Mostrando postagens com marcador Religão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Religão. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

São Bartolomeu : O Massacre em nome de Deus

O reinado de Carlos IX é conturbado, marcado pelos conflitos entre católicos e protestantes. Os vacilos do soberano resultam numa carnificina que praticamente dizima os huguenotes.
por Georges Bordonove

O rio Sena, banhado de sangue, como cemitério a céu aberto - O massacre de São Bartolomeu, agosto de 1572, em gravura anônima do século XVI

O ano é 1572. Carlos IX tem 22 anos, e seu reinado é conturbado devido aos conflitos que opõem católicos e protestantes. A conjuração de Amboise precedeu, um pouco, sua coroação, em 1560.Os grandes do reino, como os Montmorency, os Guise e os Bourbon, disputam o poder sob o pretexto da religião e em nome de um jovem monarca que pretendem derrubar. Catarina de Médici, a rainha-mãe, joga uns contra os outros para garantir a herança de Henrique II e lograr um modus vivendi entre as duas facções. Apesar da derrota imposta pelo duque de Anjou, irmão de Carlos IX, nas batalhas de Jarnac e de Moncontour, os calvinistas conseguem recompor suas forças. Tendo por capital La Rochelle, chamada de a "Jerusalém Marítima", eles formam um estado dentro do estado, sob a autoridade do almirante Gaspard de Coligny, da rainha de Navarra, Joana d´Albret, e de seu filho Henrique (futuro Henrique IV). Eles têm agentes diplomáticos, exército, armada, finanças e, como aliados, a rainha Elizabeth da Inglaterra e seus correligionários de Londres.

São uma ameaça crescente à autoridade real, ou o que resta dela. Mas a rainha-mãe, cujo otimismo não fica aquém de sua tenacidade, não se desespera. Ela decide dar sua filha Margot como esposa a Henrique de Navarra. Acredita piamente que esse casamento terá o condão de reconciliar os franceses. Ela pretende também conseguir a conversão do futuro genro e, com isso, enfraquecer o partido calvinista, mas se choca com a intransigência de Joana d\\'Albret. Para abrandar a rainha de Navarra e tirá-la do prumo, ela necessita do apoio de Coligny. É com essa perspectiva que convoca o almirante a comparecer à Corte.

Carlos IX venera a mãe - um pouco demais, talvez -, mas suporta cada vez menos governar à sua sombra, e ainda ser um rei de fachada e ver seus feitos e gestos incessantemente controlados e suas iniciativas contrariadas. Além disso, ele sofre por não ser o filho predileto. Catarina idolatra o duque de Anjou, a quem chamam Monsieur. Ela assegurou sua fortuna e sua glória, sob pretextos falaciosos e em detrimento de Carlos, o filho mais velho, que se vê obrigado a conceder ao irmão o título de intendente geral do reino com poderes exorbitantes. Carlos tem fibra militar. Ele sonha imitar seu avô Francisco I e superar seu pai Henrique II.

É precisamente esse filão que o almirante vai explorar. Catarina assumiu um grande risco ao chamá-lo à Corte, porque, entrando no jogo, ele aposta no jovem rei. Escuta-o com atenção respeitosa, infla sua ambição, atiça seu ódio contra Filipe II da Espanha - assim, ganha sua simpatia. Carlos sente prazer em conversar com esse homem maduro. Não partilha de sua fé, mas admira sua coragem. O almirante o aconselha a governar sozinho, já que ele tem o poder, a idade e as capacidades para desafiar a rainha-mãe e sua roda excessivamente italiana, e, sobretudo, Monsieur que, campeão do catolicismo, está a serviço de Filipe II. Coligny lhe repete que ele tem o estofo de um grande rei, de um conquistador, e que lhe basta querer. Essas palavras são um bálsamo para o coração ulcerado de Carlos, que passa a nutrir um sentimento quase filial pelo almirante, a quem chama de "meu pai", certo de ter encontrado nele a figura paterna que perdera muito jovem, o conselheiro que tão penosamente lhe faltara. Quando admite entre seus familiares os auxiliares do almirante, Briquemault, Rohan, Téligny, La Rochefoucauld, os cortesãos começam a se agitar, cogitando se não estará disposto a abjurar a religião romana.

O Plano abandonado
O almirante tece pacientemente a sua teia, vislumbrando que logo terá influência para levar Carlos IX a apoiar os rebeldes flamengos contra Filipe II, com o risco de provocar uma guerra com a Espanha. Uma ocasião logo se apresenta. Em abril, um vasto movimento de revolta incendeia a província de Zelândia. Os rebeldes imploram a ajuda da França e da Inglaterra. Coligny convence o rei a autorizar Ludovico de Nassau a montar uma tropa. Carlos doa-lhe dez mil francos. Em 29 de maio, Nassau toma Mons e Valenciennes.

Entretanto, o marechal de Tavannes e o duque de Longueville, ambos militares experientes, entram na disputa. Eles declaram a Carlos que com a ajuda aos rebeldes flamengos ele expõe seu reino a um perigo maior. A França é incapaz de sustentar uma guerra que pode se prolongar por muitos anos. Sua economia está enfraquecida, seu exército reduzido e dividido. O rei está confuso, ainda mais que duvida da lealdade de Monsieur, em caso de conflito.

A rainha-mãe o resgata da perplexidade. Ela representa uma de suas grandes cenas, cujo segredo domina. Em lágrimas, censura-lhe a ingratidão e a imprudência: se perder essa guerra, seu reino será no mínimo desmembrado e submetido por muito tempo à Espanha; se ganhar, ficará a reboque dos huguenotes. Ela ameaça abandonar os negócios reais e se retirar para Florença se ele persistir no projeto. Mas Coligny introduz um novo argumento: a guerra estrangeira é o único meio de reconciliar os franceses. Se Carlos IX alcançar a vitória, ele anexará Flandres e será reconhecido como o maior soberano da Europa. Nas sessões de 16 e 26 de junho, o conselho do rei examina a questão e rejeita o projeto do almirante. Rejeição confirmada no dia seguinte por um conselho puramente militar. Coligny não desiste: "Senhor, como o conselho destas pessoas persuadiu Vossa Majestade, não posso mais me opor a vossa vontade, mas estou seguro de que vós vos arrependereis".

A AGITAÇÃO ESTÁ NO AUGE. UNS FALAM EM DEGOLAR OS GUISE. OUTROS PRESSIONAM COLIGNY A DEIXAR A CAPITAL. O REI LHE PROMETERA JUSTIÇA E MERECE SUA CONFIANÇA

A 12 de julho, Carlos IX permite que um contingente expedicionário parta da França para socorrer os rebeldes sitiados em Mons. É simplesmente esmagado pela tropa espanhola. Nos dias 9 e 10 de agosto, durante uma reunião do conselho, o plano de guerra é definitivamente abandonado. Coligny declara: "O rei se recusa a empreender essa guerra. Queira Deus que não lhe aconteça outra da qual não estará em seu poder omitir-se". Palavras desastradas, ameaçadoras até, que não impedem Catarina de partir para Monceaux, para junto da cabeceira de sua filha, a duquesa da Lorena. Ela considera o caso encerrado. Ademais, o almirante se comprometera a não fazer nada sem preveni-la. Nessa falsa segurança, ela pode, no ócio, ocupar-se dos preparativos para o casamento "misto". O almirante, porém, trai seu juramento. Estimula Carlos IX, dizendo-lhe que é livre para seguir ou não o voto de seus conselheiros. O rei quer a guerra, mas se recusa a ser empurrado: ele escolherá o seu momento.

Quando a rainha-mãe retorna a Paris, constata que o rei prossegue nos preparativos de guerra e que um contingente de arcabuzeiros está a caminho da Picardia. Então, seu filho ingrato a enganou mais uma vez, cedendo às pressões de seu grande amigo. Razão a mais para acabar com o sujeito. Ela entra em contato com Ana d\\'Este, duquesa de Nemours, viúva de Francisco de Guise, que fora assassinado em 1563. O jovem duque Henrique de Guise jurou vingança pela morte de seu pai e responsabiliza Coligny. Catarina avisa que o rapaz tem carta branca para agir e ele, mesmo contra a vontade da mãe, aceita. Agora as coisas andam depressa. Monsieur encontra o duque de Guise. Juntos eles fixam a data, a hora e o lugar da execução. Eles escolhem o matador, um certo Maurevert, atirador de elite.

O casamento de Henrique de Navarra com Margot se desenrola sem incidentes, apesar da hostilidade dos parisienses. Monsieur e sua mãe aplacaram as desconfianças dos senhores huguenotes, que comparecem para homenagear Henrique de Navarra. Alguns partem antes do fim das festividades. O almirante permanece. O rei lhe prometera resposta sobre a declaração de guerra, em quatro dias. As advertências, porém, se multiplicam. Há rumores sinistros, mas além da coragem, Coligny tem guarda pessoal.

Na sexta-feira 22 de agosto, ele se apresenta no Louvre. O conselho, presidido por Monsieur na ausência do rei, termina às 10 horas. Ao sair do palácio, Coligny encontra o rei, que vai para o seu jogo de péla. Depois se retira e envereda pela rua da Poulies: é o caminho mais curto para chegar a sua casa, na rua de Béthisy. Uma guarda de 15 cavalheiros o escolta. Ele lê uma petição, sempre mascando seu palito. Maurevert está de tocaia atrás de uma janelinha. Estouram dois tiros. Naquele instante o almirante se abaixara para amarrar um de seus sapatos. Uma bala estraçalha-lhe um dedo; a segunda se incrusta em seu braço. Ele exclama: "Vede como são tratadas as pessoas de bem na França!". Ele é levado até a rua de Béthisy e Ambroise Paré, o célebre cirurgião, é convocado às pressas. Avisado, Carlos IX, furioso, volta para o palácio. Toma imediatamente três medidas provando que ignora tudo sobre o complô: a abertura imediata de um inquérito, a evacuação das casas vizinhas à residência de Coligny, a interdição do porte de armas nas ruas de Paris.

Para a rainha-mãe e Monsieur, o fracasso do atentado é uma catástrofe. Eles jamais tinham imaginado que Maurevert pudesse falhar. O rei decide, um pouco mais tarde, fazer uma visita a Coligny, favor insigne! Catarina recupera então o sangue frio e o gênio. Ela propõe que toda a Corte acompanhe o rei, a fim de homenagear o ilustre ferido. Está certa de que os Guise se absterão, convidando assim a vindita dos huguenotes, mas essa comédia não alcança o resultado esperado. Ao contrário, redobra as desconfianças dos huguenotes. A velha soberana está enrascada. O inquérito determinado pelo rei levará direto a Henrique de Guise e, deste, a Monsieur e sua mãe.

