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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Conselheiro do sertão

Vários são os epítetos de Antônio conselheiro: louco, santo, manipulador, subversivo, fanático, líder camponês. Seja qual for o qualificativo atribuído a ele, é fato reconhecê-lo como personagem da história brasileira
por Yago euzébio Bueno de Paiva Junho*


Para analisar de modo correto e honesto um movimento social ou a biografia de um personagem histórico é fundamental conhecer o contexto social, político, econômico, cultural e geográfico em que os fatos estudados se deram. Ainda mais quando esses fatos dizem respeito à vida de Antônio Conselheiro. Quem é esse homem que até hoje desperta calorosos debates acerca de sua maior realização – o arraial de Canudos? O objetivo deste artigo é contribuir para uma análise despida de preconceito sobre esse sem-terra do século XIX.

Problema da fome » A fome é um problema universal. Embora atinja todos os países indiscriminadamente, seus efeitos são mais nocivos em regiões que sofreram o processo de colonização: África, América Latina e Ásia. Josué de Castro, em Geografia da Fome, dividiu o mundo em duas civilizações: o mundo dos que não comem e o mundo dos que não dormem com medo dos que não comem.

Antes de discorrer sobre sua vida e seus feitos é necessário colocar em relevo que o aparecimento de Conselheiro é inseparável do problema da fome que sempre assombrou nosso país. A razão para a existência da fome nos países periféricos remonta a seus respectivos processos de colonização (atualmente, o colonialismo aparece sob a forma de neocolonialismo, que é, para o autor do clássico Geografia da Fome, Josué de Castro, o uso da ciência e da tecnologia por uma minoria dirigente nas nações hegemônicas esmagando e impedindo que as nações periféricas realizem suas potencialidades). A fome tem uma correlação direta com o imperialismo.




O dualismo da fome
O debate sobre a fome e as suas causas é recente. Existem ainda muitos tabus em torno desse fantasma. Esses tabus são criados em virtude de restrições de ordem moral, política e econômica. A restrição moral envolve o dualismo entre instinto e razão. “O fundamento moral que deu origem a esta espécie de interdição baseia-se no fato de que o fenômeno da fome, tanto de alimentos, como a fome sexual, é um instinto primário e por isso um tanto chocante para uma cultura racionalista como a nossa, que procura por todos os meios impor um predomínio da razão sobre o dos instintos na conduta humana” (CASTRO, 1984, p. 20). No que tange aos interesses políticos e econômicos, Castro (cit., p. 21) salienta: “É que ao imperialismo econômico e ao comércio internacional a serviço do mesmo interessava que a produção, a distribuição e o consumo dos produtos alimentares continuassem a se processar indefinidamente como fenômenos exclusivamente econômicos – dirigidos e estimulados dentro dos seus interesses econômicos – e não como fatos intimamente ligados aos interesses da saúde pública”.

O debate sobre a fome e suas causas é recente. Existem ainda muitos tabus em torno desse fantasma. Esses tabus são criados em virtude de restrições de ordem moral, política e econômica

O alicerce do estudo da fome empreendido por Castro (cit., p. 24) é a ciência geográfica, que tem como meta “localizar com precisão, delimitar e correlacionar os fenômenos naturais e culturais que ocorrem à superfície da terra. É dentro desses princípios geográficos, da localização, da extensão, da causalidade, da correlação e da unidade terrestre, que pretendemos encarar o fenômeno da fome”.

Caldeirão, Contestado, Canudos
As rebeliões que surgiram no Brasil entre o último quarto do século XIX e o primeiro quarto do século XX são fruto do monopólio da terra e do imperialismo. Canudos. Caldeirão. Contestado. O Nordeste foi o palco privilegiado da maioria dessas lutas. Primeiro, porque a evolução econômica dessa região foi profundamente lenta: no século XIX ainda se verificava uma economia baseada no trabalho semiescravo. Segundo, as cidades litorâneas, mais evoluídas do que as do interior, não possuíam forças produtivas suficientemente desenvolvidas para atrair a população do sertão. Somado a esse quadro de crescimento econômico precário, no triênio de 1877 a 1879 não caiu uma gota de chuva no sertão, onde geograficamente a fome é mais proeminente até hoje. São nesses anos que começa o fenômeno da emigração nordestina.

Segundo Rui Facó, a emigração foi o primeiro passo que essas populações – assoladas pela seca e exploradas pelo latifúndio – deram na busca de melhores condições de vida. Ainda conforme nosso autor, com a emigração a mentalidade do nordestino se modifica e o latifúndio começa a perder força. A mentalidade do nordestino se altera em virtude do contato com outras realidades sociais, tais como a do Sudeste, do Sul e da região amazônica, principalmente com a extração da borracha. O latifúndio sofre um duro golpe pela necessidade de mão de obra, cada vez mais escassa pela fuga da população que habita o sertão, verificada no final dos anos 70 do século XIX.

Essa foi a realidade que Antônio Conselheiro vivenciou. Exploração, seca e fome. Aliás, como vários autores já salientaram, duas são as consequências da fome: a religiosidade e a violência. Canudos representou o primeiro fenômeno, e o Cangaço, o último. O pano de fundo de Canudos é a “disputa” entre religiosidade popular versus religiosidade oficial. Desde 1870, com a Questão Religiosa, vários padres foram presos e escândalos do clero vieram à tona. A religião oficial sofreu um abalo em seu prestígio. Nessa época ocorreram assaltos às igrejas. Além desse fato, a República não melhorou em nada a vida dos habitantes do sertão. Desesperança com a religião, desamparo do Estado e a falta de perspectiva de mudança da realidade foi o que sobrou aos sertanejos. Como Facó (1963, p. 21) escreve: “[...] Era mais do que natural, era legítimo, que esses homens sem terra, sem bens, sem direitos, sem garantias, buscassem uma ‘saída’ nos grupos de cangaceiros, nas seitas dos ‘fanáticos’, em torno dos beatos e conselheiros, sonhando com a conquista de uma vida melhor”.
O boato que virou guerra


Os ataques mais agudos contra Canudos começaram graças a um boato. Saiu a conversa de que Antônio Conselheiro tinha encomendado madeira na cidade de Juazeiro.

Recebendo a notícia de que o carregamento não seria entregue, ele teria prometido pegar as madeiras à força. Esse boato fez com que as autoridades de Juazeiro pedissem ajuda ao governo da Bahia. Assim, em novembro de 1896 é enviada a primeira expedição a Belo Monte.

A força contava com 100 homens e a batalha ocorreu em Uauá. A expedição foi derrotada. Essa vitória dos sertanejos causou frio na espinha das autoridades, que não tardaram a preparar outra investida. Em janeiro de 1897, a segunda expedição, chefiada pelo major Febrônio de Brito, chegou à região de Canudos. Com 557 soldados e oficiais, metralhadoras e dois canhões, o grupo foi solenemente destroçado e os sobreviventes colocaram-se em fuga.

Para o governo brasileiro isso foi uma vergonha. Era necessário dizimar esses sem-terra indesejáveis, e outra expedição foi organizada. Para comandar chamaram um herói de guerra, afamado, cheio de honras, o coronel Antônio Moreira César.

Com 1.300 soldados, bateria de artilharia, esquadrão de cavalaria, canhões e munição para 16 milhões de tiros. Agora sim, o arraial de Canudos seria pulverizado. Mais uma vez a poderosa força foi aniquilada. Moreira César foi morto e o pânico se instalou no país. Estávamos em março de 1897. Um bando de analfabetos e miseráveis haviam desmoralizado o exército, o governo e os latifundiários brasileiros.

De onde vinha essa força? Como conseguiam destruir milícias muito mais poderosas? Que homens e mulheres eram esses? Canudos não podia ficar impune para que seu exemplo não contagiasse outras partes do País.


O que incomodou as autoridades da República foi o carisma de Conselheiro. O líder carismático, segundo Max Weber, é o único capaz de provocar profundas mudanças na ordem constituída. Daí o Estado liberal republicano brasileiro colocá-lo como inimigo da República para justificar o massacre a Canudos

Biografia de Conselheiro
Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, vem à luz no dia 13 de março de 1830 no Ceará. Filho de um dono de comércio em Quixeramobim, Vicente Mendes Maciel, casado com Maria Joaquina de Jesus, desde muito cedo conviveu com perdas e sofrimentos. Aos 4 anos de idade perde a mãe, e aos 6 vê o pai casar-se de novo com Francisca Maria Conceição, de temperamento muito forte e que maltratava muito o menino Antônio. O sonho de seu pai era vê-lo padre. Por isso, colocou-o nas aulas de português, latim e francês do professor Antônio Ferreira Nobre. Em abril de 1855, seu pai morre. Com 25 anos de idade Antônio assume os negócios paternos. Dois anos depois, casa-se com sua prima Brazilina Laurentina de Lima.

Os negócios não vão bem. Ele hipoteca sua casa e o comércio como garantia de pagamento de uma dívida de 2 contos de réis contraída por seu pai. Em 3 de setembro de 1857 vende a casa e o comércio ao coronel Antônio Rodrigues Silva. No ano seguinte, trabalha como mestre-escola perto de Quixeramobim. Atua também como caixeiro dos negócios de um oficial do exército, o major Domingos Carlos Saboia, em Campo Grande. Na mesma cidade exerce a advocacia, redigindo petições e advogando para os pobres. Entre os anos de 1861 e 1865 trabalha entre os municípios de Ipu, Santa Quitéria e Tamborial como professor e advogado. É em Ipu que sua esposa torna-se amante de um policial.

Interessante ouvir Martins (MARTINS/ 2001, p. 23-24): “O insucesso nos negócios, a incapacidade de honrar compromissos legados pelo comércio paterno, a dissolução e o abandono do lar decerto fizeram clamar forte em seus ouvidos as velhas aulas de catecismo da já distante infância em Quixeramobim: a figura do Dr. Ibiapina, juiz de direito de sua cidade natal, que pelejava contra a corrupção na tentativa de promover a justiça em sua jurisdição, e, posteriormente, do padre Ibiapina, construtor de casas de caridade, que levava às ‘vidas secas’ dos mal-aventurados a presença fraterna, a promessa de uma outra vida, a esperança para continuar, um sentido para suas existências”.

