segunda-feira, 18 de março de 2013
Hieróglifos bagunçam história da escrita na América
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
O Caracol dos Maias
O Caracol dos MaiasConstruído em 850, ajudava a determinar o início das estações do ano.
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão
A Astronomia desenvolveu-se desenvolveu-se entre os maias por ser um dos elemen¬tos fundamentais na prática dos rituais religiosos que, na maioria das vezes, se realizavam à noite. Uma prova disso está numa das gravuras que aparecem em seus manuscritos (chamados Código de Mendoza), na qual um sacerdote toca um instrumento enquanto outro observa as estrelas para determinar a hora do início das cerimônias. Os elevados monumentos piramidais maias eram, na verdade, observatórios ideais para a pesquisa noturna e diurna do céu. As construçôes orientavam-se nesse sentido e delas podiam ser estimadas com precisão a passagem do Sol pelo zênite - o ponto do céu que está diretamente acima da cabeça do observador - e as épocas em que se iniciavam as estações do ano.
Em suas observações, os maias usavam alguns instrumentos primitivos semelhantes às balestilhas - duas hastes cruzadas -, com as quais os astrônomos-navegantes do século XVI observavam a altura dos astros. Um exemplo típico de construção maia com fins de observação astronômica é o chamado Caracol de Chichén-Itzá, cidade situada nas planícies do Yucatán. próximo à Mérida. no México.
Essa edificação está intimamente ligada às civilizações maia e tolteca - esta última, contemporânea da primeira. O monumento foi chamado de EI Caracol pelos espanhóis. porque sua escada interior, em espiral. lembra a concha de um caramujo. Nesse edifício circular encontram-se aberturas orientadas de modo a permitir a determinação dos solstícios de inverno e verão (dias que marcam o início dessas estações) e da mesmo forma dos equinócios de primavera e outono.
O Caracol, cujo início da construção data de 850, tem uma torre de 12 metros de altura, erguida sobre uma dupla plataforma retangular de 9 metros. A plataforma inferior parece ter sido situada e orientada astronomicamente: sua parte anterior era dirigida para Vênus. que alcança seus maiores afastamentos norte e sul no horizonte em intervalos regulares. ao longo do calendário maia. Na plataforma superior, a parede frontal tem como perpendicular a direção que corresponde àquela do nascer do Sol no dia de sua passagem zenital em Chichén-Itzá no ano 1000.
Construída pelos toltecas, a torre tem dois andares. Com 11 metros de diâmetro e paredes muito grossas, dispõe de quatro portas muito, estreitas. No centro. uma grossa coluna sustenta a rampa - a célebre escada em caracol - por meio da qual se chega à câmara retangular do andar superior. Trata-se de uma tarefa difícil. já que a escada não começa no nível do solo e sitl) no princípio da abóbada. A câmara é pequena e grande parte de seu piso está destruído. Mas do que restou é possível deduzir que ela também tinha paredes espessas, uma porta e sete aberturas retangulares muito estreitas que serviram - pelo que se conclui de sua orientação - para determinar os solstícios e equinócios.
Para isso, os maias deviam observar o horizonte por uma linha de visada tangente - que sai do olho e tangencia o lado interior direito e exterior esquerdo de cada uma das aberturas. Desse modo conheciam a direção do pôr-do-sol no solstício de verão (o dia mais longo do ano) e a dos equinócios da primavera e do outono (quando dia e noite têm a mesma duração). Algumas dessas aberturas davam as direções do ocaso de Vê nus em suas máximas declinações norte e sul. Da mesma forma que os astecas, os maias também tinham sua atenção voltada para as estrelas e costumavam levantar-se durante a noite para observer o céu. Eles acreditavam que o firmamento noturno reunia dois dos seus grandes deuses: Tezcatlipoca, que simbolizava o céu. à noite, e a serpente Quetzalcóatl, que representava o zodíaco, o criador do calendário. Além da cobra zodiacal da noite, criou-se mais tarde a figura de Xiucoatl, a cobra azul— zodíaco imaginário do dia e que se encontra lindamente esculpido no calendário asteca.
Revista Superinteressante
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Sexo dos mortos
Maria da Paz Trefaut
Seja nas sociedades maias ou astecas do México, ou entre os incas do Peru, há poucos registros sobre a vida sexual na época précolombiana. Essa é uma das razões do interesse pela rara coleção de arte erótica do Museu Rafael Lar co Herrera, que funciona em num palacete do século 18, em Lima, e reúne mais de 45 mil objetos. Ao chegar ao museu, os turistas descobrem que o sexo é apenas um dos temas intrigantes de civilizações com mais de cinco mil anos de história.
