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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Notícias História Viva


Documentos antigos revelam cultura judaica no atual Afeganistão
Os cerca de 150 documentos, datados do século 11, foram encontrados no norte do país
Reuters

Uma série de antigos documentos judaicos encontrados recentemente no norte do Afeganistão tem causado alvoroço entre os acadêmicos, que dizem que o achado histórico pode desvendar um lado ainda não revelado dos judeus na Idade Média.

Os cerca de 150 documentos, datados do século 11, foram encontrados na província afegã de Samangan.

O professor emérito israelense Shaul Shaked, que examinou alguns dos poemas, registros comerciais e acordos judiciais que formam o tesouro, disse que, embora se soubesse da existência de antigos judeus no Afeganistão, a sua cultura permanecia até agora um mistério.

"Aqui, pela primeira vez, vemos evidência e podemos estudar de fato os escritos dessa comunidade judaica. É muito empolgante", disse Shaked à Reuters por telefone de Israel, onde ensina no departamento de Estudos Iranianos e Religião Comparada na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Os documentos estão sendo mantidos por comerciantes particulares de antiguidades em Londres, que têm apresentado uma série de documentos novos nos últimos dois anos. Shaked acredita que foi nessa época que a série de pergaminhos foi encontrada e levada para fora do Afeganistão em uma operação clandestina.
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Invasões e conflitos marcam história do Afeganistão

Disputas internas e interferências britânica, soviética e americana desestabilizam país asiático desde o século 19
Bruna Carvalho, iG São Paulo

A história do Afeganistão, país geopoliticamente estratégico, é marcada por invasões que remontam ao século 19, quando britânicos preocupados com o avanço do czarismo russo, em um contexto colonialista, assumiram o controle de seu território.




Foto: Reprodução
Rei Zahir Shah governou o país por 39 anos




O país se tornou independente em 1919, depois de um terceiro conflito com a Inglaterra. O rei Zahir Shah chegou ao poder em 1933, e, depois de quatro décadas de um governo sob sua tutela, sofreu um golpe. Seu primo Mohammad Daoud tomou o poder, declarou o Afeganistão uma república e se autoproclamou presidente.

Daoud foi o responsável por introduzir o movimento islamita no poder e por tentar esvaziar o Partido Democrático Popular do Afeganistão (PDPA), de esquerda, reprimindo as atividades dos marxistas. Sua atitude provocou revoltas, que atingiram o auge quando um dos líderes comunistas foi morto em circunstâncias misteriosas. Em 1978, militares simpáticos ao PDPA capturaram e executaram Daoud e sua família.

Nur Mohammad Taraki controlou o país no primeiro governo marxista do Afeganistão, apoiado pela União Soviética (URSS, 1922-1991). No mesmo ano, insurgentes radicais islâmicos que ansiavam por reformas sociais começaram uma revolta armada nos centros rurais.

O PDPA estava dividido desde 1967 em duas vertentes rivais: a mais radical, Khalq, que tomou o marxismo de forma mais tradicional; e o Parcham, que acreditava em uma transição gradual rumo ao socialismo. Enquanto o PDPA estava unido para derrotar a monarquia e a república de Daoud, essas divergências não se destacavam, porém isso mudou com a tomada do poder.


Hafizullah Amin, o primeiro-ministro, era opositor ao então presidente. Em 1979, Taraki foi assassinado e Amin se tornou o líder do país. Ele era conhecido por suas inclinações nacionalistas e também por sua crueldade. Moscou via em Amin uma ameaça potencial por causa de seu radicalismo e por não controlar a crescente insurgência no país. Uma segunda morte - pela qual a CIA responsabilizou o KGB, serviço de inteligência russo - abalou ainda mais o gabinete afegão. Amin estava no poder havia apenas 104 dias e foi assassinado.

O Exército Vermelho soviético, então, invadiu o Afeganistão com 30 mil soldados, iniciando um conflito que, durante seus dez anos de duração, matou cerca de 1 milhão de civis afegãos e fez com que 2,8 milhões fugissem para o Paquistão e outros 1,5 milhão para o Irã.

