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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

No tempo dos corsários e piratas



No tempo dos corsários e piratas
No século XVII, os piratas aterrorizavam os mares. Seu alvo principal eram os galeões espanhóis cheios de ouro do Novo Mundo. Foram instrumentos de uma luta entre nações.
Maria Inês Zanchetta

Em maio de 1701, quem percorresse as margens do rio Tâmisa, em Londres, depararia com um espetáculo macabro: cadáveres pendurados em estacas balançando com o movimento das águas. Eram corpos de piratas que tinham sido condenados a morrer na forca. A inusitada exposição destinava-se a chamar a atenção dos marinheiros para o que lhes aconteceria caso fossem capturados como piratas. A terrível advertência fazia parte dos esforços da Inglaterra em por fim à pirataria - cujo governo, por sinal, a estimulara cem anos antes - e assim tranqüilizar os comerciantes que viam seus negócios ameaçados pelos ladrões dos mares. Entre os desconhecidos corpos de marinheiros que pendiam em Londres naquela primavera do início do século XVIII, um ao menos era de um personagem importante: o capitão da marinha William Kidd, que em 1695 desertou com navio e tudo, tornando-se um dos mais célebres piratas da época.

Preso em Boston, na então colônia inglesa da América do Norte, o escocês Kidd foi julgado e executado em Londres. Na verdade, a pirataria não era propriamente uma novidade na Europa daqueles notáveis tempos de expansão econômica e marítima. Tão antiga quanto a própria história da navegação, a pirataria se fez presente desde os tempos antigos, passando pelo Egito e Grécia até o império romano. Depois, durante a Idade Média, teve nos vikings nórdicos seus mais ferozes praticantes. Além deles, também ingleses, franceses, holandeses, irlandeses e árabes dedicaram-se ao ofício pouco nobilitante de despojar de suas riquezas navios em alto-mar. Por representarem um transtorno à boa marcha dos negócios por via marítima, os piratas sempre estiveram sujeitos a severas punições.

Apesar disso, houve época em que a atividade chegou a ser estimulada por vários governos. No século XVI, os ingleses sentiam-se ameaçados pela Invencível Armada espanhola, montada graças ao ouro saqueado das Américas. Em 1567, com suas naus equipadas com o que havia de mais moderno em matéria de armas de fogo, a Espanha acabou por bloquear o tráfego comercial marítimo entre as Ilhas Britânicas e os Países Baixos. Para dar o troco aos espanhóis, a Inglaterra criou e manteve durante vinte anos uma verdadeira frota mercenária: os corsários, navegadores aos quais outorgavam cartas de corso (do latim cursus, viagem por mar). Tratava-se, na verdade, de autorizações para roubar: as cartas permitiam que eles abordassem os galeões espanhóis que traziam para a Europa as riquezas das colônias do Novo Mundo.

O cenário era o mar das Antilhas, na América Central. “A vantagem para os ingleses é que as frotas que levavam os tesouros espanhóis tinham data marcada para sair e rota conhecida, o que facilitava o trabalho dos piratas. Mesmo assim os combatentes eram ferozes, pois as frotas eram sempre escoltadas”, explica a historiadora Janice Theodoro da Silva, da USP, especializada em América colonial. “O investimento que a Inglaterra fazia na pirataria tinha retorno certo”, avalia a historiadora. “Embora as despesas fossem enormes, o butim era compensador”. A rigor, a Inglaterra não era a única nação cujo comércio exterior se ressentia da presença espanhola nos mares - e por isso recorria aos corsários. A França, por exemplo, também se valia dessa arma.

A diferença é que a Inglaterra soube utilizá-la como ninguém, até porque alguns dos mais célebres piratas eram súditos de Sua Majestade Britânica. O melhor exemplo disso foi o audacioso Francis Drake, que entre 1577 e 1580, com o apoio da rainha Elizabeth I, realizou uma viagem de circunavegação do mundo em seu navio The Golden Hind, passando pelo estreito de Magalhães, que liga no sul da América o Atlântico ao Pacífico. Já que estava mesmo por ali, aproveitou para saquear a costa do Pacífico e capturar o ouro, a prata e as pedras preciosas dos galeões espanhóis. Ao regressar à Inglaterra, foi recebido com todas as honras pela rainha e condecorado com o título de sir.

O suporte da coroa britânica à pirataria enfureceu de tal forma o rei Felipe II da Espanha que acabou declarando guerra aos ingleses. Foi uma decisão que mudou o curso da história européia. Pois em 1588, há quatrocentos anos, a Invencível Armada, com seus 133 navios, foi destroçada - e essa foi uma das causas do declínio político e econômico da Espanha no mundo e da ascensão da Inglaterra. Corsários, flibusteiros, bucaneiros ou pura e simplesmente piratas, financiados por governos ou por ricos comerciantes, tinham sempre um único objetivo, como, aliás, todo ladrão que se preze, em alto-mar ou terra firme: fazer fortuna pilhando a fortuna alheia. No entanto, como em tudo na vida, nem sempre eram bem-sucedidos.

