quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Notícias História Viva
Peste se propagou pelo mundo há 2.000 anos a partir da Ásia
Notícias História Viva
terça-feira, 6 de março de 2012
O mundo no tempo das pestes
O mundo no tempo das pestesAo longo da História, as epidemias provocaram mais mortes do que todas as guerras. A descoberta dos antibióticos diminuiu esse risco até a chegada da Aids, que ainda desafia os remédios
Lúcia Helena de Oliveira e Regina Prado
Nos países industrializados, os problemas cardíacos e o câncer formam uma dupla campeã de causa de mortalidade, devido aos hábitos e, ironicamente, à longevidade conquistada pelo homem moderno. Pois essas doenças degenerativas precisam de um tempo maior para se desenvolverem. E, até o início deste século, as pessoas costumavam morrer antes desse prazo, infectadas por parasitos de toda espécie. Contudo, apesar de provocarem um menor número de vítimas hoje em dia, as doenças infecciosas continuam a atemorizar, talvez por serem as únicas transmissíveis de uma pessoa para outra. A compreensão das infecções começou a avançar para valer em 1348, quando estourou a chamada Peste Negra na Europa. Foi uma dura lição: em apenas dois anos, morreu de peste um quarto da população do continente, estimada em 102 milhões de habitantes. Naqueles tempos, acreditava-se que até o olhar de um doente podia contaminar alguém.
Esta, ao menos, era a convicção dos mais céticos. Porque, para a maioria das pessoas, uma epidemia — ou seja, o surto de uma doença infecciosa — era um castigo divino, que vinha diretamente do céu ou, quem sabe, do inferno.Por isso, no auge da epidemia de peste, o papa Clemente VI conclamou os fiéis de toda parte a pedir clemência em Roma. “Acredita-se que 1,2 milhão de peregrinos tenham atendido ao pedido”, informa o epidemiologista Afonso Dinis Costa Passos, professor da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, interior do Estado. “Mas, no meio do caminho, nove em cada dez pessoas caíram mortos. Quem chegou em Roma, por sua vez, não viu o papa, que preferiu ficar encarcerado, com medo de se transformar em mais uma vítima.” Fugir literalmente das doenças era a única terapia eficiente no passado: o escritor italiano Giovanni Boccaccio (1313-1375), em um dos contos de seu célebre Decamerão, relatou que sete donzelas e três rapazes se refugiaram em uma casa de campo, para se prevenir da peste em Florença; ali ficaram, durante mais de mil e uma noites, inventando histórias para passar o tempo.
Entre os séculos XIV e XVIII ocorreram nada menos que dez pandemias, ou seja, a doença se espalhou pelo mundo inteiro. Ao primeiro sinal da peste nas cidades, os ricos escapavam para o campo e eram, geralmente seguidos pelos médicos, que precisavam de pacientes endinheirados para pagar por seus serviços. “A doença, em uma etapa inicial, era transmitida pelos ratos, infectados pelo bacilo Yersinia pestis”, explica Passos. Em Veneza, aliás, por volta de 1350, as pessoas já desconfiavam do papel sinistro dos roedores. Daí, quando um navio chegava do Oriente, os passageiros ficavam retidos na embarcação durante quarenta dias, por causa da possibilidade de os porões esconderem ratos clandestinos. Passado esse período, se não havia sinal da peste, o capitão hasteava uma bandeira branca na proa: estava criada a quarentena, conhecida até hoje. Baixo e calvo, o epidemiologista tem mania de organização; por isso, redigiu de maneira clara as formas de contaminação de diversas doenças — “antes de cursar Medicina, queria ser jornalista”.
Segundo Passos, o bacilo da peste, ao infectar o organismo humano, se aloja nas células dos gânglios linfáticos que, aproximadamente, dois dias mais tarde ficam inflamadas, formando ínguas ou bubões — eis a razão do nome peste bubônica. “Mas, em uma segunda fase da moléstia, as bactérias escapam pelas secreções do nariz. Então, torna-se possível a transmissão entre pessoas”, descreve o médico, com a fala mansa. “Havia lógica, portanto, no movimento de fuga das cidades: a aglomeração urbana oferecia mais riscos do que a vida no campo." Ao observar que a proximidade tornava a contaminação viável, o francês Charles Delorme (1584-1678), médico de Luis XIII, defendeu o uso de vestimentas especiais, durante uma epidemia de peste em Marselha. Ele criou, assim, o primeiro uniforme de médico, nada parecido, aliás, com o tradicional avental branco: o modelo escuro exibia uma máscara na forma de bico, que continha substâncias aromáticas.
“Na época, prevalecia a corrente miasmática, ou seja, acreditava-se que as doenças eram como seres malcheirosos, que se incorporavam em uma pessoa através do ar”, conta o médico Emerson Elias Mehry, professor da Universidade de Campinas. Miasma, por sinal, é o odor de animais e plantas em putrefação. Barbudo, com olhos azuis brilhantes, Mehry divide o seu dia-a-dia entre organizar programas de saúde pública e estudar a história da Medicina, sobre a qual escreveu diversos trabalhos. “O que conhecemos como clínica médica surgiu há apenas cerca de 200 anos. Até então, os tratamentos eram quase sessões de exorcismo”, diz ele. De fato, os médicos jogavam baforadas de fumaça, produzida pela queima de tabaco, para expulsar a peste de seus pacientes. E, se o doente morria, os coveiros fumavam cachimbo, na hora de enterrar o corpo. Mesmo com toda essa suposta proteção, os médicos preferiam manter distância e lancetavam os bubões dos doentes com facas que podiam medir até 1,80 metro. Graças à habilidade com as lâminas, eles na maior parte das vezes acumulavam as funções de cirurgião e barbeiro.
Só em 1890, o pesquisador suíço Alexandre Yersin (1863-1943) e o japonês Shibasaburo Kitasato (1856-1931) descobriram, em Hong Kong, o bacilo causador da peste. Na realidade, o Yersinia pestis não surgiu de repente, isto é, já existia muito antes das epidemias medievais. Há indícios de que a maioria dos agentes infecciosos conhecidos hoje convivem com o homem desde a Pré-história. Por incrível que pareça, apesar dos danos que provocam à nossa vida, esses microorganismos são os maiores derrotados na batalha pela sobrevivência. Pois os parasitos bem-adaptados ao longo da evolução não matam seus hospedeiros, numa atitude suicida, como fazem os infecciosos. Por sinal, é provável que alguns destes tenham, primeiro, infectado bichos; mas, quando o homem passou a domesticar animais, esses microorganismos passaram por mutações genéticas, a fim de aproveitar a oportunidade de parasitar outra espécie — a humana. Estudos na área da Genética mostram que o vírus do sarampo, por exemplo, é descendente direto do vírus da raiva nos cães. Já o vírus da gripe tem um parente próximo, que prefere infectar os porcos. A varíola, por sua vez, seria similar a uma moléstia típica das vacas.