Em 1893 é enviada uma força policial com 30 homens contra os “conselheiristas”. Depois desse ataque, Conselheiro decide buscar um lugar que garantisse uma melhor defesa contra as investidas do governo, que, sabia, iriam se intensificar. Surge Belo Monte. Canudos começa a ser erguido e ameaça o latifúndio

Líder carismático 
Sua peregrinação pelos sertões começa quando de sua saída de Santa Quitéria, pregando e sendo seguido por aqueles que tinham unicamente a esperança de um dia vencer a miséria. E, desse momento em diante, seu nome entrará para a história como Antônio Conselheiro. O que incomodou as autoridades da República foi o carisma de Conselheiro. Aliás, como salientou Glauber Rocha no filme A Idade da Terra, o que os poderes instituídos, principalmente o imperialismo, temem, não é o líder sindical, mas sim o líder de viés messiânico. O líder carismático, segundo Max Weber, é o único capaz de provocar profundas mudanças na ordem constituída. Por essa razão, o Estado liberal republicano brasileiro o elegeu como inimigo da República para justificar o massacre a Canudos.

O monarquismo » O que disparou o tão falado anti-republicanismo do líder sertanejo foi um episódio acontecido em Bom Conselho. Em 1893, o governo central autoriza os municípios a cobrarem impostos. Como era uma época sem rádio, como os jornais não chegavam à maioria da população, as leis eram fixadas nas portas das Câmaras Municipais, Conselheiro manda seus seguidores retirarem os editais de cobrança das Câmaras e queima os papéis em praça pública


Entretanto, Rui Facó desmistifica o anti-republicanismo de Conselheiro, afirmando que o monarquismo do líder sertanejo é uma criação ideológica. Em 1876 ele é preso sob alegação de baderna. Em 1886 cai nas mãos do chefe de polícia da Bahia relatório do delegado de polícia de Itapicuru sobre as movimentações suspeitas de Conselheiro. O que vale dizer que bem antes da Proclamação da República ele não era visto com bons olhos pelas autoridades. Se Conselheiro era contra uma lei da República, automaticamente era um inimigo do regime. Para ele, os sertanejos já eram explorados pelos latifúndios, recebendo um salário de fome, quando não recebiam em espécie os seus pagamentos. Aí vinha o governo para extorquir aquilo que eles não tinham. Assim, Conselheiro incentivou atos de rebeldia e de luta em prol dos que eram destituídos de tudo.


Em 1893 é enviada uma força policial com 30 homens contra os “conselheiristas” na localidade de Massete. É a primeira força policial que sofre fragorosa derrota. Depois desse ataque, Conselheiro decide buscar um lugar que garantisse uma melhor defesa contra as investidas do governo -- que, ele sabia, iriam se intensificar. Surge Belo Monte. Canudos começa a ser erguido e ameaça o latifúndio.

É importante frisar que, ao longo da guerra civil travada contra Belo Monte, a figura de Antônio Conselheiro foi relegada a segundo plano. O que avulta de espetacular em Canudos foi a organização imaginada por Conselheiro, mas posta em prática por líderes que surgiram lá. Pajeú, comandante geral da defesa de Canudos. João Abade, responsável pela segurança interna. Joaquim Macambira, administrador interno e com ótimas relações externas. Antônio Vilanova dirige a economia e atua como juiz de paz em Belo Monte. Além dessa organização, a localização do arraial facilita a defesa. A tática de guerrilhas, utilizada nos combates, foi imprescindível para o êxito contra as três primeiras expedições governamentais. Para entender esse movimento é importante, conforme Clóvis Moura, analisá- lo como fruto das contradições entre latifúndio e camponeses. Esse é o real significado político de Canudos.

Canudos, segundo Clóvis Moura, foi um protesto radical por melhores condições de vida dos camponeses. Para minimizar o caráter extremamente político do movimento e para que a experiência realizada no arraial fosse simplesmente apagada, criou-se a imagem de louco para Antônio Conselheiro

Estratégia de sobrevivência
Canudos, ainda segundo Clóvis Moura, foi um protesto radical dos camponeses por melhores condições de vida. Para minimizar o caráter extremamente político do movimento, criou-se a imagem de louco para Antônio Conselheiro. Em Canudos “desenvolvia-se, assim, uma economia comunitária e alternativa autossuficiente bem superior nas suas relações sociais e na distribuição da sua produção daquela latifundiária, baseada na exploração camponesa do resto da região [...]” (MOURA, 2000, p. 40). Era a realização de uma comunidade que distribuía coletivamente os direitos, e todos os membros participavam de maneira igual na economia e na política. Isso era imperdoável. Intolerável. Inconcebível. Foi uma estratégia de sobrevivência para os marginalizados que não tinham apoio da Igreja oficial, muito menos do governo federal.

O arraial foi dizimado » Sobre Canudos, Facó (cit., p. 83) dá um tiro certeiro: “Ante o fenômeno Canudos, os senhores das classes dominantes e seus porta-vozes recusavam-se a acreditar na realidade: milhares de párias do campo armados em defesa da própria sobrevivência, em luta, ainda que espontânea, não consciente, contra a monstruosa e secular opressão latifundiária e semifeudal, violando abertamente o mais sagrado de todos os privilégios secularmente estabelecidos desde os começos da colonização europeia no Brasil – o monopólio da terra nas mãos de uma minoria a explorar a imensa maioria. Era este o mais nefando dos crimes contra a ordem dominante...”
Antônio Conselheiro » “Faleceu, conforme depoimento de sobreviventes da guerra do fim do mundo, em 22 de setembro de 1897, vitimado por uma caminheira, segundo uns, ou por um ferimento provocado por estilhaço de granada, segundo outros; ou ainda, como sugere Edmundo Moniz, por um colapso cardíaco, quando já se esfacelara entre os escombros de um povoado em chamas e o sacrifício de milhares de vidas, o sonho de reinventar o sertão, a utopia de uma sociedade mais justa” (MARTINS, cit., p. 39).


Por fim, veio a derradeira apresentação dessa peça valorosa e que deve encher de orgulho o sertanejo. A quarta expedição, em junho de 1897, sob a batuta do general Artur Oscar de Andrade Guimarães, contava com duas colunas, uma comandada pelo general João da Silva Barbosa e a outra pelo general Cláudio do Amaral Savaget. Uma força nunca antes vista no país: aproximadamente 5 mil homens, com canhões, metralhadoras e cavalaria. O ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, foi pessoalmente à Bahia para acompanhar os acontecimentos. Quase mais uma expedição é vencida. Mas o arraial foi dizimado, não sobrou absolutamente nada. Contudo, as baixas do exército chegaram a 1.200 homens. Restou a memória de homens e mulheres que sonharam que um outro mundo é possível. Um mundo onde as oportunidades possam ser estendidas a todos. Um mundo onde as pessoas possam ter o direito de sonhar. Um mundo onde a felicidade deva ser a regra da existência.

Antônio Conselheiro teve sua cabeça decapitada, assim como mais tarde, em julho de 1938, Lampião também teria. O crânio de Conselheiro foi entregue a Nina Rodrigues para estudos. Diagnóstico: louco. Esse “louco”, que trabalhou como pedreiro, construtor de igrejas, muros de cemitérios, ergueu barragens, advogou para os pobres, comerciou, quase foi padre, casou, teve filhos, pregou para multidões, foi o responsável por nossa primeira luta épica pela posse da terra. Foi acima de tudo um forte. Homem do povo que teve o mesmo destino de tantos outros verdadeiros heróis brasileiros. Que sua “Stalingrado Jagunça”, como disse Oswald de Andrade, possa ser lembrada sempre e que sua rebeldia seja uma motivação para todos aqueles que lutam por uma sociedade melhor.


* Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho é sociólogo, mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora e professor de Sociologia, Antropologia e Metodologia de Pesquisa da FAI – Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação de Santa Rita do Sapucaí – MG. 


Referências 
ANDRADE, Oswald de. Ponta de Lança. São Paulo: Globo, 1991.

CASTRO, Josué de. Geografia da Fome. 10 ed. Rio de Janeiro: Antares, 1984.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Editora Três, 1973. 2v. (Obras imortais da nossa literatura)

FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanáticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.

MARTINS, Paulo Emílio Matos. A Reinvenção do Sertão. Rio de Janeiro: FGV, 2001.

MOURA, Clóvis. Sociologia Política da Guerra Camponesa de Canudos – da destruição de Belo Monte ao aparecimento do MST. São Paulo: Expressão Popular, 2000.
Revista Sociologia

sábado, 18 de agosto de 2012

Canudos

Um novo olhar sobre
Historiador produz documentário com abordagem inédita sobre a saga de Antonio Conselheiro
Vista geral de Canudos.Há quem diga que a Guerra de Canudos (1896-1897), articulada pelo beato Antonio Conselheiro, foi uma espécie de movimento comunista primitivo que predominava no pequeno povoado baiano. Há ainda aqueles que viam em Canudos um movimento puramente messiânico, ligado apenas à religião e ao transcendente, engendrado pelo "fanático" beato que pretendia levar os seguidores para o céu, por meio do sacrifício de suas próprias vidas.
Soldados e um conselheirista preso.Mas o professor Ítalo Tronca, do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, está empenhado na elaboração de um vídeodocumentário com uma abordagem crítica em relação às narrativas tradicionais e que com o tempo tornaram-se oficiais. Ele se propõ ainda a despertar a curiosidade e provocar um certo estranhamento, tanto em especialistas quanto em estudantes da história e da cultura brasileiras, do ensino fundamental ao superior.
Foto 3 - Sepultamento do capitão Antônio Manuel de Aguiar e Silva."Não vou simplesmente recontar a história da Guerra de Canudos, mas lançar um novo olhar sobre a questão. Mesmo porque existe uma infinidade de documentários e filmes sobre o episódio, embora nem todos cumpram bem o seu papel", diz. No seu trabalho, o pesquisador vai mostrar que o discurso do pietismo ou da vitimização daquele povo "é de alguma maneira falso, assim como são falsos os argumentos daqueles que fazem apologia à civilização republicana".
Ruínas da igreja novaÍtalo Tronca vê o conflito com uma dimensão um tanto poética, até romântica, nessa abordagem que foge de um documentário puramente objetivo, que pretenda revelar a verdade sobre Canudos. "Trata-se de uma questão polêmica e estão em jogo muitas verdades. Esse é o dilema. E é isso que eu gostaria que o vídeo de alguma forma demonstrasse: a pluralidade de sentidos nesses acontecimentos", explica.

