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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Era de Hobsbawm

Antropólogo homenageia historiador falecido e comenta sua importância para os estudos sobre trabalhadores e camponeses.

José Sergio Leite Lopes


Charge de Eric Hobsbawm feita pelo desenhista brasileiro Cássio Loredano e publicada na revista CH de março/abril de 1986. O historiador faleceu no dia 1 de outubro de 2012, deixando importante legado sobre a história do século 20.


A morte de Eric Hobsbawm (1917-2012), fechando a longa trajetória que o habilitou a ser um observador privilegiado e arguto do século 20 (e da primeira década do século 21), pôs em evidência sua popularidade e celebridade – qualidades raras para um historiador erudito e contestatário. Sua tetralogia sobre as Eras – das revoluções, do capital, dos impérios e, finalmente, dos extremos –, o projetou como um autor difundido internacionalmente, do ensino médio às pós-graduações.

Foi o primeiro desses livros, A era das revoluções: 1789-1848, que fez dele um historiador conhecido por um grande público. Publicado em 1962, quando tinha 45 anos, A era das revoluções é um livro de síntese e erudição histórica (de “haute vulgarisation”, como o autor classifica, ironicamente, logo no prefácio), em que Hobsbawm demonstra sua capacidadede dar uma interpretação para o período, utilizando os recursos da história social, que vinha renovando o campo da história pós-Segunda Guerra.

A obra inaugurou-lhe o caminho da fama mundial. Foi traduzido em várias línguas edestacou-se no florescente mercado editorial dos livros de história moderna e contemporânea. Até então, Hobsbawm havia feito importantes contribuições sobre a história dos trabalhadores na Europa industrializada e sobre movimentos eivados de tradição e rebeldia na Europa do sul. Mas foi como segunda opção que a prestigiosa editora Weidenfeld & Nicolson, que procurava um escritor erudito para a coleção de história das civilizações, chegou a Hobsbawm. A indicação deveu-se ao historiador J. L. Talmon, que havia declinado do convite.


Em seguida, Hobsbawm pôde então reunir  em livro seus artigos anteriores publicados em revistas especializadas, como em Os trabalhadores, de 1964. Nos anos 1960, publicou ainda uma longa introdução às Formações pré-capitalistas, manuscritos então recém-editados de Karl Marx, que corroboravam os ventos renovadores não-evolucionistas do marxismo crítico, particularmente forte entre os historiadores britânicos à época;Da revolução industrial inglesa ao imperialismo; e Bandidos, em que prolongava as preocupações de um dos seus primeiros livros, Os rebeldes primitivos.

Em 1970, tornou-se professor efetivo do Birkbeck College da Universidade de Londres, instituição onde ensinava desde 1947. A explícita militância marxista de Hobsbawm teve por efeito retardar sua ascensão nos postos universitários. Apesar de aluno de destaque em Cambridge, acabou por encontrar seu lugar na instituição universitária de ensino noturno, cujos alunos trabalhavam durante o dia, característica do Birkbeck College.

Assinale-se que o trabalho nos cursos universitários de formação de adultos ou de formação continuada teve uma importância comum à carreira de autores como E. P. Thompson e Raymond Williams, além de exilados do nazismo como Norbert Elias e Karl Polanyi.


Movimentos sociais

Antes da fama decorrente da publicação da Era das revoluções, Hobsbawm havia publicado dois livros. O primeiro, Labour’s turning point (1948), insere-se nos estudos dos movimentosde trabalhadores na Inglaterra no final do século 19, área em que havia se tornado especialista.

O segundo, Rebeldes primitivos (1959), resultou do estímulo dado por Max Gluckman e seu grupo de antropólogos da Universidade de Manchester. Certamente chegou ao conhecimento desses antropólogos – especialistas na África contemporânea e interessados nos movimentos anticoloniais que ali vinham se desenvolvendo – a experiência deHobsbawm nos movimentos de rebelião ‘tradicional’ no seio de populações camponesas ou artesãs do sul da Europa, na Espanha e na Itália, desde 1952. O grupo o convidou, em 1956, para dar três conferências sobre tal experiência e, em 1959, foi publicado o livro pela editora daquela universidade.

Por meio de observação direta e do trabalho em arquivos locais nos países estudados sobre grupos de camponeses e trabalhadores rurais atingidos pela expansão do capitalismo e sua forma de resistência ‘pré-política’ (isto é, anterior ao seu pertencimento ao teatro da grandepolítica nacional), Hobsbawm prolonga a sensibilidade histórica que tivera com manifestações similares de trabalhadores urbanos pré-industriais da própria Inglaterra. Tais análises foram apresentadas nos artigos “Os quebradores de máquinas” (1952) e “Os artesãos itinerantes” (1951), depois reunidos no livro Os trabalhadores.

É interessante observar como essa ligação pioneira da história social, à qual pertenceHobsbawm, com os antropólogos e a temática antropológica acaba não sendo devidamente ressaltada, hoje, com a onda de aproximação, a partir dos anos 1980, entre história e antropologia na chamada ‘história cultural’.
Hobsbawm iniciou a história social do trabalho não limitada aos trabalhadores organizados, suas organizações e líderes, mas voltada para asexperiências das classes trabalhadoras

No que diz respeito à história do trabalho,Hobsbawm contribuiu pioneiramente para a passagem da história das instituições operárias – partidos e sindicatos – para a história social da classe operária. Ele inicia assim uma história social do trabalho não limitada aos trabalhadores organizados, suas organizações e líderes, mas voltada para as experiências das classes trabalhadoras. Além disso, esteve atento às ligações entre a história do campesinato em diferentes países e a dos trabalhadores industriais. Foi, ainda, o introdutor e primeiro sistematizador da noção de ‘invenção das tradições’.

Com a fama alcançada nos anos 1960 e a titularidade universitária nos anos 1970,Hobsbawm foi convidado para atividades em inúmeros países. No Brasil, como conta em seu livro autobiográfico Tempos interessantes, participou de um famoso seminário dehistória na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1975, em plena ditadura, quando foi testada a tolerância da repressão com eventos acadêmicos que provocavam interesse maior do público universitário.

Naquele evento, apresentou um trabalho sobre movimentos pré-políticos do campesinato e teve como debatedor o antropólogo Otávio Velho. Na mesma viagem, apresentou no Museu Nacional seu trabalho sobre ocupações de terra no Peru, em palestra que marcou época naquela instituição.