Garrafa da cultura virú (200 a.C. - 200 d.C.), da costa Norte do Peru. Homem e mulher usam turbantes e pintura facial.
O Larco Herrera fica a 15 minutos de táxi de Miraflores ou San Isidro, bairros nobres da capital que concentram boa parte dos hotéis. Todos os taxistas da cidade conhecem o museu, que fica em Pueblo Libre. Os peruanos costumam dizer que se for preciso escolher e visitar um único museu na cidade "vá ao Larco". Mas atenção: há profusão de táxis baratos em Lima, porém a maioria é clandestina - não tem sequer taxímetro -, o que obriga a negociar o preço antes.
Muros altos escondem os jardins floridos do palacete branco cujas grandes portas de madeira dão entrada para um pátio interno, com bancos e almofadas, teares e adornos nas paredes.
Reinaugurado em setembro de 2010, depois de uma criteriosa reforma, o museu exibe peças em estantes fechadas por vidros, catalogadas por época e por cultura, recuando até 8.000 a.C.: tecidos, cerâmicas, vasos, flechas, estátuas, joias e objetos de ouro e de prata.
Os detalhes arquitetônicos do prédio chamam atenção, como a pedra da soleira das portas e o piso de madeira antiga das áreas de exposição, que dialogam com as peças e revelam que o museu é a casa de um colecionador aberta ao público. Construída sobre uma pirâmide pré-colombiana do século 7, a propriedade foi comprada já com o intuito de expor o acervo privado de um dos pioneiros da arqueologia peruana, Rafael Larco Hoyle.
Nascido no Vale de Chicama, perto da cidade de Trujillo, Larco Hoyle passou a vida colecionando vestígios de civilizações passadas no norte do país. Para homenagear seu pai, Rafel Larco Herrera, que também promovia a arqueologia peruana, Hoyle fundou o museu em 1926, na fazenda da família, em Chiclin, e mais tarde o transferiu para o palacete de Lima.
Garrafa mochica (100 a.C. - 800 d.C.). Mulher amamenta o filho. Garrafa da cultura salinar (200 a.C. - 200 d.C.). Mulher acaricia o órgão sexual masculino.
Os vestígios arqueológicos expostos no Museu Larco recuam até 8.000 a.C.
As 45 mil peças reunidas integram uma espécie de livro dos mortos pré-colombiano. Quase todas foram encontradas em tumbas e estão ligadas a práticas funerárias e de sacrifício. Cada uma à sua maneira, seja pela forma, pelo material ou pelos desenhos, conta algo sobre as culturas ancestrais da região. Uma ânfora de cerâmica, por exemplo, revela hipóteses sobre a guerra, o poder dos xamãs e as divindades.
Nos desenhos, há profusão de imagens sobre o sacrifício humano, que não abatia apenas os vencidos, mas também caía sobre mulheres e crianças, cujo coração era retirado. A oferenda aos deuses visava manter o mundo em equilíbrio. Sacerdotes e xamãs, intermediários entre a sociedade dos vivos e os outros mundos, exibem peles, plumas e objetos rituais ligados à ingestão de substâncias alucinógenas, usadas desde 1.500 a.C.
Quando se fala em civilizações pré-colombianas peruanas, pensa-se logo nos incas. "O equívoco acontece sempre", diz a arqueóloga Ulla Holmquist, curadora do museu. O império incaico durou apenas um século, mas marcou a história porque era a cultura dominante que os espanhóis encontraram ao se instalarem no Peru no século 16. "Os incas duraram três ou quatro gerações, enquanto a presença humana no país tem mais de dez mil anos. A domesticação dos animais e a agricultura começaram em 7.000 a.C. As sociedades sedentárias se consolidaram entre 3.000 a.C. e 2.500 a.C. Portanto, é uma história bem mais longa."

Vaso mochica (100 a.C. - 800 d.C.). Morto com pênis ereto, uma alusão à continuidade da potência dos ancestrais.
A mais antiga sociedade do Peru foi a civilização caral, que floresceu ao longo da costa do Pacífico entre 3.000 a.C. e 1.800 a.C. Há indícios de presença humana recuando até 10.500 a.C. Depois da cultura caral, há camadas de culturas arqueológicas distintas: cupisnique, salinar, chavin, paracas, virú, mochica, nazca, huari, lambayeque e chimu. Só depois dos chimus vieram os incas que criaram um Estado baseado na agricultura em terraços, irrigação, pecuária de lhamas e vicunhas e pesca - uma sociedade sem mercado nem dinheiro.