Na rua de Béthisy a agitação está no auge. Uns falam em degolar os Guise. Outros pressionam o almirante para deixar imediatamente a capital. Ele se recusa. O rei prometera-lhe justiça e merece toda sua confiança. Rejeita, porém. a oferta que Carlos lhe faz para se hospedar no Louvre ou no castelo de Vincennes. Pouco depois, Henrique de Navarra e o príncipe de Condé se apresentam ao rei. Eles exigem o total esclarecimento do atentado e uma punição severa. O soberano responde que o inquérito está em curso. Ele reitera a ordem de reagrupamento dos senhores huguenotes da rua de Béthisy para garantir a segurança do ferido e oferece aos dois príncipes a sua suíte pessoal no palácio. O rei escreve aos governadores de suas províncias para lhes informar do infame atentado que vitimou Coligny e imputa, com certa precipitação, a responsabilidade ao duque de Guise.

A Noite interminável
Encerrada em seu quarto, a rainha-mãe está sobre o fio da navalha. Ela teme a cólera de seu filho, quando ele souber da verdade. Ele é bem capaz de apunhalar o irmão. Ela não teme menos a vingança dos huguenotes. A noite interminável transcorre nessa angústia. Na manhã de 23 de agosto, o rei recebe um enviado de Coligny. Este lhe pede a guarda prometida para vigiar a rua de Béthisy. O rei concede. Monsieur, que assiste à audiência, designa o capitão Casseins, criatura dos Guise. A chegada de Casseins e de 50 homens reacende a ira e a inquietude dos huguenotes. Seguem-se discussões acaloradas das quais participam dois "espiões", Bouchavannes e Gramont. Estes correm ao Louvre para informar a rainha-mãe de um complô que se prepara: no dia 26 de agosto, 4.000 huguenotes se reunirão no bairro de Saint Germain, sob as ordens de Montgomery, atacarão o Louvre, degolarão a família real e proclamarão rei Henrique de Navarra.

A rainha-mãe cede ao terror e fica transtornada. Ela se recorda da conjuração de Amboise, mas naquele caso os conjurados queriam somente capturar o rei para exercer o poder em seu nome. O que eles querem agora é suprimi-lo, ele e todos os seus. Catarina tem todos os motivos para desconfiar de Montgomery: ele já matou Henrique II, involuntariamente, é fato, é um exaltado e um furioso. Mas ela percebe, subitamente, que esse complô, apesar do perigo que representa, a tirará dos apuros.

Ela vai passear no jardim das Tulherias com Monsieur. Ela chama seus leais servidores, Tavannes, Rirague, o conde de Retz e o duque de Nevers, aos quais apresenta um plano: decapitar o partido huguenote suprimindo Coligny e uma dúzia de seus auxiliares. Nenhum deles faz objeções. Discute-se apenas a lista dos condenados. Catarina diz que lamenta chegar a esse extremo. Depois da entrevista de Bayonne, Filipe II não cessara de lhe aconselhar essa solução. É de convir que ele tinha razão. Portanto, a decisão de princípio está tomada. Resta fazer o mais difícil: para torná-la exeqüível, é preciso obter a ordem de Carlos, único detentor da autoridade.

Carlos IX se preocupa com a manutenção da ordem na capital. Ele envia Monsieur para sondar a opinião pública. Missão delicada que este último aceita com alguma apreensão, mas logo se tranqüiliza. Tão logo reconhecem o vencedor de Jarnac e Moncontour, os parisienses o aclamam. Monsieur percebe que os Guise simularam uma falsa partida e que tratam de agrupar seus partidários. De volta ao Louvre, ele declara que está tudo calmo e que os huguenotes se alarmam à toa.

Nas horas seguintes, a tensão não pára de crescer. Durante a ceia da rainha-mãe, os senhores huguenotes fazem declarações ameaçadoras. O senhor de Pardaillan se permite dizer: "Se o almirante perder um braço, milhares de outros se levantarão para fazer tamanho massacre que os rios do reino se encherão de sangue!" Catarina não vacila. Os que ouviram a arenga de Pardaillan poderiam negar a existência de um complô?

Enquanto isso, Carlos IX, novamente alertado pela roda de Coligny, reforça as medidas de proteção. Ele convoca Le Charron, preboste em exercício desde 16 de agosto, e ordena que feche as portas, multiplique as patrulhas, tire os navios do lado da cidade. Mas o preboste que saíra, Claude Marcel, é o verdadeiro dono de Paris. O rei, à sua própria revelia, acaba de fornecer aos chacinadores os meios de perpetrarem seus crimes.

Chega o momento de lhe abrir os olhos. A rainha-mãe teme esse confronto. Gondi cuidará disso. Ele sabe como falar ao rei numa circunstância tão grave e lhe revela que o duque de Guise não é o único responsável pelo atentado, mas que sua mãe e Monsieur são cúmplices, para evitar os perigos a que submeteria o reino ao intervir nos Países Baixos. Mais: conta o objetivo secreto do almirante - manietar o rei e "huguenotizar" todo o reino. Depois do atentado frustrado, seus partidários clamam vingança, conspiram contra ele. Todos são culpados de lesa-majestade. Algumas execuções, diz, desmantelarão o complô.

O rei protesta com veemência. Não quer acreditar na traição de Coligny, mas titubeia, duvida. Gondi sente que a partida está quase ganha. Aí entra em cena a rainha-mãe, Monsieur, seus aliados. Um a um eles assediam o infeliz monarca durante duas horas! Sua resistência enfraquece. A rainha-mãe desfere o golpe final. Ele estaria com medo dos huguenotes? Seria menos corajoso do que seu irmão fora em Jarnac e em Moncontour? Acusado de covardia pela própria mãe, ele solta um uivo de fera: "Vós o quereis! Pois bem! Matai! Matai todos!".

E desaba, exausto. A rainha-mãe e seus acólitos levantam-se em silêncio, para executar a ordem real. Completam a lista de vítimas, convocam os Guise e os encarregam de suprimir Coligny. Fora um dos huguenotes hospedados no Louvre, eles não imaginam nenhum massacre geral. No entanto, convocam Claude Marcel, cujo fanatismo é conhecido. Eles o recordam de que está incumbido de manter seus homens em estado de alerta para apoiar, em caso de desordem, as tropas reais e a milícia burguesa. Seus quaterniers (chefes de bairro) recebem a missão de agir de forma que nenhum "desses ímpios" possa escapar. Ele já mandou levantar a lista das casas huguenotes. Claude Marcel tem responsabilidade esmagadora na organização do massacre.


Caçados como animais
Carlos IX recobra a calma e entra no papel que dele se espera. Como seu pai, ele é lento para decidir, mas uma vez convencido vai até o fim. Ele se comporta como um rei que, em perigo extremo, garante, custe o que custar, a segurança do seu reino. Exige de sua guarda um juramento estrito de obediência e deixa partir La Rochefoucauld, um de seus companheiros prediletos, sabendo que o está enviando para a morte...

Ao raiar do dia 24 de agosto, o rei convoca Henrique de Navarra e Condé, ambos príncipes de sangue, e os intima a escolher entre a abjuração e a morte. Do lado de fora, os cavalheiros de seus séquitos são desarmados e massacrados. Os que tentam escapar são caçados como animais. Nos pátios do palácio, abate-se tudo que seja huguenote. Soa o rebate em Saint-Germain l\\'Auxerrois. Os sinos graves de Notre Dame e de todos os relógios de Paris respondem. O sinal está dado. Rua de Béthisy, os acólitos do duque de Guise acabam de assassinar o almirante e de jogar seu corpo pela janela. Em todos os bairros da cidade, desencadeia-se infame carnificina que durará até 30 de agosto! No dia 26, quando Carlos IX se dirige ao Parlamento para uma sessão solene, ele é aclamado pelos parisienses. Essa súbita popularidade o conforta em sua ilusão de ser, enfim, o monarca que sonhava ser, todo-poderoso e venerado pelos súditos. Em discurso, oficializa a tese do complô para justificar a execução de Coligny e de seus subalternos. Depois, cumprindo os desejos da rainha-mãe e de Monsieur, acrescenta: "Tudo o que se passou em Paris foi feito, não só por meu consentimento, mas por minha ordem e de meu próprio movimento."

São palavras que a posteridade conservou, mas permanece a questão de saber se ele é responsável ou culpado pelo massacre de São Bartolomeu. Os fatos aqui relatados trazem a resposta. Responsável, Carlos IX é totalmente pois, enquanto soberano, ele dá a ordem fatal. Culpado também é, pois permitira o massacre dos huguenotes hospedados em seu palácio. Mas ele não é, com certeza, pelo massacre coletivo perpetrado na capital por Marcel e os Guise. O infeliz é sobretudo vítima das intrigas de seu círculo, do disparate de Coligny e do mal que o corrói. Em 1572, restam-lhe somente dois anos de vida. Não foi o remorso que o matou, mas a tuberculose. Ele começa a escarrar sangue.

Georges Bordonove é historiador e escritor, dentre outros títulos, é autor de Charles IX, Hamlet couroné, da série Les rois qui ont fait la France, da editora Pygmalion.

Revista Historia Viva

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Casamento, uma invenção cristã

A união indissolúvel, celebrada por um sacramento, substituiu antigos costumes de poligamia, provocando grande mudança nos hábitos europeus.
por Michel Rouche

Casamento de Felipe da Macedônia com Olimpia. Miniatura do séc. XV

Em 392, o cristianismo foi proclamado religião oficial. Entre 965 e 1008 eram batizados os reis da Dinamarca, Polônia, Hungria, Rússia, Noruega e Suécia.

Desses dois fatos resultou o formato do casamento, em princípios do ano 1000, com uma face totalmente nova. Durante o Sacro Império Romano Germânico - que sucedeu ao desaparecido Império Romano -, dirigido por Oto III de 998 a 1002, houve uma fabulosa transformação das sociedades urbanas romanas e das sociedades rurais germânicas e eslavas. As uniões entre homens e mulheres eram, então, o resultado complexo de renitências pagãs, de interesses políticos e de uma poderosa evangelização.

"Amor: desejo que tudo tenta monopolizar; caridade: terna unidade; ódio: desprezo pelas vaidades deste mundo." Esse breve exercício escolar, escrito no dorso de um manuscrito do início do século XI, exprime bem o conflito entre as concepções pagã e cristã do casamento. Para os pagãos, fossem eles germânicos, eslavos ou ainda mais recentemente vikings instalados na Normandia desde 911, o amor era visto como subversivo, como destruidor da sociedade. Para os cristãos, como o bispo e escritor Jonas de Orléans, o termo caridade exprimia, com o qualificativo "conjugal", um amor privilegiado e de ternura no interior da célula conjugal. Esse otimismo aparecia em determinados decretos pontificais, por meio de termos como afeto marital (maritalis affectio) ou amor conjugal (dilectio conjugalis). Evidentemente, o ideal cristão era abrir mão dos bens deste mundo desprezando-os, o que constituía um convite ao celibato convencional.

