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quinta-feira, 25 de março de 2010

SOCIEDADE PATRIARCAL - 3ª parte


SOCIEDADE PATRIARCAL - 3ª parte

Publicado na Folha da Manhã, sexta-feira, 23 de novembro de 1951

Sérgio Buarque de Holanda

Em artigo anterior tentei sugerir como as noções de "forma" e de "conteudo" ou "substancia", que aparecem com certa frequencia nos ultimos estudos historico-sociologos do sr. Gilberto Freire, podem reduntar e redundam muitas vezes em uma visão acentuadamente particularista de nosso passado e de nosso presente.
Aquelas noções, provindas, em ultima analise, da filosofia social de Simmel, retiram toda a sua força da propria indefinição. É verdade que em Simmel elas não passam, ao menos teoricamente, de simples metaforas. Na versão, porem, que lhes dá o autor de "Sobrados e Mucambos" tende a dissipar-se mesmo em teoria, esse nominalismo deliberado. De instrumentos de exposição, distinção, confronto, analise, convertem-se em realidades mais ou menos empiricas, servindo de base a julgamentos de valor que mal se disfarçam.
Assim é que, nos seus escritos, as "formas" sociais se mudam com facilidade, ora em entidades reais, à maneira dos organismos biologicos - e então se confundem praticamente com os "processos" sociais, capazes de crescimento, maturação e morte -, ora em "idéias" de nitido sabor hegeliano - idéias de onde hão de emanar misteriosamente os proprios "objetos materiais".
Neste ultimo sentido ocorrem pelo menos uma vez: quando, em revide a uma critica do sr. Afonso Arinos de Melo Franco, o autor escreve, à pagina 817: "em nossos estudos, acentuando a importancia, dos objetos materiais, simbolos, insignias, mitos, não o fazemos por materialismo ou por desprezo aos valores invisivel ou requintadamente intelectuais e espirituais, mas por considerar os chamados objetos materiais - inclusive moveis, trajos, alimentos - reflexos das chamadas realidades imateriais, nunca ausentes dos mesmos objetos".
É possivel dizer que aquelas formas soberanas e imateriais se realizam de certo modo, em nosso mundo efemero - e neste ponto é que se inserem os juizos de valor - através de processos que conduzem à maturidade, à plenitude, e, em certo sentido, à perfeição: "amadurecendo numas areas mais cedo do que noutras, declinando no Norte ou no Nordeste, antes por motivos ecologicos que pura ou principalmente economicos -, quando apenas se arredondava por iguais motivos, em formas adultas no Brasil meridional" (pag. 41).
É bastante significativo que, apesar do seu insistente empenho de emancipar a "forma" social da "substancia" ou do "conteudo", o sr. Gilberto Freire raramente consegue desunir estes elementos quando se trate de distinguir, entre esta e aquela area de povoamento e ocupação do solo, as que lhe parecem expressões mais adultas ou completas. E, embora professando, em certos casos, dar escasso valor sociologico aos "objetos materiais" ou às tecnicas peculiares a cada região distinta, não há duvida que, em outros, chega a introduzir, entre os proprios objetos, uma especie de escala hierarquica, manifesta na medida em que eles parecem acomodar-se melhor à "forma" ideal e soberana.
Assim, por exemplo, a "grande casa estavel de pedra e cal", propria sobretudo dos engenhos de açucar do Nordeste, e tambem os sobrados de residencia construidos "mais nobremente" (pag 404) da mesma pedra ou então de tijolos e cal de mariscos, comparam-se com grande vantagem, em muitas das suas paginas, às antigas casas de São Paulo, feitas "quase todas de taipa". Como explicar então, que justamente em São Paulo, a area das casas de taipa correspondesse, na era colonial, às terras mais prosperas - mais nobres? - de serra acima, em contraste com as da orla maritima, onde domina decididamente a construção feita, como nos engenhos do Norte, de pedra das pedreiras e cal das ostreiras litoraneas?
Alem da presença de certos fatores materiais de algum modo privilegiados, é certo que entre os distintivos da maturidade social parecem inscrever-se, para ele, motivos "imateriais" nada irrelevantes. Assim, se a casa grande corpulenta e solida tem direito a melhor tratamento é que lhe parecem espelhar admiravelmente certas virtudes senhoriais, estabilizadoras e conservadoras, favoraveis talvez ao maior requinte ou à maior cultura do espirito. Virtudes que ele tem na mais alta conta, assim como haverá quem prefira, em contraposição, outras, não menos senhoriais, posto que mais dinamicas e ativas.
