Mostrando postagens com marcador Santos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Santos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Isto é São João?


Isto é São João?
Banho de rio, dança indígena, culto a Xangô. A festa se reinventa na diversidade brasileira
Lorenzo Aldé

Na decoração do “Maior São João do Mundo”, que atrai cerca de 2 milhões de pessoas, há três enormes maquetes reproduzindo construções importantes para a história de Campina Grande (PB). Lá estão, lado a lado, a sede da Câmara e Cadeia, a catedral de Nossa Senhora da Conceição e... o Cassino Eldorado — famoso cabaré que funcionou na cidade até os anos 1960.

O que mais causa surpresa nessa informação não é a vizinhança entre igreja e cabaré. Afinal, ela sintetiza a origem da festa: um rito pagão em homenagem à fertilidade da terra transformado em celebração católica. São João sempre esteve cercado por essa dupla natureza da fogueira — sagrada e profana, pecado e purificação.

Mais impactante é constatar que o festejo ancestral não só se mantém vivo como parece cada vez mais forte. O que levou um evento essencialmente familiar e comunitário a atingir a megaconcentração de 2 milhões de pessoas?

Se você é adepto do candomblé, a explicação pode estar em Xangô. Para quem não sabe, este foi o orixá escolhido como equivalente a São João, no processo de sincretismo que levou os cultos afro-brasileiros a adotar referências católicas em suas práticas, ainda no Brasil Colônia. São João, Xangô menino, a entidade do elemento fogo. “Em 23 de junho, os terreiros da Bahia fazem festa para ele. Seus filhos comandam um ritual chamado ajerê: em transe após receber o santo, botam na cabeça uma panela cheia de brasa ou óleo fervente, e com ela dançam atravessando a roda sem se queimar”, explica Muniz Sodré, professor da UFRJ e diretor da Biblioteca Nacional. Outra prática comum é caminharem descalços sobre as cinzas incandescentes da fogueira — também ali, o símbolo central da festa. Para completar, os participantes servem-se de iguarias como bolos e canjica.

Igual mas diferente? Essa contradição não é problema para o São João brasileiro. É solução: a festa, como poucas no país, parece capaz de incorporar as mais variadas referências de nossa miscigenada cultura. Nada recusa, nada descarta, tudo aproveita. Não à toa, Xangô é também conhecido como o orixá da transformação.

Longe dali, no Pantanal sul-matogrossense, a mistura de povos típica de fronteira deu origem a manifestações juninas bastante peculiares. Esqueça a quadrilha e o forró. Tente imaginar uma dança chamada cururu, de origem guarani. Agora imagine o cenário: num eco distante dos solstícios de inverno (dezembro) e verão (junhos) europeus, o que se aprende com a natureza pantaneira é o ritmo das cheias (dezembro a junho) e vazantes (junho a dezembro). Nada mais natural, para o São João local, do que a substituição do fogo pela água. “Diversas imagens de S. João, apesar do cortante frio que reinou na noite de 23, foram levadas em procissão até o porto da cidade, em cujas águas sofreram o indefectível banho tradicional”, noticiou o periódico O Autonomista, de Corumbá, referindo-se às celebrações populares que movimentaram a localidade em 1908.

Autor de tese de doutorado sobre o assunto, João Carlos de Souza, professor da Universidade Federal da Grande Dourados, atribui os banhos de São João — até hoje praticados na cidade — a uma tradição dos povos árabes, via colonização portuguesa. E lembra que o simbolismo da água há tempos está presente nas lendas em torno do profeta João. Não só pelos batismos que realizava no rio Jordão. “Contava-se que, após ter sido decapitado o corpo de São João Batista foi atirado a uma fogueira, contudo permanecia íntegro, brilhante. Tomado pelos discípulos de Jesus, foi lançado ao rio Jordão. Numa segunda versão, salientava-se que algumas pessoas, ao verem o corpo na fogueira, tentavam apagar o fogo jogando água, mas a fogueira ficava ainda maior”, escreveu o historiador, em artigo publicado em 2004. Ainda segundo as crenças populares, o corpo de João teria sido batizado por Jesus no mesmo rio, numa inversão do batismo bíblico — o que deu origem a um hino junino local: “João batiza Cristo / Cristo batiza João / Onde foram batizados / No rio Jordão”.