Qualquer marinheiro que embarcasse num navio pirata sabia, por exemplo, que sem presa não haveria paga. Por isso, era uma gente disposta a tudo. Quando o capitão do navio finalmente conseguia arrebanhar a tripulação de que precisava para zarpar, estabelecia as regras para a divisão do produto do saque. Os interessados ficavam então sabendo que, terminada a pilhagem, as mercadorias seriam vendidas; calculado seu valor total, deduziam-se as despesas de viagem (um terço era pago a quem havia financiado o, digamos, empreendimento) e o restante era repartido. Ao capitão, naturalmente, cabia a parte do tubarão - algo como um terço do produto do saque; os marinheiros de primeira viagem ficavam com os trocados.

Mas, veterano ou novato, o marinheiro que primeiro gritasse “vela à vista” receberia 100 moedas. Se houvesse combates e algum marinheiro saísse mutilado, seria indenizado: quem perdesse um olho ou um braço recebia 600 moedas; a perda de um dedo (do pé ou da mão) era recompensada com 100 moedas. Tais obrigações deviam ser cumpridas à risca pelo capitão; em contrapartida exigia-se que os marinheiros não se acovardassem nem se embriagassem na iminência de uma abordagem - o que, apesar de tudo, era comum. Para saber se um marinheiro estava ou não bêbado, submetia-se o suspeito à prova de andar em linha reta - e não se admitia culpar o balanço do mar pelos ziguezagues.

Os piratas embarcavam nessa vida movidos pela ganância, mas suportavam o dia-a-dia a bordo movidos a álcool, rum de preferência. Conta-se até que certa vez uma navio de piratas demorou três dias para capturar um galeão por falta de homens sóbrios. Mas havia ocasiões em que era permitido festejar e beber até cair. Isso acontecia quando os navios atravessavam determinados marcos geográficos como o estreito da Flórida (que separa o mar das Antilhas do golfo do México) ou a linha do equador (marco imaginário que divide o hemisfério norte do hemisfério sul). Então um dos piratas se vestia de rei e, acompanhado de sua corte, todos vestidos de forma espalhafatosa, batizava os que nunca haviam cruzado a fronteira. O batismo variava desde o afogamento simulado num barril até um passeio sobre uma tábua suspensa na proa e então mergulhada na água, uma, duas, três vezes. Depois, os calouros que resistissem a essa verdadeira tortura recebiam um apelido que lhes dava a tripulação. A cerimônia, por assim dizer, terminava com uma batalha de água que se espalhava pelo navio e geralmente com homéricos porres. Esse costume talvez tenha dado origem às festas que os navios de passageiros promovem até hoje para comemorar a travessia do equador.

Mas a vida no mar nas regiões tropicais estava longe das lendas que a literatura e o cinema se encarregariam de difundir. As ilhas onde os piratas aportavam podiam ser ensolaradas, com praias cobertas de palmeiras e cachoeiras de águas límpidas. Mas, apesar do cenário paradisíaco, os ladrões do mar costumavam padecer - e muitas vezes morriam - de tudo quanto fosse doença. Como nem sempre as provisões que levavam eram suficientes para a incerta vida marítima - as tempestades, por exemplo, podiam tirar os navios da rota -, os piratas acabavam a pão e água (ou nem isso) até chegar a um porto seguro onde pudessem reabastecer os navios. Freqüentemente, a comida não só era pouca mas inadequada. A falta de vitamina C, por exemplo fazia o marinheiro morrer de escorbuto, doença que se caracteriza por provocar fortes hemorragias. Trechos de um depoimento deixado por um pirata anônimo, citado pelo historiador Edward Ritchie, da Universidade da Califórnia, dá uma idéia do que podia ser a vida de pirata:

“Muitas são as misérias que os marinheiros enfrentam quando adoecem, sendo poucos os meios de se reconfortarem, pois então não podem buscar a carne e a bebida que acham que lhes farão bem (...) E, quando o marinheiro morre, é ‘enterrado’ rapidamente, poupando aos amigos e conhecidos o trabalho de ir à igreja e mandar dobrar os sinos (...) Em lugar disso eles apenas o costuram num cobertor velho ou num pedaço de lona, amarram em seus pés duas ou três balas de canhão e o lançam ao mar”. Havia ainda problemas mais prosaicos. Por exemplo, o constante contato com a água salgada decompunha as roupas rapidamente e os piratas se viam obrigados a usar as sedas e brocados que haviam pilhado - e que não eram propriamente os trajes mais adequados para o clima e o serviço.

Não espanta assim que, se a primeira ambição de um pirata fosse enriquecer, a segunda era voltar para casa o quanto antes. Em casa, alguns piratas bem-sucedidos, tinham prêmios adicionais à espera. Além de Sir Francis Drake, houve o caso do inglês Henry Morgan. No comando de uma frota que chegou a ter 36 navios, ele percorreu o mar das Antilhas durante dezessete anos. Mas em 1672 foi preso e reconduzido à Inglaterra. Ali, no entanto, foi feito cavaleiro e ainda por cima nomeado governador da Jamaica - com a incumbência de reprimir a atividade de seus ex-companheiros. Morgan morreu em 1688, aos 53 anos, em santa paz e cercado de todas as homenagens.

