da autonomia e da liberdade.

Não pretendemos com tais relações afiançar que a modernidade, tão logo implantada, teria posto fim às relações de caridade que interligavam pobres e ricos, receptores e doadores de ajuda. Mas pode-se afirmar que o seu avanço, sobretudo nos locais onde ocorreu significativa expansão da cidadania, reduziu as estratégias populares de recorrer-se à filantropia. Abram de Swaan destaca que nos países onde inexistia seguridade social, o apelo para a generosidade das pessoas era muito grande. Após ser instituído o sistema de contribuição compulsória, que garantiu aos pobres a proteção social necessária, retirou-se um pouco da tragédia e também um pouco da magia relativa à religiosidade do homem ocidental.7

Na Europa, o advento do Welfare State foi responsável pela redução significativa do recurso à caridade, embora não tenha posto um fim definitivo às ações filantrópicas, mesmo em seu território. Mas é incontestável admitir que tais ações voltaram-se majoritariamente para outros países e internacionalizaram as relações de caridade, que se tornaram mais impessoais. Atualmente, as Ongs vêm cumprindo um papel cada vez mais efetivo na institucionalização desse tipo de ajuda. Referindo-se a esse contexto, Godelier afirma que as dádivas tornaram-se institucionalizadas, e o dom passou a ser um ato a ligar sujeitos abstratos.8

Tendo por alvo a análise de uma das mais frequentes estratégias escolhidas pelos pobres, como meio de suprir suas necessidades mais imediatas – o recurso à ajuda mútua –, voltaremos agora nosso olhar para o Rio de Janeiro republicano, enfocando esse conjunto de experiências na então capital do Brasil.

O MUTUALISMO NO RIO DE JANEIRO SOB AS LENTES DOS HISTORIADORES

Do que temos conhecimento, o mutualismo carioca foi estudado pioneiramente por Michael Conniff, em 1975.9 O autor teve como objetivo mapear o comportamento associativo do município entre 1870 e 1945. Com esse fim, lançou mão de alguns levantamentos produzidos por encomenda dos governos Imperial e Republicano. Ao analisar as várias modalidades de associações, levou em conta as de caráter mutualista, por ele qualificadas como entidades laicas, inicialmente compostas por trabalhadores qualificados e de renda estável. Mais tarde, o fenômeno teria se tornado mais difuso, ampliando o espectro de associados. O autor confere destaque especial às associações dos funcionários públicos e às associações de trabalhadores por categoria ou empresa. Porém, não trata essas sociedades como mutualistas, embora o fossem em sua maioria. Talvez por essa razão, tenha encontrado tão poucas mutuais no Rio de Janeiro republicano. Em que pese o pouco relevo conferido ao fenômeno, enquanto espaço de representação de interesses, para ele o movimento contribuiu com a explicitação de uma série de conflitos sociais, responsáveis por trazer à tona a chamada 'questão social'.

Mais de dez anos depois, Beatriz Kushnir 10 abordou o tema, embora sua pesquisa não tenha tido como objetivo precípuo estudar o fenômeno mutualista de forma global. Seu trabalho, acerca da prostituição e da sexualidade das chamadas 'polacas' identificou a existência de cinco sociedades mutualistas nas cidades do Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, Buenos Aires e Nova York. Tais sociedades atuavam como mecanismos de proteção das mulheres – em sua maioria judias – em meio às situações adversas em que viviam. Cada uma das associações tinha uma sede social própria, um cemitério e uma sinagoga, além de todo um aparato administrativo eficiente. Graças às mutuais, aquelas mulheres em situação de risco conseguiam reforçar uma identidade afirmativa, amenizando em parte os inconvenientes resultantes de sua marginalidade social. Muito embora o conhecimento sobre a existência de tais sociedades seja relevante para o entendimento do fenômeno mutualista, sabe-se que se constituíram em exceções, na medida em que as mutuais, em sua maioria, eram espaços masculinos.

Cláudio Batalha, ao analisar um conjunto variado de fontes, identificou que a maior parte das sociedades de trabalhadores formadas na cidade do Rio de Janeiro entre 1835 e 1899 era de caráter mutualista. Em seu trabalho aborda as relações dessas sociedades com a escravidão, com o republicanismo e com o movimento sindical. Levanta a hipótese de que as mutuais eram os únicos espaços legalmente disponíveis aos trabalhadores manuais que quisessem se organizar após 1824. Por essa razão, muitas mutuais se utilizavam des-se precedente para atender ao seu objetivo primordial, que era o da defesa profissional. Batalha leva em conta também as relações existentes entre as mutuais, irmandades e corporações de ofícios, modalidades diferentes de organização da sociedade civil, mas que compartilhavam uma série de valores, rituais e práticas comuns.11

Mais tarde, o trabalho de Ronaldo de Jesus,12 focado nas relações entre o povo e o monarca, tal como Batalha, utilizou igualmente do conjunto documental disponível no Conselho de Estado. Em sua análise destacou que algumas mutuais recorriam ao Império para requisitar algum tipo de apoio que lhes garantisse a subsistência. Quando conseguiam, podiam usar o prefixo "Imperial" em seus nomes. O autor destaca a existência de mutuais compostas exclusivamente por escravos, algumas delas formadas para financiar a compra de alforrias. Encontrou outras, de caráter menos popular, que recebiam o apoio de setores da elite, levando-as a travar compromissos políticos que resultaram, na maioria das vezes, em restrição de sua autonomia.

Em levantamento posterior realizado sobre a mesma documentação, o mesmo autor encontrou 239 associações funcionando no Rio de Janeiro, entre 1860 e 1889. Delas realçou as compostas por trabalhadores: ourives, tipógrafos, artistas da construção naval, maquinistas, alfaiates e operários fabris, entre outros. Ronaldo de Jesus identificou tais sociedades como espaços de construção de relações de solidariedade horizontais e levantou a hipótese de que, a despeito de as sociedades terem sido marcadas pelos mecanismos tradicionais de dominação política, próprios da sociedade escravista monárquica, suas experiências contribuíram para a formação de uma cultura emergente, específica dos subordinados.13

Recentemente, Vitor Fonseca14 voltou seu olhar sobre o fenômeno associativista da cidade do Rio de Janeiro, de forma mais ampla, incluindo em suas análises as mutuais, as associações filantrópicas, recreativas, religiosas, de lazer etc. Para a produção de um levantamento inédito do fenômeno associativo na cidade, no período compreendido entre 1903 e 1916, o autor se utilizou prioritariamente dos estatutos depositados no Registro Especial de Títulos e Documentos do Rio de Janeiro, bem como de dados referentes a associações encontrados no Almanaque Laemmert. No trabalho produzido consta um acompanhamento minucioso de todo o processo de regulamentação jurídica do fenômeno associativo no Brasil, realizado tanto no Império como na República. Destaca-se, igualmente, a análise empreendida pelo autor sobre as sedes e os diplomas de várias associações.

Para os fins deste artigo, procuramos acessar uma documentação alternativa e complementar às que foram pesquisadas, muito embora, em projeto anterior, tenhamos trabalhado também com a documentação depositada no Conselho de Estado, da qual igualmente lançaremos mão. Assim, utilizaremos dois levantamentos das associações da cidade do Rio de Janeiro, os quais foram produzidos no início do século XX.

O primeiro levantamento foi feito por Ferreira da Rosa, a pedido de Pereira Passos.15 O autor publicou um livro ilustrado sobre a cidade do Rio de Janeiro, do qual constam um breve histórico sobre o município e inúmeras informações sobre seu sistema viário, seus serviços de instrução pública, polícia, abastecimento de água, sua economia e os serviços de assistência. Ao final da obra há um anexo com 181 associações por ele conhecidas, no ano de 1902. Os dados foram recolhidos de 1815 a 1904 (e o livro foi publicado no ano seguinte). Por trabalhar com um pequeno número de associações e com critérios mais homogêneos, os dados de Rosa são muito úteis.

Na gestão do prefeito Bento Ribeiro (1910-1914), o advogado, escritor e jornalista Ataulfo de Paiva foi incumbido de realizar um segundo levantamento estatístico geral de todos os estabelecimentos de assistência pública e privada, existentes na capital. Esse levantamento – no qual foram incluídas as associações mutualistas – buscava produzir um diagnóstico que orientasse o combate à crescente pobreza que avassalava o Rio de Janeiro. A encomenda, iniciada em 1903, só pôde ser concluída em 1922, quando foi publicada em edição comemorativa do centenário de "nascimento" do Brasil.16

Para esse fim, Paiva organizou três tipos diferentes de questionários, que foram enviados às associações de auxílio mútuo, aos asilos e recolhimentos e a hospitais. Ademais, visitou quase todas as instituições sobre as quais obteve informações através do questionário. Foram recenseadas 624 instituições, que se encontravam em funcionamento entre os anos de 1912 e 1920 no Rio de Janeiro.

Com base nessa importante documentação, discutiremos o fenômeno na cidade do Rio de Janeiro sobre três eixos: a composição do movimento, sua dimensão e sua trajetória.

OS INCLUÍDOS E OS EXCLUÍDOS

Raramente as mutuais se construíram em bases igualitárias. Muito embora definissem sua identidade a partir da isonomia e da ajuda mútua, eram estruturas hierarquizadas e excludentes. Para integrar uma mutual era preciso, em primeiro lugar, possuir renda regular, que possibilitasse o pagamento das mensalidades, embora elas fossem baixas. Desse critério já estavam excluídos os desempregados, os miseráveis e os trabalhadores sazonais, entre outros. Mas não era essa a única fronteira que afastava do movimento boa parcela da sociedade civil. Havia outros critérios excludentes como os etários, raciais, de gênero, de status ou de região. Tal fenômeno não foi exclusivamente brasileiro, mas se repetiu em diversos locais do mundo, com ênfase em um ou outro critério, dependendo do país.

