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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Pompéia: Cidade Eterna

Afresco que mostra o estilo da sala de jantar de uma residência em Pompéia Alinhar ao centro


Pompéia: Cidade Eterna
Uma erupção vulcânica soterrou Pompéia.Suas ruínas permitem conhecer o dia-a-dia de uma cidade romana — como se ela continuasse existindo para sempre

Foi a maior erupção do Vesúvio de que se tem notícia. Na manhã de 24 de agosto do ano 79, uma chuva de cinzas e pedras que saia da cratera do vulcão apanhou de surpresa os moradores das cidades de Pompéia, Herculano e Stabia. Localizadas no golfo de Nápoles. no Sul da Itália as três foram totalmente soterradas. Pompéia, a 23 quilômetros de Nápoles, com uma população estimada entre 10 e. 15 mil habitantes, era a maior delas. Dias antes da catástrofe, os pompeianos ouviram ruídos que vinham do solo e para os quais não encontravam explicação.

Provavelmente, a julgar pela ausência de precauções, eles nem sequer suspeitavam de que a montanha onde plantavam vinhas abrigava um perigoso vulcão. As pedras, chamadas lapíli (do italiano lapilli, pedrinhas), que a cratera expelia, alcançavam quilômetros de altura e algumas tinham espessura de 8 metros. Normalmente, os lapíli são do tamanho de uma avelã. Quem conseguiu sobreviver às pedradas acabou morrendo por asfixia: o Vesúvio soltava um gás altamente tóxico e letal. No dia 27, as cidades estavam sepultadas debaixo das cinzas e pedras. Os sobreviventes que retornaram em busca de seus pertences não encontraram mais nada.

Alguns séculos mais tarde, nem era possível precisar o local exato onde se ergueram. Só no século XVI é que foram descobertos vestígios das ruínas de Pompéia, quando o arquiteto italiano Domenico Fontana tentou abrir um túnel sob o monte La Civita; ele pretendia construir um canal que levasse a água do rio Sarno para a cidade vizinha de Torre Annunziata. Passaram-se mais dois séculos até que as pesquisas na área começassem. Em 1738, por ordem do rei Carlos III de Espanha — cujos domínios incluíam Nápoles — ,o engenheiro Rocco Giacchino de Alcubierre iniciou escavações sistemáticas onde antes se erguera Herculano, a 8 quilômetros de Nápoles.

Dez anos depois, passaram a escavar em outro local, que só em 1763, por meio de uma inscrição, foi identificado como Pompéia. Os arqueólogos contratados por Alcubierre encontraram também o primeiro cadáver e quanto mais avançavam no trabalho outros apareciam. Todos transformados em estátuas de pedras. São famosas as de uma mãe que amamentava o filho, a de um cão preso a correntes e as de três jovens mulheres surpreendidas na fuga da Vila dos Mistérios como se chamava o templo onde se celebravam os cultos ao deus Dioniso. A posição em que foram encontrados os corpos indica a luta que travaram para se livrar da morte.

Esses achados causaram grande impacto — e não era para menos. Pela primeira vez vinha a público a imagem concreta de uma cidade romana que não sofrera as mudanças que o tempo e as gerações teriam nela produzido. A princípio e por um bom tempo pensou-se que seus habitantes tinham alto nível cultural e artístico devido às esculturas de bronze e mármore e aos objetos de prata e vidro ali encontrados. Mas no decorrer das investigações ficou provado, ao contrário, que os cidadãos de Pompéia eram provincianos encerrados nos muros da pequena cidade, de onde só saiam para fazer negócios.

Uma inscrição na casa de Vedio Sirico, um rico comerciante local, dizia: "Salve o lucro". Para a aristocracia romana — o patriciado — lucro significava aumento de patrimônio — uma verdadeira obsessão na época. Os habitantes de Pompéia eram uma mistura de sanitas — povo itálico que ocupou a região no século V a.C.—, veteranos das regiões romanas — isto é, soldados que recebiam lotes de terra como recompensa — e ricos aristocratas interessados em especulação imobiliária e em construir casas de veraneio. As cidades e vilas da região da Campânia, Pompéia entre elas, eram inicialmente aliadas de Roma? mas no século I a.C. rebelaram-se porque queriam ter representação política junto ao Império romano. Derrotadas, foram transformadas em colônias e o latim passou a ser a língua oficial em substituição ao osco, idioma falado até então em Pompéia.

As pesquisas arqueológicas revelaram que a sociedade pompeiana, como qualquer outra do Império romano, apresentava grandes contrastes e diferenças de classe: os escravos e plebeus trabalhavam para os patrícios e o sonho dos cativos, quando conseguiam a liberdade, era ganhar dinheiro suficiente para comprar seu próprio escravo. Pompéia vivia basicamente do comércio de azeite e do vinho que produzia. Sua localização estratégica, entre o mar e a foz do rio Sarno, facilitava a exportação desses produtos para cidades do Mediterrâneo. No século II a.C., o comércio ganhou impulso e isso se refletiu de imediato nas construções, que aumentaram em número e em luxo.

As escavações mostraram também que os moradores de Pompéia veneravam os deuses oficiais romanos, tanto que havia templos em homenagem a Apolo, Júpiter e Vênus, a quem ofertavam orações e bens. Em troca, eles acreditavam receber paz de espírito. Às divindades cabia a responsabilidade de dirigir a vida das pessoas e cuidar para que os costumes não se tornassem demasiadamente devassos. A idéia muito comum de que Pompéia era o paraíso do ócio e das bacanais do Império é hoje contestada.

Ela nasceu da descoberta de desenhos obscenos, símbolos fálicos e cenas eróticas pintados nas paredes de bordéis, que aguçaram a imaginação dos escritores. A partir daí, eles construíram toda uma história na qual os habitantes de Pompéia aparecem como pessoas dissolutas. Na verdade, bordéis também fizeram parte de sociedades conservadoras e Pompéia nada mais foi que uma cidade representativa da sociedade romana da Antiguidade. Seja como for. as paredes dos bordéis são uma das atrações que levam mais de 1 milhão de turistas anualmente às ruínas da cidade. A outra grande atração fica por conta das casas, em sua maioria luxuosas e espaçosas, todas com um jardim no meio. Por meio delas, pode-se reconstruir a típica casa romana da classe média abastada ou rica.