Em 1524, a varíola, introduzida a partir do Panamá, devastou o império antecipando a conquista empreendida por Francisco Pizarro, que derrotou e executou o Sapa Inca Atahualpa, em 1532. Dez anos depois, a coroa espanhola estabeleceu o vice-reinado do Peru controlando todas suas colônias na América do Sul.
O ouro e a prata inca atraíram a cobiça dos espanhóis que conquistaram o Peru em 1532.
Vasos, cerâmicas, estátuas, joias, tecidos e flechas, num total de 45 mil objetos oferecem um panorama das civilizações pré-colombianas.
Mortos-vivos

Garrafa mochica mais popular de Lima. (100 a.C. - 800 d.C.). Casal com pintura facial e peitoral.
Holmquist ressalta que a arte erótica é apenas uma das manifestações vitais da arte précolombiana. Muitas culturas dividiam a vida entre o mundo dos vivos e o dos mortos, um exterior e outro interior, invisível. "Achar que aqui temos uma espécie de Kama Sutra précolombiano revela a nossa visão ocidental a do sexo e não a de pessoas que viviam em outra época com conceitos diversos."
Muitas cenas retratadas remetem à sociedade dos mortos. A maior parte dos objetos pertence à cultura mochica, que colonizou os vales do Norte, entre 300 a.C. e o ano 1.000. Os mochicas não chegaram a constituir um Estado ou uma unidade política que integrasse os centros populacionais, apesar da extensão da sua civilização e do tempo que perduraram. Para eles, os ancestrais seguiam fertilizando a terra e assegurando a continuidade do ciclo produtivo,no mundo invisível no qual viviam após a morte. Aí continuavam a cantar, a dançar e a manter relações sexuais. Muitas cenas mostram práticas sexuais tradicionais como masturbação e felação. Segundo os antropólogos, os mortos expeliam sêmen, embora a fecundação não fosse mais possível.
O prédio colonial foi reformado em 2010 para abrigar o museu mais popular de Lima.
Garrafa mochica (100 a.C. - 800 d.C.). Casal em relação sexual com o filho dormindo.
"Os seres do passado são considerados seres sociais que possuem desejos", explica o antropólogo alemão Jürgen Golte, especialista na América andina. "Eles viviam conflitos, sentiam repugnância, atração, estabeleciam alianças, faziam oferendas, feriam, assaltavam e violavam. O cosmos sociomorfo era um cosmos de seres ativos." Para Golte, o sentido das imagens legadas não é de simples decifração. "O Kama Sutra dos andinos carece de um prazer expresso aparente. Mas isso não significa que eles não tivessem prazer", ressalta.
Revista Planeta
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Notícias História Viva



Cientistas desvendam profecia maia do 'fim do mundo em 2012'
domingo, 2 de outubro de 2011
Notícias História Viva

Segundo os arqueólogos, há indícios que as crianças tiveram o coração arrancado, em um ritual ocorrido há cerca de 800 anos.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Máscara de Tezcatlipoca
Máscara de Tezcatlipoca
Asteca, século 16.México.
O crânio do Smoking Mirror
Este mosaico é acreditado para representar o deus Tezcatlipoca, ou 'Smoking Mirror', uma das quatro divindades poderoso criador, que estavam entre os deuses mais importantes do panteão asteca. O nome 'Smoking Mirror' deriva do nahuatl (asteca) tezapoctli palavra, que significa "brilhante de fumo" e representações de Tezcatlipoca são tipicamente caracterizados por distintas listras pretas no rosto e um espelho de fumar geralmente exibidos em seu cocar, em seu templo ou no lugar de um pé arrancado.
A base para o mosaico é um crânio humano. O crânio é cortado na parte de trás e forrado com pele de veado que a maxila móvel é articulada. Cintas deerskin Long teria permitido o crânio para ser usado como parte de regalia sacerdotal. Ornamentos Skull como este são representadas no códice Mixtec Nuttal Zouche.
A decoração em mosaico é trabalhado em faixas alternadas de azul-turquesa brilhante e lignite negra. Os olhos são feitos de duas esferas de ferro polido pirita emoldurado por argolas de concha branca (Strombus concha). A cavidade nasal é revestida com chapas de brilhante Spondylus vermelho (ostras espinhosas) shell.
O azul-turquesa, lignite, pirite e casca foram colhidos em todos os confins do Império Asteca, e além. O esforço feito na montagem desta selecção diversificada de materiais exóticos salienta o divino 'outro mundo' natureza tanto do mosaico e quem usava ou exibido lo.
* O povo ea cultura que conhecemos como "Aztec" se refere a si mesmos como os astecas (pronuncia-se "Me-ka-shee ').
