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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A França Antártica e a criação de padrões narrativos sobre o Brasil e os brasileiros


A França Antártica e a criação de padrões narrativos sobre o Brasil e os brasileiros

Jean Marcel Carvalho França
Departamento de História – Faculdade de História, Direito e Serviço Social –UNESP – 14400-690 – Franca – SP – Brasil. E-mail: jsfranca@uol.com.br

É quase um consenso entre os pesquisadores interessados em navegação que, por razões diversas, mas razoavelmente conhecidas – como a ausência de uma coordenação do Estado, a descontinuidade dos investimentos e mesmo a pouca propensão do povo a ocupar territórios de além-mar, territórios estranhos e hostis aos homens do Velho Mundo –, a França, ao menos no que tange à exploração e à colonização de novas terras, esteve longe de ocupar a vanguarda da expansão marítima européia dos séculos XV e XVI1. Há, contudo, um aspecto da dita expansão em que os franceses, justiça lhes seja feita, não somente saíram na frente, como aí se conservaram por um longo período. Refiro-me nomeadamente à construção literária do Novo Mundo, à sua, para usarmos a expressão celebrizada pelo pesquisador mexicano Edmond O'Gorman, invenção filosófica2.

Ora, é sabido que a absorção da idéia de Novo Mundo, de América, pelos europeus deu-se de modo lento e gradativo. Ilustrativo de tal lentidão é a pouquíssima atenção literária que as novas terras mereceram. Estima-se, e este é um dado a se ter em conta, que entre 1492 e 1618, as obras geográficas editadas em francês tragam 4 vezes mais referências à Turquia e à Ásia do que à América3. E isso em língua francesa, uma língua, como veremos mais adiante, privilegiada no que tange a publicações sobre as terras descobertas no Ocidente. Em inglês, o Novo Mundo quase passa despercebido até a metade do século XVI, em holandês, a descoberta parece ter sido ainda mais tardia e em italiano, depois da segunda metade do quinhentos, quando os florentinos, venezianos e genoveses começam a ser postos de lado nos negócios europeus de ultramar, há um crescente desinteresse pelo tema4 – o que já não motiva mais edições como a célebre coletânea de relatos de viagem Terras recentemente descobertas, editada em 1507 pelo bem informado e bem relacionado Fracanzano da Montalboddo, ou como o não menos importante Navegações e Viagens, organizado por Giovanni Battista Ramusio entre 1550 e 15595.

Curiosamente, nem mesmo os ibéricos, pioneiros incontestáveis na descoberta e exploração das novas terras, foram pródigos em matéria de informações sobre essas mesmas terras; e isso por um longo período. O laconismo ibérico, a propósito, atribuído por alguns historiadores portugueses e espanhóis a razões de estado, não passou despercebido aos contemporâneos. O caso de um tenente da marinha inglesa, de nome Watkin Tench, é ilustrativo. Lá pelos idos de 1787, o culto tenente resolveu publicar, em Londres, uma narrativa de viagem intitulada "Relato de uma expedição a Botany Bay". Tench, na primeira parte do livro, destinada a narrar a sua navegação da Inglaterra à Nova Gales (Austrália), resolveu dedicar um pequeno capítulo ao Brasil. Ciente da novidade do que ia relatar ao leitor, o precavido viajante iniciou sua narrativa com a seguinte advertência:

o Brasil é um território muito mal conhecido na Europa. Os portugueses, por razões políticas, não divulgam quase nenhuma informação sobre essa sua colônia. Daí, as descrições vinculadas nas publicações geográficas inglesas serem, estou certo, terrivelmente errôneas e imperfeitas6.

Pouco antes, em 1745, a mesma reclamação, agora em relação aos espanhóis, havia saído da pena do célebre Charles Marie de La Condamine7 e, depois dele, por volta de 1784, da pena de um outro sábio importante da Europa, Joseph Dombey8, o naturalista francês a quem a corte espanhola, a pedido do próprio Luis XVI, da França, dera autorização para estudar os territórios do Peru. Todos, cada um a seu modo e com a veemência que a situação permitia, lamentaram o quão pouco os ibéricos haviam escrito sobre as suas possessões americanas. E é bom lembrar que estes eram lamentos que ecoavam no século XVIII, o que dizer então dos séculos XVI e XVII.

Por certo, desde que o bem informado membro do futuro Conselho das Índias, Pietro Martire de Anghiera, a partir de 1494, divulgara para os sábios da Europa a ainda obscura aventura de Colombo pelas costas do que o descobridor acreditava ser Cipango, uma pequena ilha pertencente ao arquipélago do Japão9, e, sobretudo, desde que Américo Vespúcio, em 1503, com suas famosas cartas10, esclareceu ao mesmo público que a terra descoberta por Colombo era bem maior do que a princípio se supunha e constituía um mundo novo – diferente de Ásia, Europa e África –, a América, como viria ser batizada pelo geógrafo Martin Waldseemüller, em 1507, ainda que de maneira discreta, corria por algumas “bocas da Europa.

Pelas “bocas da gente do mar, sem dúvida, armadores, marinheiros, capitães, aventureiros, pilotos11, enfim, daquela gente a quem já Colombo, durante sua permanência em Lisboa, não se cansara de interrogar sobre a navegação rumo às Índias. A partir das primeiras décadas do século XVI, notícias sobre o Novo Mundo circulavam pelos portos não somente da Espanha e de Portugal, mas também das cidades italianas, da França, da Inglaterra e, um pouco mais tarde, pelos portos batavos. As notícias corriam também – e as cartas de representantes comerciais e diplomáticos italianos, franceses e mesmo prussianos baseados na Península Ibérica o atestam – entre os homens de Estado e entre os comerciantes, grupos atentos aos resultados e às possibilidades vindouras das empresas marítimas, nas quais, por vezes, tinham investido prestígio e, sobretudo, somas avultadas de capital.