Ao se constituírem em espaços de ajuda solidária, tentavam obscurecer as diferenças sociais entre seus membros. Em contraposição, realçavam outras diversidades, tais como as de cor, de gênero e de nacionalidade. Nesse sentido, as mutuais esforçaram-se em negar a importância das diferenças de classe, oferecendo idade, gênero e raça como categorias apropriadas para a organização de identidades coletivas. Mas enquanto a importância social da instituição mutual é reconhecida, há pouco consenso e menos clareza teórica sobre o seu papel na construção da identidade de classe nesse período. Sua composição multiclassista pode ter facilitado mais uma solidariedade interclassista do que intraclassista. Por essa e por outras razões, alguns historiadores questionam a contribuição dada pelo mutualismo ao processo de formação de uma classe trabalhadora homogênea e igualitária.17

No Brasil percebem-se, ao menos, quatro modalidades de exclusão: por renda ou profissão, por gênero, por idade e por nacionalidade. A de gênero era a mais visível. Mary Clawson afirma que organizações como as corporações de ofício, irmandades, maçonaria, sociedades de socorros mútuos e demais fraternidades tinham em comum o fato de se constituírem em espaços de reforço de alguns valores. Entre eles destacava-se o da masculinidade, e a identidade masculina era lida como autoridade patriarcal. O fraternalismo servia, entre outras coisas, para delimitar fronteiras de exclusão daqueles que não tivessem o status de homens e adultos (Clawson, 1989, p.45-52). Num contexto em que a maioria das mulheres não se encontrava no mercado de trabalho, a interação social era dificultada pela sua permanência no lar. Daí sua pouca participação nos espaços de sociabilidade que se multiplicavam nas cidades, a partir do final do século XIX.

Em relação à cidade do Rio de Janeiro, o levantamento de Paiva nos oferece dados referentes a mulheres e estrangeiros. Como tais dados não foram obtidos de maneira uniforme, Paiva só apresenta o número deles para o ano de 1912. Não obstante, os resultados são ilustrativos, e é interessante reproduzi-los.

Os dados mostram que as associações eram compostas em sua grande maioria por homens (89%), e, entre eles, 38,92% eram estrangeiros. Tendo sido a cidade um polo assaz atrativo para os imigrantes, e sendo o mutualismo já uma tradição em seus países de origem, era normal que os estrangeiros se associassem em grande número. Ademais, as mutuais funcionavam para eles como espaços de sociabilidade, fortalecimento e conservação de suas identidades nacionais, na medida em que reproduziam as divisões de seus respectivos países na Europa.

Nos Estados Unidos os negros eram proibidos de se filiar a mutuais de brancos. Por essa razão criaram as suas próprias mutuais, que, por sua vez, excluíam os brancos.18 No Brasil havia algumas mutuais de ex-escravos ou de negros, mas em muito menor número. Nos estatutos aos quais tivemos acesso, que compunham a documentação já citada do Conselho de Estado, não encontramos muitas restrições à cor. Mas a maior parte das mutuais de imigrantes impunha restrições a sócios de outras nacionalidades.

Em levantamento feito sobre essa documentação, encontramos 21 mutuais reconhecidamente de imigrantes num universo de 123 sociedades, no período entre 1860 e 1882. Para compor uma amostra mais homogênea, retiramos do levantamento as associações patronais, filantrópicas, religiosas, recreativas e de lazer, científicas ou literárias, os montepios, as cooperativas e seguradoras, cujos processos também integravam o conjunto documental. Entre elas havia: cinco portuguesas, três francesas, três alemãs, três italianas, duas suíças e cinco de outras nacionalidades variadas.

Tal como no Brasil, no Reino Unido a principal discriminação era de gênero. Embora as mutuais masculinas fossem mais numerosas, havia sociedades que aceitavam mulheres ou eram compostas só por elas, especialmente do final do século XVIII às primeiras décadas do XIX. Em geral, tinham pouca duração e não sobreviviam mais que trinta anos. Em boa parte dessas mutuais, as funções administrativas, que demandavam maior conhecimento técnico, eram entregues a homens.19

Retomando os dados de Paiva, percebe-se pelo quadro que as mulheres, brasileiras ou estrangeiras, compunham aproximadamente 11% do número total de sócios, e o número de brasileiras era cinco vezes maior que o de estrangeiras. Ou seja, independentemente da nacionalidade, as mulheres que moravam no Rio foram majoritariamente excluídas do associativismo. Esses números referem-se a todos os tipos de sociedades, não somente as mutuais. Como as mulheres tinham maior participação nas associações de caráter religioso ou filantrópico incluídas na amostra, o percentual de participação feminina nas mutuais deve ter sido ainda mais baixo.

AS MUTUAIS E SEUS SÓCIOS EM NÚMEROS

A quantificação das mutuais e de seus sócios é sempre um desafio para os estudiosos. Na maior parte das vezes não se encontra disponível, para um conjunto expressivo de mutuais, a sua documentação específica, como atas, correspondências, relatórios e livros contábeis, entre outras fontes, as quais poderiam garantir acesso ao cotidiano de seu funcionamento. Os trabalhos produzidos têm recorrido à análise de estatutos ou às notícias publicadas na imprensa, documentos que, quando muito, podem apenas fornecer algumas pistas sobre como funcionavam tais instituições. Em geral, os estatutos seguiam um padrão minimamente diferenciado entre si, e as notícias, além de esparsas, acabavam por apenas atestar que a sociedade tinha existido.

No Brasil tal situação foi agravada em razão das contínuas mudanças da legislação sobre as mutuais. Entre 1860 e 1882 as mutuais da capital registravamse no Conselho de Estado. No início da República, passaram a registrar-se nas juntas comerciais ou em cartórios das comarcas. Algumas sociedades, sobretudo as esportivas e de lazer, eram registradas nas delegacias de polícia. A ausência de um registro único ou mesmo a não obrigatoriedade de registro são fatores que, certamente, levaram a que incontáveis sociedades não deixassem pistas de sua existência.

Mesmo em países como a Inglaterra, a existência de um registro único a partir de 1846 não garantiu aos pesquisadores o acesso ao número real de mutuais e de sócios, uma vez que muitas associações não se registravam.20

Diante de tantas incertezas, os levantamentos feitos pelos contemporâneos podem ser ferramentas muito úteis no dimensionamento do fenômeno. Mas apresentam problemas para os quais devemos estar atentos. Ataulfo de Paiva fez seu primeiro levantamento em 1912 e depois o completou com dados colhidos entre 1913 e 1920. Mas os critérios utilizados no momento de sistematização dos dados não foram uniformes. No primeiro levantamento, relativo ao ano de 1912, o autor listou 421 associações, com 282.937 sócios. No segundo levantamento (1913-1920), trabalhou com um universo de 319 instituições, com um número total de sócios que variou entre 204.008 (1918) e 205.707 (1915). O gráfico anexo ilustra o "movimento social" do Rio de Janeiro observado nos dois levantamentos.

O gráfico nos mostra que houve pouca variação do número de sócios no decorrer da segunda década republicana, o que indica que o fenômeno associativo manteve-se constante, ao longo do período. O que chama mais a atenção é o alto número de sócios, de 645 a 715 por instituição, aproximadamente. (Para a obtenção deste número, calculamos a média entre o primeiro e o segundo levantamentos, ano a ano.) No entanto, estudos anteriores já haviam revelado que o Distrito Federal possuía o maior número mutuais do Brasil.21

Se levarmos em conta que o total de homens em 1910, no Distrito Federal, era de 496.284, incluindo-se entre eles as crianças, o número de sócios em 1912 parece, de fato, superestimado (282.937 sócios, 57%), embora não impossível. O número se torna alto apenas quando comparado com outras realidades anteriormente estudadas no Brasil.22

Além do levantamento de Paiva, o trabalho de Ferreira da Rosa pode nos ajudar a entender melhor a dimensão do fenômeno. Segundo consta em sua obra, havia na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1902, 170 mutuais (retiraram-se da listagem as associações que não se configuravam como tais). Elas possuíam, no conjunto, 86.241 sócios (incluídos os remidos), o que produz uma média de aproximadamente 510 sócios por instituição. Essa média é um pouco menor que a obtida por Paiva, mas ainda alta em relação à população masculina adulta da cidade. Havia, em 1902, 727.919 habitantes no Distrito Federal, entre homens, mulheres e crianças. Considerando-se que aproximadamente 57% desse total era de homens (incluídos entre eles as crianças), o percentual de associados encontrado por Rosa correspondia a 20,78% desse universo, número que acreditamos ser mais próximo da realidade, por sua amostra ser mais homogênea e por coincidir com levantamentos feitos posteriormente.