Foi por essa época, no final do século XVII, que as colônias inglesas, francesas e holandesas nas Antilhas começaram a atrair aventureiros de todo tipo. Como não tinham terras e a economia colonial girava em torno de plantações que utilizavam mão-de-obra escrava, esses forasteiros acabaram confinados a alguns povoados. Por força do isolamento, organizaram-se em confrarias para tentar a sorte no mar, dedicando-se também à pirataria. Como algumas dessas colônias eram pobres, seus governadores, sem meios de combater os piratas, não tinham outra saída senão aliar-se a eles. Por isso, alguns portos antilhanos, como Port Royal, Anguila e a ilha de Tortuga, transformaram-se em célebres esconderijos de piratas.

Tanto nos povoados que freqüentavam quanto nos seus navios, as regras eram informais. Num livro sobre pirataria, tema que fascinou o inglês Daniel Defoe (1660-1731), autor do clássico romance Robinson Crusoé, narra que, muitas vezes, os piratas elegiam democraticamente seus capitães. Eles também acabaram substituindo a tradicional bandeira vermelha sem emblema, a marca registrada dos navios corsários, pelo pano negro estampado com a caveira e os ossos cruzados. Os ladrões do mar, entretanto, já estavam com os dias contados.

No início do século XVIII, já estabelecida como a nação mais rica e poderosa do mundo, a Inglaterra dispensou definitivamente os serviços dos piratas - e declarou aberta a temporada de caça à pirataria. Assim o governo britânico cumpria com algum atraso o compromisso assinado em 1670, no Tratado de Madri. A primeira lei inglesa instituindo tribunais especiais para julgar os piratas capturados data de 1700. Foi graças a essa lei que o capitão William Kidd acabou executado e teve seu corpo exposto em Londres em 1701. Dezessete anos depois, chegou a vez de outro pirata famoso, Edward Teach, o Barba Negra, que assolava as colônias inglesas da costa sudeste da América do Norte. Ele costumava buscar refúgio em Charleston, na Carolina do Sul, mas os habitantes do lugar acabariam criando coragem e trataram de dar cabo de tão perniciosa figura. Assim, Barba Negra terminou seus dias linchado. Os corsários saíam da história para virar lenda.
Revista Superinteressante

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O pirata do Caribe


O pirata do Caribe
Com o aval da coroa britânica, o pirata Henry Morgan devastava sem dó. Um grande predador da região caribenha que acabou sendo chamado de herói
por Texto Fabio Marton
Em 4 de abril de 1672, Henry Morgan, o “Rei de Todos os Piratas”, devia estar pensando que teria o mesmo fim de qualquer bucaneiro chinfrim que não havia acabado no fundo do mar: a forca. Deportado para Londres, Morgan, então com 37 anos, era acusado de fazer o mesmo que havia feito a vida inteira: assaltar cidades, levando ouro, açúcar e escravos – estupros e torturas por cortesia. E talvez o que mais o ofendesse fosse ser chamado de pirata: Morgan era um corsário autorizado pelo governo a atacar os inimigos. Fazia o mesmo que qualquer pirata faz. O que o capitão não sabia é que, durante seu ataque ao Panamá, em 1670, Inglaterra e Espanha tinham acabado de assinar um acordo de paz – o que o tornava, aos olhos do rei Charles 2º, um pirata.

Nascido em 1635, no País de Gales, Morgan foi recrutado em Bristol, Inglaterra, em 1654. No mesmo ano, participava da infeliz expedição do general Venables, que queria conquistar a cidade espanhola de Santo Domingo (atual Haiti). Tomou uma surra e acabou ganhando do rei como prêmio de consolação a miserável Jamaica, em 1655.

Miserável porque não havia ouro, nem cana, nem escravos (riquezas da época). Por isso, a Inglaterra passou a usar o país como base de ataques corsários a cidades e navios espanhóis.

Foi aí que Morgan iniciou uma carreira de invasões, com táticas como as empregadas em 1668 no saque de Puerto Bello (Panamá), onde usou padres e freiras como escudos humanos. Ou em 1669, em Maracaibo (Venezuela), quando afundou um e pôs para correr dois navios de guerra espanhóis muito mais bem armados que os dele. Morgan encheu um cargueiro velho com explosivos e vestiu bonecos de palha para simular a tripulação, enviando o “alvo fácil” em direção ao inimigo.

Após dois anos na cadeia, Morgan foi estratégico: acabou convencendo o rei de que não fazia a menor idéia do tal tratado de paz e, mais que isso, que talvez não fosse lá uma grande idéia ficar em paz com a Espanha. Deu certo. O corsário não apenas foi solto como, no Natal de 1675, foi nomeado “sir” pelo rei Charles 2º e reenviado à Jamaica para assumir o papel de governador. O mais irônico de tudo isso é que sua principal função era combater piratas. Acabou perdendo o cargo em 1681, e passou a se dedicar a suas fazendas de açúcar, compradas ao longo do tempo com o dinheiro das pilhagens. Fazendas de açúcar que viviam, evidentemente, de escravos e desmatamento.

Gordo e podre de rico, Morgan morreu de um inchaço intestinal causado por excesso de comida e bebida, em 1688. E foi enterrado como um herói.