Nas margens do rio Paraguai, religião e festa profana também convivem em harmonia. “O fogo e a água são símbolos usuais de purificação, de modo que é plausível afirmar que o significado da festa era a renovação e a regeneração, e também a fertilidade, pois também existiam rituais para adivinhar se a próxima colheita seria boa ou se uma determinada moça se casaria no ano seguinte”, interpreta João Carlos de Souza.

Vem de seu estudo no Pantanal uma boa teoria a respeito do poder casamenteiro de João, que lá é considerado ainda mais eficaz do que Santo Antônio para realizar o sonho das moças solteiras. Como as festas duravam vários dias e atraíam muitos moradores da zona rural para a cidade, a socialização era vista como boa oportunidade de encontrar um parceiro. Daí a profusão de simpatias que se registram de norte a sul do país — em Corumbá consistiam, principalmente, em passar por debaixo do andor que levava o santo.

E nem só de intenções matrimoniais vivem as simpatias e adivinhações juninas. “Na minha infância conhecia uma simpatia que era assim: sob a luz da fogueira, olhar para dentro de uma bacia com água e tentar ver seu reflexo. Quando o reflexo surgia, significava que a pessoa ia permanecer viva até o ano seguinte. Se não conseguisse se ver, era sinal de que iria morrer. Nem todo mundo tinha coragem de experimentar”, relembra Flávio Carreiro de Santana, professor da Universidade Estadual da Paraíba e pesquisador da história regional. Nascido no município de Pombal, a 370 quilômetros de João Pessoa, ele considera o acontecimento mais marcante de suas vivências juninas a escolha de sua “madrinha de fogueira”. Trata- se de um ritual semelhante ao batismo católico, mas sem padre e sob as bênçãos do fogo. Nem por isso é levado na brincadeira: muitos nordestinos têm sua madrinha de fogueira (segundo Flávio, padrinho é dispensável) e carregam este vínculo vida afora.

O tradicional casamento na roça, para muitos mera brincadeira, acredite, também já foi pra valer. “Na região entre Piauí e Goiás, o casamento na fogueira de São João constituía, pelo menos até 1912, um sacramento”, anotaram Arthur Neiva e Belisário Pena em sua Viagem científica pelo norte da Bahia, sudoeste de Pernambuco, sul do Piauí e de norte a sul de Goiás, publicado em 1916. A razão era simples: em localidades isoladas, sem a presença de sacerdotes, o jeito era realizar a cerimônia em torno da fogueira, nos dias do santo, com direito aos dos noivos, padrinhos, familiares e convidados. A união, considerada válida pelos fiéis, era abençoada quando um religioso passava pelo local.

Deixa estar que é divertido ver como a festa popular subverte e reinventa seus símbolos religiosos. Nada mais justo do que essa constante volta às origens, uma vez que foi a Igreja, na Idade Média, quem inventou de se apropriar de ritos pré-cristãos, moldando-os de acordo com seus dogmas. Por mais que tenha santo até no nome e inúmeras referências religiosas — capelinha, compadrio, casamento, padre, bandeira —, não tem jeito: o São João é do povo. “É uma festa profana”, sentencia Muniz Sodré. “São 30 dias de festa sem vinculação religiosa”, reforça Flávio Carreiro de Santana.