C. McEwan, A. Middleton, C. Cartwright, mosaicos R. Stacey Turquoise do México (Londres, The British Museum Press, 2006)
C. McEwan, RJ Stacey e CR Cartwright, 'A' mosaico crânio Tezcatlipoca 'nas coleções do Museu Britânico: novas perspectivas e questões de identidade' em Baquedano E. (ed.) Tezcatlipoca: Malandro & Suprema Divindade Asteca (Colorado, University of Colorado Press, no prelo)
CR Cartwright e ND Meeks, "concha asteca de trabalho: design de alta tecnologia ', British Museum Technical Research Bulletin 1, (2007), 35-42.
C. McEwan, México antigo no Museu Britânico (Londres, The British Museum Press, 1994)
sábado, 9 de janeiro de 2010
Museo del Oro

Museo del Oro
Acervo de metais nobres mostra a vida dos povos pré-colombianos
por Mário Araújo
Um dos mais completos museus de metais do mundo fica no tradicional bairro de La Candelaria, em Bogotá, Colômbia. O acervo, pertencente à coleção do Banco de la República, é organizado em cinco seções fixas. Suas relíquias resgatam os primeiros manuseios do ouro e de outros metais nobres na América Latina, mais de mil anos antes da chegada dos colonizadores espanhóis. Mais que satisfazer a curiosidade sobre o metal em si, o espaço apresenta a rotina das nações pré-colombianas e deixa claro que, até o século 16, os povos da região conciliavam arte, religião, cultura e guerras.
Site oficial: www.banrep.org/museo
No princípio
Ao chegar, o visitante é recebido por um vídeo que conta a história dos metais: a descoberta, as primeiras formas de utilização, a identificação de seu valor e as aplicações modernas. A apresentação ainda lembra que essas riquezas foram responsáveis por grandes guerras e massacres.
Luz divina
Com o passar do tempo, novas técnicas de polimento foram desenvolvidas. Cada povo tinha a sua, que podia deixar o resultado mais brilhante, fosco ou com graduações. Mas uma coisa todos valorizavam: quanto mais brilhante a peça, mais poderoso e imponente era o adereço. Por meio delas, os caciques refletiam a luz, símbolo dos deuses.
Poder além da vida
Na tradição yotoco-malagana (de 200 a.C. a 1300), as máscaras de ouro estáticas, ricamente lapidadas, respaldavam o poder daqueles que as exibiam por transmitir a imagem de liderança firme. Assim como na vida, na morte elas também eram fundamentais; apenas ganhavam um formato diferente, mais plano.
Riqueza cotidiana
De acordo com relato do século 16 do frei Pedro Simón, na América não havia homem nem mulher que não tivesse joias, brincos, gargantilhas, coroas... Cocares, brincos para o nariz, pulseiras e tornozeleiras ornamentavam os índios diariamente. Os brincos abaixo são de tradição zenú (de 200 a.C a 1000).
Interatividade
Um espaço dedicado a oficinas simula o trabalho arqueológico de investigação das peças que compõem o acervo do museu. Uma projeção simula as diferentes etapas do processo, desde a seleção da área até a retirada dos objetos. Além disso, uma outra sala interativa simula a cerimônia anual de oferendas das tribos.
Música brilhante
Os instrumentos musicais eram de suma importância. Segundo a mitologia indígena, os deuses os entregaram aos homens para que pudessem, por meio dos sons, livrar o mundo dos males. Só eram usados durante as cerimônias religiosas mais importantes.
Molde natural
A primeira galeria do museu mostra as diferentes formas de garimpo, manuseio e trabalho em metais, principalmente ouro. Algumas tribos usavam cera de abelha como molde. Outras trabalhavam com o ouro plano, obtido por meio de marteladas. Também era comum usar objetos da natureza como moldes. É o caso desse exemplar da região colombiana de Calima, cuja civilização se desenvolveu de 200 a.C. a 1300. A concha se desfez, mas a peça se manteve.
Força instintiva
Para os nativos das Américas pré-colombianas, algumas espécies de animais possuíam poderes extraordinários. Em muitas das representações da época, jaguares e morcegos em especial aparecem fundidos à imagem humana. Os artesãos acreditavam que, quando o homem se unia a um desses animais, ganhava imensos poderes e passava a controlar a chave que dá acesso aos segredos da vida e da morte.
Estética feminina
Quando se tratava de embelezar o corpo com joias e adereços, as diferentes etnias tinham critérios distintos. Enquanto algumas possuíam peças rebuscadas, outros optavam por um manuseio mais limpo. É o caso deste vaso, uma das poucas peças não americanas da coleção. Encontrada em Antioquia no século 19, tem formas arredondadas que fazem referência ao corpo feminino. Esta foi a peça que deu origem à coleção do Museo del Oro, em 1939.