Logo após a invação, a URSS incumbiu Babrak Karmal, que era embaixador afegão na Checoslováquia e da facção Parcham, de assumir a presidência no lugar de Amin. No âmbito da Guerra Fria (1947-1991), os mujahedin, como são chamados os combatentes islâmicos, intensificaram sua luta com um apoio amplo, mas velado, de potências ocidentais, principalmente os EUA, que visavam ao enfraquecimento soviético.

As forças mujahedin se uniram no Paquistão para formar uma aliança contra os soviéticos. Enquanto isso, Kamal foi substituído por Najibullah, que era incapaz de controlar a insurgência, agora armada com mísseis dados pelos EUA. Em 1988, o Afeganistão, a URSS, os EUA e o Paquistão assinaram um acordo de paz, e a URSS começou a retirar efetivamente suas tropas até não sobrar mais nenhuma em 1989.

A resistência dos mujahedin contra Najibullah persistiu até sua deposição, em 1992. As facções insurgentes, então, concordaram em formar um governo liderado pelo tajique Burhanuddin Rabbani, o que não cessou as guerras civis no território, que agora atingiam também as áreas urbanas, deixando milhares de mortos.



Foto: Getty Images Ampliar
Mulá Omar é o líder do Taleban no Afeganistão




Surgimento do Taleban

Por volta de 1994, nasceu na Província de Kandahar um movimento estudantil pashtun, maioria étnica no país, com um rigor religioso extremo: o Taleban. Liderados pelo mulá Omar, uma figura quase folclórica que lutou contra os soviéticos na ocupação, o Taleban reuniu um número expressivo de integrantes que só aumentou com o passar do tempo e tirou o poder dos senhores de guerra. A população afegã estava exausta de violência e corrupção, e um grupo islâmico parecia surgir em boa hora para colocar o país em ordem. No período de um ano, o Taleban era composto por mais de 10 mil membros que dominavam províncias importantes do país.

Além do apoio popular, o Taleban de mulá Omar contava com a ajuda do vizinho Paquistão. Seu serviço de inteligência armou esses universitários e lhes deu dinheiro e suprimentos, além de ajudar com a estratégia militar. Após travarem intensas lutas, principalmente em áreas que não eram de maioria pashtun, o Taleban conseguiu controlar Cabul em 1996.

Apesar de liderar o Afeganistão, o governo Taleban era reconhecido apenas pelo Paquistão, pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos. A comunidade internacional reagiu contra o excesso de rigidez do regime, principalmente no trato com as mulheres, que não podiam sair de casa se não estivessem acompanhadas de um homem - leia-se o pai ou o marido. Os afegãos não podiam ouvir música, dançar, ter videocassetes em suas residências, empinar pipas, e os homens não podiam se barbear. Estava instaurado um rigoroso Estado teocrático.

Além do fundamentalismo, o Ocidente intensificou sua pressão sobre o Taleban por conta da produção de papoula, fonte do ópio que entrava na Europa. O tráfico do ópio sempre esteve presente no Afeganistão, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto da Paz dos EUA. Após a invasão soviética, a plantação aumentou, dobrando entre os anos de 1984 e 1985. No ano seguinte, dobrou mais uma vez. Os plantadores e traficantes contratavam mujahedins para proteger o transporte da droga e esses rebeldes usavam o dinheiro que ganhavam na atividade ilegal para financiar a resistência.

Com a saída soviética e, portanto, com o fim do financiamento americano, aumentou a dependência pelos lucros com o mercado do ópio para sustentar a guerra. Nesse ambiente, nasceu o Taleban, sustentado em grande parte pelo tráfico de entorpecentes. Também segundo a pesquisa, o Taleban afirmava que, segundo as leis da sharia (código de leis do islamismo), o uso de ópio - assim como do álcool e da maconha - estava proibido, mas a sua produção e comércio eram permitidos.