Em 1992, teve uma mesa em sua homenagem, intitulada ‘A era de Hobsbawm’, em seminário com a sua presença, promovido no Sindicato dos Trabalhadores Químicos de São Paulo pelo Instituto Cajamar, de formação sindical. Foram inúmeras suas vindas ao Brasil, onde tinha como interlocutores intelectuais e lideranças de trabalhadores, inclusive os últimos dois ex-presidentes da República. 

José Sergio Leite Lopes
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro
 Revista Ciência Hoje

quarta-feira, 21 de março de 2012

Para Hobsbawm - Revoltas de 2011

Para Hobsbawm, protagonismo da classe média marca revoltas de 2011

Andrew Whitehead
Para historiador, classe operária perdeu seu papel histórico

A classe média foi a grande protagonista e força motriz das revoltas populares e ocupações que marcaram o ano de 2011. Esta é a opinião de Eric Hobsbawm, um dos mais importantes historiadores em atividade.
Em entrevista à BBC, o historiador marxista nascido no Egito, mas radicado na Grã-Bretanha, afirma ainda que a classe operária e a esquerda tradicional - da qual ele ainda é um dos principais expoentes - estiveram à margem das grandes mobilizações populares que ocorreram ao longo deste ano.

''As mais eficazes mobilizações populares são aquelas que começam a partir da nova classe média modernizada e, particularmente, a partir de um enorme corpo estudantil. Elas são mais eficazes em países em que, demograficamente, jovens homens e mulheres constituem uma parcela da população maior do que a que constituem na Europa'', diz, em referência especial à Primavera Árabe, um movimento que despertou seu fascínio.
''Foi uma alegria imensa descobrir que, mais uma vez, é possível que pessoas possam ir às ruas e protestar, derrubar governos'', afirma Hobsbawm, cujo título do mais recente livro, Como Mudar o Mundo, reflete sua contínua paixão pela política e pelos ideais de transformação social que defendeu ao longo de toda a vida e que segue abraçando aos 94 anos de idade.
As ausências da esquerda tradicional e da classe operária nesses movimentos, segundo ele, se devem a fatores históricos inevitáveis.
''A esquerda tradicional foi moldada para uma sociedade que não existe mais ou que está saindo do mercado. Ela acreditava fortemente no trabalho operário em massa como o sendo o veículo do futuro. Mas nós fomos desindustrializados, portanto, isso não é mais possível'', diz Hobsbawm.
Hobsbawm comenta que as diversas ocupações realizadas em diferentes cidades do mundo ao longo de 2011 não são movimentos de massa no sentido clássico.
''As ocupações na maior parte dos casos não foram protestos de massa, não foram os 99% (como os líderes dos movimentos de ocupação se autodenominam), mas foram os famosos 'exércitos postiços', formados por estudantes e integrantes da contracultura. Por vezes, eles encontraram ecos na opinião pública. Em se tratando das ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas foi claramente esse o caso.''
À sombra das revoluções
Hobsbawm passou sua vida à sombra - ou ao brilho - das revoluções.
Ele nasceu apenas meses após a revolução de 1917 e foi comunista por quase toda a sua vida adulta, bem como um autor e pensador influente e inovador.
Ele tem sido um historiador de revoluções e, por vezes, um entusiasta de mudanças revolucionárias.
O historiador enxerga semelhanças entre 2011 e 1848, o chamado ''ano das revoluções'', na Europa, quando ocorreram uma série de insurreições na França, Alemanha, Itália e Áustria e quando foi publicado um livro crucial na formação de Hobsbawm, O Manifesto Comunista, de Marx e Engels.
Hobsbawm afirma que as insurreições que sacudiram o mundo árabe e que promoveram a derrubada dos regimes da Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, ''me lembram 1848, uma outra revolução que foi tida como sendo auto-impulsionada, que começou em um país (a França) e depois se espalhou pelo continente em um curto espaço de tempo''.
Historiador diz que revoluções no mundo árabe tomaram rumo inesperado

Para aqueles que um dia saudaram a insurreição egípcia, mas que se preocupam com os rumos tomados pela revolução no país, Hobsbawm oferece algumas palavras de consolo.
''Dois anos depois de 1848, pareceu que alguma coisa havia falhado. No longo prazo, não falhou. Foi feito um número considerável de avanços progressistas. Por isso, foi um fracasso momentâneo, mas sucesso parcial de longo prazo - mas não mais em forma de revolução''.
Mas, com a possível exceção da Tunísia, o historiador não vê perspectivas de que os países árabes adotem democracias liberais ao estilo das europeias.
''Estamos em meio a uma revolução, mas não se trata da mesma revolução. O que as une é um sentimento comum de descontentamento e a existência de forças comuns mobilizáveis - uma classe média modernizadora, particularmente, uma classe média jovem e estudantil e, é claro, a tecnologia, que hoje em dia torna muito mais fácil organizar protestos.''
BBC Brasil

Trocando mitos por história - Hobsbawm


Entrevista com Eric Hobsbawm: Trocando mitos por história

Eric Hobsbawm é um historiador merecedor de todo o respeito. Num tempo em que a atividade central da grande maioria dos historiadores burgueses consiste na reescrita da história de acordo com as conveniências da ideologia dominante, a sua fidelidade à matriz marxista na investigação e no método serve de exemplo, independentemente das discordâncias que este ou aquele aspecto da sua obra suscitem.

Discordâncias que ele próprio assume frontalmente: “O que busco é o entendimento da história, e não concordância, aprovação ou comiseração”. Esta interessante entrevista é um exemplo da importância da reflexão de alguém que conta 94 anos, ou seja, de alguém que nasceu no ano da grande revolução socialista de outubro.

Estadão: No livro Globalização, Democracia e Terrorismo, de 2007, o senhor passa para os leitores certo pessimismo ao lhes colocar uma perspectiva crucial e ao mesmo tempo desconfortante: ''Não sabemos para onde estamos indo'', diz, referindo-se aos rumos mundiais. Olhando as últimas décadas pelo retrovisor da história, esse sentimento parece ter se intensificado. Em que outros momentos a humanidade viveu períodos marcados por essa mesma sensação de falta de rumos?
Eric Hobsbawm: Embora existam diferenças entre os países, e também entre as gerações, sobre a percepção do futuro – por exemplo, hoje há visões mais otimistas na China ou no Brasil do que em países da União Europeia e nos Estados Unidos –, ainda assim acredito que, ao pensar seriamente na situação mundial, muita gente experimente esse pessimismo ao qual você se refere. Porque de fato atravessamos um tempo de rápidas transformações e não sabemos para onde estamos indo, mas isso não constitui um elemento novo em tempos críticos. Tempos que nos remetem ao mundo em ruínas depois de 1914, ou mesmo a vários lugares daquela Europa entre duas grandes guerras ou na expectativa de uma terceira.