Grandes momentos
• Captain Morgan é a marca de um rum feito na Jamaica, e, em suas 6 variedades, é o 7º destilado mais vendido no mundo.

• O escritor francês Alexandre Exquemelin (1645-1707) esteve na tripulação de Morgan e escreveu História dos Buncaneiros da América, um relato das aventuras de Morgan e outros piratas.

• Morgan se casou com a própria prima, em 1665, mas não teve filhos.

• No filme Piratas do Caribe 3, há um certo “código” que teria sido escrito por Morgan e Bartholomew, outro pirata da época.

Revista Superinteressante

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Pirataria versão 2.0


Pirataria versão 2.0
Somália resgata uma prática que ficou desaparecida por dois séculos
por Ernani Fagundes
Equipado com aparelhos de GPS, fuzis e lançadores de mísseis, um grupo de marinheiros africanos protagonizou o maior ataque já registrado contra um navio. Foi ousado e bem-sucedido: após dois meses de sequestro, o petroleiro Sirius Star foi devolvido mediante o pagamento de 3,5 milhões de dólares. A ação deixou claro que os piratas profissionais estão de volta.

Houve uma época, do século 16 até o 18, em que os bucaneiros funcionavam como marinhas informais, liberadas pelos reis para agir sem respeitar regras. A partir do século 19, o controle de portos melhorou e garantiu uma vigilância mais eficiente.

Esse quadro mudou nos últimos anos, quando os piratas ressurgiram em um dos países mais pobres (e bem posicionados) do mundo. Localizada no golfo de Aden, que liga o oceano Índico ao mar Vermelho, a Somália vive em guerra civil há 18 anos. Instalados nessa terra arrasada, em 2008 os novos bandidos do mar atacaram 100 navios e arrecadaram 150 milhões de dólares.

Inicialmente, os bucaneiros eram simples pescadores do vilarejo de Ely, que atacavam grandes navios estrangeiros que atuavam ilegalmente na costa da África. Com o tempo, esses jovens, que em geral têm entre 20 e 35 anos, começaram a pedir resgates. A renda fácil atraiu outros somalis. Juntos, eles já somam 2 mil pessoas, bem mais sérias e violentas que o bonachão Jack Sparrow, o famoso personagem do ator Johnny Depp na trilogia cinematográfica Piratas do Caribe.

Saques no mar
Os piratas atuam há mais de 3400 anos

1400 a.c.
Bucaneiros gregos atacam os navios de comércio fenícios. Depois, os alvos preferenciais passam a ser os romanos.

Século 2
O mar da China fica congestionado com navios que querem roubar as cargas de especiarias e de seda.

Século 9
Árabes sarracenos agem no mar Mediterrâneo, em especial nas costas da Sicília, do sul da Itália e da Espanha.

Século 16
Apoiados por seus reis, ingleses, franceses e holandeses saqueiam navios espanhóis e portugueses.

2008
Usando tecnologia e armamento pesado, os piratas ressurgem como sequestradores de embarcações.

Revista Aventuras na História

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Dossiê: Povos do mar - Bandidos nada simpáticos

A literatura celebra os piratas desde a Antigüidade. Não é raro encontrarmos, em romances e poemas, piratas transformados em modelo de coragem. Mas a realidade é mais crua. Os saqueadores dos mares não eram coroinhas. Eram, sobretudo, ladrões sem fé e sem lei, que os Estados procuravam eliminar... quando não os recrutavam
por Michel Vergé-Franceschi

©GIRAUDON/KEYSTOCK – KEYSTONE

A mais tradicional maneira de executar os inimigos era obrigá-los a andar, com os olhos vedados, sobre uma prancha até cair no mar. Walking the plank, óleo sobre tela, de Howard Pyle, 1887

Na região do Caribe dos séculos XVI-XVIII, o flibusteiro era um pirata, um irmão da costa, um saqueador dos mares, produto de um conglomerado humano cosmopolita. Voltaire, em seu ensaio “Essai sur les moeurs”, escreve: A França só entrou nessa partilha [de Santo Domingo] com a Espanha pela audácia [...] de um povo novo que o acaso compôs de ingleses, bretões e, sobretudo, normandos. Eles foram denominados bucaneiros, flibusteiros. Esses marinheiros, revoltosos e desertores, seduzidos pelo clima das Antilhas, decidiram expulsar os bandos selvagens da parte norte de Santo Domingo, em vez de voltar às brumas do norte. Eles passaram a comer carne assada em fogo de lenha, cantando ao redor do fogo, e fazendo barulho à maneira dos caribenhos, isto é, fazendo boucan (barulho). No fim da primavera, os flibusteiros do mar das Antilhas caçavam os galeões espanhóis carregados de ouro e prata. A bordo de navios pequenos e rápidos, armados com poucos canhões lançadores de pedras, esperavam suas presas fumando tabaco. De surpresa, faziam a abordagem, geralmente em pares de amigos íntimos, donde veio o nome irmãos da costa. A arma branca era a preferida, a se acreditar na imagem do pirata com a faca entre os dentes. O canhão era supérfluo. Em 1696, um flibusteiro confiou ao padre Labat, um missionário francês que reuniu suas observações sobre a vida dos bucaneiros em Voyage aux îles de l’Amérique, que sua artilharia de seis minúsculos canhões era mais por cerimônia que por necessidade, já que eles só empregavam as duas peças de caça quando combatiam um barco pela frente ou por trás; seus fuzis bastavam para importunar o adversário até que seu capitão julgasse conveniente fazer a abordagem.