Foto: Reuters
Afegãos fazem colheita de ópio em um campo de papoula localizado no distrito de Golestan da província de Farah



Algumas outras ações do Taleban atraíram uma atenção negativa da comunidade internacional. O Taleban ofereceu abrigo para o líder da Al-Qaeda, o saudita Osama bin Laden, e para diversos membros da rede nos anos 1990. Bin Laden chegou em um avião fretado ao aeroporto de Jalalabad em 1996. Outro episódio polêmico ocorreu em março de 2001, quando o grupo bombardeou os Budas de Bamiyan, duas gigantescas estátuas de 800 anos de idade, pois, segundo eles, representavam uma idolatria, o que era proibido pelo Alcorão.

Os atentados lançados pela Al-Qaeda contra símbolos econômico e militar dos EUA no 11 de Setembro representariam o começo do fim da era Taleban no poder. O governo americano lançou um ultimato ao Taleban: ou entregavam Bin Laden, mentor dos ataques, ou seriam bombardeados pelas forças de uma coalizão internacional.

Diante da recusa do Taleban, teve início a Guerra do Afeganistão, que neste 7 de outubro completa dez anos. Apesar de ter tirado o Taleban do controle de Cabul e ter formado um governo, as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), lideradas pelos EUA, não conseguiram promover a paz no território nem impedir ações de insurgência nessa década de conflitos.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Guerras renderam ao Afeganistão fama de "túmulo dos impérios"

Tim Wimborne-01.ago.2009/Reuters

Menino afegão observa passagem de soldados dos Estados Unidos da janela de sua casa, no vale Korangal, Província de Kunar (Afeganistão)

Tim Wimborne-01.ago.2009/Reuters

Menino afegão brinca com carrinhos ao lado da estrada principal que cruza Kandigal rumo ao vale Pesh, no Afeganistão

Rafiq Maqbool-31.jul.2009/AP

Partidários do candidato a reeleição, Hamid Karzai, esperam para participar de ato eleitoral no vale Daraye Kaihan, Província de Baghlan

Omar Sobhani-31.jul.2009/Reuters

Homem afegão beija a mãe durante comício do candidato a reeleição, Hamid Karzai, no vale Daraye Kaihan, Província de Baghlan

Omar Sobhani-31.jul.2009/Reuters

Mulheres afegãs se reúnem para participar de comício eleitoral do candidato a reeleição, Hamid Karzai, no vale Daraye Kaihan, Província de Baghlan

Alexandre Meneghini-26.jul.2009/AP

Grupo de crianças refugiadas do Afeganistão têm aulas de religião em mesquita de campo da capital Islamabad (Paquistão)

Alexandre Meneghini-26.jul.2009/AP

Refugiado do Afeganistão dorme em cama improvisada em campo na região da capital Islamabad (Paquistão)

Rafiq Maqbool-26.jul.2009/AP

Mulheres afegãs deixam local de comício eleitoral do candidato a presidente Abdullah Abdullah na Província de Parwan

Omar Sobhani-25.jul.2009/Reuters

Homens afegãos fazem fila para se registrar como eleitores no vilarejo de Babaji, Província de Helmand (Afeganistão)


Alexandre Meneghini-25.jul.2009/AP

Crianças brincam em frente a campo de refugiados na capital Islamabad (Paquistão)

Alexandre Meneghini-25.jul.2009/AP

Refugiados afegãos conversam em frente a campo na região da capital Islamabad (Paquistão)

Guerras renderam ao Afeganistão fama de "túmulo dos impérios"

IAGO BOLÍVAR

Localizado em uma milenar rota comercial e militar, o Afeganistão foi alvo de invasões de Alexandre, o Grande e Gengis Khan, berço de dinastias fugazes e, embora sem grandes recursos e neutro nas duas guerras mundiais, sofreu campanhas militares das três maiores potências dos últimos 150 anos: o Império Britânico, a União Soviética e os Estados Unidos.