Será que o bispo de Campina Grande tem opinião diferente? Nem ele. Com espírito esportivo, Dom Jaime Vieira Rocha já entregou os pontos. “São João foi um grande profeta, o precursor de Cristo, trazendo uma mensagem de mudança de vida. Mas esse aspecto não se manifesta no mês de junho. Não se dá atenção”, reconhece. Potiguar de nascimento, ele próprio se recorda dos sentidos que a fogueira assumia em sua infância. “As cinzas eram vistas como fonte de fertilidade. Os agricultores separavam sementes de milho, cuja colheita é em junho, e as guardavam misturadas com as cinzas da fogueira, para plantar no ano seguinte e garantir boa safra”. Dom Jaime garante que a Igreja não se incomoda mais com as práticas populares nada ortodoxas. Encara o compadrio de fogueira como “um gesto de confirmação da relação de amizade entre famílias e pessoas” e diz que sua diocese atualmente apenas “administra as implicações da festa”. Nada a ver com a licenciosidade sexual de outrora, que levou a Igreja a proibir as fogueiras e até as cerimônias noturnas. Imbuído de “uma nova mentalidade”, o líder católico está em dia com a agenda socioambiental: na abertura do São João, costuma conclamar os fiéis contra a violência urbana e alertá-los para os riscos do aquecimento global.

Ainda que por novos motivos, as fogueiras estão mais uma vez no alvo das autoridades. No ano passado, a Diocese e o Ministério Público proibiram que fossem acesas na zona urbana devido aos problemas respiratórios causados pela fumaça, que superlotam hospitais com crianças e idosos. Dom Jaime lembra ainda que a lenha das fogueiras costuma ser obtida de forma ilegal, contribuindo para o desmatamento da já ameaçada caatinga nordestina. Mas em defesa da cultura popular, volta a “administrar” a situação: não é justo culpar apenas a festa junina por isso, enquanto não há campanhas permanentes contra cerâmicas e padarias, estas sim grandes sumidouros de madeira ilegal.

Não há quem consiga fazer valer as proibições às violentas guerras de buscapé em Estância (SE), outra grande manifestação junina. O povo resiste. Entre tradições e renovações, São João segue firme e forte. Há quem torça o nariz para os palcos de superprodução onde se revezam dezenas de grupos de neo-forró e outras músicas modernas — atrações que arrebanham os famosos 2 milhões de Campina Grande. Vêem neles uma ameaça às tradições. Será? “A tradição é sempre inventada, assim como os processos de construção identitária dos grupos sociais são um constante fazer e desfazer”, tranquiliza o professor Valdir Morigi, da UFRGS, especialista no São João paraibano. “Tanto os elementos do passado quanto os presentes são manifestações da identidade dos grupos. Um ritual ou prática social nunca se repetem da mesma maneira, pois as pessoas não são as mesmas e os contextos em que são realizados também passam por mudanças”, ensina.

Transformação. Para o São João, esta é a rima e a solução.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

sábado, 24 de abril de 2010

Santos pecadores


São Cipriano, detalhe de um mosaico do século VI que representa a procissão dos mártires, na Basílica de Santo Apolinário Novo, Ravena

Santos pecadores
Durante boa parte da vida, eles vacilaram. Cometeram crimes, afrontaram os valores religiosos e até mataram cristãos. Saiba o que alguns santos andaram aprontando antes de ser canonizados

por Michelle Veronese
Camilo era viciado em jogo, Maria amava a luxúria, Paulo matava inocentes e Cipriano maltratava donzelas indefesas. Para não falar no que fizeram Margarida, Cássio, Sebastião... Segundo a tradição cristã, esses personagens viveram histórias de arrepiar. Mas, curiosamente, todos são cultuados como santos. A eles a Igreja dedica festas, altares e procissões. Mas como esses homens e mulheres conseguiram superar suas falhas e se tornar veneráveis? Bem, essa resposta você não vai encontrar aqui – até porque as histórias de redenção são bem conhecidas e bastante parecidas entre si. Nos relatos a seguir, queremos mostrar o lado menos famoso desses santos. O lado que não combina com as auréolas douradas.