Mas, pior do que a passagem do bicho para o homem — que pode levar milhares de anos — é a contaminação de um ser humano por outro ser humano, que costuma ser imediata. Uma prova disso é a expansão dos povos mediterrâ-neos que, de acordo com os historiadores, coincidiu com uma série de registros de epidemias. Por volta do ano 500 a.C., esses povos aprenderam a navegar. Antes, cada cidade, isolada, tinha doenças locais, às quais as pessoas estavam adaptadas de alguma maneira. Elas, até então, se deslocavam por terra. Ou seja, se um viajante adoecia no caminho, tinha grande probabilidade de morrer antes de terminar o trajeto. No entanto, com a velocidade das travessias por mar, em que se percorriam cerca de 100 quilômetros por dia com a ajuda do vento, era possível um doente chegar vivo ao destino — e transmitir a moléstia.
Muito mais tarde, no século XII, por exemplo, a lepra chegou ao Ocidente, no rastro das Cruzadas. Segundo as famosas tábuas de Hamurabi, rei da Babilônia, datadas do século XVIII a.C, a doença existia em sua época, quando desfigurava seus súditos. De fato, o bacilo de Hansen, causador do mal — descoberto apenas em 1873 —, provoca lesões da pele, arrasando com suas terminações nervosas. A aparência das vítimas era assustadora. Por isso, os europeus, espantados com a suposta nova doença, resolveram segregá-las em asilos, os lazaretos, assim chamados porque os primeiros deles surgiram na Ilha de San Lazzaro, perto de Veneza. No século XVIII, somavam-se cerca de 19000 lazaretos na Europa, sempre fora dos portões das cidades.
Eram verdadeiras prisões: bastava uma denúncia e o paciente era obrigado a se apresentar a médicos ou sacerdotes. Uma vez diagnosticada a pretensa lepra, ele recebia um uniforme e uma matraca, que servia para avisar os outros da sua presença, nas raras vezes em que saísse do lazareto, onde estava condenado a passar o resto de seus dias. Freqüentemente, porém, o diagnóstico era um terrível engano. Quando, em 1860, o médico francês Paul Broca examinou os crânios de um antigo cemitério de leprosos, grande parte das lesões encontradas eram sifilíticas. Por esse mesmo motivo, aliás, em 1626, Luís XIII ordenou o fechamento de todos os lazaretos franceses — consta que, quando seus dois médicos particulares resolveram inspecionar um desses locais, não encontraram um leproso sequer.
“Preferimos chamar a doença de hanseníase, para evitar a lembrança desse estigma do passado”, informa o pediatra Wagner Augusto Costa, diretor do Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo. A hanseníase ainda reúne cerca de 15 milhões de vítimas no mundo inteiro. “Mas, por sorte, elas contam com bons remédios, especialmente se o problema for diagnosticado em fase inicial, ou seja, quando a pele perde a sensibilidade ao calor”, diz o médico. Confundida com essa doença, pelas feridas que provoca, a sífilis — infecção transmitida sexualmente, que podia ser fatal até a descoberta da penicilina, há sessenta anos —, irrompeu na Europa quando os conquistadores voltaram da América.
Os primeiros casos aconteceram em Barcelona, em 1493, por isso o mal ficou conhecido como “doença espanhola”. Poucos anos depois, surgia na França e, quando apareceram casos na Alemanha, citavam a “doença francesa”. Como os europeus costumavam viajar para o Oriente, em 1496 já se encontravam sifilíticos na Ásia. O médico alemão Johannes Widmann (1440-1553) reconheceu que as pessoas se contaminavam pelo sexo — uma dedução fantástica, considerando os recursos da época. Em países como a França e a Alemanha, os banhos públicos mistos foram terminantemente proibidos. Mas isso não resolveu o problema das epidemias, já que os marinheiros, na volta de suas viagens, continuavam espalhando a doença.
Como a sífilis, outras doenças fizeram longas trajetórias, acompanhando o homem em suas conquistas. Com isso, pode-se dizer que uma das maiores marcas da Idade Moderna foi a eclosão simultânea de diversas epidemias. Estima-se, por exemplo, que entre os séculos XVI e XVII, na Inglaterra, nove em cada dez mortes eram por doenças infecciosas. Pois, nessa época, ali existiam ao mesmo tempo epidemias de sarampo, cólera, varíola, peste bubônica, sífilis, lepra e tuberculose — era mesmo difícil sair imune. É claro que uma doença surge quando um parasito, para se reproduzir, precisa destruir as células do organismo em que se hospeda — estrago que se reflete nos sintomas da moléstia.
Por sua vez, corre-se o risco de epidemias, se o microorganismo vândalo pega carona no organismo de um viajante — isto faz sentido. Mas, muitas pessoas podem se indagar como, depois de atravessar tantas epidemias, o homem conseguiu sobreviver até a década de 40 deste século, quando se testaram pela primeira vez as drogas antibióticas, capazes de curar todas as infecções, menos as produzidas por vírus. Uma coisa é certa: a cada surto de determinada infecção, os sobreviventes tendem a adquirir anticorpos específicos contra o parasito responsável, surgindo gerações de pessoas cada vez mais resistentes. Além disso, muitas vezes, uma bactéria compete com outra — e, nessa briga, o homem pode sair ganhando.
Durante muito tempo, os cientistas buscaram explicações para o final das reincidências de peste bubônica. Estudos recentes sugerem que as epidemias de tuberculose no século XVIII serviram para imunizar as pessoas contra a peste. Ou seja, os anticorpos que o organismo cria para combater o bacilo de Koch, responsável pela doença pulmonar, eram versáteis o bastante para atacar também a outra bactéria. Mas a tuberculose, embora grave, matava com menos freqüência do que a peste. Esta, infelizmente, teve um substituto à altura: naquele século, eclodiram inúmeros casos de tifo na Inglaterra. Dali, o mal partiu para a América, incluindo o Brasil. Dores de cabeça insuportáveis e febres altíssimas eram queixas comuns nas prisões inglesas.
