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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A história da Morte

A ideia da finitude nos enche de terror. Por quê? Será que precisa ser assim? Dá para sofrer menos com a morte?
  Maria Fernanda Vomero




Há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê, adoecer e morrer em seus braços, sem que ela pudesse fazer nada. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então, respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa. Sempre ouvindo as mesmas respostas. “Muita gente já morreu nesta casa”; “Desculpe, já houve morte em nossa família”; “Aqui nós já perdemos um bebê também.” Depois de percorrer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher compreendeu a lição. Voltou a ele e disse: “O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.

A morte pode ser vista como um mistério incompreensível. Ou como um absurdo inaceitável. A morte pode até ser tratada como um tabu. Mas, seja como for, aceitemos isso ou não, a morte é uma realidade inexorável. Por mais que queiramos nos esconder dela, deixar de existir é tão natural quanto existir. Na verdade, a morte é provavelmente a única coisa certa na sua existência ou na minha: é certo que todos nós vamos morrer um dia.

Pode-se aceitar a inevitabilidade da morte e olhá-la de frente. Ou pode-se negá-la, fugir dela, imaginar que não pensar na morte possa fazer com que ela deixe de acontecer com você ou com a sua família. Mas todos nós estamos programados para nascer, crescer e morrer – uma obviedade esquecida por boa parte da sociedade ocidental contemporânea, que teima em ver a morte como um evento inesperado e injusto. Sobretudo, costumamos vê-la como um evento exclusivo, pessoal, que isola quem sofre uma perda de todo o resto do mundo. Mas não há nada menos exclusivo do que morrer. Como está expresso na fábula tibetana, a morte não é privilégio nem desgraça particular de ninguém. Ela chega para todos, sem exceção.

Mas, afinal, se a morte é tão comum e corriqueira, por que ela nos causa tanto medo? “O maior desejo do homem é a imortalidade”, diz a psicóloga Ingrid Esslinger, da Universidade de São Paulo (USP), acostumada a atender pessoas em situação de luto. “Por isso, muitas vezes a morte é considerada uma inimiga.” E uma adversária, que poderia ser vencida pelos avanços científico-tecnológicos do século 20, que aumentaram a eficiência dos diagnósticos, dos medicamentos, das técnicas cirúrgicas etc. Soa como um despropósito falar de morte a quem tem as descobertas da ciência a seu favor. Afinal, se existem meios de prolongar a vida útil do ser humano, de manter-se jovem, por que pensar na finitude?

É um paradoxo: a valorização da vida e a ilusão de eterna beleza e jovialidade trazidas pela vida moderna acabam gerando, por meio do apego a tudo isso, muito mais tristeza e sofrimento pelo fim inevitável da existência do que felicidade pelo mais de vida que proporcionam. O ocidente transformou a morte em tabu: ela costuma ser banida das conversas cotidianas. Tudo aquilo que possa lembrá-la é escamoteado. Os doentes morrem no hospital, longe dos olhos – e, não raro, do coração – de seus amigos e parentes. E os rituais de luto são cada vez mais rápidos. O medo natural que todo ser humano sente diante da própria finitude vira pânico. E mesmo a morte natural acaba virando sinônimo de aniquilamento sumário. O que, no mais das vezes, não corresponde à realidade por se tratar simplesmente de uma vida que chegou ao fim.
Hora de ir embora

O primeiro passo para conviver melhor com a ideia da morte é esquecer aquela imagem medieval, um tanto tétrica, de um esqueleto coberto com uma capa preta carregando uma foice afiada na mão. Talvez uma imagem melhor para a morte seja imaginá-la como o fim de uma festa: você já sabia que ela teria que acabar, em algum momento. E, pensando bem, talvez não seja de todo mal que a festa termine. Você agüentaria dançar na pista para sempre? Por melhor que seja a música, tem uma hora que seu corpo e sua mente pedem descanso. E aí, talvez, seja o momento mesmo de sair da pista, serenamente, sem traumas, e dar lugar a quem está chegando à festa cheio de gás.

O medo da morte é inerente ao desenvolvimento humano. Aparece na infância, a partir das primeiras experiências de perda. E tem várias facetas: trata-se de um medo do desconhecido, somado ao medo da própria extinção, da ruptura da teia afetiva, da solidão e do sofrimento. “O medo da morte é fundador da cultura”, diz a socioantropóloga Luce des Aulniers, responsável pela disciplina de estudos sobre a morte, da Universidade de Quebec, em Montreal, Canadá. “Esse medo funciona como pivô e como motor de todas as civilizações. A partir do desejo de perenidade, se desenvolvem as instituições, as crenças, as ciências, as artes, as técnicas e mesmo as organizações políticas e econômicas.”

Esse é o lado, digamos, vital da morte. “O medo da morte nos força a viver – a nos relacionar, a procriar, a criar, a construir coisas que nos transcendam”, diz a pesquisadora canadense. Na ilusão da imortalidade, o ser humano acredita que suas obras sejam permanentes e garantam que ele não seja esquecido. Cada um adapta, à sua própria maneira, a máxima “plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho”. Para o nosso inconsciente, a morte nunca é possível nem admissível quando se trata de nós mesmos. “A ideia da não-existência provoca tal desconforto que a mente humana acaba criando alguns mecanismos de defesa para fugir dessa realidade”, diz o psiquiatra e psicanalista Roosevelt Smeke Cassorla, da Sociedade Brasileira de Psicanálise, em São Paulo. A negação e a repressão da ideia de morte são exemplos desses artifícios.


 
Terror ancestral

Nada disso é novidade. Desde os tempos mais remotos, os homens já enxergavam a morte como elemento antagônico à vida. Talvez fosse mais fácil aceitá-la como fato natural quando ela acontecia aos borbotões, quando a expectativa de vida das pessoas era de 35 anos. Mas o estranhamento e o terror sempre existiram. As pinturas nas paredes de cavernas como Lascaux e Chauvert, na França, revelam o incômodo que a morte provocava no homem de 30 mil anos atrás. Episódios alegres, como caçadas, eram retratados em cores vivas. As imagens fúnebres, por sua vez, eram pintadas com cores escuras.

O antagonismo se mantém dentro de cada um de nós, no jogo constante entre Eros, o deus grego do amor, e Tanatos, o deus da morte, para usar uma imagem cunhada por Sigmund Freud, fundador da psicanálise. As forças da vida, representadas por Eros, estimulariam o crescimento, a integração, a autoproteção e a sobrevivência. As forças da morte, representadas por Tanatos, alimentariam os instintos destrutivos e as atitudes de auto-sabotagem, por exemplo. Da conciliação de todas essas forças contraditórias, surgiriam o equilíbrio e o vigor emocional necessários para viver.

No entanto, o medo de morrer pode gerar um apego desmedido a elementos cotidianos e um conseqüente desespero diante da possibilidade de vir a “perder tudo” com a morte – a companhia dos amigos, o carro novo, os imóveis, o status social, os projetos não realizados. No budismo, assim como na tradição cristã, o desapego é condição essencial para uma “boa morte”. “Normalmente assumimos que precisamos dominar alguma coisa para que ela nos traga felicidade. E nos perguntamos: como é possível saborear alguma coisa se não podemos possuí-la?”, escreve Sogyal Rinpoche, em seu O Livro Tibetano do Viver e do Morrer. “Mas, na morte, não podemos levar nada conosco.” Eis aqui outro paradoxo: para viver bem, sem o tormento da ideia do fim, é preciso cultivar um certo desapego em relação à vida.

Em certas ordens religiosas católicas, os monges, ao se encontrarem nos corredores do mosteiro, costumam dizer uns aos outros: “Memento mori”, expressão latina que significa “lembre-se de que vai morrer”. A saudação – que é o contraponto de “Carpe diem” (“aproveite o dia”) – funciona como um exercício de aceitação da morte. O contrário disso é o culto ao ego, ao “pequeno eu” que há dentro de cada um de nós, manifestado na não-aceitação do curso natural dos acontecimentos. E que está presente no indivíduo que tenta se colocar acima do todo a que pertence. Na vida, quanto mais você está centrado em si mesmo, mais você sofre com a ausência de solidariedade, com a falsa ideia de que está desamparado. Na morte, acontece a mesma coisa. Quanto menos você compartilha a sua dor, mais insuportável ela se torna.


 
Morra na filosofia

Para quem busca na filosofia maneiras de lidar melhor com a morte, as reflexões finais do filósofo grego Sócrates – condenado a tomar cicuta, um veneno letal –, feitas no século 5 a.C., representam um excelente exercício de aceitação. “Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas. Ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja. Ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para outro”, afirmou Sócrates. Para quem não acredita na continuação da vida, a morte é o nada, é o fim das aflições. E para quem acredita na continuação da vida, a morte é a passagem desta existência para outra melhor. De qualquer modo, a dor estaria na vida e não na morte.

A morte é um assunto tão complexo que sequer há uma concordância entre os cientistas quanto à sua definição. No campo filosófico, essa discussão fica ainda mais sinuosa. “Apesar de considerarmos a morte como um evento biologicamente irreversível, ela não pode ser determinada exclusivamente pelo critério biológico, pois envolve também questões ontológicas e filosóficas”, afirma o patologista forense Marcos de Almeida, professor de medicina legal e bioética da Universidade Federal de São Paulo. Alma e consciência são sinônimos? Existe uma alma imortal? Se sim, para onde ela vai quando morremos? Sem respostas da ciência, o homem busca nas religiões as explicações para a morte. Para uns, trata-se de uma passagem. Para outros, é uma forma de libertação do sofrimento. Há ainda aqueles para quem morrer é simplesmente deixar de existir.

“Pesquisas demonstram que pessoas com forte grau de envolvimento religioso, independentemente da crença, geralmente têm menos medo da morte”, afirma a psicóloga Maria Júlia Kovácz, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte da USP e autora de Morte e Desenvolvimento Humano. “A fé ajuda a superar a ansiedade em relação à ideia de finitude”, diz ela. Para o psicanalista Roosevelt Cassorla, “na religião o indivíduo convive melhor com a finitude porque lá encontra certezas sobre por que vive, por que morre e o que acontece após a morte”.

Se há uma outra vida que se segue à morte, existiria então uma continuidade da mente ou do espírito. “Viver em função dessa continuidade nos torna mais responsáveis pelas conseqüências dos nossos atos”, diz a psicóloga Bel Cesar, do Centro de Dharma da Paz, em São Paulo, e autora de Morrer Não se Improvisa. “O fruto apodrece, cai no chão, mas deixa a semente que dará vida a outro fruto. Assim também conosco.” A visão espiritual da morte implica desapego. Afinal, é também por meio da aceitação da impermanência humana que a religião ajuda a suavizar o sofrimento causado pela finitude. Por outro lado, a ideia de transcendência, do indivíduo que vence a morte, paradoxalmente embute uma aspiração à perenidade, ao não admitir que o sujeito chegue a um fim.


 
A negação do fim

Em oposição à visão espiritualista da morte, há a tradição materialista ocidental, que surgiu na Antiguidade e depois foi retomada pelos filósofos do iluminismo, a partir do século 18, para a qual a morte é o fim total e absoluto. Nada mais do que a interrupção de um processo neurofisiológico. Essa concepção, mais tarde lapidada pelos existencialistas, como o francês Jean-Paul Sartre, funda muito da nossa visão de que morrer é uma ideia inconcebível com a qual é impossível lidar. “Morrer é um absurdo”, escreveu o filósofo existencialista Arthur Schopenhauer (1788-1860). A morte não cabe na ideia cartesiana de vida – para a qual tudo poderia ser medido, compreendido, planejado.

O Ocidente, em seu esforço por não admitir a morte, está há pelo menos 30 anos obcecado pela ideia do jovem como metáfora de vida saudável. O envelhecimento é visto sempre como decrepitude – e a morte é vista sempre como a epítome disso. “Há uma negação muito clara da finitude. Sobretudo porque os valores da sociedade de massa e de consumo são antagônicos à ideia de morte: o fetichismo da juventude eterna, os ideais de progresso, a acumulação de bens, a busca da imortalidade”, diz Olgária Feres Matos, professora do Departamento de Filosofia da USP. A sociedade ocidental vive um presente perpétuo. “Não há nem a visão de um futuro nem a evocação de um passado. Por isso, a morte não é admitida como uma experiência humana aceitável”, afirma Olgária. O resultado é uma sociedade atormentada, que busca inutilmente a felicidade em fugas da realidade de que um dia iremos deixar de existir.