Por fim, mas não menos importante, as novas sobre o mundo encontrado por Colombo corriam, desde muito cedo, entre os sábios, entre os homens de cultura da Europa. Não por acaso, em 1581, o português radicado em Tolouse, Francisco Sanches, pensador polêmico, que acabou conhecido pelos seus coetâneos como o céptico, escrevia no seu Que nada se sabe:

Efetivamente, quem é que pode afirmar ao certo alguma coisa acerca do que foi, do que é, ou do que há de ser? Na tua ciência perfeita dizias ontem, e até já a muitos séculos, que a terra era cercada por um oceano, e dividia-la em três partes universais: Ásia, África e Europa. O que dirás agora? Foi descoberto um novo mundo, e novas coisas numa nova Espanha ou Índias Ocidentais, e nas Orientais. Dizias também que havia uma região meridional, sob o Equador, que por causa do calor era inabitável, e que o mesmo se dava nos pólos e nas zonas extremas por causa do frio; que essas duas coisas são falsas já o mostrou a experiência12.

Sanches, como é sabido, não era o primeiro e não seria o último homem de cultura europeu do Seiscentos a buscar na descoberta do Novo Mundo inspiração para a construção de seu pensamento. A lista não é muito longa, mas está repleta de nomes sonantes, como Thomas More, Rabelais, Ronsard, Erasmo de Roterdam e, naturalmente, Michel de Montaigne, com seus célebres e influentes capítulos dedicados às terras recém-descobertas, Dos canibais e Dos coches – escritos entre 1580 e 158813.

De More a Sanches, passando pelo renomado Montaigne, as notícias que estes sábios trataram de propagar, em verso e prosa, pela Europa eram, em sua maioria, senão todas, provenientes de um único e mesmo conjunto de fontes: as narrativas de viagens14. A bem da verdade, boa parte do que os europeus escreveram sobre a América – e também sobre a Índia, sobre o Oriente e sobre as terras do Pacífico Sul –, durante os três séculos que se seguiram ao período áureo da expansão ultramarina, baseou-se em relatos de viagem, em relatos de aventureiros e exploradores que, muitas vezes à custa da própria vida, viram com os olhos da cara aquelas terras que tanto atiçavam a imaginação dos seus contemporâneos.

E aqui retorno ao citado pioneirismo francês. A experiência da França Antártica, melhor, as diversas narrativas derivadas da polêmica aventura ultramarina encabeçada pelo Cavaleiro de Villegaignon – aventura que o protestante Marc Lescarbot, em 1609, ironicamente qualificou como a malograda tentativa de se criar uma espécie de presídio de além-mar15 – talvez tenham sido o mais consistente, amplo e divulgado conjunto de relatos sobre o Novo Mundo a circular pela Europa na segunda metade do século XVI. No que tange às possessões portuguesas na região, ao Brasil, isso é quase uma verdade incontestável. Refiro-me, é claro, aos conhecidos Singularidades da França Antártica (1558), de André Thévet, e História de uma viagem feita à terra do Brasil (1578), de Jean de Léry, mas igualmente aos hoje menos célebres Cópias de algumas cartas sobre a navegação do cavaleiro Villegaignon (1557), do piloto Nicolas Barré, Contra as execráveis imposturas, impiedades e blasfêmias de Durand, bordeleiro que se intitula Villegaignon (1561), panfleto atribuído a Pierre Richer, História das coisas memoráveis ocorridas na terra do Brasil (1561), narrativa imputada pelo renomado Paul Gaffarel a Jean de Léry, e a mais uma meia dezena de cartas, panfletos e narrativas breves, os quais, no seu tempo, um tempo sedento por novidades sobre as exóticas terras de além-mar, quaisquer que fossem elas, tiveram lá a sua importância16.

Atento, por certo, a tão amplo leque de publicações que começava então a circular na França, o português Pero de Magalhães de Gândavo, no prólogo ao leitor do seu História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil17, publicado em 1576, lamentava o pouco caso com que seus conterrâneos vinham tratando a província de Santa Cruz e observava, não sem preocupação, que os estrangeiros tinham a terra noutra estima e sabiam suas particularidades melhor e mais de raiz que os próprios lusitanos. Preocupava a Gândavo, sobretudo, que os portugueses, antigos e modernos, não estimando a escritura, deixassem de narrar as coisas admiráveis da terra de Santa Cruz, perdendo com isso a possibilidade de dar nome às coisas e de fazê-las imortais.

Premonitório foi o mal estar do cronista, afinal, o citado grupo de documentos sobre a experiência da França Antártica não foi somente pioneiro, ou melhor, o pioneirismo trouxe-lhe uma outra vantagem, muito mais sólida e profunda. Tais narrativas, para retomar a idéia de Gândavo, deram nome às coisas e às gentes do Brasil, inventaram-nas filosoficamente, como diria O'Gorman, condicionando a ação dos europeus em relação a elas – retomarei este ponto mais adiante – e estabelecendo, por um tempo razoavelmente longo, muitos dos padrões daquilo que seria escrito pelos habitantes do Velho Mundo acerca de uma parte do Novo Mundo. Dito em poucas palavras, os franceses da França Antártica fixaram, no século XVI, um vocabulário sobre o Brasil e sobre os brasileiros, um vocabulário que teve vida extremamente longa na cultura Ocidental e que talvez ainda não tenhamos abandonado de todo.