No romance Satyricon o escritor romano Petrônio, que morreu no ano 66, retrata bem os usos e costumes característicos dos novos-ricos que moravam em Pompéia poucos anos antes da erupção do Vesúvio. Estudiosos modernos concordam. "Ali, fortunas se faziam da noite para o dia e da mesma forma aconteciam as falências. Isso talvez explique por que os pompeianos tinham como doutrina viver intensamente o momento presente", afirma o arqueólogo Norberto Luiz Guaraniello 29 anos, professor da Universidade de São Paulo, que realizou pesquisas arqueológicas em Pompéia no ano passado.

As descobertas dos pesquisadores desvendaram muitos aspectos do cotidiano de Pompéia e reconstituíram os seus derradeiros dias. Naquela manhã de 24 de agosto de 79, as padarias, por exemplo, estavam em plena atividade. Moinhos, máquinas de misturar farinha, fornos e até pões carbonizados testemunham isso. A cidade, que mal tinha se recuperado da destruição causada por um terremoto dezessete anos antes, possuía também numerosas oficinas de ferreiros, o que prova o grande domínio de técnicas de artesanato. As oficinas dos escultores, joalheiros? as lojas que vendiam alimentos, o mercado, as fábricas de lâmpadas a óleo ilustram outros aspectos da vida dos cidadãos locais. Também foi possível saber que uma das termas da cidade ficava aberta à noite e era iluminada por cerca de mil lâmpadas a óleo. Tanto para homens quanto para mulheres, as termas funcionavam como uma espécie de clube onde as pessoas se encontravam.

Outra descoberta importante dos arqueólogos foram os grafitos que se espalhavam por toda a cidade — de dar água na boca aos melhores grafiteiros das metrópoles do século XX. Havia inscrições para todos os gostos: desde os que anunciavam a troca de um amante por outro até citações, nem sempre exatas porque escritas de memória, de poetas como Virgílio. Além disso, nos muros das casas, edifícios públicos e até nas sepulturas gravavam-se anúncios de combates de gladiadores e muita propaganda eleitoral. Todos os anos a população elegia os duúnviros — as duas autoridades mais importantes da cidade, equivalentes aos cônsules romanos — e dois edis — espécie de vereadores que cuidavam da inspeção e conservação dos edifícios públicos.

Por isso, um com número de pessoas trabalhava à noite fazendo propaganda de candidatos. "Eles trabalhavam em grupos", afirma o professor Guaraniello. "Um segurava a escada, outro a lanterna, um terceiro escrevia frases e havia os que depois das eleições limpavam os muros", explica ele. Mas, além de bons grafiteiros, ao que parece os pompeianos eram também bons de briga. Pelo menos é o que se deduz de um episódio narrado pelo historiador romano Cornélio Tácito (56-120). Uma luta entre gladiadores de Pompéia e da cidade próxima de Nocera, no ano 59, acabou em tumulto generalizado das duas torcidas.

Entre mortos e feridos, as baixas foram maiores do lado dos noceranos. Por isso, o anfiteatro de Pompéia, palco das lutas, ficou fechado por um bom tempo. A cidade tinha ainda dois teatros: um com capacidade para 5 mil pessoas. onde se representavam comédias, e outro menor, o odeon, que abrigava 1500 pessoas, onde aconteciam os espetáculos musicais. No que era considerado o centro pulsante da cidade, ficavam o fórum, os edifícios públicos, o mercado, o banheiro público e os templos, além de uma grande lavanderia e tinturaria. Comandada por uma mulher, coisa rara na época, de nome Eumachia, supõe-se que ali era tingida toda a lã de carneiro que a cidade produzia.

Com base nas reconstituições que as pesquisas arqueológicas proporcionaram, o cinema produziu a partir da década de 20 muitos filmes épicos que retrataram com fidelidade os usos e costumes da história romana da época e a tragédia que soterrou Pompéia. Os últimos dias de Pompéia é um filme que já teve quatro versões: a primeira em 1926 e a última em 1983, esta uma minissérie para a televisão. Se, de um lado, as produções cinematográficas eram grandiosas, de outro a vasta literatura deixa a desejar. Assim, o documento considerado de maior valor histórico foi escrito por Plínio, o Jovem, 25 anos depois da tragédia.

Em duas cartas que enviou ao historiador Tácito, Plínio descreve a morte de seu tio, Plínio, o Velho. Ambos se encontravam na cidade de Miseno, numa das pontes da baia de Nápoles, quase em frente a Pompéia, quando viram a erupção. Plínio O Velho, que além de comandar a frota romana foi autor de uma enciclopédica História Natural, resolveu ver de perto o que acontecia e acabou morrendo na praia de Stabia, asfixiado por gases tóxicos. As cartas são consideradas uma reportagem fiel do que se passou em Pompéia naqueles dias. Depois da erupção de 79, o Vesúvio irrompeu ainda nada menos que trinta vezes — o episódio mais recente ocorreu em 1944. Mas nunca com a violência que sepultou Pompéia.
Revista Superinteressante

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A fúria de Vulcano em Pompéia


A fúria de Vulcano em Pompéia
Os moradores de Pompéia nunca souberam o que os atingiu. Não sabiam o que era um vulcão - a palavra nem existia em latim. Aqueles que sobreviveram, no entanto, jamais esqueceriam seu impacto
por Claudia de Castro Lima
O dia 24 de agosto de 79 amanheceu em Pompéia sem qualquer prenúncio de anormalidade. O comércio abriu suas portas às 8 horas, como de costume, mas os negócios estavam abaixo do normal. É provável que muita gente ainda estivesse dormindo, já que na noite anterior os moradores da cidade, como de todo o Império Romano, haviam ido às lutas de gladiadores, peças de teatro e tomado muito, muito vinho: tudo em celebração a Vulcano, deus do fogo (uma mera – e incrível – coincidência com os fatos que ocorreriam a seguir).