A Europa pagã, mal batizada no ano 1000, apresentava portanto uma concepção do casamento totalmente contrária à dos cristãos. O exemplo da Normandia é ainda mais revelador, por ser muito semelhante ao da Suécia ou da Boêmia. Os vikings praticavam um casamento poligâmico, com uma esposa de primeiro escalão que tinha todos os direitos, e com esposas ou concubinas de segundo escalão, cujos filhos não tinham nenhum direito, a menos que a oficial fosse estéril, ou tivesse sido repudiada. As cerimônias de noivado organizavam a transmissão de bens, mas não havia casamento verdadeiro a não ser que tivesse havido união carnal. Na manhã da noite de núpcias, o esposo oferecia à mulher um conjunto muitas vezes bastante significativo de bens móveis. Ele era chamado de presente matinal (Morgengabe), que os juristas romanos batizaram de dote. Portanto, o papel da esposa oficial era bem importante, sobretudo se ela tivesse muitos filhos, já que o objetivo principal era a procriação.

Essas uniões eram essencialmente políticas e sociais, decididas pelos pais. Tratava-se de constituir unidades familiares amplas, no interior das quais reinasse a paz. Por isso, as concubinas de segundo escalão eram chamadas de Friedlehen ou Frilla, ou seja, "cauções de paz". Na verdade, elas vinham de famílias hostis de longa data. A partir do momento em que o sangue de ambas as famílias se misturava, a guerra já não era mais possível. Assim, as mães escolhiam as esposas dos filhos, ou os maridos, das filhas, sempre nos mesmos grupos clássicos, a fim de salvaguardar essa paz. Se uma esposa morresse, o viúvo se casaria com a irmã dela. Dessa forma, pouco a pouco as grandes famílias tornavam-se cada vez mais chegadas por laços de sangue (consangüinidade), pela aliança (afinidade) e, finalmente, completamente incestuosas. Acrescentemos a esse quadro as ligações entre os homens, a adoção pelas armas, o juramento de fidelidade e outras ligações feudais que triunfaram no século X como um verdadeiro "parentesco suplementar", segundo a expressão de Marc Bloch, e teremos a prova de que esses casamentos pagãos não deixavam nenhum espaço livre para o sentimento.

Amor subversivo
Assim, quando o amor se manifestava, ele só podia ser adúltero, ou assumir a forma de um estupro, maneira de tornar o casamento irreversível, ou de um rapto mais ou menos combinado entre o raptor e a "raptada", a fim de ludibriar a vontade dos pais. Nesses casos o amor era efetivamente subversivo, uma vez que destruía a ordem estabelecida. Ele se tornava sinônimo de morte e de ruína política, como prova o romance, de fundo histórico verdadeiro, Tristão e Isolda, transmitido oralmente pelo mundo europeu de então - celta, franco e germânico. Tristão, sobrinho do rei e seu vassalo, cometeu ao mesmo tempo incesto, adultério e traição para com o rei Marco, o marido de Isolda. Aliás, ele mesmo diz, após seu primeiro encontro: "Que venha a morte". Nas sociedades antigas, obcecadas pela sobrevida, a vontade de potência, de poder, era mais importante do que a vontade de prazer, pois aquelas tribos de imensas famílias não conheciam nenhuma limitação administrativa ou externa.
Esse quadro deve ter sido abrandado pelo fato de eles terem estado em contato com países cristãos, ou povos de regiões mergulhadas no cristianismo, como por exemplo os normandos batizados do século X. Em decorrência, duas estruturas coexistiam, mais ou menos confundidas. Por volta do ano 1000, o bispo da Islândia teve muita dificuldade para separar um chefe de tribo, já casado, de sua concubina, especialmente porque ela era sua própria irmã - fato que sustentava a opinião de que seu irmão, o bispo, não passava de um tirano. Nos séculos X e XI, os duques da Normandia tinham dois tipos de união, regularmente: uma esposa oficial, franca e batizada, e uma ou várias concubinas.

Guilherme, o Conquistador, que tomou a Inglaterra em 1066, tinha o codinome de bastardo, por ter nascido de uma união desse tipo. À entrada de Falésia, seu pai, Roberto, o Demônio, teve a atenção chamada por uma jovem que, no lavadouro da cidade, calcava a roupa com os pés, nua como suas companheiras de tarefa, para melhor sovar a roupa. Naquela mesma noite, com a autorização de seu pai, Arlette, a jovem, se viu no quarto do duque, usando uma camisola aberta na frente, "a fim de que", nos diz o monge Wace, que contou a história, "aquilo que varre o chão não possa estar à altura do rosto de seu príncipe". Esses amores "à dinamarquesa" demonstram que as mulheres eram livres, com a condição de aceitar uma posição secundária.

Essa duplicidade de situação num mundo ocidental oficialmente cristão, mas ainda pagão, complicou-se quando as mulheres conquistaram poder, algo facilitado pela matrilinearidade das origens germânicas. Algumas incentivavam os maridos a se proclamarem reis, por serem elas de origem imperial carolíngia. Castelãs, senhoras de grandes propriedades, ou mulheres de alta nobreza, elas utilizavam o casamento como trampolim para sua ambição. Em Roma, Marozia (ou Mariuccia) foi mãe do papa João XI, filho de sua ligação com o também papa Sérgio III. Viúva do primeiro marido, Guido da Toscana, meio-irmão do rei da Itália, Hugo, ela convidou este a se casar com ela. Mas Alberico II, seu filho do primeiro casamento, expulsou do castelo de Santo Ângelo onde foram celebradas as núpcias, aquele intruso manipulado por sua mãe.

Punição para a libido
Aos olhos de inúmeros escritores eclesiásticos, como o bispo Ratherius de Verona, a libido feminina era perigosa e devia ser reprimida severamente. O fato de que velhos países como a Espanha, a Itália e o reino dos Francos, embora cristãos havia já cinco séculos, não tivessem ainda integrado a doutrina do casamento - a ponto, por exemplo, de o rei Hugo ter tido duas esposas oficiais e três concubinas - prova o quanto essa doutrina estava na contramão de seu tempo. E contudo ela fora claramente afirmada e repetida desde que Ambrósio declarara em 390 que "o consentimento faz as bodas". A isso, o Concílio de Ver acrescentara, em 755: "Que todas as bodas sejam públicas" e "Uma única lei para os homens e mulheres".

Reclamar a liberdade do consentimento dos esposos e a condição de igualdade do homem e da mulher era utópico, sobretudo numa sociedade romana patriarcal. Todavia, progressos importantes ocorreram no século X, graças à repetição da apologia do casamento, símbolo da união indissolúvel entre Cristo e a Igreja. Após a atitude irredutível do arcebispo Hincmar e do papa Nicolau I, o divórcio de Lotário II por repúdio a sua esposa Teutberga - devido a sua esterilidade - tornou-se impossível após 869, ano de sua morte. Incompreensível para os contemporâneos, o casamento não se baseava somente na procriação. A aliança era mais importante do que um filho. Mais do que ninguém, longe dos discursos sobre a superioridade da virgindade, Hincmar havia demonstrado que um consentimento livre sem união carnal consecutiva não era um casamento. Ele prefigurava assim a noção de nulidade instituída pelo decreto de Graciano, em 1145. Em decorrência, os rituais, como escreveu Burchard de Worms por volta do ano 1000, traduziam no nível da disciplina do casamento a doutrina otimista dos moralistas carolíngios.

A união carnal, conseqüência do consentimento entre um homem e uma mulher (e não várias), é o espaço de santificação dos esposos. O ideal de monogamia, de fidelidade e de indissolubilidade tornou-se tanto mais possível porque no final do século X desapareceu a escravidão de tipo antigo, nos países mediterrâneos. Um novo espaço se abria para o casamento cristão, graças ao surgimento do concubinato com as escravas, que não tinham nenhuma liberdade. Essa foi também a época em que as determinações dos concílios tornaram obrigatória a validade do casamento dos não libertos.

Mas um outro combate chegava a seu ponto culminante no ano 1000: a proibição do incesto. Iniciada a partir do século VI e quase bem-sucedida na Itália, na Espanha e na França, essa interdição enfrentou contudo forte oposição na Germânia, na Boêmia e na Polônia. Proibidos em princípio até o quarto grau entre primos irmãos, os casamentos de consangüinidade e de afinidade foram punidos, e os culpados separados. Mais tarde, a partir de Gregório II (715-735), a proibição foi estendida ao sétimo grau (sobrinhos à moda da Bretanha), assim como aos parentes espirituais (padrinho e madrinha): não haveria mais aliança a não ser com estranhos, com quem fosse outro (Deus ou o próximo de sexo diferente), mas de modo algum com aquele ou aquela com quem já existisse um tipo de ligação.

As conseqüências sociais de tal doutrina foram incalculáveis. Ela obrigou cada um a procurar um cônjuge longe de sua aldeia e de seu castelo. Acabou por destruir as grandes famílias, de dezenas de pessoas, que viviam sob o mesmo teto, e por favorecer a formação de um grupo nuclear, do tipo conjugal. Ela suprimiu, assim, as sucessões matrilineares e a escolha dos esposos pelas mulheres. A exogamia tornou-se obrigatória. A Europa se abriria para o exterior.

Elogio da virgindade
Na Alemanha, desde os concílios de Mogúncia, em 813, e de Worms, em 868, os casos de casamentos incestuosos mantidos pela obstinação das mulheres eram numerosos. Na Boêmia, o segundo bispo de Praga, Adalberto, grande amigo do imperador Oto III, havia conseguido, em 992, um edito público que o autorizava a julgar e separar os casais incestuosos. Foi um insucesso tão retumbante que ele se desgostou para sempre de sua tarefa episcopal. Preferiu ir evangelizar os prussianos, que o martirizaram em 23 de abril de 997.

A dinastia dos Oto, que havia restaurado o império em 962 na Alemanha e na Itália, nem por isso deixou de apoiar a Igreja em sua empresa de transformação e cristianização. E suas esposas deram o exemplo, já que Edite (946), Matilde (968) e Adelaide (999) foram consideradas santas. Os clérigos que relataram suas vidas, em particular a de Matilde, insistem não na viuvez ou nos atos de fundação de mosteiros, mas sim no papel de esposa e mãe. Sua santidade provinha essencialmente do casamento e do papel de conselheira, junto a seu imperial esposo. A leitura dos ofícios de passagens da vida de santa Matilde não teve uma influência desprezível sobre as audiências populares.