O poder e o alcance de tal vocabulário são imediatamente perceptíveis não somente nas obras dos homens de cultura de então – Montaigne, Ronsard, Milton e um punhado de outros –, mas, sobretudo, na literatura de viagem sobre o Brasil dos 2 séculos subseqüentes à França Antártica, literatura toda ela, francesa ou não, devedora em larga medida das perspectivas sobre esta parte do Novo Mundo, propagadas pelos companheiros de Villegaignon.

Trata-se, é bom que se diga, de um gênero em que a originalidade não é propriamente um valor, e a verdade daquilo que é relatado depende em alto grau da reprodução do já dito e da confirmação de certas expectativas compartilhadas pelos apreciadores do gênero, os leitores. A propósito de tais características do gênero relações de viagem, nunca é demais lembrar que o clima ameno e temperado detectado nos trópicos por Nicolas Barré e outros seus companheiros da França Antártica – o clima pareceu-nos bastante temperado, de tal modo que os homens que estavam vestidos não precisaram de se despir e os que estavam despidos não careceram de se cobrir18, deixou registrado o piloto – encontrou adeptos até o século XVIII, adeptos como o inglês James Forbes, um amante da história natural que, mesmo passando pelo Rio de Janeiro em pleno verão de 1765, conseguiu notar a suavidade do clima local, sempre ameno e temperado19.

O clima temperado, contudo, é somente um dos muitos traços que os relatos advindos da França Antártica colaboraram ativamente para transformar em lugares comuns das narrativas sobre o Brasil e, paralelamente – tendo em conta o papel crucial das narrativas na invenção ou construção do Brasil pelo Velho Mundo –, do repertório intelectual europeu sobre a região. Os traços, como referimos, são muitos, mas, em linhas gerais, não seria de todo precipitado dizer que o eixo de tal legado está numa oposição simples, que ainda hoje é familiar a brasileiros e europeus. Trata-se da contraposição entre a exuberância e prodigalidade da terra e o caráter vicioso e corrompido dos seus habitantes.

No tocante à terra, como bem destacaram Gilbert Chinard, G. Atkinson, Silvio Zavala,William Bradley, Sérgio Buarque de Holanda e tantos outros, o visitante europeu tendeu a identificar na natureza dos trópicos indícios de um certo paraíso terrestre, indícios como a citada amenidade do clima, o verde eterno das árvores, a abundância de frutas, a fertilidade da terra, a variedade e o colorido dos pássaros e a fartura de águas, em suma, o estrangeiro viu, desde muito cedo, a América portuguesa como o mais belo país que o sol ilumina, para usar uma ilustrativa asserção de um oficial francês que por aqui passou em 175720.

Cedo, todavia, aparece o contraponto dessa terra tão pródiga e benevolente, o seu habitante: rude, pouco obreiro e corrompido moralmente. A princípio, tal ser decaído encarnou no nativo, no nativo desconhecedor da religião, da lei e da moral, irrecuperável para a humanidade mesmo através do poder de Deus, como salientaram Thévet e Barré. O tempo correu, a terra passou a ser sistematicamente colonizada por europeus, mas a má fama dos seus habitantes não desapareceu, migrou, colou-se ao colono branco – indolente e promíscuo –, ao escravo negro – bárbaro e boçal – e ao mestiço – resultado vivo da mistura de sangue e da corrupção dos costumes. Recorro uma vez mais ao citado oficial francês que, logo depois de traçar o sonoro elogio ao país visto há pouco, explicou aos seus leitores que a população do lugar, ao menos a do litoral, era composta por brancos, mas que havia um número inacreditável de negros e mulatos no país, e complementou:

A cada dia que passa, o sangue mistura-se mais e mais, pois o clima e a ociosidade tornam o povo fortemente inclinado à libertinagem. A ociosidade, a propósito, passa, entre eles, por sinal de dignidade, pois jamais pensam no bem comum, agindo somente em proveito próprio. E isso num país que oferece tudo sem muito esforço. Todos querem ser nobres e gostam de mostrar desprezo pelas atividades produtivas, como se o trabalho honesto tornasse o homem menor. Eles levam tal comportamento tão longe que coisas simples como dar ordens aos escravos e fiscalizar o seu trabalho parecem-lhes contrárias à grandeza e à opulência que ostentam21.

Pode-se, e com razão, argumentar que, entre a imagem pintada dos índios pelos participantes da França Antártica e aquela traçada dos colonos e escravos pelas narrativas posteriores, há mediações e descontinuidades. Pode-se argumentar, igualmente, que o índio não desempenhou somente, no repertório intelectual europeu, o papel de um bárbaro dado à antropofagia, que, sobretudo a partir de Léry e da leitura que fez de seu relato o pensador Michel de Montaigne, o nativo desempenhou também às vezes de – e perdoem o anacronismo, já que o conceito é do século XVIII – bom selvagem22. Pode-se argumentar ainda, e há toda uma historiografia americana empenhada nisso, que a imagem construída pelos europeus dos habitantes do Novo Mundo está eivada de eurocentrismo e exagero23.

Creio, porém, que tais restrições não são incontornáveis e não refutam o que foi dito. É verdade que, entre a construção da imagem do índio e a do colono branco, há mediações a serem observadas, não detecto, todavia, qualquer ruptura ou fuga de padrão nos cerca de 300 relatos sobre o Brasil que pude analisar – relatos produzidos entre os 1500 e 1808. Ao contrário, observo uma gradativa, suave e quase imperceptível substituição do índio – um ausente, é bom salientar, das xeno-narrativas sobre o Brasil dos séculos XVII e XVIII – pelo colono dos trópicos, herdeiro do barbarismo nativo e quase tão estranho ao europeu quanto o primeiro. Tem-se a impressão de que, aos olhos do visitante, ambos subsumiam a um único e mesmo conceito: o de exótico habitante do Novo Mundo.