A tática do pirata do mar das Antilhas se resumia a uma única palavra: abordagem. O êxito dependia da determinação, ou melhor, da temeridade dos homens do navio. Numerosos, eles manejavam o sabre de abordagem e o punhal. Combatiam aos pares, porque sempre se juntavam em duplas e se chamavam, um ao outro, de matelot [marinheiros], sendo mattenoot aquele que compartilhava alternadamente a mesma rede que seu irmão. Vitoriosos, esses celibatários sem família faziam a festa, embebedavam-se à vontade de rum da Jamaica e partilhavam amigavelmente as mulheres indígenas ou pilhadas.


©BETTMANN/CORBIS – STOCK PHOTOS

Saque a galeão espanhol (nanquim). Sem butim, sem soldo: este era o lema do navio pirata

A pirataria é uma mitologia composta de ganhos espetaculares, de liberdade absoluta em locais insulares e encantadores. Por isso a perenidade da pirataria ou, melhor, das piratarias ao longo das eras, porque cada época engendrou seus candidatos a piratas: marinheiros e revoltosos, clandestinos e renegados, apátridas e flibusteiros, marginais e rebeldes. O fato de o pirata travar uma guerrilha sangrenta era quase ignorado. Embora a literatura celebre a pirataria desde a Antigüidade romana – o pirata é um dos personagens dos romances da época imperial: erigido, muitas vezes, em modelo, uma espécie de Robin Hood do mar, ele era mais facilmente encontrado nos livros de aventura do que na realidade. O pirata era uma pessoa má, um bandido, um marginal associado por razões pouco confessáveis a outros marginais – indisciplina, deserção, motim, crime, assassinato, rapina, a avidez de ganho. Com os outros marginais, formava uma sociedade, cuja hierarquia repousava na força, qualidade reconhecida por todos, por ser a única fonte do butim. Ele era astuto, feroz e carregava a inteligência do mal. Entretanto, essa sociedade, como os bandos e o meio social, possuía regras próprias, disciplina interna, chefe (como Olonnais, Morgan, Grammont) reconhecido por sua coragem, intrepidez e faro. O chefe era temido por sua ferocidade, e respeitado por seu senso de justiça, porque sabia repartir eqüitativamente as presas (Labat). Tudo isso em teoria, naturalmente, porque são numerosos os exemplos discordantes. Foi o que aconteceu depois do saque do Panamá. Os flibusteiros ficaram literalmente a ver navios quando Morgan fugiu com a maior parte do butim. Sem nenhum escrúpulo ou constrangimento, Morgan abandonou seus homens sem víveres e sem navio!

As mulheres faziam parte do butim conforme revela Oexmelin, cirurgião dos flibusteiros, autor de uma Histoire des aventuriers et des boucaniers d’Amérique (1686): Quando dois bucaneiros encontram uma bela mulher, para evitar a disputa decidem quem casará com ela lançando uma moeda. Casará aquele que for favorecido pela sorte, mas seu camarada era recebido na casa: a isso se chamava a matelotage... Outro costume: o sobrevivente dos dois era o herdeiro de fato de seu companheiro. O capitão e seus homens firmavam um contrato ou chasse-partie, no qual tudo era previsto para a duração de uma campanha: cada homem levava seus víveres, suas armas, suas munições. O soldo de cada mercenário saía do butim. Sem butim, sem soldo. O capitão retinha uma parte para amortizar as despesas do navio, além do soldo do carpinteiro (100 a 150 piastras) e do cirurgião (200 a 250 piastras), e recebia até seis vezes a parte de um marinheiro (a piastra era uma antiga moeda de prata, de valor variável de acordo com o país e a época). O imediato tinha direito a duas partes. O marinheiro a apenas uma. O grumete, a meia. Os feridos e estropiados recebiam 600 piastras pelo braço direito; 500 pelo esquerdo ou a perna direita; 400 pela esquerda; 100 por um olho ou um dedo. Ao final da campanha, cada membro da tripulação ganhava a liberdade levando sua parte. Naquele momento, cessava a autoridade do capitão.

©BETTMANN/CORBIS – STOCK PHOTOS

Sem dó nem piedade: o estupro das mulheres dos inimigos estava incluído no butim


O pirata, seja qual for a época considerada, o teatro de operações escolhido ou o butim alcançado, era um bandido voraz. Ele atacava outro navio no mar, se possível ricamente carregado, que pilhava depois de eliminar a tripulação, vencida pela abordagem e morta, porque não havia quartel. Nessa característica, o pirata se parecia com os ladrões de estrada, que assaltavam carruagens e diligências em terra. Em outros casos, o bucaneiro desembarcava numa terra ocupada, transformando, então, a imagem clássica do pirata dos mares em outra, a de bárbaro ou de barba-ruiva. No primeiro caso, trata-se do frisão (natural da Frísia, região que hoje faz parte dos Países Baixos) que arrasava as costas do mar do Norte e do Canal da Mancha; do bárbaro que pilhava as costas do mar Negro e devastava o Egeu; do franco embarcado nas costas do Ponto Euxino (antigo nome do mar Negro) para devastar as da Sicília e da África. O barbaresco, vindo da África do Norte, arrasava os grupos nas costas cristãs da Provença e do Languedoc (na antiga França) ou da península italiana. O flibusteiro das Antilhas evoluiu muitas vezes para esse tipo de pirataria quando, em vez de atacar navios, passou a atacar as ricas cidades hispano-americanas: Vera Cruz e Campeche (no México), Panamá, Cartagena-das-Índias (Colômbia).