Aqueles anos durante e após a 2ª Guerra foram catastróficos, ali ninguém poderia prever que formato o futuro teria ou mesmo se haveria algum futuro. Cruzamos também os anos da Guerra Fria, sempre assustadores pela possibilidade de uma guerra nuclear. E, mais recentemente, notamos a mesma sensação de desorientação ao vermos como os Estados Unidos mergulharam numa crise econômica que até parece ser o breakdown do capitalismo liberal.

Estadão: Nações saíram empobrecidas, arruinadas mesmo, das guerras mundiais, mas é adequado pensar que havia naqueles escombros o desenho de um futuro?
Eric Hobsbawm: Sim. Se de um lado o futuro nos era desconhecido e cada vez mais inesperado, havia por outro lado uma ideia mais nítida sobre as opções que se apresentavam. No entreguerras, a escolha principal de um modelo se dava entre o capitalismo reformado e o socialismo com forte planejamento econômico – supremacia de mercado sem controle era algo impensável. Havia ainda a opção entre uma democracia liberal, o fascismo ultranacionalista e o comunismo.

Depois de 1945, o mundo claramente se dividiu numa zona de democracia liberal e bem-estar social a partir de um capitalismo reformado, sob a égide dos EUA, e uma zona sob orientação comunista. E havia também uma zona de emancipação de colônias, que era algo indefinido e preocupante. Mas veja que os países poderiam encontrar modelos de desenvolvimento importados do Ocidente, do Leste e até mesmo resultante da combinação dos dois. Hoje esses marcos sinalizadores desapareceram e os "pilotos" que guiariam nossos destinos, também.

Estadão: Como o senhor avalia o poder das imagens de destruição nos ataques do 11/9 a Nova York, tão repetidas nos últimos dias? Tornaram-se o símbolo de uma guinada histórica, apontando novas relações entre Ocidente e Oriente? Por que imagens do cenário de morte de Bin Laden surtiram menos impacto?
Eric Hobsbawm: A queda das torres do World Trade Center foi certamente a mais abrangente experiência de catástrofe que se tem na história, inclusive por ter sido acompanhada em cada aparelho de televisão, nos dois hemisférios do planeta. Nunca houve algo assim. E sendo imagens tão dramáticas, não surpreende que ainda causem forte impressão e tenham se convertido em ícones.

Agora, elas representam uma guinada histórica? Não tenho dúvida de que os Estados Unidos tratam o 11/9 dessa forma, como um turning point, mas não vejo as coisas desse modo. A não ser pelo fato de que o ataque deu ao governo norte-americano a ocasião perfeita para o país demonstrar sua supremacia militar ao mundo. E com sucesso bastante discutível, diga-se. Já o retrato de Bin Laden morto (que não foi divulgado) talvez fosse uma imagem menos icônica para nós, mas poderia se converter num ícone para o mundo islâmico. Da maneira deles, porque não é costume nesse mundo dar tanta importância a imagens, diferentemente do que fazemos no Ocidente, com nossas camisetas estampando o rosto de Che Guevara.

Estadão: Mas além da chance de demonstrar poderio militar, os Estados Unidos deram uma guinada na sua política externa a partir de 2001, ajustando o foco naquilo que George W. Bush batizou como "war on terror". Outro encaminhamento seria possível?
Eric Hobsbawm: Eu diria que a política externa norte-americana, depois de 2001, foi parcialmente orientada para a guerra ao terror, e fundamentalmente orientada pela certeza de que o 11/9 trouxe para os EUA a primeira grande oportunidade, depois do colapso soviético, de estabelecer uma supremacia global, combinando poder político-econômico e poder militar.

Criou-se a situação propícia para espalhar e reforçar bases militares americanas na Ásia central, ainda uma região muito ligada à Rússia. Sob esse aspecto, houve uma confluência de objetivos – combate-se o inimigo ampliando enormemente a presença militar norte-americana. Mas, sob outro aspecto, esses objetivos conflitaram. A guerra no Iraque, que no fundo nada tinha a ver com a Al-Qaida, consumiu atenção e uma enormidade de recursos dos EUA, e ainda permitiu à organização liderada por Bin Laden criar bases não só no Iraque, mas no Paquistão e extensões pelo Oriente Médio.

Estadão: Os Estados Unidos lançaram-se nessa campanha sabendo o tamanho do inimigo?
Eric Hobsbawm: O perigo do terrorismo islâmico ficou exagerado, a meu ver. Ele matou milhares de pessoas, é certo, mas o risco para a vida e a sobrevivência da humanidade que ele possa representar é muito menor do que o que se estima. Exemplo disso são as importantes mudanças que ocorreram neste ano no mundo árabe, mudanças que nada devem ao terrorismo islâmico. E não só: elas o deixaram à margem.

Agora, o mais duradouro efeito da war on terror, aliás, uma expressão que os diplomatas norte-americanos finalmente estão abandonando, terá sido permitir que os Estados Unidos revivessem a prática da tortura, bem como permitir que os cidadãos fossem alvo de vigilância oficial. Isso, claro, sem falar das medidas que fazem com que a vida das pessoas fique mais desconfortável, como ao viajar de avião.

Estadão: Diante dos problemas econômicos que hoje afligem os Estados Unidos, ainda sem um horizonte de recuperação à vista, o senhor diria que seguimos em direção a um tempo de declínio da hegemonia norte-americana?
Eric Hobsbawm: Nós de fato caminhamos em direção à Era do Declínio Americano. As guerras dos últimos dez anos demonstram como vem falhando a tentativa norte-americana de consolidar sua solitária hegemonia mundial. Isso porque o mundo hoje é politicamente pluralista, e não monopolista. Junto com toda a região que alavancou a industrialização na passagem do século 19 para o século 20, hoje a América assiste à mudança do centro de gravidade econômica do Atlântico Norte para o Leste e o Sul.

Enquanto o Ocidente vive sua maior crise desde os anos 1930, a economia global ainda assim continua a crescer, empurrada pela China e também pelos outros Brics. Ainda assim, não devemos subestimar os Estados Unidos. Qualquer que venha a ser a configuração do mundo no futuro, eles ainda se manterão como um grande país e não apenas porque são a terceira população do planeta. Ainda vão desfrutar, por um bom tempo, da notável acumulação científica que conseguiram fazer, além de todo o soft power global representado por sua indústria cultural, seus filmes, sua música, etc.

