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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Retratos da modernidade no cotidiano carioca pelo olhar de Lima Barreto


O hotel Avenida, ao fundo, à direita, destaque na recém-inaugurada Avenida Central: o Rio do prefeito Pereira Passos se espelhava em Paris (Crédito: Divulgação)

 

Angelita Silva Neto*  

 

 

Quanto a modernidade do Rio de Janeiro, Lima Barreto sempre se colocou como voz solitária em posição radicalmente contra a forma como se processava.[1]

 

 

Personagem que testemunhou o processo de modernização que a cidade do Rio de Janeiro passou no final do século XIX e início do século XX, Lima Barreto registou em suas crônicas vários elementos que evidenciam as rápidas transformações ocorridas principalmente no campo social. Uma vez que, através do cotidiano- matéria prima do cronista- retratou as conseqüências, dessa súbita modernização, sofridas pelas camadas populares.

As crônicas aqui estudadas fazem parte de duas obras de Lima Barreto: Vida Urbana(1961) e Marginália(2002). Nestas podemos perceber através do olhar do autor, quais eram suas preocupações e descontentamentos com a nova perspectiva de sociedade que se formava.   

Com a implantação do regime republicano no Brasil, a Capital Federal- Rio de Janeiro- começou a passar por uma série de transformações que envolviam o campo econômico, político e social.

Dessa forma, “a nova filosofia financeira nascida com a República reclamava  a remodelação dos hábitos sociais e dos cuidados pessoais”.[2] Rapidamente percebeu-se que as velhas estruturas do Rio de Janeiro já não eram adequadas a esse novo ritmo. Além disso, era necessário acabar com a imagem que se tinha de uma cidade insalubre e insegura.

A cidade do Rio de Janeiro começava a passar por um processo de metamorfose. Para acompanhar o “progresso” deveriam possuir uma cidade moderna. Segundo Sevcenko[3], para a realização desse projeto alguns princípios foram adotados pelos governantes: os hábitos e costumes da sociedade tradicional eram condenados; os elementos da cultura popular deveriam ser negados para não nebular a imagem civilizada criada por uma minoria burguesa; o centro da cidade deveria ser ocupado pelas camadas aburguesadas e para isso as camadas pobres deveriam ser expulsas.

A “regeneração”[4] da cidade foi completamente excludente, fazendo com que as camadas pobres sofressem arduamente as conseqüências de sua implantação:

Carência de moradias e alojamentos, falta de condições sanitárias, moléstias (alto índice de mortalidade), carestia, fome, baixos salários, desemprego, miséria: eis os frutos mais acres desse crescimento fabuloso e que cabia à parte maior e mais humilde da população.[5]   

 

Diante desse quadro social que permeava a cidade do Rio de Janeiro, Lima Barreto observava, escrevia, e opinava sobre os vários aspectos que percebia diante de tal situação. Para isto utilizava principalmente da crônica, produzindo-a com uma linguagem muito próxima  do que vivemos no dia-a-dia, e sua matéria-prima trata-se exatamente desse cotidiano que é selecionado pelo cronista. Assim, não era produzida com a intenção de durar, uma vez que, era criada para o jornal, um meio efêmero. Segundo Candido[6], os escritores não tinham a pretensão de “ficar”, tinham uma perspectiva de que seriam esquecidos rapidamente, uma vez que estavam falando do dia-a-dia, com isso quase sem pretender tornou a literatura muito próxima da vida cotidiana.

A produção de Lima Barreto é um meio de fazer as denúncias do campo social, utilizando-a como uma militância. Diante disso, trás uma modificação para o romance, o conto, a crônica, que até o momento caracterizava-se pela linguagem erudita, acadêmica. Sua obra é marcada pelo informal, pela linguagem mais popular, o que veio a ser posteriormente um dos propósitos dos modernistas.

As crônicas de Lima Barreto, possuem uma descrição abrangente da cidade do Rio de Janeiro, sendo que poucos documentos da época possuem essas minúcia, além de possuir um caráter polêmico, militante e provocador, o que permite ao leitor um maior aprofundamento sobre os tema por ele mencionados. Assim, a crônica barretiana torna-se um importantíssimo documento para o historiador, possuindo uma carga elevada de informações sobre a sociedade que estava vivendo.

Encontramos nas crônicas do autor uma imagem da cidade partindo do que está compreendendo e interpretando, no momento em que ocorre a reordenação da cidade, o foco é principalmente o controle da organização social da população.

Assim com a modernização na cidade do Rio de Janeiro, uma das mudanças aconteceram na estrutura física da cidade, ou seja, aconteceu uma reurbanização de forma bem excludente. Isto tornou-se muito evidente na produção barretiana, pois encontramos signos que mostram a modernização carioca adotando sempre a concepção da burguesia. Diante disso, encontramos em uma de suas crônicas Carta de um pai de família ao doutor chefe de polícia como a política adota para modernizar a cidade atendia apenas as necessidades e perspectivas da classe dominante. Nesta crônica, o autor remete ao fato de que com a modernização da cidade as prostitutas foram retiradas dos bairros onde moravam as famílias burguesas, e foram transferidas para bairros pobres nos quais também moravam famílias, porém isto foi ignorado pelos governantes:

... de uns dias a esta parte vieram para a minha vizinhança umas “moças” que não são bem parecidas com as minhas filhas nem com as primas delas. Eu conheço mal essas cousas da vida do Rio (...) e andei indagando de que pessoas se tratava e soube que eram “meninas”, moradoras nas novas ruas, que a polícia estava tocando de lá, por causa das famílias.

“Mas, doutor, eu não tenho família também? Por que é que só as famílias daquelas ruas não podem ter semelhante vizinhança e eu posso?”[7]

 

Percebemos assim, que este era um dos motivos que causavam indignação em Lima Barreto ao escrever. Isto era realmente, para ele, um absurdo, fazer um replanejamento completamente voltado para a classe dominante, aumentando a diferenciação de classes. E destacamos ainda que, através desses fatos que se passam no cotidiano torna-se possível notar tamanha perspectiva de modernização que acontecia.