Quanto à linhagem que desembocará no bom selvagem de Rousseau (da qual o Montaigne leitor de Thévet, Barré e Léry é, sem dúvida, um dos iniciadores e talvez o maior divulgador), há de se levar em conta que a sua vida nas narrativas de viajantes sobre o Brasil é curtíssima. Relatos do final do século XVI, como os de Knivet e Cavendish24, já não trazem uma visão muito simpática dos nativos e os que se seguiram ou não os mencionam – convém não esquecer de que são narrativas escritas por homens que visitaram somente as cidades do litoral e, muitas vezes, não chegaram a ver nem um único nativo – ou se referem a eles com desprezo, como é o caso do aventureiro inglês Richard Flecknoe, que passou pelo Brasil em 1657 e deixou registrado a seguinte opinião sobre aqueles que denominava índios do Brasil

se (...) pudéssemos associar a cada povo um animal que melhor ilustrasse as suas características, diríamos que esses brasileiros são como asnos: indolentes, fleumáticos e só aproveitáveis para o labor e para a escravidão, daí a natureza não ter dotado este país de nenhum animal de carga25.

Uma visão mais simpática dos primeiros habitantes da terra só reaparecerá nas páginas da literatura de viagem do Oitocentos, mas essa é outra história, separada desta que percorremos, agora sim, por uma ruptura.

Mais delicado é o problema do quantum de veracidade que se pode atribuir a tais relatos, relatos muito marcados por lugares comuns, por apropriações mais ou menos declaradas de outros relatos, por notas de segunda mão sobre lugares não vistos e, sobretudo, pelo que mais tarde, muito mais tarde, se convencionou chamar eurocentrismo. A meu ver, melhor, do ponto de vista de onde interrogo os relatos de viagem, um ponto de vista que muitos poderiam identificar com um certo antiessencialista pós-moderno, quase sofista, esta é uma questão pouco interessante.

O que interessa, realmente, creio, é saber que colônia e que colonos esses relatos construíram para o público europeu durante três longos e decisivos séculos que se seguiram ao feliz desvio da frota cabralina, séculos em que se consolidaram certas percepções acerca do Novo Mundo, as quais, como bem sabemos, tiveram vida longuíssima na cultura ocidental.

Uma espécie de invenção do Brasil e dos brasileiros pelo europeu? Invenção ou construção, compartilho com certas linhagens de pensamento a crença (?) em que os discursos criam os objetos que põem em cena – nada a ver, é certo, com a não existência da realidade ou qualquer outra cantilena do gênero – e, consequentemente, a crença em que o vocabulário inventado pelos habitantes do Velho Mundo para descrever os habitantes do Novo Mundo desempenhou um papel sobremodo importante não somente no modo como os europeus agiram em relação à América, mas sobretudo na maneira como nós, habitantes da América Austral, construímo-nos a nós próprios. Aloja-se aí, quem sabe, a ligação mais viva que ainda hoje nós brasileiros guardamos com a malograda passagem dos franceses pela baía de Guanabara, com a tão curta mas sempre lembrada experiência da França Antártica.

Notas

Revista de História - UNESP

No rascunho do Novo Mundo: os espaços e os personagens da França Antártica


No rascunho do Novo Mundo: os espaços e os personagens da França Antártica

Paulo Knauss
Departamento de História – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia – UFF – 24210-380 – Niterói – RJ – Brasil. E-mail: pknauss@uol.com.br

RESUMO


O trabalho aborda a história do empreendimento colonizador francês na área da baía de Guanabara que se desenvolveu entre 1555 e 1560, conhecida pelo nome de França Antártica. A experiência francesa foi derrotada pela reação militar portuguesa, definindo um contexto de disputa colonial. A partir dos conflitos internos da empresa colonial francesa, a análise desenvolve a identificação de diferentes grupos na colônia francesa que se caracterizavam pela afirmação de projetos coloniais distintos, o que permite reconhecer 3 partidos da França Antártica. A análise considera que os projetos políticos se dividiam entre a questão do Estado, da religião e dos índios, identificando o sentido de cada um dos grupos constituídos entre os franceses. O argumento permite abordar a questão da localização de Henriville, a cidade colonial francesa, demonstrando que o domínio do espaço se traduziu como expressão dos projetos coloniais que se articularam nas terras do Novo Mundo. A pesquisa faz uso dos documentos da Inquisição portuguesa para identificar trajetórias individuais que não foram tratadas pela historiografia sobre a França Antártica.

A França Antártica pode ser tratada como um evento de curta duração e, nesses termos, como fato efêmero da história colonial. Mesmo admitindo esse ponto de vista, há que se reconhecer sua intensidade.

Entre 1555 e 1560, os acontecimentos em torno da ocupação francesa na Baía de Guanabara entrelaçaram diferentes fatos que caracterizam a historicidade da empresa colonizadora, demarcando o evento como expressão do seu tempo. Desse modo, destaca-se a liderança do comandante Nicolas Durand de Vilegagnon, cavaleiro da Ordem Malta, com voto de castidade e pobreza, assim como chama atenção a participação de protestantes franceses, conhecidos como huguenotes. As disputas religiosas européias transferiram-se para as terras do Brasil, instalando-se na Guanabara. A França Antártica representou um exercício de construção do mundo colonial, e as querelas que a envolveram permitem identificar diferentes projetos que rascunharam o Novo Mundo.

Levanto a hipótese de que no contexto da França Antártica, é possível observar três partidos que podem ser reconhecidos pelos seus personagens de destaque e igualmente por seus espaços.