Múmias douradas
Da mesma forma que no Egito antigo, a mumificação era muito praticada pela maioria das tribos da América Latina. Os órgãos eram retirados e distribuídos em pequenos jarros feitos de barro. Depois, o corpo embalsamado ganhava adereços. Quanto mais importante fosse a pessoa, mais enfeites ela recebia.
Revista Aventuras na História
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
A pele de Deus

Os índios chiriguanos, do povo guarani, navegaram o rio Pilcomayo, há anos ou séculos, e chegaram até a fronteira do império dos incas. Aqui ficaram, frente ás primeiras alturas dos Andes, esperando pela terra sem mal e sem morte. Aqui cantam e dançam os persiguidores do paraíso.
Os chiriguanos não conheciam o papel. Descobrirem o papel, a palavra escrita, a palavra impressa, quando os frades franciscanos de Chuquisaca apareceram nesta comarca depois de muito andar, trazendo livros sagrados nos alforjes.
Como não conheciam o papel, nem sabiam que precisavam dele, os índios não tinham nenhum nome para ele. Hoje dizem pele de Deus, porque o papel serve para mandar palavras aos amigos que estão longe.
Vale das Salinas - 1701
Memórias de Fogo - Eduardo Galeano
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
OS ÍNDIOS E OS SONHOS NO ROMANCE DE FRANCES BROOKE

Os índios conservam a maior parte de suas antigas supertições. Eu assinalaria sua fé nos sonhos, loucura da qual não podem se curar apesar das repetidas decepções... Um selvagem nos estava contando um sonho profético, que, segundo ele, anunciava a morte de um oficial inglês, e eu não pude conter um riso.
"Vocês, europeus", me disse, "são a gente menos razoável do mundo. Caçoam de nossa fé nos sonhos e, no entanto, esperam que nós acreditemos em coisas que são mil vezes mais incríveis."
Londres - 1769
Memória de Fogo - Eduardo galeano
sexta-feira, 26 de junho de 2009
O destino dos maias

O destino dos maias
Nova e polêmica teoria sobre o desaparecimento dos maias reacende o mistério em torno da mais avançada civilização da América pré-colombiana
por Lia Hama
No seu auge, a civilização maia chegou a ter mais de 40 cidades espalhadas numa região que hoje inclui a península de Yucatán, um pedaço do estado de Chiapas, no México, e partes de Belize, Guatemala e Honduras. Uma área de cerca de 325 mil quilômetros quadrados, o que equivale, mais ou menos, ao tamanho do estado do Maranhão. Nesse período, entre os séculos 3 e 9, os maias dominavam a astronomia, a matemática, a escrita, norteavam-se por um preciso sistema de calendários e eram sofisticados construtores. Formavam a civilização de tecnologia mais avançada do mundo, à frente das maiores potências européias. Por volta do século 9, no entanto, os maias experimentaram um colapso súbito. Os centros urbanos densamente povoados foram abandonados e a civilização, da forma como até então era conhecida, simplesmente desapareceu. Um fim tão misterioso que até hoje provoca polêmica.
Nas últimas décadas, pesquisadores têm procurado algo grande que pudesse acabar com uma civilização que, à época do seu ocaso, já durava bem mais de 20 séculos: um cataclismo, uma prolongada seca, uma guerra sangrenta, uma catástrofe de dimensões continentais. E até agora nada. Mas é possível que aí esteja o erro. Se Clifford Brown, da Atlantic University da Flórida, e Walter Witschey, do Museu de Ciência de Virgínia, nos Estados Unidos, estiverem certos, todo mundo andou procurando no lugar errado. Segundo eles, os maias estavam fadados a desaparecer devido a características endógenas ligadas ao modo como suas cidades se desenvolveram e algo sutil, realmente muito pequeno, pode ter levado toda a civilização ao colapso. Brown e Witschey, cuja tese foi publicada em artigo da revista New Scientist em janeiro de 2004, acreditam que podem provar isso a partir das construções das antigas cidades maias. De acordo com eles, as cidades maias teriam evoluído de uma forma particular, que seguiria um padrão fractal. Fractais são aquelas figuras geométricas que repetem o mesmo desenho em escalas cada vez menores. Aplicados aos fenômenos naturais, os fractais estão na base da teoria do caos, onde uma ocorrência aparentemente insignificante, se repetida em escala cada vez maior, gera desequilíbrio. Incêndios em florestas, avalanches, terremotos e até as contrações de uma mulher que dá à luz têm dimensão fractal.