Transmitido pelo piolho, o tifo resulta diretamente da falta de higiene. A situação piorou quando os soldados de Napoleão, em sua retirada da Rússia, entre 1813 e 1814, espalharam a doença por toda a Europa. Aliás, as guerras facilitam o aparecimento de certas epidemias, como a do tifo. Por sorte, logo em seguida, o estudo das doenças passou por duas verdadeiras revoluções. Isso porque, apesar de as bactérias terem sido descobertas em 1674 pelo microscopista holandês Van Leeuwenhoek, apenas no século XIX o químico e microbiologista francês Louis Pasteur conseguiu provar que os microorganismos são capazes de provocar doenças.“Só então, com o avanço da Bacteriologia, os médicos começam a combater efetivamente as moléstias”, opina Emerson Mehry, da Unicamp. “Antes, determinada doença era encarada como uma série de sintomas, com uma ordem de entrada em cena que, conforme o caso, podia até ser bem conhecida dos médicos”, explica o estudioso da história. “Eles esperavam ou provocavam um por um dos sintomas, de modo que, se passasse o último deles, a doença teria igualmente passado.
”Outro passo importante foi a investigação, realizada em 1842, pelo médico inglês Edwin Chadwick: ele mostrou a relação entre a presença de doenças e as péssimas condições de moradia, a falta de esgotos, a ausência de água limpa, erros na remoção e no tratamento do lixo. “É óbvio que sempre existiram pessoas vivendo em condições precárias”, esclarece Mehry. “Na Idade Média, na falta de agasalhos, muitos camponeses dormiam juntos para se aquecer. Mas, então, ninguém atinava que a proximidade ajudaria a disparar epidemias.” Na opinião do pesquisador, as pessoas só passam a prestar atenção na doença quando ela, de alguma maneira, atrapalha quem está no poder. “No início do século passado, existia um interesse do governo inglês em estabelecer medidas sanitárias, porque se observava que operários saudáveis trabalhavam melhor nas indústrias recém-criadas”, exemplifica. “Do mesmo modo, no início deste século, os médicos e os governantes brasileiros declararam guerra contra a febre amarela Isso porque a economia do país se baseava na exportação de produtos agrícolas e a notícia de uma epidemia em São Paulo impedia que certos países permitissem a emigração de camponeses.”Em 1918, enquanto os brasileiros penavam com a febre amarela, uma gripe violenta matava milhares de pessoas na Espanha. Logo, a gripe espanhola, como ficou conhecida, se transformou em uma pandemia. Em países em desenvolvimento a doença chegou a matar metade da população.Na a Alemanha, naquele ano, uma em cada quatro mortes era causada pela gripe, que provavelmente se originou na China. “É como se existissem várias versões do vírus da gripe”, define o infectiologista Vicente Amato Neto, superintendente do Hospital das Clínicas de São Paulo.
“Teoricamente, sempre há a possibilidade de um vírus desses surpreender o sistema imunológico das pessoas, causando uma epidemia.” Mas, na sua opinião, com os recursos da Medicina moderna, dificilmente haverá tantas mortes como no passado: em um tempo relativamente curto, os laboratórios conseguem identificar detalhes de um agente infeccioso, indicando as melhores armas, nas prateleiras das farmácias, para combatê-lo. “De modo geral, a ciência conhece os meios de controlar a maioria das infecções. O que falta, às vezes, é força de vontade para aplicar algumas medidas sanitárias. Além disso, no Brasil temos o problema da fome, que enfraquece o organismo, aumentando o poder devastador de qualquer doença.”No que diz respeito ao estômago, este é um planeta enfraquecido: dos 5,2 bilhões de habitantes, 3 bilhões são subnutridos, ou seja, trinta a cinqüenta vezes mais sujeitas a morrer por causa de uma infecção. Amato só desanima quando o assunto é Aids : “Trata-se de uma infecção com características muito especiais,” garante.
“Por mais que o governo desenvolva meios de controle, como o exame do sangue doado em bancos, não se pode garantir que as pessoas estejam levando a sério os cuidados a respeito da própria vida sexual. Além disso, no caso dos drogados, um dos principais grupos de risco, eles parecem não ouvir ninguém.” Segundo a Organização Mundial da Saúde, 75% das pessoas infectadas pelo vírus da Aids são heterossexuais. “Em um país com tradição machista, como o Brasil, as coisas ficam mais difíceis. A troca constante de parceiros é encarada com naturalidade. Se continuar nesse ritmo, a Aids matará mais pessoas do que as pestes do passado”, afirma. Seu colega de consultório, o infectiologista David Éverson Uip é mais otimista: “Acho absurdo que o número de casos continue aumentando”, diz, num tom francamente espantado. “O simples uso da camisinha pode evitar a epidemia.”
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Peste Negra

A peste negra aterroriza a Europa. O medo de ser devorado por lobos cria a lenda dos lobisomens. Os ladrões de crianças medievais são os primeiros serial killers.http://revistagalileu.globo.com
domingo, 13 de novembro de 2011
Peste negra veio da Ásia há 2.600 anos

Imagem de uma cultura com organismos bacterianos causadores da peste bubônica (Getty Images)
Entre 1347 e 1351, a peste negra, que se expandiu através da Ásia, Europa e África, pode ter reduzido a população mundial de 450 a 350 milhões de pessoas
A peste bubônica, que matou milhões de pessoas na Europa, se propagou pelo mundo há mais de 2.000 anos a partir da Ásia. A descoberta acaba de ser feita por uma equipe internacional, que fez a reconstituição das sucessivas ondas epidêmicas através da História. Todos os dados foram recolhidos a partir de variedades de bactérias e de uma coleção única de outras 300 variedades. Foram elas que permitiram aos cientistas reconstituir a origem geográfica da doença, sua idade e a dispersão em várias epidemias. O estudo foi publicado no site da Nature Genetics.
Letal quando não tratada, a peste tem como agente infeccioso uma bactéria, a Yersinia pestit, cujo reservatório natural são essencialmente os roedores. A transmissão acontece por meio de picadas de pulgas. Segundo o Museu Nacional de História Natural/CNRS da França (MNHN), co-signatário do artigo (Thierry Wirth e Raphaël Leblois), os resultados apontam para o início da doença na China, há 2.600 anos.
Foi a partir desta região que a peste se dirigiu para a Europa ocidental. Para chegar até os países do velho continente, a bactéria usou um caminho conhecido e bastante utilizado à época: a Rota da Seda (iniciada há mais de 600 anos). Em seguida, migrou para a África, importada pelo navegador Zheng He no século 15, e, mais tarde, acabou se dirigindo para a América do Norte e Madagascar, no fim do século 19.