Mesmo no mundo ocidental, no entanto, sobrevivem tradições que, ao festejar a morte, celebram a vida. O “Dia dos Mortos”, no México, é um exemplo disso. “Ainda existem aldeias que desenterram os mortos nesse dia. Trata-se de um costume indígena milenar. As refeições são feitas no cemitério, e as crianças ganham doces e bombons em forma de caveiras”, diz o historiador Leandro Karnal, professor de história da América na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “No interior do país, sobrevive a prática de conversar com os mortos para colocá-los a par do que aconteceu durante o ano.” As famílias preparam altares para seus falecidos e neles colocam os objetos que guardam uma relação afetiva com o parente que se foi: livros, discos, cigarros, comidas, fotografias. Vale tudo que tenha tido algum valor para o morto.

A morte já foi vista de modo mais familiar pelo Ocidente. E não faz tanto tempo. Até meados do século passado, era costume morrer em casa. “A família reunia-se em volta do leito para ouvir a última palavra daquele que estava mor–rendo”, afirma o historiador Eduardo Basto de Albuquerque, da Universidade Estadual Paulista, em Rio Claro. “Era um momento de despedida.” Não se ocultava das crianças a morte como se faz atualmente. O velório também era, na maioria das vezes, realizado em casa – tradição que sobrevive em algumas cidades do interior do Brasil. “Existiam comidas típicas para a ocasião. Os parentes preparavam alguns pratos para receber os conhecidos que participavam do enterro. Havia, inclusive, cânticos e orações especiais para o momento”, diz Eduardo.

A expulsão da morte da nossa intimidade é uma metáfora da negação da finitude que operamos em nossas próprias vidas. “Os rituais de morte estão presentes em todas as sociedades do planeta. Servem para a compreensão ‘social’ do fenômeno: ajudam a digerir o impacto provocado pela perda do outro e funcionam como fator de agregação daquela sociedade”, diz o antropólogo Guillermo Ruben, da Unicamp. “Os rituais seculares foram esvaziados de sentimentos e significado”, escreveu o sociólogo alemão Nobert Elias, na arguta análise da experiência de morte nos dias de hoje, presente em A Solidão dos Moribundos. “O crescente tabu da civilização em relação à expressão de sentimentos espontâneos e fortes trava suas línguas e mãos. E os viventes podem, de maneira semiconsciente, sentir que a morte é contagiosa e ameaçadora; afastam-se involuntariamente dos moribundos”, afirmou.

O temor do “contágio” pela morte explica a solidão e a frieza das unidades de terapia intensiva, onde, muitas vezes, os doentes terminais morrem sem a possibilidade de dizer uma última palavra aos que amam e sem ninguém que lhes ofereça conforto espiritual. Claro que morrer assim dá muito medo. Estabelece-se aí um círculo vicioso: temos pânico da morte porque ela parece horrível e a tornamos mais horrível do que poderia ser porque nos afastamos dela – e de quem morre.


 
Processo natural

No início dos anos 70, iniciou-se um movimento de humanização da medicina, principalmente no campo do atendimento aos pacientes terminais. A enfermeira britânica Cicely Saunders inovou ao propor um atendimento multiprofissional aos portadores de câncer avançado, em locais chamados hospices. Nesses abrigos, o doente conta com os cuidados médicos e com a proximidade da família. Da equipe multiprofissional fazem parte também psicólogos e sacerdotes de diferentes religiões, prontos a oferecer assistência psicológica e espiritual. O “movimento hospice” incentivou a criação das unidades de cuidados paliativos, que funcionam ligadas aos hospitais, e do home care, o atendimento domiciliar a pacientes terminais.

No Brasil, o pioneiro na divulgação dos cuidados paliativos foi o médico Marco Tullio de Assis Figueiredo, professor da Universidade Federal de São Paulo. Além de ter criado dois cursos voltados aos estudantes da área de saúde – um sobre tanatologia (o estudo da morte) e outro sobre cuidados paliativos –, ele implantou uma Unidade de Cuidados Paliativos no Hospital São Paulo. “Os estudantes de medicina, em geral, nada aprendem, em seus cursos, sobre a morte”, diz ele. “Por isso, vemos médicos tentando manter a vida do paciente a qualquer preço, mesmo que isso implique mais sofrimento para o doente.” Tal prática é conhecida como distanásia, conceito que significa a tentativa de adiar a morte o máximo possível e de conseguir uma sobrevida sem qualquer qualidade.

Num esforço para reaproximar o tema do cotidiano de crianças, adolescentes, adultos e idosos, a equipe do Laboratório de Estudos sobre a Morte, da USP, preparou uma trilogia de vídeos chamada Falando de Morte. Cada episódio é dedicado a uma fase da vida. E a morte é vista como uma delas. O objetivo é estimular discussões sobre o assunto na escola, na família, nos hospitais. “Falar da morte é transformá-la em aliada, conselheira, em uma presença natural”, afirma Ingrid Esslinger, integrante da equipe.

Na filosofia oriental, existem práticas específicas de preparação para a morte. A principal delas é a meditação, que tem o objetivo de domar a mente, a ansiedade e as emoções negativas sempre – mas especialmente no momento em que a pessoa se aproxima da morte. Uma das imagens utilizadas na meditação para caracterizar os instantes finais da existência é a de uma bela atriz sentada em frente ao espelho. O último espetáculo está prestes a começar. Ela retoca a maquiagem e repassa toda a sua fala antes de pisar no palco pela última vez. Está preparada para a apresentação derradeira.

Reconcilie-se com a morte. Não por morbidez, não para se esquecer de viver, não porque seja bom deixar de existir. Mas simplesmente porque ela vai acontecer e não somente com você – mas com todos os que andaram, andam ou venham a andar sobre a Terra. A você e a mim, portanto, resta apenas aprender a conviver com ela. Encará-la de frente, compreendê-la, admiti-la. Em vez de tentar escamoteá-la, negá-la, escondê-la debaixo do tapete. E, quem sabe, assim, sofrer menos com a visita que ela nos fará um dia e com os eventuais sinais da sua presença que ela já tenha plantado ao nosso redor. Desejo uma excelente vida para você, caro leitor. E uma boa morte.
 
Para saber mais

A Arte de Morrer – Marie de Hennezel e Jean-Yves Leloup. Editora Vozes, Petrópolis, 1999

A Solidão dos Moribundos – Nobert Elias. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2001

Da Morte – Roosevelt Cassorla (org.). Papirus Editora, Campinas, 2001

Distanásia – Até Quando Prolongar a Vida? – Leo Pessini. Edições Loyola/Editora do Centro Universitário São Camilo, São Paulo, 2001

Memento Mori – Muriel Spark. Companhia das Letras, São Paulo, 2001

Morrer Não se Improvisa – Bel Cesar. Editora Gaia, São Paulo, 2001

Morte e Desenvolvimento Humano – Maria Júlia Kovácz. Casa do Psicólogo, São Paulo, 1992

O Livro Tibetano do Viver e do Morrer – Sogyal Rinpoche. Editora Talento, São Paulo, 1999

Reflexões sobre a Vida e a Morte – Vera Lúcia Rezende (org.). Editora da Unicamp, Campinas, 2000
Revista Superinteressante

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Morte aos escravos

No Império, a pena capital atingiu majoritariamente negros, pobres, descendentes de escravos e mestiços

João Luiz Ribeiro




Fora as penas de açoites, reservadas aos cativos (aqui no traço da Revista Illustrada), até 1835 o código criminal brasileiro não distinguia homens livres de escravos. (Fundação Biblioteca Nacional)

Compareceu ao tribunal do júri da corte imperial do Rio de Janeiro, em 18 de dezembro de 1851, o escravo José, crioulo (nascido no Brasil), cozinheiro de profissão. Era acusado do homicídio de seu senhor, o armador e capitão do mar José Augusto Cisneiros, em novembro do mesmo ano. Desconsolado, porque o juiz de direito não lhe permitia contar sua versão dos fatos, suspirou: “no meio das galinhas as baratas não têm razão”. Condenado à morte, José foi enforcado em 13 de janeiro de 1852, segundo o modo habitual de execução, conforme descrito pelo missionário Daniel Kidder (1815-1891): “No Brasil não se adota o cadafalso de alçapão. A forca ergue-se sobre três moirões, em forma triangular. A ela se sobe por uma escada e, quando a corda já está ajustada ao pescoço do condenado, este é içado pelo carrasco que, para abreviar a morte, se pendura nos ombros da vítima”.

A fala de José resume o que é ser escravo diante de homens livres encarregados de julgá-los segundo os termos de uma lei feita com a finalidade de regular a imposição da pena de morte a eles. Uma lei, de 10 de junho de 1835, relacionada à Revolta de Carrancas, em Minas, dois anos antes, que tirava do escravo qualquer chance de ter razão.

Com exceção da pena de açoites, reservada aos cativos, nos pontos essenciais, as normas estabelecidas pelo Código Criminal de 1830 e pelo Código do Processo Criminal de 1832 não distinguiam os homens livres dos escravos. Eram todos julgados da mesma maneira: para a sentença de pena última era preciso a unanimidade dos votos; os réus podiam protestar por um segundo julgamento, podiam apelar para os tribunais superiores e impetrar revista no Supremo Tribunal de Justiça. Com a lei de 10 de junho de 1835, tudo mudou. Homens livres e escravos, até então desiguais em vida, tornaram-se desiguais para a morte.

No Brasil imperial, a pena de morte estava intimamente relacionada à escravidão. Pelo código criminal, três eram os crimes capitais: a insurreição de escravos, o homicídio qualificado e o homicídio com roubo. O artigo 1º da lei incluiu novos crimes que deveriam ser punidos com a morte: “matar por qualquer maneira que seja, propinar veneno, ferir gravemente, ou fazer qualquer outra grave ofensa física a seu senhor, sua mulher, a descendentes ou ascendentes, que em sua companhia morarem, ao administrador, feitor e às mulheres que com eles viverem”. O artigo 2º enquadrava na nova lei o crime de insurreição e quaisquer outros que merecessem a pena de morte. Para se condenar à morte, bastariam dois terços dos votos dos jurados e a sentença seria executada sem recurso.

Para que a lei de 10 de junho fosse aplicada, era preciso que o réu fosse escravo; não o sendo, aplicava-se o código criminal. Embora deixasse de compartilhar com os homens livres inúmeros direitos, o escravo continuou a apresentar-se diante de um tribunal de “iguais”. De qualquer modo, tornou-se muito mais fácil condenar um escravo à morte, e muito mais rápido executá-lo.

Além dos escravos, argumentaram os partidários da pena capital, existia no Brasil uma casta de homens em tudo semelhante a eles, e que só poderia ser contida pelo terror salutar da pena última. Referiam-se aos homens livres pobres: descendentes de escravos, mestiços, imigrantes, enfim, à maioria da população brasileira. Além da apelação da parte, criou-se uma apelação ex-officio, feita pelojuiz de direito, também em caso de sentença capital ou de galés perpétuas.

Entre as pessoas livres condenadas à morte no Império, encontramos ladrões assassinos, jagunços mandatários de morte encomendada, maridos ciumentos e esposas adúlteras. Mas, ao contrário do que sucedia com os escravos, entre o tribunal e a forca ainda haveria um longo caminho a percorrer. A maioria dos homens livres condenados à morte no Brasil imperial conseguiu, em novos julgamentos, a redução da sentença, geralmente para a de galés perpétuas.

Condenar à morte é uma coisa, executar a sentença, outra muito diferente. A Constituição de 1824 concedera ao imperador o direito de graça – perdoar ou comutar as sentenças criminais. Em 1829 esse direito foi limitado, dele excluindo os escravos que matassem os senhores A circular reservada de 29 de dezembro de 1853, do poder moderador, acabou com a limitação. O direito de graça dera ao imperador a chave para controlar a política da pena de morte, ou mesmo a política criminal do Estado brasileiro. D. Pedro II, a partir de 1854, comutaria cada vez mais as sentenças de morte, paulatinamente abolindo de fato, embora não de direito, a pena de morte no Brasil.