Na crônica Hotel 7 de Setembro o autor destaca uma obra beneficente do governo para crianças carentes. Porém, não vê vantagem nenhuma nessa doação, uma vez que, foi gasto uma quantia muito grande na construção de um hotel luxuoso, enquanto poderia ser construído abrigo para crianças pobres. É dessa maneira, que encontramos a indignação de Lima Barreto diante de alguns aspectos da política de implantação da modernidade, na qual  a construção de um hotel luxuoso deixa bem exposta essa preocupação. Na citação abaixo podemos perceber a contestação do autor:

... é uma injúria e uma ofensa, feita a essas mesmas crianças, num edifício em que o governo da cidade gastou, segundo ele próprio confessa, oito mil contos de réis.

Pois é justo que a municipalidade do Rio de Janeiro gaste tão vultosa quantia para abrigar forasteiros ricos e deixe sem abrigo milhares de crianças pobres ao léu da vida?[8]

 

E perante essas considerações que faz sobre este fato, comenta ainda que o governo deveria ter se preocupado com as pessoas mais carentes em primeiro lugar, para depois construir obras luxuosas.

O seu primeiro dever era dar assistência aos necessitados, toda a espécie de assistência.

Agora, depois de gastar tão fabulosa quantia, dar um bródio para minorar o sofrimento da infância desvalida, só uma coisa resta à edilidade: passem bem![9]

 

Dessa maneira, o comportamento das pessoas também vai se modificando, vão se tornando cada vez mais semelhantes aos modelos europeus e americanos, como destaca Sevcenko “...hábito inovador de caminhar pelas ruas sozinho e às pressas era chamado de ‘andar à americana’... sobretudo a atitude de total desprendimento por tudo e por todos que estão ao redor”.[10] Através desses elementos, foi se constituindo uma caracterização para o homem moderno, que passa a ser seguida pela sociedade em geral.

Encontramos em crônicas do autor como a questão do modismo na maioria das vezes tornava-se indevida:

... quem se apresenta no trem com um guarda-pó [uma capa de pano que cobria a roupa da poeira], por mais caro que seja, mesmo que seja de sêda, como uma vestimenta chinesa ou japonesa, se não levar vaia, pelo menos é tomado como roceiro ou coisa parecida.

A moda que não se os use e exige até que se viaje com roupas caras e finas.

Entretanto, achei absurdo semelhante moda- deusa, aliás, que é fértil em absurdos. O pó das estradas de ferro continuam a existir, mesmo à noite- por que então suprimir o capote de brim que resguardava as nossas roupas dele? Por que tornar chique viajar com roupas impróprias que muito mal se defendem da poeira?[11]

  

Um fator que sempre chama muito a atenção do autor, como também a nossa, são as mudanças de comportamentos dos sujeitos históricos. Em várias passagens das crônicas de Lima Barreto nos deparamos com esta problemática.

Podemos perceber como algumas características do mundo moderno estava incomodando, e além disso e talvez o que mais provocasse o inconformismo no escritor é o fato do brasileiro estar copiando de outros países fatores que o autor julga ser negativo.

Nem tudo que se constrói em nome da modernidade é aplicado e aplaudido pela população como um todo. Como no caso de Lima Barreto que faz um apelo:

Imploremos aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que irão, multiplicadas, impedir de vermos os nosso purpurinos crespúsculos do verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos” que lá fiquem com êles; fiquemos nos com as nossas que matam menos e não ofendem à beleza e à natureza.[12]

 

Encontramos assim, em uma outra crônica uma expressividade muito grande neste aspecto de mudança de comportamento, que o próprio nome já nos dá vários significados Ex-Homem. O autor comenta o fato de alguns homens estarem mudando  muito rapidamente de posicionamento. Assim, pelo contexto da crônica podemos entender  este acontecimento como uma caracterização do processo de modernização, uma vez que, alguns comportamentos e atitudes dos homens eram considerados honrosos e de caráter e que posteriormente começavam a não serem mais tão significativas. Diante disso, encontramos ainda estranhamento por estarem em fase de transformação, não era visto como algo “normal”, observe uma passagem dessa crônica que expõe muito bem este aspecto:

Acontece, pois, que certos desses homens dessa forma assim tratados, de uma hora para outra mudam de orientação, avacalham-se, como se diz vulgarmente, e passam de um extremo a outro, sem nenhuma explicação.[13]

 

Ontem e Hoje uma crônica na qual podemos encontrar com muita nitidez, que com a modernidade novos elementos vão surgindo e a partir deles e também por novos comportamentos que sujeitos sociais vão ocupando, acaba fortalecendo a diferenciação de classes que se torna cada vez maior. Isto pode ser  observado dentro dessa crônica, quando um deputado que era muito querido por toda a população, era considerado “nosso homem”, a partir do momento que ele compra um automóvel – elemento que representa a modernização- ele não é considerado mais “nosso homem” pela população, uma vez que, se sente muito superior a esta população.