Pesquisa - Os dados moleculares permitiram reconstituir com uma precisão surpreendente a chegada da peste aos Estados Unidos via China e Havaí e sua propagação a partir dos portos de São Francisco e Los Angeles para o interior do território americano. Os trabalhos demonstraram sobretudo que o conjunto das sucessivas ondas epidêmicas partiu da Ásia Central e da China.
Entre 1347 e 1351, a peste negra, que se expandiu através da Ásia, Europa e África, pode ter reduzido a população mundial de 450 a 350 milhões de pessoas, segundo o University College Cork (Irlanda). Alemanha, China, Grã-Bretanha, Madagascar e Estados Unidos também participaram das pesquisas.
(Com agência France-Presse)
Revista Veja
quinta-feira, 28 de abril de 2011
A Experiência do Apocalipse
(A pandemia de peste negra no século XIV)
Amiraldo M. Gusmão Jr.
IntroduçãoO espaço privado
Podemos observar a configuração básica de uma casa camponesa na figura abaixo:

terça-feira, 30 de março de 2010
A grande peste
Médico (usando máscara) que cuidava de doentes com a peste negra.
Imagem extraída de Bíblia (Toggenburg Bible, 1411) que retrata os efeitos da Peste na população européia do período medieval. A grande peste
A doença foi levada para a Europa por ratos e pulgas. Uma em cada três pessoas morreu em menos de cinco anos. Nunca, nenhuma guerra ou catástrofe matou tanta gente em tão pouco tempo: 25 milhões de pessoas
por Voltaire Schilling
Os sintomas não deixavam dúvidas. Atacada por uma febre de 40 graus, a vítima sentia crescer na virilha ou na axila um inchaço que assumia a forma de um doloroso furúnculo do tamanho de um ovo ou de uma laranja. Insônia e delírios complementavam o mal-estar, fazendo com que o infeliz temesse tanto o sono como o despertar. No segundo ou no terceiro dia, seu corpo estaria tomado por esses bubões. Se tivesse sorte, os caroços se abririam em pus, dimuinuindo a dor e a febre. Aí surgiriam as manchas pretas na pele. Ardendo, com feridas por todo o corpo, o condenado sentia-se como se na ante-sala do inferno. Era a peste negra ou peste bubônica.
O aspecto do desgraçado tornava-o repelente. Os olhos inchados pelas infecções e os membros cobertos pelas pústulas deixavam claro que a sua hora chegara e nada no mundo o salvaria. Neste momento de agonia, nos estertores de uma tremedeira sem-fim, ninguém mais se aproximava dele. Nem pai, nem mãe, nem irmão ou amigo que se apiedasse. Todos debandavam, temendo a contaminação. Cerca de uma semana depois dos primeiros sintomas, a vítima estava morta. Com poucas variações, foi assim que 25 milhões de pessoas morreram abatidas pela peste entre 1347 a 1351.
Ainda mais rápida que a doença corriam as histórias sobre ela. As primeiras notícias da peste vinham da Ásia, onde ela já fazia vítimas. Os relatos dos viajantes da rota da seda – que ligava a Europa à China – davam conta de mortes por causa da doença por volta de 1330, no deserto de Gobi. Aparentemente, a peste vivia nas tocas de roedores silvestres na região entre a China e a Índia. Ela permaneceu ali por milhares de anos, passando de roedor para roedor, carregada pelas pulgas, isolada naquela imensidão. Não podia ir muito longe, já que seus hospedeiros não costumam fazer longas viagens e mesmo as pessoas que ocasionalmente eram infectadas não se afastam muito de casa. No entanto, o mundo nunca fora tão pequeno, quanto no século 13. Uma tropa de nômades mongóis pode ter acampado próximo a uma toca de ratos, ou um deles pode ter se juntado a uma caravana, ou, ainda, uma minúscula pulga pode ter ido do dorso de um roedor para as roupas de um mensageiro que cruzava as estepes.
Nunca saberemos. O certo é que ela chegou à península da Criméia, no Mar Negro. Ali, no porto de Kaffa, a doença apareceu após um ataque de mongóis da Horda de Ouro. O lugar era freqüentado por mercadores genoveses e venezianos, que aportavam seus navios à espera de bons negócios. Sem saber que podiam estar infectados, os marinheiros alçaram velas para retornar à Europa. Passaram por Constantinopla e, em seguida, já abalados pelo efeito epidêmico, rumaram para o porto de Messina, na Sicília.
Além dos homens doentes, o navio transportava ratos. Milhares deles. E, claro, ocultas nos pêlos dos roedores, uma impressionante carga de pulgas. Ali, todos foram vetores da contaminação, já que uma vez que chega ao hospedeiro, a peste desenvolve dois tipos de epidemia: a bubônica e a pneumônica. A primeira expande-se pelo sangue, gerando os bubões nas ínguas e as ulcerações pelo corpo. Mas, mantendo-se na corrente sangüínea, só pode ser transmitida pela picada da pulga ou pela mordida do rato. A outra forma, no entanto, invade os pulmões, destruindo-os, provocando a expectoração. Essa forma pode ser trasmitida também pelos humanos, já que a cada vez que tossem lançam milhares de bacilos no ar.
A peste negra não era uma completa desconhecida em terras européias. Em 541, uma epidemia havia atingido as costas do Mar Mediterrâneo. Dessa vez, porém, ela encontrou um ambiente diferente, muito mais atraente para seu apetite. A população da Europa crescera muito nos séculos anteriores e havia mais gente do que comida disponível. Nos anos que precederam a década de 1340, invernos rigorosos dizimaram as colheitas, aumentando o contingente de famintos.
As más colheitas e a fome concentraram ainda mais gente nas cidades já superlotadas, onde as más condições de habitação e a falta de higiene e asseio contribuiriam para a propagação da peste. Descendentes dos povos bárbaros, dos godos, dos lombardos, dos alamanos, dos borguinhões, dos francos e saxões, que invadiram as antigas províncias romanas, os europeus viviam de maneira bem pouco saudável. Todo o antigo sistema sanitário romano, inclusive as latrinas, fora destruído. Durante o dia inteiro, das portas, do alto das sacadas ou das janelas, era um sem parar de jogar baldes e bacias cheias de tudo o que se possa imaginar bem no meio da rua. Os aquedutos, canais de esgotos e termas para banhos públicos foram delapidados pelos invasores que, com as pedras já talhadas, ergueram fortins ou castelos para protegerem-se contra os inimigos.