Se compararmos os dados do Rio de Janeiro com os de outras capitais, os números parecerão bastante razoáveis. Para Buenos Aires, estima-se que em 1914 metade dos trabalhadores encontrava-se filiada a algum tipo de sociedade de socorro mútuo. Para o caso inglês, estima-se que 60% dos homens adultos eram associados a uma mutual que incorporava trabalhadores e setores médios. Os dados para os Estados Unidos, levantados mais recentemente por David Beito, apontam que em 1920, para cada três homens adultos, um pertencia a mutuais, compostas sobretudo por negros e imigrantes. No Canadá, 30% dos homens trabalhadores eram mutualizados. Na cidade do México, em 1873, havia mais de cem mutuais, e cerca de um quinto de sua população participava das associações.23

O levantamento de Ferreira da Rosa nos possibilitou uma explicação para o alto número de sócios encontrados no Distrito Federal, quando comparado com outras cidades brasileiras. Pudemos perceber que algumas mutuais tinham um número muito grande de membros – tais como as dos comerciários,24 dos ferroviários, dos trabalhadores navais e as de portugueses –, e elas foram responsáveis pela elevação da média.

O levantamento de Vitor Fonseca, feito com base no Registro Especial de Títulos e Documentos do Rio de Janeiro, entre os anos de 1815 e 1914, encontrou 346 mutuais (Fonseca, 2008, p.120). Mas a documentação por ele utilizada não lhe fornecia o número de sócios. A despeito desse problema, o seu levantamento atesta que o número de mutuais era maior do que o encontrado por Paiva e por Rosa. No ano de 1912, Paiva listou 220 mutuais, e, nos levantamentos feitos para o período posterior (1913-1920), trabalhou com um universo de 216 mutuais.25 Como o método utilizado por Paiva foi o envio de questionários, muitas associações podem ter se eximido de lhe responder, o que torna os números encontrados por Fonseca mais próximos da realidade, muito embora devamos admitir a hipótese de que algumas mutuais podem igualmente ter deixado de se registrar.

Em que pesem as incertezas em relação aos números, podem-se afiançar algumas conclusões em relação ao tema. A primeira é que a cidade do Rio de Janeiro teve, a partir da segunda metade do século XIX, um número expressivo de mutuais, certamente, o maior do país. Esse número se ampliou consideravelmente ao longo das duas primeiras décadas do século XX, atingindo o mínimo de 170 e o máximo de 346. As mutuais possuíam em média de 510 a 715 sócios, número elevado em relação aos padrões encontrados para outras cidades brasileiras, mas proporcionalmente próximo de algumas capitais no exterior. Esses indicadores apontam para um dinamismo muito grande da sociedade civil, que não se limitava às mutuais.

Tal dinamismo é compreensível em razão das especificidades da então capital nacional. Era a maior cidade do país e tornou-se polo atrativo de um grande número de imigrantes. Seu desenvolvimento comercial, industrial e do setor de serviços propiciava a ocupação de diferentes setores de mão de obra qualificada, sócios em potencial das mutuais. Como centro político do país, tinha condições mais propícias à emergência e consolidação de uma cultura associativa. Esse conjunto de características fez que o Rio de Janeiro atingisse níveis expressivos de organização de sua sociedade civil.

TRAJETÓRIAS

O levantamento de Ferreira da Rosa permitiu que aferíssemos o período de fundação das mutuais por ele listadas. Como seus dados e critérios são mais homogêneos que os de Paiva – o qual também nos indica a data de fundação das sociedades –, são mais confiáveis.

Como se percebe, o número das mutuais teve grande crescimento a partir de 1875, tendência que não foi interrompida nas décadas seguintes, conforme nos aponta o levantamento de Paiva, observado anteriormente. O período de maior crescimento foi ao longo da década de 1890 e até as primeiras décadas do século XX.

Os dados obtidos na documentação reunida no Conselho de Estado apontam para a mesma realidade. Das 123 mutuais, fundadas entre 1860 e 1882, mais de 70% haviam sido fundadas após 1870.

O levantamento de Vitor Fonseca traz resultados muito próximos dos outros citados. Entre as 346 mutuais listadas por ele, quase 76% haviam sido fundadas entre 1875 e 1914. (Em sua listagem só incluímos as definidas por ele como entidades de socorros mútuos.) Como os dados avançam até a segunda década do século XX, foi possível perceber que o maior crescimento se deu entre 1905 e 1914.

Nos Estados Unidos, elas proliferaram igualmente na segunda metade do século XIX, sobretudo após a Guerra de Secessão. No período da depressão, a falência das seguradoras contribuiu para a ampliação do número de mutuais, as quais gozavam de melhor reputação (Cordery, 2003, p.89-90).

Na Itália, o maior crescimento também se deu na segunda metade do século XIX. A partir de 1898, o país possuía quase um milhão de associados. Pelo período de emergência e crescimento do mutualismo italiano, percebe-se que foi tardio em relação aos seus congêneres europeus, e próximo cronologicamente ao mutualismo das Américas.26

Tomando por base os diversos levantamentos anteriormente expostos, perceberemos que as mutuais da cidade do Rio de Janeiro, embora tenham sido criadas na primeira metade do século XIX, conheceram grande expansão nas últimas décadas do século, expansão esta que vigorou até o final da primeira década republicana, quando houve uma estabilização do número de sócios, seguida pela desaceleração do fenômeno nas décadas de 1930 e 1940, após a implantação de medidas de proteção social. À medida que as leis protetoras iam surgindo, os socorros oferecidos pelas mutuais tornavam-se dispensáveis. Destacam-se, sobretudo, o impacto proporcionado pela Lei de Acidentes de Trabalho (1919), as Caixas de Aposentadorias e Pensões (1923 em diante), a Lei de Férias (1925) e o Código de Menores (1927), que muito embora não tenham sido iniciativas extensivas a todos os trabalhadores, atingiam boa parte da clientela das mutuais.27

AS MODALIDADES ASSOCIATIVAS E OS SOCORROS OFERECIDOS

Com base ainda nos levantamentos de Paiva, separamos as associações listadas por modalidade, para identificarmos o número de mutuais no conjunto do associativismo do Rio de Janeiro. A Tabela 3 sintetiza os resultados obtidos:

Como se observa, do movimento associativo pesquisado pelo autor para a cidade do Rio de Janeiro, na segunda década republicana, as mutuais representavam a grande maioria, entre 50 e 70% do geral. É difícil afirmar que a diferença entre os números de mutuais e de sindicatos tenha sido assim tão grande. Entre as associações listadas por Paiva como "beneficentes" estavam incluídos alguns poucos sindicatos que, além de atuarem como organismos de resistência, prestavam também algum tipo de assistência a seus associados e, por essa razão, foram qualificados pelo autor como "sociedades beneficentes". Os demais sindicatos não foram incluídos em seu levantamento, daí seu pequeno número.

No que diz respeito aos benefícios pagos pelas mutuais aos sócios, constam do levantamento de Ataulfo de Paiva as relações das despesas efetuadas pelas associações ao longo dos anos, bem como o volume de seu patrimônio. Muito embora os dados para 1912 não obedeçam ao mesmo critério utilizado para os anos posteriores, percebe-se que a maior parte dos gastos das associações – retirando-se o item "despesas gerais", que sempre foi o maior – era realizada com o pagamento de pecúlios ou pensões. Em terceiro lugar, os maiores gastos referiam-se às despesas médicas; por último, constavam as despesas com funerais. Estes representavam, em geral, de um terço à metade dos valores gastos com pecúlios ou pensões.

Entre as mutuais dos Estados Unidos predominavam aquelas que ofereciam socorros em caso de doenças ou funerais. Em segundo lugar, e com mais capital, constavam as que ofereciam seguros de vida (Beito, 2000, p.1, 14).

Já o mutualismo inglês era mais próximo do modelo brasileiro do que o estadunidense. A maior parte dos pecúlios pagos aos sócios era composta por auxílios a funerais – as mutuais mais populares – e, depois, por auxílios a doentes. O pagamento de seguros de vida – raros no Brasil e comuns nos Estados Unidos – era propiciado somente pelas grandes mutuais – conhecidas como Ordens –, que se espalhavam por todo o território britânico e também sobre suas colônias e ex-colônias e eram compostas por uma série de sociedades afiliadas (Neave, 1996, p.55).

Tais coberturas não resolviam o problema da pobreza, mas garantiam àqueles que pudessem ser incluídos ao menos um recurso adicional, em caso de necessidade. Ter um funeral digno, garantir um seguro para os familiares após a morte ou eximir-se de recorrer à caridade eram motivações suficientes para que um grande número de trabalhadores, em diversas regiões do globo, se empenhasse na edificação e manutenção dessas organizações sociais.

AS INSOLVÊNCIAS

Em vários lugares do mundo onde o mutualismo se desenvolveu, os resultados das pesquisas apontam que grande parte das mutuais faliram após alguns anos de existência. As razões para a insolvência de tais sociedades estiveram ligadas a fatores como a incapacidade ou a impossibilidade de calcular os riscos. Para que tal cálculo fosse feito era indispensável ter acesso às taxas de expectativa média de vida da região onde a mutual se inseria e conhecer as principais causas que levavam a doenças e falecimentos. Com base em tais informações era possível às mutuais calcular devidamente o valor de suas mensalidades e dos benefícios pagos, garantindo seu equilíbrio financeiro. Tais dados raramente estiveram disponíveis para os contemporâneos, o que os levou a agir de forma mais intuitiva do que racionalmente calculada.

Ademais, Swaan destaca que muitos sócios pertenciam a grupos homogêneos, formados por trabalhadores de uma mesma cidade ou até de uma mesma empresa. Tal conjuntura poderia levá-los a adoecer em um mesmo momento, ou serem vítimas de um mesmo acidente de trabalho ou epidemia, o que levava a mutual a cobrir um custo volumoso de uma só vez, fato que a conduziria inevitavelmente à insolvência.