E neste ponto interfere, ainda uma vez, a preeminencia atribuida aqui à "forma social", independente de fatores economicos ou de outra natureza e sobreposta a eles. A sociedade constituida em volta da grande propriedade monocultora e escravocrata se teria revelado apesar das suas flagrantes falhas a mais criadora, entre todas as do Brasil, de valores politicos, esteticos e intelectuais.
É o que está dito nas palavras finais de seu livro "Nordeste". No mesmo livro, à pagina 288, afiança-se ainda: "Mas foi justamente essa civilização nordestina do açucar - talvez a mais patologica, socialmente falando, de quantas floresceram no Brasil - que enriqueceu de elementos mais caracteristicos a cultura brasileira". E não custa ao autor levantar os olhos, em dado momento, dos canaviais do Nordeste patriarcal para os olivais de certa terra classica do meio-dia da Europa. Pois tambem a civilização helenica, escreve ele, "foi uma civilização morbida segundo os padrões de saude social em vigor entre os modernos. Civilização escravocrata. Civilização pagã. Civilização monossexual. E entretanto estranhamente criadora de valores, pelo menos politicos, intelectuais e esteticos. Muito mais criadora desses valores do que as civilizações mais saudaveis que ainda se utilizam da cultura grega".
Palavras estas, que extraidas, embora, de um livro confessadamente impressionista, ajudam, por isso mesmo, a desvelar o que vai, nas suas interpretações, de intenso calor afetivo, de amoroso e nostalgico enlevo pelo passado de sua região natal e ancestral, envolvendo, não raro, as noções puramente teoricas que parecem querer introduzir-se em obras declaradamente mais sobrias. Entre essas noções, tentei destacar, nestes artigos, a de uma forma social separavel de quaisquer elementos materiais, isto é, de todo "conteudo" ou "substancia", para usar suas mesmas palavras.
Não importa discutir aqui se os valores politicos, intelectuais, esteticos representados a seu modo - "criados" diria o sr. Gilberto Freire - pela "civilização do açucar" terão sido os mais significativos ou os mais insignes entre nós, comparados aos que se encarnavam em outras "civilizações" regionais brasileiras, conforme pretende o sociologo pernambucano. Seria entrar no terreno movediço das preferencias, dos interesses, dos sentimentos pessoais. Dizer que por simples ato de presença e independente de condições materiais a que se acha inextricavelmente ligado, o patriarcalismo nordestino pôde suscitar aqueles valores, é apegar-se a concepções um tanto misticas, que em todo caso desafiam um escrutinio plausivel.
Não é preciso certamente uma adesão às formas mais crassas do materialismo historico para admitir-se que a pujança economica pode favorecer certos recursos materiais e certos habitos de ociosidade em nada desfavoraveis ao tipo de cultura intelectual e trato politico tão enaltecidos pelo autor. Assim ocorreu, sem duvida, no Nordeste açucareiro, como ocorreu em outras areas do Brasil colonial e imperial favorecidas pela fortuna. Quem percorra a lista de estudantes brasileiros formados em Coimbra verificará, sem esforço, até que ponto isto é verdadeiro. O fato de Minas Gerais, na idade do ouro e dos diamantes, ter fornecido um numero maior de estudantes do que o de todas as demais capitanias brasileiras (mesmo nos três ultimos decenios do seculo XVIII esse numero é de 132, para 120 do Rio de Janeiro, 108 da Bahia, 68 de Pernambuco e 30 de São Paulo) não pode ser indiferente a quem deseje estudar movimentos tais como o da Escola Mineira ou o da Inconfidencia. A rapida e efemera ascensão economica do Maranhão coincidirá, por sua vez, com um aumento notavel no numero de estudantes daquela capitania e provincia nortista, que chegará a ultrapassar largamente, no meio seculo imediato, os proprios totais de Minas e os de Pernambuco. E não foi certamente por um milagre que tivemos a famosa "Atenas brasileira". Nem foi por acaso que a Bahia, beneficiada nesse periodo, e ainda em maior grau, pelas mesmas condições economicas favoraveis, se tornaria grande forja de estadistas do Imperio.
As explicações que não têm em conta semelhantes fatores levam a pensar um pouco nas de monsenhor Pizarro, se não estou esquecido, quando escreveu do açucar que serve, não só para temperar os manjares como os costumes, fazendo aqueles mais doces e estes mais corteses e politicos. É muito provavel que sem uma especie de visão lirica, responsavel, em parte, por esse tipo de explicações, e admiravel esforço de compreensão e elucidação de nosso passado, empreendido pelo sr. Gilberto Freire teria sido menos eficaz em outros aspectos. Ela constituiu, por assim dizer, e para empregar uma das suas comparações, o lado patologico, inevitavel, talvez, em uma obra realmente criadora, e que deveria abrir novos rumos para a boa inteligencia da vida brasileira.