Estadão: Não só por desdobramentos político-militares do 11/9, mas também pela emergência de novos atores no mundo globalizado, criam-se situações bem desafiadoras. Por exemplo, o que o Ocidente sabe do Islã? E dos países árabes que hoje se levantam contra seus regimes? Qual é o grau de entendimento da China? Enfim, o Ocidente enfrenta dificuldades decorrentes de uma certa superioridade cultural ou arrogância histórica?
Eric Hobsbawm: Ao longo de toda uma era de dominação, o Ocidente não só assumiu que seus triunfos são maiores do que os de qualquer outra civilização, e que suas conquistas são superiores, como também que não haveria outro caminho a seguir. Portanto, ao Ocidente restaria unicamente ser imitado. Quando aconteciam falhas nesse processo de imitação, isso só reforçava nosso senso de superioridade cultural e arrogância histórica.

Assim, países consolidados em termos territoriais e políticos, monopolizando autoridade e poder, olharam de cima para baixo para países que aparentemente estavam falhando na busca de uma organização nas mesmas linhas. Países com instituições democráticas liberais também olharam de cima para baixo para países que não as tinham. Políticos do Ocidente passaram a pensar democracia como uma espécie de contabilidade de cidadãos em termos de maiorias e minorias, negando inclusive a essência histórica da democracia.

E os colonizadores europeus também se acharam no direito de olhar populações locais de cima para baixo, subjugando-as ou até erradicando-as, mesmo quando viam que aqueles modos de vida originais eram muito mais adequados ao meio ambiente das colônias do que os modos de vida trazidos de fora. Tudo isso fez com que o Ocidente realmente desenvolvesse essa dificuldade de entender e apreciar avanços que não fossem os próprios.

Estadão: Essa superioridade do Ocidente pode mudar com a emergência de uma potência como a China?
Eric Hobsbawm: Mas mesmo a China, que no passado remoto era tida como uma civilização superior, foi subestimada por longo tempo. Só depois da 2ª Guerra é que seus avanços em ciência e tecnologia começaram a ser reconhecidos. E só recentemente historiadores têm levantado as extraordinárias contribuições chinesas até o século 19.

Veja bem, ainda não sabemos em que medida a cultura, a língua e mesmo as práticas espirituais da Pérsia, hoje Irã, enfim, em que medida aquele fraco e frequentemente conquistado império influenciou uma grande parte da Ásia, do Império Otomano até as fronteiras da China. Sabemos? Temos grande dificuldade em compreender a natureza das sociedades nômades, bem como sua interação com sociedades agrícolas assentadas, e hoje a falta dessa compreensão torna quase impossível traduzir o que se passa em vastas áreas da África e da região do Saara, por exemplo, no Sudão e na Somália.

A política internacional fica completamente perdida quando confrontada por sociedades que rejeitam qualquer tipo de estado territorial ou poder superior ao do clã ou da tribo, como no Afeganistão e nas terras altas do sudoeste asiático. Hoje achamos que já sabemos muito sobre o Islã, sem nem sequer nos darmos conta de que o radicalismo xiita dos aiatolás iranianos e o sonho de restauração do califado por grupos sunitas não são expressões de um Islã tradicional, mas adaptações modernistas, processadas o longo século 20, de uma religião prismática e adaptável.

Estadão: Com todos esses exemplos de ''mundos'' que se estranham, o senhor diria que a história corre o risco das distorções?
Eric Hobsbawn: Apesar de todos esses exemplos, sou forçado a admitir que a arrogância histórica ocidental inevitavelmente se enfraquece, exceto em alguns países, entre eles os EUA, cujo senso de identidade coletiva ainda consiste na crença de sua própria superioridade. Nos últimos dez anos, a história tomou outro curso, muito afetada pelas imigrações internacionais que permitem a mulheres e homens de outras culturas virem para os "nossos" países.

Dou um exemplo: hoje a informação municipal na região de Londres onde vivo está disponível não apenas em inglês, mas em albanês, chinês, somali e urdu. A questão preocupante é que, como reação a tudo isso, surge também uma xenofobia de caráter populista, que se propaga até nas camadas mais educadas da população. Mas, inegavelmente, numa cidade como Londres ou Nova York, onde a presença dos imigrantes de várias partes é forte, existe hoje um reconhecimento maior da diversidade do mundo do que se tinha no passado.

Turistas que buscam destinos na Ásia, África ou até mesmo no Caribe costumam não entender a natureza das sociedades que cercam seus hotéis, mas jovens mulheres e homens que hoje viajam, a trabalho ou estudos, para esses lugares, já criam outra compreensão. Em resumo, apesar da expansão de xenofobia, há motivos para otimismo porque a compreensão abrangente do nosso tempo complexo requer mais do que conhecimento ou admiração por outras culturas. Requer conhecimento, estudo e, não menos importante, imaginação.

Estadão: Imaginação?
Eric Hobsbawm: Sim, porque essa compreensão abrangente é frequentemente dificultada pelo persistente hábito de políticos e generais passarem por cima do passado. O Afeganistão é um clamoroso exemplo do que estou dizendo. Temo que não seja o único.

Estadão: Na sua opinião, estaríamos atravessando um momento regressivo da humanidade quando fundamentalismos religiosos impõem visões de mundo e modos de vida?
Eric Hobsbawm: O que vem a ser um momento regressivo? Esta é a pergunta que faço. Não acredito que nossa civilização esteja encarando séculos de regressão como ocorreu na Europa Ocidental depois da queda do Império Romano. Por outro lado, devemos abandonar a antiga crença de que o progresso moral e político seja tão inevitável quanto o progresso científico, técnico e material. Essa crença tinha alguma base no século 19.

Hoje o problema real que se coloca, o maior deles, é que o poder do progresso material e tecnocientífico, baseado em crescente e acelerado crescimento econômico, num sistema capitalista sem controle, gera uma crise global de meio ambiente que coloca a humanidade em risco. E, à falta de uma entidade internacional efetiva no plano da tomada de decisão, nem o conhecimento consolidado do que fazer, nem o desejo político de governos nacionais de fazer alguma coisa estão presentes.

Esse vazio decisório e de ação pode, sim, levar o nosso século para um momento regressivo. E certamente isso tem a ver com aquele "sentido de desorientação" que discutimos no início da entrevista.