Se a Alemanha foi então uma frente pioneira na cristianização do casamento, não foi bem esse o caso do reino dos francos. Ema, esposa traída do duque da Aquitânia, Guilherme V, vingou-se de sua rival mandando que ela fosse violada por toda sua guarda pessoal. Berta, filha do rei da Borgonha, mal tendo enviuvado, pousou seu olhar sobre o jovem Roberto, filho de Hugo Capeto, para fazer um casamento hipergâmico.

Esse exemplo é revelador. A legislação da Igreja acerca do casamento cristão ia de encontro à mentalidade da época. E no entanto o amor conjugal de caridade (dilectio caritatis) começava a sobressair ao amor de posse (libido dominandi). Por volta do ano 1000, a expansão urbana e o início do desbravamento e da cultura dos campos permitiram que a família nuclear monogâmica se multiplicasse. As células rurais foram destruídas pela necessidade de ir buscar um cônjuge mais longe. Somente a nobreza e as famílias reinantes mais antigas resistiram, fechadas em suas relações feudais, ao contrário dos recém-chegados ao poder, os Oto, que acolheram e adotaram a doutrina cristã como uma liberação e se lançaram com ousadia na direção do leste, para além do rio Elba, a nova fronteira da expansão européia.

Dessa forma, da concepção do amor como subversivo e criador de morte passamos à de um amor construtivo, promotor de vida. O desejo foi integrado no casamento com a união carnal, espaço de gozo mútuo. A procriação tornou-se um bem do casamento, entre outros. A poligamia desapareceu. A publicidade do casamento se instalou. As proibições de incesto permitiram que se descobrisse a necessidade de alteridade e a afirmação da diferença sexual como força de construção. Esse momento de otimismo e de vitória sobre o amor de morte pagão, à moda de Tristão, explica o elã prodigioso da Europa no início do ano 1000. Mas ele não iria além do final do século XI. Também por volta do ano 1000, as diatribes de São Pedro Damião e Ratherius de Verona contra o casamento dos padres anunciavam um outro combate que terminaria na reforma gregoriana e no triunfo do celibato convencional.

Em conseqüência, o elogio da virgindade passou a ser mais e mais preponderante, a ponto de fazer triunfar uma visão pessimista do casamento. Tanto isso é verdade que a história do casamento cristão é feita de alternâncias entre sucessos e crises.

-Tradução de Marly N. Peres

Glossário
Casamento hipergâmico: quando a esposa tem um estatuto superior ao do marido.

Levirato: prescrição do próprio Moisés, segundo a qual o irmão solteiro de um homem morto, sem ter deixado filhos, deveria desposar sua cunhada, a viúva.

A partir do momento em que o sangue de ambas as famílias se misturava, a guerra já não era mais possível

A proibição de uniões entre parentes suprimiu as sucessões matrilineares. A exogamia tornou-se obrigatória

Michel Rouche é historiador, professor e escritor, especialista em Alta Idade Média.

Revista Historia Viva

O milagre da multiplicação de relíquias

Tentando atrair fiéis e peregrinos, as igrejas medievais disputaram cada objeto ou parte do corpo de Jesus que pudesse ser conservado... ou falsificado
por Paul-Eric Blanrue

© ACHIM PRILL /ISTOCKPHOTO

Basílica de São João de Latrão, que abriga diversas relíquias de Jesus, como o Prepúcio e o Umbigo sagrados

Durante a Alta Idade Média, os cristãos começaram a cultuar homens e mulheres que haviam realizado grandes sacrifícios em nome da fé e assim conquistaram a salvação, muitas vezes por meio do martírio. Tais realizações faziam com que seus semelhantes os considerassem seres especiais, santos, cujas ações passaram a ser vistas como um código de conduta a ser seguido pela comunidade de fiéis. Assim nasceu o culto aos santos e mártires.

Para os cristãos da época, porém, não bastava venerar de maneira abstrata tais figuras. Partes dos corpos dos santos ou objetos usados por estes em vida, as relíquias, se tornaram importantes objetos de culto. Logo, esse culto se voltou para o mais importante de todos os cristãos, o próprio Jesus Cristo. Foi assim que as relíquias de Cristo se tornaram as mais numerosas da cristandade e passaram a mobilizar o maior número de fiéis. Qualquer objeto ou parte do corpo do Senhor começou a ser disputado entre as diversas comunidades cristãs medievais.

A cobiça pelas relíquias de Cristo se explica. Durante a Idade Média, quando foram construídas as principais catedrais católicas do mundo, a edificação dos templos era financiada por donativos da comunidade, e a capacidade da igreja de atrair fiéis e peregrinos estava diretamente relacionada à quantidade e qualidade de relíquias expostas para veneração. Nesse contexto, os espólios de Jesus eram os mais capazes de angariar generosas doações para igrejas e mosteiros.

Coincidência ou não, na época os objetos com os quais Jesus teve contato direto chegavam à casa das centenas, quando não dos milhares. O berço sagrado se tornou propriedade da igreja de Santa Maria Maior, em Roma. O feno que teria sido usado para cobrir o berço, por sua vez, foi reivindicado pelos fiéis da região da Lorena, na França. Enquanto isso, as ânforas utilizadas nas bodas de Cana espalharam-se pelas igrejas européias. No total, 13 exemplares eram apresentados como autênticos, ainda que a Bíblia só fale de seis.


CATEDRAL DE SAO JOAO BATISTA, TURIM

O sudário de Turim, sobre o qual pode ser vista a silhueta de um homem que alguns acreditam ser Jesus.

Como as relíquias refletem cada momento da vida de Cristo, os objetos usados durante os episódios da Paixão ocupam lugar de destaque. A mesa da Santa Ceia está em Roma, ao passo que a toalha se encontra na Santa Capela de Paris. As roupas estão espalhadas pelo Velho Continente: exemplares do Manto Sagrado são conservados tanto em Argenteuil, na França, quanto em Trier, na Alemanha (os padres das duas comunidades, porém, chegaram a um acordo: a túnica que fica na França foi considerada “roupa de baixo”, e a outra, “roupa de cima”). O chicote com o qual os romanos açoitaram Jesus encontra-se na abadia de São Bento, na cidade italiana de Subiaco; a coluna da Flagelação está na igreja de Santa Praxedes, em Roma; por fim, a escada utilizada por Cristo para ir ao palácio de Pilatos foi parar na basílica de São João de Latrão.

Devido à sua importância, as relíquias da Paixão são as que despertam as maiores polêmicas. Ironizando, o reformador João Calvino contou 14 pregos na Cruz de Cristo. Já o erudito Fernand de Mély estimou existirem mais de 700 espinhos da coroa usada por Cristo espalhados pelo mundo. Diante da proliferação de objetos, fica a dúvida se essas relíquias seriam peças genuínas ou simples falsificações. O caso da “Verdadeira Cruz” é um bom exemplo. Segundo dois relatos clássicos, Helena, mãe do imperador Constantino, teria descoberto no Gólgota o local exato da cruz usada para crucificar Jesus. O problema é que em um dos relatos Helena teria identificado o objeto graças a uma visão, enquanto em outra versão ela teria ameaçado os judeus de Jerusalém para que estes lhe indicassem a localização exata. Esses relatos são incompatíveis com uma terceira versão, que atribui a descoberta a Protonice, mulher do imperador romano Cláudio. A polêmica, porém, não impediu que a Verdadeira Cruz fosse devidamente fracionada e que seus pedaços fossem espalhados por mais de 1.150 lugares ao redor do mundo. O cético Calvino afirmou que se reuníssemos todas essas lascas, elas “somariam o carregamento completo de um grande navio”.

Apesar da popularidade que o culto às relíquias de Jesus alcançou durante a Idade Média, a crença nas virtudes mágicas desses objetos não é amparada pela leitura dos textos oficiais da Bíblia. É preciso recorrer aos textos apócrifos, em especial ao Evangelho da Infância, para encontrar referências aos poderes sobrenaturais dos pertences de Cristo. Nesse texto, as túnicas do menino Jesus me expulsam os demônios e inflamam a imaginação do leitor. Embalados por relatos como este, os cristãos medievais conferiram poderes especiais não só aos objetos pessoais de Cristo, mas também a partes de seu próprio corpo: dentes, cabelos, fios de barba, marcas de pisada etc.


CATEDRAL DE SAO JOAO BATISTA, TURIM

Detalhe do sudário em positivo (esquerda) e negativo (direita).

CRISTO PICOTADO

Alguns pedaços do corpo do Senhor são especialmente disputados. O Prepúcio sagrado é supostamente conservado em uma série de igrejas européias. A santa membrana é reivindicada por comunidades cristãs na Itália, na Alemanha e na França, desde a basílica de São João de Latrão, em Roma, até a abadia de Charroux, na região francesa de Vienne, passando pelas dioceses da Saxônia, de Chartres, de Puy-en-Velay, de Metz, de Conques e de Clermont. Para evitar a multiplicação ao infinito do Umbigo sagrado, o papa Clemente V mandou picotá-lo em três pedaços, enviados a Constantinopla, São João de Latrão e Notre-Dameen- Vaux. Sábia decisão, o que não impediu Clermont-Ferrand de também reivindicar um – aparentemente inteiro!

O Sangue sagrado tornou-se uma relíquia particularmente preciosa em razão das palavras que Cristo teria pronunciado na famosa Ceia, “isto é meu sangue”, fundamento da eucaristia. Gotas dele são conservadas em Bruges, Mântua, Auvergne, Flandres e Normandia. Esse sangue teria originado inúmeros milagres.

Seu culto rendeu até uma bela anedota contada pelo filósofo David Hume em sua História da Inglaterra. Segundo ele, no condado de Gloucester se expunha um frasco que supostamente continha o sangue de Cristo, que só aparecia à pessoa que tivesse feito um número de boas ações suficiente para obter a absolvição; todas as demais eram privadas da graça. Mas o estratagema foi descoberto: “Dois monges que ficavam escondidos punham todas as semanas sangue de pato em um frasco de cristal: um lado era fino e transparente, e outro espesso e opaco. Quando chegava algum peregrino rico, os monges nunca deixavam de lhe mostrar o lado escuro e espesso, até que missas e doações tivessem expiado seus pecados – e quando se avaliava que seu dinheiro, sua paciência ou sua fé estavam prestes a acabar, concedia-se a ele o favor de o frasco ser virado, expondo o lado transparente”.