Folha de São Paulo

SOCIEDADE PATRIARCAL - 2ª parte


SOCIEDADE PATRIARCAL - 2ª parte

Publicado na Folha da Manhã, terça-feira, 13 de novembro de 1951

Sérgio Buarque de Holanda

Já às primeiras paginas da introdução que escreveu para o texto refundido e ampliado de "Sobrados e Mucambos", o sr. Gilberto Freyre volta a um tema que desde 1933, pelo menos, vem acompanhando de perto seus estudos historicos e sociais: o da unidade da formação do Brasil em torno do regime da economia patriarcal. Essa unidade sobrepujaria todas as diferenças e os aparentes contrastes locais para submetê-los a um mesmo denominador comum.
De modo que, ao fixar o sistema patriarcal da colonização portuguesa, partindo das areas em que terá alcançado uma das suas expressões extremas e melhor definidas - as areas onde veio a imperar a monocultura latifundiaria amparada no braço escravo - ele pretende que suas interpretações sejam perfeitamente validas para o Brasil inteiro. E busca explicar as objeções opostas por aqueles que não logram distinguir o carater transregional de suas pesquisas, sugerindo que tais criticos se orientam obstinadamente para o conteudo e a substancia, não para a forma sociologica dos acontecimentos e dos fatos.
É esta forma o que serve, em suma, para conciliar entre si as mais asperas contradições, emprestando ao todo uma harmonia e mesmo uma "unicidade" (pag. 42) verdadeiramente soberanas. Nos seus livros é provavel que ela apareça muito manchada de massapé negro, muito lambuzada de mel de tanque para não transviar às vezes algum espirito desprevenido, mas tudo isso é de pouca monta quando se trata de dintinguir o essencial através das aparencias mais ou menos precarias.
Entretanto, esse principio formal, de significação tão decisiva, não se deixa claramente precisar para quem estude os multiplos escritos de um autor tão vivamente empolgado, ele proprio, pelos elementos materiais da existência e do convivio humanos. Ou seja - no seu proprio vocabulario - pelo "conteudo" ou "substancia" dos acontecimentos e dos fatos. Reduzindo à expressão mais simples e mais generica o verdadeiro principio organizador estaria em determinado tipo de organização patriarcal da vida e da familia: traço comum, em sua fase de desenvolvimento, a todas as manifestações regionais particulares. E é a esse único traço - "forma" independente dos "conteudos"? - que invariavelmente se reporta o sr. Gilberto Freyre quando algum critico tenta negar o carater transregional das suas interpretações, lembrando a ausencia, como força social e economica dominante, nesta ou naquela região brasileira com "passado historico" de alguns elementos à primeira vista inseparaveis do painel que ele nos pinta: ausencia, por exemplo, da casa grande (no sentido estritamente "material" da expressão); ausencia da senzala ou sequer do braço escravo; ausencia da propria lavoura, substituida pela mineração ou (no extremo norte) pela coleta florestal; ausencia da grande propriedade; ausencia da monocultura...
Neste ponto cabe, porem, uma pergunta: seria o patriarcalismo, tal como o descreve o sr. Gilberto Freyre, uma criação originaria e especifica das areas de colonização sobretudo lusitana nesta parte da America, criação surgida de preferencia à sombra da casa grande, e capaz, só por si, de difesençar nitidamente as nossas condições coloniais das metropolitanas na mesma epoca?
A verdade é que muitos dos traços mais caracteristicos desse patriarcalismo, no seu apogeu e no seu declinio, entre nós, mal se poderiam destacar dos modelos europeus e barrocos que se prolongam até estas bandas do oceano. Guardadas as proporções devidas, o senhor de engenho ou o antepassado do "coronel" do sertão, ao menos nos seculos XVII e XVIII, não se distinguiriam muito, social ou psicologicamente, dos nobres e fidalgos do Reino. Isso mesmo dissera-o Antonio, e quase com identicas palavras. Nem as nossas casas grandes diferiam, salvo, talvez, nas maiores dimensões - que em todo o caso não chegam a afetar sua estrutura e sua tecnica de construção - dos sobrados ou casas nobres da peninsula.