Com o processo de modernização notamos, como já foi mencionado, a mudança de comportamento dos suburbanos, que apesar de não participarem diretamente de todos os empreendimentos da modernidade, sentiam e passavam por várias de suas conseqüências. Lima Barreto, faz uma crônica intitulada Bailes e Divertimentos suburbanos, na qual trás esses aspectos de mudanças e mesmo da exclusão que esse processo provoca. Menciona primeiramente como eram as festas do subúrbio, havia “...a matança de leitões, as entradas das caixas de doces, a ida dos assados para a padaria, etc”.[14]Além disso, comenta ainda sobre as músicas que eram tocadas nestas festas e destaca que “... nos dias presentes não se dançavam mais valsas, mazurcas, quadrilhas ou quadras”.[15]

No decorrer da crônica vai dispondo de vários aspectos que sofreram transformações, uma delas é o tamanho das residências. Primeiro elas eram grandes  e conseguiam acomodar várias pessoas, agora “...nas salas de visitas dos atuais mal cabem o piano (...), adquirida a prestações. Meia dúzia de pessoas, numa delas, estão ameaçadas de morrer asfixiadas com janelas abertas”.[16] Evidenciando que não era mais possível fazer os famosos bailes. Com isso, muda-se o local de realização da festa, passando então para os clubes:

 

Por isso entre a gente média os bailes estão quase desaparecendo dos seus hábitos; e, na gente pobre, eles ficaram reduzidos ao mínimo de um conserto de violão ou a um recibo de sócio de um clube dançante na vizinhança, onde as moças vigiadas pelas mães possam perutear em salão vasto.[17]

 

Porém, apesar de acontecerem mudanças, muitos elementos permanecem, notando  que o que ocorre trata-se realmente de um processo. Notamos isto, nesta última parte da citação acima, na qual as mães continuam vigiando as filhas nos bailes.

Logo em seguida o autor problematiza a concepção de que essas mudanças que aconteceram era para civilizar o subúrbio, assim como acontece no restante da sociedade carioca

Passando para os pés dos civilizados, elas [as danças] são deturpadas, acentuadas na direção de um apelo claro à atividade sexual, perdem o que significavam primitivamente e se tornam intencionalmente lascivas, provocantes e imorais.

Isto, porém, não nos interessa, porque não interessa tanto ao subúrbio como ao set carioca, que dançam one-step e o tango argentino, e nessas bárbaras danças se nivelam. O subúrbio civiliza-se, diria o saudoso Figueiredo Pimentel, que era também suburbano, mas de que forma, santo Deus?[18]

 

Nesta passagem encontramos a diferenciação de classes, ao mesmo tempo que demonstramos completo desprezo por parte dos marginalizados  pelos hábitos que a classe dominante possuía.  Assim, não consegue perceber os aspectos que se dizem civilizatórios do subúrbio, que era o lugar onde morava e passou quase toda a sua vida.

Ao final da crônica é como se fizesse um próprio desabafo, além de encontramos a perspectiva de que os suburbanos vão procurando meios para mascararem a dura realidade que estavam vivendo:

Ele não mais se diverte inocentemente; o subúrbio se atordoa e se embriaga não só com álcool, com a lascívia das danças novas que o esnobismo foi buscar no arsenal da hipocrisia norte-americana. Para as dificuldades materiais de sua precária existência, criou esse seu paraíso artificial, em cujas delícias transitórias mergulha, inebria-se minutos, para esperar, durante horas, dias e meses, um aumentozinho de vencimentos...[19]

 

Encontramos ainda uma passagem que trás uma crítica muito contundente com relação a vontade de reproduzir um modelo de cidade que não se adequa ao Rio de Janeiro:

A grande cidade do Prata tem um milhão de habitantes; a capital argentina tem longas ruas retas; a capital argentina não tem pretos; portanto meus senhores, o Rio de Janeiro, cortado de montanhas, deve ter largas ruas retas; o Rio de Janeiro, capital de um país que recebeu durante quase três séculos milhões de pretos, não deve ter pretos.[20]

 

Dessa maneira, encontramos claramente a revolta do autor com a questão, da implantação de modelos exteriores indevidamente e consequentemente a exclusão dos negros do espaço urbano, fato que não seria possível diante da realidade brasileira.

Acabamos encontrando em vários momentos esses aspectos excludentes da modernidade. Em País Rico existe a constatação de muitos elementos modernos que a sociedade carioca desfrutava, mas devemos destacar que nem todos os membros dessa sociedade poderiam conviver com esses elementos. Notamos assim, que Lima Barreto se contraria principalmente com este aspecto, pois mesmo não podendo partilhar de todos elementos ditos modernos, acabam sofrendo várias conseqüências dos mesmos.

Destacamos que Lima Barreto faz uma reflexão sobre este aspecto em sua obra, mostrando a pobreza das pessoas no Rio de Janeiro que viviam amontoadas em pequenos locais.

 Tendo em vista, esta proposta da política de excluir as pessoas de acordo com a ordem burguesa, acaba provocando situações diversas, como a atração de várias classes sociais de outros Estados para o Rio de Janeiro. Percebemos, ainda a mudança da população rural para a cidade. Tendo a perspectiva de que ... O campo é a estagnação; a cidade é a evolução.[21]

Lima Barreto em E o tal Balázio? comenta sobre a criação de um marco para comemorar o aniversário da fundação da cidade do Rio de Janeiro, criticando o fato de criarem um monumento moderno como símbolo e não algo que realmente representa o que aconteceu. Ressalta ainda, que não são apenas as grandes realizações que trazem aspectos representativos. Este fato é assim narrado pelo autor:

Deixou de ter a singeleza que era de esperar tivesse, para ser uma coisa cerebrina de uma agulha de granito ponteada com uma bala de canhão moderno, simbolizando assim as lutas que se travaram na fundação da cidade.

Se essa simbolização fôsse necessária, creio eu que melhor seriam arcos, flechas, tacapes, mosquetes, arcabuzes, balas esféricas dos velhos canhões de retrocarga, que êsse balázio cilindrocônico que é quase de anteontem.[22]

 

            Se voltarmos um pouco na questão da desigualdade social, e mais especificamente na população pobre que foi obrigada a morar nos morros, devido aos projetos de reurbanização como já foi mencionado, encontramos a chamada “política sanitária”. Esta era uma forma, segundo os governantes do momento, de seguir o processo de modernização, uma vez que esta classe social correspondia às “fezes sociais” não devendo assim compor o quadro social da cidade que era considerada como modelo.