O levantamento de Paiva incluiu análise do patrimônio, das receitas e despesas de todas as sociedades – não somente as mutuais –, e revela uma constante oscilação. O gráfico anexo ilustra melhor nossas afirmações.

A leitura do gráfico aponta para uma ligeira evolução patrimonial das sociedades até 1915, com abrupta redução nos anos seguintes. A queda se estabiliza a partir de 1916 e apresenta leve tendência de crescimento até 1920, mas nunca atinge o nível em que se encontrava antes, o que indica que ao longo do período houve perda patrimonial. Acredita-se que a queda vincula-se ao impacto da Primeira Guerra Mundial sobre a economia brasileira, inicialmente levando à carestia, ao desemprego e à desaceleração econômica, problemas amenizados a posteriori. Pode ser, também, que essa queda fizesse parte da trajetória de insolvência que se anunciava para grande parte das mutuais. Como foram criadas, em sua maioria, ao final do século XIX, no contexto de crise possuíam, em média, de vinte a trinta anos de existência, tempo suficiente para o envelhecimento de seus primeiros sócios. Esse tempo de vida de uma mutual levava sempre ao aumento de seus gastos, nem sempre compensados pela adesão de novos sócios jovens. Como o levantamento não prossegue nos anos seguintes, não se pode saber se, de fato, tais sociedades tiveram seu patrimônio totalmente depreciado ao final da década de 1920, como ocorreu em outros lugares no Brasil.

A análise das relações entre as receitas e despesas ajuda a explicar as oscilações do gráfico anterior.

Nas relações entre receita e despesa percebe-se que, pelos levantamentos de Ataulfo de Paiva, no conjunto, as sociedades não foram deficitárias em suas contas correntes ao longo do período, muito embora o gráfico anterior nos mostre que elas abriram mão de seu patrimônio para manter tal situação, em períodos de crise.

Pelo gráfico nota-se, igualmente, que os anos mais difíceis foram os de 1916, 1917 e 1918, por indicarem uma descapitalização das sociedades. Há queda na arrecadação nos anos de 1915 e 1916. Essa situação só começa a se alterar a partir de 1919, apontando para uma tendência de crescimento que se refletiu, também, na evolução patrimonial das associações, conforme apontou o gráfico.

A situação financeira das mutuais era agravada pelo hábito de não cobrarem mensalidades mais altas para os idosos, que naturalmente apresentavam maior possibilidade de adoecer. Ao mesmo tempo, as mutuais não se esforçavam muito em atrair sócios mais jovens. Tal situação foi destacada por um estudioso do mutualismo irlandês, o qual alegou que muitas mutuais preferiam filiar os mais idosos, porque acreditavam que o momento da morte dependia menos da idade e mais da vontade de Deus (Campbell, 1996, p.69). Dessa forma, não se pode caracterizar tais comportamentos como economicamente irracionais, pois encontravam suas justificativas no ambiente cultural que os principais agentes compartilhavam.

No que tange a modalidades dos Estados Unidos, as primeiras a falir foram as afro-americanas. As étnicas não conseguiram atrair a segunda e terceira gerações, já nascidas no país, o que levou a seu esvaziamento progressivo. Na década de 1920 houve considerável queda no número de mutuais, e em 1930 o movimento perdeu 378 mil membros. Porém, no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais as entidades de imigrantes foram as mais duradouras.28

Com o tempo, o equilíbrio entre sociabilidade e seguridade – dois princípios que expressavam a identidade das mutuais – foi se tornando um problema para elas. Tão logo a falência se anunciava, os gastos com a sociabilidade iam sendo diminuídos, muito a contragosto dos gestores, para que a seguridade pudesse ser mantida. Tais decisões sempre representavam conflitos para os pares, os quais muitas vezes sentiam que os valores que haviam originado a associação estavam sendo postos em segundo plano, em prol de outros como os do lucro e da competição. Tais conflitos expressavam bem as contradições de um período de modernização.

DO PRIVADO AO PÚBLICO

Em vários países da Europa ocidental a desaceleração do mutualismo coincidiu com a expansão das companhias de seguros, mais capazes de calcular riscos e gerenciar seus lucros. Em que pesem tantas habilidades, elas igualmente faliram diante da enorme demanda por socorros e os baixos valores das contribuições pagas, assim mantidas para que novos sócios fossem conquistados.

Segundo análises existentes para a Inglaterra, os trabalhadores, que antes apostavam nas mutuais como a melhor estratégia para escapar da pobreza, perceberam que após a falência do mutualismo e das iniciativas privadas representadas pelas seguradoras só lhes restava recorrer ao Estado. Tal decisão não foi fácil, já que tinham de abrir mão de valores que deram origem à criação das mutuais, tais como os de voluntarismo, autonomia e respeitabilidade. Mas no contexto de adversidade o cálculo racional levou-os a aderir a propostas de inúmeros 'reformadores' que defendiam que o Estado assumisse o ônus pela proteção social.29

Na França, tal como na Inglaterra, as mutuais rejeitaram inicialmente a contribuição compulsória, pois viam com desconfiança a intervenção do Estado sobre os princípios da livre escolha. Essa realidade foi alterada após o repentino aumento das demandas por proteção social, em razão da Primeira Guerra Mundial. A mudança de conjuntura levou as mutuais a apoiarem a intervenção do Estado, desde que fossem envolvidas no processo de implantação das políticas sociais.30

No Brasil, pouco se sabe acerca do papel que as mutuais tiveram na proposição das políticas de amparo social. Pesquisas nesse campo apontam para o estabelecimento de alguns benefícios para os trabalhadores, sobretudo a partir da década de 1920, e, muito mais tarde, da Previdência Social. Se tais iniciativas resultaram da ação dos reformadores, das conquistas dos trabalhadores organizados ou das concessões do Estado, a historiografia brasileira tem discutido. Mas o papel das mutuais nesse processo ainda requer investigação. Coloca-se aí uma nova pergunta, que ainda aguarda por resposta, entre tantas outras referentes ao tema.

A opção pelo mutualismo pode ter significado, para aqueles que a fizeram, uma estratégia fundamental de manutenção de um importante valor compartilhado pelos trabalhadores, o da respeitabilidade. Os benefícios recebidos nos momentos de necessidade eram tidos como direitos e não como favores. O mesmo não acontecia com aqueles que dependiam da caridade alheia. É praticamente impossível identificar se os pobres recorreram mais às mutuais do que à caridade, pois se os números são incertos para a primeira opção, são ainda mais fluidos em relação à segunda. O que é patente, no entanto, é que antes do estabelecimento das políticas protecionistas, os pobres recorreram a diferentes estratégias de sobrevivência, mais ou menos dignas. Além disso, a permanência da filantropia no Brasil, em larga escala até os dias de hoje, nos remete à distância em que nos encontramos em relação às experiências mais igualitárias de outras nações, uma vez que a extensão da cidadania não acompanhou a expansão de nossa autoridade pública.

NOTAS

Revista Brasileira de História

sexta-feira, 12 de março de 2010

D. Pedro II e os valores republicanos

D. Pedro II e os valores republicanos
O cumprimento das leis, o respeito ao dinheiro público e a liberdade de expressão marcaram o governo do monarca
José Murilo de Carvalho

Três frases a propósito da monarquia sempre me deram o que pensar. A primeira, ouvi do maior historiador argentino vivo, Tulio Halperin Donghi: “O império brasileiro foi um luxo”. A segunda foi escrita por outro grande historiador, agora brasileiro, Sérgio Buarque de Holanda, no último volume da História Geral da Civilização Brasileira, por ele organizada: “O império dos fazendeiros (...) só começa no Brasil com a queda do Império”. A terceira foram as várias declarações de norte-americanos quando da viagem do imperador aos Estados Unidos exaltando seu republicanismo e seu ianquismo. A essas últimas poderiam ser acrescentadas as de outros estrangeiros, como o presidente da Venezuela Rojas Paúl e o poeta cubano Julian del Casal. O primeiro comentou ao ficar sabendo da queda do Império: “Foi-se a única República da América”; o segundo colocou na boca do imperador a frase “fui seu [do Brasil] primeiro republicano”.

São afirmações de pessoas insuspeitas que contradizem boa parte da historiografia brasileira sobre o Império e o imperador. Para esta última, o Império era o governo dos fazendeiros e donos de escravos, o imperador ou era déspota dos anos de 1860 ou o Pedro Banana da última década do século. Na contracorrente, Tulio Halperin Donghi fazia uma comparação entre o Brasil e os outros países latino-americanos no século XIX, pensando sobretudo na estabilidade política e no funcionamento regular das instituições representativas. Sérgio Buarque se referia ao não alinhamento do Estado imperial aos proprietários rurais. Os norte-americanos e outros, ao igualitarismo, ao despojamento, ao espírito público do imperador. Os que chamavam o Império de República pensavam, sobretudo, na liberdade de expressão existente no país.

Parte das características que distinguiam o Brasil dos vizinhos, como a unidade nacional e o grau mais atenuado de disputa pelo poder, dependia do parlamentarismo monárquico, por mais imperfeita que fosse sua execução, que D. Pedro II já encontrou a caminho da consolidação. Pode-se perguntar o que dependeu de sua ação e qual a consequência dela para o futuro do país. (...)

