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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Por que judeus e palestinos vivem em conflito?


Eliza Kobayashi
Quase que diariamente os jornais do mundo inteiro noticiam os infindáveis ataques mútuos entre israelenses e palestinos e as diversas iniciativas internacionais de tentar promover, sem sucesso, a paz entre os dois povos. O conflitos entre árabes e judeus, apesar de atuais, têm origem milenar e carregam uma longa história de desavenças religiosas e de disputa de terras. "Desde os tempos bíblicos, judeus e árabes, que são dois entre vários povos semitas, ocuparam partes do território do Oriente Médio. Como adotavam sistemas religiosos diversos, eram comuns as divergências, que se agravaram ainda mais com a criação do islamismo no século VII", conta Alexandre Hecker, professor de História Contemporânea da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Universidade Estadual Paulista (Unesp).


O conflito mais recente entre os dois povos se intensificou a partir da Primeira Guerra Mundial, quando se deu o fim do Império Otomano, e a Palestina, que fazia parte dele, passou a ser administrada pela Inglaterra. "A região possuía 27 mil quilômetros quadrados e abrigava uma população árabe de um milhão de pessoas, enquanto os habitantes judeus não ultrapassavam 100 mil", afirma o professor. A Inglaterra apoiava o movimento sionista, criado no final do século 19 com o objetivo de fundar um Estado judaico na região da Palestina, considerada o berço do povo judeu. Segundo Alexandre, o papel dos ingleses naquele momento era o de criar esse "lar nacional" para os judeus, que vinham sofrendo perseguições e violências em todo o mundo, mas sem violar os direitos dos palestinos árabes que já viviam ali. "Assim, na década de 20, ocorreu uma grande migração de judeus para a Palestina". 

Depois de 1933, com a ascensão do nazismo na Alemanha e o aumento das perseguições contra os judeus na Europa, a migração judaica para a região cresceu vertiginosamente. Os palestinos, por sua vez, resistiram a essa ocupação e os conflitos se agravaram. Após a Segunda Guerra Mundial e o fim do Holocausto, que levou ao extermínio de 6 milhões de judeus, a crescente demanda internacional pela criação de um estado israelense fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovasse, em 1947, um plano de partilha da Palestina em dois Estados: um judeu, ocupando 57% da área, e outro palestino (árabe), com o restante das terras. "Essa partilha, desigual em relação à ocupação histórica, desagradou os países árabes em geral", afirma Alexandre Hecker. 

Em 1948, os ingleses finalmente desocuparam a região e os judeus fundaram, em 14 de maio, o Estado de Israel. Um dia depois, os árabes, insatisfeitos com a partilha, declaram guerra à nova nação, mas acabaram derrotados. "O conflito permitiu a Israel aumentar seu território para 75% das antigas terras palestinas: o restante foi anexado pela Transjordânia (a parte chamada Cisjordânia) e pelo Egito (a faixa de Gaza)", explica o professor. Em consequência disso, muitos palestinos refugiaram-se em Estados árabes vizinhos, enquanto boa parte permaneceu sob a autoridade israelense. "Outras guerras se sucederam por causa de fronteiras, com vantagens para Israel e sempre sem uma solução para o problema dos refugiados". Apesar de algumas tentativas de acordos e planos de paz, a situação atual ainda é de muito impasse, principalmente pelo fato de os palestinos, liderados pelo movimento radical islâmico Hamas, não reconhecerem o direito de existência de Israel. Na opinião de Alexandre, "a guerra entre palestinos e judeus só terá um fim quando for criado um Estado palestino que ocupe, de forma equitativa com Israel, a totalidade do território tal qual ele se apresentava em 1917".
Revista Nova Escola

Como é a convivência entre árabes e judeus na Palestina



Para entender a questão palestina, é preciso diferenciar povos (israelenses e árabes-palestinos) e religiões (judaísmo, cristianismo e islamismo). Existem árabes-palestinos e israelenses que são judeus, cristãos e islamitas (ou muçulmanos). A convivência entre os povos é conflituosa há muitos anos. Uma disputa política marcante ocorreu em 1948, quando a Palestina foi anexada ao recém-criado Estado de Israel. Hoje, esse exército impõe toques de recolher ao povo palestino, mantém mais de 713 barreiras de controle e um muro com 790 quilômetros separando o país do território. Segundo um acordo da Organização das Nações Unidas (ONU), deveriam ser criados dois Estados, Israel e Palestina, mas ele não é cumprido.
Ali El-Khatib, coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Árabes da Faculdade de Campinas (Facamp)
Revista Nova Escola

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Batismo de Sangue

Depois de uma espera de 1.878 anos, os judeus ganhamum país. Mas a independência de Israel não encerra a longa marcha: a diplomacia fracassou e a guerra com os árabes continua

O nascimento de uma nação: palco improvisado, estrelas de Davi e a histórica declaração do patriarca David Ben-Gurion

As cadeiras vieram emprestadas de cafés vizinhos. Os microfones, de um empório musical. Dois carpinteiros chamados às pressas ergueram o palco de madeira em tempo recorde. Um retrato do pioneiro sionista Theodor Herzl foi colocado em posição de destaque no salão principal, ladeado por duas bandeiras gigantes com a estrela de Davi (símbolo ancestral do povo judeu), lavadas e passadas de forma expedita para a ocasião. Em um piscar de olhos, o Museu Nacional de Tel-Aviv transformou-se para sediar uma cerimônia aguardada pelos hebreus há exatos 1.878 anos – desde que a destruição do Segundo Templo pelos romanos, em 70 d.C., acabou com a soberania dos judeus em Jerusalém e deu início à segunda diáspora dos seguidores de Isaac. No compromisso deste 14 de maio de 1948, porém, a história seria finalmente reescrita: a terra prometida estava voltando às mãos dos judeus.
Os convites para a reunião, marcada para as 16 horas, foram impressos na véspera e distribuídos apenas na manhã do dia do evento, com um pedido de segredo aos cerca de 250 convidados para evitar qualquer interferência externa. Entre os locais, porém, foi impossível segurar a alvissareira notícia, que rapidamente se espalhou por Tel-Aviv e levou, já por volta do meio-dia, uma multidão a cercar o local da congregação. De qualquer forma, poucas horas depois de o mandato britânico na Palestina ter se encerrado, sem maiores sobressaltos, em uma cerimônia célere, demarcada pelas firmes batidas do martelo de nogueira de David Ben-Gurion, presidente do Conselho Provisório de Estado sionista, a criação da nação judaica na Palestina – o estado de Israel – foi solenemente anunciada aos quatro ventos.

O troco árabe: destruição em Tel-Aviv

Lida por Ben-Gurion e assinada pelos 24 dos 37 membros da assembléia presentes ao histórico evento, a declaração de independência do mais novo país do globo buscou no passado histórico e no presente político as bases morais e legais para sua fundação. O documento notificava que a Terra de Israel era o local de nascimento do povo judeu e que o movimento sionista era testemunho do papel representado pela Palestina em sua história e religião. Dizia também que a declaração de Balfour e a partilha das Nações Unidas, além do sacrifício dos pioneiros sionistas e da tormenta sofrida com o Holocausto, davam aos judeus o direito inalienável de estabelecer seu estado no Oriente Médio. A cerimônia, transmitida pela Kol Yisrael, "a voz de Israel", tornada rádio oficial do novo estado sionista, provocou uma explosão incontida na população hebraica em todos os rincões da Palestina. Enquanto dentro do Museu Nacional de Tel-Aviv o público, emocionado, entoava a plenos pulmões a Hatikvah (tradicional canção judaica que celebra a esperança), do lado de fora do recinto, assim como em diversas cidades da nova nação – à exceção de Jerusalém, que se encontrava sem eletricidade –, populares ganhavam as ruas para congratular-se uns aos outros.
Combates ferrenhos - Em meio aos festejos, contudo, era possível notar no semblante de David Ben-Gurion que o calejado líder não comungava do regozijo de seus pares. Antes de sair do local, acompanhado da mulher, Paula, confidenciou, diligente, a um de seus auxiliares: "Não sinto alegria dentro de mim. Apenas uma ansiedade profunda, como no último 29 de novembro [data do anúncio da partilha da ONU, aceita pelos judeus mas rejeitada pelos países árabes], em que eu mais parecia um lamentador num banquete." Se, para muitos, o dia 14 de maio marcava o fim de um périplo de dois mil anos por um lar nacional, para Ben-Gurion era apenas o começo. E a história não demorou a prová-lo correto.
Os ataques árabes vieram de imediato. Exércitos de cinco países – Líbano, Síria, Egito, Iraque e Transjordânia (a Legião Árabe, treinada pelos britânicos) – acometeram, naquela mesma tarde, o território então dominado pelos judeus em diversos pontos de suas fronteiras. Combates ferrenhos se seguiram nas duas últimas semanas deste mês, com os defensores buscando manter suas posições contra as investidas na maioria das vezes desorganizadas dos vizinhos. A diferença na quantidade e qualidade de armamentos é abismal – o arsenal judeu é escasso e antiquado, por conta da restrição britânica de importação de armas durante o mandato, enquanto o árabe é mais moderno e volumoso, arrematado em boa parte da própria Grã-Bretanha. Ainda assim, os hebreus, com suas forças bem coordenadas, lograram importantes êxitos militares, frustrando a previsão de um acachapante massacre árabe.