Nas cidades não havia nenhuma profilaxia que pudesse precaver os habitantes contra epidemias ou algum tipo de limpeza pública eficaz, tanto é assim que cabia aos porcos – e ao seu apetite voraz – o serviço de faxinar tudo. Ao comerem restos tocados ou usados pelos homens, também eles morreram em massa.
A morte chegou
Foi assim, em cidades sujas e superpovoadas que ratos e pulgas encontraram o ambiente perfeito para espalhar o mal. Do Mediterrâneo, a peste atingiu o norte da África: Alexandria, Cairo, Túnis, Argel, Tânger e do Marrocos para a península Ibérica foi um pulo. O sul da Espanha foi devastado: de Córdoba, na Andaluzia, até Barcelona tudo ficou de pernas para o ar: 290 mil pessoas morreram no reino da Catalunha. Europa adentro, a doença chegou à Roma e Florença. De Marselha, no sul da França (que deixara os barcos pestíferos ancorarem no seu cais, no dia 1º de novembro de 1347, ironicamente dedicado à festa dos mortos), rumou para o interior do país mais povoado do continente. Nas ilhas britânicas, a peste desembarcou em Weymouth, no dia 7 de julho de 1348. Insaciável, também por mar ela chegou a Bristol, então a segunda maior cidade do reino, matando 10 mil habitantes. Em Gales, Escócia e Irlanda, a doença só cederia em 1350.
Os pobres morriam aos milhares. Nas ruas, sem auxílio. Muitos acreditavam que a pestilência era uma trama dos nobres para que os plebeus fossem para o inferno – enquanto os ricos escapavam, refugiando-se em suas propriedades no campo, onde podiam se proteger de estranhos ou recém-chegados. Mas a verdade é que a peste negra foi ao seu modo uma catástrofe igualitária. Gente poderosa também sucumbiu.
O rei de Castela, Afonso XI e a futura rainha da França, Bonne de Luxemburgo, mãe dos dez filhos de Jean II, o Bom, morreram com os corpos ulcerados, agonizando como qualquer comum. Chanceleres ingleses e três arcebispos de Canterbury também entraram na lista. A peste devastou mosteiros e conventos. Em Montpellier, na França, só sete frades, num total de 140, escaparam da morte. Em Marselha, todos os 150 franciscanos foram de uma vez só aos céus, o mesmo dando-se com 27 monges da Abadia de Westminster, na Inglaterra. Na região do Perpignon, na França, dos 125 notários que existiam sobraram só 45, dos dez médicos, somente um continuou vivo e 16 dos 18 barbeiros-cirurgiões morreram. Todos os profissionais que tinham de lidar com o público estavam expostos. Para consternação do rei Felipe da França, seus arrecadadores de impostos também apodreceram nas estradas.
Nem o líder máximo da Igreja Católica, Clemente VI estava a salvo e teve de deixar Avignon, no sul da França (então sede do papado), quando a mortandade atingiu 400 pessoas por dia, entre 1348 e 1349. Ele aguardou quase um ano em um lugar isolado e montanhoso o mal enfraquecer.
A morte aos milhares pioraram as já precárias condições de saúde da época. Os cadáveres se avolumavam, decompondo-se nos lares ou jogados na frente das casas. Os féretros dos figurões, antes um acontecimento solene, com a parentela e os grandes da cidade acompanhando o caixão até o mausoléu da família, ao som de um bumbo fúnebre e flauta triste, acabaram virando uma cerimônia grotesca. Um par de humildes padioleiros desconhecidos, contratados a peso de ouro, carregavam o defunto quase que na corrida para ir jogá-lo às pressas na primeira cova aberta que encontravam. Nas capelas e igrejas, os mortos eram empilhados como se fossem carga de navio. Trazidos em carroções, como achas de lenha podre, enfiavam-nos, sem reza ou bênção, três ou mais, num só buraco aberto no chão.
Até os animais morriam aos montes. Andar pelas ruas era um risco e um sacrifício. Logo, os poucos atrevidos traziam junto às narinas plantas aromáticas para atenuar a fedentina dos restos insepultos e do lixo que se acumulava por toda a parte. Florença ficou quase deserta pela fuga dos que ainda podiam andar. Mas a situação no campo, que no início era o melhor lugar para escapar da peste, já não estava muito diferente.
A doença parecia perseguir os homens, onde quer que eles fossem.
Horror e culpa
Em outubro de 1348, os doutores da Sorbonne de Paris, enfim, diagnosticaram o mal: a má confluência dos astros estava causando o estrago. O alinhamento de Saturno, Júpiter e Marte, asseguraram eles, era o responsável pelas mortes.
Fosse quem fosse o culpado, rogos, preces, promessas e penitências, rezas a São Roque, o protetor dos lazarentos, nada arrefecia o implacável destino que estava reservado às populações atacadas pela doença. Ao contrário, qualquer ajuntamento pretendido, a mínima formação de um punhado de fiéis para reclamarem dos céus os rigores da vara de Deus, matava mais gente ainda. Calcula-se que dos 1,2 milhão de peregrinos que foram a Roma para celebrar o Ano Santo de 1350, somente cem mil deles restaram vivos. O papado tratou de proibir as grandes procissões dos dias santos e de liberar os moribundos da extrema-unção.
O desespero crescente levou aos atos radicais e ao fanatismo religioso. A doença era a marca do pecado e se alguém sofria no leito era porque boa coisa não fizera antes. Na Alemanha, começou um movimento que procurava aplacar a ira de Deus, por meio da mortificação coletiva e era chamado de Irmandade dos Flagelantes. Prática desconhecida na Europa até o século 11, o hábito das disciplinas, como designavam a autoflagelação, virou rotina durante aqueles anos. Vestindo-se com uma bata ou um saco branco, com uma cruz vermelha no peito, eles peregrinavam de aldeia a aldeia, repetindo ladainhas, chicoteando-se nas costas com tiras de relho com pontas de ferro. No início eram apenas inocentes aberrações, mas com o tempo os fervorosos flagelantes se tornariam perigosos para as outras pessoas.
Na procura de um motivo para a peste, os europeus se voltaram contra os estrangeiros, acusando-os de trazerem a doença. Na Espanha, por exemplo, os árabes eram o alvo preferido, em Portugal, os peregrinos religiosos. Em todo o norte da Europa, os judeus foram acusados de envenenarem a água dos poços e das cisternas. Foi a mais violenta onda de anti-semitismo até então, mais intensa do que nos tempos da Primeira Cruzada, no século 11, e somente superada pela desencadeada pelos nazistas no século 20. Na península Ibérica, incitadas por padres apopléticos, as aljamas ou juderias – comunidades que reuniam os judeus – foram invadidas por turbas ensandecidas que destruíam tudo pelo caminho, prendendo os moradores para serem em seguida queimados ou afogados. Em Basel, na Suíça, todos os judeus da cidade foram reunidos, presos em estacas de madeira e queimados vivos. Em Estrasburgo, na época pertencente à Alemanha, dois mil judeus foram mortos em fogueiras coletivas.