É bem certo que em nossos canaviais e em nossas vilas e cidades labutavam negros e cativos, muito mais do que nos campos e cidades de Portugal. Mas para o proprio autor, esses pormenores de "conteudo", não de essencia ou "forma", são irrelevantes "do ponto de vista sociologico". "Da denominação ou mesmo da condição especifica do escravo, em oposição ao senhor", escreve à pagina 66, "seria um erro fazer condição indispensavel à existencia de um sistema sociologicamente patriarcal-feudal, isto é em suas formas e seus processos principais de relações entre dominadores e dominados: a dominação, a subordinação, acomodação. O sistema pode existir ou funcionar sob aparencias mais suaves: simples coronel ou major, o senhor; "morador", o servo. É o que parece ter sucedido em grande parte do Piauí, do Ceará, da area do São Francisco e do Rio Grande Sul..." E poderia ajuntar, sem receio, em parte da Europa, da peninsula iberica principalmente.
Se os padres da Companhia puderam, no Brasil, contribuir para a precocidade dos meninos - a "vergonha de ser menino" - não foi, ou não foi apenas por quererem, fiéis à missão antipatriarcal que lhes atribui o sr. Gilberto Freire num dos seus mais admiraveis capítulos, hostilizar os senhores todo-poderosos, "fazer frente ao caciquismo das tabas e ao patriarcalismo dos velhos das casas-grandes" (pag. 219), mas simplesmente porque obedeciam nisto, e não só nisto, a um puro ideal europeu e classico, no caso o da criança precocemente amadurecida e sensata: o puer senex.
Ideal provindo da antiguidade romana, haveria de permanecer bem vivo, não só no Brasil, mas ainda em Portugal e Espanha, e não só no mundo iberico, mas na propria França seiscentista e setecentista e no resto da Europa, ao menos da Europa catolica. Em seu belo livro sobre La Fontaine pôde escrever efetivamente Vossier que a criança francesa daqueles tempos não era tratada como criança, mas como uma especie de gente grande em miniatura. Ou então como um bicho pequeno. Adulto em potencia ou filho aterrado. Foi o suisso Rousseau, vindo de uma terra calvinistas, quem primeiro revelou aos franceses a criancice da criança, nota ainda o mesmo romanista. E, depois de invocar os retratos infantis de Velasquez e outros pintores, não deixa de lembrar ainda que não havia então trajos especiais para meninos ou meninas (Cf. K. Vossler, "La Fontaine und sein Fabelwerk", Heldelberg, 1919, pag. 2). Tambem no patriarcalismo brasileiro nota o sr. Gilberto Freire "uma tendencia para o traje se uniformizar no do adulto respeitavel - onde os meninos de roupa de homem, cartola e bengala que Rendu achou parecidos com as marionetes das feiras francesas - e as meninas vestidas desde cedo como senhoras...." (pag. 246). Assim, o que para um francês do seculo XIX já pertencia a um passado morto, ainda sobrevivia entre nós e ganhava sabor exotico. Mas não era certamente fruto especifico de nossa civilização patriarcal.
A forma da sociedade brasileira, se tivermos de aceitar noção tão violentamente realista, como essa que nos propõe agora o sr. Gilberto Freire - realista menos no sentido da sociedade atual do que da teologia medieval - não foi suscitada na area da cana de açucar, ou em outra região brasileira particular; mais plausivel é acreditar que veio acabada de Velho Mundo, adaptando-se aqui, mal ou bem, às circunstancias geograficas, etnicas, economicas, proprias às diferentes areas, e assumindo, em cada uma, feição diversa. O alfa da constelação de regiões tão claramente diferenciadas entre si, que se formaram nesta America portuguesa, estaria, pois, na Europa lusitana e iberica, não no mundo da casa grande e senzala ou em alguma outra area regional da colonia.
É claro que qualquer pronunciamento decisivo, neste ponto, há de colorir-se fortemente de noções subjetivas e amparar-se, em ultima analise, sobre simples preferencias pessoais. Não creio, porem, que para a inteligencia de nosso passado e de nosso presente, seja forçoso admitir um principio formal tão elastico, proprio para lisonjear esta ou aquela vaidade regional, servindo a sentimentos, ressentimentos, paixões, preconceitos, conveniencias às vezes momentaneas e quase sempre polemicas. À obra do sr. Gilberto Freire ela nada acrescenta de duradouro. Nem serve certamente, aos seus adversarios, quando se apóiam no mesmo criterio, embora movidos por sentimentos regionais diversos dos seus.