Existe assim, uma ligação direta entre modernidade e a elite, ou seja, mudanças que visam os interesses da burguesia. E uma das principais preocupações era de manter o poder que possuíam dentro do Estado. Diante dessa perspectiva, Lima Barreto confecciona suas críticas:

 

É muito justo que vocês queiram ganhar dinheiro; é muito justa essa torpe ânsia burguesa de ajuntar níqueis; mas o que não é justo, é que nós, todo o povo do Brasil, de prestígio a você, ministro e secretário de Estado, para nos matar de fome.[23]

Portanto, muitos elementos da modernidade foram modificando todo o cenário de uma sociedade, aqui em específico a sociedade carioca no final do século XIX e começo do século XX, notamos como o impacto da turbulência das transformações foi significativo para as pessoas que por ela passaram.

 Chamamos a atenção para o fato de Lima Barreto ser um sujeito completamente envolvido em meio a este processo. Assim, freqüentemente tece  críticas revoltosas com relação a maneira que a modernidade ia acontecendo, deixando muito evidente todas as desigualdades que existem dentro da sociedade. Encontramos sutilmente em algumas crônicas, em outras de maneira bem mais expressante, como existem contrastes entre os elementos modernos ditos tecnologicamente avançados e pertencentes ao mundo europeizado com a realidade dos suburbanos cariocas.

O mundo moderno sendo encarado como um mundo cheio de turbulência, complicado:

Nesse  atropelo que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações subalternas poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do relativo, do equilíbrio, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.[24]

 

Podemos encontrar ainda um sentimento de estranhamento e de mesmo de revolta, quando menciona a reforma feita na cidade do Rio de Janeiro, para que ele se modernizasse. Esta reforma implicaria na mudança da aparência física da cidade principalmente, para isto muitos moradores foram retirados do centro da cidade para que largas avenidas fossem implantadas. Algumas obras que foram realizadas para demonstrar um grau de modernização muito elevado, nunca foram utilizadas. A mudança no Rio de Janeiro, não aconteceu apenas nas estruturas, como também no comportamento das pessoas. Podemos observar na crônica A derrubada, um protesto de Lima Barreto contra a forma que se realizaram essas mudanças:

 

Mas, uma coisa que ninguém vê e nota é a contínua derrubada de árvores velhas, vestutas, fruteiras, plantadas há meio século, que a aridez, a ganância e a imbecilidade vão pondo abaixo com uma inconsciência lamentável.

Nós subúrbios, as velhas chácaras, cheias de anosas mangueiras piedosos tamarineiros, vão sendo ceifadas pelo machado impiedoso do construtor de avenidas.[25]

 

Nas crônicas de Lima Barreto esboça-se muito bem a forma banal que a modernidade foi sendo implantada no Rio de Janeiro. Um dos temas encontrados para começar as críticas foram às enchentes. Desde esta época as enchentes faziam estragos no Rio de Janeiro, com isso comenta sobre a “nova engenharia”:

 

De há muito que a nova engenharia municipal se deveria ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.

O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar a mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral.

Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.[26]

 

A crônica permite-nos, como já mencionamos anteriormente, problematizarmos o cotidiano. Com isso, a cada uma delas encontramos elementos que simbolizam os acontecimentos do dia a dia carioca. Assim, o historiador através da representação identifica na crônica um documento muito significativo. Ou seja, ao trabalharmos com a literatura, percebemos como esta comporta as representações do social. O autor a todo momento busca um referencial, onde está vivendo, para produzir suas reflexões. Notamos portanto, que “as representações do mundo social não são o reflexo do real nem a ele se opõe de forma antitética, numa contraposição vulgar entre imaginário e realidade concreta.”[27]  

           


 

* Mestranda em História pela Universidade Federal do Paraná

[1] BARBOSA, Francisco de Assis. Prefácio. In: SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1989. p.15

[2] SEVCENKO, Nicolau. A Inserção Compulsória do Brasil na Belle Époque. In: Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo.: Brasiliense, 1989. p.28

[3] Ibid., p.30

[4] Termo utilizado pelos governantes da época  justificando as transformações que a cidade passava.

[5] Ibid., p.52

[6] CANDIDO, Antônio (et al.). A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas, SP: Editora da UNICAMP; Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa, 1992.

 

[7] LIMA BARRETO, Afonsos H. Vida Urbana. São Paulo: Brasiliense, 1961. p.96

[8] LIMA BARRETO, Afonsos H. Marginália. Disponível em: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>.  Acesso em dezembro de 2002. p.5

­­

[9] Ibid., p. 6

[10] SEVCENKO, Nicolau. A Capital irradiante: técnicas, ritmos e ritos do Rio. In: História da vida privada no Brasil. vol. 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.551

 

[11] Ibid., p.13

[12] Ibid., p.122

[13] Ibid., p.108

[14] IDEM, Marginália. Disponível em: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>.  Acesso em dezembro de 2002. p.18

[15] Ibid., p.18

[16] Ibid., p.18

[17] IDEM, Marginália. Disponível em: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>.  Acesso em dezembro de 2002. p.18

[18] Ibid., p.19

[19] Ibid., p.21

[20] IDEM, Vida Urbana. São Paulo: Brasiliense, 1961. p.83

[21] IDEM, Marginália. Disponível em: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>.  Acesso em dezembro de 2002. p.55

[22] IDEM, Vida Urbana. São Paulo: Brasiliense, 1961. p78/79

[23] Ibid., p.119

[24] IDEM, Vida Urbana. São Paulo: Brasiliense, 1961. p.121

[25] Ibid., p.29

[26] Ibid., p.77

[27] PESAVENTO, Sandra Jatahy. Contribuição da história e da literatura para a construção do cidadão: a abordagem da identidade nacional. In: Discurso histórico e narrativa literária. Campinas, SP. Ed. da UNICAMP, 1998.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Bota-abaixo


Amanda Alvarenga

No final do século XIX e na primeira década do XX, a cidade do Rio de Janeiro passou por um processo de transformação e hábitos cotidianos. Neste período, a então capital contava com um pouco menos de 1 milhão de habitantes, desses a maioria era composta por negros acrescidos ao contingente de outras regiões que migraram do campo para a cidade busca de novas oportunidades no ramo de serviços e funções ligadas a atividade portuária. 