A parte obscura das biografias dos santos, entretanto, não é vista como algo negativo pela Igreja. Ao reconhecer os erros dos indivíduos que foram canonizados, a instituição humaniza seus santos, criando exemplos de superação a ser seguidos pelo fiéis. Afinal, vacilar também faz parte da vida. E da santidade, como explica o teólogo Victor Villavicencio, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais: “Geralmente, o santo sente o chamado da fé, mas rejeita a vocação e passa a viver um conflito”. No fim das contas, segundo a tradição, todos os santos acabaram superando esse conflito e assumindo sua vocação. O que impressiona, nos casos a seguir, é como alguns capricharam na hora de pecar.

O bruxo

“Meu glorioso São Cipriano!” Experimente mencionar essa frase em público. Os mais supersticiosos baterão na madeira, farão o sinal da cruz ou se fecharão num silêncio constrangedor. Muitos séculos após sua morte, Cipriano, chamado de “o feiticeiro”, ainda desperta reações como essas. Há quem negue que ele seja santo, quem garanta que fez pacto com o demônio e quem não queira nem ouvir falar dele.

Mas por que um santo é lembrado dessa maneira? A resposta está na história espinhosa que antecede sua conversão. Diz a tradição cristã que Cipriano nasceu e viveu na cidade de Antioquia, no norte da Síria, no fim do século 3. Adorador de deuses pagãos, ele estudou magia, alquimia, ocultismo, astrologia e cartomancia. Especializou-se em todo tipo de artes mágicas, empenhando-se em usá-las para causar o mal. E, diz a lenda, ainda tornou-se amigo íntimo de espíritos e demônios (Lúcifer e Satanás seriam os mais chegados), recorrendo a eles para conquistar seus objetivos.

Uma das histórias mais conhecidas de Cipriano trata de sua tentativa de seduzir a jovem Justina. Acostumado a ameaçar moças com seus feitiços para conquistá-las, ele encontrou dificuldades daquela vez. Diante do fora que levou de Justina, passou a invadir seus aposentos, noite após noite, para forçá-la a ficar com ele. De nada adiantou. Com a ajuda dos demônios, teria se transformado em homem, mulher e animal para conquistá-la – em vão. Segundo a tradição religiosa, era a fé de Justina que a protegia contra os feitiços. Por fim, Cipriano decidiu se vingar. Espalhou boatos maldosos sobre Justina e realizou feitiços contra a família dela – um comportamento nada santo para um futuro santo.

Propagadas pela tradição oral, as histórias do santo-bruxo percorreram o Oriente e depois a Europa, até chegarem ao Brasil. Tirando, claro, a parte fantasiosa, é difícil saber se são baseadas em fatos reais e se ele existiu mesmo. “A construção da figura do santo se dá principalmente na imaginação das pessoas. E, no caso de São Cipriano, como no de muitos outros santos, é impossível separar a lenda da história”, explica Jerusa Pires Ferreira, professora da PUC de São Paulo, especialista em comunicação oral.

Lembrado pela Igreja em 26 de setembro, no Brasil São Cipriano ainda permanece cercado por mistério. Além de seus “feitos”, outra razão para sua popularidade negativa está num misterioso livro de magia que leva seu nome. Acredita-se que a obra, cujo conteúdo traz variações dependendo da editora que a publicou (entre as versões mais conhecidas, estão O Livro de São Cipriano das Almas e Livro Negro de São Cipriano), seja baseada em manuscritos antigos, que teriam circulado após a morte do santo. “É uma espécie de almanaque popular, que reúne diversos saberes. No passado, era muito utilizado por camponeses de países como Portugal e Espanha”, afirma Jerusa, autora de O Livro de São Cipriano – Uma Legenda de Massas, no qual investiga esse tema. Na obra atribuída a Cipriano estão reunidos feitiços, exorcismos e simpatias que não poupam ervas raras, gatos pretos, sapos, morcegos e outros ingredientes bizarros. Tudo para que o leitor e candidato a feiticeiro possa conquistar o que deseja – atrair amor, dinheiro, sucesso ou até se livrar da calvície.