Situada no pé do monte Vesúvio, às margens do que hoje conhecemos como baía de Nápoles, Pompéia era uma cidade próspera, com cerca de 20 mil moradores. Toda murada, tinha uma área urbana – onde se concentravam residências e casas comerciais como padarias, bares, lavanderias, bancos e banhos públicos – e uma rural, ocupada por grandes propriedades dedicadas à agricultura, onde se plantando quase tudo dava: principalmente trigo, azeitona e uva para a produção do famoso vinho da cidade. O centro urbano de Pompéia consistia de uma parte mais antiga, construída pelo povo itálico séculos antes de a cidade tornar-se colônia romana, em 80 a.C., e outra mais recente, com duas ruas principais, que cortavam a cidade nos sentidos norte-sul e leste-oeste, e quarteirões regulares. “Além da agricultura favorecida pelas terras produtivas da região, era o porto às margens do mar Mediterrâneo que garantia a saúde econômica de Pompéia”, diz a historiadora Lourdes Condes Feitosa, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Barcos chegavam o tempo todo trazendo comerciantes estrangeiros, sobretudo fenícios. Podia-se comprar de tudo no porto de Pompéia, desde macacos africanos e canela da China até escravos e escravas orientais, famosas por seus truquezinhos sexuais. E circulava muito dinheiro por ali.

“A elite local era formada na maior parte por proprietários rurais, que tinham casas no campo e também na costa de Pompéia, à beira-mar, com marinas particulares e seus próprios barcos”, afirma o arqueólogo Pedro Paulo Funari, da Unicamp, autor de A Vida Quotidiana na Roma Antiga. Além deles, faziam parte da elite os donos das lojas mais sofisticadas, casas de banho e indústrias de tecido. Os comerciantes eram o que hoje chamamos de classe média e moravam, geralmente, em casas construídas sobre seus estabelecimentos. Com eles normalmente moravam seus familiares (pais, filhos, irmãos, avós) e escravos. Na base da pirâmide social ficavam os trabalhadores rurais.

Ricos e pobres, todos se achavam abençoados por morar em Pompéia. Eles acreditavam que a fertilidade da terra era um presente dos deuses e não desconfiavam que o solo tinha tanta qualidade por causa de antigas erupções do Vesúvio. Aliás, eles nem sabiam o que era um vulcão. Tanto que, na época, sequer havia uma palavra em latim para designar o vulcanismo. Para eles, o Vesúvio era apenas uma bela montanha: um calado e amistoso vizinho. Por isso, o mar agitado dos dias anteriores àquele 24 de agosto e o leve tremor de terra que fez o vinho balançar dentro dos cálices na festa de Vulcano não foram interpretados como sinais de perigo.

A quinta-feira era apenas mais um dia de calor. Eram pouco mais de 10 horas quando um forte estrondo foi ouvido. Seguido de um abalo. No horizonte, uma densa nuvem preta se ergueu sobre o Vesúvio.

A 30 quilômetros dali, um dos mais brilhantes homens de seu tempo escutou o barulho. Em sua casa de campo em Miceno, estava Plínio, o Velho, uma das maiores autoridades em fenômenos naturais da época (uma espécie de Darwin do século 1) e autor dos 37 volumes de História Natural. De acordo com o pesquisador Andrew Wallace-Hadrill, diretor da Escola Britânica em Roma e especialista em Pompéia, Plínio foi surpreendido pela explosão do Vesúvio. “Até aquela data, a única coisa que ele havia registrado sobre o assunto foram as marcas de queimada no topo do Vesúvio”, afirma Wallace-Hadrill. Hoje se sabe que a última erupção do Vesúvio antes daquela manhã havia ocorrido por volta de 1800 a.C.

Mas em breve não haveria mais dúvida de que algo único estava acontecendo. Em poucos minutos, a ensolarada manhã virou noite. A espessa e escura fumaça liberada pelo Vesúvio subiu para a atmosfera e bloqueou completamente o sol. Plínio, o Jovem – sobrinho do Velho, que estava com ele em Miceno e foi o autor do principal documento sobre a erupção do Vesúvio (leia boxe na pág. 29) –, testemunhou a cena: “Dificilmente podíamos ver as coisas, parecia noite, não como quando desaparece a lua ou fica nublado, mas como em um lugar fechado e sem luz”, escreveu numa carta enviada para o amigo e historiador Tácito.

Impressionado com a noite no meio do dia e com o barulho, o povo saiu às ruas, curioso para ver o espetáculo. Pouca gente – ou ninguém – deve ter se dado conta do risco que corriam. É que aquela nuvem negra não era só fumaça. Junto com as cinzas, o Vesúvio lançou na atmosfera toneladas de rochas a uma altura tão grande – algumas devem ter atingido 10 mil metros – que elas só começaram a cair minutos depois da explosão inicial. “As primeiras vítimas devem ter sido atingidas pela chuva de pedras e, em seguida, com o acúmulo de detritos sobre os telhados, pelos desabamentos”, diz Fabrizio Pesando, professor da Universidade de Nápoles e co-autor do livro Pompeii (“Pompéia”, inédito no Brasil).

Quando as pedras começaram a cair do céu, Julius Polibius mandou reunir toda sua família na parte de trás de sua casa, que passava por uma reforma. Filho de um escravo liberto e cheio de ambições políticas, Polibius tornara-se um próspero comerciante. Naquele ano, ele era candidato ao cargo de aedile, uma espécie de vereador, responsável por conservar os bens públicos. Polibius chamou a mulher, filhos e escravos e se puseram a rezar. Não deu certo. “Junto com as pedras, caiu sobre a cidade uma nuvem de gases tóxicos. Assim, nas casas afastadas e resistentes, o Vesúvio matou por asfixia”, afirma Pesando. Dos 13 corpos encontrados na residência de Polibius, 15 séculos depois, alguns estão abraçados, há um casal deitado na mesma cama, outro ajoelhado.

Se Polibius e a família preferiram ficar e rezar (quem sabe não conseguissem fugir com uma das mulheres em adiantada gravidez), outros resolveram seguir a opção aparentemente mais óbvia: correr. Não adiantou. “Muita gente deixou suas casas percebendo o risco que corria lá dentro. Os vestígios arqueológicos indicam que homens, mulheres, crianças e idosos saíram com colchões e almofadas sobre as cabeças, tentando se proteger das rochas ferventes que caíam do céu. Muitos levavam consigo todos seus bens: jóias, moedas, estátuas, prataria e a chave da porta da frente”, diz Pesando.