O conde Bernardotte: missão espinhosa

No calor da guerra, com a comunidade internacional clamando por uma solução pacífica e os exércitos chegando ao limite de suas forças, o Conselho de Segurança das Nações Unidas apresentou, no dia 20, uma proposta de trégua – bem recebida por ambos os lados e aprovada nove dias depois. O cessar-fogo, negociado pelo conde sueco Folke Bernardotte, mediador da ONU, entra em vigor no dia 11 de junho e é válido por um mês – período em que nenhum imigrante poderá ser recrutado, e que todos os combatentes estarão proibidos de receber qualquer tipo de armamento. Enquanto isso, o Conselho de Segurança prepara um novo plano de conciliação – que, seja qual for, miseravelmente estará fadado ao fracasso. A partir de agora, não há dúvidas, apenas as armas falarão por árabes e judeus.
Corrida contra o tempo - Legitimada tanto pela declaração de Balfour, em 1917, como pela partilha aprovada pelas Nações Unidas, no ano passado, a instalação de um estado judeu na Palestina esteve perigosamente ameaçada nos dias que precederam o anúncio em Tel-Aviv. E não somente por conta da batalhas entre árabes e judeus pelo controle das cidades deixadas para trás pelos britânicos, às vésperas do encerramento do mandato. Nem por causa da ameaça de invasão dos países árabes, cuja oposição à idéia já era conhecida de cor e esperada pelos sionistas. Reunidas em palácios de governo e nas Nações Unidas, as grandes potências mundiais buscaram até o último suspiro evitar a independência de Israel – cada uma, claro, visando resguardar seus interesses no Oriente Médio.
A Grã-Bretanha, que desde o anúncio da partilha havia adotado uma política de não-cooperação com as Nações Unidas na questão Palestina para não melindrar seus aliados árabes, recorreu de forma esbaforida ao órgão no final de abril, quando os hebreus consolidaram sua vitória em Haifa. A mera sugestão de ameaça à soberania árabe trouxe arrepios aos súditos da rainha, que, poucas semanas antes, ainda manifestavam a certeza de que os árabes rapidamente conquistariam os territórios destinados às comunidades judaicas. No início daquele mesmo mês, o comandante das forças britânicas na Palestina, general sir Gordon Macmillan, havia dito que os árabes "não teriam dificuldade em dominar todo o país". (De forma menos técnica, o secretário das Relações Exteriores bretão, Ernest Bevin, prevera ainda no ano passado que os judeus teriam suas "gargantas cortadas".)
Com a demonstração de força dos judeus nas batalhas pré-14 de maio, porém, Arthur Creech-Jones, secretário colonial da Grã-Bretanha, propôs em 23 de abril que a Assembléia Geral da ONU pensasse em um objetivo "mais modesto" do que a partilha – uma solução paliativa sem a pretensão de resolver o conflito entre árabes e judeus. Desta vez, garantia o dignitário, a coroa ofereceria todo seu auxílio. Os diplomatas consideraram que o súbito desejo de engajamento britânico era por demais tardio e ignoraram o apelo.

Na resistência: integrantes da Haganá resgatam homem ferido em bombardeio egípcio


As ações de bastidores dos Estados Unidos da América, por sua vez, geraram desdobramentos até à véspera da retirada britânica – e reverberaram, curiosamente, menos nas Nações Unidas do que entre o Conselho Provisório de Estado sionista. Até o início deste ano, os americanos acreditavam que a divisão da Palestina aconteceria de forma cirúrgica. Contudo, a escalada das hostilidades e a pressão da Liga Árabe em Washington e nas companhias de petróleo – que controlavam, em dados do ano passado, 42% das reservas do Oriente Médio e desenvolviam planos de expansão – levaram os americanos a rever paulatinamente sua posição pró-sionista e recomendar, em 19 de março, a suspensão da partilha, para horror da Agência Judaica. Warren Austin, embaixador dos EUA no Conselho de Segurança, sugeriu que fosse adotada uma administração conjunta da ONU na Palestina.
Mal recebido pelas outras delegações, o plano foi considerado um ataque à autoridade das Nações Unidas. A União Soviética, mantendo sua posição pró-partilha, protestou, argumentando que os Estados Unidos estavam preocupados apenas com o petróleo árabe e que não havia bases legais para sustar o plano aprovado em novembro. Indignado, o secretário-geral da ONU, o norueguês Trygve Lie, propôs que tanto ele como o representante americano renunciassem aos respectivos postos em protesto à afronta – ação negada por Austin. Na virada do mês, a Liga Árabe e a Agência Judaica rechaçaram oficialmente o plano de administração conjunta por um ano – mas os Estados Unidos não desistiram, clamando ainda por uma trégua temporária.
Pulga atrás da orelha - No início de maio, Dean Rusk, secretário-assistente de Estado, mandou um recado aos sionistas. A declaração de independência deveria ser ao menos protelada; caso contrário, Washington poderia bloquear as transferências de fundos filantrópicos dos judeus americanos para a nação caçula. Impressionado, o chefe da Agência Judaica na América, Nahum Goldmann, transmitiu as informações à central – Ben-Gurion, contudo, não se deixou intimidar, e, no dia 4, devolveu um cabograma a Rusk negando o adiamento. Quatro dias depois, o secretário de Estado George Marshall e o subsecretário Robert Lovett encontraram-se na capital com Moshe Shertok, ministro das Relações Exteriores da administração provisória judaica. Desta vez, não houve ameaças: os americanos apenas ponderaram que a invasão dos árabes era iminente, e que, se os judeus insistissem na emancipação imediata, não deveriam recorrer à ajuda dos Estados Unidos – que ainda mantinham, apesar dos protestos em diversas cidades, o embargo de armas ao Oriente Médio.

O norueguês Lie, da ONU: uma afronta


Shertok lamentou o fato de os americanos não terem mantido o apoio à resolução da partilha, e atribuiu de antemão boa parte do futuro derramamento de sangue na Palestina ao recuo dos Estados Unidos, que teria encorajado os árabes em sua beligerância. E, nesse ponto, a resposta de Marshall colocou uma pulga atrás da orelha do judeu. "Compreendo o peso de suas palavras. Não sou eu quem devo dizer-lhe o que fazer. Porém, como militar, gostaria de alertá-lo: não confie em seus consultores militares. Sim, eles acabaram de registrar alguns sucessos. Mas o que acontecerá se houver uma invasão prolongada? Isso irá enfraquecê-los. Tive esta experiência na China. No começo, foi uma vitória fácil. Agora eles estão lutando há dois anos e perderam a Manchúria". As palavras de Marshall ainda ecoavam nos ouvidos dos líderes sionistas na Palestina quando os membros da Administração Nacional – embrião de um gabinete recém-criado pelo conselho provisório – reuniram-se para decidir, em 12 de maio, pela proclamação imediata ou não do estado judeu. As deliberações duraram nada menos do que onze horas. Golda Meyerson, diretora do departamento político da Agência Judaica, relatou o fracasso de sua negociação com o rei Abdullah da Transjordânia, em uma viagem secreta àquele país – a derradeira tentativa de um compromisso pacífico entre as partes.
O jovem oficial Yigael Yadin, comandante de operações da Haganá, força de defesa judaica, apresentou seu relatório sobre o teatro de operações aos membros. As tropas hebraicas haviam garantido o controle das linhas de comunicação no interior da Palestina, mas em algumas regiões a situação era crítica. Metade de Jerusalém, por exemplo, estava nas mãos dos árabes – incluindo a malha rodoviária dos arredores, pela qual a Legião Árabe naquele momento marchava rumo à cidade. Yadin também demonstrava preocupação quanto à escassez do arsenal judeu. Pessoalmente, o comandante acreditava que, com a evacuação britânica programada para dali a dois dias, armas e material humano poderiam ser rapidamente integrados às tropas, com 50% de chances de sucesso contra o assalto árabe. Cauteloso, não descartava que uma trégua temporária fosse interessante, para possibilitar o reforço das tropas judaicas sem sacrificar os objetivos políticos.
Ben-Gurion, porém, acreditava que a proclamação da independência fortaleceria o ânimo e o espírito não somente dos combatentes, mas também da população, que precisaria estar preparada para a inevitável perda de territórios e vidas. Já o adiamento poderia representar um anticlímax e abalar o moral das tropas. Ao final da assembléia, convocou-se o sufrágio que definiria o próximo passo. Por uma apertada margem de seis votos a quatro, o gabinete decidiu rejeitar a proposta americana de trégua e declarar, assim que a Union Jack fosse baixada em Jerusalém, dali a dois dias, a criação do estado judeu na Palestina. Contatado por telefone em Nova York, o tarimbado Chaim Weizmann, chefe da Agência Judaica, assentiu. "Proclamem o estado, não importa o que aconteça." Após dar sua sentença, o veterano explodiu, em iídiche. "O que estão esperando, os idiotas?"

Presidentes: Truman e Weizmann (à dir.)


Êxitos e temores - Horas depois da cerimônia de proclamação de independência em Tel-Aviv, Chaim Weizmann foi nomeado presidente de Israel, e Ben-Gurion, primeiro-ministro. Em seguida, o Conselho de Estado revogou por unanimidade o Livro Branco de 1939, documento inglês que regulava a imigração de judeus para a Palestina. Ainda no dia 14 de maio, por intercessão direta do presidente Harry Truman, os EUA, apesar de toda a oposição à independência, foram os primeiros a reconhecer o estado de Israel, causando surpresa entre os diplomatas das Nações Unidas. Andrei Gromyko, representante da União Soviética, criticou os americanos, por colocar a assembléia em uma "posição ridícula". Fontes próximas a Truman garantem que o comandante-em-chefe andava descontente com as trapalhadas de seus assessores e que sentiu a importância estratégica de se antecipar a Moscou no reconhecimento dos sionistas – além de tudo, não custa lembrar que este é um ano eleitoral na América, e os votos da enorme comunidade judaica podem ser decisivos.
A União Soviética reconheceu Israel dois dias depois – a confirmação dos comunistas já era esperada, tendo em vista que a criação de um estado judeu moderno, com forte espírito nacionalista, era mais interessante para as pretensões históricas de Moscou de ter uma base no Oriente Médio do que a consolidação de um regime árabe retrógrado, dependente da Grã-Bretanha. A Coroa, por sua vez, comunicou apenas que a Palestina não mais fazia parte da Comunidade Britânica, e, acenando seu pendor em direção aos antigos aliados, garantiu que iria cumprir seus tratados de fornecimento de armas aos árabes – a menos que as Nações Unidas afirmassem que estes estivessem agindo ilegalmente de alguma forma.
Crucial para a nação caçula, a batalha diplomática só não era mais importante do que a contenda bélica que se descortinava na Palestina. Desde a aprovação da partilha, a Haganá concentrava-se em dois objetivos: o primeiro, a segurança da comunidade judaica durante o período da retirada britânica, e o segundo, a defesa do território contra a possível e provável invasão árabe em larga escala a partir do dia 14 de maio. O êxito das tropas judaicas na primeira questão, registrado ao longo das últimas semanas com a tomada de cidades estratégicas como Haifa – subjugada em 21 de abril após três dias de embates contra os árabes – foi coroado com a conquista da Galiléia setentrional, no início de maio. Na última peleja, em Safed, remota comunidade montanhesa em que 1.400 judeus viviam cercados por dez mil árabes, as tropas do comandante Yigal Allon repeliram os mercenários sírios comandados por Adib al-Shishakli, causando a fuga dos habitantes árabes.