Nenhuma outra relíquia, porém, mexeu tanto com a imaginação dos fiéis quanto os sudários de Jesus, que proliferaram na Idade Média. Uma mortalha de Cristo é mencionada pelos próprios Evangelhos, mas os relatos bíblicos não a descrevem nem dão maiores informações sobre de que forma o santo tecido teria sido conservado e transmitido às futuras gerações de cristãos. Os escritos mais antigos sugerindo que tais mortalhas foram conservadas datam do século VI. O relato do anônimo de Plaisance, de 570, narra uma expedição à Terra Santa, na qual o autor menciona o lugar onde estava guardado o sudário que “cobriu a face de Jesus”, em uma caverna situada às margens do rio Jordão. No século seguinte surge outra obra, na qual o abade escocês Adamnan narra a história de Arculfo, bispo de Périgueux, que visitou Jerusalém por volta de 680. Segundo Adamnan, naquela ocasião Arculfo beijou o sudário de Jesus, que mediria cerca de 2,50 metros. Alguns autores acreditam que essa relíquia tenha sido incorporada ao tesouro de Carlos Magno por volta de 797, em Aix-la-Chapelle. Essa seria a peça que Carlos, o Calvo, neto de Carlos Magno, transferiu em 877 para a abadia de São Cornélio de Compiègne e que teria desaparecido na época da Revolução Francesa.

No século XII , outro sudário apareceu, por sua vez, na abadia cisterciana de Cadouin, na região de Périgord, no sul da França. Tecido branco imaculado e retangular, media 2,81 metros x 1,13 metro, tinha nas extremidades oito faixas enfeitadas e paralelas e era uma das mais importantes relíquias da cristandade medieval. Catorze bulas papais atestaram sua autenticidade, e ele teve a sorte de sobreviver ao furor revolucionário, mas sua autenticidade foi finalmente questionada por um jesuíta, o padre Francez, na década de 30. Ao se debruçar sobre o tecido, o padre percebeu que as inscrições nas extremidades das faixas incorporavam na trama caracteres cúficos, que foram decifrados pelo diretor do Museu Árabe do Cairo: eram bênçãos muçulmanas em honra do califa egípcio Musta-Ali e de seu sucessor. A relíquia era um manto que fora oferecido como presente na época do califado fatímida por volta do ano 1100. Após a descoberta do padre, a peregrinação a Cadouin cessou de imediato.

Outras relíquias passaram melhor pela prova do tempo. Na catedral de Oviedo, capital da província espanhola de Astúrias, desde o século XI venera-se um tecido que teria sido posto sobre o rosto de Jesus na descida da cruz. Trata-se de um pequeno pedaço de linho branco, originalmente manchado e amassado. As primeiras pesquisas científicas, iniciadas em meados do século XX, revelaram que esse tecido estava impregnado de sangue, que alguns afirmam ser do mesmo tipo (AB) que aquele encontrado no mais célebre dos sudários, o de Turim.

De todas as relíquias de Jesus, esse pedaço de linho retangular de 4,30 metros por 1,08 metro, conservado desde 1694 na capela real contígua à catedral de São João Batista em Turim, é a mais notável de todas. Nele distingue-se a silhueta de um homem inteiramente nu, que apresenta marcas que lembram os ferimentos da Paixão na barriga e nas costas. A imagem está esmaecida, o que lhe confere um aspecto espectral surpreendente. Manchas vermelhas, com aparência de sangue, podem ser vistas nos locais dos ferimentos. Ao contrário da maioria das outras relíquias católicas, esse pedaço de tecido tem sido objeto de pesquisas científicas e históricas há mais de 50 anos. O interesse pela peça vem desde 1898, quando o advogado Secondo Pia fez as primeiras fotos do tecido. No negativo, Paia observou que a imagem “positiva” do corpo de Cristo se destaca do fundo sombrio do tecido. Enquanto no original só se adivinha uma vaga silhueta, no negativo é possível distinguir detalhes insuspeitos de seu corpo atlético. Como isso seria possível, já que o princípio da fotografia se tornou conhecido só no século XIX?

FALSIFICAÇÃO SAGRADA
Em 1978, uma equipe do Shroud of Turin Research Project (Projeto de Pesquisa do Sudário de Turim) realizou o exame científico mais midiático da peça. O resultado do estudo foi divulgado no dia 18 de abril de 1981: existe realmente sangue no sudário, e a imagem resulta de um procedimento misterioso, que exclui a hipótese de pintura. Mas esses resultados foram contestados por Walter McCrone, analista especializado em detecção científica de falsificações em obras de arte. Seu veredicto: “A imagem inteira foi aplicada sobre o tecido por um artista extremamente habilidoso e bem informado”. O artista, segundo ele, utilizou um pigmento de óxido de ferro associado a uma substância à base de colágeno animal.

Para rebater as afirmações de Mc-Crone, a Igreja realizou, em 21 de abril de 1988, um exame para datar o sudário utilizando a técnica de radiocarbono. Os resultados indicaram que a peça teria sido fabricada em algum momento entre 1260 e 1390. A conclusão, publicada na revista científica Nature, era clara: o tecido do sudário de Turim é medieval. O teste, porém, não encerrou a polêmica sobre a peça. Desde então, muitos foram os estudiosos que tentaram refutar esses resultados. A tentativa mais recente foi a do químico Raymond Rogers, que conta em um artigo publicado em 2005 como utilizou um método de datação pessoal para contestar a validade da análise de radiocarbono.

Seja como for, a controvérsia em torno do sudário não é de hoje. O primeiro a apresentar o tecido como uma falsificação foi ninguém menos que o papa Clemente VII, em pleno século XIV, na própria época de seu surgimento. Em uma bula papal de 6 de janeiro de 1390 o papa ordenava que, sempre que tal pedaço de pano fosse exposto, deveria se esclarecer ao público que não se tratava de uma peça original. Segundo o sumo pontífice, era preciso que se fizesse “anúncio à população, no momento de maior afluência, de modo claro e inteligível, para impedir a fraude, de que a dita figura ou representação não era o verdadeiro Sudário de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas sim uma pintura ou representação do Sudário que se diz ter sido do próprio Senhor Jesus Cristo”.

Fraudes ou não, o fato é que mantos, espinhos e tantos outros objetos relacionados à vida de Jesus continuam a fascinar os devotos até os dias de hoje. Em última análise, esse culto às relíquias deu origem a um dos mais belos mitos medievais: a lendária busca pelo Santo Graal, a taça que Cristo teria utilizado na última Ceia. Nesse campo, a tênue linha que separa a história do mito talvez nunca possa ser cabalmente traçada.

A Natividade


© AKG Images/Latinstock

A noite sagrada, Jacques Stella, óleo sobre tela, 1640, Museu Schloss Weissenstein, Pommersfelden


A Ceia

A Última Ceia, têmpera sobre madeira, Dieric Bouts, 1464-1467, Catedral Saint Peter, Lovaina

Evidentemente, a última refeição de Cristo ocupa lugar de destaque: a mesa está em Roma, a toalha, na Santa Capela de Paris

O Graal aparece na Ceia. Ignora-se o número de exemplares, já que ele é, justamente, objeto de uma busca eterna

A crucificação

Cristo como homem das dores, têmpera sobre madeira, Mestre Francke, 1424, Museum der Bildenden Künste, Leipzig

UM ILUSTRE SUSPEITO

DIVULGAÇÃO

O Sudário de Turim – Como Leonardo da Vinci enganou a história. Lynn Picknett e Clive Prince. Record, 2008.

Recentemente lançado no Brasil, o livro O Sudário de Turim – Como Leonardo da Vinci enganou a história, de Lynn Picknett e Clive Prince, joga mais lenha na fogueira da discussão sobre a célebre relíquia. Segundo eles, o falsificador do sudário seria ninguém menos do que Leonardo da Vinci, que teria pintado a peça no século XV. É ler para crer.

Paul-Eric Blanrue é historiador, escritor e autor de Miracle ou imposture? L’histoire interdite du Suaire de Turin (Milagre ou impostura? A história proibida do Sudário de Turim – EPO/Golias, 1999).

Revista Historia Viva

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Jesus ‘made in China’


O curioso caso das estátuas religiosas orientais que foram parar em uma igreja baiana
Paulo Valadares

Se cada povo representa os deuses e santos à sua imagem e semelhança, que rosto teria Jesus Cristo se ele fosse louvado na China? Olhos puxados, cabelos lisos, feições orientais... Difícil imaginar? Então, o jeito é ver com os próprios olhos. O Jesus chinês existe e está num local improvável: uma igreja de Cachoeira, no Recôncavo Baiano.

A Nossa Senhora do Carmo tem não apenas uma, mas sete esculturas de Jesus oriental, em tamanho natural, feitas de madeira policromada. A indicação de que são de fato representações de Cristo está no imenso sofrimento e na passividade estampados nos rostos, nas feridas nos pulsos e nos joelhos, e nas manchas de sangue na cabeça e no pescoço. Cobertos apenas por um calção de linho branco, causam profunda impressão por sua morbidez, e representam episódios da vida terrena de Jesus.

Mas de onde vêm estas representações tão exóticas? Se não há na região qualquer indício de imigração oriental, como as esculturas foram parar ali? E como o ícone religioso europeu ganhou formas chinesas?

Estas indagações nos levam a uma história tortuosa que começa em 1543, quando um barco a vela português aportou em Tanegashima, sul do arquipélago japonês. Nele viajavam mercadores portugueses que iam do Sião (atual Tailândia) para Macau, na China. Além de buscar bons negócios, estavam incumbidos de uma missão religiosa: converter ao catolicismo os japoneses, adeptos de antigas religiões como o xintoísmo, o budismo e o confucionismo. A eles se seguiram os jesuítas, liderados por Francisco Xavier (1506-1552).

O trabalho de catequese deu frutos, e em pouco tempo, aproximadamente 400 mil japoneses foram batizados. Entre eles, os daimios (literalmente, “grande nome”), chefes da aristocracia fundiária e guerreira. Em Nagasaki, centro do movimento de conversão ao catolicismo, o daimio local, Omura Sumitada (1533-1587), aderiu à nova crença junto com a maioria da população. Batizado em 1563, ele recebeu o nome cristão de Bartolomeu. Sua conversão foi tão profunda que ele doou para a Companhia de Jesus toda a cidade de Nagasaki, com sua população e bens, conferindo aos religiosos inclusive o direito de aplicar a pena de morte. A decisão despertou a atenção de outros senhores para o perigo da infiltração estrangeira.

A interação entre portugueses e japoneses gerou uma subcultura, na qual se encontram arte nanban (palavra que significa “bárbaros do sul”, devido ao fato de os portugueses terem aportado no sul do Japão) e pratos como o tempurá, encontrado hoje na maioria dos restaurantes japoneses. A receita de camarões e legumes empanados e fritos surgiu com a proibição católica de se comer carne na quaresma e a opção de substituí-la por peixes e frutos do mar. O nome tempurá deriva do fato de ser comido nos dias conhecidos no catolicismo como “têmporas” (os três dias de jejum da quaresma e do pentecostes).