No período regencial (1831-1840), entre a abdicação de D. Pedro I e a subida ao trono do seu filho, D. Pedro II, foram pouquíssimas as comutações. Durante a regência tivemos o grande tempo das execuções capitais no Brasil, quando ficou mais fácil condenar à morte, e mais rápido executar a sentença. O regente usava o direito de graça com parcimônia para não desagradar as elites que, em última instância, o elegiam. Na província do Rio de Janeiro, por exemplo, carrascos transitavam de uma vila à outra, com a ordem de “execute-se” alcançando-os no caminho de volta à corte. Dois carrascos não foram suficientes. Entre 1833 e junho de 1841, puderam ser constatadas 90 execuções de escravos e 78 ordens de execução, cujo cumprimento ainda não pôde ser comprovado pela pesquisa. Quanto aos homens livres, tivemos, no mesmo período, 14 execuções e 13 ordens de execução a serem comprovadas. Apenas 16 escravos tiveram suas sentenças comutadas.

De 1841 a 1853, o panorama mudou. Os casos menos problemáticos continuaram a ser examinados pelo procurador da coroa, antes de seguirem, por intermédio do ministro da Justiça, para exame do jovem imperador. Os processos que suscitavam controvérsias jurídicas passaram a ser também examinados pela seção de Justiça do Conselho de Estado. Encontramos a execução de 82 escravos e outras 48 ordens de execução. São conhecidas 13 execuções de homens livres e três ordens de execução. De 1842 a fevereiro de 1854, tivemos a comutação das sentenças de morte de 58 escravos e de 27 homens livres.

Foi a partir de meados dos anos 1850 que Pedro II começou a praticar sua política de abolição gradual da pena de morte, em consonância com a política de abolição gradual da escravidão. Primeiramente, em parceria com o ministro da Justiça Eusébio de Queirós, à frente da pasta entre 1848 e 1852, depois, com Nabuco de Araújo, que ocupou o cargo entre 1853 e 1857. Política cautelosa. Ao mesmo tempo em que se tomavam medidas em prol dos escravos condenados à morte, havia um endurecimento em relação aos homens livres, com vistas a combater a impunidade. É na década de 1850 que encontramos o maior número de execuções de homens livres: 23, e mais oito ordens de execução. Quanto aos escravos, 45 foram enforcados e ordenadas outras 12 execuções. Cinquenta e oito cativos e 27 homens livres tiveram a pena de morte comutada em galés perpétuas.

A partir do início dos anos 1860 a pena de morte fica reservada aos escravos. A última execução de um homem livre condenado à morte pela Justiça civil foi a de José Pereira de Souza, no termo de Santa Luzia, no atual estado de Goiás, em 30 de outubro de 1861. Embora nos anos 60 e 70 se continuasse excepcionalmente a mandar enforcar escravos, a orientação de Pedro II era para que os conselheiros de Estado da seção de Justiça buscassem a todo custo argumentos que justificassem a comutação da sentença. Quando não encontrava motivos para comutar, o imperador engavetava o processo por anos a fio. O último enforcamento no Brasil foi o do escravo Francisco, em Pilar das Alagoas, em 28 de abril de 1876. É importante mencionar que Francisco não matara o próprio senhor, mas fora cúmplice de dois outros escravos no homicídio do senhor destes. O número de comutações supera de longe o de execuções: 150 na década de 1860 (131 escravos e 19 homens livres); 183 na década de 1870 (158 escravos e 25 homens livres) e 108 na última década do império (82 escravos e 26 homens livres).

Naquele ano de 1876, Pedro II partiu para a Europa, e lá se encontrou com o escritor francês Victor Hugo (1802-1885), incansável defensor da abolição da escravatura e da pena de morte. Depois que voltou ao Brasil, o imperador passou a comutar todas as sentenças de morte, de homens livres e de escravos.

Pedro II, apesar dos protestos dos escravocratas, não voltou atrás. Nunca mais mandou executar uma sentença de morte, abolindo de fato a pena capital, embora tivéssemos que esperar a República para que de direito ela fosse abolida para crimes civis.

SAIBA MAIS - Bibliografia

ANDRADE, Marcos Ferreira. O outro 13 de maio. Revista de História, Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, Ano 1, n. 2, agosto de 2005.

CARVALHO FILHO, Luis Francisco. “Impunidade no Brasil – Colônia e Império”. Estudos Avançados, São Paulo, v. 18, n. 51, USP, 2004.

FERREIRA, Ricardo Alexandre. Senhores de poucos escravos: cativeiro e criminalidade em um ambiente rural, 1830-1888. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
Revista de História da Biblioteca Nacional

Renascer para a morte

Nem só de luzes viveu a arte renascentista: temas macabros faziam lembrar a fragilidade da vida e condenavam a vaidade

Maria Berbara


Imagem: Museu do Prado
 
A ideia de representar a morte através de um esqueleto segurando uma ampulheta não é, como se poderia pensar, medieval. Essa imagem, assim como a de cadáveres decompostos assombrando vivos, surge no século XIV europeu e se torna frequente nas primeiras décadas do século XVI – na mesma época, portanto, em que Michelangelo realiza as espetaculares pinturas no teto da Capela Sistina, Rafael recria a claridade serena da Escola de Atenas e Leonardo Da Vinci sonha com o protótipo de máquinas voadoras e submarinas.

Um dos maiores mitos construídos em torno do Renascimento é o de que foi um período otimista, alegre e solar, em oposição às “trevas” medievais. Longe disso. A percepção aguda da passagem do tempo herdada da tradição clássica, somada a uma consciência histórica particularmente sensível, povoou a literatura e as artes visuais de imagens tristes, mórbidas ou melancólicas, nas quais a morte e a velhice obscurecem a alegria de uma juventude breve demais.

Em 1527, o imperador Carlos V de Habsburgo, do Sacro Império Romano-Germânico, comanda o saque de Roma. Durante três dias a cidade eterna é atacada, pilhada e selvagemente destruída: edifícios são queimados, obras de arte e livros são extraviados, a guarda suíça é praticamente dizimada. Entre a população civil, calcula-se que se tenham perdido ao menos 6 mil vidas somente nos primeiros dias. Mesmo quando Carlos V ordena o fim do saque, Roma permanece ocupada por soldados por mais oito meses. A abundância de corpos insepultos favorece a erupção de uma epidemia de peste. Alimentos e água limpa tornam-se bens escassos. Desde o surgimento dos primeiros discursos sobre o Renascimento, Roma vinha personificando no imaginário humanista a grandeza da urbe imperial rediviva e o renovado poder vaticano. O saque colocou à prova essas associações, acentuando um sentimento de profunda melancolia. Após 1527, a imagem das ruínas antigas já não evoca tanto o passado clássico, mas sim exprime um sentimento de desolação ante a percepção da vitória definitiva do tempo sobre o homem e todas as suas realizações.

Entre 1538 e 1540, o pintor e humanista português Francisco de Holanda (ca. 1517-1585), então residente em Roma, faz desenhos que reproduzem pinturas, esculturas, monumentos e fortalezas da cidade, compondo o chamado Álbum dos Desenhos das Antigualhas (também conhecido como Álbum do Escorial). Entre esses desenhos, porém, Francisco incluiu o que parece ser uma alegoria da Roma decaída. Concebida como a quintessência alegórica do mundo clássico, a cidade é representada como uma jovem mulher parcialmente nua, usando uma coroa sobre a qual descansa um cenário de ruínas. Seus braços pendem inermes e a mão direita segura um espelho. Ao fundo, aparecem os esplendores de outrora: o coliseu, a coluna trajana, o obelisco vaticano. Na parte inferior do desenho lê-se a frase Non similis sum mihi, isto é, “Não me pareço comigo mesma”, que contrasta dolorosamente a glória do passado com a miséria do presente.

Mesmo antes do saque, a presença da morte já permeava a arte europeia. Uma forte veia de arte macabra percorre diversas regiões até ao menos os anos 1550, vinculada à difusão de estampas anatômicas, nas quais a beleza plástica do cânone antigo e da teoria das proporções está associada à evidência moral da morte. Talvez o livro anatômico mais influente do século XVI tenha sido De humani corporis fabrica (ou simplesmente Fabrica), publicado pela primeira vez em 1543. Obra do médico belga Andrea Vesalius (1514-1564), é composto por uma série de estampas – realizadas, provavelmente, por Stephen van Calcar, discípulo de Ticiano – representando os diferentes sistemas de funcionamento do corpo humano, como o esquelético, o nervoso e o vascular. Naquela que é, talvez, a imagem mais célebre do livro, um magnífico esqueleto apoia melancolicamente o próprio crânio em uma das mãos enquanto, ao modo de um Hamlet, parece monologar pousando a outra mão em um crânio sobre uma tumba onde se lê a inscrição latina: Vivitur ingenio, caetera mortis erunt, ou seja, “O engenho vive, todo o resto é mortal”. Se a morte de todas as coisas é certa, a estampa parece indicar como possível via de superação a realização intelectual, o “engenho”.

Com conotação muito mais sombria, o esqueleto-morte é representado em diversas estampas do mestre alemão Albrecht Dürer (1471-1528). Em uma delas, um jovem casal, belo e bem vestido, conversa serenamente em primeiro plano, enquanto, ao longe, escondida atrás de uma árvore, espreita a morte – representada por um esqueleto erguendo uma ampulheta. O sentido da representação não poderia ser mais claro: memento mori, “lembra-te da morte”. A mensagem funciona como uma advertência moralizante: enquanto nos deleitamos com os prazeres mundanos, a morte se aproxima, e haveremos de ser julgados pelo que fizemos ou deixamos de fazer enquanto tivemos a oportunidade de nos dedicarmos à vida espiritual e à reflexão sobre a morte, em vez das delícias dos sentidos.

Na mesma tradição do memento mori trabalha o discípulo de Dürer, Baldung Grien (ca. 1484-1545), acrescentando, porém, o elemento erótico: em uma de suas mais famosas telas, a morte abraça uma jovem que, coberta apenas por uma leve túnica, chora enquanto se sabe arrastada para o túmulo. Baldung Grien retoma aqui o motivo de A Morte e a Donzela, isto é, o contraste brutal entre o momento de maior florescimento da vida e o aspecto mais repulsivo da morte, representado por um cadáver em avançado estado de putrefação. O fato de, na língua alemã, a morte ser um substantivo masculino – der Tod – sem dúvida contribuiu para a criação dessas obras extraordinárias nas quais o amor, o sexo, o tempo e a morte soam como notas dissonantes, mas complementares, na dramática sinfonia da existência.

A fusão entre o erótico e o necrótico aparece em diversos outros artistas renascentistas, muitas vezes sob a forma da vanitas. Para o historiador de arte Jan Bialostocki, uma das ideias filosóficas mais difundidas universalmente é a de que todos os bens, inclusive (ou sobretudo) a vida, são transitórios. Esta ideia está presente em distintas culturas visuais, e de modo muito forte no Renascimento. Vanitas vanitatum omnia vanitas, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, lê-se no Eclesiastes. A expressão deu origem ao gênero iconográfico vanitas, caracterizado justamente por contrastar a vida e a morte de modo a evidenciar a fragilidade da primeira. Com frequência, a vanitas é uma natureza-morta que reúne, por exemplo, frutas, livros ou objetos científicos e símbolos da transitoriedade da vida, como a vela, a bolha de sabão ou a própria caveira. Em outros casos representa-se uma jovem segurando um espelho, ou então uma pessoa jovem, um velho e uma criança – aludindo às três idades do ser humano, como fizeram, além de Baldung Grien, Ticiano e Giorgione.

O Renascimento, portanto, está longe de ter sido um período de explosivo otimismo, como muitas vezes somos levados a crer por uma construção histórica enraizada no século XIX. Ele não foi uma “nova era” totalmente desvinculada do passado medieval. Nenhum momento histórico está perdido no tempo e no espaço, mas se relaciona de modo orgânico com aquele que o precede. A passagem do tempo, a fragilidade da vida, a inexorabilidade da morte, o fim de todas as coisas e o temor do que nos aguarda quando toda a matéria se tiver convertido ao pó geraram sentimentos que em poucos momentos históricos estiveram mais presentes do que durante o que se convencionou chamar de Renascimento.