Revista de História da Biblioteca Nacional

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Fazendo a República: a agenda radical de Irineu Machado*


Américo Freire
Professor e pesquisador da FGV/CPDOC. E-mail: americo.freire@fgv.br

RESUMO

Irineu Machado foi um dos mais importantes políticos cariocas da Primeira República. Eleito deputado federal pela primeira vez em 1896, teve longa e atribulada carreira político-parlamentar até o advento da Revolução de 1930, quando veio a se afastar da cena política nacional. Para o acompanhamento e análise da trajetória deste ator político, sugere-se uma linha de interpretação que busca estabelecer diálogos e conexões entre as proposições defendidas pelo radicalismo republicano, de forte presença em vários países europeus e americanos, e a maneira pela qual Irineu Machado concebia e fazia política.

Palavras-chave: Republica – Radicalismo – Trajetória Política

A historiografia brasileira, ao estudar o radicalismo político na Primeira República, tem concentrado seus esforços na análise de três fenômenos, todos eles frutos das tensões que marcaram os primeiros anos do novo regime, a saber: o militarismo deodorista ou florianista, o ideário positivista e suas aplicações práticas, e o jacobinismo carioca. De uma maneira geral, a literatura, ao empregar o termo radicalismo para lidar com fenômenos tão diversos, o tem feito de forma bastante larga, qual seja, identificando-o a um conjunto de idéias ou práticas políticas – mais ou menos coerentes – que teriam como principal atributo o de interpelar – de forma intransigente – as estruturas de poder dominantes.1

Na passagem do século XIX para o XX, o termo radicalismo passou também a ser empregado para designar uma determinada corrente de opinião, por vezes organizada em agremiação partidária, que acabou por assumir um papel central na constituição e afirmação de regimes republicanos liberal-democráticos, tanto sem países europeus, como em americanos. Em diálogo com proposições conservadoras ou mesmo com leituras mais individualistas do liberalismo, este novo ator político, de fisionomia não muito precisa, apostou, em linhas gerais, na possibilidade da constituição de novos pactos políticos e sociais assentados na republicanização do Estado.

Na Europa, o caso que talvez melhor expresse esse novo fenômeno político seja o francês, haja vista a importância assumida pelos radicais na elaboração e configuração do "modelo republicano" naquele país, como também nos rumos políticos da Terceira República Francesa.2 Fundado em 1901, o Partido Radical francês manteve-se no poder até fins da década de 1930, com base em uma plataforma política cujo coração, nas palavras de Gerard Noiriel, era a defesa dos direitos do homem, da justiça e da laicidade.3

Na América, entre outras, registra-se, pelo seu significado e permanência, a experiência argentina caracterizada pela criação e atuação da União Cívica Radical (UCR), agremiação que jogou um papel decisivo na história daquele país, seja nas primeiras décadas do século XX, quando da instituição do voto universal, seja ao final deste mesmo século, quando o radicalismo formou com outros partidos para liderar o processo de transição da ditadura militar para um regime civil assentado em bases democráticas.4 De uma maneira geral, estas agremiações, no decorrer do século XX, ao serem acossadas pela expansão político-eleitoral de partidos de matiz marxista, terminaram por se deslocar gradualmente de um perfil original de centro-esquerda para posições centristas ou mesmo de centro-direita.

Quanto à Primeira República brasileira, ainda que o radicalismo não tenha se organizado como agremiação partidária, alguns de meus levantamentos preliminares me levam a crer que se deva avançar em linhas de investigação – nos moldes sugeridos pelos chamados "connected histories"5 – que busquem analisar as possíveis formas de leitura – ou mesmo de apropriação – do programa e dos meios de ação dos radicais realizadas por determinados grupos republicanos brasileiros.

Para tal, tenho, em primeiro lugar, a título de hipótese, concentrado minhas lentes de análise no universo de políticos que giraram em torno de um dos mais importantes jornais brasileiros na Primeira República, o Correio da Manhã. Fundado por Edmundo Bittencourt, em 1901, portanto já em um momento de descenso do militarismo e do jacobinismo, o Correio – na medida em que pautou sua linha editorial por uma sistemática oposição aos grupos políticos dominantes, com base em um discurso centrado na defesa "da causa da justiça, da lavoura e do comércio, isto é, do direito do povo, do seu bem-estar e das suas liberdades" –,6 ao longo da Primeira República, tornar-se-ia estuário para lideranças políticas e sociais que, por motivos variados, propugnavam por mudanças nas estruturas políticas do país. Dado o seu caráter de "jornal de opinião", o Correio da Manhã terminou por envolver-se diretamente nas contendas político-partidárias e eleitorais, ainda que se declarasse independente dos partidos.

Irineu Machado esteve entre os homens públicos que estabeleceram vinculações políticas mais estreitas com o Correio da Manhã. Eleito deputado federal pela cidade do Rio de Janeiro pela primeira vez em 1896, tornou-se, em pouco tempo, uma figura-chave na política carioca e brasileira até o advento da Revolução de 1930. No decorrer de sua carreira, formou, ao lado de jacobinos, florianistas, civilistas, socialistas e tenentistas, ou seja, manteve – direta ou indiretamente – conexões com alguns dos mais importantes movimentos que colocaram em xeque a ordem republicana. Para alguns de seus (muitos) adversários (ou inimigos), Irineu não era mais do que um demagogo a se valer de poderosa retórica. Já para parte da crônica política da época, era a própria encarnação do tribuno popular a açular as massas contra o regime.

Diante do exposto, me parece, portanto, que um estudo acerca da sua trajetória político-parlamentar possa nos ajudar a compreender melhor o que, à falta de melhor expressão, poderíamos chamar de "radicalismo à brasileira."

Este texto está dividido em três seções. Na primeira delas, são apresentados alguns traços gerais da trajetória profissional e política de Irineu Machado, ao mesmo em que se verifica a maneira pela qual a literatura tem lidado com o personagem em tela. A seguir, são examinadas algumas das proposições políticas de Irineu Machado, tomando por base seus pronunciamentos junto à imprensa carioca. Em nota final, abre-se o foco de análise com o objetivo de melhor situar o personagem no universo do radicalismo republicano.



Florianista, civilista e socialista

Dunshee de Abranches, em Governos e Congressos da República dos Estados Unidos do Brasil, apresenta alguns dados sobre a vida e a formação de Irineu. Segundo ele, Irineu nasceu no Rio de Janeiro, em dezembro de 1872, formando-se Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Recife, em 1892, e Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, em 1894.7 Nesse mesmo ano, já no Rio de Janeiro, começou a vida profissional como funcionário público na Estrada de Ferro Central do Brasil e no Ministério da Marinha, além de dar aulas na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Em todos estes lugares, nos relata Michael Conniff, obteve um grande número de seguidores, seja entre os operários do Estado, seja junto aos estudantes.8

Naqueles anos, ao que tudo indica, Irineu já circulava com desenvoltura nos círculos políticos e intelectuais do republicanismo florianista, haja vista, por exemplo, o destaque com que se apresentou em uma importante homenagem oficial prestada a Floriano, em outubro de 1895, meses depois do falecimento do ex-presidente. Na ocasião, segundo o relato de Suely Robles de Queiroz, proferiu um violento discurso contra o governo do presidente Prudente de Morais, estando o próprio presente no evento. A atitude o fez perder um dos seus empregos públicos.9

Em 1896, lançou-se candidato avulso10 para a Câmara dos Deputados pelo 2º distrito da capital, obtendo a eleição em uma conjuntura marcada pelo acirramento dos conflitos entre a facção conduzida por Francisco Glicério, do Partido Republicano Federal, e Prudente de Morais. Na Câmara, já como deputado, engrossou as fileiras dos grupos gliceristas que faziam dura oposição a Prudente de Morais, sendo depois acusado, em companhia do vice-presidente e de vários parlamentares, de ter se envolvido na conspiração que teve como desfecho o atentado a Prudente, em novembro de 1897.

Aberta a "temporada de caça" ao jacobinismo, Irineu submergiu. Em 1899, já durante o governo Campos Sales, optou por formar com grupos políticos cariocas de corte mais moderado, aproximando-se do situacionismo e das benesses governamentais, posição essa que se prolongou, em parte, durante o governo Rodrigues Alves, quando comandou facções políticas de apoio ao prefeito Pereira Passos.

Já durante a década em que a República brasileira esteve sob forte influência da liderança de Pinheiro Machado, ou seja, entre 1906 e 1915, Irineu, uma vez mais, deixa o situacionismo para se aproximar de Rui Barbosa, tornando-se, em pouco tempo, a principal voz do "civilismo carioca". Foi nessa conjuntura que, no embate com os governos de Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca, sua atividade parlamentar ganhou maior expressão. Em certa ocasião, nos relata José Vieira, Irineu, ao denunciar o comprometimento de Nilo Peçanha com a candidatura oficial, vociferou, da tribuna da Câmara, para a sua platéia de estudantes: "ou neutralidade ou revolução".11

Naquele mesmo momento, dava-se também o início de uma longa e frutífera aliança entre Irineu e o Correio da Manhã, aqui já mencionada.

Nos anos 20, Irineu já havia se tornado um "figurão" da política carioca. Anos antes, rompera com Rui Barbosa e chegara ao Senado com apoio dos grupos políticos dominantes cariocas, capitaneados por Paulo de Frontin, com quem viveria às turras por toda a última década da Primeira República. Em 1921, entrou de cabeça na campanha da Reação Republicana de Nilo Peçanha, tendo sido acusado de envolvimento no rumoroso caso das "cartas falsas", no qual o Correio da Manhã divulgou com estrépito cartas de Artur Bernardes com acusações acerca do comportamento do marechal Hermes e dos militares em geral. Como se sabe, a estratégia não surtiu efeito e Bernardes chegou ao poder.