Uma mulher, de cerca de 30 anos, morreu do lado de fora de um hotel. Levava consigo uma certa quantidade de jóias, incluindo um bracelete de ouro com a inscrição: do mestre para sua escrava. Um homem de negócios, que carregava pelas ruas uma bolsa cheia de ouro, morreu sentado, encostado em uma pilastra. Mesmo quem resolveu aproveitar a fuga em massa para tentar enriquecer deu-se mal. Um saqueador morreu sobre o telhado da “Loja do Salvius” (é exatamente essa a inscrição sobre a porta da casa onde foi encontrado), que vendia anéis e peças de ouro. Uma rica e elegante senhora, usando jóias caras, foi soterrada no galpão em que moravam os gladiadores. Estranho lugar para encontrar uma jovem patrícia. O que ela fazia lá? As especulações dos arqueólogos são de que ela era uma das mulheres entediadas que, à procura de aventura, prestava certos favores aos gladiadores. A nobre dama teria sido surpreendida pela erupção numa de suas visitas clandestinas. Ou, quem sabe, vendo-se condenada pelo vulcão, escolheu essa como a melhor forma de morrer. Quem sabe?

Em Miceno, Plínio, o Velho, assistia de camarote à densa fumaça preta que subia do Vesúvio, quando resolveu ver aquele fenômeno mais de perto. Ele mandou preparar um pequeno barco, convocou uma tripulação de nove homens e pouco antes das 5 da tarde se pôs a caminho de Pompéia. A viagem mostrou-se uma péssima idéia. Ao se aproximarem da cidade, as altas temperaturas e um densa neblina negra fizeram com que o barco se desviasse de seu destino. O jeito foi ancorar na vizinha Estábia. O desvio salvou sua vida. Pelo menos por mais algumas horas.

“Em Pompéia a chuva de pedra já durava pelo menos 12 horas e praticamente toda a cidade estava soterrada sob cerca de 4 metros de rochas vulcânicas, quando o pior aconteceu”, diz Wallace-Hadrill. À escuridão das sombras das nuvens de cinza, juntou-se o negrume da noite. Por isso, e porque não restassem muitas testemunhas no local, talvez ninguém tenha visto quando a parte mais letal da erupção se aproximou. “Viajando a uma velocidade superior a 120 quilômetros por hora, uma avalanche de cinzas e rochas superquentes, com temperaturas que ultrapassavam os 500 graus Celsius desceu sobre a cidade.” No total, 4 quilômetros cúbicos de material foram ejetados pelo Vesúvio.

Herculano

Situada na costa oeste do Vesúvio, Herculano também viveu um inferno. Provavelmente beneficiada pela direção do vento, a cidade não sofreu tanto com a chuva de pedras. No entanto, o relevo da região não foi tão piedoso com os moradores de Herculano. “Em direção a Herculano, a avalanche de pedras foi muito mais violenta e destrutiva que em Pompéia”, diz Pesando. Pressentindo que o pior estava por acontecer, milhares de pessoas fugiram de suas casas e foram em direção à praia. Com eles, levaram tudo o que podiam carregar. Na fuga, a confusão se instalou. Bebês choravam, maridos procuravam as esposas que haviam se perdido no caos. Poucos conseguiram chegar até à praia. “A velocidade da avalanche deve ter chegado a mais de 100 quilômetros por hora e a maioria morreu no caminho.”

Alguns chegaram à praia, pensando que até ali a enxurrada de pedras perderia força e que estariam seguros de desabamentos. Eles estavam certos. Porém acabaram mortos: não sobreviveram à intensa onda de calor e aos gases venenosos que atingiram a cidade. Mais de 300 esqueletos foram encontrados num abrigo de barcos. A morte para eles foi instantânea: o choque com a onda de calor fez seus órgãos vitais ficarem paralisados antes mesmo que eles se dessem conta do que estava acontecendo. Muitos estavam abraçados. Outros em posições relaxadas, como se achassem que estavam a salvo. A cidade, onde moravam 5 mil pessoas, ficou enterrada em 23 metros de pedras e cinzas.

Na manhã do dia 25, o Vesúvio ainda não havia cansado. Antes das 7 da manhã, uma nova nuvem atingiu Pompéia. Quem ainda estava lá e não morreu queimado atingido pelas rochas incandescentes acabou sufocado pelos gases. A nuvem seguiu em direção a Estábia. Os moradores perceberam-na atravessando a baía, tentaram correr, mas não havia para onde. Os gases vulcânicos fizeram centenas de vítimas, entre elas Plínio, o Velho.

Seu sobrinho, em Miceno, escreveu tudo o que pôde ver e apurar depois. Seus relatos eram tão bizarros que durante muito tempo foram considerados lendas e desacreditados pelos cientistas até o século 18. Hoje em dia, sabe-se que existem sim erupções vulcânicas como Plínio contou. Tanto que eventos daquela magnitude, com explosões de gases, vapor de água e material piroclástico jogados a grandes altitudes são chamados de erupções plinianas.

Não se sabe exatamente quantas pessoas morreram em Pompéia, Herculano, Estábia e redondezas. “É impossível precisar quantas pessoas conseguiram fugir por mar ou que sobreviveram ao inferno provocado pela erupção do Vesúvio”, diz Pesando. Segundo ele, a simples recuperação de corpos indicaria um número entre 2 mil a 4 mil vítimas. Mas outra linha de pesquisadores, que toma como base os registros de moradores da região, acredita que o mortos podem chegar a 17 mil.