O relevo de montanhas, desertos e estepes e um arraigado sentimento de insubmissão da fragmentada população local foram determinantes para o fracasso de tentativas de dominação estrangeira e, também, um obstáculo para o estabelecimento de governos próprios estáveis.

A mistura de grupos étnicos foi aos poucos amalgamada em uma identidade comum pelo islã e por traços da cultura tribal, especialmente pashtu, em uma dinâmica entre poder central e lealdades regionais que marcou o país nos últimos três séculos e permanece um desafio para a coesão interna e os planos americanos de "construção de nação".

"Morei quatro anos no Afeganistão, durante a guerra civil dos anos 90, em um tempo de violência interna muito maior do que agora, e nunca, nunca, eu ouvi qualquer proposta de divisão do país", conta Alexander Thier, especialista em Afeganistão do Institute of Peace, dos Estados Unidos. "Eles se sentem como afegãos, têm uma unidade."

Esses traços se manifestam, por exemplo, na marcante ausência de ataques com características sectárias entre a população, ao contrário do que acontece no Iraque, ao mesmo tempo em que muitos senhores locais ignoram o frágil governo de Cabul, como fizeram por séculos.

O marco da unidade afegã, após períodos de dominação por persas, árabes, turcos, mongóis e hindus, foi a reunião das tribos pashtus sob Ahmad Shah Durrani (1747-72), que servira de chefe dos guarda-costas ao xá da Pérsia e fundou em 1747 o Império Durrani. Ele expandiu seus domínios até o mar arábico e a Índia. Nas gerações posteriores, a dimensão do império, que passou a ser chamado de Afeganistão (terra dos afeganes, a denominação persa dos pashtus), reduziu-se, em meio a disputas com chefes locais e à pressão dos países vizinhos.

Os britânicos, que colonizavam a Índia (incluindo o atual território do Paquistão), não se interessaram pelo Afeganistão senão como um anteparo para manter o Império Russo distante de seus domínios. Esse foi o motivo para as duas primeiras guerras Anglo-Afegãs (1839-42 e 1878-80), nas quais a resistência da população local ao domínio estrangeiro tornou o custo da ocupação alto demais para o Exército colonial britânico, o que ajudou a forjar a imagem do país como "túmulo dos impérios".

Embora não formalmente colonizado, o país aceitou a tutela britânica em assuntos diplomáticos e assinou um tratado que definiu suas fronteiras com os domínios britânicos --o que dividiu as áreas pashtus--, durante o reinado de Abdel Rahman Khan (1880-1901), que internamente lutou duas dezenas de pequenas guerras para impor seu domínio sobre as diversas regiões do país.

A total independência veio na terceira guerra Anglo-Afegã, em 1919, quando o país assumiu controle sobre a própria política externa.

União Soviética

Enquanto negociava os termos de paz com os britânicos, o rei Amanollah (1919-29) assinou um tratado de amizade com o recém instalado regime bolchevique russo, tornando o Afeganistão um dos primeiros países a reconhecer o governo soviético. Essa circunstância deu início a uma relação de proximidade entre os dois países que teria consequências duradouras.

O rei Mohammad Zahir Shah (1933-73) manteve o país neutro na Segunda Guerra (1939-45) e tentou fazer o mesmo na Guerra Fria. Tentativas de abertura democrática tiveram oposição nos setores religiosos e conservadores, que apoiaram a subida do general Mohammad Daud Khan, primo e cunhado do rei, ao cargo de primeiro-ministro.

Daud Khan aproximou-se dos soviéticos, conseguindo largos investimentos em infraestrutura, enquanto manteve a porta aberta para a ajuda americana. Conflitos com o Paquistão, referentes à situação dos pashtus que viviam naquele território, levaram o governo paquistanês a fechar a fronteira, aumentando a dependência em relação aos soviéticos e precipitando a queda de Daud Khan.