General Carlos Eugênio e seu estado maior em Monte SantoO professor de História do Brasil iniciou o projeto ao perceber que havia um vazio na historiografia sobre Canudos. "Quando se percorre a bibliografia sociológica ou política mais especializada, ou se faz uma abordagem dos acontecimentos, nota-se uma uniformidade do discurso:os mais sensíveis derramam-se em lágrimas por causa dos pobres miseráveis que morreram massacrados pela República; outros enaltecem a guerra, porque não haveria lugar para um corpo estranho como uma comunidade de fanáticos que não respeitavam as leis vigentes".
O Corpo de Antônio Conselheiro.O discurso oficial se apóia muito no fanatismo do beato Antonio Conselheiro e de seus seguidores, os sertanejos. Em seu trabalho, Ítalo Tronca pretende focalizar também o caráter libertário do movimento. "Pouco importa que existisse uma dimensão mística. O importante nisso tudo é que Antonio Conselheiro não estava ameaçando a ordem republicana. A ordem republicana é que, por várias razões e nem todas evidentes, se sentia ameaçada", explica o pesquisador da Unicamp. E mais, segundo ele, é que está em jogo questionar o espírito (éthos), a natureza do regime republicano, que no seu discurso oficial proclamava-se libertador, garantidor dos direitos das minorias , mas, diante dos inconformados com a nova ordem, partiu para a violência.

O professor Ítalo Tronca: "Antonio Conselheiro não estava ameaçando a ordem republicana"Escolas receberão vídeo
O Projeto Audiovisual "Canudos", já em fase de produção, é uma idéia do professor Ítalo Tronca, responsável também pela pesquisa. Conta com a participação do jornalista José Irani Dias e de Alan Russo, pesquisador e aluno de História do IFCH. A Petrobras entra com R$ 80 mil de patrocínio.
De acordo com o projeto inicial, o vídeo será formatado em blocos de 20 ou 25 minutos, que a empresa patrocinadora se propõe a distribuir pela rede de ensino em nível nacional. O filme também será veiculado em redes de televisão. 
"Temos entrevistas com uma antropóloga de Alagoas, bastante respeitada, e com a professora Walnice Galvão, especialista em Euclides da Cunha. O programa será composto ainda de um vasto material inspirado em trechos de Os Sertões, e do diário de uma expedição do próprio escritor. Este diário é um documento histórico, anterior ao livro que o consagrou, referente ao momento em que as tropas comandadas pelo general Bitencourt estavam a caminho de Canudos", conta Ítalo.
O professor adianta que pretende trabalhar com as informações do diário feito pelo escritor durante sua peregrinação pelo sertão baiano antes da chegada em Canudos e da batalha final. Com base nesse material, que inclui fotografias da época, Ítalo Troca vai elaborar umpré-roteiro do vídeo. 
"Euclides vai fazendo observações muito interessantes sobre as condições das tropas, o meio geográfico, a hostilidade desse meio e suas próprias sensações. Tudo isso vou compondo em minha imaginação. Esse documento, menos conhecido, é tão ou mais interessante do que o livro famoso, pois são observações e sentimentos do autor em primeira mão, despidos do cientificismo e dos recursos literários de Os Sertões; é muito mais uma reportagem de alto nível do que um trabalho literário. 
Ítalo Tronca acrescenta que no diário vai-se pre-configurando Os Sertões, como fosse a matéria bruta da posterior obra monumental. "Nosso vídeo pretende explorá-lo justamente por ter sido quase esquecido pela linguagem audiovisual, inclusive o cinema", conclui o professor.
Estudos revisitam tema
"Uma coincidência histórica reúne este ano os centenários da morte de Prudente de Moraes e da publicação de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Canudos se insere no projeto mais amplo sobre Prudente de Morais e sua época, final do século 19", explica o professor Ítalo Tronca. A tragédia que teve como palco o sertão baiano situa-se no coração do período de governo de Prudente de Morais. O drama e suas conseqüências - não só para o regime republicano recém-inaugurado, mas para a sociedade brasileira como um todo - não cessaram até hoje, quando analisados sob ponto de vista da história política, social e cultural.
O professor do IFCH explica que depois de Os Sertões, que parecia ter esgotado as possibilidades de interpretação do episódio, sucederam-se inúmeros estudos, apoiados na descoberta de novas fontes documentais. Esses documentos permitem hoje, mais do que uma simples revisão, uma nova leitura daqueles acontecimentos.

Jornal UNICAMP

sábado, 8 de outubro de 2011

CANUDOS: REPORTERES E ESCRITORES


Conselheiristas presos no dia 2 de outubro de 1897

A revolta de Canudos, nos ultimos anos do seculo XIX, atraiu ao local dos acontecimentos varios jornalistas: entre outros Manuel Benicio, do Rio; Favila Nunes, Cisneiros Cavalcanti, Manuel de Figueiredo e Euclides da Cunha, de São Paulo.
Esses enviados especiais guardavam entre si uma característica comum: Euclides da Cunha era tenente reformado, Favila Nunes era coronel, Manuel Benicio, capitão, e Manuel de Figueiredo, major.
Em reportagens assinadas, Euclides escreveu de 7 de agosto a 1 de outubro de 1897. Suas reportagens foram publicadas duas vezes em forma de livro: "Canudos - Diário de uma Expedição", edição organizada por Antonio Simões dos Reis, José Olympio, Rio, 1939; "Canudos e Inéditos", organizada por Olímpio de Souza Andrade, São Paulo, 1967.
Tanto as reportagens como o livro que publicou cinco anos mais tarde - "Os Sertões" - estão profundamente marcados por suas posições que, refletem as posições filosóficas predominantes no momento: o positivismo, a geopolítica, a antropogeografia. Da mesma maneira que os outros enviados especiais, Euclides oscila entre as opiniões preconcebidas e a realidade presenciada. Da mesma maneira que os outros, Euclides se cala, enquanto reporta quanto à praticas como a de degolar prisioneiros, cuja existencia não era desconhecida nem causava escandalo. "Os Sertões" - como tambem Manuel Benicio em "O Rei dos Jagunços", publicado em 1899 - Euclides faz uma denuncia apaixonada. No Diário de Notícias, da Bahia, de 16 de agosto de 1897, aparece uma notícia sobre o relatorio que o coronel Serra Martins fizera ao presidente Prudente de Morais, na qual surge, entre várias informações a seguinte: "Disse que quando deixou Canudos, não havia prisioneiros no acampamento um só jagunço, porque os que são apanhados são logo mortos".

O jornalismo de então: o que era e o que não era

"Espantoso.
Por pessoas, recentemente chegadas de Canudos, ouvimos o seguinte:
Que no último ataque, um grupo de valentes soldados, depois de ter esgotado a munição, lembraram-se de correr a pontapés os conselheiristas, confiados na resistência do calçado que foi comprado na popular casa O Monumento.
Que feliz idéia!..."
Anúncios como esse, publicados na primeira página do Diário de Notícias, da Bahia, a 12 de agosto de 1897, era bastante comuns. A publicidade atual também utiliza fatos e pessoas como as vitórias de Fittipaldi ou de Pelé. O que mudou foram os fatos.
O jornal era o mais eficiente veículo de comunicação no Brasil, no final do século XIX: ele acolhe em suas páginas um material variadissimo, que hoje - sobretudo com a televisão - que se encontra disperso. Tudo se passava em suas páginas; e também se criava: incidentes, intrigas e conspirações.
Anúncios classificados sobre cabras 'com abundância de leite", sobre roubo de "besta de sela, arreada, cor de pinhão, com sinal no quarto, ainda nova e pequena" ou oferecendo à venda lenha em achas; uma crônica literária em francês ao lado de uma lista de livros "só para homens"; anúncios que divulgam elixires e "poderosos reconstituintes" que curam tudo, como por exemplo "Embriaguês habitual ou crônica - cura-se em poucos dias com o Específico Giffoni". É um tempo em que se anuncia o Cinematógrafo Edson à rua do Ouvidor, como "a maior novidade do dia" e se acrescentava "Entrada com cadeira 1$000".
É o tempo da popularidade cênica de Pepa Ruiz e do êxito da peça "A Capital Federal" de Artur de Azevedo.
Talvez tenha sido "A Notícia", do Rio de Janeiro, um dos primeiros jornais a realizar alguma coisa com propaganda subliminar. No meio das notícias curtas, de primeira página, aparece frequentemente impresso em tipo muito menor, o seguinte: "Thé de Lipton. Rien de mieux".
Publicações a pedido, provocações para brigas, cartas abertas, bilhetes amorosos, mensagens de lojas maçônicas, prestações de contas do "Comitê de Solidariedade" à guerra de libertação nacional cubana, tudo isso dá uma idéia bastante clara da vida que se levava na época.
Declarações assinadas e cartas anônimas, contendo acusações de maior ou menor gravidade sobre a vida particular das pessoas provocaram não poucos atentados a jornalistas profissionais e crimes de morte. Apenas a derrota da Expedição Moreira Cesar, na campanha de Canudos, provocou o empastelamento de três jornais, no Rio de Janeiro - Apóstolo, Liberdade e Gazeta da Tarde - e um em São Paulo - O Comercio de São Paulo - além do assassinato de Gentil de Castro.
A localização da maior parte dos jornais cariocas - à rua do Ouvidor, então a mais importante do País - não era casual; todas as pessoas passavam por lá para saber das novidades. As frequentes agitações começavam ou terminavam quase sempre na rua do Ouvidor.
Ao lado da riqueza do conteúdo, entretanto, esses jornais eram visualmente monótonos. Muito diferentes dos jornais de hoje - visualmente atraentes - eles eram muito semelhantes entre si, quer fossem editados na capital do País, para um público presumivelmente mais refindado, ou nas cidades do interior. Ausência de fotos, raras ilustrações: geralmente mapas de batalhas, mortos ilustres, anúncios de remédios, moda feminina. O tamanho grande da página, os tipos miúdos, as colunas estreitas obrigavam o leitor a iniciar a leitura lá de cima, logo abaixo do cabeçalho, percorrer quase um metro de página e procurar continuação do artigo na coluna do lado, novamente lá em cima.
Em proporção à população, havia no Brasil mais jornais do que hoje. Apenas no Estado da Bahia, circularam entre 1811 e 1899, 700 jornais diferentes. Mesmo se levarmos em conta que muitos desapareciam por falta de autonomia financeira ou por motivos políticos, ou que alguns eram criados apenas para comemorar uma data ou prestigiar uma personalidade e depois eram fechados - ainda assim era excessivo o número de jornais existentes na época.
Sensacionalismo, ironia, bom senso, tudo isso temperou a intensa movimentação jornalística provocada pela Guerra de Canudos. Correspondentes especiais foram enviados exclusivamente para informar sobre o que se passava, notícias desencontradas chegavam, as casas comerciais faziam anúncios baseados na campanha e nos principais acontecimentos, a sátira política fervia.