Dormindo com o inimigo
As cidades em tornodo Vesúvio nem desconfiavamdo risco que corriam
Miceno

A 30 quilômetros de Pompéia, era uma cidade de veraneio dos romanos ricos, entre eles Plínio, o Velho. Foi dali que Plínio,o Jovem, acompanhou a erupção. Foi atingida pelos tremores de terra e pela nuvem de poeira, mas teve poucas vítimas, em sua maioria crianças e velhos

Herculano

Com cerca de 5 mil habitantes, foi coberta por 23 metros de cinzas e pedras depois da erupção. Em Herculano, ao contrário de Pompéia, os esqueletos das vítimas foram mais preservados, por causa das características da erupção. Perdeu cerca de 80% de sua população

Pompéia

Localizada na baía de Nápoles, foi soterrada por 6 metros de cinzas e rochas na erupção do Vesúvio. As primeiras vítimas morreram atingidas por pedras ou desabamentos. A seguir, acabaram intoxicadas. Acredita-se que entre 4 mil e 8 mil dos 20 mil habitantes tenham morrido

Estábia

Ficava a apenas 5 quilômetros de Pompéia e, a exemplo de outras cidades ao redor, como Oplontis, foi destruída. Ganhou fama por ter sido onde Plínio, o Velho, morreu, intoxicado por gases do vulcão. O número de vítimas chegou às centenas.


Eu me lembro
Plínio, o Jovem, foitestemunha da história
Em 24 de agosto de 79, Gaius Plinius Caecilius Secunduso, um rapaz de cerca de 20 anos, preferiu não navegar com o tio até o pé do Vesúvio. Plínio, o Velho, era um “cientista” e, como isso naquela época era pouco mais que observar os fenômenos naturais e teorizar sobre eles, queria ver tudo mais de perto. Sábia decisão. Plínio, o Jovem, ficou em casa, em Miceno, sobreviveu e por isso pôde relatar todos os acontecimentos daquele dia. Suas longas cartas enviadas ao historiador Tácito mais tarde foram publicadas em livros. Mas as originais, porém, não existem mais. “Elas foram copiadas, como quase todos os documentos antigos, durante a Idade Média. Datam dessa época as versões mais antigas”, diz o arqueólogo Pedro Paulo Funari, da Unicamp. “Era o nono dia antes das calendas de setembro, pela sétima hora, quando minha mãe lhe mostrou que se formava uma nuvem volumosa e de forma incomum. Havia tomado seu banho de sol, depois um banho frio, e, num leito, estudava. Levantou-se e subiu a um lugar do qual podia ver melhor”, escreveu o jovem, sobre como o tio soube da erupção. “A nuvem parecia-se muito com um pinheiro porque, depois de elevar-se em forma de um tronco, desabrochava no ar seus ramos. Creio que era arrastada por uma rápida corrente de vento e que, quando esta cedia, a nuvem, vencida por seu próprio peso, dilatava-se e expandia-se, parecendo às vezes branca, às vezes escura ou de diferentes cores, conforme estivesse mais impregnada de terra ou de cinzas”. A descrição continua: “O Vesúvio brilhava com enormes labaredas em muitos pontos e grandes colunas de fogo saíam dele, cuja intensidade fazia mais ostensivas as trevas noturnas. O dia nascia já em outras regiões, mas aqui continuava noite, uma noite fechada, mais tenebrosa que todas as outras; a única exceção era a luz dos relâmpagos e outros fenômenos semelhantes”. Em seus escritos, Plínio fala também sobre a aflição do povo: “Podia-se ouvir os soluços das mulheres, o lamento das crianças e os gritos dos homens. Muitos clamavam pela ajuda dos deuses, mas muitos outros imaginavam que não havia mais deuses e que o Universo estava imerso numa eterna escuridão”.

Cidade viva
Comércio era a alma de Pompéia
XIXI LIMPINHO

Normalmente, lavanderias e tinturarias funcionavam no mesmo local. Os donos dos estabelecimentos costumavam pôr ânforas do lado de fora, para que as pessoas urinassem nelas. A urina era usada para clarear as roupas, por causa da amônia. Quem fazia o trabalho sujo da limpeza eram os escravos

MAC THERMOPOLIUM

Pompéia tinha sua rede de fast food. As thermopolia tinham uma bancada em formato de “L” com buracos para manter quentes as panelas com comida, como lentilha ou carnes. O local também servia vinho em jarros. Os clientes mais comuns eram os visitantes da cidade, como os “torcedores” das lutas

PÃO QUENTINHO

Alguns dos comércios mais comuns eram as padarias, que preparavam pão fresco todos os dias. As lojas encontradas durante as escavações revelaram que a erupção pegou todos de surpresa e que o povo saiu apressado: algumas tinham pães assando nos fornos


Salve-se quem puder
Vestígios arqueológicosmostram como era a vida dosmoradores da cidade
CAPACETE

Os gladiadores, donos de capacetes como este, com grades de bronze para proteger os olhos, eram ídolos em Pompéia. Os grafites nas paredes da cidade mostram, por exemplo, uma luta entre Oceanus e Aracintus. Oceanus, vencedor de 12 batalhas, matou seu adversário no combate

JÓIAS

Muitos moradores, ao se darem conta da tragédia que arrasaria a cidade, fugiram levando moedas e jóias. Mas nem todos conseguiram. Comparável às melhores jóias feitas em Roma, este colar de esmeraldas e pérolas, encontrado em Pompéia, revela a riqueza da elite da cidade

TAÇA DE PRATA

O cálice encontrado em 1930 na casa que pertencia a Quintus Poppaeus, um homem influente, parente de Poppaea Sabina, a segunda esposa do imperador Nero. Toda decorada com ramos de oliveira, peça pertence a uma coleção com 118 peças

ÂNFORAS

Os recipientes, geralmente de cerâmica, eram de dois tipos. Os grandes, com até 1 metro de altura, eram usados no transporte de vinho, azeite e molho de peixe. Os menores, serviam como garrafas. Estas da foto foram encontradas nas ruínas da casa de Gaius Julius Polybius


Saiba mais
Livros

Pompeii: a Novel, Richard Harris, Random House, 2004. - Ainda sem edição em português, o livro é a mais recente e completa tentativa de recriar os últimos momentos da cidade

A Vida Quotidiana na Roma Antiga, Pedro Paulo Funari, Annablume, 2004 - O livro recria a vida em Pompéia tomando por base os grafites encontrados nas paredes da cidade