Emboscadas perfeitas

Os piratas faziam o reconhecimento da costa na proximidade de um estreito, numa rota marítima freqüentada. Tendo necessidade de uma base logística – água potável, víveres, madeira para lenha e reparos navais, minicanteiro de reparos ou construção –, davam preferência às ilhas. Situadas em encruzilhadas, a ilhas permitiam vigiar as rotas marítimas. Os piratas gostavam de ficar ao largo da Citera antiga (ilha grega do mar Egeu, entre o Peloponeso e Creta, também conhecida como Cérigo), da Sicília, da Sardenha, das Baleares ou da Córsega. Malta, Creta, Tinos foram ninhos de piratas. Os Grimaldi enriqueceram como piratas a partir de seu rochedo em Mônaco. (Os Grimaldi constituíam uma antiga família nobre de Gênova, à qual pertenciam, até 1733, os príncipes de Mônaco. Nessa época, foram substituídos. Em 1949, os Grimaldi voltaram ao trono de Mônaco com Rainier III.) O mesmo aconteceu no Atlântico, onde os flibusteiros se baseavam na ilha La Tortue, na costa do Haiti, onde se situava a cidade e o porto de Caiena.

Em La Tortue, a principal base pirata nas Antilhas durante o século XVIII, os bucaneiros esperavam o navio mercante que passava, isolado ou em comboio, com guarda ou desprotegido, e se lançavam sobre a presa com um navio veloz: hemolia, dos gregos; lemboi, dos bucaneiros da Ilíria (região balcânica próxima ao Adriático), bergatins (escuna de velas quadradas de dois mastros) dos barbarescos, flibots (pequena embarcação com dois mastros, com fundo chato) dos flibusteiros. Na ponta do mastro, um crânio e duas tíbias embranquecidas pelo sol se destacavam sobre um pavilhão negro ondulando ao vento. Todos os navios-piratas se pareciam: lastro leve e velocidade aumentada pelos cascos untados com sebo para diminuir a resistência da água. Pequenas, rápidas, fáceis de manobrar, repletas de homens e munidas de pouca artilharia, essas embarcações precisavam correr os mares para alcançar suas presas, ultrapassá-las e forçá-las a parar. Uma vez pilhado o adversário, era preciso repartir depressa o butim e procurar refúgio em águas inacessíveis para os grandes navios oficiais, no meio de recifes, de rochedos e em locais de grande profundidade.


©PALÁCIO DE VERSALHES, FRANÇA

“Mary Tudor, rainha da Inglaterra”. Pirataria de Estado caracterizou a dinastia dos Tudor


O pirata era, sobretudo, aquele que perseguia e atacava qualquer navio no mar, sem nenhuma consideração por pavilhão. Para o flibusteiro, não existiam amigos ou aliados. Assim pensava o velho Abraham Duquesne (1570–1635), pirata normando que capturava navios mercantes bretões sob pretexto de serem estrangeiros. Richelieu teve a maior dificuldade de se fazer obedecer por esse mundo tão matizado do mar, tão distante das leis e das regras de terra.

O pirata era um perigo para todos aqueles que cruzavam seu caminho – foram responsáveis pelo nascimento do seguro marítimo –, mas era também um perigo para a civilização, porque se colocava fora da norma. Sem pertencer a um Estado ou a uma estrutura, o pirata era, enfim, o único homem livre das sociedades pré-revolucionárias. Políticos de todos os tempos combateram esses marginais armados, perigosos para os marinheiros, perigosos para os Estados, perigosos para as trocas, para os comércios longínquos e para o grande negócio marítimo. Corinto moveu guerra aos piratas. Pompéia também, assim como Luís XIV, mais tarde, no Mediterrâneo, porque no Atlântico, o Très Chrétien se aliou aos flibusteiros para atacar o rico entreposto espanhol de Cartagena-das-Índias em 1697. Os Estados tiveram, enfim, uma atitude excessivamente ambígua para com os piratas: em época de paz, quiseram erradicar a pirataria e comerciar livremente, assegurando a liberdade dos mares; mas, se viesse a guerra, procuravam seduzir os excelentes soldados que mantinham tal ou qual base de apoio (Santo Domingo ou a Ilha de la Tortue). Essas bases eram, então, cedidas aos piratas e, com isso, a pirataria está na origem de numerosas colônias inglesas e francesas na região do Caribe.