O grande desventurado, truanesco e pavoroso

Uma página de Euclides da Cunha, sobre Antonio Conselheiro:
"A sua entrada nos povoados, seguido pela multidão contrita, em silencio, alevantando imagens, cruzes e bandeiras do Divino, era solene e impressionadora. Paralisavam-se as ocupações normais. Ermanavam-se as oficinas e as culturas. A população convergia para a vila onde, em compensação, avultava o movimento das feiras; e durante alguns dias, eclipsando as autoridades locais, o penitente errante e humilde monopolizava o mando, fazia-se autoridade unica.
"Erguiam-se na praça, revestidas de folhagens, as latadas, onde à tarde entoavam, os devotos, terços e ladainhas; e quando era grande a concorrencia, improvisava-se um palanque ao lado do barracão da feira, no centro do largo, para que a palavra do profeta pudesse irradiar para todos os pontos e edificar todos os crentes.
"Ele ali subia e pregava. Era assombroso, afirmam testemunhas existentes. Uma oratoria barbara e arrepiadora, feita de excertos truncados das Horas Marianas, desconexa, abstrusa, agravada, às vezes, pela ousadia extrema das citações latinas; transcorrendo em frases sacudidas; misto inextricavel e confuso de conselhos dogmaticos, preceitos vulgares da moral cristã e de profecias esdruxulas...
"Era truanesco e era pavoroso.
"Imagina-se um bufão arrebatado numa visão do Apocalipse...
"Parco de gestos, falava largo tempo, olhos em terra, sem encarar a multidão abatida sob a algaravia, que derivava demoradamente, ao arrepio do bom senso, em melopéia fatigante.
"Tinha, entretanto, ao que parece, a preocupação do efeito produzido por uma ou outra frase mais decisiva. Enunciava-se e emudecia: alevantava a cabeça, descerrava de golpe as palpebras; viam-se-lhe então os olhos extremamente negros e vivos, e o olhar - uma cintilação ofuscante... Ninguem ousava contemplá-lo. A multidão sucumbida abaixava, por sua vez, as vistas, fascinada, sob o estranho hipnotismo daquela insania formidavel.
"E o grande desventurado realizava, nesta ocasião, o seu unico milagre: conseguia não se tornar ridiculo..."

"Os sertões", atual setenta anos depois

Emir M. Nogueira

São José do Rio Pardo, Tatuí e Taubaté são algumas das poucas cidades paulistanas - e brasileiras - que procuram conservar vivo o culto a personalidades nelas nascidas, ou com elas de alguma forma relacionadas. Tatuí e Taubaté realizam, anualmente, as "semanas" de Paulo Setubal e Monteiro Lobato, respectivamente, em homenagem a esses escritores, naturais dessa cidade. A mais antiga de tais "semanas", entretanto, é a euclidiana, que hoje, 15 de agosto, se encerra em São José do Rio Pardo, e que se vem repetindo desde 1912.
A ata se justifica por assinalar o dia da morte de Euclides da Cunha (1909). O mais expressivo, no culto à sua memoria, em São José do Rio Pardo, é que o escritor não é filho dessa cidade, tendo aí vivido apenas alguns anos, de 1898 a 1901, na sua condição de engenheiro, responsavel pela construção de uma ponte pensil sobre o rio que dá nome à localidade.
Foi no entanto em São José do Rio Pardo que Euclides escreveu a sua obra máxima - "Os Sertões" - nos intervalos de sua atividade profissional. Francisco Escobar, amigo íntimo do autor, como qual manteve correspondencia durante longos anos, foi um dos que mais contribuiram para criar na cidade a tradição da "Semana Euclidiana", que abrange cerimonias culturais, cívicas e esportivas, de que participam representantes de quase todo o Estado. Alguns dos melhores ensaios sobre a obra de Euclides foram apresentados como conferencias, durante as "semanas".


Uma vida tragica

Durante muitos anos, após o desaparecimento do escritor, os estudos sobre o que produziu foram obscurecidos pelo impacto de sua morte tragica. Depois, como numa especie de consenso sobre o respeito devido à familia, relativo silencio passou a ser observado sobre o assunto. Por volta de 1945, quando um dos principais personagens do drama - o homem que matou Euclides - decidiu dar sua versão dos fatos, as discussões se reacenderam.
Sem entrar em pormenores penosos, e irrelevantes a esta altura, o que se pode recordar é que a tragedia euclidiana teve dois atos principais: no primeiro, a vitima foi o escritor, que tombou morto num duelo a tiros com o homem que supunha ter-lhe manchado o lar; o segundo, alguns anos mais tarde, morreu o filho de Euclides, que quis vingá-lo, sendo igualmente atingido, mortalmente, pelos tiros daquele que lhe matara o pai. Nas duas vezes, levado a julgamento, o autor das mortes de pai e filho foi absolvido, reconhecendo a Justiça que agira em legítima defesa.

Uma obra extraordinária

"Os Sertões" é, para muita gente, um daqueles livros de que todo mundo fala mas poucos, realmente, lêm. Trata-se de alentado volume, de mais de 600 páginas, cujo tema imediato é a chamada campanha de Canudos, ou seja, o episodio, ocorrido em fins do seculo passado, de que Antonio Conselheiro é a figura principal.
O livro é dividido em três partes: "A Terra", "O Homem" e "a Luta". A primeira é uma espécie de descrição do cenario - o Nordeste brasileiro - onde se desenrolariam os choques entre as forças legais e os seguidores do Conselheiro. Corresponde a cerca de 1/10 do livro, isto é, mais ou menos 60 páginas comuns; é a parte de mais difícil leitura, pois Euclides, engenheiro com vocação de antropologo e sociologo, desce a minuncias técnicas na descrição e na analise do meio fisico que gerou os jagunços.
Em "O Homem", descreve-se o personagem da tragedia: o sertanejo, o nordestino, quase esmagado por um ambiente hostil, mas que de uma forma ou de outra ainda encontra forças para reagir contra ele. Uma das mais conhecidas paginas dessa parte é aquela que se inicia pela frase - "O sertanejo é antes de tudo um forte" - presente em numerosas antologias. Para muitos é a melhor parte do livro, embora menos longa que a ultima, "A Luta".
Na terceira parte, Euclides descreve por assim dizer duas especies de luta: a das forças legais contra os jagunços (quatro expedições foram mandadas contra eles; Euclides acompanhou a quarta) e, a mais importante, a luta do homem contra a terra, para poder dominá-la e sobreviver.
O importante, em "Os Sertões", não é propriamente o relato dos embates entre soldados e jagunços. É a colocação do drama nordestino. Pela primeira vez, no Brasil, apresentava-se à nossa consciencia o problema do subdesenvolvimento de uma vasta area do país, até então praticamente abandonada à propria sorte. A obra de Euclides inspirará, em boa parte, o moderno romance brasileiro (surgido por volta de 1930 no nordeste, com tematica semelhante à de "Os Sertões").
Enviado ao cenario dos acontecimentos por um jornal, Euclides da Cunha não se limitou a fazer reportagem. Dotado de excepcional sensibilidade, colheu elementos para uma obra que, ao ser lançada, em 1902, logo foi reconhecida como a mais profunda tentativa de interpretação da realidade brasileira até então feita em nosso país.
É claro que, setenta anos mais tarde, muita coisa, em "Os Sertões" está superada. Permanece, entretanto, como uma das coisas mais serias já escritas no Brasil. O interesse pela obra vem sendo revigorado em nossos dias, com novas edições criticas, analises e ensaios que procuram mostrar o que ela tem de atual.

O escritor

Numa frase celebre, Joaquim Nabuco disse que Euclides parecia escrever "com um cipó". É uma referencia, aliás pouco feliz, ao estilo nervoso, por vezes agreste, mas quase sempre vigoroso do autor. Vocabulario riquissimo (como aliás era de praxe na epoca), Euclides convida a lê-los como dicionario à mão. Perde-se às vezes em preciosismos - palavras e expressões raras - desenterra arcaismos ou construções classicas.
Muitas de suas paginas são, no entanto, antologicas, no sentido mais exigente do termo. Tal é a descrição dos ultimos dias e a morte do Conselheiro (paginas de fecho de "Os Sertões'), pelas quais perpassa um sopro epico pouco comum em nossa literatura, o mesmo acontece em numerosas outras passagens do livro.
Além de "Os Sertões", deixou Euclides, ainda, "A Margem da Historia", "Contrastes e Confrontos", "Peru vx. Bolivia", além de artigos de jornal e farta correspondencia - tudo fruto de suas andanças pelo país e de sua capacidade de observação e estudo dos diversos aspectos da nossa realidade.

Folha de S.Paulo, terça-feira, 15 de agosto de 1972

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Santos, fanáticos ou líderes sociais?

Movimentos com base na fé, abundantes no Brasil, ainda são mal estudados

ANDRÉ CAMPOS


Saga de Antônio Conselheiro registrada na igreja
de Canudos / Foto: André Campos

Em outubro de 1897, após 11 meses de uma guerra sangrenta, finalmente o exército brasileiro derrotou a última trincheira que ainda resistia em Canudos. Terminava assim a epopeia da nação sertaneja surgida em torno de Antônio Conselheiro, a quem eram atribuídos atos de caridade, curas milagrosas, visões e profecias. Havia quatro anos que ele se estabelecera naquele local, para o qual foram afluindo levas e levas de peregrinos. E quatro anos bastariam para que o minúsculo povoado que o acolheu se tornasse a segunda maior cidade baiana de então, com estimados 25 mil moradores – menor apenas que Salvador.

A Guerra de Canudos, onde pereceram 20 mil sertanejos e 5 mil soldados aproximadamente, foi apenas mais um capítulo na história de ebulições sociais que, em terras brasileiras, floresceram no rastro de líderes religiosos. “O Brasil tem sido especialmente pródigo na geração de movimentos messiânicos”, escreve Lísias Nogueira Negrão, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) que estuda temas ligados à religiosidade popular.