Segundo Brown e Witschey, o padrão fractal das cidades maias indicaria uma organização crítica, onde qualquer instabilidade poderia crescer progressivamente até forçar uma reorganização em configuração mais estável. “Não é preciso identificar uma grande mudança para explicar por que a civilização maia acabou. Uma perturbação menor pode ter sido tudo o que foi necessário”, afirma Brown. Para ele, um fato comum – como uma guerra (fato corriqueiro entre os maias), a morte de um rei ou uma crise na agricultura – pode ter provocado o fim de toda a civilização.
Mas a teoria dos padrões fractais está longe de ser um consenso. Fome, epidemias, mudanças climáticas, guerras, invasões e até suicídio em massa já foram hipóteses levantadas para explicar o fim da civilização maia. O único consenso entre os estudiosos, no entanto, é que para chegar à solução desse mistério será preciso compreender melhor como viviam, o que comiam e em que acreditavam os maias.
“Os maias não formavam um povo único”, diz Marcia Arcuri, pesquisadora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. “Eles eram uma reunião de diversos grupos étnicos, como os huastecas, quiche-maia, tzental-maia e tzotzil.”
No século 9, quando a civilização atingiu o apogeu, eles viviam basicamente da agricultura. Plantavam milho, feijão, algodão e tabaco. Quando as colheitas eram boas, dedicavam o excedente ao comércio. A sociedade era fortemente hierarquizada, dividida entre a nobreza (governantes, sacerdotes e guerreiros) e a classe baixa (camponeses e artesãos), obrigada a trabalhar e a pagar impostos. Por último, havia os cativos, em geral destinados aos sacrifícios humanos em honra aos deuses. A religião ocupava um espaço enorme na vida dos maias. Os sacerdotes controlavam a escrita e o calendário, um objeto dedicado a uma função muito, mas muito mais importante que o mero contar dos dias. O calendário dizia quando plantar e quando colher – e havia os dias malditos, quando nenhum empreendimento deveria ser tentado e não se devia fazer nada.
Durante boa parte do século 20, a imagem que se tinha dos maias era de um povo pacífico, governado por sacerdotes e voltado apenas para atividades religiosas e de observação dos astros. Um contraste em relação aos impérios guerreiros e sanguinários do México central. A decifração de hieróglifos maias, no entanto, forneceu um retrato completamente diferente desse povo. Descobriu-se que muitos deles contavam a história de governantes em guerra com cidades rivais e obcecados por sacrifícios humanos (no quadro abaixo). “O sangue era a argamassa da sociedade dos antigos maias”, afirma a arqueóloga Linda Schele, no livro The Blood of Kings (“O Sangue dos Reis”, inédito no Brasil).
Essa nova visão dos maias, um povo guerreiro e adepto de rituais sangrentos, foi formada a partir das descobertas em sítios arqueológicos na selva da Guatemala e do México, onde foi encontrado, por exemplo, um mural que mostra prisioneiros sendo exibidos a um rei vitorioso após uma batalha. Na cena, os capturados têm as unhas arrancadas durante um ritual.
Nos últimos anos, algumas descobertas têm modificado também a visão sobre o período pré-clássico da civilização maia, que iria de 1500 a.C. a 250. Desde 2001, arqueólogos liderados pelo professor Francisco Estrada-Belli, da Universidade Vanderbilt, dos Estados Unidos, têm explorado a antiga cidade de Cival, na região de Petén, na Guatemala. Lá, foram encontradas duas máscaras esculpidas na parede de uma pirâmide, cada uma medindo 5 por 3 metros, 120 objetos de jade, uma peça cerimonial e um pedaço de pedra esculpida de 300 a.C. “A preservação das máscaras é impressionante. É quase como se alguém as tivesse feito ontem”, diz Estrada-Belli. Acredita-se que Cival era uma das maiores cidades do período pré-clássico e teria abrigado10 mil pessoas.
O que intriga os arqueólogos é que a cidade de Cival não se encaixa no que se conhece hoje sobre os maias do período pré-clássico. A cidade era mais avançada do que se imagina que seriam as sociedades pré-clássicas. Havia reis, uma iconografia complexa, grandes palácios, escrita e cerâmica policromática: todas características do que se chama hoje de período clássico. “Está claro que pré-clássico é um nome incorreto”, afirma o professor Estrada-Belli. “É muito interessante quando revertemos algumas idéias existentes. Achávamos que o povo maia pré-clássico era uma sociedade relativamente simples, mas eles não eram”, diz o professor. “Havia toda uma civilização durante o período pré-clássico que nós estamos apenas começando a descobrir”, acrescenta.