Maria Berbara é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e organizadora de Renascimento italiano, ensaios e traduções (Nau Editora, 2010).
Revista de História da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 18 de março de 2013

Notícias História Viva

Túmulos contam histórias de SP por meio de esculturas e desenhos

RENATA MIRANDA

Um palco cinza com uma cortina verde de concreto chama a atenção em meio aos tradicionais crucifixos e mensagens religiosas espalhadas pelos túmulos do cemitério São Paulo, em Pinheiros, zona oeste. Desde meados dos anos 1950, descansam ali, no Mausoléu do Ator, 26 personalidades do meio artístico, entre comediantes, circenses e radialistas que atuaram na capital no início do século 20.
O mausoléu é apenas um entre centenas de túmulos curiosos --seja pelos detalhes incomuns que os ornamentam ou pelas suntuosas esculturas de artistas renomados que os enfeitam--, presentes nos 41 cemitérios públicos e privados da capital. Nos locais, personalidades das histórias paulistana e nacional dividem a atenção com desconhecidos que, às vezes, têm túmulos até mais interessantes que os vizinhos.

A poucos metros de onde estão enterrados os artistas, também no cemitério São Paulo, fica o Mausoléu dos Esportistas Veteranos, onde está o corpo do jogador Arthur Friedenreich, uma das primeiras estrelas do futebol paulista. O túmulo é uma celebração ao esporte e tem, além de desenhos de esportistas, uma escultura de um atleta com os músculos torneados segurando uma espécie de tocha olímpica.
Ilustração Eduardo Medeiros 

A cerca de cinco quilômetros dali, o cemitério da Consolação funciona como um museu a céu aberto, com mais de 300 obras de escultores famosos como Victor Brecheret e Bruno Giorgi.

"As pessoas costumam associar cemitério com morte, mas, se formos observar esses locais pelo lado da cultura, podemos aprender muito sobre a história da cidade", diz o jornalista Douglas Nascimento, editor do site São Paulo Antiga (www.saopauloantiga.com.br ), que investiga casos curiosos da capital.

Foi com esse intuito que o Serviço Funerário do município decidiu organizar visitas monitoradas ao local, onde estão enterrados nomes como Monteiro Lobato e Mário de Andrade. É ali também que está o mausoléu da família Matarazzo, que, com uma série de esculturas, é considerado um dos maiores da América Latina.

O geógrafo e historiador Eduardo Rezende acredita, porém, que ainda falta um programa mais amplo de monitoria que englobe outros cemitérios. "O paulistano deveria fazer mais esse tipo de visita para conhecer a história da cidade", diz Rezende, que pesquisa o assunto há dez anos e já lançou oito livros sobre o tema. "Tem gente que já visitou o Père-Lachaise, em Paris, mas nunca foi até o cemitério do Araçá."

No cemitério da Quarta Parada, na zona leste, um monumento com colunas de estilo romano e uma escultura de leão deitado não chama atenção só pela imponência mas também por sua história. Ali está enterrada uma domadora que morreu em serviço. Seu nome e a data de morte são uma incógnita, já que a placa foi furtada.

Outro túmulo que atrai um grande número de visitantes é o do morador de rua Antonio Bento, mais conhecido como o santo popular Bento do Portão, no cemitério de Santo Amaro, zona sul. Conhecido por realizar milagres, ele tem sua sepultura coberta de placas de agradecimento.

"Hoje em dia quase não temos mais túmulos assim porque, além de custar muito caro, não há mais artistas especializados nesse tipo de escultura", afirma Nascimento, do São Paulo Antiga.

Não são só os enfeites dos túmulos que têm preços altos --as concessões dos terrenos também não são nada baratas. O valor do metro quadrado nos cemitérios Consolação, São Paulo, Araçá e Quarta Parada, que são os públicos mais caros, é R$ 3.662,22, segundo o Serviço Funerário. Assim, um túmulo de cerca de 5 m2 sai por quase R$ 20 mil. O valor pago, no entanto, não garante a manutenção, do espaço, cuja responsabilidade é da família.

SERVIÇO
Cemitério da Consolação. R. da Consolação, 1.660, Consolação, região central. Visitas monitoradas: ter. e sex.: 9h e 14h; agendamento pelo tel. 0/xx/11/3396-3832.
Cemitério da Quarta Parada. Av. Salim Farah Maluf, s/nº, Água Rasa, região leste.
Cemitério do Araçá. Av. Dr. Arnaldo, 666, Cerqueira César, região oeste.
Cemitério Santo Amaro. R. Min. Roberto Cardoso Alves, 186, Santo Amaro, região sul.
Cemitério São Paulo. R. Cardeal Arcoverde, 1.217-A, Pinheiros, zona oeste.
Folha de S. Paulo

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A doce vida dos mortos

O Dia de Finados é uma tradição antiquíssima e muito popular no México. O motivo é nobre: trazer parentes falecidos para o convívio familiar

Maria Teresa Toribio Brittes Lemos

Ao contrário do Brasil, onde o carnaval é a maior festa popular, com milhares de pessoas entregues à folia por três dias consecutivos, no México, a maior mobilização festiva e popular ocorre no Dia dos Mortos. Na realidade, geralmente as festividades acontecem em vários dias, entre 31 de outubro e 2 de novembro, e em muitas cidades elas começam já no dia 28 de outubro. Parentes, amigos e convidados festejam o retorno de seus finados com grande variedade de comidas, bebidas, doces e frutas em banquetes espetaculares. De tão importante, o acontecimento foi declarado patrimônio cultural da Humanidade pela Unesco.

A ideia de que a morte é uma continuidade da vida era comum na cultura mesoamericana, do México antigo. A morte era considerada uma transição da vida para outro mundo ou para um espaço, ou mesmo uma nova dimensão, que imaginavam existir para essa finalidade. As origens dessas cerimônias são antigas e remontam a 3.000 anos antes da era cristã. Nas festas rituais, era costume colocarem crânios nos altares erguidos, representando os ancestrais. Desde o século I, os cristãos rezavam pelas almas e visitavam os cemitérios. Já no século V, a Igreja Católica dedicou um dia do ano para rezar por todos os mortos, inclusive os esquecidos pelas famílias. O dia 2 de novembro foi estabelecido no século X, pelo calendário litúrgico cristão, como Dia de Finados.

No México, os povos indígenas realizavam festas e rituais para reverenciar seus mortos. Mas, com a colonização espanhola, novas práticas culturais foram introduzidas e mescladas à cultura nativa para celebrar os antepassados. Rezas e cânticos se misturavam em festas, revestidos de um caráter ao mesmo tempo sagrado e profano.

Antes da chegada dos espanhóis, os indígenas homenageavam seus mortos durante todo o mês de agosto, que corresponde ao nono mês do calendário solar asteca. Na época, as festividades eram presididas pela deusa Mictecacíhuatl, como era chamada a Deusa da Morte dos astecas.

Depois, mesmo com a presença do cristianismo, algumas tradições foram mantidas, como o tempo das festas, que podem durar vários dias. A comemoração do Dia dos Mortos atrai a população tanto das áreas urbanas como das rurais, além de despertar o interesse de grande número de pessoas de vários países.

Nessas festas, as famílias costumam oferecer banquetes com muita fartura para as almas dos mortos, como retribuição por tudo que os antepassados fizeram para eles. Isso é possível porque as festas acontecem em um período de muita prosperidade: no calendário agrícola, outubro e novembro correspondem ao início das colheitas dos produtos semeados na primavera.

Na população de origem indígena – os choles – do estado de Oaxaca, região meridional do México, as festividades começam todos os anos no dia 25 de outubro e se estendem até 5 de novembro. Esse período corresponde à longa jornada realizada pelas almas para se aproximarem de seus familiares. Os choles precisam desse tempo para festejar seus mortos, pois as almas, em geral, estão “muito ocupadas”, já que esta população mescla suas atividades sagradas com as profanas. Por esse motivo, eles sempre estão ocupados com seus afazeres da vida cotidiana, especialmente com as atividades agrícolas.

Já no estado de Veracruz, camponeses e indígenas comemoram o retorno das almas a partir de 18 de outubro, dia de São Lucas, para receber os que sofreram morte violenta, por assassinato ou acidente. Os rituais começam no dia 31 de outubro, quando chegam as almas das crianças, consideradas anjinhos. No dia seguinte, 1º de novembro, é a vez dos espíritos dos adultos. Após festejarem o reencontro com os familiares vivos, as almas regressam ao Reino dos Mortos, para repetir no ano seguinte o mesmo trajeto.

Cada família se preocupa em reproduzir os rituais de acordo com as narrativas feitas pelos mais velhos. Todos os detalhes são observados: arrumação das casas, limpeza dos cemitérios, decoração das igrejas, ruas, praças e outros lugares públicos, variedade de comidas e bebidas, além da compra de roupas e sapatos novos para os mortos. Trabalhando coletivamente, pretendem manter a coesão do grupo e asseguram sua continuidade, evitando que aquelas práticas e representações culturais se percam no esquecimento.

Altares adornados com bandeirinhas de papel de seda são erguidos nas casas, igrejas, praças e edifícios públicos. Os retratos das pessoas mortas são rodeados de flores amarelas chamadas cempasúchitl – espécie conhecida como a flor dos mortos. Os mexicanos acreditam que as cores vivas dessas plantas ajudam os defuntos a encontrar o caminho de volta para casa.

As almas retornam à Terra por um caminho coberto de pétalas que formam um grande tapete amarelo, cercado por velas acesas colocadas em pequenos vasos ou copos, indicando a direção de suas casas. Percorrem a trilha iluminada – os senderos luminosos – e chegam às antigas residências para desfrutar as oferendas com suas famílias e seus amigos. Vivos e mortos se unem para matar as saudades, ficar juntos e aproveitar aquele momento mágico do encontro entre a vida e a morte, onde terminam os limites que separam o mundo dos vivos e o dos mortos. Por isso, é preciso deixar os mortos informados do endereço certo do seu destino. Quando se mudam da comunidade, os integrantes de uma família vão ao cemitério para comunicar a nova residência. Quando se casam, os noivos agem do mesmo modo para informar o novo endereço aos antepassados mortos. As almas não podem errar o caminho do eterno retorno.

Na mesa da sala, no salão dos edifícios e nas igrejas são colocados caixões com esqueletos de plástico, vestidos com os trajes e sapatos novos e adornados com flores amarelas, representando os mortos festejados. Muitas vezes, os esqueletos têm certos objetos que lembram a profissão dos mortos, como guitarras ou outros instrumentos musicais, e também chapéus e ponchos como os que eram usados quando viviam. Ao lado do caixão são dispostas vasilhas com comidas, bebidas, frutas, doces, molhos e cigarros para agradar às almas.

Nos dias que antecedem as festas, homens, mulheres e crianças iniciam os rituais de celebração. Nas matas, cortam troncos de árvore para construir os altares que serão erguidos na entrada das comunidades, das igrejas ou de edifícios públicos. Muitas famílias passam a noite junto aos túmulos dos parentes. Ali, conversam, bebem e comem, brigam e namoram. É o espaço sagrado dos mortos preenchido pelo profano da vida cotidiana. Nas casas, os moradores seguem o mesmo ritual, erguendo altares e enfeitando tudo.

As culturas antigas acreditavam que, após a morte, o corpo e a alma continuavam a viver e que poderiam retornar aos lugares onde tinham vivido. Os mortos eram tratados como se ainda estivessem próximos dos familiares. De modo contraditório, muitas vezes as almas inspiravam medo e, ao mesmo tempo, tranquilidade. Os povos antigos receavam que os mortos sem sepultura, ou os que morreram de modo violento, viessem perturbar, como fantasmas, a sociedade dos vivos. Por isso realizavam rituais, com cânticos e oferendas.