O messianismo pode ser entendido como a crença na vinda de um enviado divino que conduzirá determinado grupo à libertação. Nosso primeiro registro de conflito associado a esse ideal remonta provavelmente a 1817, quando um ex-soldado, acompanhado por 400 adeptos, fundou a Cidade do Paraíso Terrestre, vilarejo que abrigava uma laje “encantada” através da qual falava uma santa. Três anos depois, a comunidade seria desmantelada a mando do governador pernambucano.

No Brasil, abundante como as mobilizações messiânicas é o leque de interpretações sobre tais fenômenos – um tema que desperta paixões e pouco afeito a meios-termos, em que adjetivos como “loucos” e “fanáticos” convivem com discursos que tratam seus participantes como heróis ou revolucionários. Tal disparidade é legitimada, em grande medida, pelas dúvidas que ainda pairam sobre esses acontecimentos – sob diversos aspectos, eles permanecem pouco estudados e mal explicados.

Na esteira dessas lacunas, alguns municípios fomentam atualmente ações locais para resgatar a memória sobre certos episódios. São passagens nebulosas da história que, não raro, ainda contam com remanescentes vivos, e que seguem gerando polêmica nas regiões onde ocorreram.

Catolicismo “rústico”

Figuras messiânicas no Brasil têm sido notadas principalmente em áreas rurais, algo que, segundo Renato da Silva Queiroz, livre-docente do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, remete a uma versão “rústica” do catolicismo difundida nos sertões – onde a costumeira ausência das autoridades eclesiásticas facilitou o surgimento de líderes leigos. “É o universo do capelão, que desconhece a doutrina católica mas se encarrega da condução dos ritos, das orações e ladainhas que acompanham as práticas religiosas da população pobre do campo”, escreve o professor.

Em geral, o registro de tais episódios é obra de jornalistas, militares e outros membros das camadas dominantes, a exemplo do clássico Os Sertões, no qual Euclides da Cunha descreve a Guerra de Canudos como um embate entre o progresso e o atraso, e critica a própria religiosidade “mestiça” do sertanejo – que gera “um monoteísmo incompreendido, eivado de misticismo extravagante, em que se rebate o fetichismo do índio e do africano”.

O “racismo científico” foi amplamente utilizado para explicar “surtos” messiânicos no Brasil. A cabeça de Antônio Conselheiro, decepada pelo exército, chegou inclusive a ser estudada pelo psiquiatra Raimundo Nina Rodrigues, adepto de teorias raciais que associavam traços físicos à predisposição ao crime. Antes do fim da guerra, Rodrigues já havia diagnosticado a “psicose sistemática progressiva” do beato, com base em relatos que atribuíam a ele atos agressivos e sucessivas mudanças de emprego e de lugar.

Não era a primeira vez – nem seria a última – que líderes de feições messiânicas seriam desqualificados sob a alegação de transtornos mentais. Na década de 1970, por exemplo, Aparecido Galdino Jacintho, um rezador de Rubineia (SP), mobilizou seus seguidores contra a construção de uma barragem na região e acabou internado num manicômio judiciário pela ditadura militar.

Paraíso terrestre

Em meados do século 20, por meio de uma releitura marxista, experiências como Canudos e o Contestado (ver texto abaixo) foram reavaliadas, ressurgindo quase como revoluções rudimentares – onde o “fanatismo” converte-se em expressão, ainda que alienada, da luta de classes. Não faltaram inclusive autores que enxergassem em comunidades do gênero a plena realização dos ideais de uma sociedade harmoniosa e igualitária.

Alguns registros históricos, no entanto, divergem dessa utopia. Em Canudos havia inclusive a chamada “Rua das Casas Vermelhas” – assim denominada por ter as únicas residências cobertas com telhas –, onde viviam lideranças ligadas ao Conselheiro e comerciantes que prosperaram com o crescimento do arraial. Já no Contestado estudos revelam a existência de privilégios às lideranças do movimento – às quais se destinavam a melhor parte dos mantimentos obtidos em combates –, além de rígidos códigos de conduta internos que incluíam, por exemplo, açoites e a pena de morte para adúlteras.

Apesar disso, é certo que traços de igualdade, por vezes pioneiros, surgiram a reboque de movimentos messiânicos. Um exemplo remete ao Crato (CE), onde o beato José Lourenço liderou, nas décadas de 1920-30, a comunidade do sítio Caldeirão, que chegou a abrigar 2 mil pessoas. Numa área relativamente pequena, a notória prosperidade lá alcançada explica-se, em grande medida, pela adoção de lavouras em regime de mutirão e outras práticas cooperativistas – que permitiram a construção de açudes e microbarragens, bem como uma organização racional da agropecuária que preservava o frágil solo do semiárido. “No contexto do nordeste, a ideia de produzir coletivamente era uma grande inovação”, afirma o geógrafo Arlindo Siebra.

Canudos também se distinguia de seu entorno ao permitir que, em pleno sertão dos “coronéis”, os recém-chegados lá erguessem casas e plantassem sem pagar nada a ninguém – entre eles muitos eram ex-escravos recentemente libertados pela Lei Áurea e com reduzidos meios de sobrevivência. Manuscritos do Conselheiro revelam, aliás, seu apoio à abolição da escravatura, bem como outros aspectos de um pensamento distante da imagem de delirante tantas vezes a ele atribuída. “Ele não era, apenas, um pregador de feição religiosa. Também versava sobre assuntos de ordem social e política”, atesta em seus estudos José Calasans, importante historiador que se debruçou sobre o episódio do arraial. Segundo relatos colhidos à época, um exemplo dessa militância era sua condenação ao “imposto do chão” – cobrado nas feiras livres em que a população pobre expunha seus produtos.

História viva

Em 1993, cem anos após a chegada de Antônio Conselheiro, foi criado em terras canudenses o Instituto Popular Memorial de Canudos (IPMC), uma espécie de centro cultural que reúne religiosos, pesquisadores, trabalhadores rurais e profissionais liberais. Por meio de seminários e publicações, a entidade busca estimular a reflexão local sobre o “passado conselheirista”, ainda hoje cercado de estigmas na região. “Antes tínhamos até vergonha de falar sobre o assunto”, ressalta Sandorval Macedo, membro do IPMC.

O instituto é um dos apoiadores da romaria anual, que desde 1988 exalta a trajetória do líder religioso e de seus seguidores. O percurso abrange pontos da guerra e segue às margens do açude criado em 1969, que inundou os restos históricos da “cidade santa”. “A partir da experiência de Canudos, discutimos os desafios atuais enfrentados pela população do semiárido”, explica o pastor Djalma Torres, um dos idealizadores do evento, que aborda sempre um tema diferente ligado à realidade do sertanejo – como, por exemplo, a importância da organização popular e a luta pelo acesso democrático à água.

A 250 quilômetros dali, em Casa Nova (BA), outra romaria anual, iniciada em 2003, vem chamando a atenção para a mobilização do sítio Pau-de-Colher, que reuniu milhares de pessoas até ser tragicamente dissolvida em 1938. Mais de 400 pessoas foram mortas, entre policiais, fazendeiros contrários ao grupo e, principalmente, adeptos do movimento.

Em dezembro de 1937, Pau-de-Colher, onde vivia José Senhorinho – um respeitado rezador local –, recebeu um súbito e enorme afluxo de camponeses, que abandonavam suas casas para lá viver imersos num cotidiano de orações. Senhorinho já havia estado no Caldeirão de José Lourenço e tivera contato com Severino Tavares, um dos principais seguidores do beato. Segundo relatos de sobreviventes, o objetivo do ajuntamento era viajar para o Crato e refundar a recém-destruída comunidade, distante centenas de quilômetros – um ano antes, a polícia havia expulsado os moradores e queimado as casas do Caldeirão.

Tais motivações, no entanto, permanecem fonte de divergências. Pesquisador do caso e parente de fazendeiros que confrontaram o grupo, o escritor Marcos Damasceno afirma que a tomada de propriedades alheias era o verdadeiro interesse por trás da mobilização, que manipulou as massas por meio de uma “religião de fachada”. Segundo ele, o líder do movimento queria inclusive “fazendeiros vivos e acorrentados pelo pescoço, levados até o arraial para assinar as escrituras das terras”.

Em Pau-de-Colher, hoje um povoado semelhante a outros da região, ainda vivem indivíduos que integraram a mobilização messiânica, bem como descendentes dos adeptos. Um dos organizadores da romaria, o padre Aloísio Alves afirma que o evento tem como um de seus objetivos resgatar a dignidade dessas pessoas – visto que ainda paira sobre elas o rótulo de “fanáticas”. “Na região persiste a fama de que se trata de gente complicada, perigosa”, diz ele.

Propaganda do medo

Em 1984, a “volta do fanatismo” em Casa Nova foi abordada em jornais da região, que traziam denúncias de políticos e agricultores sobre reuniões secretas e incitação à violência na comunidade de Amalhador. O historiador Gilmário Moreira Brito visitou o lugar à época, onde viu pequenos produtores rurais organizando projetos coletivos para o plantio e a comercialização e envolvidos em discussões sobre a condição das famílias locais. Segundo ele, as coincidências entre Pau-de-Colher e Amalhador ficavam por conta da proximidade entre ambos e da retomada, ainda que em termos diferentes, de um processo de vivência comunitária. “Entretanto, foram motivos suficientes para o recurso a uma memória que se apresentava como ameaçadora”, descreve em sua dissertação de mestrado sobre o Pau-de-Colher.

Na história brasileira, o medo de um “novo Canudos” legitimou a luta contra diversos grupos populares. O mesmo se pode dizer da “ameaça comunista”, evocada, por exemplo, em Caldeirão e Pau-de-Colher – onde até hoje não há evidências consistentes que os liguem a ideologias de esquerda. Não coincidentemente, o massacre de ambos distancia-se apenas alguns meses do advento do Estado Novo no Brasil, ditadura justificada por Getúlio Vargas sob a alegação de um suposto projeto comunista para tomar o poder – o Plano Cohen, que depois se descobriu ter sido forjado.

Por trás dos discursos conspiratórios, demandas de elites locais são parte importante do quebra-cabeça de interesses ligados à repressão de grupos messiânicos, visto que a atração exercida por líderes religiosos representou, por vezes, uma real ameaça ao modo de produção latifundiário. Em 1897, o barão de Jeremoabo – proeminente proprietário de terras no tempo de Antônio Conselheiro – já alertava para o fato de Canudos estar deixando fazendas sem agregados e vaqueiros. “Assim foi escasseando o trabalho agrícola e é atualmente com dificuldade que uma ou outra propriedade funciona, embora sem a precisa regularidade”, afirmou o barão em artigo de sua autoria.