Folha de São Paulo

SOCIEDADE PATRIARCAL - 1ª parte


SOCIEDADE PATRIARCAL - 1ª parte

Publicado na Folha da Manhã, sabado, 10 de novembro de 1951

Sérgio Buarque de Holanda

A publicação, em texto refundido, e consideravelmente ampliado, de "Sobrados e Mucambos" do sr. Gilberto Freyre (2.a edição, 3 volumes, 1.188 pags., Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro e São Paulo, 1951) pode fornecer uma perspectiva habil para os que desejam interpretar todo o alcance da contribuição do escritor pernambucano para o melhor conhecimento da sociedade brasileira.
Com os volumes impressos, esse trabalho verdadeiramente monumental já adquire unidade organica bem definida. Em "Casa Grande e Senzala", primeira parte da serie, estudaram-se o nascimento, formação e definição da sociedade brasileira sob os auspicios da economia patriarcal. Aos cinco volumes até aqui publicados da obra integral, deverá seguir-se um sexto, há muito anunciado com o titulo de "Ordem e Progresso", que abordará o "processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime do trabalho livre". O ciclo organico (nascimento, crescimento, maturidade, declinio, morte da sociedade patriarcal) há de completar-se - descontados, naturalmente, alguns volumes subsidiarios - com uma ultima parte já projetada, que se chamará, de modo expressivo, "Jazigos e Covas Raras".
É possivel que para conhecer a palavra final deste livro seja necessario aguardar ainda a parte final. Como no grande romance de Proust, que o sr. Gilberto Freyre gosta de invocar quando se trata de defender sua obra contra os censores mais impacientes, o ultimo volume daria a chave de toda a construção. Construção naturalmente bem composta e segundo uma ordem velada, mas tão inflexivel em realidade como a ordem que rege os processos biologicos. Destas altitudes podemos rever o curso do caminho trilhado, e já distinguimos na vertente contraria o que ainda falta percorrer.
E a tarefa de quem se proponha, diante de obra tão ambiciosa, ir alem de um simples comentario à margem, como o presente, será grandemente facilitada com a leitura de "Nordeste", publicado quase ao mesmo tempo, em Segunda edição aumentada (Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro e São Paulo, 1951), e que visa ser uma especie de ensaio complementar do trabalho amplo que se iniciou com a publicação de "Casa Grande e Senzala". Ensaio, esse, mais deliberadamente impressionista do que os demais, e que chegou a requerer do autor, segundo sua mesma confissão, um trato prolongado e meio franciscano com a paisagem, a natureza e a gente mais tipica de sua região natal.
Graças, principalmente, àquela estrutura organica, pôde ele dominar, enfim, dando-lhe forma, sentido e valor, um material imenso e muitas vezes incompativel com toda abordagem fundada nos recursos das ciencias da natureza. Semelhante abordagem exigiria, sem duvida, um interesse mais detido pelos condicionamentos ou nexos causais, que relacionam entre si os aspectos frequentemente contraditorios da realidade historica, do que por esses mesmos aspectos, apresentados em cores cruas e sugestivas. O processo, sobretudo cumulativo, do autor, não deixa de realçar o traços que, ferindo fundo a imaginação, parecem animar os acontecimentos de uma vida propria, incapaz de refletir-se em escritos onde prevaleça um rigoroso raciocinio discursivo.