Sob nova direção: judeus trocam placa

Dessa forma, o norte da Palestina estava controlado, assim como o litoral: Jaffa, última cidade dominada pelo inimigo, caiu na manhã do dia 14 de maio – mais uma vez, 70.000 árabes deixaram suas casas em terror. Livre da responsabilidade de proteger seus enclaves (à exceção de Jerusalém, o cenário parecia todo favorável aos judeus), a Haganá pôde finalmente concentrar todas as suas forças na contenda contra os exércitos invasores.
Rumo à Galiléia - Às vésperas do início da guerra, as forças árabes, somadas, eram pouco maiores que as de Israel – aproximadamente 32.500 homens contra 30.000. A vantagem dos atacantes, porém, era seu maior poder de fogo, que incluía forças aéreas à disposição. Divididas em nove brigadas pelo chefe da Haganá, as forças de Israel foram distribuídas em quatro fronts: três unidades no norte, duas na costa (para proteger Tel-Aviv), duas no sul e duas nas montanhas da Judéia, a fim de defender Jerusalém e conquistar a posse das estradas nas redondezas da cidade.
No norte, os libaneses que seguiam rumo à Galiléia, assim como os iraquianos e sírios que atacaram colônias judaicas no vale do rio Jordão, não têm se mostrado ameaças sérias para as forças da Haganá. Suas investidas estão sendo facilmente controladas pelos israelenses. As mais duras batalhas são disputadas na Judéia – onde permanece o cerco da Legião Árabe do rei Abdullah a Jerusalém – e no sul. Ali, os egípcios, avançando com duas brigadas, já conquistaram Gaza, e agora seguem, a despeito de feroz resistência, a passos largos rumo a Tel-Aviv. Pelos últimos relatos do front, o brigadeiro Muhammad Naguib, comandante da Segunda Brigada egípcia, está a perigosos 25 quilômetros da periferia da urbe.
Perder o controle da espetacular cidade de 250.000 habitantes, berço e sede do recém-criado estado de Israel, será um golpe quase fatal para os judeus, em que pese todo e qualquer outro sucesso no teatro de operações. Por isso, o general Yadin já convocou reforços vindos de Jerusalém, e, de acordo com fontes militares israelenses, poderá a qualquer momento engendrar uma emboscada noturna contra os egípcios, extraindo da escuridão e da surpresa a força necessária para derrotar os inimigos. Manter Tel-Aviv em segurança antes da trégua programada para 11 de junho é condição sine qua non para que, no período de cessar-fogo, Israel reorganize seu exército e planeje com cautela os próximos passos na guerra contra os árabes. Sem isso, o estado de Israel corre o risco de se esvair pouco tempo depois do nascimento – e David Ben-Gurion e seus pares sionistas estarão mais distantes do sonho de desfrutar do solo sagrado que, acreditam, foi prometido por Deus a seus antepassados.
Revista Veja na História

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Sob o signo da frustração


Sob o signo da frustração
A derrota no conflito de 1967 transtornou o mundo árabe. É a partir dos traumas associados a ela que crescem a influência da religião, a tentação da violência, o conservadorismo moral como forma de “purificação” e os governos cada vez mais afastados de seus povos
Bassma Kodmani

A Guerra de 1967 fez relativamente poucas vítimas. O Egito pagou o preço mais elevado, perdendo 10 mil cidadãos. Já o número de soldados sírios e jordanianos mortos não passou de 5 mil. No entanto, os árabes teriam preferido perder mais homens a perder seu território e dignidade. A naksa, literalmente “a queda”, refere-se à derrota face a Israel e, principalmente, à interrupção do grande desejo de um Estado árabe nacionalista e modernista encarnado pelo nasserismo e pelo baasismo [1] e que culminou na criação da República Árabe Unida entre o Egito e a Síria (1958 – 1961). Durante quase duas decadas, entre 1950 e 1967, os árabes alimentaram a esperança de uma segunda chance para reparar a catástrofe (nakba) original que foi a perda da Palestina, em 1948-1949. Com os eventos de 1967, a irreversibilidade do Estado hebreu tornava-se uma realidade, enquanto Israel empreendia um discurso de não-retorno das conquistas territoriais e o jogo político se redefinia [2].

O fato marcou profundamente o comportamento e até o sistema de valores das sociedades árabes. A vida humana teve seu valor reduzido. Uma família não fica menos desesperada com a perda de seus filhos, mas a sociedade se vê em estado de guerra — guerra legítima de que faz parte a dor. É dessa época que data a glorificação da morte. Foi feita primeiro pelo movimento dos fedayins palestinos, que se sacrificaram pela terra e pela salvaguarda da identidade nacional. Em seguida, vieram os movimentos islâmicos, que aderiram à proposta e a sacralizaram.

A Guerra de 1967 representa, primeiramente, uma virada política na região. De um lado, houve a palestinização do conflito árabe-israelense; de outro, a afirmaçãoo do fator religioso. Pela primeira vez desde 1948, a reivindicação palestina tomava um rumo próprio: a Organização para a Libertação da Palestina, a OLP. Nascida em 1964, logo foi reconhecida pela Liga Árabe como única representante do povo palestino.

A OLP engajou-se na resistência armada no final da década de 1960, mas, à medida em que os países de onde ela podia agir se fechavam, passou a recorrer a modos alternativos de resistência. Depois de sua expulsão da Jordânia, em 1970-1971, lançou-se ao terrorismo internacional — instrumento chave de sua estrategia de sobrevivência, que só seria completamente abandonado na década de 1980. Passaram a emergiu grupos armados não-estatais, que fazem ataques além da fronteira. Tais grupos conflitam tanto com Israel quanto com o poder do país a partir de onde operam.

A complexa articulação entre poder político e islamismo
Em segundo lugar, assistimos a uma mudança na relação entre política e religião e à cooptação, por parte de grandes sheikhs muçulmanos, de largas parcelas da opinião pública. Desde o dia seguinte a sua derrota, e à retomada do poder como conseqüência das grandes manifestações após sua demissão, Gamel Abdel Nasser buscou, com sucesso, o apoio do establishment religioso. Em uma oração pública, no dia seguinte à derrota, o sheikh Mohammed Mitwalli Shaarawi, o mais popular líder religioso do país, agradeceu a Deus por uma "derrota traumatizante, que serviu para despertar a nação e lhe dar consciência de que ela se perde ao excluir a religião dos assuntos publicos”. O poder vê na instrumentalização da religião um meio de reconstruir sua legitimidade perdida, convencido de que depois conseguirá controlar os religiosos. Nasser nomeou o sheikh Shaarawi responsável pelo partido único. No entanto, rapidamente avaliou os riscos e procurou controlar sua influência.

Quando Anwar Al-Sadat o sucedeu, em 1970, foi retomada a estratégia de cooptação. A conivência entre os dois poderes instalou-se e se aprofundou, com o fim de anestesiar a população e impedi-la de desafiar a ordem existente. Mas as autoridades religiosas começaram a se tornar autônomas, confiantes em seu império sobre os corações e mentes. Elas investem na cena pública, na cultura, nos assuntos sociais, na mídia, nas relações vicinais — sejam com o vizinho cristão, sejam com o mais afastado, porém perigoso, ocidental. Sua escalada ao poder (Al Azhar no Egito, e os wahhabitas na Arábia Saudita) o transforma em um pólo alternativo capaz de estruturar a vida social e de dar sentido à existência coletiva. Seus recursos financeiros lhes permitem, ainda, dar assistência social a uma população carente.

Além disso, a instituição religiosa, antes mesmo da proliferação dos movimentos radicais islâmicos, já colocava a questão palestina no centro da problemática de identidade, sacralizando-a. Ela reelabora o confronto nacional e territorial, transformando-o em um antogonismo entre judeus e muçulmanos. Dizer que o islamismo é uma resposta de âmbito religioso à criação do Estado hebreu é uma leitura retrospectiva inexata. Israel foi visto, entre 1948 e 1967, como a realização de um projeto nacionalista conflitante com o nacionalismo árabe e palestino. Mas a derrota do poder de Nasser e do poder baasista, em 1967, privou-os da capacidade de formular um método de interpretação do conflito. Sob a influência da instituição religiosa, a história foi reescrita: as gerações que cresceram depois de 1967 representam, hoje, a esmagadora maioria da população, que emergiu sob a influência de um discurso impregnado de religião. Isso suscita um sentimento de culpa em todos, já que se desviam da piedade e do reto caminho.

Diante da profanação, "purificar-se" por meio violência e... do véu
Em 40 anos, o divórcio entre as sociedades árabes e os poderes estabelecidos aprofundou-se. Desde então, a gestão das consciências foi deixada a cargo do establishment religioso. Já a gestão das frustrações e aspirações políticas foi entregue aos movimentos islâmicos, que dividiram-se em duas tendências principais: uma, legalista; outra, revolucionária.

Foi sempre a partir do Egito que se definiram as orientações ideológicas, e sempre de lá partiram as correntes que varreriam a região. À desonra da derrota de 1967 juntou-se à proximidade do inimigo israelense, que tinha suas forças instaladas na margem leste do canal de Suez e nas colinas de Golan, a menos de 100 quilômetros da capital Síria. Os Irmãos Muçulmanos abandonaram as idéias de Sayyed Qutb [3], renunciando à violência e adotando uma estratégia de conquista progressiva da sociedade por meio de sua crença. Se por um lado, eles chamam a uma djihad contra as forças de ocupação israelenses ou estrangeiras, por outro delineiam claramente quem são os radicais que querem uma guerra sem limites contra os infiés dentro e fora do país, para a glória de Deus.

Em revanche, o movimento dos gamaat islamyia apareceu fortemente engajado em ações violentas. Eles deixaram os Irmãos Muçulmanos para lançar um ofensiva tríplice: primeiro, lançam-se à caça dos jovens, implantando-se nas faculdades, entrando nas escolas secundárias de maior prestígio e recrutando os filhos das famílias burguesas de Damasco, Amman, Cairo, Alexandria, Kartum. Movimento intelectual e político de elite, o islamismo radical nunca foi exclusividade das classes desfavorecidas. Seus dirigentes, bem como os da gamaat, a partir de 1967, e, mais tarde, os da Al-Qaeda, são intelectuais da burguesia educada e abastada.

Eles também promovem campanhas para estender o uso do véu. A justificativa? Diante do abuso à terra muçulmana, os islamistas mostram uma ligação obsessiva com a noção de honra e virtude, que as mulheres teriam a vocação e o dever de proteger. Sem que os governantes sejam capazes de preservar essa honra e virtude, passa a ser da sociedade e das mulheres o dever de fazê-lo.

Avanço do conservadorismo moral, erosão das liberdades
Enfim, terceiro braço da estratégia dos gamaat: o treinamento físico e esportivo. Partindo da benigna idéia de um corpo são, os manifestantes têm consciência de que se engajam num preparo para a luta armada, em vias de colisão com o poder.