Clima de irmandade

O rótulo “messianismo” remete a uma grande diversidade de episódios no Brasil, que rejeitam explicações e juízos de valor generalistas. No entanto, as conexões entre alguns casos indicam que a busca por uma “alternativa da fé”, longe de ser resultado de “surtos” isolados, perpassa uma teia maior de ideias e ideais em certas regiões do país.

A experiência do sítio Caldeirão – cuja relação direta com a mobilização do Pau-de-Colher já foi explicada –, por exemplo, deu-se em terras pertencentes ao padre Cícero e por ele confiadas a seu protegido, José Lourenço. Décadas antes, segundo relatos, o venerado religioso chegou a enviar um emissário a Canudos de Antônio Conselheiro, mobilização pela qual ele demonstrava bastante interesse.

Olegário Miguez Gonzalez, em seu trabalho de mestrado sobre o povo do Velho Pedro – comunidade formada em Santa Brígida (BA) na década de 1940 em torno do líder católico Pedro Batista –, conta que os romeiros lá estabelecidos eram muitas vezes os mesmos peregrinos que iam ter com o “santo popular” nordestino, morto em 1934. “Pedro Batista preencheu um vazio deixado por padre Cícero, que também é adorado em Santa Brígida”, afirma.

O Velho Pedro, conhecido como “o Conselheiro que deu certo”, diferencia-se de outros líderes por ter dado origem a um arraial religioso tolerado pelo Estado – e que, de certa forma, continua até hoje. O local cresceu com a chegada de romeiros a ponto de virar município em 1962. Pedro Batista morreu em 1967, mas ainda é lembrado e venerado em Santa Brígida.

Seu “sucesso” explica-se em parte pela aliança com líderes políticos locais, de quem obteve inclusive uma fazenda para assentar centenas de peregrinos. Batista também era uma espécie de organizador da produção e do comércio, financiando sem juros as atividades de seus seguidores com as doações recebidas deles próprios. Já no plano espiritual, comandava rezas e difundia valores cristãos, catalisando um clima de irmandade. “Viver em uma sociedade em que havia respeito entre os moradores era considerado, por muitos romeiros, um verdadeiro milagre”, ressalta Gonzalez.

Suas relações com a elite local, no entanto, refletem aspectos clássicos do coronelismo. Ele arregimentava mão de obra para trabalhar de graça nos latifúndios e, nas eleições, determinava o voto nos candidatos indicados por seus aliados. Chama a atenção que, entre os mais de 400 municípios baianos, Santa Brígida ocupe a quarta pior posição no ranking do último Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), de 2000.

No Rio de Janeiro, outro traço típico do subdesenvolvimento também nos remete à história de uma mobilização messiânica. Ao fim da Guerra de Canudos, alguns soldados que deixaram de receber o soldo instalaram-se num morro da cidade, que foi batizado de Favela em alusão a uma planta de mesmo nome, típica da caatinga. Hoje sinônimo de moradia precária no Brasil, tal termo permanece um lembrete de como nem sempre é tão simples definir de que lado está o “progresso” e a “civilização”.


Episódios marcantes

A história dos movimentos messiânicos no Brasil engloba diferentes circunstâncias e desfechos e reflete a própria diversidade das manifestações religiosas no país. Veja alguns exemplos:

Contestado: na fronteira entre Paraná e Santa Catarina, a construção de uma ferrovia gerou um grande levante social. Sob o comando do monge José Maria, posseiros expulsos pela obra e outras populações excluídas rebelaram-se contra a República brasileira. O resultado foi a Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916, que deixou milhares de mortos.

Revolta dos Muckers: no século 19, Jacobina Maurer, chamada de “o Cristo feminino”, reuniu seguidores entre imigrantes alemães do Rio Grande do Sul. Dezenas morreram nos confrontos entre o exército e os muckers – termo que significa “falso santo” em alemão.

Surto do Catulé: em abril de 1955, tomados de forte exaltação, trabalhadores rurais de Malacacheta (MG) sacrificaram quatro crianças, que, segundo eles, estariam possuídas por Satanás. A orientação para essa atitude veio do líder de uma irmandade local.

Profecia indígena: os índios guaranis registram grandes migrações comandadas por xamãs em busca da Terra sem Males – onde o arco e a flecha caçariam sozinhos e ninguém envelheceria.

Borboletas Azuis: exemplo de caso urbano, o grupo dos Borboletas Azuis formou-se em torno de um líder espírita de Campina Grande (PB), que anunciou o fim do mundo por meio de um novo dilúvio.

Revista Problemas Brasileiros

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Canudos como cidade iletrada: Euclides da Cunha na urbs monstruosa


Canudos como cidade iletrada: Euclides da Cunha na urbs monstruosa

Roberto Ventura
Professor de teoria literária e literatura comparada da USP e autor de Estilo tropical (São Paulo, Companhia das Letras, 1991).

RESUMO: Euclides da Cunha interpretou o conflito de Canudos (1896-7) a partir de fontes orais, para afirmar o caráter sebastianista e messiânico do movimento. Baseou-se em poemas populares e em profecias apocalípticas, que atribuiu a Antônio Conselheiro, para criar, em Os sertões (1902), um retrato sombrio do líder da comunidade. Os sermões do Conselheiro, recolhidos em dois volumes manuscritos a que Euclides da Cunha não teve acesso, mostram um líder religioso, muito diferente do fanático místico retratado em Os sertões. Revelam um setanejo letrado, capaz de exprimir suas concepções políticas e religiosas, vinculadas a um catolicismo tradicional, corrente na igreja do século XIX.

PALAVRAS-CHAVE: Euclides da Cunha, Antonio Conselheiro, guerra de Canudos, messianismo.


Euclides da Cunha interpretou a guerra de Canudos a partir de fontes orais, como os poemas populares e as profecias religiosas, encontrados em papéis e cadernos nas ruínas da comunidade. Baseou-se em profecias apocalípticas, que julgou serem de autoria de Antônio Conselheiro, para criar, em Os sertões, um retrato sombrio do líder da comunidade. Estes poemas e profecias foram o ponto de partida de sua visão de Canudos como movimento sebastianista e messiânico, vinculado à crença no retorno mágico do rei português d. Sebastião, para derrotar as forças da República e restaurar a monarquia.

Euclides projetou sobre o Conselheiro muitas de suas obsessões pessoais, como o temor da irracionalidade, da sexualidade, do caos e da anarquia, para construir um personagem trágico, guiado por forças obscuras e ancestrais e por maldições hereditárias, que o levaram à insanidade e ao conflito com a ordem. Viu Canudos como desvio histórico capaz de ameaçar a linha reta que ele, Euclides, se impusera desde a juventude. Recorria, nas cartas aos amigos e familiares, à imagem da linha reta para expressar sua fidelidade aos princípios éticos aprendidos com o pai, ancorados na crença no progresso da humanidade e no caráter redentor da República (Cunha, 1996).

Os sermões de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, recolhidos em dois volumes manuscritos a que Euclides não teve acesso, mostram um líder religioso muito diferente do fanático místico ou do profeta milenarista retratado em Os sertões. Revelam um sertanejo letrado, capaz de exprimir, de forma articulada, suas concepções políticas e religiosas, que se vinculavam a um catolicismo tradicional, corrente na Igreja do século XIX.

Antônio Conselheiro, o futuro líder de Canudos, pregou por volta de 1870 pelo interior do nordeste e organizou mutirões para a construção de igrejas e cemitérios. Foi proibido de pronunciar sermões pela Igreja Católica em 1882. Seus conflitos com a ordem estabelecida se agravaram com a proclamação da República. Conselheiro se opunha ao novo regime, que via como a personificação do Anticristo, e criticava o casamento civil e o registro de mortes e nascimentos, introduzidos com a Constituição de 1891.

Após liderar rebelião contra a cobrança de impostos, fixou-se com seus seguidores, em 1893, na região de Canudos, às margens do rio Vaza-Barris, no nordeste da Bahia. Criou Belo Monte como refúgio sagrado contra as secas da região e as leis seculares da República. O atraso na entrega de madeira, comprada em Juazeiro para a construção de igreja, foi o estopim de um conflito armado, que se estendeu por quase um ano, de novembro de 1896 até outubro de 1897, até o completo extermínio da comunidade. Quatro expedições militares foram enviadas contra Canudos.

Foi uma guerra de extermínio, que o escritor-engenheiro Euclides da Cunha criticou em Os sertões, publicado em 1902, cinco anos após o massacre. Mais de doze jornais mandaram repórteres e fotógrafos na primeira cobertura ao vivo de uma guerra no Brasil, que a instalação das linhas telegráficas tornara possível. O conflito terminou com a morte de 5 mil soldados e o massacre da segunda maior cidade da Bahia, com cerca de 25 mil habitantes.

A destruição de Canudos se deveu menos ao anti-republicanismo do Conselheiro do que a fatores políticos, como os conflitos entre facções partidárias na Bahia, a atuação da Igreja contra a atuação pouco ortodoxa dos beatos e pregadores e as pressões dos proprietários de terras contra a comunidade, cuja expansão trazia escassez de mão-de-obra e rompia o equilíbrio político da região.

Outros conflitos políticos em nível nacional transformaram o povoado em alvo de grupos e facções, como os embates entre civilistas e militaristas, ligados à sucessão do presidente Prudente de Morais (1894-8). A guerra serviu de pretexto à repressão aos grupos monarquistas e aos setores jacobinos, tendo contribuído para a implantação da política dos governadores, criada pelo presidente Campos Sales (1898-1902), em que as lideranças civis de Minas Gerais e de São Paulo passaram a se alternar no poder.

Pressões da Igreja também foram decisivas para o agravamento do conflito. Com a política centralizadora exercida pela Santa Sé a partir de 1860, no pontificado de Pio IX, o clero brasileiro passou por um processo de romanização, em que os padres foram submetidos à autoridade dos bispos e das arquidioceses, que passaram a combater a ação dos pregadores leigos (Levine, 1992; Villa, 1995).