A amante e a prostituta

Nem exemplos de pureza, nem de castidade. Existem mulheres que, apesar de terem sido canonizadas, durante boa parte da vida estiveram muito longe dos ideais de comportamento recomendados para as santas. Uma delas é Margarida de Cortona, que nasceu em 1247, na região da Toscana, Itália. Órfã de mãe, foi criada por uma madrasta e um pai cruel. Aos 18 anos, viu no concubinato sua chance de mudar de vida. Naquela época, nobres, reis e até alguns membros do clero mantinham uma ou várias amantes. Muitas viviam no luxo e possuíam grande influência sobre eles, mesmo em questões políticas. Margarida tornou-se uma delas. Foi concubina de um nobre italiano, com quem conviveu durante nove anos e com quem teve um filho. Conta-se que, nesse período, vivia cercada de mimo e demonstrava um grande desprezo pelos pobres.

Já Maria Egípcia, também conhecida como Egipcíaca, viveu no século 4, longe do luxo e da corte. Aos 12 anos, abandonou a família e, sozinha, foi viver num dos principais centros comerciais da Antiguidade: a cidade de Alexandria, no Egito. Freqüentando o porto local, que atraía comerciantes de todo o mundo, tornou-se prostituta. O surpreendente é que ela não vendia o corpo pensando em enriquecer. Mesmo quando os clientes queriam lhe pagar, recusava o dinheiro. “Eu agia dessa maneira porque queria ter quantos homens fosse possível, fazendo de graça o que me dava prazer”, teria confessado a São Zózimo, um abade que viveu naqueles tempos. Para se sustentar, Maria Egípcia contou que mendigava e trabalhava na fiação de linho. Viveu dessa maneira durante 17 anos, até que decidiu partir para a Palestina.

O relato sobre como a prostituta conseguiu viajar é especialmente impressionante para alguém que, depois, virou santa. No porto de Alexandria, ela teria encontrado vários homens que, apressados, se preparavam para ir a Jerusalém participar da Festa de Exaltação da Santa Cruz. Ela pediu para acompanhá-los, mas era preciso pagar pela viagem e pela alimentação. Como não tinha um tostão, Maria Egípcia propôs: “Eu tenho um corpo – podem tomá-lo como pagamento pela jornada”. Assim ela conseguiu sua passagem para a Terra Santa.

O jogador

Ele tinha tudo para construir uma carreira de sucesso em meio a guerras, trincheiras e pelotões. Mas preferiu as cartas, trapaças e apostas. Foi em nome deles que Camilo, mais tarde conhecido como São Camilo de Lellis, mentiu, mendigou e desperdiçou parte de sua vida. Ele nasceu em 1550, na cidade de Bucchianico, Itália. Ficou órfão de mãe muito cedo e praticamente foi educado por estranhos, já que o pai era militar e vivia viajando. Durante a juventude, andou em más companhias, fez todo tipo de travessuras e logo encontrou a paixão pela qual faria muitas loucuras: o jogo.

Aos 17 anos, Camilo parecia ter se ajuizado. Alistou-se no exército e representou seu país em campanhas militares. Mas a atração pelas apostas era incontrolável, e toda sua vida passou a girar em torno da jogatina. O soldo que recebia como soldado era todo gasto em jogo. Quando suas reservas acabavam, voltava a lutar em novos conflitos. E, ao regressar, começava tudo novamente – mais apostas, mais aventuras, mais dificuldades financeiras. Foi assim durante vários anos. Até que ele acabou na miséria.

Sem ter mais o que dar como garantia no jogo, Camilo empenhou sua capa de militar. Perdeu a aposta, a dignidade e se viu obrigado a entregar a roupa em praça pública. Virou mendigo e tornou-se alvo de chacota. Para completar, ainda sofria com uma chaga incurável no pé, que lhe causava imensas dores. Torturado por elas, certo dia decidiu mudar de comportamento. Foi, então, pedir abrigo no hospital São Tiago, em Roma, oferecendo-se para auxiliar os enfermeiros em troca de tratamento médico. A diretoria do hospital compadeceu-se dele e aceitou o acordo.