A vida dos católicos japoneses mudaria radicalmente com a ascensão de Tokugawa Ieyasu (1543-1616), daimio de Mikawa e iniciador de um xogunato (ditadura militar) que durou de 1603 a 1867. Foram ao todo quatorze xoguns da mesma família. Tokugawa tomou para si, e depois transferiu para seus descendentes, a incumbência de reorganizar politicamente o Japão, enfraquecido pelas constantes guerras entre senhores feudais. A unificação almejada por Tokugawa incluía a religião. Em 1612, ele proibiu o catolicismo no Japão, temendo que a prática pudesse comprometer a lealdade política de seus adeptos, que ficariam de alguma forma vinculados aos portugueses.

A perseguição aos católicos aumentou no xogunato de Tokugawa Iemitsu (1604-1651), neto de Ieyasu. Ele determinou que os súditos se registrassem no templo budista de seus distritos, estimulou a delação remunerada dos que ainda professavam o culto banido, castigou cruelmente os rebeldes e nomeou um inquisidor-geral, Inoue Masashige (1585-1661), com o intuito de exterminar o nascente catolicismo japonês. Ele agiu de forma brutal e eficiente: torturou e expulsou do país os suspeitos e assassinou os rebeldes. A truculência continuou no período de isolamento da nação japonesa em relação ao exterior, que vai do século XVII ao XIX, e resultou em cerca de 40 mil execuções.

Apesar da repressão, a religião católica conseguiu sobreviver no Japão. Muitos adeptos passaram a praticá-la dentro de casa, distante dos olhos das autoridades. Sem os sacerdotes para orientá-los e também sem a literatura sacra cristã, tinham que recorrer somente à memória. O resultado foi a formação de uma seita clandestina chamada Kakure Kirishitan (cristãos ocultos), que começou a estruturar-se em 1614, misturando o catolicismo com elementos xintoístas e budistas, e sobrevive secretamente até os dias de hoje.

No período da repressão Tokugawa, centenas desses “cristãos ocultos” foram descobertos e banidos para Macau, na China, porto central dos negócios portugueses com o Japão e sede da diocese responsável pelo catolicismo japonês. Foi quando a arte religiosa em Macau começou a ganhar novas feições. Até então, a catequese local adotava imagens eurocêntricas. Já os japoneses kakure kirishitan, forçados pelas circunstâncias, tinham recriado as figuras católicas, adaptando-as às suas referências culturais. Esses desterrados exerceram influência sobre a arte de Macau, principalmente na tradução do rosto da divindade cristã para os padrões asiáticos.

A liberdade de sugerir outras formas para o maior ícone cristão nasce de uma brecha existente nos Evangelhos. Eles descrevem Jesus a partir de suas qualidades morais, mas nada informam sobre suas características físicas. As imagens católicas de hoje dizem mais da cultura que as criou do que da verdadeira aparência de Jesus. Nascido no Oriente Médio, de origem semita, Jesus devia ser moreno, e não um nórdico louro e de olhos azuis, como constantemente se vê em suas representações artísticas no Ocidente. Por que não poderia o Jesus dos orientais também corresponder às suas feições? É o que hoje a Igreja Católica chama de “inculturação”, isto é, a mensagem cristã recriada pelas culturas locais.

Produzidas na China, sob influência dos católicos japoneses, as sete estátuas do Cristo oriental chegaram a Cachoeira, na Bahia, no início do século XVIII. Vieram em uma das naus que faziam a “carreira das Índias”, rota de comércio entre a Europa e a Ásia. A presença dessas estátuas na Bahia pode ter sido fruto de uma troca mercantil entre Brasil e China. O tabaco do Recôncavo era apreciado no Oriente, rendia lucros para o agricultor baiano e enriquecia a região. Um dos apreciadores do fumo cachoeirense teria sido o imperador chinês Quianlong (1711-1799), quarto monarca da dinastia manchu Quing, que se relacionava com os portugueses através de Macau. É provável que, nesta circulação de bens e cultura entre as duas regiões, um frei carmelita, um comerciante de grosso trato ou um alto funcionário do Império ultramarino português tenha comprado ou trocado por tabaco o conjunto de esculturas, dando-as de presente à Ordem Terceira do Carmo.

Pode ser que a aquisição dessas esculturas expressasse a grande onda de interesse pela cultura chinesa, conhecida como “chinesice”, que atraiu tanta gente naqueles tempos. Uma aura de exotismo e a considerável distância em relação ao cotidiano brasileiro parecem ser a chave desse interesse. Foi por conta dele que as estátuas chegaram à Rua da Aclamação, em Cachoeira, no começo do século XVIII, e lá continuam, silenciosamente.

É curioso notar como os habitantes de Cachoeira reagem a objetos tão incomuns de culto católico. Apesar do convívio secular da população com aquelas imagens, elas sempre foram vistas com estranheza e com um pouco de desconfiança. As estátuas orientais não foram assimiladas pelo catolicismo local, pois fogem totalmente daquilo que se espera como representação tradicional da figura de Jesus. Afastadas de sua finalidade sagrada, raramente são utilizadas em procissões. Permaneciam guardadas em um salão escuro, longe da vista do público, na companhia dos morcegos.

Com a restauração completa da Ordem Terceira, em 2004, as sete esculturas também foram reformadas e ganharam espaço nobre, sendo hoje exibidas em grandes caixas decoradas com flores coloridas, à moda chinesa. Diante dos nossos olhos ocidentais, no entanto, não recuperam seu caráter sagrado. Interessam apenas pelo exótico. Afinal, onde já se viu Jesus sem barba nem olhos azuis?

Paulo Valadares é mestre em História Social (USP) e autor do livro A Presença Oculta. Genealogia, Identidade e Cultura Cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX (Fortaleza: Fundação Ana Lima, 2007).

Saiba Mais - Livros:

LEITE, José Roberto Teixeira. A China no Brasil. Influências, marcas, ecos e sobrevivências chinesas na sociedade e na arte brasileira. Campinas: Editora da Unicamp, 1999.
YANASHIRO, José. Choque luso no Japão dos séculos XVI e XVII. São Paulo: Ibrasa, 1989.
Revista de Historia da Biblioteca Nacional

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Religiões com mais fiéis no Brasil


Muçulmanos

Credo monoteísta, baseado nos ensinamentos do Profeta Maomé (570-632), o Islamismo compõe, junto com o Judaísmo e o Cristianismo, as três religiões vindas de Abrãao. O Alcorão, livro sagrado, reúne as revelações divinas feitas a Maomé. Nas mesquitas, os muçulmanos realizam orações diárias comunitárias. Há uma peregrinação anual para Meca, onde nasceu o Profeta, na Arábia Saudita. Religião que mais cresce no mundo, o islamismo no Brasil tem 5 mil fiéis, 0,003% da população, segundo o censo.


Judeus

O Judaísmo é reconhecido como a primeira religião monoteísta da humanidade e a primeira das três religiões oriundas de Abrãao. Para os judeus, Deus considera os hebreus o povo escolhido e garantiu a eles uma terra prometida. A religião tem, assim, fortes traços étnicos. Em 1948, depois do massacre de milhões de judeus pela Alemanha nazista, o Estado de Israel foi proclamado. No Brasil, os judeus não chegam a 0,1% da população, segundo os últimos censos.


Budismo

Criado por volta do século 6 a.C. na Índia, o Budismo chegou ao Brasil há cem anos, trazido por imigrantes japoneses. É hoje o movimento religioso oriental com mais seguidores no Brasil, cerca de 250 mil. O criador e guia espiritual da religião é Buda. Os budistas pregam o aprimoramento do espírito, o nirvana, pela meditação. Atualmente, uma das figuras mais respeitadas e conhecidas do budismo é o Dalai Lama, líder mundial da corrente tibetana da religião.


Candomblé e umbanda

O Candomblé e a Umbanda contam com cerca de 500 mil devotos declarados no Brasil. Elas atraem, porém, mais praticantes do que isso, segundo estudiosos. Eles dizem que muitos fiéis de outros credos seguem preceitos das religiões afro-brasileiras sem assumi-las como principal religião. A Umbanda é a mais popular. Organizou-se em 1920 no Rio de Janeiro e é uma mescla de crenças e rituais europeus e africanos. O Candomblé chegou com o os escravos e, para sobreviver no Brasil, teve seus orixás associados a santos católicos.


Testemunhas de Jeová

Os testemunhas de Jeová se declaram cristãos, seguidores da Bíblia, adoradores de Jeová (denominação de Deus no Antigo Testamento) e não acreditam na Santíssima Trindade (revelação de Deus no Pai, no Filho e no Espírito Santo). A marca desses fiéis é bater de porta em porta com Bíblias e impressos. Poucas revistas religiosas têm a circulação de A Sentinela, editada por eles. No Brasil, a religião conta com um milhão praticantes. No mundo, são quase 7 milhões.



Igreja Adventista

A Igreja Adventista tem no nome uma referência à sua principal crença, o advento de Cristo, isto é, o seu retorno ao planeta. No Brasil, a maior igreja adventista é a do Sétimo Dia, nome que lembra para eles o dia da semana estabelecido por Deus para o descanso fisíco e o espiritual do homem. Instalada inicialmente em Santa Catarina, ainda no século 19, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem hoje mais de um milhão de fiéis no país. Os adventistas são conhecidos no Brasil pela rede hospitalar que mantêm.


Espiritismo

O Brasil é um principais centros mundiais do Espiritismo. Pelo censos, 1,4% da população brasileira segue a religião. Contudo, avalia-se que muitos dos que se declaram de outros credos costumam freqüentar centros espíritas. Os praticantes crêem no contato com os espíritos, por meio de médiuns. Pregam que, após a morte, a alma retorna à Terra em uma nova encarnação. A doutrina da religião, o Livro dos Espíritos, foi, segundo os espíritas, codificada pelo francês Allan Kardec, em meados do século 19.



Protestantes

As religiões cristãs protestantes surgem no século 16 em um racha da Igreja Católica. Os protestantes acabam com o celibato, abolem o culto à Virgem Maria e aos santos, proíbem as imagens em igrejas e reforçam a importância da Bíblia. No Brasil, a principal linha protestante é a batista, praticada por 1,8% da população, mais de três milhões de pessoas. As igrejas Presbiteriana e Metodista também são populares e mantêm no país importantes centros educacionais.


Pentecostais

Consideradas uma vertente do protestantismo, as igrejas evangélicas pentecostais reúnem o segundo maior grupo de fiéis do Brasil (23,5 milhões). A Assembléia de Deus é a maior delas, seguida pela Congregação Cristã e a Universal do Reino de Deus. O pentecostalismo surgiu no início do século 20 nos EUA. O nome do movimento é uma referência à narrativa bíblica do Dia de Pentescostes, quando o Espírito Santo veio até os apóstolos. Marcam os cultos pentecostais as orações coletivas, a eloqüência dos pastores e os rituais de cura.