Euclides da Cunha em Canudos

Euclides foi enviado à frente de batalha como correspondente de O Estado de S. Paulo, para escrever uma série de reportagens e preparar um livro sobre a guerra. Participou, de agosto a outubro de 1897, da quarta e última expedição. Tomou contato com uma cidade semi-destruída pelos constantes bombardeios, com seus habitantes privados de água e comida devido ao cerco do Exército. Sua observação foi prejudicada por tais condições, que se somaram à formação científica, de base positivista e evolucionista, com os preconceitos raciais próprios à época, que traziam a crença na inferioridade dos não-brancos.

Passeou, dentro da cidade, em 29 de setembro, como contou no penúltimo artigo para o jornal: "passeio perigosamente atraente, com os jagunços a dois passos apenas, nas casas contíguas". Anotou, no mesmo dia, na caderneta de bolso que trazia consigo: "Não posso definir a comoção ao entrar no arraial." Decepcionou-se com o aspecto daquela povoação estranha, cujas ruas eram substituídas por um "dédalo desesperador de becos estreitíssimos". As casas se acumulavam "em absoluta desordem", como se tudo aquilo tivesse sido construído "febrilmente — numa noite — por uma multidão de loucos!" Criticou a ausência de linha reta e de planejamento no traçado de Canudos. Assustou-se ainda com o interior miserável dos casebres escuros, sem ar e com pouca mobília (Cunha, 1975:69; 1939:107-9).

Presenciou menos de três semanas de luta, ao todo 18 dias, de 16 de setembro até 3 de outubro. Retirou-se doente de Canudos na manhã de 3 de outubro, dois dias antes do fim da guerra, por causa de acessos de febre, provocados pelas condições da guerra, com pilhas de mortos e feridos, falta de alimento e noites de sono interrompidas por tiroteios. Não assistiu ao massacre dos prisioneiros, à queda final de Canudos, à exumação do cadáver do Conselheiro e à descoberta de seus manuscritos, ou ao incêndio da cidade com tochas de querosene, ocorridos nos últimos dias. Tais cenas, ausentes de suas reportagens, foram relatadas com poucos detalhes no livro de 1902 (Calasans, 1969).

O silêncio de Euclides sobre as atrocidades da guerra foi acompanhado por quase toda a imprensa. Os materiais enviados pelos correspondentes, sobretudo pelo telégrafo, eram submetidos à censura militar. Mas outros jornalistas, como Manoel Benício, do Jornal do Comércio, e Fávila Nunes, da Gazeta de Notícias, chegaram a mencionar atos de violência das tropas. A crueldade da campanha só foi revelada, com veemência, pelo estudante de medicina Lélis Piedade, no Jornal de Notícias, da Bahia, e pelo monarquista Afonso Arinos, no Comércio de São Paulo (Galvão, 1977).

Talvez Euclides se sentisse tolhido, como repórter, para atacar o Exército. Era, desde 1896, tenente reformado e fora nomeado adido ao Estado-maior, com direito a ordenança, para a cobertura da guerra. Daí o crescente silêncio das reportagens que escreveu de Canudos, interrompidas, de forma súbita, em 1 de outubro. Escreveu sobre as manhãs admiráveis, com os raios de sol que iluminavam o círculo de montanhas.

Mais tarde, em Os sertões, chamou a cadeia de serras de "anfiteatro" do maior drama da história brasileira e denunciou a campanha militar como crime. Fez a confissão de culpa da omissão de suas reportagens, ao mencionar fatos sobre os quais antes silenciara: a degola dos prisioneiros e o comércio de mulheres e crianças. Criticou a hipótese de uma conspiração política, apoiada por grupos monárquicos e por países estrangeiros, que havia justificado o massacre.

A oralidade em Os sertões

O crítico uruguaio Angel Rama tratou, em La ciudad letrada, do papel das camadas letradas na América Latina, encarregadas das tarefas da administração colonial e da catequização da população indígena. Formada por profissionais, escritores e servidores intelectuais, que detinham a escrita em uma sociedade de analfabetos, a cidade letrada fazia a comunicação e a mediação entre a metrópole e os grupos locais, exercendo funções culturais e simbólicas nas estruturas de poder (Rama, 1984).

Euclides criou, em Os sertões, uma imagem de Canudos como cidade iletrada, dominada por fanatismos e superstições transmitidos de forma oral. Construiu um modelo interpretativo para dar conta das relações e conflitos entre a sua própria cultura, letrada e urbana, e a cultura oral sertaneja, marcada por mitos messiânicos e pela tradição católica. Procurou dar voz ao outro, objeto de seu discurso e inimigo de suas concepções políticas, ao incorporar textos destinados à oralização, produzidos segundo uma lógica mítica e religiosa que lhe era estranha.

Foi além da narração da guerra, ao construir uma teoria do Brasil, cuja história seria movida pelo choque entre etnias e culturas. Recorreu à teoria do sociólogo austríaco Ludwig Gumplowicz (1838-1909), que considerava a história guiada pela luta entre raças, com o esmagamento inevitável dos grupos fracos pelos fortes. Alarmado com o avanço da cultura estrangeira, lançou seu brado de alerta em Os sertões: "Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos" (Cunha, 1902:145).

O conflito entre Canudos e a República resultou, para Euclides, do choque entre dois processos de mestiçagem: a litorânea e a sertaneja. O mestiço do sertão apresentaria vantagem sobre o mulato do litoral, devido ao isolamento histórico e à ausência de componentes africanos, que tornariam mais estável sua evolução racial e cultural. "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral." (Cunha, 1985:179).

Revelou, na abertura do livro, seu propósito de se identificar aos sertanejos, vítimas da guerra. Citou a este respeito o historiador francês Hyppolite Taine, para quem o "narrador sincero" deveria ser capaz de se sentir como um bárbaro entre os bárbaros, como um antigo entre os antigos. Taine formulou, na Histoire de la littérature anglaise (1863), a concepção naturalista da história, determinada a partir de três fatores: o meio, com o ambiente físico e geográfico; a raça, responsável pelas disposições inatas e hereditárias; e o momento, resultante das duas primeiras causas (Taine, 1905:xxxix, v. 1).

Tal concepção naturalista foi seguida por Euclides, ao dividir Os sertões em três partes, correspondentes aos fatores de Taine: "A terra", "O homem" e "A luta". Tratou, em "A terra", da geologia brasileira e do meio físico do sertão baiano, com o clima do semi-árido e a vegetação da caatinga. Em "O homem", discutiu as origens do homem americano, a formação racial do sertanejo e os males da mestiçagem. Finalmente, em "A luta", narrou a guerra de Canudos como confluência dos fatores naturais, étnicos e históricos.

Apesar da sua intenção de narrar a história com sinceridade, construiu uma visão negativa de Canudos que chamou de "urbs monstruosa" e "civitas sinistra do erro", dominada pela desordem e pelo crime. O povoado era, para ele, um ajuntamento caótico e repugnante de casas, onde haveria o amor livre e o coletivismo dos bens (Cunha, 1985:232-9). Considerou-a como grupo homogêneo, formado por mestiços de branco e índio, sem perceber que se tratava de uma sociedade diferenciada com a presença de comerciantes, e com forte presença de mulatos e índios.

Mas propôs uma outra visão de Canudos como comunidade messiânica, em que haveria a espera do rei português d. Sebastião, para derrotar as forças da República. Segundo Euclides, o isolamento histórico da sociedade sertaneja permitiu a preservação dos mitos sebastianistas, transmitidos com a colonização portuguesa. O movimento de Canudos teria reatualizado o mito de d. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Quibir em 1578, na tentativa de expandir os domínios portugueses na África. Com a morte de d. Sebastião, o trono português ficou vago e Portugal foi anexado a Castela, só tendo recuperado a autonomia política em 1640.

Surgiu o mito do retorno glorioso do monarca desaparecido, que se manteve em Portugal até o século XIX. Este mito se manifestou, no Brasil, em movimentos messiânicos, como na Cidade do Paraíso Terrestre, de 1817 a 1820, e em Pedra Bonita, de 1836 a 1838, ambos em Pernambuco, ou no Contestado, região entre o Paraná e Santa Catarina, de 1912 a 1916. A crença esteve presente em Canudos, de 1893 a 1897 (Monteiro, 1977; Queiroz, 1976).

Euclides se baseou nos poemas e profecias, que transcreveu em uma caderneta. Os poemas fazem parte de dois ABCs, narrativas da guerra, estruturadas como seqüência de estrofes iniciadas com as letras do alfabeto, que servem como recurso de memorização. Copiou ainda duas profecias apocalípticas, que julgou serem do próprio Conselheiro.

Comentou, de forma negativa, estes manuscritos, que desqualificou como "pobres papéis", com "ortografia bárbara" e "escrita irregular e feia", que mostrariam o "pensamento torturado" dos sertanejos: "Valiam tudo porque nada valiam". Conselheiro pregava, para ele, com uma "oratória bárbara e arrepiadora", "misto inextricável e confuso de conselhos dogmáticos, preceitos vulgares da moral cristã e de profecias esdrúxulas..." (Cunha, 1985:194 e 249).

Euclides citou, em Os sertões, sete quadras de um dos ABCs, que colocou em ordem cronológica, de forma a sintetizar a concepção mítica e religiosa dos seguidores do Conselheiro, que acreditariam no retorno de d. Sebastião. Este ABC, composto de 28 quadras e 1 terceto, contém uma narrativa popular dos primeiros anos da República, que introduziu o casamento civil, perseguiu Antônio Conselheiro e trouxe guerras civis e especulação financeira. Duas dessas quadras se referem à vinda de d. Sebastião, para extinguir o casamento civil e punir aqueles que se encontrariam sob "a lei do Cão", a "eleição" do novo regime, considerada contrária à lei de Deus:

"Sebastião já chegou
comta muito rijimento
acabando com o Civil
e fazendo os casamento"

"Visita vem fazer
Rei D. Sebastião
Coitadinho d'aquele pobre
que estiver nalei de Cão" [Cunha, 1975:58-9]

A República é tida como o reino do Anticristo, personagem do Apocalipse que surgiria antes do fim do mundo, para semear a impiedade e a discórdia até ser vencido pelas forças divinas. Caberia ao Conselheiro a tarefa de derrotar o Anticristo republicano:

"Nassio o Antecristo
p.a o mundo governar
ahi estar o concelheiro
p.a dele nos livrar" [Cunha, 1975:58]


O segundo conjunto de versos é o "ABC das incredulidade", com 26 estrofes, que Euclides copiou na caderneta, mas não chegou a utilizar em Os sertões. Este ABC foi escrito em comemoração à vitória de Canudos contra a 3ª expedição. Seu comandante, o coronel Moreira César, vindo a Canudos "para dar carne aos urubu", recebe a alcunha de "corta-cabeças" ou "corta-pescoço", por seus atos de violência na repressão à Revolução Federalista, em Santa Catarina (Cunha, 1975: 59-61). Morto em Canudos, seu corpo foi retalhado e queimado pelos jagunços após ficar exposto por alguns dias.