O novo ajudante foi uma decepção – não agradou nem aos doentes, nem aos médicos. “O rapaz não tinha juízo. Era um cabeça quente, brigava com os enfermos por qualquer ninharia, discutia com os enfermeiros e perdia tempo no jogo”, conta o monsenhor Ascânio Brandão no livro São Camilo. Em 1569, o homem que se tornaria o santo protetor dos enfermos foi dispensado por irresponsabilidade e inaptidão para o trabalho de enfermeiro.

Caçadores de cristãos

Nos primeiros séculos de nossa era, um trabalho comum às tropas romanas era perseguir seguidores do cristianismo. Sob as ordens de imperadores, eles torturaram e martirizaram vários cristãos. Alguns soldados eram especialmente bons nessas tarefas – e, mesmo assim, se tornaram santos. O primeiro deles teria feito suas atrocidades antes que se pudesse falar de “cristianismo”, pois o próprio Cristo ainda estava vivo.

Segundo a tradição cristã, o militar romano Cássio foi designado para acompanhar a execução de Jesus e outros condenados. No fim do dia, cansados de esperar que os crucificados morressem, seus colegas decidiram acelerar o processo, quebrando as pernas e braços dos condenados. Cássio assistiu a tudo aquilo sem nada fazer. Quando coube a ele se certificar de que Jesus, de fato, havia morrido, ele não vacilou: perfurou com a lança o abdôme da vítima. Hoje muita gente lembra de São Longuinho – o santo dos três pulinhos –, mas nem todo mundo sabe que ele é o cruel Cássio depois de canonizado.

No século 3, Sebastião (o atual padroeiro dos presidiários) teria feito carreira no exército de Roma, chegando ao posto de capitão da Guarda Pretoriana. O cargo exigia que ele acompanhasse as prisões de cristãos e os horrores que ocorriam nos cárceres do Império Romano. Para completar, ele ainda teria sido incumbido de zelar pela segurança pessoal de Diocleciano – que governou entre 284 e 305 e foi um dos imperadores mais implacáveis na perseguição aos cristãos. Naquela mesma época, Jorge da Capadócia (região que hoje faz parte da Turquia) teria partido para a Palestina e jurado fidelidade a Roma, servindo também a Diocleciano. Diferentemente de Sebastião, o militar – hoje cultuado como santo guerreiro –, teria logo se revoltado com as atrocidades cometidas contra os seguidores da religião de Jesus.

Não há dúvida, entretanto, de que o mais lembrado perseguidor de cristãos seja Saulo de Tarso, hoje conhecido como São Paulo. Filho de pais judeus e, possivelmente, adepto da seita judaica dos fariseus, ele teria sido designado pelo sumo sacerdote de Jerusalém para capturar os seguidores de Jesus, que havia acabado de morrer. Segundo a Bíblia, Saulo testemunhou a morte de Santo Estêvão, lembrado como o primeiro mártir do cristianismo, e perseguia cristãos no caminho para a cidade de Damasco, na atual Síria – nessa mesma estrada ele teria se arrependido e se convertido, ainda no século 1.