Vasco Mariz, o conhecido biógrafo de Villegagnon, que tem insistido em afirmar a importância de Henriville, apresentando as evidências que comprovam a existência da "primeira aglomeração urbana européia", como ele diz. Depois dos franceses terem se estabelecido na atual ilha de Villegagnon, onde em 1555 instalaram o forte Coligny (onde hoje se localiza a Escola Naval), o comando francês teria ordenado em 1556 a construção de outro estabelecimento francês no continente, junto à foz do rio Carioca. Como anota Vasco Mariz, a história da cidade do Rio de Janeiro poderia ser pensada como a história de Buenos Aires, que tem dois processos de fundação e dois fundadores. Implícita nesse discurso está a idéia de colocar Villegagnon ao lado de Estácio de Sá no panteão da cidade. Contudo, a reação militar portuguesa contra os franceses na baía de Guanabara, sob as ordens de Mem de Sá, acabou com a presença francesa na região em 1560.

Segundo as indicações de André Thevet e as pistas das cartas de Villegagnon, Henriville estava localizada ao lado da foz do rio Carioca, que, antes dos sucessivos aterros, estaria situada hoje, ao final da Rua Barão do Flamengo. A posição era estratégica, pois a ilha não tinha fonte de água, e a localização de Henriville permitiria acesso a um manancial seguro aos franceses. Nas obras de André Thevet, o frade franciscano que ficou famoso por suas crônicas do Novo Mundo e da França Antártica, estão incluídos os conhecidos mapas da região, que surgiram depois de o franciscano ter acompanhado a primeira expedição francesa que chegou à Baía de Guanabara em 1555. Além disso, o local foi mencionado na carta de Villegagnon ao Duque de Guise, em 1557, a qual se encontra no Museu Naval do Rio de Janeiro, e também em panfleto de Pierre Richer, um dos líderes calvinistas que estiveram na ilha e que escreveu contra Villegagnon.

A referência permite que se reconheça a importância de Henriville para a interpretação dos acontecimentos, que se completam com a história da fundação da cidade do Rio de Janeiro. O domínio do espaço é uma expressão de como os projetos coloniais se articulam à terra do Novo Mundo.

Como indica o próprio Vasco Mariz, defensor da existência de Henriville, há quem discuta a existência de Henriville, como era o caso de Jean de Léry, outro conhecido cronista da França Antártica huguenote. Mesmo que a observação de Léry não seja verdadeira, mais importante é o fato de que Henriville representa o resultado do exercício de comando da França Antártica, a partir da liderança do cavaleiro da Ordem de Malta, Nicolas Durand de Villegagnon. A cidade projetada seria a sede da colônia francesa e se distinguiria do estabelecimento na ilha, que hoje chamamos de Villegagnon. As bases da vida na ilha dependiam dos indígenas por razões de abastecimento, tornando a ocupação vulnerável e dependente da gente nativa, ainda que servisse como abrigo militar e porto seguro, função importante para a realização do comércio colonial.

A carta de Villegagnon dirigida ao Duque de Guise, anotada a partir de Henriville, pode esclarecer o argumento. É possível colocar-se em dúvida o conteúdo da carta que certamente exagera o domínio francês sobre a área e sobre os indígenas. Porém, como projeção, Villegagnon apresenta sua empresa colonial como o centro de controle militar das terras da região da baía de Guanabara, e que tinha Henriville como eixo principal. Segundo o comandante francês, haveria em frente ao seu castelo de armas na ilha, um fortim de madeira com 60 homens no continente, que estariam dedicados também à pratica da agricultura, e ele anotou: "para viverem de seu trabalho". Em seguida, o cavaleiro francês anotou que tinha um plantel de 60 escravos de nativos, recolhidos em combates com inimigos. E escreveu ainda sobre o controle de fronteiras por meio de visitas repetidas à costa que ele teria ordenado, para estabelecer contato com "amigos de nossos vizinhos". Na carta, Villegagnon sustentava, igualmente, poder contar com um exército de mais três mil homens com base em forças indígenas aliadas. No horizonte, a carta se completa com a idéia de preparar expedições para encontrar o caminho para o Peru em busca de metais.

Estas notas da carta de Villegangon permitem caracterizar Henriville como projeto político. Observa-se que o projeto de cidade se organizava na apresentação do comandante como um povoamento protegido pelo seu caráter militar, mas também pela sua capacidade econômica, articulada pela produção voltada para garantir subsistência. A escravidão de nativos aparecia como possibilidade para sustentar a colonização com a mão-de-obra necessária à colonização européia. O vínculo entre a dimensão militar e econômica garante a fonte dessa mão-de-obra que vinha da capacidade militar e diplomática dos franceses de se envolverem nas rivalidades indígenas. Complementava esse quadro o fato da colônia surgir como ponta-de-lança do controle de fronteiras e de acesso aos caminhos que levavam às riquezas, representadas pelos metais andinos. A interlocução privilegiada com o Duque de Guise – personagem da Igreja Católica e da política na França – confirma a marca de Estado de Henriville e de seu comandante. O quadro permite reconhecer um projeto estruturado para a exploração colonial em favor do fortalecimento do Estado. Henriville deveria ser a tradução do poder colonial francês, tal como o seu nome traduzia por sua identificação com o monarca chefe de Estado, Henrique II.

Paradoxalmente, a Henriville afirmada na descrição epistolar da França Antártica de Villegagnon é negada na crônica protestante da França Antártica de Jean de Léry, um dos cronistas da empresa colonial francesa que chegou à Baía de Guanabara em 1557, na 2ª expedição comandada por Bois-Le-Comte, sobrinho de Villegagnon, e que trouxe para a França Antártica calvinistas, seguidores do movimento da reforma religiosa de Genebra. O cronista representa o ponto-de-vista huguenote, importante, sobretudo, depois da querela religiosa que dividiu o empreendimento colonizador francês.