Múmias de gesso
Estátuas imortalizaramos últimos momentosde Pompéia
Após Pompéia ter submergido, a cidade virou o ponto preferido de saqueadores. “A parte de cima de alguns prédios ainda estava visível, e os ladrões atacaram, procurando tudo o que pudesse haver de valioso”, diz o historiador Andrew Wallace-Hadrill. Dois séculos depois a cidade já havia sido esquecida – era citada em poucas histórias populares, com o nome de Civitá. Em 1595, o local foi descoberto por acaso durante a construção de um aqueduto. Os trabalhadores depararam com objetos antigos, que foram levados para as cortes de Roma e Florença. No entanto, as escavações mesmo só começaram em 1748, quando especialistas perceberam que aqueles objetos eram da antiga Civitá. Uma placa que dizia que o nome da cidade era Pompéia foi encontrada e a cidade foi rebatizada. Segundo o arqueólogo italiano Salvatore Ciro Nappo, durante a primeira fase, as escavações só pretendiam encontrar objetos de arte. Mais tarde, porém, construções inteiras começaram a aparecer. O que mais impressiona até hoje – e causa mais confusão – são os “corpos” das vítimas. Muitos acreditam que aquelas figuras expressivas são os restos dos moradores petrificados. Na verdade, são apenas estátuas, feitas a partir dos moldes deixados pelos corpos de verdade. A avalanche de cinzas e rochas que caiu formou uma espécie de cobertura, que se solidificou. Com o tempo, o material orgânico se decompôs, deixando um espaço oco no meio das rochas. Conforme descobriam as vítimas, os arqueólogos recheavam com gesso esse espaço vazio, conseguindo reproduzir a posição exata de homens, mulheres, crianças e até animais mortos durante a erupção. Os corpos não estão lá, mas o sofrimento e a dramaticidade estão. Não tão famosas, mas muito mais importantes para a história são os escritos encontrados nas paredes de Pompéia. “Muito do que sabemos sobre Roma, sobretudo acerca da vida cotidiana, deve-se aos grafites e inscrições descobertos em Pompéia”, diz Pedro Paulo Funari. Como a vida se extiguiu de uma hora para outra e tudo permaneceu enterrado, as paredes e inscrições não sofreram degradação nem pelos homens nem pelo tempo. “Os muros da cidade são um grande livro”, afirma Pedro Paulo.

Revista Aventuras na Historia

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A Tragédia de Pompéia

Nas horas que se seguiram à erupção do Vesúvio, morreram 16 mil habitantes de Pompéia, praticamente 80% de toda a população.
por René Guerdan
Cinzas e lama moldaram os corpos das vítimas, permitindo que fossem encontradas do modo exato em que foram atingidas pela erupção do Vesúvio, cujo vulto vê-se ao fundo


Nas horas que se sguiram à erupção do Vesúvio, morreram 16 mil habitantes de Pompéia. Hoje, é possível reconstituir esta tragédia passo a passo, como se estivéssemos presentes.

Pompéia, uma cidade de 20 mil habitantes, produtora de vinho e azeite, vive hoje, 24 de agosto de 79 d.C., um dia de festa. Um grupo de teatro vindo de Roma deve se apresentar no Grande Teatro. Começando por volta das 11 horas da manhã, o espetáculo deve durar, como sempre, até a noite. São um pouco mais de dez horas.

Os padeiros, com suas cestas de doces nos braços, se dirigem às arquibancadas. Diante das thermopolia, bares ao ar livre da Antigüidade, os consumidores terminam de beber suas últimas taças de posca e as lojas começam a descer as persianas de madeira, sinal de fechamento. O dia está bonito e, como na véspera, se anuncia quente.

De repente, ouve-se uma explosão. Espanto! Num instante, todos estão na rua. Espetáculo alucinante, o topo do Vesúvio havia se partido em dois. Uma coluna de fogo escapa dali. É uma erupção! De início, todos se assustam e se interpelam. Havia pelo menos 900 anos que o vulcão não dava sinais de vida. Dizia-se que ele estava extinto. Logo depois é a agitação. Em volta começa a desabar uma chuva de projéteis: pedras-pomes, lapíli e, às vezes, pedaços de rochas - fragmentos arrancados do topo da montanha e da tampa de lava resfriada que obstruía a cratera.

Num instante, as praças e ruas se esvaziam. Aqueles que não moram no bairro correm para se refugiar sob uma abóbada, um pórtico, qualquer abrigo, enquanto outros se apressam em correr para se proteger em casa. O que fazer, pensam, a não ser esperar? O bombardeio terminaria mais cedo ou mais tarde. Durante 20 minutos, a erupção faz misérias, cobrindo a cidade com 2,60 metros de escórias. Em seguida, uma poeira arenosa toma o lugar das pedras-pomes e os lapíli diminuem. A esperança aumenta. Alguns audaciosos arriscam até a colocar o nariz para fora. Do Vesúvio sai somente uma coluna de fumaça. Mais um pouco de paciência e tudo deverá voltar ao normal.

DESTRUIÇÃO

Assim, duas horas se passam. O que fizeram os habitantes de Pompéia durante este período? Não se sabe muito. Em compensação, sabemos o que fez o Vesúvio. No interior da cratera, após a expulsão da tampa de lava, a pressão começou a cair vertiginosamente. O magma vulcânico, que dormia há séculos, começou lentamente a espumar e, às 13 horas, rasgando o ar, destruindo as casas, virando de ponta-cabeça as colunas dos pórticos, saiu bruscamente numa série de explosões. Do vulcão vê-se escapar uma nuvem monstruosa em forma de pinheiro - um cogumelo, como nós diríamos hoje. E, subitamente, fez-se noite em pleno dia. Uma noite marcada com alguns raios lívidos. As cinzas agora caem na forma de uma chuva tão densa que obscurece o sol.

Infelizmente, a chuva não é somente densa: ela está carregada de vapores clorídricos. É pela intoxicação por gás, e não por soterramento, que morrerão as pessoas em Pompéia. A primeira guerra química contra o homem foi feita pelo Vesúvio. Só agora, enfim, os habitantes de Pompéia decidem fugir. Mas eles haviam perdido duas horas preciosas. Abandonando seus abrigos, suas casas, tomando ou não o cuidado de levar consigo seus tesouros, milhares se dirigem às portas da cidade nesta noite negra.