Os cultuados da vez
Até a carreira de santo tem seus altos e baixos
A cada época, um diferente tipo de santo se torna alvo de veneração. Os primeiros cristãos, por exemplo, cultuavam os mártires – que, nos períodos de perseguição, haviam morrido por defender sua fé. Quando, no século 4, o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano, vieram os santos eremitas – abandonando os bens materiais para viver em desertos e montanhas, eles protestavam contra os novos rumos da Igreja. Depois surgiram as santas virgens e muitos outros. “Cada um a seu tempo, eles serviram como modelo de comportamento diante de determinados desafios históricos”, explica o frei Vanildo Zugno, teólogo da Sociedade de Teologia e Espiritualidade Franciscana, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Até hoje, muitas canonizações seguem essa lógica. Na década de 50, quando a liberdade sexual começava a ser defendida, foi canonizada Maria Goretti, que, sob a ameaça de estupro, preferiu morrer a punhaladas a perder a virgindade. A devoção dos fiéis costuma ressuscitar santos que pareciam superados. Nos anos 1960 e 70, durante as ditaduras na América Latina, o culto aos mártires ganhou novo impulso: os perseguidos políticos se identificavam com santos como Pedro e Sebastião, que haviam sido combatidos por defender um novo modelo de vida. Veja, ao lado, um pouco do sobe-e-desce dos santos no Brasil.

Santa Edwiges

A alemã que pagava a conta de pessoas que haviam sido presas por não honrar suas dívidas tornou-se bastante popular entre os brasileiros. É venerada por pobres e endividados em geral.

São Vito

Na falta de médicos e remédios, era aos santos que os fiéis pediam ajuda. Até a Idade Média, o siciliano Vito era invocado para proteger contra a epilepsia e as mordidas de animais.

Santo Expedito

Conhecido por atender preces bem rápido, tornou-se muito popular na América Latina. “Hoje as devoções mais comuns são as que respondem a necessidades particulares”, diz o frei Vanildo Zugno.

Santa Luzia

Teria feito voto de castidade e se dedicado à caridade. Segundo a tradição, ao se recusar a casar, foi denunciada por ser cristã e acabou torturada e morta pelo Império Romano.


Papas que não pouparam ninguém
Alguns pontífices tiveram muito de pecadores - e nada de santos
Até o ano 530, todos os papas eram canonizados após a morte. O costume foi remodelado e hoje os pontífices candidatos a virar santos têm que, a exemplo de qualquer cristão, passar por um processo que julga se eles merecem ser venerados. Foi uma decisão sábia. Embora em vida os papas tenham uma aura de santidade, nem todos eles fizeram jus a ela. Na gigantesca lista dos que ocuparam o cargo (a Enciclopédia Católica conta 266 nomes), não faltam histórias escabrosas. Um exemplo é João XI, líder da Igreja entre 931 e 935, que tornou-se papa graças às artimanhas de sua mãe, a senadora romana Marozia – ela teria sido, por exemplo, a mandante do assassinato de Leão VI, o antecessor do filho. Anos depois, em 955, foi a vez do neto da mesma senadora ser eleito papa, graças à imposição do pai, o político romano Alberico: com apenas 18 anos, Otaviano assumiu o controle da Igreja, adotando o nome de João XII. Em nove anos como papa, cometeu assassinatos, sacrilégios e até incesto. Seu pontificado acabou quando ele foi morto por um marido traído, que o flagrou nos braços de sua mulher. Já Bonifácio VII não teve intermediários: matou ele mesmo o papa Bento VI, para sucedê-lo em 974. Deposto, voltou novamente ao comando da Igreja de 984 a 985, após assassinar outro papa, João XIV. Séculos depois, os métodos de tomar o poder ficaram um pouco mais suaves. Alexandre VI, que liderou a Igreja entre 1492 e 1503, teria subornado vários cardeais para ser eleito papa – para completar, teve vários filhos ilegítimos e foi acusado de desviar dinheiro do Vaticano. Entre os papas recentes, o mais polêmico foi Pio XII, que assumiu em 1939 e ficou até 1958: ele é criticado por ter mantido silêncio diante dos crimes contra os judeus cometidos pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Saiba mais
Livro
Santos e Beatos de Ontem e Hoje, Angela Cerinotti, Globo, 2004

Apesar de não ter os pecados como tema, reúne muitas biografias de personagens do cristianismo, contextualizando a época em que cada um deles viveu.

Revista Aventuras na História