Em 1924, Irineu levou o troco – terminou "degolado" na eleição para o Senado Federal. Depois de passar três anos na Europa, voltou ao país e foi eleito de forma categórica para o Senado, alcançando mais do que o dobro de votos do que seu oponente. Em 1930, ao contrário de grande parte da oposição parlamentar, apoiou Júlio Prestes contra Getúlio Vargas. Segundo Conniff, corria à boca pequena que o mesmo havia recebido 150 mil dólares ou estava à mercê de alguma chantagem para apoiar o candidato oficial.12 Porém, nada disso ficou mais tarde comprovado. Com a vitória da Revolução de 1930, abandonou a vida político-partidária.



De herói civilista a líder populista

Em minhas pesquisas, não tomei contato com nenhum livro publicado sobre este controvertido personagem. Nas fontes até agora consultadas, obtive poucas e esparsas informações sobre sua atuação como parlamentar e como chefe político, a maior parte delas extraída de obras de cronistas políticos como Dunshee de Abranches, José Vieira e Sertório de Castro.

Dois são os livros de Abranches que fazem menção a Irineu. Em Como se faziam presidentes – um relato nos moldes do que hoje poderíamos chamar de História imediata dos primeiros governos civis republicanos –,13 o autor registra a atuação de Irineu em única e delicada situação, qual seja, quando da traição do parlamentar carioca aos seus ex-companheiros florianistas durante a gestão de Campo Sales na presidência da República. Abranches, que estivera ao lado de Irineu na oposição ao governo de Prudente de Morais, não o perdoou, chamando-o de "precioso cabalista" de votos para o oficialismo.14

Já em obra posterior, a aqui já citada Governos e Congressos..., Abranches se mostra mais discreto na apresentação da trajetória política de nosso personagem. Após registrar as sucessivas eleições de Irineu para a Câmara dos Deputados, chama a atenção para a participação "proeminente" do parlamentar "na reação intitulada civilista contra a candidatura do Marechal Hermes da Fonseca à presidência da República".15 Abranches aborda ainda o fato de Irineu ter sido eleito deputado federal, por duas ocasiões, para representar tanto Minas Gerais como o Distrito Federal, fenômeno esse que diz respeito à maneira pela qual alguns parlamentares com perfil semelhante ao de Irineu conduziram suas carreiras durante toda a Primeira República.

Abranches conclui o perfil do parlamentar carioca registrando alguns aspectos da liderança de Irineu. Vejamos.

Jurista emérito e tribuno valoroso e eloqüente, versado em questões internacionais, tem produzido, dentro e fora do Parlamento, importantes discursos e escritos, gozando entre as massas populares de grande prestígio eleitoral. Presentemente, fixando residência em Paris, tem sido um dos mais ardentes propagandistas pela entrada do Brasil na grande guerra européia ao lado das potências da Entente.16

José Vieira, por seu turno, faz de Irineu um dos personagens-chave em seu livro de crônicas publicado em 1909 sob o título Cadeia Velha: memórias da Câmara dos Deputados.17 Por meio de um estilo divertido e irônico, o autor cria a figura de um político polêmico, arrebatador de platéias, um tribuno incorrigível capaz de desconcertar os seus adversários fiéis ao governo Hermes da Fonseca. Para Vieira, "Irineu era talentoso, combativo e muito popular. Já se tem revelado com tendências para o socialismo. As condições políticas impedem-no de combater por idéias que, decerto, professa".18

Já Sertório de Castro apresenta uma dimensão menos pitoresca de Irineu. Em seu A República que a revolução destruiu, publicado em 1932, o autor, em tom incisivo, coloca o tribuno carioca ao lado de Rui Barbosa no Panteão da campanha civilista, vista pelo autor como "radiosa", "esplendorosa". Na Câmara, afirma Castro, os líderes civilistas iluminavam aquele recinto tradicional com a eloqüência de oradores como Pedro Moacyr, Irineu Machado, Barbosa Lima e outros.

Sertório menciona ainda a "degola" sofrida por Irineu nas eleições senatoriais em 1924. Segundo ele,

do Senado havia sido iluminado o mais temível de quantos adversários contavam o governo e a sua política – o sr. Irineu Machado. Vitorioso num pleito em que o terreno era disputado palmo a palmo; portador de um diploma que deveria ser considerado a expressão insofismável da verdade eleitoral, (...) [Bernardes] deu esse golpe brutal e desnecessário entregando uma cadeira de senador a um amigo ocasional, mas aumentou de forma considerável o poder ofensivo do inimigo que pretendia aniquilar. Mostrá-lo-ia um futuro não muito remoto.19

Afonso Arinos de Melo Franco, em sua vasta biografia sobre o pai, também registra a importância de Irineu na luta dos civilistas contra os desmandos da vida política na Primeira República. Para ele, Irineu, Alcindo Guanabara e Barbosa Lima eram a "trinca de ases" da Cadeia Velha, em 1909, destacando-se pela sua combatividade e cultura.20 Melo Franco, no entanto, em duas passagens do seu livro, não deixa de chamar atenção para determinados episódios na vida e na carreira política de Irineu, os quais colocam em xeque a imagem de tribuno civilista construída por autores como José Vieira e Sertório de Castro. Dessa forma, Melo Franco o retira, sem pejo, da galeria de heróis que compõem a sua apologia liberal. Vejamos essas duas passagens.

A primeira refere-se a um pronunciamento no qual Irineu menciona o drama pessoal de ter sido traído pela mulher, fato esse que resultou em um crime passional. Segundo Melo Franco,

Irineu desvenda perante a Câmara silenciosa o drama da sua vida íntima, a desventura conjugal, a humilhação da honra ferida, a dor que leva ao crime. Usa, para exprimir suas dolorosas recordações, das expressões mais cruas, por vezes mais grosseiras, como quando disse que não era dos que ficam a "roer os cornos em silêncio". (...) Seu discurso é uma página tremenda: é a explosão do desespero num nevropata disposto a tudo.21

Em outro trecho, Melo Franco dá detalhes a respeito da participação de Irineu no episódio das "cartas falsas", quando o mesmo manteve contatos com os falsários e viu nas cartas algo "muito bom para destruir a candidatura Artur Bernardes". Ao examinar o pronunciamento que Irineu fez na Câmara, acerca deste caso, Arinos faz comentários como o seguinte:

A resposta de Irineu [às acusações] foi de uma fraqueza surpreendente naquele duro lutador se não estivesse ele certo da sua falsa posição. A acusação de explorador, em si mesma, praticamente não responde. Prefere orientar o seu longo discurso em atacar Bernardes e a política mineira, contra a qual tinha velhos recalques. (...) Daí por diante, numa demagogia bem carioca (grifo meu), o discurso de Irineu se cinge a criticar um parecer de Bernardes (...) contra os excessos e a ineficiência do funcionalismo público federal.22

Em meados dos anos 70 e começo da década seguinte, em meio a um ciclo de renovação das ciências sociais e da historiografia política quanto ao tema dos "movimentos sociais urbanos", dois livros fazem menção direta à participação de Irineu em episódios críticos da Primeira República. Um deles, já aqui citado, é Radicais da República, de Suely Robles de Queiroz. Nele, a autora menciona Irineu como membro destacado do jacobinismo carioca, colocando-o ao lado de militares florianistas, positivistas, arrivistas, golpistas e etc. Uma vez que o objetivo da autora foi o de chamar atenção para aspectos gerais do radicalismo jacobino, pouco se pode extrair das formulações próprias de Irineu acerca do jacobinismo.

Já Michael Conniff, em seu estudo sobre a política urbana no Brasil, nas décadas de 1920 e 1930, desloca a figura de Irineu das posições de herói civilista ou de "demagogo amoral" para um outro lugar, bem mais confortável: o de precursor do fenômeno populista brasileiro. Para Conniff, Irineu, a despeito das acusações que pairavam a respeito da sua retidão da conduta – teria "ajudado a revolucionar a política do Rio, afastando-se da estreita representação clientelista e dirigindo-se para uma ampla coalizão de forças, usando qualidades carismáticas e pregando (não sinceramente, como se revelou) a reforma social".23

Portanto, como se percebe, temos muito pouco material analítico sobre Irineu, para além de informações esparsas e leituras rápidas sobre o seu papel na vida política carioca e fluminense. Mesmo em Conniff, o autor que mais se deteve em examinar a sua trajetória, o que temos é pouco mais do que um arquétipo do líder contestador com muito carisma e pouca convicção. De alguma forma expressando as análises típicas da década de 70, Conniff viu em Irineu um reformador avant la letre, a ultrapassar a estreiteza do clientelismo em direção à política de massas.

Revisionista e "terrível oposicionista"

Passemos agora a examinar algumas das proposições políticas de Irineu. Dentre as muitas entrevistas concedidas ao Correio da Manhã, durante a sua longa carreira, fiquemos tão-somente com três delas: a primeira, do ano de 1909, quando Irineu se lança como candidato avulso; a segunda, de 1912, já como líder civilista; e a outra, de 1927, quando retornou ao país para concorrer – e vencer – a eleição para uma cadeira no Senado pelo Rio de Janeiro.