Catolicismo

O Brasil é considerado o país com a maior população católica do mundo. Segundo estimativa da Fundação Getúlio Vargas, com base em censos, 139,2 milhões de brasileiros são católicos (73,8% dos habitantes). O Catolicismo é a maior religão cristã do planeta. Uma de suas marcas é a canonização de cristãos, que, declarados santos, viram intermediários entre os fiéis e Deus. A Virgem Maria, mãe de Jesus Cristo, também recebe muitas orações dos católicos.
BBC BRASIL

O pai da umbanda


Rejeitado no kardecismo, Zélio Fernandino decidiu criar sua própria religião. Assim, nasceu a umbanda, que completa seu primeiro centenário em 2008.
Jorge Cesar Pereira Nunes

Considerada por muitos como a única religião verdadeiramente brasileira, por reunir elementos da cultura indígena, africana e européia, a umbanda completou seu primeiro centenário em 2008. Apesar disso, o culto ainda é visto com maus olhos por alguns líderes protestantes. A discriminação sofrida pelos umbandistas não é de hoje e está na própria raiz da religião, como atesta a história de Zélio Fernandino de Moraes.

Jovem de uma tradicional família de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, Zélio completou 17 anos em abril de 1908. Preparava-se para prestar exames para a Escola Naval, quando uma estranha paralisia pôs fim a seus planos. Renomados médicos foram chamados e iniciaram uma série de tratamentos, mas nenhum deles conseguia diagnosticar a doença do rapaz e seu estado de saúde só se agravava.

A partir de outubro, Zélio começou a falar palavras sem nexo, teve visões e apresentou quadro de aparente perturbação mental. Sem sucesso, outros clínicos buscavam cura para os males. Seria difícil imaginar que a solução viria do próprio enfermo. Em novembro, Zélio anunciou a seus pais que voltaria a andar. De fato, um dia depois do aviso, ele estava novamente em pé. Os sinais tidos como distúrbio da mente, no entanto, permaneciam.

Muito católica, a família recorreu então aos padres, que aconselharam o retorno aos tratamentos médicos especializados. Por sua vez, suspeitando de uma obsessão espiritual, um vizinho recomendou levá-lo à Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro. A instituição fora fundada em 1907 em Niterói, onde funciona até hoje.

Durante uma reunião com o presidente e outros membros da Federação, o jovem incorporou um caboclo e foi recriminado pelo dirigente da mesa devido ao “atraso espiritual” desta alma. Zélio protestou e anunciou que, no dia seguinte, seria iniciada uma nova religião, “em que esses pretos e esses índios poderão dar a sua mensagem, e assim cumprir sua missão”. Assim, na noite de 16 de novembro, uma multidão aglomerava-se na Rua Floriano Peixoto, no bairro de Neves, em São Gonçalo. Todos aguardavam Zélio que, em breve, fundaria a Tenda de Umbanda Nossa Senhora da Piedade. A espera não foi em vão: nascia ali uma nova religião.

Zélio nunca explicou a razão da palavra “umbanda”, embora ele tenha vivido até 1975. Por isso, historiadores divergem sobre sua procedência, mas a imensa maioria acredita que ela decorra do vocábulo “m’banda”, usada pelas tribos Quimbundo, da África, para designar os seus sacerdotes, e que era também uma palavra sagrada dos índios tupis. Portanto, uma tradução livre indicaria “Tenda de Sacerdotes”.

Sua criação foi seguida, no mesmo ato, de algumas regras básicas e simples, tais como o uso apenas de roupas brancas, ter como adereço somente uma fita da cor do orixá ou do santo do dia comemorado, não receber nenhuma recompensa dos que recorrem à Umbanda, não praticar sacrifício de animais e fazer da caridade a prática permanente segundo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em 1918, Zélio criou sete novas tendas. Apenas uma delas ficou no distrito de Neves, pois a maioria foi para o Rio de Janeiro, capital do país na época, o que pode ter contribuído para a expansão da crença por todo território nacional.
Zélio, entretanto, não se dedicava apenas à umbanda. Como era norma não receber recompensa pelo bem distribuído, também trabalhava como comerciante. Em 1924, fez uma incursão na política e foi eleito vereador. Três anos depois, foi reeleito e escolhido por seus pares para ser secretário do Legislativo gonçalense. No poder público, dedicava-se principalmente à difusão de escolas públicas, tanto que ele mesmo criara uma, gratuita, de curso primário, em seu centro espírita para atender as crianças de Neves.

Casado com dona Isabel de Moraes, teve duas filhas, Zélia e Zilméia, às quais passou a direção da tenda original em 1963. Zélio faleceu no dia 3 de outubro de 1975 em Cachoeiras de Macacu, no Rio de Janeiro. Como homenagem, a Câmara Municipal de São Gonçalo batizou com seu nome uma rua no bairro de Mangueira.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Negra devoção

Apresentando os santos pretos como modelos de virtude e divulgando suas biografias, Igreja tinha por estratégia converter e disciplinar os escravos
Anderson José Machado de Oliveira

SÃO MAURÍCIO - O primeiro santo negro da igreja católica


“Lá vem o meu parente”, exclamou um velho negro ao avistar, numa procissão, a imagem de um santo de lábios grossos e cabelo encarapinhado. Quem registrou o episódio foi o missionário protestante norte-americano Daniel Kidder, em viagem ao Brasil no século XIX. Talvez para nós, atualmente, a ligação entre santos pretos e homens pretos seja algo natural, fruto de uma identificação quase que necessária. No entanto, o que nos parece corriqueiro hoje fazia parte, no período colonial, de uma estratégia da igreja católica no sentido de tornar cristãos os escravos africanos e seus descendentes. Mais ainda, discipliná-los para encarar a escravidão. Não seria exagero dizer que o reforço do incentivo às devoções foi um elemento fundamental da política oficial de evangelização.

Os santos tornaram-se grandes aliados da Igreja para atrair novos devotos pois eram representações de pessoas comuns, por isso mais próximas dos fiéis – e, principalmente, obedientes a Deus e ao poder clerical. Nomeando e protegendo diversos lugarejos, suas imagens chegavam às localidades mais distantes, muitas vezes antes dos próprios padres. Contando e estimulando o conhecimento sobre a vida dos santos, a Igreja transmitia aos fiéis os ensinamentos que julgava corretos e que deviam ser imitados por escravos que em geral traziam outras crenças de suas terras de origem, muito diferentes das que preconizava a fé católica.

A intensificação do tráfico de escravos, no século XVIII, transformara os africanos e seus descendentes no maior contingente populacional da Colônia. Para os proprietários, isto aumentava a capacidade produtiva e os lucros, mas trazia preocupações na mesma escala. Desde o final do século anterior, a guerra contra o Quilombo de Palmares, na capitania de Pernambuco, despertara preocupações nas elites senhoriais, interessadas em estabelecer um maior controle sobre a população cativa. Diante destes fatos, na sua função de legitimadora da ordem social, a Igreja não descuidou de apresentar aos negros modelos de santidade que exemplificassem o cultivo das virtudes cristãs e obediência ao poder. Os que mais se podiam se identificar com os escravos eram, evidentemente, os santos de sua etnia.

Tida por alguns como santa, a ex-escrava Rosa Egipcíaca pareceu, por um momento, atender a tal propósito. Ela nasceu na Costa da Mina, África, em 1719, tendo chegado ao Brasil em 1725. Viveu entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro até 1762, quando foi presa e enviada a Lisboa aos cuidados da Inquisição, sob acusação de embuste e heresia. Como nos relata o antropólogo Luiz Mott, padres franciscanos queriam que a beata negra, por suas virtudes religiosas, se transformasse num modelo para as “gentes de cor” do Brasil. Seu afastamento dos dogmas da Igreja resultou entretanto no fracasso do projeto. Apesar de Rosa, a Igreja, no seu trabalho catequético, podia sempre contar com outros santos pretos, estes devidamente reconhecidos pela Igreja e acima de qualquer suspeita, com grande aceitação entre os escravos. São eles São Benedito, Santo Antônio de Categeró, ou de Noto, Santo Elesbão e Santa Efigênia.


As vidas desses santos eram divulgadas em obras de grande difusão na Colônia. Em 1744, frei Apolinário da Conceição, da Ordem do Frades Menores, publicou Flor Peregrina por Preta, ou Nova Maravilha da graça, descoberta na prodigiosa vida de São Benedito de S. Filadélfio. Religioso leigo da Província Reformada da Sicília, das da mais estreita Observância da Religião Seráfica. O título pomposo pretendia trazer à luz a virtuosa vida de São Benedito. Nascido em Lisboa, frei Apolinário tinha consciência da importância da escravidão para o desenvolvimento da Colônia. Segundo ele próprio, um dos objetivos da sua obra era apresentar aos negros um santo que com eles se identificasse pela sua condição étnica.

São Benedito, o santo biografado, seria filho de escravos africanos. Teria nascido em 1524, na aldeia italiana de São Fratello, na Sicília, e servido como cozinheiro, despenseiro e guardião no convento franciscano de Palermo. Assistia os pobres distribuindo entre eles os víveres que retirava da despensa do convento. Para frei Apolinário, “apesar da cor preta”, foram as virtudes de São Benedito que o conduziram à santidade. O santo morreu em 1589, tendo seu culto principiado no Brasil antes da sua canonização, em 1807.

Em 1726, o padre secular e irmão terceiro franciscano José Pereira Baião publicou a História das prodigiosas vidas dos gloriosos santos Antônio e Benedito, maior honra e lustre da gente preta. Padre José era natural de Gondolim, Bispado de Coimbra. No prólogo da obra justificava a divulgação das vidas de São Benedito e de Santo Antônio de Noto como um serviço de estímulo à fé, afirmando: “O mesmo fruto espero em Deus que há de causar nos fiéis destes dois gloriosos Santos Pretos Antônio e Benedito, especialmente nos de sua cor...”.

De modo semelhante ao que fez frei Apolinário, a narrativa dirigia-se com ênfase a um público específico. Destacava-se neste trabalho a vida de outro expoente entre os santos pretos, Santo Antônio de Noto. Este, segundo Padre José, era originário da Guiné, filho de pais mouros e, portanto, nascido e criado na lei de Maomé. Levando em conta esta origem, de acordo com a narrativa, foi uma felicidade para Antônio ter sido vendido como escravo para a Sicília, pois com isso teve a oportunidade de conhecer o cristianismo e livrar-se da “infidelidade” muçulmana. Na escravidão, abjurou (ou seja, renunciou) de bom grado ao islamismo e tomou o nome de Antônio, em homenagem ao Santo Antônio de Lisboa. Sua vida foi marcada pelas virtudes da temperança, penitência, docilidade e trabalho. Alforriado, tornou-se irmão terceiro de São Francisco, ou seja, membro de uma “ordem terceira”, associação de homens piedosos que não eram monges, sendo tributados a ele inúmeros milagres em vida e após sua morte, ocorrida em 1549.