Essa camada numerosa e extremamente pobre da população foi levada a constituir e habitar favelas e cortiços. Os antigos casarões localizados nos centro da cidade, neste momento foram redivididos em inúmeros cubículos a fim abrigar famílias inteiras. Nesses ambientes as famílias viviam em condições extremamente precárias, sem acesso as mínimas condições de higiene, não havia acesso à esgoto nem a água, o que levou a cidade a pagar um alto preço pelo seu crescimento desordenado. Esse intenso crescimento populacional acrescido a falta de infra-estrutura urbana e as péssimas condições de higiene fizeram da cidade um foco constante doenças como cólera, febre amarela, varíola, que neste momento tornaram-se endêmicas.

A então capital da República, diante deste crescimento desordenado da cidade e das classes populares, transformou-se em uma ameaça constante a ordem, a segurança e moralidade pública na visão das autoridades, e é claro ao sonho de transformar o Rio de Janeiro nos moldes de uma grande metrópole européia, tal como Paris. A ascensão de de Campos Sales a presidência em 1902 deu novos rumos a cidade. 

A nomeação de Pereira Passos para prefeito e de Oswaldo Cruz para o cargo de diretor da saúde pública significou a execução do plano de reforma urbana e sanitária na cidade. Inicia-se assim o "bota-abaixo", processo de demolição de cortiços e favelas a fim acabar com os focos das doenças perniciosas e promover a remodelação da cidade nos moldes de Paris, promovendo assim alargamento de ruas, a remodelação do porto e a supervisão das construções na cidade.
Revista de História da  Biblioteca Nacional

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Conheça a origem dos nomes de algumas favelas do Rio

Histórias com imigrantes, nomes indígenas, fatos religiosos e o processo de industrialização serviram como inspiração

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro

Foto: Agência Estado
 Meninos soltam pipa no Complexo do Alemão. Imigrante inspirou o nome do local
No início da década de 50, um imigrante de origem polonesa – dono de uma enorme fazenda localizada na zona norte do Rio – decidiu vender ao poucos sua propriedade para pessoas que procuravam moradias a preços baixos naquela região. Alto, loiro, branco e com sotaque carregado, o homem passou a ser chamado de “alemão” pelos habitantes da localidade. O fato – em princípio corriqueiro e sem muita importância – acabou dando origem ao nome de uma das principais favelas do Rio: o Complexo do Alemão, erguido nos antigos domínios do polonês.
Histórias como essa – envolvendo imigrantes –, nomes indígenas e heranças do processo de industrialização pela qual passou a capital fluminense no início do século passado estão por trás dos nomes de algumas das mais de mil favelas existentes atualmente no Rio. “Todo mundo [com traços europeus] que falava uma língua estranha era chamado de ‘alemão’”, diz o historiador Milton Teixeira, especialista na história do Rio, sobre o complexo de favelas ocupado por forças militares em novembro do ano passado.
Perto dali, localizado às margens da Baía da Guanabara, o Complexo da Maré tem em seu nome lembranças das dificuldades que os primeiros moradores do local enfrentavam. A região onde hoje estão as comunidades que formam o complexo ficava em um grande pântano, com casas erguidas em cima de palafitas. Quando a maré subia, trazia consigo lama e cobras. Por outro lado, eles também usavam o fenômeno natural a seu favor: jogavam o lixo ali e esperavam a maré ficar cheia para levar os detritos.
Já um rio que nasce no Parque Nacional da Tijuca deu origem ao nome do bairro que corta – Jacaré – e à favela situada no local, Jacarezinho. O curso de água dá muitas voltas e, por isso, foi chamado de “yacarè”, termo indígena que quer dizer torto e sinuoso. Se nessa comunidade o animal não foi o responsável pelo nome, o mesmo não aconteceu no Morro dos Macacos. Segundo uma pesquisa feita pela Prefeitura do Rio, a região possuía muitas plantações de banana na década de 20 e muitos macacos do zoológico que ficava ao lado fugiam para lá.

Foto: Agência O GloboAmpliar
Vista aérea do Complexo da Maré
Industrialização
Conhecido por causa da escola de samba que carrega seu nome, o Morro do Salgueiro, na Tijuca, começou a ser ocupado no início do século 20 por ex-escravos e migrantes que tinham trabalhado em uma imensa plantação de café que havia anteriormente no local. Segundo pesquisa feita pela ONG Viva Rio, só na década de 20, a comunidade ganhou nome. Um comerciante português, chamado Domingos Alves Salgueiro, que tinha 30 barracos na favela virou, aos poucos, referência para quem ia à comunidade.
O processo de industrialização também deixou suas marcas nas favelas cariocas. O Morro do Borel, na Tijuca, herdou o sobrenome dos irmãos franceses que possuíam uma fábrica de rapé e tabaco localizada na subida da favela. Já o Morro da Mangueira, famoso pela escola de samba com as cores verde e rosa, ficou com o nome da Fábrica de Chapéus Mangueira, instalada na rua Visconde de Niterói, um dos acessos à comunidade.
A fábrica em questão “batizou” ainda outra favela, a homônima Chapéu-Mangueira, no Leme. “Havia ali um outdoor da fábrica, que, ao contrário do que alguns dizem, nunca foi instalada naquela região. Conheci pessoas que descreveram o outdoor. Segundo elas, mostrava duas pessoas usando os chapéus, que você podia dobrar e colocar no bolso”, conta Milton Teixeira.