Segundo narra o próprio Jean de Léry, a França Antártica dividiu-se após duas ceias, quando se desenvolveu uma disputa teológica entre o comandante Villegagnon, os pastores huguenotes e Jean Cointa, Senhor de Bolès, reunindo assim os homens de saber da colônia francesa. O último era um homem de armas e letrado, que, segundo o cronista, dizia-se doutor da Sorbonne; e os pastores possuíam reconhecida formação teológica. Villegagnon, por seu turno, era não apenas investido como Cavaleiro da Ordem de Malta, mas também havia sido antigo colega de universidade de João Calvino. O encontro destes personagens conduziu a uma discussão doutrinária tensa acerca da transubstanciação e consubstanciação do pão e do vinho da eucaristia. Segundo Léry, a discordância teológica revelou a posição clara dos ministros protestantes de que a máxima "este é o meu corpo, este é o meu sangue" era uma imagem figurada. Ao contrário, Villegagnon e Cointa consideravam-na válida pelo efeito mágico que promovia ao estabelecer o contato com o corpo e com o sangue de Cristo.

Interessa aí destacar o fato de que a querela teve conseqüências ao dividir a colônia em grupos identificados por suas lideranças, ou três partidos coloniais, como prefiro dizer: o partido de Villegagnon; o partido dos pastores calvinistas; e o partido de Jean Conta, Senhor de Bolès. Cada um desses grupos se recolheu em áreas diferentes da França Antártica. Cada um desses grupos se identifica por suas lideranças, mas igualmente pelos espaços diferentes da França Antártica que terminaram constituindo.

O partido de Villegagnon, identificado pelo projeto de Henriville, manteve-se na ilha com o comandante e pressupondo sua hegemonia sobre os nativos da terra.

O grupo liderado pelos calvinistas terminou se retirando para o continente, localizando-se no local que Léry chamou de La Briqueterie , ou a Olaria. Chama atenção o fato de que todas as indicações do cronista apontam para que este espaço estivesse no mesmo lugar que a Henriville projetada. O cronista genebrino não reconhecia o lugar pelo mesmo topônimo, nomeando de outro modo a mesma terra. É possível que a confusão fosse provocada pela evidência de que no lugar havia mesmo uma olaria – aliás, elemento importante para expansão da infra-estrutura básica do projeto colonial no continente. No entanto, mais do que uma mentira, o topônimo acentuado por Léry, nega o sentido do projeto colonial de Henriville e fixa outra projeção sobre o espaço colonial. Assim, a afirmação de outro nome para caracterizar o mesmo lugar pode ser vista pela intenção de atribuir ao espaço outro sentido como forma de traduzir um projeto colonial particular. O topônimo escolhido identifica uma atividade humana local, e não alude à presença monárquica de Estado europeu. O nome separa a terra de sua identidade de Estado e da continuidade das estruturas do Velho Mundo. Ocorre aí um contraste, que demarca o sentido político de um projeto colonial huguenote. Tal projeto se estrutura ainda pelo fato de os calvinistas franceses permanecerem nesse sítio, ao menos na crônica de Léry, separados de outros franceses não-calvinistas e evitando compartilhar a vida com a gente nativa da terra, formando um grupo individualizado. Em relação aos nativos, os huguenotes praticavam uma pedagogia da conversação, tal como indica Frank Lestringant, que caracterizava um diálogo de consciências e permitia uma convivência sem que os mundos sociais se mesclassem, mantendo a devida distância entre o cristianismo dos europeus e o gentilismo dos nativos da terra do Novo Mundo. Essa distância, no entanto, não impediu que os huguenotes contribuíssem decididamente para a elaboração dos traços do bom selvagem ao caracterizar o indígena e relativizar a civilização européia. O reconhecimento da diferença, porém, certamente foi decisivo para que os huguenotes, ao abandonarem a ilha da colônia francesa, escolhessem um lugar à parte no continente, evitando compartilhar a vida com os nativos.

Por fim, o terceiro partido que se formou no seio da França Antártica identificou-se pela liderança de Jean de Cointa, ou Senhor de Bolès. Ainda que nos faltem elementos para caracterizar quantos homens compunham este grupo, sabemos que se retiraram da ilha sob o comando de Villegagnon, mas também não foram compartilhar a convivência com o grupo liderado pelos pastores protestantes. Os homens deste grupo juntaram-se aos índios do continente, passando a viver sob as condições de vida da gente da terra. Aproximaram-se, então, da gentilidade, expressão de época que caracterizava a marca da adoção dos hábitos indígenas. Nessa atitude poderiam lembrar a figura dos intérpretes, que tiveram papel-chave na realização do escambo colonial. Mas, neste caso, a recusa ao comando colonial e a busca de soluções individuais permite antes associar o grupo aos desertores, personagens típicos das empresas de navegação colonial, que preferiam a aventura individual de embrenhar-se no Novo Mundo a permanecer, ou retornar, às estruturas sociais do Velho Mundo.

A trajetória de Cointa pode caracterizar um modo particular de elaborar um projeto colonial como projeto individual, independente do Velho Mundo, e autônomo em relação a estruturas sociais abrangentes. João de Cointa entrou para os anais da história ao ser envolvido em um processo inquisitorial, deixando o registro de sua experiência pessoal. Depois de romper com o comando de Villegagnon, foi viver entre os índios tamoios, e ao acompanhar um dos confrontos militares dos índios com as forças lusitanas mais ao sul, terminou passando para o lado dos portugueses, indo ficar algum tempo em São Vicente. Como informante, colaborou com as forças lusitanas para o derradeiro ataque militar às forças francesas da baía de Guanabara em 1560. Porém, o personagem terminou sendo denunciado ao Santo Ofício, sendo envolvido na malha da Inquisição portuguesa. Transferido para Lisboa, o francês terminou seus dias Goa, conectando as partes do império colonial lusitano.