Estadão: Apoiado na sua longa trajetória acadêmica, que conselhos o senhor daria aos jovens historiadores de hoje?
Eric Hobsbawn: Hoje pesquisar e escrever a história são atividades fundamentais, e a missão mais importante dos historiadores é combater mitos ideológicos, boa parte deles de feitio nacionalista e religioso. Combater mitos para substituí-los justamente por história, com o apoio e o estímulo de muitos governos, inclusive. Se eu fosse jovem o suficiente, gostaria de participar de um excitante projeto interdisciplinar que recorresse à moderna arqueologia e às técnicas de DNA para compor uma história global do desenvolvimento humano, desde quando os primeiros Homo sapiens tenham aparecido na África oriental e como elas se espalharam pelo globo.

Agora, se eu fosse um jovem historiador latino-americano, daí eu poderia ser tentado a investigar o impacto do meu continente sobre o resto do mundo. Isso, desde 1492, na era dos descobrimentos, passando pela contribuição material desse continente a tantos países, com metais preciosos, alimentos e remédios, até o efeito da América Latina sobre a cultura moderna e a compreensão do mundo, influenciando intelectuais como Montaigne, Humboldt, Darwin. E, evidentemente, eu pesquisaria a riqueza musical do continente, fosse eu um latino-americano. Isso é tudo o que eu quero dizer.

A Roda Bélica da História, por Hobsbawn

1ª Guerra, o banho de sangue

O tempo histórico era outro, avalia Hobsbawm. O mundo ficara quase um século sem um grande conflito e o conceito de "paz" fez-se sinônimo de "antes de 1914", ano em que Francisco Ferdinando, da Áustria, foi morto. Detonava-se o conflito que iria sangrar a Europa.

2ª Guerra, o mistério

O mundo sabia o que era uma guerra maciça, mas não uma guerra global. Eis a amarga contribuição da 2ª Guerra, conflito sem limites. Hobsbawm indaga: por que Hitler, esgotado na Rússia, declarou guerra aos EUA, permitindo que se associassem à Grã-Bretanha?

Guerra Fria, o absurdo

Como explicar 40 anos de tensão pela crença de que o planeta poderia explodir a qualquer momento e, contra a destruição total, só haveria a chance da dissuasão mútua? Para Hobsbawm, a Guerra Fria dos tempos de Kruchev carregou a inconclusão da Era da Catástrofe.

Guerra do Golfo, o lucro

Ao findar da Guerra Fria, lembra o historiador, a hegemonia econômica norte-americana já estava abalada. E sua superioridade militar teve que ser financiada por apoiadores de Washington. Na guerra contra o Iraque, em 1991, a potência presidida por Bush pai realizou lucros.

Fonte: O Estado de S. Paulo
http://www.vermelho.org.br

domingo, 15 de novembro de 2009

Hobsbawm: revolução à vista


Hobsbawm: revolução à vista
A partir de uma esquina da História, as revoluções Industrial e Francesa, o escritor Eric Hobsbawn traça o perfil de um mundo totalmente novo.
por Fábio Metzer
De onde surgiu a idéia de Estado-nação? E a Democracia Moderna? Noções como Liberdade, Igualdade, Pátria? Assim mesmo, tudo com letra maiúscula. Como nasceram as indústrias e de que forma elas se expandiram? Eric Hobsbawm, em A Era das Revoluções, identifica o momento-chave na história em que uma "dupla revolução" abalou as estruturas das sociedades, iniciando uma nova era, a partir dos anos 1780. Para ele, a Revolução Industrial Inglesa e a Revolução Francesa criaram um sistema de poder sem precedentes. De um lado, a Inglaterra, potência naval, expandindo seus lucros e garantindo mercado para suas indústrias lucrativas. De outro, a França, potência terrestre, com ideais revolucionários exportados para o resto do mundo. Essas revoluções não foram antagônicas, mas complementares. É verdade que os interesses franceses e ingleses, em determinado momento, degladiaram-se em guerras, mas, finalmente, entraram num acordo. Celebrado no Congresso de Viena, esse casamento inaugurou um novo mundo.

Cabeça pensante

A um observador do século 18, a Inglaterra não pareceria o lugar apropriado para abrigar uma revolução tecnológica. Franceses e alemães estavam à frente nessa ceara. Só que os britânicos, um século antes, derrubaram seu rei e criaram as condições políticas para a burguesia expandir os negócios. O campesinato inglês foi substituído pela estrutura de grandes propriedades, que firmaram a agricultura como atividade empresarial. As leis que delimitavam as propriedades agrícolas (os Enclousure Acts) permitiram grandes fazendas que funcionavam com uma dura lógica capitalista, desempregando camponeses. Ao mesmo tempo, uma nova atividade industrial tinha impacto no país: máquinas de tear surgiam nas fábricas, absorvendo a mão-de-obra vinda do campo. E, em meados do século 19, apareceram outras indústrias, como ferro, aço e carvão, além de bens de Capital que ampliavam a escala na construção de máquinas e novos meios de transportes.

Se na Inglaterra, a revolução limitou-se ao modo de produção, na França ocorreram transformações políticas profundas. A nobreza dependia de privilégios garantidos por lei, que a Monarquia não podia mais sustentar. E, nas classes baixas, a situação também era insustentável: camponeses endividados perdiam suas terras e burgueses empobrecidos reagiam à crise, clamando por reformas. Sem alternativas, o Rei Luís XVI convocou os Estados Gerais para resolver a crise. Dois Estados, a nobreza e o clero, e um terceiro Estado, representando os comuns, entraram em confronto. Ciente da força da maioria, o Terceiro Estado reivindicou a votação por cabeça, e não mais por Estado.

A partir daí, uma grande rebelião subjugou Paris. A tomada da Bastilha, uma prisão estatal, em 14 de julho de 1789, impulsionou a revolta para além da capital francesa. A Monarquia Absoluta caiu, e em seu lugar, surgiu um novo regime, que tirou poderes do monarca. Não foi um processo indolor. Até a ascensão de Napoleão Bonaparte, revolucionários das classes médias radicais e da burguesia moderada disputaram o poder até perderam o controle. De um lado, os jacobinos, que desejavam levar adiante o processo revovolucionário. De outro, os girondinos, que tentaram deter a Revolução para dar continuidade à defesa dos interesses burgueses. No primeiro governo revolucionário, os jacobinos tomaram o poder. Brigas internas e divisões deram espaço para um governo tirano. Enfraquecidos, foram derrubados pelos girondinos, que restabeleceram os poderes da burguesia. Isto até o golpe de Napoleão, jacobino de origem e, depois, defensor da burguesia.