Uma das teorias para o fim da época de ouro maia é a do professor David Hodell, da Universidade da Flórida, que defende que o clima é que seria o culpado. Ao analisar sedimentos de um lago na península de Yucatán, Hodell e um grupo de cientistas encontraram um padrão de seca se repetindo a cada 208 anos. O período mais seco da era atual teria ocorrido entre 800 e 1000, coincidindo com o fim do período clássico, no século 9. Outros períodos de seca teriam coincidido com épocas de declínio. Hodell, porém, não descarta que outros fatores tenham influenciado no desaparecimento dos maias. “Acho que a seca exerceu um papel importante, mas estou certo de que existiram outros fatores, como o aumento da população, a degradação da terra e mudanças sociopolíticas”, afirma.
Uma crise econômica como a provocada por uma seca prolongada seria potencialmente capaz de desestruturar uma sociedade baseada na agricultura e na religião e cuja organização política de cidades-estados fomentava rivalidades e conflitos pela hegemonia política. Essa competição se dava, por exemplo, arquitetonicamente. “As cidades mais poderosas construíam os maiores edifícios, o que exigia aumento de tributos, do número de trabalhadores e dos prisioneiros que eram capturados e sacrificados em homenagem aos deuses. Tudo isso pode ter gerado a pressão social necessária para que as camadas mais pobres se revoltassem e abandonassem os núcleos urbanos e seus arredores para se refugiarem na selva, onde estariam livres dessas obrigações”, diz Eduardo Natalino, da USP.
Após o abandono dos grandes centros urbanos, os maias voltaram a se reorganizar ao norte da península de Yucatán. “O fim do Império Maia não significou o fim dos maias”, afirma Eduardo. O que teve realmente um fim foi o período clássico, tido como a fase áurea da civilização. Em seguida veio o período pós-clássico, marcado por uma série de lutas internas entre as cidades-estados. Essa fragmentação facilitou o avanço dos espanhóis, que chegaram às costas da península de Yucatán em 1511 e, ao final da década de 1520, conquistaram praticamente todos os territórios de influência maia. Ainda assim, os maias sobreviveram à colonização. “A história desse povo não termina com a conquista dos espanhóis”, afirma o antropólogo Michael D. Coe, da Universidade Yale, autor do livro The Maya (“Os Maias”, sem tradução em português). Hoje os 6 milhões de descendentes dos antigos maias vivem principalmente na península de Yucatán e em parte do estado de Chiapas, no México, e na região central e leste da Guatemala.
Os maias
A mais avançadacivilização pré-colombianadurou 3 mil anos
Eles ocuparam um vasto território, de cerca de 325 mil quilômetros quadrados, que hoje abrange a península de Yucatán e parte do Estado de Chiapas, no México, parte da Guatemala, de Honduras e Belize.
PERÍODO PRÉ-CLÁSSICO (1500 a.C. a 250 d.c.)
Localização:
Os principais núcleos foram La Victoria, Uaxactún e Tikal
Características:
• No início, a organização era feita em pequenos núcleos sedentários, baseados no cultivo do milho, do feijão e da abóbora.
• A cerâmica é monocromada e são feitas pequenas esculturas de figuras de pedra.
• Havia centros cerimoniais que, por volta de 200 da era cristã, evoluíram para cidades com templos, pirâmides, palácios e mercados.
ASTRONOMIA E CALENDÁRIO
Os maias conheciam profundamente os ciclos do Sol, da Lua e de Vênus. Eles calculavam o ciclo solar em 365,2420 dias. Uma exatidão assombrosa, já que só há pouco tempo os cientistas constataram, com ajuda de modernos computadores, que o ano solar é de 365,2422 dias. No calendário maia havia um ano sagrado (de 260 dias) e um laico (de 365 dias), composto de 18 meses de 20 dias, seguidos de cinco dias considerados nefastos para a realização de qualquer empreendimento.
PERÍODO CLÁSSICO (séculos 3 a 9)
Localização:
Região central de El Petén, na Guatemala. A partir do fim do século 4, há uma expansão para oeste e sudeste, onde surgem Palenque, Piedras Negras e Copán. Mais tarde, essa conquista segue para o norte, até a península de Yucatán.
Características:
• Auge da civilização, com a construção de grandes templos, como os de Tikal, Palenque e Copán. Acredita-se que as cidades-estados maias formavam uma federação de caráter teocrático e hierarquizada em classes sociais.
• Há produção de excedentes agrícolas.
• A cerâmica típica desse período é policromada e figurativa.