Num primeiro momento, os Irmãos Muçulmanos egípcios, que tiveram sua direção dizimada por uma feroz repressão nos anos 1965-1966, com seus chefes executados ou condenados a longas penas de prisão, vêem na atração que as teses do gamaat exercem na juventude um meio de renovar suas fileiras. Mas os jovens em cólera chamam à guerra, enquanto os Irmãos já têm uma escolha feita pela via pacífica, uma escolha que não voltará atrás.

A cada grande crise se reproduz o sistema. A repressão sangrenta contra os Irmãos Muçulmanos sírios na cidade de Hama em 1982; a caça feroz ao gamaat pelo governo egípcio, nos anos 1988 –1992, depois dos atentados contra civis e turistas; a década de 1990, quando uma fração majoritária renunciou à violência e à clandestinidade, orientando-se pela legalidade e a moderação, enquanto uma porção minoritária se radicalizou e se engajou na violência da djihad, muitas vezes se exilando.

A longo prazo, o discurso moderado e os métodos legalistas se revelam politicamente vantajosos. Sua popularidade aumenta. De resto, os poderes políticos, acostumados sempre a usar seus serviços de segurança — os famosos moukhabarat —, contam com os islamistas moderados na Arábia Saudita, Egito, Jordânia e Marrocos para polemizar com os extremistas no plano doutrinário, desqualificar a atração que exercem sobre os jovens e desacreditar a violência. A experiência é válida, pois o peso dos grupos armados, seja no Egito ou na Argélia, diminui. Mas o islamismo se impõe como modo de pensamento e modelo de sociedade, trazido pelos moderados e pelas instituições religiosas, com um crescimento do conservadorismo e uma erosão das liberdades.

A derrota de 1967 levou, também, à queda do poder na Síria, no Iraque, no Sudão e na Líbia. Mas foram os últimos sobresaltos do tipo, já que, desde 1948, a instabilidade política fazia parte da paisagem do Oriente médio e golpes de Estado se sucediam. Há quase 40 anos os mesmos dirigentes ou seus filhos estão profundamente arraigados no poder [4].

Lento desgaste dos governos e elites retrógradas
Em 1973, assistimos a um sobresalto que torna-se um modelo no imaginário árabe. A guerra lançada contra Israel por Damasco e pelo Cairo, no mês de outubro, trazia o sentimento de que 1967 poderia ser superado e a co-relação de forças, invertida. Sobretudo no âmbito estratégico, a mobilização comum dos recursos militares e energéticos deixava pensar que, na falta de uma união de fato, havia uma solidariedade árabe que podia dar peso às reivindicações mais leves, sobretudo às dos palestinos. No âmbito político, o mundo árabe falava a uma só voz e formulava reivindicações coerentes. Enfim, no plano econômico, o bom fluxo para os países produtores de petróleo fazia nascer a esperança de que as sociedades se beneficiariam graças a uma distribuição eqüitativa das riquezas pelos governantes.

Essas esperanças revelaram-se ilusórias. Do ponto de vista militar, a guerra não trouxe melhoras e foi um passo inútil. O tempo das negociações e dos compromissos havia sido definido antes mesmo do início das hostilidades. Após ter atravessado com sucesso o canal de Suez, o exército egípcio foi parado por ordem política: o presidente Sadat queria simplesmente mover as linhas do cessar fogo de 1967 para negociar a partir de uma posição mais vantajosa. Israel teve medo, mas logo foi tranqüilizado, antes de se sentir constrangido a pensar na restituição dos territórios ocupados em 1967.

Os líderes — Egito e Arábia Saudita — logo mostraram que a nova solidariedade árabe dependia do apoio e da ajuda dos Estados Unidos. Enfim, a riqueza súbita de que se beneficiaram os países produtores de petróleo e sua considerável extensão aos demais países árabes — com a renda transferida por meio de imigração maciça de mão-de-obra para o Golfo — foi acompanhada de uma escalada sem precedentes da corrupção, do parasitismo e do mal-estar das sociedades.

O petróleo enriqueceu e consolidou os poderes, bajulados pelos países consumidores. Enquanto se aperfeiçoavam os serviços de segurança e controle da população, a imagem de Estados policiais era ofuscada pelos mercados. Seu primado sobre as sociedades é garantido por um convite às antigas elites — “Enriquecei” – e pela criação de uma nova burguesia de Estado. Tal segurança permite aos poderes realizar algumas reformas de fachada (até um pseudo-multipartidarismo), que contribuem para retocar um pouco sua imagem.

Na deserção do Egito, a perda de uma grande referência
Quinze anos depois, constata-se que a década da tafra (riqueza súbita) não foi empregada na melhoria das condições de vida da população, mas desperdiçada de maneira imperdoável, como na Argélia. Os países do Golfo substituiram gradativamente trabalhadores árabes por mão de obra asiática, fechando as portas a milhares de jovens condenados ao desemprego em seus países.

Quanto contribuiu ou contribui o conflito entre Israel e a Palestina para esse cenário? Seria ele realmente central? A solução do conflito será a chave para o desenvolvimento da região? Nos EUA e Europa, acredita-se que não. É preciso que se diga que esse leitmotiv já não é ouvido e que não reflete as evoluções da região desde o fim da década de 1970. Nessa ocasião, o presidente Sadat decidiu mudar radicalmente de orientação, de prioridades e de aliados, expulsando os conselheiros soviéticos e convidando os norte-americanos para recuperar o Sinai. Abandonando os palestinos, ele assina a paz saparadamente em Camp David, em 1978. Como conseqüência, os países árabes rompem relações com o Cairo, vendo-se assim privados do líder que, durante décadas, tiveram no Egito.

O aumento do poder da Arábia Saudita e dos países do Golfo e seu alcance financeiro eram portadores de valores religiosos, de consumismo, de bem-estar e de uma gratidão às potênciais anglo-saxãs — que os ajudaram a sedimentar sua autoridade, tendo, até mesmo, dado a autoridade a alguns deles. Enquanto os egípcios faziam valer sua nacionalidade, as elites do Golfo queriam construir seu futuro nacional e a segurança da península árabe, mas não sem um certo sentimento de nada dever a uma causa árabe de que eles seriam os únicos financiadores. A Jordânia fixou como prioridade defender seu território e sua integridade, livrando-se da resistência palestina. A Síria fazia o mesmo com sua intervenção no Líbano, em 1976, e suas ofensivas para reduzir a capacidade da OLP, em contradição com a retórica nacionalista, que mantinha intacta.

Questão palestina, nó incontornável no Oriente Médio
A revolução islâmica iraniana de 1978-1979 e a guerra de oito anos que Saddam Hussein lançou contra ela revelaram um outro eixo de tensão, de potencial muito maior que Israel, e contribuíram para o descrédito daqueles que defendiam a centralidade do conflito entre Israel e a Palestina. A capacidade do Iraque de mudar o equilíbrio regional foi desperdiçada numa mobilização de todos os recursos do país para enfrentar a ameaça xiita interna e numa rivalidade com o vizinho iraniano. A decisão de Saddam de invadir o Kuait, em 1990, pôs fim a todas as esperanças de que seu poder poderia servir para pôr limites em Israel. O maior país árabe, depois do Egito, saía da equação estratégica árabe-israelense.

Se a derrota de 1967 e a reaproximação que se seguiu entre Egito e Arábia Saudita puseram fim à guerra fria árabe — entre países progressistas, aliados à União Soviética, e países reacionários, aliados aos Estados Unidos — não se implantou nenhum sistema de segurança regional, capaz de gerenciar as crises e conflitos. A própria noção de mundo árabe era contestada, substituída pela expressão “rua árabe”, agitada por emoções comuns, mas fundamentalmente impotente.

O tema da “centralidade do conflito” serviu aos governos atuais para que tomassem o poder, justificou despesas exorbitantes em armamentos e o desenvolvimento conseqüente dos serviços de segurança sob uma retórica nacionalista. No entanto, seguramente não é o conflito palestino que permite explicar a violência dos regimes contra a sociedade e sua interferência em todos os domínios da vida pública. Também não é ele que serve para justificar a má gestão, o autoritarismo, a corrupção e a crueldade dos dirigentes com seus cidadãos.

Mas se os governantes utilizam-se com tal eficácia da luta contra Israel, fica claro que o conflito permeia a consciência coletiva dos árabes. É lá que está a centralidade do conflito. A relação com Israel determina o juízo de opinião em todas as potências estrangeiras sobre as orientações e os discursos das diferentes forças políticas. Para os povos da região, é preciso pesquisar incessantemente qual é o melhor quadro (árabe ou islâmico) capaz de trazer uma melhora na posição árabe em relação a Israel. Eles rejeitam qualquer batalha que não tenha por objetivo se opor ao Estado hebreu. Mostram-se reticentes em se engajar em lutas que representariam um desvio de energias e seriam, conseqüentemente, anti-patriotas. Assim se explica a sedução exercida por todo movimento que propõe uma nova estratégia contra Israel, do Hamas ao Hezbollah, até a tentação niilista de alguns, que chegam a aplaudir os atos da Al-Qaeda. Se o conflito não mais estrutura a configuração estratégica da região, ele continua a determinar os comportamentos. Os governantes já tentaram enterrá-lo, mas a besta adormecida teima em voltar.

Quando o mito, mais que a memória, torna-se válvula de escape
A derrota de 1967 marcou, portanto, uma geração traumatizada. Essa geração encontra-se unida na derrota e estupefata. [5]. Os mais velhos viram ser confiscado o controle sobre seu destino e a decepção foi terrível. Mas para aqueles que entravam na vida adulta, era bem mais grave: era preciso construir o futuro a partir de uma realidade paralizante. Fisicamente, o espaço árabe estava transformado. A guerra e muitos territórios haviam sido perdidos. Era preciso agora aceitar Israel com as fronteiras que o mundo reconhecia, as de 4 de junho de 1967, esperando que se contentasse em troca dos gestos de boa vontade exigidos.

Mentalmente, essa geração situou-se de maneira diferente no tempo. Ela abriu os olhos para o mundo, consciente de que os belos dias em que as sociedades tinham um destino coletivo ficaram para trás. A perspectiva de futuro é angustiante, o horizonte vazio e a direção tampouco se encontra no passado. Para muitos, o mito, mais que a memória viva, tornou-se uma válvula de escape. A cultura política das gerações pós 1967 — seja árabe, anti-imperialista, nacionalista ou islâmica — teceu-se na teia da guerra. Sua consciência tem os contornos das linhas do cessar fogo de 12 de junho. Israel modificou as fronteiras militares e estratégicas; depois, com o prolongamento da ocupação, as realidades econômicas e humanas.