Atualmente, durante os rituais do Dia dos Mortos, percebe-se a forte presença de outras manifestações culturais. Aos rituais tradicionais foram incorporados elementos próprios das festas do Dia das Bruxas – o Halloween, originário dos hatitantes das Gálias e das ilhas da Grã-Bretanha, entre os anos 600 a.C e 800 d.C. –, como fantasias de bruxa, chapéus pontudos, unhas grandes ou garras, máscaras imitando monstros e os doces em forma de caveira. Sem dúvida, essas alterações foram provocadas pelo fenômeno da globalização. No entanto, pesquisas recentes apontam permanências culturais da Espanha antiga, introduzidas pelos celtas na Península Ibérica.

Os novos elementos celtas e ibéricos se mesclam às bandeirinhas de papel de seda, às flores amarelas, às oferendas e aos rituais das festas mexicanas. Em mutação permanente, o processo de apropriação cultural jamais é definitivamente concluído. As almas agradecem.

Maria Teresa Toribio Brittes Lemos é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora de América Latina: Identidades em Construção – das sociedades tradicionais à globalização (7Letras, 2008).

Saiba Mais - Bibliografia

DELUMEAU, Jean. O que sobrou do Paraíso. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SÁNCHEZ, Jorge Arguello. Dia dos Mortos. México: Aragon, 2007.
SOUSTELLE, Jacques. A vida cotidiana dos astecas às vésperas da conquista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1972
.Revista de História da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Basquete Maia


Disputado durante três milênios pelas civilizações mesoamericanas, o juego de pelota é um dos esportes mais antigos e radicais do mundo. Perder significava ser sacrificado num ritual em que a morte perpetuava a vida.


Por Fabíola Musarra
O México que acabou de sediar os Jogos Pan-Americanos, em Guadalajara, é o berço de uma das mais antigas competições do mundo: o jogo da pelota, uma intrigante disputa na qual o vencido era sacrificado. Sua origem remonta a 1.400 a.C. Vestimentas, pinturas, bolas de látex e canchas descobertas por arqueólogos revelam que o jogo era disputado pelos olmecas, zapotecas, maias, astecas, toltecas e outras civilizações que habitaram a Mesoamérica pré-colombiana, do México até a Costa Rica.

Ao longo de três mil anos, o juego de pelota manteve conotações religiosas e rituais. “As evidências indicam que, ao término da partida, o capitão da equipe perdedora era ritualmente sacrificado”, diz Michael Coe, professor de antropologia da Universidade de Yale (EUA) e autor do best-seller The Maya. Coe baseia-se nas pinturas e esculturas de ruínas mexicanas como Yaxchilan, El Tajín e Chichén Itzá que retratam os sacrifícios. “Talvez o governante de uma cidade, ao ser capturado, fosse obrigado a disputar o jogo, no qual sua vida só seria poupada se vencesse o time adversário.”

O anel de pedra no alto da cancha de Chichén Itzá era a “cesta” do jogo.
As regras variavam de acordo com o período histórico, o lugar e a civilização. Em linhas gerais, a competição era disputada entre duas equipes, de um a sete jogadores. Os times se enfrentavam em um campo em forma de I ou T, medindo aproximadamente 37 m por 9 m, com paredes laterais inclinadas. No centro havia dois anéis redondos (ou armações quadradas), um em frente ao outro, com um buraco de 20 cm de diâmetro, por onde os jogadores tentavam passar uma bola de látex maciça de 10 cm de diâmetro. “Entre os maias parecia uma forma de basquete”, diz Coe. Nas extremidades das canchas havia “arquibancadas” onde o público assistia ao jogo.
O detalhe é que, diferentemente do basquete, o uso das mãos era proibido. Para manter a bola em movimento e quicando, e arremessá-la para a “cesta”, os jogadores empregavam as costas, as nádegas, os antebraços e os ombros. Como a pelota era pesada e veloz, usavam proteções na cintura e nos joelhos (“joelheiras”). Muitas cestas eram feitas por “bundadas” certeiras.



Pintura em vaso maia do ano 650 mostra o jogo em andamento. O jogador à esquerda ajoelhou-se para golpear a bola (em preto) com as cadeiras. Todos usavam cangas e joelheiras protetoras.

Quanto aos critérios da vitória, ainda hoje são desconhecidos, pois os marcadores de pedra nas laterais só apareceram, arqueologicamente, depois de 800 d.C. Um dos raros relatos sobre o placar é a descrição de um jogo maia em Chichén Itzá pelo bispo espanhol de Iucatã, Diego de Landa Calderón (1524- 1579), autor de Relación de las Cosas de Yucatán. Segundo a narrativa, quando uma equipe acertou a bola através do círculo, a partida acabou. Uma versão light do jogo, chamadaulama, ainda é jogada – sem sacrifícios humanos – no Estado de Sinaloa, no noroeste do país.

A cancha de Monte Albán foi feita pelos zapotecas. No detalhe, o disco de Chinkultik, do ano 591, mostra um jogador, com penas na cabeça, golpeando a bola com as cadeiras.
Honra e sacrifício
“O jogo da pelota era o ritual religioso mais importante dos astecas e maias”, afirma a antropóloga Maria Ângela Barbato Carneiro, da PUC-SP. De acordo com Maria Ângela, os marcadores ficavam presos ao lado da figura de um ídolo. O campo era, portanto, um local de sacrifício e de ressurreição. O jogador que “encestasse” a bola no marcador era premiado com um convite para frequentar a casa dos dirigentes, conquistando riqueza e prestígio. A equipe vencedora ganhava o direito de se apossar de todos os objetos que conseguisse da plateia. Quanto ao capitão do time derrotado, era honrado com a morte.

É difícil compreender todo o significado do jogo. Para que disputar uma partida para ser sacrificado? A sociedade contemporânea considera essa lógica inaceitável. Para a civilização pré-hispânica, porém, a morte por sacrifício perpetuava a vida. O arqueólogo francês Michel Graulich, diretor de estudos religiosos na Escola de Altos Estudos de Paris, explica que na concepção de vida e morte maia todos deviam e pagavam aos deuses com autossacrifício ou com sangue.
“O sacrifício era praticado como oferenda aos deuses, na tentativa de amenizar a fúria de fenômenos cósmicos, como secas e inundações. Seu propósito era manter o equilíbrio do universo”, diz Graulich. O México abriga mais de 1,5 mil campos do jogo da pelota. Eles são testemunhas da complexidade das civilizações précolombianas da América Central.
Revista Planeta

domingo, 1 de abril de 2012

Códigos do além



Em um cemitério, salvo alguns corpos, nada está ali por acaso. Cada família povoa o túmulo de sinais religiosos, profissionais, familiares e pessoais. Conheça o significado dos símbolos das sepulturas

Emiliano Urbim, Gabriel Gianordoli, Juliana Cunha e Pedro de Kastro

1. Material
Antes, o chique era mármore de Carrara. Cada vez mais raro e mais caro, foi trocado por mármore comum, granito ou bronze. Isso fez com que as partes mais antigas do cemitério ficassem brancas, enquanto as partes mais recentes são escuras.

2. Pietà
A escultura de Michelangelo é hit da arte tumular. Representa um desejo de que a alma seja bem recebida.

3. Anjo que aponta
Se a mão (geralmente, a direita) indica o céu, a família apostou que o falecido iria para o paraíso sem escalas.

4. Anjo pensativo
Se o anjo está pensativo, com a mão no queixo, está refletindo sobre a vida do falecido. É sinal de que a família não tinha tanta certeza da sua absolvição.

5. Guirlanda
Não, o morto não partiu no Natal. Significa o triunfo da vida sobre a morte, pois as folhas do enfeite nunca perderiam o verde.

6. Pata do felino
Comum no túmulo de patriarcas, lembra que eles eram responsáveis pelo sustento do seu clã, que agora vai precisar de um novo "rei leão" para manter o status.

7. Epitáfio
Esse é decidido antes da morte mesmo: tem quem aproveite para se despedir, tem quem use frases de efeito, enquanto outros mandam mensagens de amor eterno.

8. Túmulo raso
O sepultura mais comum atualmente. A ausência de símbolos também tem uma mensagem: todos são iguais após a morte, estão no mesmo nível.

9. Coluna Quebrada
O que muitos supõem ser fruto de vandalismo na verdade mostra que ali jaz o último membro de uma família tradicional.

10. Escada
Em geral, a escada começa com degraus finos, que ficam largos e em seguida finos. Significa que a vida do morto foi de altos e baixos.

11. Tochas
Quando estão com a chama para baixo, representam a vida que passa. Quando acesas, indicam que a pessoa morreu cedo demais, com a "chama da juventude" ainda acesa.
Fonte Eduardo Rezende, presidente da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais.
Revista Superinteressante

sábado, 31 de março de 2012

O imperador canibal


Para os inimigos de Jean-BédelBokassa, prisão era refresco. Muitos deles foram parar no freezer do ditador.

Álvaro Oppermann

Em 1979, tropas francesas invadiram a capital da República Centro-Africana, Bangui, e derrubaram o ditador local. Essa notícia tinha tudo para passar em branco, mas virou manchete internacional. Afinal, o ditador derrubado era Jean-Bédel Bokassa, uma das figuras mais extravagantes, ridículas e sinistras que já apareceram na mídia.
Bokassa nasceu numa pequena tribo em 1921. Seu nome queria dizer “pequena floresta”. Foi educado por missionários católicos. Depois, virou soldado e acabou condecorado como herói por ter lutado ao lado das forças francesas na 2a Guerra. Quando o seu país – ex-colônia francesa – ficou independente, em 1960, já era capitão. Primo do presidente, virou general em um pulo. Mas Bokassa queria mais. Em 1966, com a economia do país em frangalhos, depôs o primo e assumiu o poder. Rasgou a Constituição. Em 1972, declarou-se presidente vitalício. A tortura era generalizada no país. Os inimigos de Bokassa desapareciam misteriosamente. Enquanto o país empobrecia, Bokassa mandava construir palácios para si mesmo. A França, contudo, lhe dava apoio. Jean-Bédel era amigo do então presidente francês Valéry Giscard D’Estaing. Em 1976, ele se autoproclamou imperador Bokassa 1º e mudou o nome do país para Império Centro-Africano. A bizarrice da coroação fez a festa dos fotógrafos. A cerimônia custou US$ 30 milhões aos cofres públicos. O luxo fajuto – com direito a um trono em forma de águia dourada – parecia saído de um desfile carnavalesco.
O mundo não reconheceu o “império”, que caiu na miséria absoluta. Em 1979, num protesto de estudantes contra o governo numa escola primária, a guarda imperial metralhou 100 crianças. Foi demais. A França decidiu se desvencilhar do incômodo amigo e mandou as tais tropas acabar com a farra. Quando elas invadiram o palácio, descobriu-se o paradeiro dos desafetos do regime: o freezer de Bokassa. Em 1990, o mundo soube detalhes do horror: o cineasta alemão Werner Herzog rodou o documentário Ecos de um Império Sombrio, que mostrava os sinistros freezers do palácio, além do zôo particular do ditador. Ali, havia piscinas para crocodilos. Segundo um empregado, muitos inimigos de Jean-Bédel serviram de alimento aos bichões.