A leitura dos autos de seu processo inquisitorial permite destacar um enunciado: a curiosidade. O mesmo enunciado que aparece na relação da expedição de Gonneville de 1503, conectando também personagens de saberes diferentes, mas que aparecem reunidos na leitura de seus depoimentos. Talvez, possamos localizar aí o sentido de seu projeto colonial individual. Seu espaço, se num primeiro momento foi o espaço dos índios, noutro momento pode ser o dos portugueses. Movido pela curiosidade, o João de Cointa, ou João de Bolès, dos autos da Inquisição portuguesa, era movido por um projeto desgarrado de ordens coletivas e estruturas sociais, em busca de um espaço próprio de mobilidade social. Lucien Febvre, em uma das passagens de sua obra, caracteriza o século XVI como o tempo em que a Igreja se imiscui em tudo. Considerando que os vínculos entre religião e Estado eram fortes naquele tempo, pode-se imaginar que o espaço de mobilidade individual que conduzia o desertor, ou a gentilidade, ou a curiosidade era um espaço não dominado pelo Estado ou pela Igreja.

Por meio da Inquisição portuguesa é possível conhecer ainda outro personagem da França Antártica. Aliás, sua indicação consta no livro da Primeira Visitação do Santo Ofício ao Brasil, conhecido também como Confissões da Bahia. Nesse livro há referência a três franceses denunciados, entre um número ainda maior de estrangeiros, que se constituíram sempre, de acordo com as conjunturas em objeto da Inquisição portuguesa, tal como se verifica em pesquisa de Isabel Braga. Entre eles, há menção ao caso de Pero da Vila Nova, um francês nascido em Provins, suposto filho do cavaleiro Nicolau de Colenhi. Notam-se nestas referências certas raras coincidências, pois a cidade indicada como lugar de nascimento de Vila Nova é a mesma cidade de Villegagnon. Além disso, a indicação da paternidade sugere parentesco com o almirante Coligny, mas que não tinha o pré-nome indicado. O pré-nome indicado, no entanto, era o mesmo de Villegagnon. Observa-se, portanto, uma possível confusão de dados, no que se refere à caracterização do denunciado da Inquisição. Certo é que se tratava de um francês que se encontrava vivendo no Brasil em 1592, época de sua confissão. Vivia como morador de Sergipe do Conde, tinha cerca de 55 anos, e era casado com Leonor Marques de Mendonça, cristã-velha.

Segundo os autos do processo de Pero de Vila Nova, existentes na Torre do Tombo, importa ressaltar o fato de que o francês veio para o Brasil em 1557, na 2ª expedição de colonos da França Antártica, quando tinha cerca de 20 anos, quando conviveu com "luteranos", como se menciona em termo genérico nos autos os calvinistas protestantes. Em sua confissão, consta que teria vivido na ilha do forte Coligny cerca de 11 meses. Segundo os autos, depois de conviver sob imposições dos chamados "luteranos", o depoente menciona a mesma querela sempre citada sobre o pão e o vinho e que dividiu a colônia. Pero de Vila Nova abandonou a ilha e passou nove ou dez meses vivendo com os índios, chamados "negros gentios" no processo, antes de "fugir para os cristãos portugueses", tal qual consta nos autos. Pero de Vila Nova repete o percurso de João de Bolès, acompanhando os mesmos passos. Porém, demorou a ser pego pela Inquisição, e terminou sendo liberado ao final do processo com a pena de fazer a abjuração de Levi e com a obrigação de se confessar, devendo respeitar as penas colocadas por seus confessores.1

Em sua confissão, menciona ainda dois outros nomes, Martim Paris e André de Fontes, que também teriam ficado no Brasil. O primeiro, segundo consta, diziam estar casado, vivendo no Rio de Janeiro, e o segundo, também casado, residindo em São Vicente. Estes nomes se caracterizam pela ausência da marca do personagem do saber, por contraste com as lideranças da França Antártica. Não há notícias de que tenham estudado em universidade, ou que tenham tido formação teológica específica. Nesse sentido, distinguem-se de Villegagnon, Richer e Cointa. Mas possuem uma característica inusitada: estabeleceram-se e enraizaram-se nas terras do Brasil, encontrando o seu lugar nos interstícios do mundo colonial português. Sem lugar para um projeto colonial arquitetado pelo discurso intelectual, estes homens comuns da colonização da terra do Brasil ocuparam um espaço social próprio no Novo Mundo que se constituía como rascunho de um processo histórico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drummond. Os estrangeiros e a Inquisição portuguesa (século XVI-XVIII). Lisboa, Hugin, 2002.
KNAUSS DE MENDONÇA, Paulo. O Rio de Janeiro da pacificação: franceses e portugueses na disputa colonial. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade, 1991. (Bilbioteca Carioca).
LESTRINGANT, Frank. Le huguenot e le sauvage: l´Amérique et la controverse coloniale; au temps des guerres de religion. Genève, Droz, 2004.
MARIZ, Vasco & PROVENÇAL, Lucien. Villegagnon e a França Antártica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
VAINFAS, Ronaldo (org.). Confissões da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Revista de História - UNESP

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Como a França moldou o Brasil


Como a França moldou o Brasil
Apesar do fracasso em ocupar o território da antiga colônia portuguesa, os franceses exerceram uma influência decisiva na formação brasileira
por Laurentino Gomes
Este é o Ano da França no Brasil. De 21 de abril até novembro, brasileiros de 15 cidades poderão ver o que os franceses têm de melhor. A lista inclui exposições de arte, concertos musicais, espetáculos de dança, teatro e cinema, debates e celebrações. É parte de um projeto ambicioso de intercâmbio, que começou em 2005, comemorado como o Ano do Brasil na França, com o objetivo de mostrar as novidades da cultura dos dois países.