Aqueles que moravam no noroeste se precipitaram naturalmente para a porta de Herculanum. Alguns carregavam diante de si uma lâmpada a óleo, como se uma chama pudesse resistir algum tempo àqueles ventos, àquela chuva viscosa de cinzas. A maioria colocou sobre a boca uma almofada ou uma telha encontrada pelo caminho. Mas será que alguém pode se defender contra um inimigo que se insinua em todas as partes através de uma fina poeira carregada de vapores clorídricos?
Nessa escuridão varrida por um vento de tempestade, fragilmente iluminada de vez em quando por projéteis de fogo, não há mais pobres ou ricos. Somente sombras que se debatem, desesperadas, umas contra as outras e que tropeçam nas escórias ou sobre o corpo de alguém agonizando após ter sido abatido pelo furor do Vesúvio. Em sua pressa de chegar mais rápido, alguns chegaram até a tirar as roupas e correm nus.

À porta! Chegar até ela antes que os destroços voando das casas nos derrubem, antes que a chuva de cinzas nos asfixie! E à porta, à porta miraculosa, a maioria chegará. Mas não será a porta do Paraíso, será a porta do Inferno!

O vento soprava do noroeste e vinha do Vesúvio. Sair pela porta de Herculanum significava ir em sua direção, ou seja, jogar-se numa tempestade que nenhuma construção ou abrigo poderia amenizar. Sufocados e cegos, aqueles que depois de tantos esforços tinham conseguido atravessá-la têm apenas um desejo: dar meia- volta e encontrar o que, no instante anterior, parecia o paroxismo do horror. Mas como lutar contra a multidão que sobe? Mulheres, crianças tentam e são imediatamente pisoteadas.

ABRIGO

E assim, por ironia, em meio ao pânico generalizado, é nos jazigos pelo caminho que os vivos vão buscar abrigo. Uma mulher que carregava uma criança corre para se abrigar num mausoléu, mas este desaba sobre ela. Um grupo de quatro pessoas, dentre as quais uma mulher ricamente enfeitada - apertando um bebê contra o seio -, se refugia com pressa sob o pórtico de uma tumba. Mas o pórtico também desaba e mata a todos. A Via dos Sepulcros nunca mereceu tanto o seu nome como neste dia! Os banqueteiros se reuniram num triclínio fúnebre. Estendidos sobre seus leitos de repouso, eles honram a morte. Celebrando o soterramento de um parente, é o deles próprios que terminarão por celebrar.

Mas voltemos à multidão desesperada que procurava chegar até as outras portas da cidade. No sudeste, a porta Marina estava particularmente lotada. Longe do Vesúvio e da direção do vento, ela levava ao mar aberto, à salvação. Primeiro passaram por ela todos os que passeavam ou trabalhavam no Fórum, ou ainda aqueles que tinham ido banhar-se nas termas. Em seguida, no momento do pânico geral, veio juntar-se a eles a multidão que tinha abandonado as casas e os casebres. Cheia de esperança, a massa de fugitivos despenca para além da porta, pela ladeira que conduz ao Sarno, e depois segue pelo caminho que acompanha o curso do rio.

Ontem, nesse mesmo caminho, quando ocorrera a procissão de Ísis, muitas e muitas vezes eles pararam ali para rir, cantar e descansar. Hoje correm o mais rápido que lhes permitem os montes de entulho. Vários tropeçam, sem dúvida, mas logo se levantam, pois a menos de um quilômetro encontrarão o mar, um barco e a fuga. Enfim, ofegantes, os primeiros fugitivos chegam ao porto. Ao porto? Ondas de vários metros de altura batem na areia. O mar está muito agitado. Navegar? Como e com o quê? Todos os barcos foram destruídos. Desse lado não há saída. Então novamente se produzem as cenas de confusão cujo teatro é a porta de Herculanum. Aqueles que queriam dar meia-volta deparam com a massa que tenta descer.

DESESPERO

Na noite escura, no meio de assovios do vento que, à beira do mar, recobrou toda a sua fúria, eles se esmagam uns contra os outros. Muitos morrerão pisoteados. Morte relativamente doce, no entanto, se pensarmos que, nessa mesma margem, todos os sobreviventes terminarão com os pulmões tomados de gases. Não havia porta de salvação para os habitantes de Pompéia. Chance de salvação só houve para aqueles que moravam no sul e no sudeste da cidade. E, ainda assim, somente se eles não tivessem demorado para fugir e, durante a fuga, tivessem passado pela porta de Nocera em vez da porta de Stábia. A porta de Stábia também tinha sido soterrada. Mas essa dupla condição foi poucas vezes encontrada. Desse lado, portanto, foram igualmente numerosas as cenas de desolação.

Na grande palestra (ginásio), a erupção surpreendeu os pedreiros em pleno trabalho. Durante alguns instantes eles permaneceram sob os pórticos. Em seguida, um deles teve uma idéia: a latrina. Ela poderia, com efeito, representar um abrigo seguro contra o bombardeio das escórias. Eles correram para lá e se trancaram. No início, demonstraram altruísmo. Quando outros que tiveram a mesma idéia vinham bater na porta, eles abriam. E assim, rapidamente eles se julgaram bastante numerosos e não abriram mais. Quantos, rejeitados desta forma, morreram esmagados pelas colunas do pórtico vizinho? Não se sabe com certeza. De qualquer modo, a julgar pelas ossadas, foram muitos. Mas foi possível reconstituir a agonia de três pessoas, pois, ao asfixiá-las, as cinzas moldaram seus corpos.

Os operários que tinham se trancado não foram salvos por seu egoísmo. Em sua latrina estavam abrigados do bombardeio de escória, mas não da chuva de cinzas. Quando esta se infiltrou, todos pereceram, até o último. Mas muitas outras ossadas foram encontradas no interior e nas proximidades da grande palestra - inclusive mais aqui do que em todos os outros lugares, mostrando que mesmo nesse bairro rico, assim como nas insulae pobres, a maioria não pôde se salvar a tempo. Quando a erupção começou, eles se fecharam, como os ricos, em suas casas. Depois a chuva de cinzas começou, então fugiram. Em família, em grupos patéticos de quatro, cinco ou seis pessoas: o pai, a mãe e os filhos.