A força de sugestão que cabe nesse processo pode-se dizer que é a de um poeta, de um desses poetas da estirpe whitmaniana, que ele se acostumara a admirar durante seus anos de aprendizagem na America do Norte, não a de um cientista ocupado em medir, relacionar e confrontar os fatos. Ele proprio admite, e defende-a, a presença, aqui, dessa visão poetica endereçada a certas intimidades mais esquivas das coisas do passado, inacessiveis, em geral, ao estudo simplesmente historico ou sociologico; "algumas delas - escreve - só se abrem ao conhecimento ou ao estudo psicologico; varias só ao conhecimento poetico, vizinho do cientificamente psicologico".
A atenção presa aos fatos concretos, mais do que a abstrações e idéias, e empenhada em apreender esses fatos em seus desvãos mais secretos só se torna verdadeiramente eficaz, entretanto, quando movida por um intenso calor afetivo. A sua é uma "visão proxima", amorosa inclusive na repulsa; por isso naturalmente parcial e exclusivista. Seu zelo tantas vezes manifesto em favor da preservação dos estilos e valores regionais em todo o Brasil acha-se em função de um zelo fervoroso - em alguns casos, quase se poderia dizer nostalgico - por certos valores e estilos tradicionais da area dominada, no passado, pela monocultura latifundiaria e em primeiro lugar pela lavoura canavieira, fundada no braço escravo.
Nessas condições chega a admitir, e admite, mesmo, sem reservas, que outras regiões do Brasil tiveram formação até certo ponto dessemelhante; que a presença, ora do latifundio rural e da monocultura, ora do escravo negro não tenha marcado nelas tão decisivamente o passado rural e até o presente; enfim, que o simile mais apropriado para figurar nosso desenvolvimento historico seria o de um arquipelago ou o de uma constelação, não o de um continente compactamente unitario. Sim, mas desde que a forma assumida pela familia de tipo patriarcal, nas regiões onde predominou a monocultura latifundiaria e o trabalho escravo, represente verdadeiramente o alfa dessa constelação.
Este ponto merece exame, porque parece formar o principal dos obstaculos opostos até agora a uma aceitação mais generalizada da perspectiva adotada pelo sr. Gilberto Freyre em sua obra historico-sociologica e dos criterios dependentes dessa perspectiva. Criterios e perspectivas que serviriam, sem duvida admiravelmente, se aplicados a uma parte do nordeste brasileiro e de certo modo às outras areas onde imperou quase sem contraste, entre nós, a grande lavoura açucareira, mas que se revelariam menos aptos para o estudo das demais regiões do pais.
No proprio Nordeste elas mal se prestariam, por exemplo, para as zonas onde a lavoura e mesmo o braço escravo não tiveram papel mais saliente. Ou no planalto paulista, onde, durante a maior parte do periodo colonial, pôde prevalecer, em grande escala, uma forma particular de policultura. Ou ainda no extremo norte, se praticaram largamente a industria extrativa e a coleta florestal. Ou nas terras mineiras e sobretudo nos campos sulinos onde parecem francamente inexistentes muitos dos traços que o autor pernambucano parece prender de modo indelevel ao seu retrato de nossa civilização de raizes patriarcais e escravocratas.
Até onde serão explicaveis e mesmo justificaveis muitas dessas resistencias? Que o assunto parece ao proprio autor, de importancia singular, mostra-o a insistencia com que volta a ele, muitas vezes em tom defensivo e polemico, nas suas ultimas publicações, em particular nesta nova edição de "Sobrados e Mucambos". Aos leitores, por outro lado, e aos criticos, o exame da mesma questão pode fornecer acesso para a melhor inteligencia dessa obra, de sua alta significação e de seu verdadeiro alcance.