Diante desse lento atolamento dos países árabes, foi preciso muita coragem dos palestinos para organizar uma resistência que mantivesse a lucidez de que a ação militar deveria ser instrumentalizada cedo ou tarde, para dar início às negociações e fazer concessões. Yasser Arafat e seus companheiros sabiam disso, desde o início da década de 70. Mas, diferente dos dirigentes de Estados árabes, eles nunca decidiram avançar sozinhos impondo-se pela força. Sempre buscaram o debate entre as organizações palestinas, o consenso. Em uma palavra, uma ligação com o compromisso democrático. As eleições de janeiro de 2006, que levaram o Hamas ao governo, mostraram isso mais uma vez. Também o fizeram os esforços dos dois partidos para ter um governo de união nacional — frágil, incapaz até o momento de manter a ordem (como provam os enfrentamentos atuais), mas preferível, para o presidente da Autoridade Palestina, a uma tomada do controle pela força.

A ausência da democracia no resto do mundo árabe privou as sociedades de espaços de debate e mecanismos de participação. O resultado foi que a elite intelectual tentava sozinha refletir, enquanto os dirigentes procuravam negociar uma paz — a deles — e a população, entregue a própria sorte, busca soluções para seus angustiantes problemas, sob um governo de quem não espera grande coisa. Apático? Talvez, resignado com a impotência, mas buscando modos alternativos de organização social.

Segundo Paul Valery, o passado, esse “veneno para o intelecto”, é algo que o mundo árabe não soube discutir e nem superar. Em 40 anos, o nacionalismo palestino trocou de estratégia, liderança, discurso, referências. Porém, esses 40 anos de ocupação provaram seu carater irredutível. Henry Kissinger, que lançou a famosa frase “bye, bye OLP”, já não está mais em cena para acolher o Hamas. Para a geração marcada pela Guerra dos Seis Dias, a solução da questão palestina é condição sine qua non e o elemento motriz para um futuro tranqüilo. É superando tal obstáculo que será possível se opor aos poderes instituídos e promover a democracia e as liberdades, sem ser acusado de trair a grande causa. Por meio dessa superação é que se poderá questionar o valor dos exércitos e dos serviços de segurança na vida das sociedades; que poderá ser posto em questão o pensamento único islâmico e se poderá alimentar uma relação de maior confiança com o exterior e o Ocidente em particular.

Tradução: Leonardo Abreu
leonardoaabreu@yahoo.com.br


[1] Gamal Abdel Nasser (1918-1970) tomou o poder no Egito, em 1952, com os oficiais livres e foi o bastião da unidade árabe. O partido Baas (que significa renascença) foi criado em 1947 sob as palavras de ordem “unidade, liberdade, socialismo” e era influente entre os militares e as classes médias. Dispondo de seções em todos os países árabes, ele tomou o poder na Síria e no Iraque nos anos 1960. No entanto, as relações pouco amigáveis entre Damasco e Bagdá impedem qualquer unidade árabe.

[2] Ian S. Lustick, Unsettled States Disputed Lands, Britain and Ireland, France and Algeria and the West Bank-Gaza, Cornell University Press, 1993.

[3] Membro dos Irmãos Muçulmanos, teórico da violência como estratégia política que inspira os movimentos djihadistas. Executado por ordem de Nasser em 1966.

[4] Farouk Mardam-Bey e Elias Sanbar, Ser árabe, entrevistas com Christophe Kantcheff, Actes Sud, Arles, 2006.

[5] Charles Taylos, “A different Kind of Courage” (Um outro tipo de coragem), The New York Review of Books, 26 de abril de 2007.
junho 2007

Le Monde Diplomatique

Religião e política no Oriente Médio: uma leitura à luz da obra de Rousseau

Conflito entre judeus e palestinos se baseia na mistura entre o indivíduo político e o indivíduo religioso e na crença que cada um dos grupos possui a verdade revelada

Por Thomaz Kawauche

O conflito entre judeus e palestinos ocorre, principalmente, pela posse e direito de soberania sobre Jerusalém, e os territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, onde fica o muro das lamentações, principal santuário judeu e também onde os palestinos querem estabelecer a capital de um futuro estado independente. As regiões têm significado religioso para os dois povos. Para Rousseau, origem de conflitos deste tipo estaria na recusa em admitir a verdade do outro
Os conflitos entre israelenses e palestinos que ocorrem hoje no chamado Oriente Médio poderiam nos levar ao seguinte questionamento acerca da relação entre política e religião: a disputa pelos territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, bem como da parte leste da cidade de Jerusalém, é uma questão política ou religiosa? Em outros termos: os argumentos teológicos dos discursos das partes beligerantes são apenas fonte de motivação e legitimidade para as ações militares, ou eles expressam uma dimensão maior da vida humana que abarcaria, entre outras coisas, a Ética e a Política?

No primeiro caso, a Religião estaria subordinada à Política, de tal maneira que os líderes espirituais, tanto dos judeus quanto dos árabes, estariam simplesmente utilizando o discurso religioso como um instrumento ideológico para mobilização de seus exércitos; teríamos então que nos indagar acerca da legitimidade dessa manipulação. No segundo caso, a Política estaria subordinada à Religião, e, dessa forma, é a própria idéia de Política que seria posta em xeque: o problema do convívio entre os homens seria resolvido, não em termos de acordos estabelecidos pelos próprios homens, mas mediante o conhecimento de uma vontade divina, o que colocaria a arte do governo na dependência de uma revelação sobrenatural.


Ora, não é preciso ser um especialista no assunto para perceber que a questão, colocada dessa maneira, não apenas simplifica demasiadamente o problema, como também cria novas questões ainda mais embaraçosas. Afinal, não é tarefa das mais fáceis distinguir o que pertence à Religião e o que pertence à Política nas falas fervorosas dirigidas contra os “infiéis” acerca de um Estado de direitos, ou nas ações de entrega da própria vida como sacrifício à divindade que, para os órgãos internacionais, não representa outra coisa além de uma ameaça à segurança pública. Política e Religião mesclam-se de modo tão intenso que a fronteira entre os domínios de uma e de outra se mostra extremamente difusa, e não nos parece adequado tentar estabelecer qualquer distinção em termos tão rígidos.



Na obra prima de Rousseau, Do contrato social que fala do pacto de associação entre os indivíduos para formar a sociedade e o Estado, o filósofo menciona conflito na Antigüidade, que misturava a Política e a Religião, assim como ocorre entre judeus e palestinos nos dias atuais. Ele critica o fanatismo e a intolerância e aponta os malefícios da Religião na sociedade.
É exatamente por conta dessa dificuldade que os conflitos não podem ser explicados apenas como expressão do fanatismo religioso. Pois, assim, estaríamos pressupondo a possibilidade de um acordo político que passasse ao largo das questões religiosas, o que seria equivalente a desprezar todo o desenvolvimento histórico dos povos envolvidos, para os quais a própria idéia de nação se encontra profundamente arraigada nas tradições do judaísmo e do islamismo.

Da mesma forma, não poderíamos simplesmente rotular os seguidores dessas tradições como povos “primitivos” ou “atrasados” por seus costumes religiosos, em oposição aos povos “modernos” do mundo ocidental. Isso implicaria na aceitação da tese de que existe um progresso da cultura à medida que a moral se dessacraliza (ou se “seculariza”), o que, de modo algum é consenso entre os estudiosos do fenômeno religioso; além do mais, tal juízo seria uma retomada da conhecida distinção entre “antigos” e “modernos”, que sempre serviu mais para justificar preconceitos eurocêntricos do que para esclarecer de fato as diferenças entre formas distintas de pensamento. Basta nos lembrarmos da expressão francesa desse binômio que, nos séculos XVII e XVIII, se deu em termos da oposição entre “selvagens” e “civilizados”.

Um recuo ao passado

Por meio dessa primeira reflexão sobre a questão israelo-palestina é possível introduzir um filósofo que, entre outras coisas, dedicou muito tempo de sua vida a analisar o vínculo entre Religião e Política: Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Esse genebrino, cujas idéias políticas inspiraram os protagonistas da Revolução Francesa, é um caso exemplar na história da Filosofia para nos dar elementos de reflexão sobre as guerras “santas”, não apenas no que se refere às questões de seu tempo, mas também no que diz respeito ao problema do lugar da Religião na sociedade atual.


Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo suíço, grande influenciador do Iluminismo francês. Conseguiu criticar a revelação e, ao mesmo tempo, dizer acreditar nas verdades reveladas por Deus


Não podemos rotular os seguidores dessas tradições religiosas como “atrasados” em oposição aos “modernos” do mundo ocidental


Assim como diversos outros filósofos do século XVIII, Rousseau também criticava os efeitos negativos da Religião na sociedade, sobretudo o fanatismo e a intolerância. A opinião de nosso autor sobre o assunto fica clara em uma passagem bastante polêmica, extraída do Contrato social, que, por conta do caráter ofensivo ao cristianismo, valeu a Jean-Jacques a honra de ter sua obra queimada em praça pública pelas autoridades eclesiásticas de Genebra:

“Mas esta Religião [o cristianismo], não tendo nenhuma relação particular com o corpo político, deixa as leis unicamente com a força que tiram de si mesmas, sem acrescentar-lhes nenhuma outra; e, desse modo, fica sem efeito um dos grandes elos da sociedade particular. Mais ainda, longe de ligar os corações dos cidadãos ao Estado, desprende-os, como de todas as coisas da terra. Não conheço nada mais contrário ao espírito social.” (Contrato social, livro IV, cap. 8).

Basicamente, o que está em questão na passagem citada é a falta de envolvimento dos cristãos na Política. Para Rousseau, um verdadeiro cristão preocupa-se mais com a vida futura do que com a vida presente, e, por isso mesmo, acaba deixando de lado os problemas da sociedade. Daí dizer que os seguidores dessa Religião não têm compromisso com o corpo político e que seus corações são desprendidos das coisas terrenas.