Na primeira delas, Irineu alega o seu temperamento insubmisso a partidos e agremiações para apresentar-se como candidato avulso. A respeito da sua diretriz política, afirma-se como um hóspede dos republicanos. Diz ele:

Em 1897 ou 1898, combatendo, na Câmara dos Deputados, a supressão de diversas oficinas do Arsenal de Guerra desta capital e a dos arsenais de Pernambuco e da Bahia, fiz declarações que envolviam a afirmação de princípios socialistas e, de então para cá, minhas convicções vão dia a dia se acentuando. Por isso, na circular com que me apresentei candidato, há três anos passados, disse que era apenas um hóspede entre os republicanos, pois que, mais adiantado que eles, eu aguardava a organização de um partido socialista para ele filiar-me quando isto se desse. Permanece até agora a mesma situação e, por isso, continuo a ser entre os republicanos um hóspede que resiste com eles aos reacionários, mas cogitando sempre de ideais mais adiantados que os deles.24

Matéria completa no endereço
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-77042009000100007&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Revista Tempo

Educação escolar na primeira república: memória, história e perspectivas de pesquisa


Alessandra Frota Martinez de Schueler; Ana Maria Bandeira de Mello Magaldi

Professora Adjunta de História da Educação (PROPED/Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro). E-mail: alefrotaschueler@gmail.com, anamagaldi@superig.com.br

RESUMO

O presente artigo desenvolve uma reflexão sobre a educação escolar, enfocando os debates, projetos e iniciativas voltadas para a disseminação da escola primária, no período da Primeira República (1889 a 1930), e problematizando a produção historiográfica sobre a educação republicana. Pretende-se contribuir para a abertura de um novo espectro de perguntas e problemas aos pesquisadores que se preocupam com a constituição da cultura escolar moderna e com os processos de socialização, transmissão, circulação, criação, apropriação e re (invenção) culturais a partir da escola.

Palavras-chave: História da Educação Escolar – Memória – Primeira República


O presente artigo tem como objetivo central desenvolver uma reflexão sobre a educação escolar na Primeira República, enfocando debates, projetos e iniciativas voltadas para a disseminação da escolarização elementar, mais particularmente para a institucionalização da escola primária, no período da Primeira República (1889 a 1930). Nos limites do espaço disponível, propomos aqui um duplo movimento de análise.

No primeiro movimento, tencionamos problematizar o modo pelo qual a historiografia da educação vem produzindo representações e diagnósticos sobre a educação escolar republicana - diagnósticos e representações que têm contribuído para a sacralização de determinadas chaves de leitura e hipóteses explicativas, nas quais têm sido permanentemente (re)alimentadas as tensões e disputas pela afirmação e legitimação de uma dada memória e de uma história da educação republicana. Por um lado, algumas representações contribuíram para a produção de uma memória reificadora da ação republicana, na qual a Primeira República foi tomada como marco zero, lugar de origem da escolarização elementar e das políticas de institucionalização, disseminação e democratização da educação escolar no Brasil. Por outro lado, nesta luta de representações,1 algumas análises contribuíram para a afirmação e atualização de uma memória de desalento e decepção causados pelo suposto fracasso e/ou omissão do regime republicano no âmbito educacional - memória que (re)inventa a idéia de uma República que não foi, que não cumpriu suas promessas de extensão de direitos de cidadania, que não se tornou efetivamente uma res publica, uma coisa de todos, com um governo para e por todos; aquela que permanece, ainda hoje, inconclusa, inacabada.

No embate entre memórias da educação republicana, buscamos apreender a historicidade e os lugares de produção e enunciação destas representações em disputa, de modo a perceber o quanto estas visões permanecem impregnadas pelas próprias concepções produzidas pelos atores e sujeitos que vivenciaram as tensões e as lutas do processo histórico de constituição de uma (nova) ordem republicana. Próprias do jogo de construção/reconstrução de memória, lembranças e esquecimentos, luzes e sombras, estas representações em disputa permanecem circunscritas ao âmbito das clássicas análises diagnósticas e prognósticas. Devem, portanto, ser desconstruídas e problematizadas pelo pesquisador da educação na sua operação historiográfica, no diálogo e confronto permanente entre a empiria e os instrumentos/categorias teóricas de compreensão de uma dada realidade histórica.

Num segundo movimento de reflexão, a pretensão é de levantar algumas questões sobre a temática educacional na Primeira República, tendo como base a historiografia da educação brasileira recente, que vem sendo alimentada por uma crescente aproximação com os vários campos da pesquisa em história, especialmente o da história cultural. Estas análises vêm lançando seu olhar para os debates, projetos, iniciativas e ações efetivadas por vários sujeitos históricos – as ações implementadas pelo Estado, mas também por indivíduos e grupos variados da sociedade - no campo educacional. Preocupados em compreender a República que foi, os historiadores da educação vêm reconstruindo o processo tenso de disputas, internas e externas, decorrentes da crescente especialização e legitimação do campo educacional. Nesta perspectiva, flagram o processo de constituição da escola primária moderna (seriada, graduada, circunscrita a espaços e tempos específicos) como modelo ideal e hegemônico, como lugar social de educação da infância. Em alguns desses estudos, outras Repúblicas são apresentadas como possíveis. A partir da apresentação de algumas dessas tendências que têm se mostrado férteis na historiografia da educação brasileira, a pretensão é de contribuir para a abertura de um novo espectro de perguntas e problemas aos historiadores e pesquisadores que se preocupam com a constituição da cultura escolar moderna e com os processos de socialização, transmissão, circulação, criação, apropriação e re (invenção) culturais a partir da escola primária, no período da Primeira República.

1. Memórias e histórias da escola primária republicana

A memória da escola primária e da ação republicana em prol da educação escolar foi edificada por cima dos escombros de antigas casas de escola, de "palácios escolares", de debates, leis, reformas, projetos, iniciativas e políticas de institucionalização da escola nos tempos do Império.2 Zombando do passado, as escolas imperiais foram lidas, nos anos finais do século XIX, sob o signo do atraso, da precariedade, da sujeira, da escassez e do "mofo". Mofadas e superadas estariam idéias e práticas pedagógicas - a memorização dos saberes, a tabuada cantada, a palmatória, os castigos físicos etc. -, a má-formação ou a ausência de formação especializada, o tradicionalismo do velho mestre-escola. Casas de escolas foram identificadas a pocilgas, pardieiros, estalagens, escolas de improviso - impróprias, pobres, incompletas, ineficazes. Sob o manto desta representação em negativo, era crucial para intelectuais, políticos e autoridades comprometidas com a constituição do novo regime seguir "pesada e silenciosamente o seu caminho", produzir outros marcos e lugares de memória para a educação republicana.3 Pretendia-se (re)inventar a nação, inaugurar uma nova era, novos tempos.4

A historiografia da educação há muito vem abordando o processo de silenciamento do passado colonial e imperial, a desqualificação e o apagamento produzido pela memória da educação republicana em relação às práticas, ações e iniciativas educacionais e pedagógicas que lhe antecederam. Mais do que isso, os especialistas vêm chamando a atenção para a necessidade de serem repensados marcos cronológicos convencionais e romper com delimitações rígidas, que dividiram a história nacional - e educacional - em colônia, império e república.5

Jorge Nagle, na tese Educação e Sociedade na Primeira República, defendida em 1966 e publicada em 1974, já questionava a pertinência de uma classificação que tendia a enfatizar mais supostas rupturas, ao invés de problematizar a complexidade dos processos históricos de mudança social, cultural e política, as continuidades e as permanências e os jogos de disputas e tensões, imbricações e apropriações mútuas entre representações do novo e do velho, do moderno e do antigo, da inovação e da tradição.6 Tensionando os marcos de 1889 e 1930, período tradicionalmente denominado Primeira República (quando não chamado de República Velha), Nagle argumentava: "essas duas datas de forma alguma significam mudanças profundas no sistema escolar brasileiro".7 Com o argumento, o autor buscava dirigir o foco para uma "profunda e vigorosa discussão havida no final do Império a propósito dos assuntos educacionais",8 período ao qual ele se referia, em sua tese, como de intenso "fervor ideológico" e de discussões pela democracia, pela federação e pela educação, então construídas como categorias - e caminhos - inseparáveis de redenção da nação, no momento de crise e decadência da direção conservadora e do regime monárquicos.