O fato é de que não se tratou de uma revolução democrática. E, sim, anti-feudal, sem partidos políticos ou movimentos sociais, mas com inspiradores, como o intelectual Jean-Jacques Rousseau ou o ativista político Tom Paine. Significou a adoção de um projeto de racionalização dos Estados, com a criação de leis pela igualdade dos cidadãos, renovação dos códigos juríricos, padronização de medidas de peso e extensão, ensino laico e gratuito para todos, separação do Clero e do Estado, formação das Assembléias Nacionais, etc. Enfim a revolução que gerou maior impacto político e cultural do século 19.

Napoleão e a paz em Viena

Em meio ao caos instaurado pela ala radical da Revolução, apareceu o general Napoleão Bonaparte. Em pouco tempo, ele conseguiu reunificar a França, formando um Império que expandiu os ideais revolucionários. Napoleão promoveu conquistas militares de regiões ricas, de onde o exército retirava recursos. Mas, sua guerra, de fato, era travada contra a Inglaterra. Enquanto a França se fortalecia como potência territorial, expandindo sua ideologia, a Inglaterra mantinha-se como potência naval, preservando o comércio. O choque de interesses tornou-se inevitável. Como Inglaterra era imbatível no mar, a França não tinha como avançar, a não ser dentro do continente. Foi o que fez os franceses decretarem, em vão, um bloqueio continental aos ingleses. No fim da briga, Napoleão acabou derrotado.

O conflito deixou um duro fardo para os dois países. A economia francesa quebrou, e a Inglaterra, ao se defender do avanço francês e apoiar seus aliados contra Napoleão, teve gastos quatro vezes maiores do que os de sua rival. Restava fazer um acordo de paz. Foi o que aconteceu no Congresso de Viena, que restabeleceu as fronteiras da Europa Continental pré-revolucionária, e afirmou o status da Inglaterra de grande potência do século 19. Para a França, restou a posição de uma potência menor. A partir desse momento, a dupla revolução anglo-francesa, no entanto, já tinha se consolidado, tornando fundamental para os novos regimes estabelecidos – e também os velhos – se proteger do furor revolucionário da época. Pode-se dizer que ondas rebeldes protagonizaram as décadas seguintes.

Em 1820, ocorreu a primeira onda revolucionária, com a libertação de países latino-americanos do jugo espanhol, e revoltas na Itália, na Espanha e na Grécia. Em 1830, a segunda, ameaçando Estados liberais moderados, com guerras civis e revoltas populares. Essa seqüência de acontecimentos eliminou os últimos vestígios de feudalismo na Europa. E, em 1848, a terceira onda de revoluções tomou o continente como um todo, derrubando governos. Só que nenhum do governos rebeldes que assumiram o poder sobreviveria por muito tempo. No fim das contas, triunfou a organizada articulação dos liberais. É bom lembrar que uma nova tendência somou-se aos democratas radicais da época: os movimentos socialistas. Mas não havia nenhum projeto de consenso que pudesse dar consistência à luta de ambas as correntes. O socialismo ainda era algo a ser construído e a idéia de democracia radical esbarrava nos interesses e no poder das classes dominantes.

O legado

O período chamado por Hobsbawm de Era das Revoluções deixou uma grande herança para o século 20. No âmbito da política, as mudanças foram contundentes: predominou o ideário nacionalista; a separação entre Clero e Estado ganhou força; aumentou a demanda pela criação de regimes democráticos e, por fim, começou a ser delineado um projeto para contrapor o liberalismo e o capitalismo. Nas ciências, a racionalização impulsionou descobertas que propiciaram as revoluções industriais, selando o destino das sociedades agrárias da Europa. Na seara cultural, literatura, música clássica e pintura viveram um verdadeiro boom. Embora prevalecesse o Romantismo nas classes dominantes, tal movimento artístico não tinha vez nas classes médias e baixas. Havia, sim, uma tendência não-romântica, de contestação ao sistema, que combinava doutrinas jacobinas, folclore popular e religioso reformista, adaptadas aos novos tempos. Foi, enfim, um momento único, em que revoluções de fundo político, cultural e industrial se combinaram e se sobrepuseram, de forma que nunca mais a Europa e, conseqüentemente, o resto do planeta, seriam os mesmos.

Revista Aventuras na Historia

domingo, 27 de setembro de 2009

Hobsbawm: a Era das Incertezas

Especial – Crise do Capital


Em entrevista à Revista Sem Terra, o historiador Eric Hobsbawm apresenta sua avaliação das origens, efeitos e desdobramentos da crise mundial. Desde que sua magnitude se fez sentir – com seus capítulos ambiental, climático, energético, alimentar e, por fim, econômico –, acadêmicos, sociólogos, economistas, políticos e lideranças sociais procuram entender e explicar suas causas, bem como analisar e prever suas consequências. Muitos têm buscado respostas e soluções apenas no próprio universo econômico. Outros concluíram que vivemos uma crise civilizatória, e que o capitalismo implodiu por seus próprios desmandos. Mas ninguém parece ter respostas definitivas sobre o que nos prepara o futuro. Assim também Hobsbawm, o maior historiador marxista da atualidade. Aos 92 anos, o autor de algumas das mais importantes obras acerca da história recente da humanidade, como A Era das Revoluções (sobre o período de 1789 a 1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era dos Impérios (1875-1914) e A Era dos Extremos – O breve século XX, lançado em 1994, não arrisca previsões sobre como será o mundo pós-crise.
Nesta entrevista, concedida por e-mail de Paris, Hobsbawm apresenta, no entanto, suas opiniões como contribuição ao debate. De certeza, apenas a de que, se a humanidade não mudar os rumos da sua convivência mútua e com o planeta, o futuro nos preserva maus agouros. Cético e ao mesmo tempo esperançoso, não acredita que uma nova ordem mundial surgirá das cinzas do pós-crise, mas acha que ainda existem forças capazes de propor novas formas de organização e cultura políticas e sociais, como o MST.

O planeta vive hoje uma crise que abalou as estruturas do capitalismo mundial, atinge indiscriminadamente atores em nada responsáveis pela sua eclosão, e que talvez seja um dos mais importantes ´feitos‘ da moderna globalização. Na sua avaliação, quais foram os fatores e mecanismos que levaram a esta situação?