Pirataria de Estado

Uma das principais causas do desenvolvimento das frotas de guerra permanentes dos Estados, quaisquer que fossem, foi a eliminação da pirataria. Tucídides fala de expedições atenienses contra ninhos de bucaneiros. Plutarco evoca a luta contra os dolopes (antigos habitantes da Tessália) que se tornaram corsários por falta de recursos agrícolas. Otaviano lutou ferozmente contra os ilirianos em 35 da nossa era. Rodes chegou a criar um tipo de embarcação especial para dar combate aos piratas, a trihemolia, mais rápida que a trirreme (galera grega com três fileiras de remadores sobrepostos), e Luis XIV mandou construir galeotas (pequena galé movida a remos e a vela) com bombas específicas, em 1678, para bombardear Argel e Trípoli. A hansa (associação comercial da Idade Média) jamais se cansou de tentar libertar o mar Báltico e o mar do Norte de toda pirataria desde 1168.

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O corsário francês Jean Bart comanda ataque a um navio flibusteiro inglês. Tanto a Inglaterra como a França incentivavam a “guerra de corsos”. Gravura de Morel-Fatio. Séc. XIX. Museu Naval do Louvre

A pirataria não foi, pois, um tema de romance. Foi um caso militar, que exigiu despesas dos Estados para combatê-la. Ela exigia uma resposta: navios, guerras, leis. Todos os litorais, todas as ilhas, foram obrigados a fazer pesados sacrifícios financeiros para construir fortins e torres (na Córsega), para pagar torregiani (os guardas de torres) e organizar milícias. É verdade que a pirataria foi um reflexo da fraqueza dos Estados, mas também pôde se tornar – fato menos conhecido – pirataria de Estado. Foi assentada na pirataria que a Inglaterra dos Tudor fundou seu poderio, a partir do século XVI, atacando os ricos galeões espanhóis nas costas americanas. Foi atacando navios franceses, em plena paz, que os ingleses asseguraram a vitória na Guerra dos Sete Anos (1756-1763), privando a armada francesa dos marinheiros capturados em mais de 250 navios mercantes desde 1755. Entre 1740 e 1744, franceses e ingleses já haviam começado as hostilidades. Antes da guerra, portanto, que foi declarada apenas em 15 de março de 1744. Feito prisioneiro nessas condições, em 11 de novembro de 1755, no golfo da Gasconha, o visconde Joubert de Bouville, bisneto de
Demarets e da irmã de Colbert, recusouse a ser libertado pelos ingleses na qualidade de prisioneiro de guerra, e preferiu pagar seu resgate!

A pirataria é um tema difícil, tratado muitas vezes como mera epopéia caribenha. O pirata viril e bronzeado, de camisa rasgada, olho de vidro e perna de pau, com o sabre de abordagem na mão, de pé diante dos cofres de ouro e pedrarias, é quase inteiramente uma imagem de Epinal.

A pirataria não tem idade de ouro, nem idade simplesmente: é um fenômeno inscrito nos tempos. Se os habitantes da Etólia, na Grécia antiga, fizeram dela um instrumento de política exterior, chegando a firmar tratados de garantias contra suas próprias ações mediante indenizações com suas futuras presas, a pirataria existe ainda hoje. Está presente nos mares da China, e a espoliação fraudulenta de companhias de seguro continua sendo praticada sob o nome de “barataria”, um tipo de pirataria, pois a carga é roubada, o navio destruído, rebatizado ou escamoteado, e o prêmio do seguro recebido!


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Piratas avaliam o resultado obtido em pilhagem, logo após o saque

Todo aquele que acumulasse muitas capturas e butins tornava-se herói rapidamente aos olhos de seus camaradas; aos olhos das pessoas honestas, um terror. Desses heróis aterrorizantes, as fontes medievais conservaram os nomes, ou melhor, as façanhas: Henri le Pêcheur, conde de Malta em 1218; Benedetto Zaccaria, pirata, comerciante e, depois, almirante genovês; Roger de Lauria, pirata aragonês que saqueou o litoral do Languedoc à Sicília no século XIII; Roger de Flor, templário catalão, almirante da Sicília, que devastou o Egeu no século XIV.

Nobliarquia

A época moderna, dos séculos XVI a XVIII atlânticos, não teve, porém, o monopólio da pirataria. O pirata das plagas caribenhas do período elisabetano ou colbertiano não era um homem novo: era herdeiro de uma multidão de aventureiros, produto dos invasores de antanho, porque toda invasão (normanda, saxônia ou sarracena) já fora uma empresa de pirataria. Como ocorrera antes, a época moderna procurou se defender do pirata, fosse armando com canhões seus navios mercantes, fosse escoltando-os com navios de guerra. Por conta dos piratas, o direito internacional foi endurecido, e todo capitão que conseguisse capturar corsários no mar tinha o direito de enforcá-los no ato, na verga mais alta do navio apresado. Mas quando as nações se tornaram piratas, como a Inglaterra de Elizabeth I, os sucessos obtidos sobre os galeões espanhóis pelos Drakes e Raleighs foram tais que já não se podia limitar a pirataria à noção de empresa privada.

A pirataria de Estado caracterizou a Inglaterra dos Tudor, que associava capitais públicos a capitais privados para apresar sua parte dos metais preciosos na rota transatlântica do império espanhol.