A despeito de discussões recentes em torno da obra do autor,9 merece destaque sua proposição, enfatizando o abandono de marcos políticos clássicos para a compreensão da história da escola republicana e indicando a necessidade de compreender o processo histórico de constituição da escola ao longo do século XIX, articulada ao processo de formação/consolidação do Estado imperial, bem como de sua crise, nas décadas finais dos oitocentos. Seguindo essa direção, podemos afirmar que a escola primária brasileira não foi uma invenção republicana, tampouco uma novidade fin-de-siécle. Paradoxalmente, tal representação, ainda hoje, pode ser lida em textos e manuais de história educacional.10

Esquecer a experiência do Império: este era o sentido da invenção republicana. Para realçar o tempo presente e a modernidade de suas propostas, o novo regime apagava os significados políticos e sociais do estabelecimento do princípio da gratuidade da instrução primária, aos cidadãos, na Constituição de 1824, e as suas repercussões nas disputas pelos significados, extensão e limites dos direitos de cidadania11 - disputas que se refletiram na restrição do direito de voto aos analfabetos, transformada em lei pela reforma eleitoral de 1881, que aboliu o voto censitário, mas impôs o critério da alfabetização para o pleno exercício dos direitos políticos, pela primeira vez, no Brasil. Essa norma foi ratificada nos dispositivos da primeira constituição republicana.12

A simplificação das reformas educacionais ocorridas em vários pontos do Império era uma estratégia que referendava o esquecimento a respeito do legado educacional do século XIX: a difusão de novos métodos de ensino simultâneo,13 intuitivo (as lições de coisas)14 e de alfabetização (os métodos analíticos, que buscavam conciliar o ensino da leitura e da escrita);15 a propagação das bibliotecas escolares e a criação do Museu Pedagógico (1883); a expansão da iniciativa privada, dos colégios, escolas, cursos de preparatórios16 e de jardins-de-infância; o progressivo incremento da atuação de mulheres no magistério público e particular e o processo tenso de criação das Escolas Normais, como modelo de formação escolarizada de professores, coexistente e concorrente com os mecanismos tradicionais de formação pela prática;17 a realização das Conferências Pedagógicas de Professores da Corte, nos anos de 1870 e 1880, e a crescente participação do magistério na imprensa pedagógica e nos movimentos associativos;18 a transformação da cultura material da escola primária (mobiliários, livros, textos, mapas e globos, lousas e ardósias individuais, caixas econômicas escolares etc.);19 a efervescência do mercado editorial de livros didáticos;20 a constituição de novos espaços e temporalidades escolares, a partir da construção de prédios específicos para o ensino primário e a afirmação de uma arquitetura escolar moderna, com os "palácios escolares" da Corte imperial, edificados nos anos de 1870 e 1880. Estas escolas (oito, no total) foram simbolicamente denominadas "Escolas do Imperador", apesar do financiamento e da construção dos prédios terem resultado de iniciativas variadas, oriundas de diferentes setores do Estado (doações da Coroa, recursos do Ministério do Império e da Câmara Municipal do Rio de Janeiro) e da sociedade imperial (doações de particulares, como associações leigas e religiosas e a Associação Comercial do Rio de Janeiro).21 Embora tenham resultado na reunião das escolas isoladas e tenham contribuído para a introdução gradual do ensino simultâneo e seriado e dos novos mecanismos de divisão e controle do trabalho docente (direção, inspeção escolar, hierarquia burocrática etc.) na cidade do Rio de Janeiro, as "Escolas do Imperador" não foram ainda analisadas sob a perspectiva da modernização da cultura escolar no final do século XIX, sendo desconsideradas, ou minimizadas como expressões da modernidade pedagógica, pela historiografia dedicada ao estudo dos grupos escolares.22

Os pesquisadores da área de história da educação têm demonstrado que, a partir de 1835, ao longo de todo o Império, as Assembléias Provinciais fizeram publicar um significativo número de leis, que visavam regulamentar a instrução primária e secundária nas diferentes regiões.23 Em parte, este movimento legislativo foi resultado da redefinição das normas de competência constitucional, impostas pelo Ato Adicional de 1834. Este ato atribuiu às Províncias o dever de legislar, organizar e fiscalizar o ensino primário e secundário, restando ao governo central, através da pasta do Ministério do Império, a gestão de ambos os graus na Corte, e do ensino superior em todo o país.24 Por outro lado, além da construção do "Império das leis", foi notável o desenvolvimento dos serviços de instrução, de rede de escolas muito diversas (públicas, particulares, domésticas), conforme a realidade de cada uma das Províncias, embora os estudos apontem que a aplicação de recursos orçamentários esteve muito aquém das necessidades.25

O processo de descentralização na gestão da instrução pública, provocado pelo Ato Adicional de 1834, tem sido interpretado por parte da historiografia da educação como um obstáculo ao desenvolvimento da educação escolar no Brasil imperial, devido às diversidades regionais e à insuficiência de recursos destinados ao ensino nos orçamentos provinciais, ou ainda, em razão do desinteresse das elites políticas provinciais na difusão da instrução primária e secundária.26 Tal argumentação tem sido enfatizada, alimentando a disputa memorialística sobre a educação escolar brasileira. Em uma vertente da historiografia, de matriz republicana, está presente a culpabilização da descentralização em 1834 pelo fracasso da política de instrução imperial.27

Como argumentou Ângela de Castro Gomes, a grande dificuldade colocada para os historiadores quanto à realização de um balanço preciso sobre a situação educacional, no Império ou na República, reside justamente na elevada desigualdade e na diversidade historicamente construídas no ensino brasileiro. Cada província, ou estado da federação, apresenta singularidades significativas nos processos de construção dos sistemas, normas e redes de ensino primário e secundário.28 De fato, a Constituição de 1891 não trouxe alterações significativas no que tange à distribuição de competências. O princípio federativo fundamentava a determinação de que cabia aos estados e municípios a tarefa de criar e desenvolver o ensino primário e secundário e à União cabia a responsabilidade pelo ensino superior, além do ensino primário e secundário na capital do país, atribuição que repartiria, em regime de colaboração e concorrência, com o poder municipal, o Distrito Federal.29

O debate sobre a reconstrução da nação via escola primária e a leitura da "decadência" do ensino público – já manifestados no Império – foram recorrentes nos anos posteriores à Proclamação da República. Apenas para citar um exemplo da permanência deste debate, é interessante relembrar o argumento de um intelectual ativo no campo educacional do período, o paraense José Veríssimo. Numa de suas obras, A Educação Nacional, lançada, pela primeira vez, em 1892, sob a forma de artigos no Jornal do Brasil, o autor demonstrava a permanência de velhas batalhas. Argumentava que, a despeito das mudanças, a educação escolar republicana trazia aspectos de continuidade em relação à época pregressa. A crítica mais contundente dirigia-se ao que considerava excessos do regime federativo implantado pela República. Para ele, a situação do ensino primário teria se agravado ainda mais, pois, sob a forma da federação, foi concedida a cada estado plena liberdade para gerir os negócios da instrução pública. Em suas considerações sobre a temática educacional, o autor parecia se aproximar de um personagem, criado por um dos maiores escritores da época, o Conselheiro Aires, de Machado de Assis, em Esaú e Jacó.30 Para o Conselheiro, assim como para Veríssimo, talvez o regime político tivesse "trocado a roupa", sem que tivesse "mudado de pele".

Nos embates entre memórias e histórias da educação, como num jogo de luzes e sombras,31 o processo de disputas por concepções e modelos de escolarização deu lugar a diversas representações sobre a ação republicana. A representação e a produção de uma memória da República que não se publicizara se constituía, no bojo mesmo do movimento de lutas e disputas por concepções plurais de república, de educação e de nação.32

2. A educação escolar na República que foi: debates, disputas, projetos

Desde a década de 1990, pesquisadores da área de história da educação brasileira vêm se empenhando em explorar arquivos, redescobrir novos documentos, reler, com novos olhos e abordagens teórico-metodológicas, antigos objetos, utilizando as fontes mais usuais, ou "inventando" novas formas de reconstituir os indícios das escolas, dos mestres, dos paradigmas pedagógicos e dos alunos de outros tempos, tanto nas cidades, quanto em outros espaços sociais.33 Nesse quadro de renovação dos estudos dedicados à temática educacional, alimentados por diversos campos da história, merecem destaque, por exemplo, as contribuições da chamada história cultural. Entre os trabalhos que vêm se beneficiando dos debates historiográficos sobre temas culturais, sendo ainda enriquecidos por reflexões e problemáticas do campo da antropologia, podem ser situados aqueles que, focalizando a instituição escolar, operam com a categoria de cultura escolar ou – enfatizando uma perspectiva plural – de culturas escolares.34

Uma importante questão que vem sendo problematizada diz respeito ao processo de implantação da forma escolar moderna, seriada e graduada como lugar institucionalizado e legítimo de educação na sociedade brasileira.35 No conjunto de estudos sobre essa temática, uma questão valorizada tem sido a da reforma educacional paulista, conduzida por Caetano de Campos, a partir de 1893, sendo freqüente o destaque conferido ao papel modelar que o sistema de ensino público de São Paulo teria assumido, a partir de então, inspirando iniciativas educacionais em outras partes do país. Nessa reforma, em que é assinalada a vinculação essencial entre a adoção de uma nova proposta para a escola primária e a preparação dos professores que nela iriam atuar, a implantação da Escola-Modelo na cidade de São Paulo assume uma importância central, constituindo-se em espaço de observação das práticas escolares que deveriam ser incorporadas pelos futuros mestres nas inúmeras escolas do estado. Um aspecto extremamente valorizado nesse projeto foi o da visibilidade, que se expressava no destaque assumido na cena urbana paulista pelo conjunto arquitetônico constituído pela Escola Normal Caetano de Campos e pela Escola-Modelo, devido à sua monumentalidade e à sua localização, no espaço simbólico da Praça da República, no centro da capital do estado.

A escola primária experimental paulista afirmava-se, assim, como parâmetro para as escolas públicas republicanas, referido, num sentido amplo, à organização do universo escolar. O modelo formulado e disseminado era o do grupo escolar, em que assumiam grande relevo aspectos como a construção de prédios considerados apropriados para a finalidade educativa, o trabalho escolar apoiado no princípio da seriação36 e no destaque conferido aos métodos pedagógicos, entre os quais se situava, especialmente, o método intuitivo; a divisão e hierarquização da atuação dos profissionais envolvidos no cotidiano da escola; a racionalização dos tempos escolares; o controle mais efetivo das atividades escolares, entre outros.

Matéria completa
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-77042009000100003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Revista Tempo