Profissão de fé do vigário saboiano
“Apóstolo da verdade, que tendes para me dizer de que eu não continue sendo o juiz? O próprio Deus falou: escutai a sua revelação. É outra coisa. Deus falou! Eeis com certeza uma grande fala. a quem ele falou? Falou aos homens. Por que, então, nada ouvi? encarregou outros homens de te transmitirem sua mensagem. Entendo! Ssão homens que me vão dizer o que Deus disse. Preferiria ter ouvido o próprio Deus; não lhe teria custado muito e eu estaria protegido contra a sedução. Eele vos protege dela manifestando a missão de seus enviados. Como isso? Através de prodígios. E onde estão esses prodígios? Nos livros. quem fez esses livros? Homens. quem viu esses prodígios? Homens que os atestam. Qual! Sempre testemunhos humanos! homens que me relatam o que outros homens relataram! Quantos homens entre mim e Deus!” (J.-J. Rrousseau, Emílio, livro IV)


Massacre dos Inocentes, de Guido Reni (1611) Para Rousseau, só deve haver uma verdade revelada por Deus, mas os homens a deturpam e consideram suas interpretações as únicas verdadeiras, o que leva ao ódio e à intolerância
Para Rousseau, Jesus foi responsável pela separação entre o poder civil e o poder eclesiástico (isto é, ele distinguiu a Política da Religião, que no mundo antigo se confundiam); e, pelo fato de o cristianismo ser uma religião “inteiramente espiritual”, seus seguidores se preocupam apenas com o céu e se mostram profundamente indiferentes quanto às coisas da vida presente. Do ponto de vista da Política, seria como se os cristãos fossem cidadãos de uma pátria de outro mundo, e que, na pátria terrena, vivessem como estrangeiros, isto é, pessoas sem vínculos legais com o Estado. O versículo da Bíblia que ilustra bem essa atitude referida por Rousseau encontra-se nos Atos dos apóstolos, quando Pedro afirma: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.” (Atos, 5: 29).

Podemos então perceber que a indiferença política dos cristãos se origina em uma escolha: devemos obedecer às leis dos homens ou às leis de Deus? Ora, com relação às leis divinas, o que está em jogo é o destino de cada um na vida futura, e quaisquer que possam ser as penas e as recompensas oferecidas pelas leis humanas, nada se compara ao Inferno ou ao Paraíso. Daí se dizer que as leis civis perdem sua força em relação às leis de Deus, o que justificaria o severo juízo que encerra a passagem: “Não conheço nada mais contrário ao espírito social.”

Mas até aí, nada de mais. Afinal, esse tipo de crítica à Religião cristã podia ser encontrada com bastante freqüência em textos de Voltaire e do Barão d’Holbach, para citarmos apenas dois exemplos de pensadores contemporâneos de Rousseau. O curioso mesmo — e essa é a peculiaridade em relação aos demais filósofos iluministas — é notar que a crítica de Rousseau ao cristianismo não o impedia de se confessar cristão, o que à primeira vista pode parecer uma verdadeira contradição de seu pensamento. Para compreender melhor o duplo posicionamento de Rousseau, é preciso examinar um outro escrito, a Profissão de fé do vigário saboiano, opúsculo encontrado no livro IV do Emílio, seu tratado sobre educação.

A obediência à lei civil, que garante a solidez dos laços sociais do Eestado, torna-se menos importante do que a necessidade de obediência à lei divina

O objetivo da Profissão de fé é mostrar, por meio da idéia de religião natural, as condições de tolerância entre os homens, tendo-se em vista que as religiões históricas (cristianismo, judaísmo, islamismo) são intolerantes por princípio, promovendo apenas violência e ódio.

A religião natural é uma religião simples, constituída de poucos dogmas fundamentais: a existência de um deus inteligente, dotado de vontade e poder, que move o universo e ordena todas as coisas; a existência da alma imaterial que sobrevive à morte do corpo; a liberdade do homem, que pode ser utilizada tanto para o bem quanto para o mal.



Contudo (e é isso que importa notar), esses dogmas são estabelecidos, não como revelações ou doutrinas eclesiásticas, mas como verdades aceitáveis pela razão e pela consciência, ou seja, verdades não segundo um código religioso, mas segundo a natureza e, portanto, acessíveis a todos os homens sem necessidade de intermediários humanos, coisa que desagradava profundamente tanto aos teólogos católicos quanto aos protestantes, os quais defendiam, cada um à sua maneira, a intermediação de Cristo e da Igreja para que os homens tivessem acesso a Deus.

As múltiplas revelações

Para Rousseau, o problema das revelações é a falta de universalidade na comunicação entre o céu e a terra: pelo fato de Deus dar a poucos homens o privilégio de conhecerem sua vontade diretamente de sua boca, todos os demais ficam na dependência desses porta- vozes da divindade para se poderem conduzir de acordo com os preceitos do Ser supremo. Contudo, existem diversas religiões no mundo, cada uma delas com doutrinas próprias estabelecidas sob a alegação de expressarem a verdade revelada por Deus. E o detalhe é que essas doutrinas não apenas apresentam diferenças de uma religião para outra, como também quase sempre se contradizem mutuamente.



David Hume, filósofo escocês, é autor de História Natural da Religião. No livro, ele vê a religião natural como simples e baseada em dogmas que são verdades aceitáveis pela razão e não revelações, retirando de cena os intérpretes também criticados por Rousseau
E é exatamente nesse ponto que se encontra o problema: se a verdade é revelada por Deus a todos os homens, então ela deveria ser a mesma em todas as religiões. E ainda que a forma de expressão dessa verdade variasse, o conteúdo dos dogmas deveria ser o mesmo, de tal maneira que, a despeito das diferenças culturais, os pontos fundamentais das diversas religiões fossem compatíveis entre si, e não conflitantes. A diversidade das revelações é, pois, a prova cabal de que os homens não comunicam fielmente a suposta revelação original. Donde se justifica a afirmação do vigário: “Desde que os povos tiveram a idéia de fazer Deus falar, cada um o fez falar à sua maneira e fê-lo dizer o que quis. Se só tivessem ouvido o que Deus diz ao coração do homem, nunca teria havido mais do que uma religião na terra.”

Com isso, põe-se em xeque não apenas os intermediários da revelação, mas também a própria definição de “verdade”. Afinal, como explicar que aquilo que é “verdade” para uma seita pode não ser “verdade” para outra? Seria a verdade múltipla e não única? E, se cada um segue a sua própria verdade, como Deus pode ser justo ao julgar os homens de acordo com critérios particulares e não universais? Nessa mesma linha de raciocínio, Rousseau critica a falta de universalidade dos milagres como prova da revelação (para os cristãos, são os milagres que testificam a doutrina). Rousseau lembra que os milagres nunca ocorrem perante um número grande de pessoas, o que o leva a se perguntar se não seria muito mais fácil reconhecer os prodígios realizados em público do que meros relatos escritos de acontecimentos sobrenaturais supostamente testemunhados por apenas alguns. Em última instância, o problema continua sendo a intermediação dos homens, donde se compreende a exclamação do vigário: “Quantos homens entre mim e Deus!”.


Enfim, as passagens citadas, tanto do Emílio quanto do Contrato, parecem mais do que suficientes para considerarmos Rousseau um crítico do cristianismo. Tanto é assim que, logo após a publicação do Emílio, o arcebispo de Paris, Christophe de Beaumont, escreveu uma carta pastoral condenando o texto de Rousseau como blasfematório, ímpio e cheio de heresias.


Crítico ou defensor?



Pietro Perugino, representa Deus e os anjos. A revelação de Deus teria de ser igual a todos, o que, segundo Rousseau, inviabiliza a diversidade religiosa. O erro estaria na interpretação feita pelos homens
Contudo, é preciso observar que, nesse mesmo texto da Profissão de fé, após criticar duramente as religiões históricas, o vigário se coloca (surpreendentemente, à primeira vista) também na posição de um admirador da moral dos Evangelhos, ou seja, ele passa a falar como um cristão que acredita na revelação! O vigário afirma com todas as letras: “Confesso-te também que a majestade das Escrituras espanta-me, que a santidade do Evangelho fala ao meu coração. Vê os livros dos filósofos com toda a sua pompa: como são pequenos perto dos Evangelhos! É possível que um livro ao mesmo tempo tão sublime e tão simples seja obra dos homens?”.

Como entender que um crítico das revelações em geral possa mudar abruptamente de posição em seu discurso, passando a elogiar uma revelação particular, e, o que é mais intrigante, justamente a revelação cristã que Rousseau tanto critica?

Antes de tudo, devemos observar que essa mudança de posição — de crítico para defensor da Religião — não representa uma contradição no discurso, uma vez que não se trata na Profissão de fé de defender um ou outro partido, nem tampouco de negar a crítica racional aos mediadores da revelação feita nos parágrafos anteriores, e sim de fazer a contraposição entre dois pontos de vista: o de crítico das religiões e o de admirador sincero dos Evangelhos. É precisamente essa estratégia engenhosa de abordagem do problema que torna o texto de Rousseau notável: partindo do fato de que cada um defende sua própria verdade, o vigário saboiano assume duas posições contrárias — num primeiro momento, a posição de crítico das religiões e, logo em seguida, a posição de religioso.

E, por meio dessa dupla representação, a personagem, em tom dramático, procura mostrar que, comparadas as verdades de ambos os lados, não há como se decidir por um ou por outro partido, sendo que, de modo geral, o melhor que cada seita tem a fazer é ser tolerante em relação às verdades de todas as outras. É o que se verifica na seguinte afirmação do vigário: “Quanto à revelação, se eu tivesse melhor raciocínio ou melhor instrução, talvez percebesse a sua verdade, sua utilidade para quem tem a felicidade de reconhecê-la; mas, se vejo a seu favor provas que não posso combater, vejo também contra ela objeções que não consigo resolver. Há tantas razões sólidas contra e a favor que, não sabendo o que decidir, não a admito, nem a rejeito; rejeito apenas a obrigação de reconhecê-la [...].”

Para Rrousseau, o importante é que cada um se responsabilize pela própria crença porque a escolha é sempre arbitrária e pessoal


Devemos notar que essa estratégia retórica visa à afirmação de um princípio de tolerância religiosa. Mas não se trata de uma afirmação qualquer, como se fosse alguém assumindo a posição de uma verdade (dentre tantas possíveis); trata-se, isto sim, de evidenciar em termos lógicos a necessidade de cada partido assumir uma postura tolerante em relação aos demais, independentemente de qual seja a verdade absoluta.



Gandhi se assemelha a Rousseau ao afirmar haver uma única verdade religiosa: “Creio que se pudéssemos todos ler as escrituras das diferentes fés, sob o ponto de vista de seus respectivos seguidores, haveríamos de descobrir que, no fundo, foram todas a mesma coisa e sempre úteis umas às outras.”
O vigário não defende simplesmente que é preciso ser tolerante, isto é, ele não impõe a tolerância como um mandamento, pois, se assim o fizesse, sua voz se perderia em meio às muitas vozes dissonantes dos partidos, que se excluem mutuamente (ele seria o defensor do partido da tolerância — haveria certamente os partidários da intolerância, que se oporiam ao vigário); em vez disso, o que Rousseau faz é construir, por meio de uma análise comparativa de duas posições contrárias, uma espécie de cena dramática (de uma luta equilibrada e sem vencedores), na qual se evidencia a impossibilidade lógica de escolher qualquer um dos lados.