Grandes momentos
• Até hoje, antigos correligionários de Bokassa dizem que os corpos encontrados no freezer do palácio foram “plantados” pelas tropas francesas.
• Bokassa teve 17 esposas e 50 filhos.
• O julgamento de Bokassa acabou em pizza. Primeiro, foi condenado à morte. A pena foi comutada para prisão perpétua; depois, acabou sendo reduzida para 20 anos de encarceramento. Em 1993, o ex-ditador foi anistiado.
• Quando saiu às ruas, em 1993, foi recebido como herói pela população.
• Bokassa dizia ser o 13º apóstolo de Jesus Cristo.
Revista Superinteressante

A indústria da morte


Chegada de judeus a um campo de concentração nazista



Símbolo da crueldade nazista, o campo de concentração onde 1,1 milhão de pessoas perderam a vida revela como as atrocidades foram o resultado de um trabalho planejado, disciplinado e eficiente.
Celso Miranda

Matar um inimigo é fácil. Basta disposição, oportunidade e alguma força. Matar milhares de inimigos dá mais trabalho. Requer poder e, não raro, uma guerra. Agora, matar milhões de pessoas, eliminar populações inteiras e varrer do mapa comunidades não é para qualquer um. Requer um arraigado sentimento de superioridade, doses cavalares de fundamentalismo, e consentimento popular. E, do ponto de vista puramente lo­gís­tico, um grande esforço de organização, pla­nejamento minucioso e disciplina. É pre­ciso ter uma máquina extremamente eficiente em mãos.
Poucas vezes na história, talvez nunca antes nem depois, um governo se sentiu tão à vontade para executar a terceira situação descrita acima quanto os nazistas na Alemanha, Áustria, Romênia, Iugoslávia, Itália, França, Bélgica, Holanda, Bulgária, Hungria, Letônia, Lituânia, Ucrânia, Bielo-Rússia e Checoslováquia, mas, principalmente na Polônia. Nesses países, os seguidores de Hitler colocaram em prática um projeto inédito de limpeza étnica que levou a deportações, evacuações em massa, expurgos, migrações forçadas, prisões e, por fim, ao extermínio planejado de quase 6 milhões de pessoas. O modelo ultimado dessa máquina de extermínio só ficou pronto com os campos construídos e operados durante a guerra na Polônia. Entre eles, o maior, localizado em Auschwitz, no sul do país. Lá, entre maio de 1940 e janeiro de 1945, cerca de 1,1 milhão de pessoas morreram. A maioria era de judeus, mas havia prisioneiros de guerra soviéticos, dissidentes políticos poloneses, ciganos e testemunhas-de-jeová. Esta reportagem não vai explicar o porquê de toda essa gente ter sido morta. Isso tem rendido nos últimos 60 anos especulações e estudos profundos da alma e da política do nazismo e da Alemanha. Nosso esforço vai se concentrar em explicar como os nazistas planejaram e operaram a maior indústria de extermínio de todos os tempos. Que inteligência esteve por trás dessa máquina de assassínio em massa? Que ideologia a justificou? E quem foi quem no sistema: militares, empresários, cientistas, arquitetos, políticos, juristas, carcereiros e burocratas.
Raízes do mal
No final de abril de 1940, uma comitiva militar de 6 veículos cruzou a região da Alta Silésia, no sul da Polônia. As estradas poeirentas tornavam a viagem difícil e o avanço lento. A paisagem se limitava a extensos trechos de florestas e campos sem cultivo. Por duas horas, nenhum vilarejo foi visto. No segundo carro do cortejo estava Rudolf Hoss, um proeminente capitão da SS, a temida tropa de choque nazista. O local que eles procuravam aparecia nos velhos mapas como um conjunto de galpões construídos pelo Império Austro-Húngaro durante a 1ª Guerra Mundial, todos de madeira, a maioria em péssimo estado. No mapa da nova Europa que os nazistas desenhavam, porém, o nome daquele lugar no meio do nada ganharia destaque e ficaria para sempre marcado na história.
Seis meses antes, a Alemanha tinha invadido a Polônia e iniciado a 2ª Guerra. Agora os nazistas colocavam em marcha o plano de utilizar o número crescente de prisioneiros de guerra nas fábricas e indústrias alemãs, onde seriam explorados como mão-de-obra escrava. Hoss tinha uma missão e tanto pela frente: “Precisava criar um campo que pudesse abrigar 10 000 pessoas, antes da chegada do inverno”, escreveu. Em apenas 20 dias chegariam os 728 primeiros prisioneiros de Auschwitz: todos homens poloneses, fortes e saudáveis, acusados de resistência. Entraram pelo portão da frente, onde Hoss mandara escrever: Arbeit macht frei (ou “O trabalho liberta”). A frase, que cheira como um apfelstrudel de sarcasmo, revela a prioridade dos nazistas naqueles primeiros tempos da guerra: conquistar territórios para a Grande Alemanha e transformá-los, rapidamente, em mais um pistão da azeitada indústria de guerra. Apenas 3 meses após sua inauguração, já havia 8 000 pessoas no local.
Localizado a 30 km de um conjunto de minas com algumas das melhores jazidas de carvão da Europa, o campo de Auschwitz também chamou a atenção de um grande grupo industrial químico alemão, a IG Farben, que apresentou ao governo nazista um plano para instalar ali uma fábrica de borracha e combustíveis sintéticos. Os empresários fariam enormes investimentos na região. Em troca, pediam a garantia de mão-de-obra abundante. E barata.
A idéia ganhou de cara um apoio de peso: o marechal Heinrich Himmler, comandante supremo da SS, um dos homens fortes do Reich. Segundo o historiador Christopher Browning, da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, longe de ser uma iniciativa isolada, a construção de campos como Auschwitz – que Himmler chamava de colônia-modelo – estava intimamente ligada aos planos de expansão da Alemanha, revelando dois dos principais temas que qualquer nazista recitaria de cor: o lebensraum (ou “espaço vital”) e a superioridade racial.
Aqui, talvez seja necessário um parêntese. Para os nazistas, o lebensraum era o espaço necessário para a expansão territorial e a prosperidade do povo alemão. O plano incluía a reintegração de todos os povos germânicos – inclusive os do Brasil. A idéia desse Shangri-lá nazista no leste desemboca na segunda máxima do rosário nazista: a questão racial. Já que era no lebensraum que os nazistas prometiam a reunificação da raça ariana, representada pelas populações de origem germânica, ficavam de fora eslavos, judeus, ciganos. “As teorias de supremacia racial não eram novas, nem exclusivas da política nazista nos anos 30. A novidade é que, com o início da guerra, os alemães sentiram-se à vontade para pôr em prática seus planos de limpeza étnica e racial”, diz Browning. Fecha parêntese.
Himmler esteve em Auschwitz pela primeira vez em março de 1941. Numa reunião secreta, ele anunciou seu desejo: que a capacidade do campo pulasse para 30 000, o que faria de Auschwitz o maior dos campos de prisioneiros. Esses planos de ampliação só foram descobertos recentemente, após a morte do arquiteto alemão Fritz Ertl, que tinha guardado reproduções do projeto. Pelas plantas, é possível ver que o novo complexo previa até dormitórios para oficiais da SS. Himmler tinha ali seus próprios aposentos, para os quais cada móvel, dos aparadores às poltronas, das mesas de trabalho aos enfeites na parede, foi desenhado com exclusividade.
Enquanto isso, os prisioneiros trabalhavam duro, cavando fossas, fabricando tijolos, construindo prédios, abrindo estradas, colocando trilhos, carregando e descarregando trens. E, apesar do foco no trabalho – como se diria hoje em dia –, Auschwitz já demostrava outra vocação: mais da metade dos 23 000 prisioneiros enviados no primeiro ano para o campo morreu antes de completar 20 meses na prisão, abatida pela fome, exaustão e maus-tratos.
Aniquilação
Em maio de 1941, as tropas alemãs invadiram a URSS. Em 4 semanas de combates, foram feitos 3 milhões de prisioneiros – 2 milhões morreriam antes de 9 meses na prisão. Segundo o historiador britânico Robert Gellately, autor de The Specter of Genocide (“O Espectro do Genocídio”, inédito no Brasil), a invasão da URSS alterou os rumos da guerra no leste, iniciando a guerra de aniquilação, ou vernichtungskrieg, termo utilizado por Hitler para explicar que o objetivo alemão seria destruir completamente o Estado comunista. Para os nazistas, a aniquilação dos soviéticos era justificável: primeiro por causa das crenças racistas, que viam na mistura do comunismo com o judaismo a pior raça possível – eram numerosas as comunidades judaicas na URSS. Depois, do ponto de vista prático e logístico, o desfecho das vitórias que fatalmente aconteceriam elevaria sobremaneira a quantidade de prisioneiros sob os cuidados da Alemanha, tornando-se inviável garantir sua sobrevivência.
Em 22 de maio de 1941, a comissão econômica do 3º Reich se reuniu para discutir a logística após as primeiras semanas da invasão. As atas desse encontro foram encontradas em Berlim após a guerra e permaneceram durante muito tempo secretas. Recentemente foram publicadas pelo historiador americano Richard Overy, no livro Russia’s War (“A Guerra da Rússia”, sem tradução em português). “Se quisermos avançar em território soviético, temos que reduzir o consumo de alimentos e de energia das populações locais”, diz um trecho do relatório. Mais adiante, o documento conclui: “Nada de falsa piedade. Milhões morrerão de fome”.
A entrada em cena dos prisioneiros soviéticos acelerou os planos de extermínio nos campos. Em julho de 1941, membros do Programa de Eutanásia de Adultos, o Aktion T4, visitaram Auschwitz pela primeira vez. Criado em 1937, o programa de limpeza genética dos nazistas incluía a eliminação de crianças portadoras de deficiências ou com doenças terminais e a esterilização de adultos nessas condições. “Após o início da guerra, o T4 foi levado aos territórios ocupados e a lista passou a incluir adultos que não estivessem aptos para o trabalho”, diz Gellately. Os indesejáveis eram enviados para clínicas como a de Sonnestein e lá conduzidos a salas com falsos chuveiros, cujos canos não estavam ligados à água, mas a cilindros de monóxido de carbono. Cerca de 70 000 pacientes foram assassinados assim, entre 1939 e 1941. Naquele mês de julho, o T4 selecionou 575 prisioneiros de Auschwitz para morrer assim.
“A experiência da T4 na utilização de gás nas execuções foi a resposta para um problema logístico”, diz o historiador Michael Vildt, da Universidade de Hamburgo. Em 1941, os fuzilamentos em massa tornavam-se cada vez mais comuns. Os einsatzgruppen da SS (literalmente “grupos de mobilização”, mas que pode ser traduzido como “operações móveis de assassinato”), circulavam por trás das linhas de combate e perseguiam civis soviéticos e membros das comunidades judaicas da região, contando, muitas vezes, com o apoio de voluntários locais – ucranianos, lituanos, letões, entre outros – para capturar, fuzilar e enterrar os corpos. Em 15 de agosto daquele ano, Himmler assistiu à execução de prisioneiros acusados de incitar uma revolta contra os alemães em Minsk, na Bielo-Rússia. Em seus diários, encontrados em 1998 nos arquivos da extinta KGB, Himmler relatou que as vítimas chegaram em caminhões a um campo onde havia valas já abertas. Ao ver as covas, alguns presos tentaram correr e foram baleados, 1, 2, às vezes 3 vezes. “Enorme esforço para fuzilar apenas 100 pessoas”, anotou o líder da SS. Após o “esforço”, o general Erich von dem Bach Zelewski teria dito a Himmler que havia mais um inconveniente: o efeito negativo sobre os soldados. O rito sumário, a morte de crianças, velhos e mulheres civis, estaria abalando o moral dos seus homens.
“Himmler saiu dali convencido de que era preciso arrumar uma maneira melhor de matar”, afirma Vildt. “Tanto que incumbiu Albert Widman, tenente da polícia técnica e científica da SS, um veterano do T4 na Alemanha, de adaptar suas experiência com monóxido de carbono aos campos de prisioneiros.” Em junho, Widman havia questionando a viabilidade de deslocar cilindros do gás para locais de execução fora da Alemanha. Diante disso, ele sugeria um novo tipo de câmara de gás volante – caminhões fechados que tinham o cano de descarga voltado para o interior do veículo. Na mesma época, em Auschwitz, Karl Fritzch, tenente da SS e vice de Rudolf Hoss no comando do campo, fazia suas próprias experiências. Segundo Hoss, foi durante uma viagem dele a Berlim, que Fritzch teria tido a idéia de usar ácido cianídrico para eliminar os prisioneiros. Na época, uma marca popular desse produto era comercializada com o nome de Zyklon B (“ciclone”, em português) e ele estava fartamente disponível em Auschwitz, onde era usado para combater as constantes infestações de piolhos e outros insetos – o veneno tinha a vantagem de ser altamente tóxico e invariavelmente letal. Fritzch escolheu o bloco 11 para seu primeiro teste com Zyklon B. Numa noite entre o fim de agosto e o início de setembro de 1941, portas e janelas do galpão foram vedadas e os guardas da SS receberam máscaras de proteção. Cerca de 160 prisioneiros foram colocados nas celas do porão e o Zyklon, espalhado pelo local. Na manhã seguinte, muitos continuavam vivos. A dose teve de ser repetida até que todos morressem. Hoss admitiu “Essa história do gás me tranqüilizou. Sempre tive horror das execuções com pelotões de fuzilamento. Fiquei aliviado ao pensar que seríamos poupados daqueles banhos de sangue”.
No final daquele ano, Auschwitz havia ficado pequeno para tanta atividade, e o engenheiro Karl Bischoff foi incumbido de desenhar o projeto que praticamente criaria um novo campo, a 3 km do anterior. O local escolhido fora ocupado por uma pequena aldeia que os poloneses chamavam de Brzezinka, mas ficaria famoso pelo nome em alemão: Birkenau. O projeto previa 100 000 prisioneiros e estrutura de uma pequena cidade. Diferentemente do antigo Auschwitz, de onde a maioria das plantas e projetos desapareceram, o desenho original de Birkenau foi localizado entre os documentos secretos da antiga URSS, em 1990. Ele revela que, desde o início, o local foi desenhado para abrigar os prisioneiros em condições repugnantes. Não havia água encanada ou assoalho nos barracões. Adaptados dos antigos campos da Alemanha, onde cada preso tinha seu catre, os planos de Birkenau previam a colocação de 3 pessoas no mesmo espaço, ou 550 pessoas por barracão. As plantas originais revelam que Bischoff não ficou satisfeito com esses números. Onde se lia “550 por barracão” há uma anotação feita à mão, com o número riscado e trocado por 774. Ou seja, o espaço que nos campos da Alemanha era usado por 1 prisioneiro em Birkenau receberia 4.
Solução final
A invasão da URSS revelou outro aspecto que teria desdobramentos trágicos nos territórios ocupados: o anti-semitismo. A presença de um grande número de comunidades judaicas no país sempre foi apregoada pelos nazistas como prova da conspiração entre bolcheviques e judeus, que teria sido responsável pelos males que assolaram a Alemanha após a 1ª Guerra. “Os judeus começaram a ser sistematicamente perseguidos na Alemanha em 1933, bem antes da guerra. Mas foi nos territórios soviéticos que o anti-semitismo se manifestou numa vertente até então inédita: o extermínio sistemático”, diz Robert Gellately. O britânico Christopher Browning concorda: “O plano nazista para liquidação dos judeus desenvolveu-se por etapas, durante a 2ª metade de 1941, e não era consensual em toda a cúpula nazista. Até a invasão da URSS não se pode afirmar que havia o objetivo de realizar o extermínio”, diz. Segundo ele, o aumento brutal do número de prisioneiros, que superlotou campos e guetos, e a percepção de que a vitória na URSS não seria rápida, fez os nazistas concluir que deportar judeus para o leste consumia homens, armamentos e recursos demais.