Euclides mencionou, em Os sertões, duas profecias apocalípticas que atribuiu, de forma errônea, a Antônio Conselheiro: a profecia das nações e a profecia de Jerusalém. A profecia das nações se refere ao fim do mundo, em que irá aparecer um anjo, para fazer pregações, fundar cidades e construir igrejas e capelas. É provável que os sertanejos identificassem o Conselheiro a este anjo. São previstas desgraças, como a construção de estradas de ferro, a grande fome, a prisão de fiéis e guerras civis, que precederão o retorno de d. Sebastião e de Jesus para inaugurar uma nova era: "Em verdade vos digo, quando as Nações brigarem com as Nações, o Brasil com o Brasil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prúcia com a Prúcia; das ondas do mar dom Sebastião sair com todo seu exército desde o princípio do mundo que se encontrou com todo seu exército, em guerra, e restituiu em guerra."

A profecia de Jerusalém é datada de 1890, tendo Belo Monte como local. Não há referências a d. Sebastião nesta profecia, que contém uma cronologia política, que vai da independência do Brasil até o fim do mundo, anunciado para 1901, passando pela abolição dos escravos e a proclamação da República. São previstos o apagar de todas as luzes, seguido de chuvas de estrelas e queda de meteoros, até que apareça o pastor capaz de guiar o rebanho. Guerras são profetizadas para o ano de 1896, que coincidiu com o início do conflito de Canudos: "Em 1896 há de haver guerra Nação com a mesma Nação, o sangue há de correr na terra".

Ambas as profecias contêm uma visão escatológica, que anuncia o fim do mundo e a criação do Reino dos Céus na terra, em que deverão ser eliminadas as diferenças sociais — "não se conhecerá rico nem pobre" — e erradicados os conflitos políticos pela unificação dos homens sob a autoridade divina: "um só pastor e um só rebanho". As regiões climáticas também serão invertidas e o sertão se tornará terra de promissão, com fartura de carne e peixe, ao virar "praia", expressão utilizada para designar as zonas úmidas entre o litoral e o semi-árido: "Em 1894 há de vir rebanhos de mil correndo do centro da Praia para o certão então o certão virará Praia e a Praia virará certão" (Cunha, 1975:73-5).

Os sermões do Conselheiro

Euclides não teve acesso, quando escreveu Os sertões, aos dois volumes manuscritos, que o Conselheiro redigiu do próprio punho, ou ditou a um assistente. Tomou por base profecias populares, como a das nações e a de Jerusalém, que atribuiu ao Conselheiro. Só teve acesso a um dos manuscritos deixados pelo líder de Canudos, quase sete anos após a publicação de Os sertões, poucos meses antes de morrer em 1909. Mas se inclinava, dada sua formação evolucionista, a desqualificar o discurso religioso como primitivo.

Conselheiro redigiu dois livros manuscritos, em meio aos conflitos com a Igreja e o governo, que se encerravam com uma mensagem final de despedida aos fiéis. Deixou uma espécie de testamento religioso, ao perceber o agravamento do confronto com os poderes estabelecidos. Seu profetismo, com o ideal de martírio e o desejo de salvação, se relacionava ao catolicismo dos pregadores leigos, muito freqüentes no nordeste.

O papel de conselheiro, que se pregou, como epíteto, ao nome de Antônio Vicente Mendes Maciel, era previsto em obra divulgada pela Igreja portuguesa e brasileira: Missão abreviada para despertar os descuidados, converter os pecadores e sustentar o fruto das Missões, do padre Manoel José Gonçalves Couto. Para o padre Couto, toda povoação deveria ter um missionário, de preferência um sacerdote, e "na falta dele qualquer homem ou mulher que saiba ler bem, e duma vida exemplar", para conduzir o povo em orações e lhe dar instruções religiosas (Couto, 1878: 7). O Conselheiro seguiu as recomendações da Missão abreviada, volume que trazia consigo junto com uma Bíblia bilíngüe, em latim e português.

Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, datado de 1895, é o primeiro manuscrito do Conselheiro. É um livro de orações, inédito até hoje, escrito após o fracasso da missão dos frades italianos, enviados para submeter o líder e seus fiéis à autoridade eclesiástica. Contém partes copiadas e adaptadas da Missão abreviada e da Bíblia, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Apresenta ainda os dez mandamentos e os sacramentos e obrigações religiosas.

O segundo manuscrito, que Afrânio Peixoto deu a Euclides, foi concluído em 12 de janeiro de 1897, quando a cidade se preparava para o combate à 2ª expedição. Tinha por título, Tempestades que se levantam no Coração de Maria por ocasião do Mistério da Anunciação, contendo a vida de Jesus Cristo e da Sagrada Família sob a ótica da Virgem Maria, seguido de "Os dez mandamentos da lei de Deus" e de textos extraídos da Bíblia, além de prédicas e discursos. Foi publicado por Ataliba Nogueira, em 1978, como Antônio Conselheiro e Canudos. Parte da obra é dedicada ao relato da Paixão, o que permite supor que houve a identificação imaginária entre o sacrifício exemplar de Cristo e o extermínio iminente do grupo.

O manuscrito contém ainda um texto propriamente político, o sermão "Sobre a República", em que atacava a República como "grande mal para o Brasil" e "tirania para os fiéis", regime político contrário à vontade de Deus. Para Conselheiro, a restauração da monarquia e o retorno da família real ao Brasil eram fatos inevitáveis, inscritos em uma ordem natural: "Negar estas verdades seria o mesmo que dizer que a aurora não veio descobrir um novo dia." (Maciel, 1978:175-7).

As crenças sebastianistas, messiânicas e milenaristas, de que os poemas e as profecias transcritos por Euclides são evidência, permitem explicar tanto a luta quase suicida de parte dos conselheiristas, como a intensa migração para Canudos em pleno acirramento do conflito. É possível que, nos últimos meses de agonia da comunidade, a visão escatológica tenha se reforçado entre aqueles que, ao invés de abandonarem o povoado, fizeram a sua defesa até a morte.

Antrópologos e historiadores, como Duglas Teixeira Monteiro, Robert Levine e Marco Villa, consideram porém que Canudos não foi uma comunidade predominantemente milenarista, pois não chegou a apresentar o misticismo extremado ou a crença coletiva na proximidade do fim do mundo, presentes em outros movimentos religiosos, como no Juazeiro e no Contestado. A espera do fim do mundo teria sido, em Canudos, um elemento do discurso religioso, presente nas profecias apocalípticas que circularam entre seus habitantes, mas não se pode precisar hoje qual foi o grau de adesão a tais concepções (Levine, 1992; Monteiro, 1977; Villa, 1995).

Ao contrário dos poemas e profecias citados por Euclides, os sermões de Antônio Conselheiro não contêm referências a d. Sebastião, nem revelam expectativas na vinda de um Messias, capaz de trazer a vitória do Bem sobre o Mal, ou esperanças milenaristas na criação do paraíso na terra. Conselheiro foi mais um líder religioso, que atuou como autoridade religiosa exemplar e organizou uma comunidade segundo laços de solidariedade.

Um pouco de poesia e mistério

Euclides admitiu, nas reportagens, que havia subestimado a resistência dos sertanejos e sua capacidade de luta. Observou, em artigo de 16 de agosto de 1897, que o combate apresentava uma "feição primitiva, incompreensível, misteriosa." Surpreendia-se que os jagunços, já em número reduzido, aguardassem que o Exército fechasse o cerco da cidade, em vez de fugirem, enquanto ainda lhes restava uma estrada aberta para a salvação (Cunha, 1939:29).

Machado de Assis já havia enfocado tal feição de mistério, ao escrever sobre Canudos na Gazeta de Notícias. Em crônica de 22 de julho de 1894, comparava, com bastante humor, os seguidores do Conselheiro aos piratas das canções românticas de Victor Hugo. Deixava-se encantar pelo toque de poesia e mistério que envolvia o líder religioso, além de criticar a imprecisão das notícias sobre o movimento (Assis, 1944a: 155-9).

Machado protestou, em plena guerra, em janeiro de 1897, contra a perseguição que se fazia ao Conselheiro e à sua gente. Comentava que pouco se sabia sobre sua seita e doutrina, capazes de mobilizar milhares de seguidores: "De Antônio Conselheiro ignoramos se teve alguma entrevista com o anjo Gabriel, se escreveu algum livro, nem sequer se sabe escrever. Não se lhe conhecem discursos." Como as mortes nos combates não afastaram os fiéis de seu líder, perguntava-se: "Que vínculo é esse [...] que prende tão fortemente os fanáticos ao Conselheiro?" Devido à falta de informações sobre o grupo, concluía que só restava a imaginação para descobrir a doutrina da seita e a poesia para floreá-la (Assis, 1944b:412-6).

Euclides da Cunha tentou penetrar em uma camada opaca ao observador: as formas de consciência e de representação em uma comunidade que lhe era estranha, entrevista em meio aos combates e bombardeios, do outro lado da trincheira. Procurou esclarecer o mistério em torno de Canudos, ao afirmar a existência de crenças sebastianistas que tornariam inteligíveis alguns dos aspectos subterrâneos da guerra, como o apelo da mensagem de seu líder e a resistência heróica dos combatentes. O catolicismo devocional presente nos sermões do Conselheiro revela, porém, que o sebastianismo pode ter sido menos difundido do que supôs o autor de Os sertões.

Euclides adotou um modo historiográfico ousado, ao dar um arranjo poético ao conflito, criando uma obra híbrida entre a narrativa e o ensaio, entre a literatura e a história. Lançou um olhar irônico sobre suas próprias crenças, para compreender o horror da guerra e inserir os fatos em um enredo capaz de ultrapassar a sua significação particular. A epopéia gloriosa da República brasileira, pela qual combatera na juventude, adquiriu caráter de tragédia na violenta intervenção militar que testemunhou em Canudos.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77011997000100006&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Revista de Antropologia - USP