ESCRITA
Um avançado sistema de escrita hieroglífica foi desenvolvido pelos maias. Boa parte dos escritos, no entanto, foi destruída durante a colonização espanhola. Hoje são conhecidos apenas três livros da era pré-colombiana que sobreviveram aos espanhóis: os chamados códices de Dresden, de Madri e de Paris. Acredita-se que o apogeu cultural dos maias tenha se dado por volta da segunda metade do século 8. São desse período as estelas, placas de pedra com relevos hieroglíficos, que são uma importante fonte de informação para os historiadores.
PERÍODO PÓS-CLÁSSICO (séculos 10 a 16)
Localização:
Chichen Itzá, Uxmal e Mayapán, na península de Yucatán (sul do México), e El Petén, na Guatemala.
Características:
• Desgraças naturais como o furacão de 1464 e a peste de 1480 devastam a região.
• Começa o culto a Kukulcán (Quetzacoátl, para os toltecas), simbolizado pela figura da serpente emplumada.
• Apogeu do núcleo Mayapán, seguido de conflitos entre as cidades-estados. As disputas facilitam o avanço dos espanhóis, que chegam em 1511. Na década de 1520, quase toda a região maia é conquistada.
Sangue sagrado
Sacrifícios humanosfizeram parte do dia-a-diados maias
Com uma faca de pedra, o sacerdote abre o peito de uma vítima e retira o coração ainda batendo. Línguas, orelhas e genitais são furados com ferrões de arraia e o sangue recolhido é queimado, como uma oferenda aos deuses. Rituais assim eram comuns entre os maias e eram realizados em homenagem a Chac, provedor da vida e deus da chuva. Em Chichen Itzá as vítimas eram lançadas – junto com cobre, ouro e jade – para morrer em poços e cavernas. Os maias tinham um panteão de deuses associados à natureza, como a chuva, o solo, o Sol e a Lua. O milho, principal fonte de alimento dos maias, ocupava um lugar especial na religião. Segundo ela, o homem teria sido criado da massa de milho, depois que os deuses fracassaram em tentar criar gente a partir do barro e da madeira. Assim como outros povos da Mesoamérica, os maias dividiam o mundo em direções, cada uma associada a um deus, a uma cor (centro, verde; leste, vermelho; norte, branco; oeste, preto; sul, amarelo), a uma árvore e a um pássaro. O céu era dividido em 13 estratos e abaixo da terra existiriam outros nove estratos. O tempo era considerado cíclico. De acordo com os maias, antes deste mundo teriam existido outros e a destruição deste mundo daria início a um novo ciclo.
Maias resistem
Cultura sobreviveno sul do México ena Guatemala
Hoje, uma das mais famosas descendentes dos maias é Rigoberta Menchú, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1992, por defender seu povo do extermínio de que foi vítima nos últimos 20 anos. Rigoberta, ela também uma sobrevivente, nasceu em 1959 em Laj Chimel, na Guatemala, uma pequena comunidade seguidora das tradições maias-quiché. Perdeu o pai assassinado num confronto com fazendeiros e sua mãe e seu irmão desapareceram, provavelmente seqüestrados e mortos pelo Exército. Calcula-se que existam hoje de 4 milhões a 6 milhões de maias, que vivem principalmente na península de Yucatán, no sul do México, e nas regiões central e oeste da Guatemala. “Mais do que descendente genético dos antigos maias, esse povo manteve vivos os mitos, a visão de mundo, as línguas e crenças que têm raízes na América pré-colombiana”, diz a arqueóloga Linda Schele. Entre as principais atividades econômicas dos grupos remanescentes estão o cultivo do milho e do feijão e a produção de artesanato. Eles falam cerca de 20 línguas diferentes, como o quiche, o iucateco, o tzeltal e o chol. Apesar da forte influência do cristianismo, as crenças tradicionais foram mantidas, num processo típico de sincretismo religioso. A deusa Lua, por exemplo, é associada à Virgem Maria. O antigo calendário maia sobreviveu e ainda é bastante utilizado.
Saiba mais
Livros
A Civilização Maia, Paul Gendrop, Jorge Zahar, 1987 - Um dos poucos livros em português sobre o assunto, traz informações didáticas sobre o tema
Deuses do México Indígena, Eduardo Natalino dos Santos (Palas Athena, 2002) - Trata do universo cultural dos povos mesoamericanos
The Blood of Kings, Linda Schele e Mary Ellen Miller, Thames and Hudson, 1992 - Livro repleto de fotos, ilustrações e dados sobre a arte maia
Site
www.uady.mx/sitios/mayas - Site da Universidade Autônoma de Yucatán, com informações sobre cultura maia
Revista Aventuras na Historia