Foto: Agência EstadoAmpliar
Vidigal está em um morro perto do mar
Religião
A Igreja Católica teve um papel importante no processo de surgimento de favelas na capital fluminense e, consequentemente, de seus nomes. A área onde está hoje a Rocinha era de propriedade de padres jesuítas – ordem responsável pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), vizinha à comunidade. Sensibilizados, os religiosos permitiram que pessoas humildes morassem no lugar, montando pequenas chácaras. O nome surgiu anos depois.
“Em 1920, quando o prefeito Carlos Sampaio criou as feiras livres, surgiu a feira da Gávea, na Praça Santos Dumont. Como a população não estava acostumada a comprar frutas, legumes e hortaliças nesses locais, as pessoas ficaram impressionadas com a qualidade e o frescor dos alimentos. Elas perguntavam de onde vinham os produtos e os vendedores respondiam: vem lá da minha rocinha. Ficou, então, o costume de chamar o Alto Gávea de Rocinha, muito antes da favela existir”, relata Teixeira.
A Igreja também foi determinante para o nome da Favela do Vidigal. O Mosteiro de São Bento era o dono do terreno onde está a comunidade e o doou, em 1820, ao major da polícia Miguel Antunes Vidigal como gratidão por serviços prestados. “O que aconteceu depois disso é incerto. A única coisa que se sabe é que ele morreu em 1850 e a favela surgiu em 1940, quase 100 anos depois. Constam nos registros que o major não teve filhos”, diz o historiador.

Foto: Agência EstadoAmpliar
Rocinha com o mar de São Conrado ao fundo
Há ainda a influência religiosa no nome da favela Santa Marta, chamada por alguns moradores de Dona Marta. No século 17, o padre Clemente Martins de Matos, tesoureiro da Sé do Rio, comprou as terras do atual bairro de Botafogo e colocou o nome da mãe no morro que limitava seu terreno.
A favela, no entanto, só teve seu início na década de 30, quando a área já pertencia aos padres jesuítas do Colégio Santo Inácio. Eles deixaram que operários que trabalhavam nas obras da instituição de ensino se instalassem no local.
A favela de Vigário Geral, onde até a década de 30 ficava uma grande fazenda dividida em vários povoados, seria uma referência ao padre responsável por celebrar missas em todas as paróquias da região, segundo uma pesquisa da ONG Viva Rio.
A Cidade de Deus surgiu de uma ideia de Dom Hélder Câmara para o então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, amigos que viraram inimigos confessos. O conjunto habitacional foi inicialmente construído para receber funcionários do antigo Estado da Guanabara, mas com as enchentes que atingiram o Rio em 1966, desabrigados pelas chuvas e moradores de favelas removidas foram levados para lá.
“O projeto religioso do local está presente em alguns logradouros, como a Praça da Bíblia e as ruas Moisés e Salomão”, conta José Baptista Ferreira de Mello, coordenador do projeto "Roteiros Geográficos do Rio", da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Foto: Agência O GloboAmpliar
Favela Santa Marta também é chamada Dona Marta
Origem
Se todas as favelas do Rio são chamadas hoje por esse termo, isso se deve ao Morro da Providência, considerada por muitos pesquisadores como a mais antiga do Rio – embora o fato seja contestado por outra corrente de historiadores. Ela foi fundada por ex-combatentes da Guerra de Canudos que vieram à capital fluminense em 1897 para receber o soldo e ali se instalaram.
Eles teriam chamado a comunidade de Favela em referência a um morro que ficava nas proximidades do Arraial de Canudos, usado como acampamento, e a um arbusto típico do sertão nordestino – Faveleiro – também encontrado no novo lar. O nome Providência só passou a ser usado a partir da década de 40 porque a capela da Divina Providência ficava no local.
“É importante ressaltar que até esse período o termo favela só era usado em referência ao Morro da Providência, inclusive na música. Em 1943, o cantor Herivelto Martins cantava: ‘Favela, Salgueiro, Mangueira, Estação Primeira, guardai os vossos pandeiros’. Ele citava os nomes das comunidades e não usava o termo se referindo a todas”, atenta José Baptista Ferreira de Mello. “Os soldados se instalaram nas encostas com restos de madeira, zinco, papelão e de latas de querosene. Esse cenário só era bonito na música porque, na verdade, era uma fornalha já que madeira e zinco armazenam calor”, avalia.
Para Milton Teixeira, mesmo com as dificuldades, antigamente os nomes tinham ligações com as histórias das comunidades. O que, para ele, não ocorre mais. “Os nomes das favelas mais atuais são tirados de modismos, como novelas. No Complexo da Maré, tem uma favela chamada Buraco da Lacraia. Não é nada eufônico e, sim, dissonante”, finaliza o historiador.
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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Descida ao Inferno


A resistência popular às internações hospitalares na cidade do Rio de Janeiro do século XIX

Márcio de Sousa Soares

Nos dias de hoje, quando alguém se sente mal ou se acidenta, costuma procurar um médico ou, dependendo da gravidade do caso, um hospital. Há um forte consenso de que os médicos são as pessoas mais indicadas para tratar dos doentes e que um hospital dispõe dos melhores recursos para prestar socorro aos enfermos em estado de saúde mais delicado. Mas nem sempre foi assim.