Cena de um milagre, retratado por Alonso Cano Rousseau critica os milagres por serem testemunhados por poucos. Intermediários entre Deus e os homens sempre aparecem como fonte de erro
Mas o mais importante é notar que o vigário constrói essa cena sem precisar emitir juízos de valor, isto é, sem rotular um dos partidos como “falso” e o outro como “verdadeiro”. Não deixa de ser significativo o que Rousseau escreve em uma nota do texto: “Tão logo cada um pretenda ser o único a ter razão, para escolher entre tantos partidos, será preciso escutar a todos, ou seremos injustos.” É, portanto, a estratégia de comparar os partidos de modo eqüitativo, apresentando argumentos suficientemente fortes para ambos os lados, que confere à análise do vigário um aspecto de neutralidade: pois, de certa forma, o caráter lógico da comparação anula os preconceitos, não permitindo que nem mesmo o próprio vigário imponha seu ponto de vista dogmaticamente, tornando-se ele também um intolerante.

Afirma o vigário: “Afora isso, permaneço quanto a esse ponto numa dúvida respeitosa. Não tenho a presunção de acreditar-me infalível; outros homens puderam decidir o que me parece indeciso; raciocino para mim e não para eles; não os reprovo nem os imito, seu juízo pode ser melhor do que o meu, mas não é culpa minha se não é o meu.”

Notemos que essas palavras expressam um estado de incerteza ou de falta de conhecimento para a tomada de uma decisão absoluta. E, nessa condição, o vigário assume uma atitude de reserva, permanecendo num estado de “dúvida respeitosa”, que implica no reconhecimento dos limites da própria razão. Para o vigário, o importante é que cada um se responsabilize pela própria crença, uma vez que, em última instância, qualquer que seja o partido adotado, a escolha é sempre arbitrária e pessoal, não podendo ser generalizada como regra a ser obedecida por todos.

Para Rrousseau, de modo geral, o melhor que cada seita tem a fazer é ser tolerante em relação às verdades de todas as outras

Jerusalém na história religiosa de judeus e de muçulmanos
O judaísmo e o islamismo têm em comum o fato de serem religiões monoteístas, cujos fundadores receberam um sinal de Deus para abandonar o politeísmo (entre os judeus, Abraão e, entre os muçulmanos, Maomé), e de considerarem Jerusalém um território sagrado. A ligação com a cidade vem da história das duas religiões.Para os islâmicos, existem três cidades sagradas: Meca, Medina e Jerusalém. Eessa última é considerada o local onde o profeta Maomé subiu ao céu em direção ao paraíso para encontrar com Moisés e Jesus.

Para os judeus, Abraão, em torno de 1.800 a.C, recebeu um sinal de Deus para viver em Canaã (atual Palestina). É de sua descendência que nasce Jacó, que tem o nome mudado para Israel.

Os doze filhos de Jacó formaram as doze tribos do povo judeu. judeus migram para o Egito, onde são escravizados por 400 anos, libertam-se e fogem. A fuga é liderada por Moisés, que recebe as tábuas dos Dez Mandamentos no monte Ssinai. Depois de peregrinarem por 40 anos no deserto, recebem de Deus um sinal para voltar à terra prometida (Canaã).

Jerusalém se torna um centro religioso no governo do rei Davi. Depois disso, o povo judeu passa por duas diásporas, devido a invasões de seu território, e se dispersa pelo mundo. Eem 1948, conseguem criar o estado de Israel, onde buscam retomar a antiga unidade do povo judeu e viver na terra prometida por Deus.



Massacre de São Bartolomeu, por François Dubois. Reis franceses, católicos, realizaram uma matança de protestantes (huguenotes) na França, em 1572. O massacre da noite de São Bartolomeu foi um episódio marcante. A guerra de religiões, para Rousseau, ocorre porque cada lado só admite a sua verdade
Poderíamos pensar que essa apologia da moral cristã que se encontra na Profissão de fé seja apenas a posição de uma personagem, o vigário saboiano, e não a de Rousseau. Mas a resposta dada à carta condenatória do arcebispo de Paris não deixa dúvida de que a profissão de fé do vigário é a profissão de fé de Rousseau: “Sou cristão, Senhor Arcebispo, e sinceramente cristão, segundo a doutrina do Evangelho. Sou cristão não como discípulo dos padres, mas como discípulo de Jesus Cristo.” Jean-Jacques Rousseau, portanto, não precisa deixar de ser cristão para criticar radicalmente as religiões históricas — dentre as quais, o próprio cristianismo — e, baseado nessa crítica, pregar a tolerância religiosa.

De volta ao presente

Mas o quanto essa leitura da obra de Rousseau nos ajuda a compreender os conflitos do Oriente Médio? Com relação à questão do fanatismo e da intolerância, Rousseau mostra que não pode haver conciliação enquanto cada um dos partidos defender sua própria “verdade” e acusar o partido contrário de “mentira” e “erro”; mostra também que o indivíduo religioso e o indivíduo político se confundem, e que não é possível buscar um acordo de paz sem considerar o forte vínculo que amarra a Religião e a Política, haja vista a impossibilidade de se distinguir, na idéia mesma de “verdade”, o que vem da suposta revelação divina daquilo que os próprios homens acrescentaram segundo suas opiniões e seus preconceitos.

Rousseau era, em muitos aspectos, pessimista quanto à salvação do gênero humano: ao longo de toda a sua vasta obra podemos perceber um profundo ceticismo no que se refere a qualquer tipo de futuro feliz da humanidade. Rousseau acredita, não sem tristeza, que o máximo a se fazer em termos de Política consiste em retardar o fim inevitável, uma vez que a História, para ele, é sempre a história da decadência e da corrupção das instituições. No entanto, é possível extrair uma lição útil do discurso do vigário saboiano em sua Profissão de fé: que não há como escapar dos efeitos nocivos da intolerância enquanto não houver o reconhecimento de que, mesmo em meio às verdades supostamente reveladas pela divindade, existem opiniões humanas misturadas, de tal modo que a política, indissociável da Religião tanto para israelenses como para palestinos, continuará a padecer dos males decorrentes dessa absurda convicção de que só os outros podem se enganar.

Referêcias
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Abril, 1973 (Col. “Os Pensadores”).
_____________. Emílio ou Da educação. Tradução de Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
_____________. Carta a Christophe de Beaumont. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.
_____________. Cartas escritas da montanha.Tradução de Maria Constança Peres Pissarra e Maria das Graças de Souza. São Paulo: Ed. Unesp / Educ, 2006.

Revista Filosofia

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Israel - Os momentos decisivos da concretização de um sonho

Arquitetada por Ben-Gurion, a Declaração de Independência de maio de 1948 finalmente cria o Estado judeu e deflagra guerra aberta contra os árabes
por Michel Bar-Zohar
© CORNELL CAPA PHOTO BY ROBERT CAPA © 2001 / MAGNUM PHOTOS

A celebração popular em Telavive, depois do anúncio.14 de maio de 1948

O mandato terminará legalmente à meia-noite e 1 minuto na noite do dia 14 para o dia 15 de maio. Assim sendo, Sua Excelência, o alto-comissário, deixará Jerusalém na data de 14 de maio e embarcará para Haifa no H.M.S. Euryalus, que zarpará à meia-noite. A evacuação de nossas tropas de Jerusalém e das outras regiões da Palestina começará igualmente em 14 de maio.” Esta sucinta mensagem à imprensa do governo inglês, em 12 de maio de 1948, colocava o ponto final nos 30 anos de reinado da Coroa britânica na Palestina. Executava recomendações da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas. No território, frente a frente, ficaram 650 mil judeus e, por toda volta, milhões de árabes.

No final de março, quando o abismo da catástrofe militar se abria sob os pés dos judeus, eram poucos os dirigentes sionistas decididos a proclamar a independência. Mas em 10 de abril, por 40 votos a 10, o poder executivo sionista, reunido na Palestina, aprovou a divisão formal do território e difundiu um apelo patético pedindo aos árabes que cooperassem com o futuro Estado. Para a ONU, a situação estava confusa; as pressões tendiam a anular a decisão de divisão. A delegação americana apresentava inúmeros projetos de cessar fogo e de governo provisório. Os judeus tiveram vitórias militares em abril, mas não definitivas. A estrada de Jerusalém estava interrompida. Mais grave era a entrada na batalha da legião árabe de Abdallah, o maior exército do Oriente Médio. No final do mês, a presidência da ONU propôs um armistício entre judeus e árabes, com a aprovação de eminentes líderes como Moshé Shertok e Eliezer Kaplan, o que significava abandonar projetos da formação do Estado até nova ordem. Os Estados Unidos insistiam: “Não proclamem a independência!”.

Nas reuniões do Estado-Maior dos judeus, entre outras providências, preparava- se a criação de uma força aérea, com a compra de aviões. Os encontros eram no escritório de Ben-Gurion, na “Casa Vermelha”. A criação do Estado estava na ordem do dia. Restava saber se os civis aceitariam os riscos. A maioria dos líderes operários estava reticente ainda no início de maio. Havia quem articulasse no sentido contrário junto a autoridades dos Estados Unidos, onde o ministério das Relações Exteriores insistia no armistício. Os EUA deixavam bem claro que não poderiam oferecer socorro.


JEWISH NATIONAL FUND PHOTO ARCHIVE

Ben-Gurion fala ao povo em Haifa, em 1949

Ben-Gurion trabalhava a favor da Declaração de Independência. Conseguiu a anuência de Moshé Shertok, líder do Mapai, o partido operário. Ao mesmo tempo então, foi informado de que Golda Meyerson, chefe do departamento diplomático da Histradrut, a central dos trabalhadores, recém-chegada de uma missão no exterior, conseguira arrecadar fundos para a Haganá, a resistência armada clandestina. A busca de recursos para a compra de armamentos tornava-se fundamental, pois se exauriam as esperanças de contar com aliados entre os inimigos em potencial. Houve tempo em que pareciam fundadas, no caso da Jordânia e do Marrocos.

Confiante, porém, na vitória, Ben-Gurion se preparava para o momento crítico. Sabia que se desistisse, o sonho de um Estado judeu talvez fosse enterrado. Na noite de 11 de maio convocou a seu gabinete todo o Estado-Maior. Na manhã seguinte, começou a invasão do território judeu pela legião árabe: eram 1.500 homens, apoiados por tanques e canhões. Horas mais tarde um funcionário inglês leu o comunicado anunciando a próxima partida do alto-comissário.