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A conquista do navio inglês Kent por Robert Surcouf (7/10/1800), óleo sobre tela. C. de1850, de Louis-Ambroise Garneray (1783-1857)

Entre 1560 e 1620, da morte de Maria Tudor (1558) à de Elisabeth (1603), essa pirataria conheceu um de seus períodos de glória e de lucro. Nos anos 1550-1570, franceses e, sobretudo, ingleses se atiraram sobre o comércio espanhol, prejudicando suas rotas e limitando seus lucros, mas a porcentagem de perdas resultantes disso não foi comparável às causadas pelas tempestades. O impacto foi mais psicológico do que econômico, ainda que Dürer tenha se demorado em Anvers apreciando os tesouros saqueados por franceses de um navio espanhol que transportava uma parte dos tesouros do imperador asteca Montezuma.

Como essa pirataria parecia mais lucrativa do que na realidade, as grandes potências não pararam de engajar esses guerreiros dos mares para transforma-los em corsários. Foi o caso dos marinheiros de Dieppe, de La Rochelle, de Saint Malo, mas também de Argel, de Túnis, de Trípoli, de Salé, pilares de regências magrebinas. São comuns as objeções, injustas, aos marinheiros, e a sua classificação arbitrária em três categorias: os piratas, os corsários, os oficiais de marinha. Nada é mais falso: o pirata era certamente um bandido, mas tão logo o rei reconhecia suas competências, o admitia ao seu serviço, concedia-lhe autorização para perseguir o inimigo – eis, então, o nosso pirata transformado em corsário. Se o antigo bandido usando o mesmo sabre de abordagem obtivesse êxito em sua nova carreira de corsário, era promovido a capitão dos navios do rei, como Abraham Duquesne, o Velho, pirata temível, corsário talentoso e, depois, respeitável oficial de Luis XIII! Ao longo da vida, Ducasse, nascido huguenote, pôde ser o chefe dos flibusteiros de La Tortue, tenente-general das armadas navais e o velho calvinista que morreu condecorado com o Tosão de Ouro pelo Rei Católico! Ducasse é o exemplo típico do flibusteiro oficial-general. Graças ao dinheiro cobiçado, apresado e confiscado na região do Caribe, ele pôde dar um dote de 400 mil libras a sua filha única, e fazer dela a duquesa de La Rochefoucauld! Esplêndida promoção conseguida com o aporte fornecido pelos 1.600 flibusteiros de Santo Domingo, apanhados de passagem pelo barão de Pointis, em 1697, em sua excursão para saquear Cartagena-das-Índias. Os flibusteiros participaram da campanha navegando ao lado da frota do rei. Ali, além de nove milhões em prata ou em barra, o que foi tomado em pedrarias e prataria é inconcebível, escreveu Saint-Simon. Cartagena-das-Índias era o entreposto mais rico de toda a América Latina.



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Perseguição a navio mercante: eram necessárias embarcações ágeis para facilitar a pilhagem

Os piratas formavam uma sociedade cosmopolita. Vindos da Holanda, da Zelândia, da Frísia, de Flessingue, de Dunkerque, de Honfleur, de Saint-Malo, do País Basco, da Provença ou da Bretanha, se associaram por toda parte em barbarescos, tratantes do mar, flibusteiros da região antilhana, irmãos da costa, piratas de Formosa sob as ordens do rei Koxinga, estabelecido na ilha em 1661. Piratas, eram também contrabandistas, porque era preciso escoar as cargas capturadas, no mais das vezes bens comestíveis, madeira, conservas salgadas, peixe seco – mais do que pérolas, esmeraldas e rubis. É fato que no meio do triângulo das Bermudas, as “ilhas do tesouro” fascinavam, as minas de cobre de Cartier foram tomadas por minas de ouro, a mica por diamantes, e a Louisiana de Law (John Law foi o criador da Companhia Francesa das Índias) prometia rochedos de diamantes, mas a realidade foi bem outra. A pirataria se transformou, muitas vezes, num comércio na ponta da lança (isto é, em contrabando) que se fazia com as colônias ibéricas da América do Sul e Central. Daí a sedentarização dos piratas, o que contribuiu para o povoamento das Antilhas.

As nações civilizadas acabaram sendo mais ladras que os piratas. Em 1697, os flibusteiros tiveram uma grande discussão com Pointis exigindo seu quinhão, cuja maior parte pretendiam contrabandear. Percebendo que o barão, oficial-general de Luís XIV, zombava deles, retornaram a Cartagena, pilharam-na de novo, e fizeram um rico butim, encontrando muita prata, diz ainda Saint-Simon.

A pirataria desapareceu da região do Caribe ao fim da Regência, devido à onipresença da armada real. Os flibusteiros abandonaram esse ofício que se tornara perigoso demais, para investir, graças a seus butins, nas vastas propriedades dedicadas à grande plantação açucareira. - Tradução de Celso Paciornik

Michel Vergé-Franceschi é professor de História Moderna da Universidade de Savóia e publicou grande número de obras, entre as quais Histoire de Toulon, PortRoyal. Ele dirigiu o Dictionnaire d’Histoire Maritime e é laureado pela Academia Francesa e pela Academia da Marinha.

Revista Historia Viva