“Deixai toda esperança. Ó vós que entrais!”: estes versos, gravados na porta do inferno imaginado por Dante Alighieri em A Divina Comédia, exprimem perfeitamente a angústia que a perspectiva de uma internação hospitalar despertava entre as camadas populares cariocas no século XIX. A maioria dos hospitais existentes na cidade do Rio de Janeiro até meados do novecentos era formada por instituições de caridade dirigidas por religiosos.
Voltado para os pobres, o socorro hospitalar se destinava a acolher a população carente – deserdada de toda sorte. Na grande maioria das vezes, só se dirigiam espontaneamente a um hospital aqueles que não dispunham de um teto ou não podiam contar com o auxílio de parentes. Somente quando os doentes não tinham qualquer condição de conduzir o tratamento em suas próprias casas é que costumavam ser remetidos à força para os hospitais. Locais de isolamento e reclusão, os hospitais – como todos sabiam – não passavam de depósitos de infelizes em sua última escala antes da morte.
As classes mais altas, quando recorriam à assistência médica, faziam-no em suas próprias casas. Os pobres, por sua vez, em geral não simpatizavam muito com os médicos, nem possuíam os recursos necessários para pagar uma consulta domiciliar. Fatalmente, o contato com os médicos quase sempre ocorria, para desgosto do enfermo, num hospital. Malvistas e temidas pela maior parte da população da época, estas instituições eram o último lugar para onde os doentes desejavam ir.
Devido à presença das tropas portuguesas no Rio de Janeiro, o socorro aos doentes que não podiam contar com o auxílio de parentes tornou-se um problema para a Metrópole desde o início da colonização. Após uma longa viagem, muitos soldados já desembarcavam doentes ou então tombavam feridos. Por determinação da Coroa, eram conduzidos para as residências particulares e, posteriormente, para o hospital construído pela irmandade da Misericórdia.



Somente a partir do século XVIII é que outras irmandades e Ordens Terceiras abriram hospitais para atender a seus confrades. Em 1768, a Santa Casa passou a exigir o pagamento diário de quatrocentos réis por soldado internado. O conde de Azambuja, na época vice-rei, ordenou que se improvisasse um estabelecimento, que seria o primeiro Hospital Militar da cidade. Inicialmente situado no Morro de São Bento, o hospital foi transferido mais tarde para a sede do antigo Colégio dos Jesuítas, no Morro do Castelo.


No Ocidente cristão, pelo menos até meados do oitocentos, o acompanhamento da doença e da agonia que antecede a morte ainda não estava sob o poder da medicina. O tratamento das enfermidades era geralmente conduzido em casa pelos próprios parentes do doente. Por força do catolicismo, quase sempre quem estava à cabeceira de um moribundo era um padre. Mesmo se, porventura, um médico acompanhasse uma pessoa da doença até a morte, seu trabalho se restringia a ajudar o enfermo a se curar ou a morrer. Em uma época em que combater a morte era para muitos uma verdadeira blasfêmia contra as intenções de Deus, a função da medicina não podia assumir um caráter de luta contra a natureza. 


Fazia parte do imaginário coletivo da época que a doença e a hora mortis deviam ser vivenciados no interior das residências. Temia-se, acima de tudo, a morte súbita. A crença na necessidade da preparação para o bem morrer era muito difundida, o que significava o cumprimento de rituais religiosos para garantir a salvação da alma. Só assim o moribundo poderia deixar o mundo com a consciência tranqüila perante Deus e os homens. Causava horror a qualquer pessoa pensar em adoecer ou morrer longe dos parentes ou sem amparo religioso. A preferência, comum a todos os segmentos sociais, é bastante compreensível, considerando-se que, quando um indivíduo adoecia de uma moléstia mais grave, a probabilidade de que este viesse a falecer era muito grande.


Com a institucionalização da medicina acadêmica no Brasil, os hospitais assumiram aos poucos uma nova dimensão na prática e na consciência médica, em sintonia com a crescente onda cientificista que caracterizou o mundo ocidental ao longo do século XIX. Dispostos a transformar o que acreditavam ser um verdadeiro “caos urbano” – uma cidade “suja” e “doente” – em um espaço “civilizado”, os intelectuais que integravam a Academia Imperial de Medicina passaram a recomendar às autoridades públicas uma reordenação das instituições hospitalares existentes na Corte.



Na opinião médica, os hospitais deveriam ser reestruturados para garantir o isolamento dos enfermos. Na época, acreditava-se que certas substâncias que exalavam dos corpos doentes faziam daquelas instituições um foco de infecção ou de contágio. Para tentar conter a disseminação das doenças, passou-se a recomendar o trancamento das portas dos hospitais no intuito de isolar os enfermos. Assim, as instituições foram transformadas em verdadeiras prisões, o que só aumentou ainda mais a desconfiança e o pavor da população pobre.

Os membros da Academia Imperial de Medicina, que discutiam as condições de salubridade pública em suas reuniões e publicações, passaram a tachar de insalubres e impróprias não só as instalações hospitalares, mas também muitos hábitos da população que até aquele momento não haviam despertado maiores inquietações no que se refere à saúde pública. É, portanto, à luz dessa nova consciência que devem ser compreendidas as terríveis descrições contidas nos diversos relatórios elaborados pelas comissões médicas nomeadas para diagnosticar as condições de insalubridade da Corte.

A Santa Casa de Misericórdia era o maior hospital da cidade no século XIX, recebendo cerca de 4.500 doentes por ano, segundo uma estimativa feita em 1833. Mesmo assim, as pessoas mais pobres tentavam evitar ao máximo a internação, tamanho era o quadro de penúria reinante ali. 
Havia ainda o medo e a certeza de que dificilmente escapariam da morte – como atestavam os elevados índices de mortalidade ali verificados. Dependendo da enfermidade, o doente já sabia de antemão que suas chances de sobrevivência seriam muito pequenas. Este foi o caso das vítimas da explosão do vapor Especuladora, ocorrida em 1844. Do total de 42 feridos queimados no acidente, nada menos que 39 faleceram nas primeiras 48 horas após a entrada na Santa Casa. As possibilidades de saírem vivas dali também não eram nada promissoras para as pessoas internadas com tuberculose. Segundo um relatório médico da época, dos 1.225 tuberculosos recolhidos na Santa Casa entre 1839 e1841, nada menos do que 77,7% faleceram. O que mais espanta é que a grande maioria sucumbiu antes do primeiro mês de internação.

Segundo os médicos que atuavam na Misericórdia, a voracidade com que a tísica consumia os doentes era explicada pelo fato de que a maioria deles só era internada depois de esgotadas todas as tentativas não-hospitalares de cura. Ao avaliar o índice de mortalidade apresentado pelo resumo estatístico da Clínica de Cirurgia da Faculdade de Medicina relativo ao ano de 1844, o doutor Roberto Jorge Haddock Lobo comentou que “... é só no último recurso que os doentes, de ordinário dominados pelo horror que erroneamente lhes inspira o hospital, se determinam a recolher-se a essa Pia Casa, tarde e a más horas”.