Em 31 de julho de 1941, Hermann Goering, um dos homens mais poderosos da cúpula nazista e próximo de Hitler, encomendou ao general Reinhard Heydrich da SS a elaboração de um plano completo de “solução final da questão judaica”, que se tornaria o Protocolo de Wannsee, apresentado à cúpula nazista em Berlim no início de 1942 numa reunião que teve como anfitrião Adolf Eichman, do Ministério Central da Segurança. Antes mesmo do encontro em Wannsee, porém, os primeiros trens de deportação de judeus para os campos de extermínio já haviam partido em 15, 16 e 18 de outubro de 1941, de Viena, Praga e Berlim, respectivamente.
Os superlotados guetos poloneses tornaram-se a primeira escala da viagem de centenas de milhares de judeus rumo aos campos de extermínio. Em janeiro de 1942, os primeiros 2 500 judeus de Lodz foram enviados para Chelmno, um pequeno campo na Polônia, dirigido por Herbert Lange, um dos líderes do Programa de Eutanásia de Adultos. Imediatamente ao chegar, os prisioneiros foram obrigados a se despir e levados até uma casa sem janelas. Atrás deles as portas foram lacradas. Um caminhão encostou junto a uma das laterais do prédio e o escapamento foi conectado a uma rede de canos que levava o monóxido de carbono para dentro da casa. Depois de algumas horas, a maioria estava morta. Aqueles que resistiram foram fuzilados. Operações semelhantes estavam sendo feitas em diversos campos na Polônia, como em Belzec, por exemplo, onde morreram os judeus do gueto de Lublin.
Em julho de 1942, Himmler anunciou que todos os judeus sob autoridade do Governo Geral – que era como chamavam a Polônia ocupada – deveriam ser evacuados até o fim do ano. Uma meta e tanto, já que havia 2 milhões de judeus na Polônia, 400 000 só no gueto de Varsóvia. O impacto da notícia em Auschwitz foi tamanho que Rudolf Hoss passou a realizar duas e não mais uma reunião semanal. Todas às terças e sextas, pontualmente às 9 horas, ele juntava seu pessoal para discutir a administração do campo, garantir o ritmo das obras em Birkenau e coordenar a chegada dos novos prisioneiros. Num desses encontros foi decidida a construção de novas câmaras de gás. Adaptadas a partir de duas velhas casas, as chamadas “casinha vermelha” e “casinha branca” tornaram-se, na prática, duas caixas de tijolos com portas e janelas lacradas e apenas duas aberturas: uma na frente por onde os prisioneiros entravam caminhando e uma saída na parte de trás, por onde os corpos eram retirados. Outros campos poloneses, como Treblinka, Sobibor e Belzec, tornaram-se genuínas fábricas de morte. Treblinka, o maior deles, ficava a 100 km de Varsóvia e lá 900 000 pessoas foram mortas. Muito menor que Auschwitz, o campo todo tinha apenas apenas uma plataforma de trens, meia dúzia de barracões e um enorme complexo de câmaras de gás, com capacidade para 2 000 pessoas ao mesmo tempo. O comandante de Treblinka, Franz Stangl, mandou plantar flores, pintou as plataformas em tons vivos e colocou placas com os horários de chegada e partida dos trens, como se aquilo fosse uma estação de verdade. Disfarçou as câmaras de gás em salas de banho, para que os prisioneiros permanecessem calmos, sem reclamar, sem tentar fugir ou provocar confusão. A oferta do banho tinha, ainda, um objetivo muito prático (e muito cínico). Nus, os corpos depois de mortos não precisavam ser despidos, o que poupava as roupas para serem reaproveitadas. Entre os prisioneiros enviados para lá, 99% estavam mortos duas horas após desembarcar do trem.
A escalada de mortes causava outro desafio logístico: livrar-se de tantos corpos. Em Auschwitz, no início, eles eram enterrados, mas com o verão o cheiro se tornava insuportável. Em setembro de 1942, Hoss visitou o campo de Chelmno e lá conheceu um método de cremação único e muito eficiente. Ele contou que o coronel Paul Blobel tinha mandado abrir valas de 3 x 3 metros e 4 metros de profundidade. A um metro do fundo, instalava barras de aço transversais. Depois, despejava gasolina no buraco. Sobre as barras ele depositava os corpos intercalando-os com lenha, para que queimassem completamente. As cinzas caiam pelo vão entre as barras, liberando a grelha para que pudesse ser usada novamente. Quando elas atingissem a altura das barras de aço, bastava manejar a estrutura para cima, até que toda a vala ficasse repleta de cinzas. Humanas.
Em março de 1942, embora mais de 1 milhão de judeus já estivessem mortos, cerca de 80% de todos os que morreriam durante a guerra ainda estavam vivos. Durante os 12 meses seguintes, a porcentagem se inverteria. Em maio de 1943, apenas 20% de todos os judeus que morreram no Holocausto ainda estavam vivos.
Apogeu e queda
Os arquitetos alemães estavam trabalhando duro em Auschwitz na 2ª metade de 1942, na construção dos novos crematórios em Birkenau. No projeto inicial, os prédios sob o nível do solo serviriam como necrotérios, para onde os corpos seriam levados e queimados. No entanto, as plantas passaram por consecutivas alterações. O enorme porão foi dividido em salas menores e a rampa entre os porões 1 e 2, por onde desceriam os corpos, deu lugar a uma escada de degraus largos. Algo aparentemente incoe­rente, já que o prédio receberia mais gente morta do que viva. As portas duplas, que abririam para dentro, foram substituídas por uma porta única, abrindo para fora, com vedação reforçada e um visor. No final das alterações, o necrotério havia se transformado numa supercâmara de gás, que matava até 2 000 pessoas em uma hora e garantiria a fama do lugar.
Outro nome para sempre associado a Auschwitz, o médico Josef Mengele, chegou ao campo no início de 1943. Mengele instalou-se no crematório 2, onde mantinha consultório, ambulatório com 8 leitos e laboratório. Ali, ele realizou estudos genéticos – uma obsessão nazista – e fez experiências médicas ligadas à guerra, como com gangrena e queimaduras. Uma de suas atividades prediletas era realizar autópsias simultâneas em gêmeos, algo raríssimo – em que outras circunstâncias dois irmãos gêmeos morrem ao mesmo tempo e no mesmo lugar? No laboratório de Mengele, assim que morria um gêmeo, seu irmão era trazido e assassinado.
Em meados de 1943, Auschwitz atingiu seu tamanho máximo. A estrutura se parecia com uma pequena cidade. Para os soldados da SS, a vida era boa. Havia mercearias, cantinas, cinema, clube esportivo e um teatro com programação regular. A turma promovia festas e bebedeiras. O complexo industrial montado pela IG Farben produzia de armamentos a tinta e faturava US$ 250 milhões ao ano, em valores atualizados. Os cerca de 100 000 prisioneiros ficavam divididos em 45 subcampos. Havia um só para mulheres, com 30 000 prisioneiras. Perto dali ficava o “Canadá”, uma área que recebeu esse nome porque o Canadá era tido como um país rico, próspero e, sobretudo, pacífico. Lá funcionava a triagem da bagagem dos presos: de roupas a relógios, o que pudesse ser reaproveitado era enviado para a Alemanha. Para os prisioneiros, aquele era um dos poucos serviços almejados, pois era onde se vivia melhor.
Havia também prisioneiros que trabalhavam diretamente com os alemães, como alfaiates, barbeiros e garçons. Mas o trabalho sujo sobrava para o sonderkommando (“comando especial”, em português), o grupo de prisioneiros, judeus ou não, que ajudavam os alemães na operação dos assassinatos. Cada conjunto de câmaras e crematório funcionava com 100 prisioneiros e apenas 4 alemães, aos quais cabia somente introduzir os cristais de Zyklon B. Os prisioneiros eram quem recolhia os corpos e os levava a um elevador. Outra turma os recolhia lá em cima e tratava de queimá-los nos fornos ou em grandes valas a céu aberto.
Até o início de 1944, 550 000 pessoas já haviam sido mortas em Auschwitz. A essa altura, os Aliados sabiam o que ocorria lá e nos demais campos poloneses. Os prisioneiros passaram a conviver com a esperança (e com a desilusão) ao verem e ouvirem aviões aliados sobrevoar o complexo. Em agosto, a unidade da IG Farben em Monowitz, a apenas 6 km de Birkenau foi destruída por um ataque britânico. Os prisioneiros se perguntavam por que as linhas de trem ou as câmaras de gás não eram bombardeadas. E essa é uma das grandes questões da guerra que continuam sem resposta.
Com americanos e ingleses pelo ar e o Exército Vermelho pelo chão, o ritmo de mortes em Auschwitz caiu. Se em julho foram 10 000 execuções por dia, nos meses seguintes o número chegou a menos de 1 000. Hoss, então, resolveu eliminar o maior número de prisioneiros possível. No dia 2 de agosto, 21 000 ciganos foram ao crematório 5. Imaginando que seriam os próximos, os sonderkommando se rebelaram – em 7 de outubro. Atacaram os guardas e tentaram fugir, mas foram capturados e só não acabaram todos mortos porque havia 4 000 cadáveres para serem queimados. Para puni-los, Hoss decidiu alinhá-los e fuzilar 1 em cada 3. Sobraram apenas 92.
Em janeiro de 1945, veio a ordem para que se esvaziasse o campo. Documentos, plantas e telegramas foram queimados e crematórios e câmaras de gás, explodidos. Os soviéticos haviam interrompido as linhas e os trens não chegavam mais ao campo. Por isso, os últimos 50 000 prisioneiros que restavam foram obrigados a andar por 35 km, em meio à neve e sob - 20 ºC. Quem parou ou atrasou a marcha foi morto no caminho. O Exército Vermelho chegou a Auschwitz em 27 de janeiro. Não havia muito mais gente a libertar – apenas 1 200 prisioneiros fracos e doentes que haviam sido abandonados. Em 30 de abril, Adolf Hitler se matou num porão de Berlim. Em 5 de maio, a Academia Naval de Murwick, em Flensburg, norte da Alemanha, território ainda controlado pelos nazistas, foi sede da última reunião da SS. Rudolf Hoss esperava que uma derradeira e heróica ação fosse anunciada. Mas o marechal Himmler despediu-se do grupo e recomendou que todos aproveitassem o colapso do 3º Reich para sumirem no meio da multidão. Hoss então trocou sua farda de oficial por um traje comum da Marinha e se misturou a outros marinheiros em Sylt, uma ilha de veraneio sem nenhum valor estratégico. Himmler foi capturado dias depois e se matou engolindo cápsulas de cianeto de potássio.
Com o nome de Franz Lang, Hoss empregou-se numa fazenda em Gottrupel, norte da Alemanha. Acabou denunciado pela esposa, que havia sido presa e estava sob ameaça de deportação para a URSS. Preso enquanto dormia num estábulo, Hoss foi levado ao Tribunal de Nuremberg. O julgamento levou 3 semanas – tempo que aproveitou para escrever suas memórias, de onde as declarações reproduzidas nesta reportagem foram retiradas. A sentença – morte na forca – foi cumprida em 16 de abril de 1947, num pátio quase vazio em Auschwitz.
Mengele escapou para a Itália e com a colaboração das autoridades locais conseguiu passaporte e uma passagem para a Argentina. Viveu no Paraguai e no Brasil, onde morreu, em 1979, incógnito. Adolf Eichmann se escondeu na Argentina até 1960, quando foi seqüestrado por espiões israelenses. Julgado em Tel-Aviv, ele foi condenado e enforcado. Franz Stangl, o eficiente comandante de Treblinka, fugiu para o Brasil, onde trabalhou no almoxarifado da Volkswagen usando o próprio nome, até 1967, quando foi enfim deportado para a Alemanha. Morreu de ataque do coração aguardando o julgamento. Personagens menos importantes, como o tenente Oskar Gronning, que recolhia os bens dos prisioneiros no “Canadá”, também ficaram impunes. Após a guerra, ele empregou-se na área de recursos humanos de uma multinacional . Em 1964, foi nomeado juiz trabalhista, função que exerceu até se aposentar. Nunca foi julgado e vive hoje em Hannover.
Em 1963, os 22 últimos acusados por crimes em Auschwitz foram julgados: 17 saíram condenados, 6 à pena máxima de prisão perpétua. Ao todo, 8 000 homens da SS trabalharam em Auschwitz. Sete mil sobreviveram à guerra. Oitocentos foram julgados. A 90% deles, nunca foi imputado qualquer crime.
Rudolf Hoss
Proeminente capitão da Schutzstaffel, a polícia política de Hitler, mais conhecida pela sigla SS, liderou o campo de prisioneiros de Daschau, na Alemanha, antes de ser nomeado para comandar Auschwitz. Super- dedicado ao trabalho, em suas memórias escreveu que só se arrependia de “não ter podido dedicar mais tempo aos filhos”.
Lebensraum
Elaborado por Konrad Meyer, professor da Universidade de Berlim, o Plano Geral do Leste previa o reassentamento, na região entre a Alemanha e a Rússia, de 10 milhões de alemães espalhados pelo mundo. Para isso, cerca de 31 milhões de pessoas seriam declaradas “racialmente indesejáveis” e enviadas para a Sibéria. E as restantes, usadas como escravas.
Heinrich Himmler
O plano nazista para liquidação dos judeus não era consensual em toda a cúpula nazista, dividida entre o extermínio e a exploração. Comandante supremo da SS, Himmler era um dos expoentes do grupo que defendia o “extermínio pelo trabalho”.
Karl Fritzch
Tenente da SS, era um tipo de vice de Hoss em Auschwitz que assumia o comando quando o chefe estava fora. Numa dessas ausências, foi o primeiro a testar o Zyklon B para envenenar prisioneiros.
Zyklon B
Era comercializado na forma de cristais, que sublimavam em um gás tóxico ao entrarem contato com o ar. Só foi utilizado pela primeira vez por causa da iniciativa de Fritzch. Mas logo cairia nas graças dos nazistas, ao se mostrar o gás capaz de matar mais rápido.
Albert Widman
Membro do programa de eutanásia de adultos, Albert Widman recebeu a missão de adaptar suas experiências com monóxido de carbono aos campos de prisioneiros. Como transportar os cilindros seria caro demais, Widman sugeriu criar caminhões fechados, com o escapamento voltado para dentro do veículo. Mas a idéia não emplacou: o processo era lento demais – e matava apenas 30 prisioneiros por viagem.
Karl Bischoff
Engenheiro aviador e major da SS, foi um dos autores do projeto de expansão de Auschwitz que criou o novo campo de Birkenau. Depois disso, conseguiu se esconder – seu envolvimento com o genocídio só foi descoberto depois de sua morte, em 1950.
Chelmno
Foi o primeiro campo de extermínio a usar gases tóxicos para matar judeus, no final de 1941. Mais tarde, seria também o primeiro a desenvolver fornos crematórios. Quem chegava lá era informado que seria enviado para trabalhar na Alemanha, mas que antes deveria passar por um banho de higienização. Para dar veracidade ao teatro, os soldados da SS se preocupavam em vestir jalecos brancos e se fingir de médicos. No total, 152 000 pessoas foram assassinadas em Chelmno.
Josef Mengele
Médico e cientista, serviu na frente leste, onde recebeu a cruz de ferro por bravura. Em Auschwitz realizou experiências com cobaias humanas, como Eva Mozes Kor, húngara judia, que tinha 9 anos. “Três vezes por semana meu braço era amarrado para restringir o fluxo sanguíneo. Depois eles tiravam meu sangue até eu desmaiar.” A irmã gêmea de Eva, Míriam, não passava pelas mesmas privações, para que os efeitos do “tratamento” pudessem ser comparados.
IG Farben
A indústria química alemã já havia sido a maior do mundo, mas a derrota na 1ª Guerra Mundial deixou-a em situação delicada. Foi aí que Hermann Schmitz teve a idéia – inovadora e óbvia: reunir as maiores empresas do setor em uma grande corporação, a IG Farben. A agenda econômica dos nazistas, um dos aspectos mais populares do regime, previa o fortalecimento das empresas através de grandes conglomerados. O governo garantia bons contratos, restrições à concorrência externa e um controle policial dos sindicatos. Do seu lado, as empresas garantiam aumento da produção e do emprego. A IG Farben aderiu ao esforço de guerra – produziu o pesticida Zyklon B, usado nas câmaras de gás. Ao fim do conflito, durante o esforço americano para normalizar a Europa – que incluiu ocupação militar, apoio financeiro e uma dose de “deixa para lá” – o conglomerado se desfez e as empresas voltaram a utilizar os nomes originais: Bayer, Basf, Hoechst e Agfa.