Uma breve experiência democrática, marcada pela disputa entre partidos comunistas e conservadores religiosos, levou o país a um impasse institucional, e, em 1973, Daud Khan derrubou a monarquia em um golpe com ajuda de militares esquerdistas e assumiu o poder, banindo muitos dos militantes religiosos.

Aos poucos, ele se afastou das políticas de inspiração comunista e buscou aliança com outros países islâmicos, o que levou à sua deposição e assassinato.

Domínio soviético

Os comunistas assumiram o poder tentando convencer a população de que eram verdadeiros muçulmanos e não marionetes da ateia União Soviética, mas o programa de reformas, que incluía reforma agrária e direitos iguais para as mulheres, despertou uma revolta generalizada e aparentemente sem coordenação, que deu início a uma guerra civil.

A União Soviética invadiu o país 1979 para apoiar o regime comunista afegão, em grande parte para não estimular revoltas similares entre a população de suas repúblicas muçulmanas, e para mostrar força no contexto da Guerra Fria.

A invasão com mais de 100 mil homens e pesado equipamento militar acabou se provando insustentável a longo prazo à medida que as forças do governo local se diluíram sem apoio popular e os revoltosos passaram a receber ajuda em dinheiro e armas ao mesmo tempo dos EUA e de países muçulmanos.

O influxo de fiéis muçulmanos de vários países, que se sentiram convocados para uma guerra santa, ajudou a radicalizar as táticas de guerrilha, e a chegada de armamento eficiente contra tanques e helicópteros tornou a pressão insuportável para a União Soviética, que se retirou totalmente em 1989.

A guerra continuou no Afeganistão, contra um remanescente governo comunista, derrubado em 1992 por uma aliança de guerrilheiros mujahedins, que entrou em disputas pelo poder em um país em ruínas.

Taleban

Em 1996, um grupo fundamentalista de estudantes islâmicos, apoiado pelo Paquistão, tomou o poder. O Taleban impôs uma severa observância da lei islâmica, mesclada a tradições tribais, e expandiu seu controle a 90% do país. Apesar de sua violência, o grupo ganhou respeito interno por colocar fim ao caos e foi reconhecido pelos governos da Arábia Saudita, do Paquistão e dos Emirados Árabes Unidos.

A maior parte da comunidade internacional se opôs ao que considerou repetidos desrespeitos aos direitos humanos e ao vilipêndio de bens culturais da humanidade, como a destruição dos Budas de Mamyan, estátuas monumentais de pedra do século 6, dinamitadas em março de 2001.

Seis meses depois, os atentados de 11 de Setembro, que mataram 3.000 pessoas nos EUA, foram atribuídos à rede Al Qaeda, grupo extremista liderado pelo saudita Osama Bin Laden, um bilionário veterano da guerra contra os comunistas, que estava abrigado no Afeganistão.

O Taleban recusou-se a entregá-lo aos EUA e acabou derrubado por uma coalizão internacional liderada pelos americanos, com a ajuda da Aliança do Norte, grupo afegão que reunia muitos veteranos da luta contra os soviéticos.

Uma conferência patrocinada pela ONU (Organização das Nações Unidas) em Bonn em 2001 estabeleceu um processo de reconstrução política, que incluiu a adoção de nova Constituição, uma eleição presidencial em 2004, e da Assembleia Nacional em 2005.

Em dezembro de 2004, o pashtu Hamid Karzai, anteriormente escolhido como presidente interino, tornou-se o primeiro presidente democraticamente eleito do Afeganistão. A Assembleia foi inaugurada em dezembro do ano seguinte.

Depositário de muitas esperanças, Karzai fracassou em expandir o controle do governo para todo o país e enfraqueceu-se em meio a acusações de corrupção, enquanto as plantações de papoula para produção de ópio voltaram ao campo, financiando os insurgentes. Mais uma vez, as forças históricas do Afeganistão tornaram altos os custos de uma ocupação estrangeira e ficaram no caminho de um governo central efetivo.