Diante da dor, do isolamento e do receio de uma morte solitária, não é de se estranhar que a fuga de doentes dos hospitais fosse um fato corriqueiro, segundo as freqüentes denúncias feitas pelos médicos da época. O pavor inspirado pela Santa Casa era ainda mais acentuado pela expressiva quantidade de enterros diários que ocorriam no cemitério mantido pelo hospital. Reservado aos escravos e aos indigentes, o campo santo da Misericórdia sepultou no biênio 1838-1839 nada menos do que 3.194 pessoas! Não se pode deixar de sublinhar que números tão elevados alimentavam, e muito, a desconfiança dos cativos em relação aos médicos e aos hospitais. Levando em conta a opinião corrente sobre a relação entre doença e feitiço, a historiadora Mary Karash levantou a hipótese de que, para os africanos da cidade, a morte rápida no hospital poderia resultar da feitiçaria dos brancos contra sua gente. É bastante plausível supor que, entre a população escrava, os médicos pudessem ser identificados negativamente como “feiticeiros brancos”, sobretudo para os doentes recém-traficados, que, não raro, eram remetidos para a Santa Casa de Misericórdia, onde a grande maioria vinha a falecer.

Se nos casos de doenças endêmicas a possibilidade de ter que ir a um hospital despertava pavor nas pessoas, o que dizer das épocas dos grandes surtos epidêmicos de cólera e de febre amarela, quando os índices de internação e de mortalidade atingiram níveis até então nunca vistos? Os próprios médicos reconheciam que, além de padecer de sofrimentos físicos desumanos, os enfermos ainda tinham de enfrentar o desconforto das acomodações oferecidas pelas instituições e pelas enfermarias improvisadas na cidade. Nessas ocasiões, os hospitais geralmente ficavam abarrotados com pessoas que tombavam doentes pelas ruas ou com marinheiros em trânsito, recolhidos pelas Comissões de Polícia Médica, sendo internados independentemente ou contra sua própria vontade.

A voracidade com que as epidemias devoravam os adoentados reforçava a idéia do caráter súbito deste tipo de enfermidade. Dos vinte primeiros doentes de febre amarela tratados pelo doutor Roberto Lallemant, em 1850, nas enfermarias da Santa Casa de Misericórdia, quase todos morreram no prazo máximo de 48 horas após darem entrada no Hospital. O doutor José Pereira Rego era um dos que acreditavam na instantaneidade do ataque provocado pela cólera. Por ocasião do surto epidêmico ocorrido em 1855, o médico assegurava que pessoas saudáveis eram acometidas repentinamente pela doença e tombavam enfermas pelas ruas. Por conta dessa crença em seu caráter fulminante e da proporção tomada pela epidemia, notou que “o mal, apesar dos cuidados prodigalizados pelo governo, pela classe médica e pelos cidadãos encarregados de distribuir os socorros públicos, progredia em sua marcha destruidora, espalhando o terror e a consternação em todos os habitantes desta populosa cidade”.

No imaginário popular do século XIX, era bastante difundida a crença de que as doenças tinham uma natureza sobre-humana, e eram associadas, por exemplo, à feitiçaria, à ação de um “mau-olhado” ou como conseqüência de um pecado. Sendo assim, a cura dos enfermos dependeria, em última instância, da vontade de Deus, e não dos remédios, pois a enfermidade seria um castigo divino ou fruto das artimanhas do demônio. 



Muitas pessoas buscavam a proteção ou o restabelecimento da saúde por meio das mais variadas práticas mágico-religiosas. Estes procedimentos eram uma complexa combinação entre o auxílio espiritual e a aplicação de diversas mezinhas domésticas (remédios caseiros), sangrias, ou de alguns “remédios secretos” – fartamente anunciados nos jornais da época e que prometiam tudo curar. Freqüentemente, a cura era atribuída a talismãs, objetos de devoção, sacramentos ou a interferências divinas da Virgem Maria ou dos santos – como atesta o relato do viajante Thomas Ewbank sobre a enorme quantidade de ex-votos depositados nas igrejas da cidade.

Até meados do século XIX, os profissionais da medicina eram alvo de profunda desconfiança e de descrédito, posto que não gozavam de reconhecimento social suficiente para lhes assegurar o “monopólio da competência” na arte de curar. Afinal, no imaginário popular, as explicações para as origens das doenças e as possibilidades de cura passavam longe daquelas apresentadas pela ciência médica.

Em lugar dos médicos, a maioria das pessoas costumava recorrer aos saberes práticos e ao poder espiritual atribuídos àqueles que tradicionalmente se dedicavam à arte de curar. Barbeiros, parteiras, boticários, benzedores e os famosos cirurgiões negros: todos estes se encontravam distantes da formação acadêmica em Medicina, tendo sido quase sempre desqualificados pelos médicos como “curandeiros” ou “charlatões”. 

Apesar de todo o poder e a influência conquistados aos poucos pelos médicos ao longo da segunda metade do século XIX, a resistência dos segmentos populares às novas concepções e práticas ditadas pela medicina permanecia muito grande, adentrando as primeiras décadas da República. Para os médicos, o grande problema a ser resolvido era a “ignorância” dos doentes, que insistiam em adiar ao máximo a entrada ou em fugir dos hospitais. Mas, para os pobres, era a própria internação que representava uma grande probabilidade de apressar o encontro fatal com uma indesejada morte solitária.

Márcio de Sousa Soares é autor da dissertação “A Doença e a Cura: saberes médicos e cultura popular na corte imperial” pela Universidade Federal Fluminense, 1999, e doutor em História Social pela mesma universidade.
Revista de História da Biblioteca Nacional