Nem a ação do papa Clemente VI, que expediu as bulas de 4 de julho e 26 de setembro de 1348, isentando oficialmente os judeus de qualquer responsabilidade no contágio da peste, evitou os assassinatos em massa.
Quando a praga por fim arrefeceu, no fim do ano de 1351, saciada por tanta gente que matou em cinco anos de horror, a Europa não seria mais a mesma. As elites medievais com sua fé abalada pela devastação, tornaram-se cada vez mais sombrias, inclinaram-se por temas mórbidos e místicos. As relações comerciais demorariam dezenas de anos para reconquistar a força de antes da crise. As ruas e as cidades, os campos e as estradas estavam vazias, as autoridades haviam sumido. Os portões dos feudos se fecharam para os visitantes que passaram a ser vistos como inimigos. O isolamento entre os reinos tornou-se ainda maior e havia um crescente sentimento de xenofobia. Ninguém era bem-vindo e todos eram suspeitos de carregar a peste. Os anos que se seguiram, os europeus viveram assolados pelo medo e por uma só pergunta: quando ela vai voltar?
Faces da morte
Quem ousou sair às ruas de Florença, ou qualquer outra grande cidade européia, naquele verão de 1348, deparou-se com imagens que nunca mais esqueceu. A morte estava em todos os lugares, afetou a todos e mudou a história da Europa. Ninguém ficou livre de seus efeitos e conseqüências
Ratos
Os pequenos roedores morreram aos milhões. Caíam nas ruas, eram varridos para fora das casas, mas, curiosamente, ninguém parece ter notado que eles pudessem estar particularmente envolvidos com a doença. Raramente relatos da época citam os roedores
Corpos
No calor do corpo humano uma batalha era travada. A peste injetada na corrente sangüínea causava nódulos ou bubos. Mesmo sem tratamento, cerca de um em cada três doentes sobreviviam à peste bubônica. Mas em um de cada 20 contaminados, a peste chega aos pulmões. Para esse infeliz, a morte é certa
Clero
Padres e monges não escaparam da tragédia e, se não foram as vítimas preferenciais, já que a peste não fazia distinção, estiveram entre as mais bem documentadas. Em Montpellier, por exemplo, só sete religiosos escaparam num total de 140 internos no convento local. O medo do contágio fez o papa suspender a extrema-unção, um dos sacramentos da Igreja Católica Romana
Médicos
A medicina não impedia o avanço da doença. Havia quem pensasse que ela era transmitida pela respiração, outros que bastava um olhar para propagar a peste. A maioria achava que os miasmas, ou o “ar ruim”, eram os culpados e receitavam a queima de ervas ou a aspersão de água de rosas. Enquanto isso, morriam os médicos também
Xenofobia
Viajantes, peregrinos e negociantes, ninguém mais era bem-vindo. As cidades fechavam suas portas e proibiam a entrada de estrangeiros. Árabes e judeus foram acusados de trazer a doença. Se já havia esse sentimento em alguns lugares na Europa, a peste deu uma justificativa ao ódio, atiçando o preconceito e o medo nas pessoas
Revista Aventuras na História
quarta-feira, 24 de junho de 2009
A grande peste
A Peste - Arnold Boecklin, 1898Kunstmuseum, Basel
Image from IAS: International Art & Science
A Peste Negra em FlorençaImage from Beloit College Biology Department Homepage
Page created by Meredith L. Ernisse, Angela Hahn, and Professor Marion Fass, and designed by Liz Mcgrew
Vômitos - Peste NegraImage from The Black Plague Cuny
Project designed, compiled and edited by George Ouwendijk and Bill Rednour
Flagelantes - Peste NegraImage from The Black Plague Cuny
Project designed, compiled and edited by George Ouwendijk and Bill Rednour
As Defesas do Médico - Peste Negra, século XIVImage from Art from the 14th century
A doença foi levada para a Europa por ratos e pulgas. Uma em cada três pessoas morreu em menos de cinco anos. Nunca, nenhuma guerra ou catástrofe matou tanta gente em tão pouco tempo: 25 milhões de pessoas
por Voltaire Schilling
Os sintomas não deixavam dúvidas. Atacada por uma febre de 40 graus, a vítima sentia crescer na virilha ou na axila um inchaço que assumia a forma de um doloroso furúnculo do tamanho de um ovo ou de uma laranja. Insônia e delírios complementavam o mal-estar, fazendo com que o infeliz temesse tanto o sono como o despertar. No segundo ou no terceiro dia, seu corpo estaria tomado por esses bubões. Se tivesse sorte, os caroços se abririam em pus, dimuinuindo a dor e a febre. Aí surgiriam as manchas pretas na pele. Ardendo, com feridas por todo o corpo, o condenado sentia-se como se na ante-sala do inferno. Era a peste negra ou peste bubônica.
O aspecto do desgraçado tornava-o repelente. Os olhos inchados pelas infecções e os membros cobertos pelas pústulas deixavam claro que a sua hora chegara e nada no mundo o salvaria. Neste momento de agonia, nos estertores de uma tremedeira sem-fim, ninguém mais se aproximava dele. Nem pai, nem mãe, nem irmão ou amigo que se apiedasse. Todos debandavam, temendo a contaminação. Cerca de uma semana depois dos primeiros sintomas, a vítima estava morta. Com poucas variações, foi assim que 25 milhões de pessoas morreram abatidas pela peste entre 1347 a 1351.
Ainda mais rápida que a doença corriam as histórias sobre ela. As primeiras notícias da peste vinham da Ásia, onde ela já fazia vítimas. Os relatos dos viajantes da rota da seda – que ligava a Europa à China – davam conta de mortes por causa da doença por volta de 1330, no deserto de Gobi. Aparentemente, a peste vivia nas tocas de roedores silvestres na região entre a China e a Índia. Ela permaneceu ali por milhares de anos, passando de roedor para roedor, carregada pelas pulgas, isolada naquela imensidão. Não podia ir muito longe, já que seus hospedeiros não costumam fazer longas viagens e mesmo as pessoas que ocasionalmente eram infectadas não se afastam muito de casa. No entanto, o mundo nunca fora tão pequeno, quanto no século 13. Uma tropa de nômades mongóis pode ter acampado próximo a uma toca de ratos, ou um deles pode ter se juntado a uma caravana, ou, ainda, uma minúscula pulga pode ter ido do dorso de um roedor para as roupas de um mensageiro que cruzava as estepes.