Após oito anos de invasão, sem conseguir derrotar o Taleban, capturar Bin Laden, ou transferir responsabilidades para o governo local, os americanos decidiram adotar uma nova estratégia, visando a uma abordagem regional, diante de sinais claros de que o Taleban passou a ameaçar tanto o Afeganistão quanto o Paquistão.

O aumento de tropas e a expansão da ajuda para reconstrução no Afeganistão serão acompanhados, de acordo com o plano do governo Obama, de apoio para a formação e treinamento de pessoal civil e militar no Afeganistão e pelo suporte, em dinheiro, treinamento e equipamento, para que o Paquistão destrua os refúgios a partir dos quais o Taleban reagrupou-se e onde, segundo os EUA, ainda pode estar Bin Laden.

Folha de São Paulo

Noroeste paquistanês em crise: a Guerra contra o Terror e o avanço do Talibã



Noroeste paquistanês em crise: a Guerra contra o Terror e o avanço do Talibã, por Evandro Farid Zago


06/06/2009
O fato de que o movimento talibã exerce influência sobre a conjuntura paquistanesa não é elemento novo nas relações internacionais. No entanto, desde o início de 2009, o grupo baseado no Afeganistão intensificou sua presença no território do Paquistão e adotou novas estratégias de conduta. Atualmente, o panorama atingiu níveis críticos, de forma que o terror passou a ser disseminado nas regiões de fronteira e o próprio projeto de Estado paquistanês foi colocado em risco.

O Talibã caracteriza-se por ser movimento político e religioso que governou o Afeganistão entre 1996 e 2001. O grupo segue a linha wahabbista do sunismo islâmico e é mundialmente conhecido pelo caráter fundamentalista de sua militância. Seus comandantes são, em essência, homens provenientes de instituições de ensino muçulmanas e de pequenas unidades militares. Na formação do Talibã, é notável a presença de afegãos que estudaram em escolas islâmicas paquistanesas. Ademais, a principal etnia que integra o movimento é a dos pashtuns, concentrada no leste e no sul do Afeganistão e no oeste do Paquistão. Percebe-se, destarte, que o contingente de pessoal do Talibã é, em grande parte, formado senão por indivíduos de nacionalidade paquistanesa, por homens que, de alguma forma, possuíram relações com o Paquistão ao longo de sua vida.O movimento possui ainda parte de suas bases localizadas em território paquistanês. As Áreas Tribais Federalmente Administradas, região detentora de autonomiade facto , mas formalmente vinculada a Islamabad, é, em larga medida, habitada por membros do grupo. Além disso, durante vários anos, o Estado do Paquistão forneceu ajuda ao movimento. Durante a década de 1990, foi-lhes enviado auxílio financeiro e militar a partir do país vizinho, o que viabilizou a tomada do poder federal afegão em 1996.

Se a relação do grupo extremista com os paquistaneses resumisse-se ao acima descrito, é provável que a comunidade internacional jamais tivesse desviado maior atenção a ela. Contudo, a ligação do Talibã com a rede terrorista Al Qaeda e o envolvimento desta nos ataques terroristas de 2001 fizeram com que o panorama local fosse reestruturado. Em 1996, Osama bin Laden, líder da rede, mudou-se do Sudão para o Afeganistão. Após período de desavenças com locais, bin Laden arquitetou e consolidou aliança entre os dois grupos. Anos depois, como reação ao 11 de setembro, os EUA capitanearam reação global ao terrorismo. Foi lançada, então, a Guerra contra o Terror, dirigida, num primeiro momento, à Al Qaeda. O fato de a organização estar centrada no Afeganistão e de essa possuir aliança com o governo local acabou por dirigir a iniciativa norte-americana ao Estado afegão. A estratégia de atuação dos EUA incluiu, como de costume em estratagemas militares, angariação de aliados para combater o inimigo. Nesse contexto, o Paquistão, que já era alinhado à política externa ianque, foi visto como nação de importância estratégica para a guerra que estava por vir. Assim, os paquistaneses cederam aos anseios norte-americanos e tornaram-se uma das principais bases para a invasão do país vizinho.