Morte todo dia
Com mais de 100 000 prisioneiros e a chegada diária de trens lotados, o extermínio no maior campo de concentração nazista atingiu sua capacidade máxima entre novembro de 1942 e o final de 1943. A indústria do assassinato funcionava assim:
1. Triagem
Em primeiro lugar, homens fortes e jovens. Depois, mulheres sem filhos. Quem não tivesse esse perfil, dificilmente sobreviveria ao primeiro dia em Auschwitz. Mães, crianças, velhos, doentes e feridos eram assassinados imediatamente. Quem reagisse era fuzilado na hora. Cerca de 70% dos prisioneiros que chegaram a partir de 1943 acabaram mortos nas câmaras de gás.
2. Esforço
As jornadas eram duras: não menos que 12 horas diárias de trabalho em obras de manutenção e expansão do campo, recuperação de estradas e operação das fábricas da IG Farben. Cada prisioneiro recebia 3 refeições por dia, que limitavam-se a pão, café e sopa de batata, às vezes engrossada com aveia ou farelo de trigo.
3. Contagem
Sem banheiros ou calefação, os prisioneiros dormiam amontoados: em alguns casos, com 5 pessoas por cama. Todos os dias, de manhã e à noite, eram levados para fora dos barracões e contados, fizesse chuva, sol ou neve. Judeus, ciganos, soviéticos e presos políticos não ficavam juntos. Viviam separados e eram mortos separados.
4. Engenharia
Os novos complexos, inaugurados em 1943, já haviam sido construídos prevendo o extermínio em massa. As câmaras de gás ficavam abaixo do nível do solo e tinham uma única abertura no teto, por onde os soldados da SS, protegidos por máscaras especiais, introduziam os cristais de ácido cianídrico.
5. 20 minutos
As aberturas eram conectadas a longas colunas que levavam o gás até o subsolo, onde as câmaras eram totalmente vedadas. A morte chegava em até 10 minutos, mas por garantia os corpos eram removidos apenas uma hora depois. O serviço era feito por prisioneiros dos sonderkommando, em grande carrinhos que pareciam caçambas com rodas.
6. Fornos
Ligados às câmaras, havia 5 fornos a gás que, juntos, podiam destruir 5 000 corpos por dia. As altas temperaturas deixavam poucas cinzas e resíduos, eliminados através da chaminé. Como em alguns momentos os fornos não atendiam à demanda, que chegou a 20 000 mortos por dia, alguns corpos eram queimados em valas abertas ao ar livre.

A solução final
Na manhã de 20 de janeiro de 1942, o general Reinhard Heydrich pousou o próprio avião sobre o lago congelado de Wannsee. O frio de -15 0C havia afastado quase todos os turistas da região. Era o cenário perfeito para a reunião de 15 dos principais membros do Reich. Em pauta, um tema dos mais relevantes: a solução final da questão judaica.
Heydrich abriu o encontro lendo um documento assinado pelo marechal Hermann Goering, chefe da Força Aérea e número 2 de Hitler. “Ficam incumbidos de tomar todas as medidas logísticas e financeiras para solucionar totalmente a questão dos judeus na esfera de influência alemã”, ele leu. A seguir, sugeriu que todos consultassem os papéis colocados em suas pastas. Lá estava uma análise da política de incentivo à emigração judaica e dados sobre a quantidade de judeus que restavam na Europa – 11 milhões. O número precedeu a conclusão do general de que era impossível alimentar essa gente toda. O representante da administração do governo geral da Polônia ocupada, Josef Bühler, pediu a palavra e sugeriu que a “solução judaica” fosse logo iniciada, porque “na Polônia havia tantos judeus sem utilidade”.
A reunião durou apenas duas horas e deu origem a um documento que ficaria conhecido como Protocolo de Wannsee. “Depois da conferência, 90% dos judeus que chegavam aos campos eram levados direto para as câmaras de gás”, escreveu a historiadora Annalena Staudte-Lauber, em Holocaust (inédito no Brasil). Trinta cópias com o relato das discussões foram feitas. Uma delas acabou descoberta em 1947 – é até hoje o documento mais explícito acerca do genocídio planejado pelos nazistas. “Com o Protocolo, o tratamento aos judeus entrou em uma nova fase”, diz o historiador Robert Gellately. “No início, havia discriminação e restrições de trabalho e estudo. Em seguida, ocorreram as expropriações de bens e o confinamento em guetos. Depois de Wannsee, iniciou-se o extermínio”, diz. Gellately, porém, concorda com os historiadores que questionam a importância do Protocolo. “Nenhuma decisão importante foi tomada lá.” Para ele, a opção pelo extermínio dos judeus já havia sido feita. O encontro apenas confirmou seu caráter prioritário dali em diante.

Para saber mais
The Specter of Genocide,
Robert Gellately, Cambridge University Press, 2003.
The Origins of the Final Solution
Christopher Browning, William Heinemann, 2004.
The Architect of Genocide: Himmler and Final Solution
Richard Breitman, Alfred Knopf, 1991.
Revista Superinteressante