Nunca saberemos. O certo é que ela chegou à península da Criméia, no Mar Negro. Ali, no porto de Kaffa, a doença apareceu após um ataque de mongóis da Horda de Ouro. O lugar era freqüentado por mercadores genoveses e venezianos, que aportavam seus navios à espera de bons negócios. Sem saber que podiam estar infectados, os marinheiros alçaram velas para retornar à Europa. Passaram por Constantinopla e, em seguida, já abalados pelo efeito epidêmico, rumaram para o porto de Messina, na Sicília.
Além dos homens doentes, o navio transportava ratos. Milhares deles. E, claro, ocultas nos pêlos dos roedores, uma impressionante carga de pulgas. Ali, todos foram vetores da contaminação, já que uma vez que chega ao hospedeiro, a peste desenvolve dois tipos de epidemia: a bubônica e a pneumônica. A primeira expande-se pelo sangue, gerando os bubões nas ínguas e as ulcerações pelo corpo. Mas, mantendo-se na corrente sangüínea, só pode ser transmitida pela picada da pulga ou pela mordida do rato. A outra forma, no entanto, invade os pulmões, destruindo-os, provocando a expectoração. Essa forma pode ser trasmitida também pelos humanos, já que a cada vez que tossem lançam milhares de bacilos no ar.
A peste negra não era uma completa desconhecida em terras européias. Em 541, uma epidemia havia atingido as costas do Mar Mediterrâneo. Dessa vez, porém, ela encontrou um ambiente diferente, muito mais atraente para seu apetite. A população da Europa crescera muito nos séculos anteriores e havia mais gente do que comida disponível. Nos anos que precederam a década de 1340, invernos rigorosos dizimaram as colheitas, aumentando o contingente de famintos.
As más colheitas e a fome concentraram ainda mais gente nas cidades já superlotadas, onde as más condições de habitação e a falta de higiene e asseio contribuiriam para a propagação da peste. Descendentes dos povos bárbaros, dos godos, dos lombardos, dos alamanos, dos borguinhões, dos francos e saxões, que invadiram as antigas províncias romanas, os europeus viviam de maneira bem pouco saudável. Todo o antigo sistema sanitário romano, inclusive as latrinas, fora destruído. Durante o dia inteiro, das portas, do alto das sacadas ou das janelas, era um sem parar de jogar baldes e bacias cheias de tudo o que se possa imaginar bem no meio da rua. Os aquedutos, canais de esgotos e termas para banhos públicos foram delapidados pelos invasores que, com as pedras já talhadas, ergueram fortins ou castelos para protegerem-se contra os inimigos.
Nas cidades não havia nenhuma profilaxia que pudesse precaver os habitantes contra epidemias ou algum tipo de limpeza pública eficaz, tanto é assim que cabia aos porcos – e ao seu apetite voraz – o serviço de faxinar tudo. Ao comerem restos tocados ou usados pelos homens, também eles morreram em massa.
A morte chegou
Foi assim, em cidades sujas e superpovoadas que ratos e pulgas encontraram o ambiente perfeito para espalhar o mal. Do Mediterrâneo, a peste atingiu o norte da África: Alexandria, Cairo, Túnis, Argel, Tânger e do Marrocos para a península Ibérica foi um pulo. O sul da Espanha foi devastado: de Córdoba, na Andaluzia, até Barcelona tudo ficou de pernas para o ar: 290 mil pessoas morreram no reino da Catalunha. Europa adentro, a doença chegou à Roma e Florença. De Marselha, no sul da França (que deixara os barcos pestíferos ancorarem no seu cais, no dia 1º de novembro de 1347, ironicamente dedicado à festa dos mortos), rumou para o interior do país mais povoado do continente. Nas ilhas britânicas, a peste desembarcou em Weymouth, no dia 7 de julho de 1348. Insaciável, também por mar ela chegou a Bristol, então a segunda maior cidade do reino, matando 10 mil habitantes. Em Gales, Escócia e Irlanda, a doença só cederia em 1350.
Os pobres morriam aos milhares. Nas ruas, sem auxílio. Muitos acreditavam que a pestilência era uma trama dos nobres para que os plebeus fossem para o inferno – enquanto os ricos escapavam, refugiando-se em suas propriedades no campo, onde podiam se proteger de estranhos ou recém-chegados. Mas a verdade é que a peste negra foi ao seu modo uma catástrofe igualitária. Gente poderosa também sucumbiu.
O rei de Castela, Afonso XI e a futura rainha da França, Bonne de Luxemburgo, mãe dos dez filhos de Jean II, o Bom, morreram com os corpos ulcerados, agonizando como qualquer comum. Chanceleres ingleses e três arcebispos de Canterbury também entraram na lista. A peste devastou mosteiros e conventos. Em Montpellier, na França, só sete frades, num total de 140, escaparam da morte. Em Marselha, todos os 150 franciscanos foram de uma vez só aos céus, o mesmo dando-se com 27 monges da Abadia de Westminster, na Inglaterra. Na região do Perpignon, na França, dos 125 notários que existiam sobraram só 45, dos dez médicos, somente um continuou vivo e 16 dos 18 barbeiros-cirurgiões morreram. Todos os profissionais que tinham de lidar com o público estavam expostos. Para consternação do rei Felipe da França, seus arrecadadores de impostos também apodreceram nas estradas.
Nem o líder máximo da Igreja Católica, Clemente VI estava a salvo e teve de deixar Avignon, no sul da França (então sede do papado), quando a mortandade atingiu 400 pessoas por dia, entre 1348 e 1349. Ele aguardou quase um ano em um lugar isolado e montanhoso o mal enfraquecer.
A morte aos milhares pioraram as já precárias condições de saúde da época. Os cadáveres se avolumavam, decompondo-se nos lares ou jogados na frente das casas. Os féretros dos figurões, antes um acontecimento solene, com a parentela e os grandes da cidade acompanhando o caixão até o mausoléu da família, ao som de um bumbo fúnebre e flauta triste, acabaram virando uma cerimônia grotesca. Um par de humildes padioleiros desconhecidos, contratados a peso de ouro, carregavam o defunto quase que na corrida para ir jogá-lo às pressas na primeira cova aberta que encontravam. Nas capelas e igrejas, os mortos eram empilhados como se fossem carga de navio. Trazidos em carroções, como achas de lenha podre, enfiavam-nos, sem reza ou bênção, três ou mais, num só buraco aberto no chão.