A enorme disparidade de forças entre a coalizão que atacou o Afeganistão e os talibãs fez com que, ainda em 2001, o movimento fosse retirado do poder. Os anos que se seguiram foram marcados pela hesitante presença internacional na região, o que contribuiu para acentuar os problemas afegãos e para desestruturar ainda mais um Estado que já se encontrava pouco institucionalizado.

As implicações mais diretas da Guerra contra o Terror para a presente crise paquistanesa tiveram início em 2004, quando o Talibã passou a se reestruturar. Contribuíram, destarte, dois fatores para que o grupo fizesse-se mais presente no Paquistão: a presença de forças estrangeiras no Afeganistão, que impediam sua movimentação e organização, e o revanchismo contra o país vizinho, com o qual haviam sido estabelecidos laços ao longo de anos e que agora lutava contra seu movimento.

A partir do início de 2009, a atuação talibã tornou-se mais marcante. Ataques periódicos passaram a ocorrer contra escolas femininas, instituições policiais e prédios governamentais. Ademais, a presença do grupo, que antes se resumia às Áreas Tribais Federalmente Administradas, estendeu-se também para a Província da Fronteira Noroeste. Em contrapartida, as Forças Armadas do Paquistão relutaram em combater o avanço observado. Segundo membros do Exército, a maior ameaça à segurança do Paquistão continuaria sendo a Índia, o que justificaria a presença de 80% das tropas nacionais na fronteira indiana. Dessa forma, durante meses, a atuação militar por parte do Estado paquistanês baseou-se apenas em negociações com líderes talibãs.

Atualmente, julga-se que apenas 38% da Província da Fronteira Noroeste e das regiões em suas proximidades encontrem-se sob domínio do governo paquistanês. A população da região, em conseqüência, encontra-se aterrorizada. Meio milhão de pessoas já foi deslocado pelo conflito, enquanto 500 mil encontram-se em vias de deslocar-se.

Face ao avanço descontrolado do Talibã, percebido a partir do segundo trimestre de 2009, a ação militar paquistanesa tornou-se mais contundente. No início de maio, as Forças Armadas destinaram mais tropas à região e passaram a travar verdadeira guerra contra o movimento pelo controle de territórios. Os resultados não foram expressivos, mas a maior atenção conferida ao conflito é indicativa de aumento do controle federal sobre a região no futuro. Além disso, é destacável o fato de que o Paquistão é detentor de armas nucleares; eventual crescimento desmedido do Talibã poderia fazer com que o grupo tomasse posse de tais armas. O avanço do movimento permitiu que ele se estabelecesse numa região localizada a apenas 100 km de distância da capital Islamabad, onde os arsenais estão concentrados.

A comunidade internacional já manifestou seu apoio ao Paquistão. Os EUA afirmaram que, se necessário, até mesmo adentrarão no território do país com vistas a inviabilizar a ocupação talibã. Membros da União Européia também demonstraram apoio à luta paquistanesa. O governo do Afeganistão, por sua vez, declarou que a derrota do Talibã é de extrema importância para os afegãos, visto que o futuro de seu Estado depende da inexistência de forças internas que inviabilizem sua institucionalização.

A problemática observada no noroeste paquistanês é mostra de como relações estáveis e cooperativas podem transformar-se em caóticas e conflitivas. Mesmo que haja setores da sociedade paquistanesa favoráveis ao movimento, a severidade da recente crise estabelece dúvidas quanto ao restabelecimento da convivência pacífica. Talibã e Paquistão, que antes possuíam relacionamento harmônico, foram inseridos em dinâmicas antitéticas a partir do momento em que a Guerra contra o Terror foi posta em prática. Atualmente, a própria viabilidade do Estado paquistanês é ameaçada e a comunidade internacional luta pela contenção das forças talibãs.

Evandro Farid Zago é Membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (evandrofz@yahoo.com.br).

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