Eric Hobsbawm – Nos últimos quarenta anos, a globalização, viabilizada pela extraordinária revolução nos transportes e, sobretudo, nas comunicações, esteve combinada com a hegemonia de políticas de Estado neoliberais, favorecendo um merca mercado global irrestrito para o capital em busca de lucros. No setor financeiro, isto ocorreu de forma absoluta, o que explica porque a crise do desenvolvimento capitalista ocorreu ali. Apesar do fato de que o capitalismo sempre – e por natureza – opera por meio de uma sucessão de expansões geradoras de crises, isto criou uma crise maior e potencialmente ameaçadora para o sistema, comparável à Grande Depressão que se seguiu a 1929, mesmo que seja cedo para avaliarmos todo o seu impacto. Um problema maior tem sido que a tendência de declínio das margens de lucro, típica do capitalismo, tem sido particularmente dramática porque os operadores financeiros, acostumados a enormes ganhos com investimentos especulativos em épocas de crescimento econômico, têm buscado mantê-los a níveis insustentáveis, atirando-se em investimentos inseguros e de alto risco, a exemplo dos financiamentos imobiliários subprime nos EUA. Uma enorme dívida, pelo menos quarenta vezes maior do que a sua base econômica atual, foi assim criada, e o destino disso era mesmo o colapso.

Como resposta à crise econômica, governos e instituições financeiras estão concentrados em salvar os sistemas bancário e financeiro, opção que tem sido considerada uma tentativa de cura do próprio vetor causador do mal. No que deve resultar este movimento?

Um sistema de crédito operante é essencial para qualquer país desenvolvido, e a crise atual demonstra que isso não é possível se o sistema bancário deixa de funcionar. Nesse sentido, as medidas nacionais para restaurá-lo são necessárias. Mas o que é preciso também é uma reestruturação do Estado, por exemplo através das nacionalizações, a ‘desfinanceirização’ do sistema e a restauração de uma relação realista entre ativos e passivos econômicos. Isso não pode ser feito simplesmente combinando vastos subsídios para os bancos com uma regulação futura mais restrita. De toda forma, a depressão depressão econômica não pode ser resolvida apenas via restauração do crédito. São essenciais medidas concretas para gerar emprego e renda para a população, de quem depende, em última instância, a prosperidade da economia global.

Antes de se agudizar o caos econômico, o mundo começou a sofrer uma sucessão de abalos sociais e ambientais, como a falta global de alimentos, as mudanças climáticas, a crise energética, as crises humanitárias decorrentes das guerras, entre outros. Como o senhor avalia estes fatores na perspectiva do paradigma civilizatório e de desenvolvimento do capitalismo moderno?

Vivemos meio século de um crescimento exponencial da população global, e os impactos da tecnologia e do crescimento econômico no ambiente planetário estão colocando em risco o futuro da humanidade, assim como ela existe hoje. Este é o desafio central que enfrentamos no século 21. Vamos ter que abandonar a velha crença – imposta não apenas pelos capitalistas – em um futuro de crescimento econômico ilimitado na base da exaustão dos recursos do planeta. Isto significa que a fórmula da organização econômica mundial não pode ser determinada pelo capitalismo de mercado – que, repito, é um sistema impulsionado pelo crescimento ilimitado. Como esta transição ocorrerá ainda não está claro, mas se não ocorrer, haverá uma catástrofe.

O capitalismo tem adquirido, cada vez mais, uma força hegemônica na agricultura com o crescimento do agronegócio. Muitos defendem que a reforma agrária não cabe mais na agenda mundial. Como vê este debate e a luta pela terra de movimentos sociais como o MST e a Via Campesina?

A produção agrícola necessária para alimentar os seis bilhões de seres humanos do planeta pode ser fornecida por uma pequena fração da população mundial, se compararmos com o que era no passado. Isso levou tanto a um declínio dramático das populações rurais desde 1950, quanto a uma vasta migração do campo para as cidades. Também levou a um crescente domínio da agricultura por parte não tanto do grande agronegócio, mas principalmente de empreendimentos capitalistas que hoje controlam o mercado dessa produção. Da mesma forma, têm aumentado os conflitos entre agricultores e iniciativas empresariais na disputa pela terra para propósitos não agrícolas (indústrias, mineração, especulação imobiliária, transporte etc.), bem como pela sua posse e pela exploração dos recursos naturais. A reforma agrária sem dúvida não é mais tão importante para a política como foi há 40 anos, mas claramente permanece uma questão central em muitos outros países. Na minha opinião, a crise atual reforça a importância da luta de movimentos como o MST, que é mais social do que econômica. Em tempos de vacas gordas é muito mais fácil ganhar a vida na cidade. Em tempos de depressão, a terra, a propriedade familiar e a comunidade garantem a segurança social e a solidariedade que o capitalismo neoliberal de mercado tão claramente nega aos migrantes rurais desempregados.

Na virada do século, um novo movimento global de resistência social tomou corpo através do que ficou conhecido como altermundialismo. Surgiu o Fórum Social Mundial, e grandes manifestações contra a guerra e instituições multilaterais, como a OMC, o G8 e a ALCA, na América Latina, ganharam as ruas. Na sua avaliação, o que resultou destes movimentos? E hoje, como vê estas iniciativas?

EH – O movimento global de resistência altermundialista merece o crédito de duas grandes conquistas: na política, ressuscitou a rejeição sistemática e a crítica ao capitalismo que os velhos partidos de esquerda deixaram atrofiar. Também foi pioneiro na criação de um modo de ação política global sem precedentes, que superou fronteiras nacionais nas manifestações de Seattle e nas que se seguiram. Grosso modo, logrou formular e mobilizar uma poderosa opinião pública que seriamente pôs em cheque a ordem mundial neoliberal, mesmo antes da implosão econômica. Seu programa propositivo, porém, tem sido menos efetivo, em função, talvez, do grande número de componentes ideologicamente e emocionalmente diversos dos movimentos, unificados apenas em aspirações muito generalistas ou ações pontuais em ocasiões específicas.

Principalmente na América Latina, os anos 2000 trouxeram uma série de mudanças políticas para a região com a eleição de governantes mais progressistas. A sociedade civil organizada ganhou espaço nos debates políticos, mas os avanços na garantia dos direitos sociais ainda esperam por uma maior concretização. Como o senhor analisa este fenômeno?