Os dois últimos expoentes pretos da corte celeste tiveram suas vidas contadas pelo carmelita frei José Pereira de Santana. Sua obra, Os Dois Atlantes de Etiópia. Santo Elesbão, Imperador 47° da Abssínia, Advogado dos Perigos do mar e Santa Efigênia, Princesa da Núbia, Advogada dos incêndios dos edifícios. Ambos Carmelitas, foi publicada em dois volumes, o primeiro em 1735, dedicado à vida de Elesbão, e o segundo, em 1738, dedicado à vida de Efigênia. Frei José era natural do Rio de Janeiro, tendo sido ordenado no Carmo da cidade, posteriormente obtendo o doutorado em Teologia, em Coimbra. A carreira do frade ainda seria laureada com a ocupação dos cargos de Qualificador do Santo Ofício, Cronista Oficial do Carmo e confessor e preceptor das filhas de d. José – rei de Portugal (1750-1777). Era certamente uma figura importante e conhecedora das questões fundamentais ao império português, dentre elas a escravidão.


Segundo o frade, Santo Elesbão era natural da Etiópia, tendo sido o 46° neto do rei Salomão e da rainha de Sabá. Imperador de seu país no século VI, creditou-se a ele a extensão do reino cristão da Núbia até o lado oposto do Mar Vermelho, no que se impôs aos árabes e judeus do Iêmen. Entre os judeus teria nascido uma rebelião comandada por um rei chamado Dunaan, o qual foi vencido por Elesbão numa expedição punitiva, visando ao restabelecimento da ordem cristã. Também Santa Efigênia pertencia à nobreza. Princesa da Núbia, teria sido convertida ao cristianismo e batizada pelo apóstolo Mateus. Indiferente aos prazeres mundanos e aos requintes da corte, tornou-se religiosa, fundando um convento, tendo terminado sua vida santamente, à frente da comunidade religiosa por ela fundada. A história de Efigênia ainda seria divulgada, em 1742, pelo missionário apostólico padre Antônio de Oliveira, que escreveu, inspirado na obra de frei José Pereira de Santana, a Novena da Bem Aventurada Virgem Sta. Ifigênia. Princesa da Núbia e Fênix da Etiópia.


As irmandades – instituições leigas devocionais e assistenciais - feitas para cultuar esses santos também tiveram grande importância na divulgação das histórias e foram inúmeras que se formaram em toda Colônia. No Rio de Janeiro, em 1740, os pretos mina organizaram a irmandade em louvor a Elesbão e à Efigênia. Na mesma cidade, os pretos angola cultuavam São Benedito, juntamente com Nossa Senhora do Rosário. Em Minas Gerais, desde o início do século XVIII, Santa Efigênia, Santo Elesbão, São Benedito e Santo Antônio de Categeró eram cultuados nas duas irmandades do Rosário dos Pretos existentes em Vila Rica. Uma delas, que tinha sua igreja na localidade do Alto da Cruz, está ligada à lenda do Chico Rei. Segundo a lenda, soberano na África e escravo em Minas Gerais, no século XVIII, teria conseguido libertar seu povo do cativeiro com o ouro que os negros escondiam nos cabelos e posteriormente depositavam numa pia de pedra existente na Igreja do Rosário do Alto da Cruz, conhecida como Igreja de Santa Efigênia. Este seria o motivo da devoção de Chico Rei à santa, pois ela o teria ajudado a cumprir sua missão.


Em Olinda, os negros da Irmandade do Rosário também cultuavam Santo Elesbão. Na Bahia, o culto à Santa Efigênia tinha lugar na Irmandade do Rosário dos Pretos de Salvador, enquanto que Santo Antônio de Categeró tinha sua irmandade, desde o final do século XVII, formada por crioulos (descendentes de africanos nascidos no Brasil) e angolas, na Igreja de São Pedro de Salvador. Em Traíras, Goiás, também se registra, entre os pretos, o culto de Santa Efigênia. Aliás, com relação a este culto, o viajante austríaco Emanuel Pohl, em 1819, ficou bastante impressionado com a festa organizada pelos devotos que, ricamente ornados e montados a cavalo, carregavam a bandeira com a imagem da santa, num cortejo marcado pelos disparos de morteiros e ao som de instrumentos de origem africana. Nas palavras do viajante, carregadas de juízo de valor: “A horrível gritaria, que chegava até nós, não nos deixou pregar os olhos durante toda a noite”.

O depoimento de Pohl nos deixa perceber que a estruturação do culto pelos negros nem sempre seguiu os rigores recomendados pela Igreja, principalmente no que diz respeito à mescla entre as tradições religiosas católicas e aquelas de origem africana. Por ora, sem menosprezar estes fatos, é importante chamar a atenção de que havia, por parte da Igreja, objetivos bem nítidos ao propagandear a vida dos santos pretos.

Um fio condutor unia essas biografias. Primeiramente, deve-se atentar para o discurso em relação à cor. Ser “preto”, na sociedade colonial, designava, além da cor da pele, um lugar social, que indicava uma proximidade maior com a esfera do trabalho e a ascendência africana. Geralmente o termo preto designava o escravo africano. Não só os escravos, mas também os libertos com recente passado escravo, eram incluídos na categoria de pretos – os chamados “pretos forros”. Santo preto, neste sentido, identifica um grupo de fiéis para os quais era idealizado como modelo de vida.


A África é outro ponto de união dessas histórias. O continente, por vezes retratado de forma bastante imprecisa, aparece nas narrativas como terra de mouros, lugar de pecado. Mas, por outro lado, também podia ser o lugar que gerava servos fiéis a Cristo e à sua Igreja. Benedito, Antônio, Elesbão e Efigênia seriam exemplos desta segunda África. Em torno de tal ambivalência se construiu um modelo de África com o qual se desejava que os africanos e seus descendentes se identificassem – ou seja, não o lugar do tráfico de escravos ou das culturas ancestrais tão abominadas pelo catolicismo, mas uma África fiel e compromissada com o cristianismo ocidental.


Este compromisso estaria firmado na própria vida daqueles santos: todos eram virtuosos, além de obedientes e defensores da Igreja. A resignação que demonstravam diante dos desígnios divinos deveria ser um espelho para os seus devotos. Aliás, neste ponto, as histórias desses santos coincidiam com os conselhos que, em 1633, o jesuíta Antônio Vieira formulou para os escravos no Sermão XIV do Rosário: a escravidão era uma forma de resgate dos pecados. Aceitar a situação do cativeiro com resignação era aceitar a oportunidade que Deus concedera aos negros de purgar, em vida, as suas penas.


Outro elo entre tais histórias é a presença e o papel dos religiosos mendicantes, notadamente franciscanos e carmelitas, que difundiam pelo Brasil as vidas dos santos negros, sempre representados com as vestes das respectivas ordens. Juntamente com os dominicanos, aquelas duas ordens religiosas se caracterizaram por gerar, desde a Idade Média, muitos especialistas na produção de hagiológios. Deste modo, prestaram inúmeros serviços à Igreja e aos poderes constituídos, na condição de difusores de belos exemplos, destinados à evangelização dos povos. No contexto do império colonial português, ao se dedicarem à tarefa de difundir as vidas dos santos pretos, esses hagiógrafos se tornaram peças importantes, para o Estado e a Igreja, na formulação de soluções para uma questão crucial: a escravidão.

Anderson José Machado de Oliveira é professor do Instituto de Aplicação da UERJ, das Faculdades Integradas Campo-Grandenses e doutor em História com a tese Os santos pretos carmelitas: culto dos santos, catequese e devoção negra no Brasil colonial (UFF, 2002).

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Natal, da igreja ao shopping center

edição 50 - Dezembro 2007

O marketing em torno da festa do dia 25 de dezembro, apoiado em elementos do imaginário religioso, ajuda-nos aentender como o consumo se revela filho legítimo do monoteísmo
por Silvio Mieli

© LOSEVSKY PAVEL/SHUTTERSTOCK


Shopping: o templo do Natal moderno

O cenário do anúncio impresso,lançado às vésperas do Natal de 2005, reproduzia a atmosfera de um quadro renascentista. Uma cliente se aproxima do caixa para pagar suas compras na loja de decoração. Olhar entre virginal e maternal, vestes angelicais, a mão direita apoiada sobre as caixas brancas e a esquerda sutilmente inclinada, segurando um cartão de crédito. Por trás dos seus cabelos dourados, uma baixela de prata pendurada na prateleira da loja conferia à consumidora uma auréola de “madona rafaelita”. “Fazer o bem é mais fácil do que você imagina”, dizia o slogan do cartão de solidariedade do banco.

A peça publicitária parecia ter sido inspirada no tríptico Virtudes teologais (fé, esperança e caridade), pintado por Raffaello Sanzio em 1507. Só que, na versão original, a santa recosta a mão esquerda no peito e a outra segura o cálice sagrado. Mas cada época tem o Raffaello que merece. E reciclando o estoque de imagens universais para fins instrumentais, o
marketing pré-natalino nos ajuda a entender como o consumo é filho legítimo do monoteísmo. Já no Velho Testamento, no capítulo 1 do livro do Gênese, versículo 26, Deus franqueou ao homem o domínio “sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. Sabemos no que deu este apelo explícito ao consumo desmesurado da própria natureza.

No próprio feriado de “Ação de Graças”, comemorado na quarta quinta-feira de novembro, depois de comer o peru em família, uma procissão de americanos afl ui às compras na maior liquidação do planeta. O agradecimento a Deus pela boa colheita de outono, que está na origem da comemoração instituída em 1621, converte-se na celebração do consumo sem trégua, aquecendo o comércio às vésperas do Natal.

Para reagir ao marketing que mistura táticas religiosas com as do universo militar, surgiu a campanha mundial Buy nothing day (um dia sem compras), encabeçada pela canadense Media Foundation, que produz a revista antipublicitária Adbusters. Mas além
da campanha, o ritual fundamentalista do consumo também passou a ser questionado a partir das performances do reverendo Billy. Fundador da Igreja do Anticonsumo, Billy, ao estilo dos “sacerdotes” evangélicomidiáticos, invade lojas aos berros de “No shopping” (não compre). Sua pregação, acompanhada de denúncias contra a exploração de mão-de-obra infantil na fabricação de certos produtos, inspirou grupos de ativistas europeus, que passaram a organizar manifestações no interior das lojas de grandes marcas. Na versão européia, ativistas quedam-se prostrados diante, por exemplo, de um boné da Nike, entoando orações e mantras laudatórios ao venerado produto.

Silvio Mieli é jornalista e professor do Departamento de Comunicação Jornalística da PUCSP, onde desenvolve atividades ligadas ao midiativismo, à análise dos sistemas audiovisuais e à crítica à mídia

Rivista História Viva