Até os animais morriam aos montes. Andar pelas ruas era um risco e um sacrifício. Logo, os poucos atrevidos traziam junto às narinas plantas aromáticas para atenuar a fedentina dos restos insepultos e do lixo que se acumulava por toda a parte. Florença ficou quase deserta pela fuga dos que ainda podiam andar. Mas a situação no campo, que no início era o melhor lugar para escapar da peste, já não estava muito diferente.
A doença parecia perseguir os homens, onde quer que eles fossem.
Horror e culpa
Em outubro de 1348, os doutores da Sorbonne de Paris, enfim, diagnosticaram o mal: a má confluência dos astros estava causando o estrago. O alinhamento de Saturno, Júpiter e Marte, asseguraram eles, era o responsável pelas mortes.
Fosse quem fosse o culpado, rogos, preces, promessas e penitências, rezas a São Roque, o protetor dos lazarentos, nada arrefecia o implacável destino que estava reservado às populações atacadas pela doença. Ao contrário, qualquer ajuntamento pretendido, a mínima formação de um punhado de fiéis para reclamarem dos céus os rigores da vara de Deus, matava mais gente ainda. Calcula-se que dos 1,2 milhão de peregrinos que foram a Roma para celebrar o Ano Santo de 1350, somente cem mil deles restaram vivos. O papado tratou de proibir as grandes procissões dos dias santos e de liberar os moribundos da extrema-unção.
O desespero crescente levou aos atos radicais e ao fanatismo religioso. A doença era a marca do pecado e se alguém sofria no leito era porque boa coisa não fizera antes. Na Alemanha, começou um movimento que procurava aplacar a ira de Deus, por meio da mortificação coletiva e era chamado de Irmandade dos Flagelantes. Prática desconhecida na Europa até o século 11, o hábito das disciplinas, como designavam a autoflagelação, virou rotina durante aqueles anos. Vestindo-se com uma bata ou um saco branco, com uma cruz vermelha no peito, eles peregrinavam de aldeia a aldeia, repetindo ladainhas, chicoteando-se nas costas com tiras de relho com pontas de ferro. No início eram apenas inocentes aberrações, mas com o tempo os fervorosos flagelantes se tornariam perigosos para as outras pessoas.
Na procura de um motivo para a peste, os europeus se voltaram contra os estrangeiros, acusando-os de trazerem a doença. Na Espanha, por exemplo, os árabes eram o alvo preferido, em Portugal, os peregrinos religiosos. Em todo o norte da Europa, os judeus foram acusados de envenenarem a água dos poços e das cisternas. Foi a mais violenta onda de anti-semitismo até então, mais intensa do que nos tempos da Primeira Cruzada, no século 11, e somente superada pela desencadeada pelos nazistas no século 20. Na península Ibérica, incitadas por padres apopléticos, as aljamas ou juderias – comunidades que reuniam os judeus – foram invadidas por turbas ensandecidas que destruíam tudo pelo caminho, prendendo os moradores para serem em seguida queimados ou afogados. Em Basel, na Suíça, todos os judeus da cidade foram reunidos, presos em estacas de madeira e queimados vivos. Em Estrasburgo, na época pertencente à Alemanha, dois mil judeus foram mortos em fogueiras coletivas.
Nem a ação do papa Clemente VI, que expediu as bulas de 4 de julho e 26 de setembro de 1348, isentando oficialmente os judeus de qualquer responsabilidade no contágio da peste, evitou os assassinatos em massa.
Quando a praga por fim arrefeceu, no fim do ano de 1351, saciada por tanta gente que matou em cinco anos de horror, a Europa não seria mais a mesma. As elites medievais com sua fé abalada pela devastação, tornaram-se cada vez mais sombrias, inclinaram-se por temas mórbidos e místicos. As relações comerciais demorariam dezenas de anos para reconquistar a força de antes da crise. As ruas e as cidades, os campos e as estradas estavam vazias, as autoridades haviam sumido. Os portões dos feudos se fecharam para os visitantes que passaram a ser vistos como inimigos. O isolamento entre os reinos tornou-se ainda maior e havia um crescente sentimento de xenofobia. Ninguém era bem-vindo e todos eram suspeitos de carregar a peste. Os anos que se seguiram, os europeus viveram assolados pelo medo e por uma só pergunta: quando ela vai voltar?
Faces da morte
Quem ousou sair às ruas de Florença, ou qualquer outra grande cidade européia, naquele verão de 1348, deparou-se com imagens que nunca mais esqueceu. A morte estava em todos os lugares, afetou a todos e mudou a história da Europa. Ninguém ficou livre de seus efeitos e conseqüências
Ratos
Os pequenos roedores morreram aos milhões. Caíam nas ruas, eram varridos para fora das casas, mas, curiosamente, ninguém parece ter notado que eles pudessem estar particularmente envolvidos com a doença. Raramente relatos da época citam os roedores
Corpos
No calor do corpo humano uma batalha era travada. A peste injetada na corrente sangüínea causava nódulos ou bubos. Mesmo sem tratamento, cerca de um em cada três doentes sobreviviam à peste bubônica. Mas em um de cada 20 contaminados, a peste chega aos pulmões. Para esse infeliz, a morte é certa
Clero
Padres e monges não escaparam da tragédia e, se não foram as vítimas preferenciais, já que a peste não fazia distinção, estiveram entre as mais bem documentadas. Em Montpellier, por exemplo, só sete religiosos escaparam num total de 140 internos no convento local. O medo do contágio fez o papa suspender a extrema-unção, um dos sacramentos da Igreja Católica Romana
Médicos
A medicina não impedia o avanço da doença. Havia quem pensasse que ela era transmitida pela respiração, outros que bastava um olhar para propagar a peste. A maioria achava que os miasmas, ou o “ar ruim”, eram os culpados e receitavam a queima de ervas ou a aspersão de água de rosas. Enquanto isso, morriam os médicos também
Xenofobia
Viajantes, peregrinos e negociantes, ninguém mais era bem-vindo. As cidades fechavam suas portas e proibiam a entrada de estrangeiros. Árabes e judeus foram acusados de trazer a doença. Se já havia esse sentimento em alguns lugares na Europa, a peste deu uma justificativa ao ódio, atiçando o preconceito e o medo nas pessoas
Revista Aventuras da Historia