O fator mais positivo para a América Latina é a diminuição efetiva da influência política e ideológica – e, na América do Sul, também econômica – dos EUA. Um segundo fator muito importante é o surgimento de governos progressistas – novamente mais fortes na América do Sul –, inspirados pela grande tradição da igualdade, fraternidade e liberdade, que comprovadamente está mais viva aí do que em outras regiões do mundo neste momento. Esses novos regimes têm se beneficiado de um período de altos preços de seus bens de exportação. Quão profundamente serão afetados pela crise econômica, principalmente o Brasil e a Venezuela, ainda não está claro. Suas políticas têm logrado algumas melhorias sociais genuínas, mas até agora não reduziram significativamente as enormes desigualdades econômicas e sociais de seus países. Esta redução deve permanecer a maior prioridade de governos e movimentos progressistas.

Diante da crise civilizatória, do fracasso do capitalismo e da inoperância dos sistemas multilaterais, que não foram aptos a enfrentar as grandes questões mundiais, as esquerdas têm se debatido na busca de alternativas; mas nem consensos nem respostas parecem despontar no horizonte. Haveria, em sua opinião, a possibilidade real da construção de um novo socialismo, uma nova forma de lidar com o planeta e sua gente, capaz de enfrentar a hegemonia bélica, econômica e política do
neoliberalismo?

Eu não acredito que exista uma oposição binária simples entre ‘um novo socialismo’ e a ‘hegemonia do capitalismo’. Não existe apenas uma forma de capitalismo. A tentativa de aplicar um modelo único, o ‘fundamentalismo de mercado’ global anglo-americano, é uma aberração histórica, que potencialmente colapsou agora e não pode ser reconstruída. Por outro lado, o mesmo ocorre com a tentativa de identificar o socialismo unicamente com a economia centralizada planejada pelo Estado dos períodos soviético e maoísta. Esta também já era (exceto, talvez, se nosso século for reviver os períodos temporários de guerra total do século XX). Depois da atual crise, o capitalismo não vai desaparecer.
Vai se ajustar a uma nova era de economias que combinarão atividades econômicas públicas e privadas. Mas o novo tipo de sistema misto tem que ir além das várias formas de ‘capitalismo de bem-estar’ que dominou as economias desenvolvidas nos trinta anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.
Deve ser uma economia que priorize a justiça social, uma vida digna para todos e a realização do que Amartya Sem1 chama de ‘potencialidades inerentes aos seres humanos’. Deve estar organizada para realizar o que está além das habilidades do mercado dos caçadores-de-lucro, principalmente para confrontar o grande desafio da humanidade neste século XXI: a crise ambiental global. Se este novo sistema se comprometer com os dois objetivos, poderá ser aceitável para os socialistas, independente do nome que lhe dermos. O maior obstáculo no caminho não é a falta de clareza e concordância entre as esquerdas, mas o fato de que a crise econômica global coincide com uma situação internacional muito perigosa, instável e incerta, que provavelmente não estabelecerá uma nova estabilidade por algum tempo. Entrementes, não há consenso ou ações comuns entre os Estados, cujas políticas são dominadas por interesses nacionais possivelmente incompatíveis com os interesses globais.

Conceitos como solidariedade, cooperação, tolerância, justiça social, sustentabilidade ambiental, responsabilidade do consumidor, desenvolvimento sustentável, entre outros, têm encontrado eco, mesmo de forma ainda frágil, na opinião pública. Acredita que estes princípios poderão, no futuro, ganhar força e influenciar a ordem mundial? Vê algum caminho que possa aproximar a humanidade de uma coabitação harmoniosa?

Os conceitos listados estão mais para slogans do que para programas. Eles ou ainda precisam ser transformados em ações e agendas (como a redução de gases de efeito estufa, encorajada ou imposta pelos governos, por exemplo), ou são subprodutos de situações sociais mais complexas (como ‘tolerância’, que existe efetivamente apenas em sociedades que a aceitam ou que estão impedidas de manter a intolerância). Eu preferiria pensar na ‘cooperação’ não apenas como um ideal generalista, mas como uma forma de conduzir as questões humanas, como as atividades econômicas e de bem estar social. Me entristece que a cooperação e a organização mútua, que eram um elemento tão importante no socialismo do século XIX, desapareceram quase que completamente do horizonte socialista do século XX – mas felizmente não da agenda do MST. Espero que esta lista de conceitos continue conquistando o apoio e mobilize a opinião pública para pressionar efetivamente os governos. Não acredito que a humanidade alcançará um estado de ‘coabitação harmoniosa’ num futuro próximo. Mas mesmo que nossos ideais atualmente sejam apenas utopias, é essencial que homens e mulheres lutem por elas.

O senhor, que estudou com profundidade a história do mundo e as relações humanas nos últimos séculos, o que espera do futuro?

Se a crise ambiental global não for controlada, e o crescimento populacional estabilizado, as perspectivas são sombrias. Mesmo se os efeitos das mudanças climáticas possam ser estabilizados, produzirão enormes problemas que já são sentidos, como a crescente competição por recursos hídricos, a desertificação nas zonas tropicais e subtropicais, e a necessidade de projetos caros de controle de inundações em regiões costeiras. Também mudarão o equilíbrio internacional em favor do hemisfério Norte, que tem largas extensões de terras árticas e subárticas passíveis de serem cultivadas e industrializadas. Do ponto de vista econômico, o
centro de gravidade do mundo continuará a se mover do Oeste (América do Norte e Europa) para o Sul e o Leste asiático, mas o acúmulo de riquezas ainda possibilitará às populações das velhas regiões capitalistas um padrão de vida muito superior às dos emergentes gigantes asiáticos. A atual crise econômica global vai terminar, mas tenho dúvidas se terminará em termos sustentáveis para além de algumas décadas. Politicamente, o mundo vive uma transição desde o fim da Guerra Fria. Tornouse mais instável e perigoso, especialmente na região entre Marrocos e Índia. Um novo equilíbrio internacional entre as potências – os EUA, China, a União Européia, Índia e Brasil – presumivelmente ocorrerá, o que poderá garantir um período de relativa estabilidade econômica e política, mas isto não é para já. O que não pode ser previsto é a natureza social e política dos regimes que emergirão depois da crise. Aqui as experiências do passado não podem ser aplicadas. O historiador pode falar apenas das circunstâncias herdadas do passado. Como diz Karl Marx: a humanidade faz a sua própria história. Como a fará e com que resultados, muitas vezes inesperados, são questões que ultrapassam o poder de previsão do historiador.
Maio-Agosto 2009

Revista Comunicação & Política