Às vezes duas famílias - sem dúvida vizinhas de porta - se uniram, como se este fato tornasse a salvação mais segura. Quando tinham o cuidado de levar consigo seus tesouros, estes não representavam grande coisa: algumas jóias de pouco valor, pouco dinheiro, às vezes absolutamente nada. Pessoas simples, portanto, que, antes de sufocar, caíam ou se lançavam de boca no chão.

Mesmo a porta de Nocera não foi para todos a porta da salvação. Um jovem casal chegou até ela e conseguiu mesmo atravessá-la. Como os outros, os dois se trancaram em casa durante o primeiro bombardeio de pedras-pomes. Agora, para avançar, tinham de lutar contra essa tempestade de cinzas que cega, que se cola à pele e queima a garganta. Grande, vigoroso, com corpo de atleta, o homem caminha na frente, tentando abrir passagem para sua companheira em meio dos montes de lixo. De repente, a mulher cai com o rosto no chão e não consegue mais se levantar. O homem quer ajudá-la, mas também cai. Num último esforço, suas mãos tentam unir-se, mas a chuva de cinzas lhes nega este último favor.

Mas de todas estas histórias da porta de Nocera o mais patético é, sem dúvida, o que segue. Trata-se de 13 pessoas que formavam três famílias - duas famílias de fazendeiros e a família de um comerciante. Eram vizinhos que moravam perto e, provavelmente, se entendiam muito bem. Quando o bombardeio começou, eles conversaram e decidiram se refugiar na casa mais sólida. Depois, quando a chuva de cinzas começou decidiram fugir. Todo o campo já estava coberto de uma mortalha de detritos. Cegos, sufocando, eles pegaram o caminho que passava diante de suas casas. Em primeiro lugar vinha um escravo levando nos ombros um saco de provisões. Atrás dele, dois meninos de 4 a 5 anos caminhavam de mãos dadas para dar coragem um ao outro; tinham colocado sobre eles um pedaço de tela e eles procuravam colocá-la sobre a boca. Em seguida vinham seus pais, o pai ajudando a mãe, sem dúvida uma inválida, a continuar a caminhar. A segunda família era composta de um jovem casal e de uma menina. Cada um protegia a boca com um pedaço de tecido. Enfim vinha a família do comerciante: duas crianças com 10 anos que também estavam de mãos dadas, uma menina mais nova que a mãe conduzia e depois o pai.

E estas 13 pessoas, nessa tempestade de cinzas, nessa noite escura, no meio da escória, continuavam seu caminho. Como poderiam pensar em escapar com crianças tão pequenas? Eles continuavam porque o homem não se resigna facilmente à idéia de morrer imóvel.

RESQUÍCIOS

Vinte séculos mais tarde, nós os encontramos, modelados pelas cinzas, na mesma posição, com as expressões de seus últimos momentos, uns curvados sobre si mesmos, outros estendidos, seja de costas, seja com o rosto contra a terra. Os meninos de 4 a 5 anos tinham as feições calmas; as crianças com 10 anos, os membros entrelaçados, ainda segurando as mãos uma da outra. Quanto ao mercador, caído sobre os joelhos, o braço direito apoiado na terra, as costas estendidas, tentava ainda se levantar quando a morte tomou conta dele.
Tais foram, portanto, as tristes histórias que as diversas portas contaram aos escavadores quando estes as descobriram.

Mas as casas tiveram igualmente inúmeros dramas para contar, pois muitos dos habitantes de Pompéia não se resignaram a abandonar seus bens. Quantos esqueletos intactos ou mutilados foram encontrados nas casas! No subsolo, no térreo, no primeiro andar e mesmo sobre os telhados, já que alguns não hesitaram em subir para a parte mais alta de suas casas, na tentativa de escapar à invasão crescente dos resíduos.

Na propriedade chamada de Diomedes, no Caminho das Sepulturas, o pai fez sua família descer ao porão: uma galeria cuja iluminação provinha de aberturas em sua abóbada e onde ele conservava suas ânforas de vinho com as pontas enterradas no chão. Na pressa, sua mulher passou em volta do pescoço um pesado colar de ouro e nos braços, pulseiras. Sua filha também colocou suas jóias mais preciosas; ele mesmo colocou numa sacola todo seu dinheiro líquido: dez moedas de ouro e 88 moedas de prata com a efígie de Nero, Vitélio e Vespasiano.

E, com boas provisões de pão, frutas e outros alimentos diversos, eles esperam. As horas passam. Eles estão seguros, ou pelo menos acreditam estar. Mas o ar começa a piorar cada vez mais. O pai decide investigar. Com uma chave na mão, seguido por um escravo, ele sai. Uma vez do lado de fora, a chuva de cinzas o sufoca imediatamente. Ele morre. Mas os reclusos da galeria não serão protegidos tampouco.

Impalpável, a cinza não pára de penetrar pelas aberturas, cinza carregada de vapores clorídricos. A moça tenta em vão proteger a cabeça com sua túnica, e os companheiros tentam, também em vão, cobrir o nariz e a boca com tecidos. Séculos mais tarde, os 18 esqueletos serão descobertos, incluindo o de uma criança.

Uma descoberta mais surpreendente ainda aconteceu um pouco mais longe, na propriedade chamada de Mistérios. Na entrada da galeria subterrânea onde se refugiaram os operários que trabalhavam em sua reforma os escavadores foram obrigados a recuar imediatamente. Após tantos séculos, os vapores deletérios ainda estavam ali. Tão presentes que só foi possível enfrentá-los com máscaras contra gás.

Durante todo o dia 24 e todo o dia 25, e ainda no dia 26, a chuva de cinzas não parou. Quando, enfim, na aurora do dia 27, o sol reapareceu, o Vesúvio tinha mudado de forma. Ele possuía agora um topo duplo e, no lugar da antiga cratera, um cone havia se formado. Quanto aos habitantes de Pompéia, 80% deles - 16 mil numa população de 20 mil - jaziam a vários metros de profundidade. A cidade estava morta, mas uma morte que a tornaria imortal.

-Tradução de Mariana Teixeira

René Guerdan é historiador.

Revista Historia Viva