Essa história é bem mais antiga do que se imagina. Envolve uma relação de confronto e sedução de parte a parte, que acabaria por moldar de forma decisiva a identidade brasileira. Nos bistrôs e cafés parisienses, a música brasileira é onipresente. Os franceses adoram o samba, o carnaval, a literatura e o cinema brasileiros. O escritor Paulo Coelho é mais celebridade nas ruas de Paris que no Rio de Janeiro. Mas a França já era obcecada pelo Brasil antes mesmo da chegada de Pedro Álvares Cabral à Bahia. A recíproca se provaria verdadeira ao longo dos cinco séculos seguintes. Atualmente, os brasileiros fazem negócios com os Estados Unidos, mas cultuam a gastronomia, a moda, a arte e os prazeres da vida franceses.

No período colonial, o Brasil deixou de ser francês por pouco. Foram os franceses que precipitaram a decisão do rei dom João III (1502-1557) de criar, em 1534, o sistema de capitanias hereditárias, o primeiro esforço de povoamento do Brasil. Nas primeiras décadas do século 16, franceses exploravam pau-brasil no litoral do Nordeste como se fossem donos do território. Há evidências de que já conheciam a costa brasileira bem antes de 1500. Um deles, Jean de Cousin, teria tentado se estabelecer na Amazônia em 1488.

A guerra entre França e Portugal pela posse do Brasil durou mais de dois séculos. O primeiro confronto de que se tem notícia aconteceu em novembro de 1529, quando a nau La Pellérine invadiu a feitoria do rio Igaraçu, em Pernambuco, onde os portugueses tinham uma pequena fortaleza. Os franceses foram expulsos em 1532 pelo comandante Pero Lopes de Sousa (1497-1539). Meio século mais tarde, em 1550, Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571) ocupou o Rio de Janeiro por 12 anos, até ser derrotado por Mem de Sá (1500-1572). Em 1612, outra tentativa de ocupação, dessa vez no Maranhão, reconquistado após dois anos por Jerônimo de Albuquerque (1510-1584). No começo do século 18, haveria ainda mais duas investidas de corsários franceses contra o Rio. A última ocorreu em 12 de setembro de 1711. Ao amanhecer, encobertas pelo denso nevoeiro, 18 embarcações comandadas por René Duguay-Trouin (1673-1736) tomaram a cidade. Trouin foi embora em troca de um grande resgate pelos bens que havia saqueado.

Marcas culturais

Cessada a luta pela ocupação territorial, a influência francesa no Brasil se daria no campo das artes, dos costumes e das ideias. As consequências seriam profundas e duradouras. Seu marco foi a transferência da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte (1769-1821). Ao chegar ao Brasil, dom João VI (1767-1826) iniciou um acelerado período de transformações. O esforço não foi apenas administrativo. Enquanto mandava abrir estradas, construir fábricas e organizar a estrutura de governo, dom João também se dedicava ao que o historiador Jurandir Malerba chamou de "empreendimentos civilizatórios". Nesse caso, a meta era promover as artes e a cultura e tentar infundir algum traço de refinamento e bom gosto nos hábitos atrasados da colônia.

A maior dessas iniciativas foi a contratação, em Paris, da famosa Missão Artística Francesa. Chefiada por Joaquim Lebreton (1760-1819), secretário perpétuo da seção de belas-artes do Instituto de França, a missão chegou ao Brasil em 1816 e era composta por alguns dos mais renomados artistas da época, incluindo o pintor Jean-Baptiste Debret (1768-1848), Auguste Taunay, escultor (1791-1687), e Grandjean de Montigny (1776-1850), arquiteto.

Oficialmente, o objetivo da missão francesa era a criação de uma academia de artes e ciências. O plano nunca saiu do papel, mas alguns historiadores consideram a chegada da missão o início efetivo das artes no Brasil. Na época da corte, a influência francesa era marcante no Rio de Janeiro. As lojas estavam repletas de novidades que chegavam de Paris. Incluíam vestidos e chapéus da última moda, perfumes, água-de-colônia, luvas, espelhos, relógios, tabaco, livros e uma infinidade de mercadorias até então proibidas e ignoradas na antiga colônia.

Mas foi no campo das ideias que os franceses mais ajudaram a transformar o Brasil. Elas estavam por trás da Inconfidência Mineira, da Revolta dos Alfaiates na Bahia, da Revolução Pernambucana de 1817, da Confederação do Equador, em 1824, e de inúmeros outros movimentos de rebelião. Nos Autos de Devassa da Inconfidência foi encontrada uma coleção dos enciclopedistas francesas na casa de um dos conspiradores. Isso num tempo em que a circulação dessas obras era reprimida. O movimento da Independência, em 1822, foi tramado, em boa parte, dentro das Lojas Maçônicas, que tinham seu berço na França.
Em resumo: às vésperas de sua independência, o Brasil dormia com o autoritário e conservador Portugal, mas sonhava mesmo era com a charmosa e libertária França.

Saiba mais

LIVROS

Capítulos da História Colonial, Capistrano de Abreu, Civilização Brasileira, 1976
Descreve a sociedade brasileira em formação.

Brasil 5 Séculos, Hernâni Donato, Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes, 2000
Um passeio pela história do Brasil até os dias atuais.

A Corte no Exílio, Jurandir Malerba, Companhia das Letras, 2000
Relata o encontro dos nobres com os comerciantes locais.

Versalhes Tropical, Kirsten Schultz, Civilização Brasileira, 2008
Analisa o impacto da mudança da corte para o Brasil.

Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808), Ronaldo Vainfas (org.), Objetiva, 2000
Descreve os hábitos públicos e privados do Brasil Colônia.

Revista Aventuras na História