Eram necessários nervos sólidos para resistir ao ataque lançado contra Ben- Gurion durante a sessão extraordinária do Comitê de Defesa convocado naquela manhã. Choviam acusações de totalitarismo e de sabotagem, em razão da disputa em torno do posto-chave da Haganá – ele o desejava e acusou os golpes. Limitou-se a repetir que só aceitaria a pasta da Defesa após ter satisfeito seu objetivo quanto ao exército único. E, enfático: “Sobre certas questões, fazem contra mim uma campanha de chantagem e mentiras. Não vou desmenti-las nem refutá-las; os interesses da Defesa obrigam-me a me calar”.

Mesmo, porém, as questões internas de relevância foram riscadas da ordem do dia, mais adiante decidida em reunião do Conselho dos Treze, o governo provisório em plena vigência. Tratava-se de aprovar ou rejeitar de vez o projeto de proclamar o Estado em 72 horas, ao final do mandato britânico. A cúpula discutiu durante mais de 12 horas. Ponto por ponto, em sua alma e consciência, cada um dos membros do Executivo iria se pronunciar e passar ao voto. Informações alarmantes davam conta de uma ameaça americana de bloquear os fundos sionistas. A ONU, a França, os Estados Unidos e a Inglaterra propuseram soluções de última hora, como o armistício.

Ben-Gurion apresentou suas conclusões: “Se chegarmos a aumentar nossos efetivos graças à intensificação da mobilização e à contribuição da imigração, se nós acelerarmos o treinamento de nossas forças e completarmos nosso armamento, teremos condição de resistir e até de vencer”. Não sem perdas, admitiu: “Nossa comunidade não pode esperar resolver o problema sem sacrifícios”. Exortou à destruição das tropas inimigas, quando havia grande temor diante da força do exército de elite oponente. Ele impressionou seu auditório. Por 6 votos contra 4 (três dos membros do Conselho estavam ausentes), o armistício foi repudiado. A decisão de criar o Estado aconteceu graças àquela diferença de 2 votos a favor.

Ato contínuo, deliberaram sobre a forma de apresentar a declaração e o nome do Estado. Antes de eleger Israel, alguns sugeriram Judéia, outros Sion. Novo debate apaixonado eclodiu a propósito do traçado das fronteiras. Ben-Gurion foi contra definir esses limites, na Declaração: “Os árabes entram em guerra conosco. Se conseguirmos vencê-los, a Galiléia ocidental e o território dos dois lados da estrada de Jerusalém se tornarão parte do Estado”. Venceu, por 5 votos a 4. Tarde da noite, a reunião terminou para que um comitê restrito redigisse a Declaração de Independência. Em 13 de maio de 1948, operários e outros partidos cerraram fileiras com a decisão do Executivo.

Finalmente, chegou o 14 de maio, quando o Estado foi criado, com antecipação de um dia face ao planejado, porque o 15 de maio era um sábado, e o Sabbath é sagrado para a maioria dos judeus. Na madrugada, enquanto dava os últimos retoques no documento que viria a público, Ben-Gurion foi informado, por telefone, de que os habitantes de Kfar Etzion, que tinham hasteado uma bandeira branca, haviam sido degolados pelos árabes. Às primeiras horas da manhã, os ingleses começaram a partir, em comboios, de vários lugares. Ben-Gurion levantou-se às 7 horas da manhã, tomou seu café e seguiu para a “Casa Vermelha”. Houve muito o que fazer, em termos de mobilização de tropas: no norte, ocorreram combates sangrentos; perto de Jerusalém, os árabes repeliram um ataque judeu, e o único canhão da Haganá caiu nas mãos deles.

À 1 hora da tarde, o Conselho se reuniu. Às 4 horas, Ben-Gurion subiu, correndo, as escadas do Museu de Telavive. As tropas e a polícia, que chegaram às pressas, continham, com dificuldade, a multidão que misteriosamente ficara sabendo onde seria a reunião. Duzentos notáveis, jornalistas e fotógrafos se espremiam numa sala do museu. Na tribuna, atrás de uma longa mesa, os Treze estavam em seus lugares. Acima de suas cabeças, o retrato de Theodore Herzl – autor do livro O Estado judeu, que defendeu, pela primeira vez, essa idéia, no século XIX – estava pendurado sobre o fundo azul e branco de duas grandes bandeiras. A orquestra fi larmônica de Telavive estava espremida no balcão. Os operários, que trabalharam até o último minuto, não tiveram tempo de arrancar os quadros das paredes do museu. A proclamação se realizou na presença da tela Judeu segurando as Tábuas da Lei, de Chagall. Ben-Gurion se levantou e começou a ler a Declaração de Independência. Trinta e sete assinaturas num canto de um documento: a consagração do Estado de Israel. O rabino Fishman deu sua bênção, a orquestra tocou o hino nacional. Em Nova York, o Comitê da ONU continuava suas deliberações sobre a Palestina, ignorando que esta não existia mais e que o Estado de Israel acabava de nascer. Na manhã seguinte, a guerra começou. Os exércitos árabes atravessaram as fronteiras. Os aviões árabes bombardearam Telavive. Ninguém podia prever, naquele momento, se seria a vitória ou o desastre. No entanto, para o bem ou para o mal, Ben-Gurion, naquela tarde ensolarada, entrou na galeria dos imortais da história. (Tradução de Celina Olga de Souza)

CRONOLOGIA


© BETTMANN / CORBIS – STOCK PHOTOS

A cúpula do Estado de Israel acompanha a leitura da Declaração de Independência pelo primeiro-ministro Ben-Gurion

Os eventos em 1948
10 de abril
O poder executivo sionista aprovou a divisão do território entre judeus e palestinos; na ONU, as pressões eram contrárias

11 de maio
Ben-Gurion convocou o Estado-Maior a seu gabinete para aceitar ou rejeitar a proposta de em 72 horas proclamar a independência, prazo em seguida reduzido para evitar que coincidisse com o Sabbath, dia-santo para a maioria do povo

12 de maio
A legião árabe começou a invadir o território judeu; o governo inglês anunciou que se retiraria de Jerusalém no primeiro minuto do dia 15 seguinte

14 de maio
Às 16 horas Ben-Gurion chegou ao Museu de Telavive, juntando-se à cúpula executiva para ler a Declaração de Independência


A PRIMEIRA VITÓRIA


DIVULGAÇÃO

Reunião do Conselho de Segurança da ONU em que líderes sionistas – entre eles Golda Meir – defendem a fundação do Estado de Israel. Fevereiro de 1948

Por Édoua rd Zambeaux

Tradução de Marly N. Peres

“Colinas da Judéia na noite de 23 para 24 de março de 1948. Jerusalém tinha sido sitiada pelos partidários do chefe árabe Abdel-kader El Husseini. Os 100 mil judeus que viviam no perímetro da Cidade Santa viam-se ameaçados de morrer de fome e de sede. Para salvá-los, David Ben-Gurion mandou reunir todos os caminhões encontrados no país. Completamente carregados de farinha, legumes secos, açúcar e tonéis de água, 300 veículos reunidos num imenso comboio tentaram forçar o bloqueio. O líder sabia que se os judeus de Jerusalém fossem exterminados, o Estado de Israel corria o risco de ser decapitado antes de nascer. Os 300 caminhões caíram naquela noite numa emboscada. Os motoristas foram todos massacrados, os carregamentos saqueados, os veículos incendiados.” O relato é do escritor Dominique Lapierre, co-autor, com Larry Collins, do best-seller Oh Jerusalém, referência fundamental sobre a história do nascimento daquele Estado. A pesquisa, que durou quatro anos, começou na luxuosa residência de Miles e Gila Sherover, que sempre recebiam a alta sociedade de Israel. Ali, os escritores conheceram protagonistas como Golda Meir, Moshe Dayan, que havia tomado em 1948 duas grandes cidades palestinas, e Ehud Avriel, um dos pais fundadores do Estado de Israel.

No dia seguinte à votação pelos representantes das Nações Unidas, por 33 votos contra 13 e 10 abstenções, da divisão da Palestina em um Estado árabe e um Estado judeu, em 29 de novembro de 1947, um velho Ford cinza estacionou na frente da casinha do kibutz da Alta Galiléia, onde morava Avriel. Três horas depois, o veículo o deixou diante do prédio da Agência Judia de Jerusalém. David Ben-Gurion aguardava o visitante, para alertar que a guerra com os árabes começaria em menos de seis meses, tão logo fosse declarado o nascimentodo Estado de Israel: “Cinco exércitos regulares árabes vão nos invadir no próximo dia 15 de maio, assim que o último soldado britânico for embora. Se não conseguirmos obter armas com a máxima urgência, nosso Estado será aniquilado no próprio dia em que nascer. Você vai comprar armas na Europa. Esta é a lista das necessidades imediatas: 10 mil fuzis, 1 milhão de balas, mil submetralhadoras, 1.500 metralhadoras”. Dois dias depois, Ehud Avriel decolou, com destino a Genebra e Paris.

Os países que entraram em guerra contra Israel estavam divididos quanto a objetivos e estratégia. No dia 10 de junho de 1948, ao aceitar o cessar-fogo, os árabes, segundo afirmou Ben-Gurion, cometeram um erro fatal. Os judeus se aproveitaram dessa trégua para recompor seus arsenais, reabastecer Jerusalém e alinhar 60 mil soldados. Pela primeira vez, superaram os árabes em número e em armas. Diria Ben-Gurion: “Eu sabia que tínhamos ganhado. Dali por diante, já não nos poderiam vencer”.

Édouard Zambeaux é jornalista

GLOSSÁRIO
Haganá: força formada pelos judeus, em 1920, para autodefesa, composta inicialmente por unidades operantes em diferentes vilas e cidades da Palestina; foi clandestina até 1948; depois da Declaração de Independência, transformou-se em exército regular; um de seus fundadores e organizadores foi Eliayahu Golomb, um dos integrantes do conselho de comando original.

Sionismo: movimento iniciado no final do século XIX e espalhado pelas comunidades judias da Europa para volta à Terra Prometida, na Palestina – cerca de 25 mil pessoas o fizeram, entre 1882 e 1903, erguendo vilas de madrugada; entre seus líderes mais conhecidos estão Theodor Herzl e Chaim Weizmann; aos poucos esse regresso foi acontecendo.

Michel Bar-Zohar é escritor e biógrafo.

Revista Historia Viva