Folha de São Paulo

AFRICANOS NO BRASIL


AFRICANOS NO BRASIL

Publicado na Folha da Manhã, quarta-feira, 02 de agosto de 1950

Sérgio Buarque de Holanda

Depois dos estudos sucessivos de um Calogeras, de um Simonsen, de um Taunay, entre poucos mais, sobre os numeros de trafico africano para o Brasil, pareciamos ter alcançado o extremo limite de precisão possível em domínio tão naturalmente vago. O milagre do sr. Mauricio Goulart, em seu livro recente sobre a Escravidão Africana no Brasil - Das Origens à Extinção do Trafico (São Paulo, Livraria Martins Editora, S. A., s.d.), está em ter conseguido introduzir neste assunto algumas precisões importantes e mal suspeitadas. E tambem em ter podido construir um livro dos mais ricos e estimulantes que se podiam desejar, a proposito de controversia tão arida e, à primeira vista, tão futil.
Em realidade, essa controversia representa o motivo central do livro do sr. Goulart, e está presente, praticamente, em todas as suas paginas. Mas pretender reduzir a ela a contribuição que nos oferece para o conhecimento da historia da escravidão no Brasil seria diminuir injustamente o significado dessa contribuição. Através de seu minucioso esforço para reduzir a termos plausiveis tudo quanto se tem dito sobre o assunto, apresentam-se novos aspectos, novas formulações do problema, que de hoje em diante deverão ser considerados pelos historiadores.
De qualquer modo, para abordar devidamente o estudo do sr. Mauricio Goulart é inevitavel partir e, um pouco, participar daquela controversia. "Neste assunto, negros," - diz-nos ele (à pg. 98) - "têm sido desprezadas as verdades mais corriqueiras, postas de lado, sumariamente, as conclusões do bom senso". O bom senso manda, por exemplo, que em toda tentativa de fixação do volume do trafico, só se considerem os elementos comprobatorios no seu conjunto e em sua inter-relação. É sobretudo o exame parcial e isolado de tais elementos que conduziu historiadores diversos, e dos mais ilustres, a resultados extremamente divergentes.
Simonsen, por exemplo, fundou-se principalmente no calculo da vida efetiva e da produtividade dos escravos nos engenhos e minas. Calogeras, na taxa negativa de sobrevivencia, aplicada ao total dos negros existentes no país às vesperas da Independencia. O primeiro avalia em três milhões e trezentos mil o numero de escravos importados: o segundo, em dez a doze milhões, na melhor hipotese em oito a nove milhões.
Colocado em face de soluções tão discrepantes, o sr. Goulart inclina-se decididamente para a primeira, a de Simonsen, visto como Calogeras se limitara a um elemento, e elemento que não apresenta correlação com os outros dados do problema. Sua solução - cerca de 3.600.000 negros importados - é semelhante à de Simonsen e rigorosamente coincidente com a de Taunay, na versão final dos seus valiosos "Subsidios para a Historia do Trafico", publicados no tomo X dos Anais do Museu Paulista (o autor serve-se de versão anterior e menos completa, a dos Anais do Terceiro Congresso de Historia Nacional).
Para chegar a tal cifra, ele não deixa fugir nenhum dos numerosos dados da questão, entre eles o numero de escravos necessarios em cada engenho; a produção media anual dos negros, na lavoura do açucar, nas minas, nos cafezais; a porcentagem dos que se aplicariam em outros misteres; a taxa de sobrevivencia; a massa dos que se exportaram da Africa... E é a consideração atenta, bem desenvolvida e documentada, desses elementos, ainda mais do que o motivo central do estudo, que faz, no meu entender, sua admiravel riqueza. Em mais de um caso, pode-se mesmo lamentar que a absorvente presença deste motivo central não deixe o autor fixar-se melhor, mais livremente, naqueles aspectos parciais. Em outras palavras, seria desejavel que os abordasse um pouco menos na medida em que valem como argumento e mais na medida em que possam constituir objeto direto da pesquisa. Pois que a ambição, justificavel em si, de consertar enganos alheios pode conduzir insensivelmente a outro tipo de engano quando se torna empolgante: engano ou exagero correspondente, de algum modo, àquilo que na ciencia linguistica recebeu o nome de ultracorreção.
Quando, por exemplo, no enumerar os calculos quinhentistas, naturalmente imprecisos, sobre os escravos que viveriam então na colonia, é caracteristico de sua prudencia que prefira as cifras mais modestas de um Fernão Cardim e de um Gabriel Soares, às de Anchieta, duas vezes mais altas, ou quase tanto.
Uma das razões propostas, e que me parece má, para a preferencia, está em que a estimativa anchietana contraria os outros dois testemunhos, e que estes, vindos de fontes bem distintas, se harmonizariam bem entre si. A verdade, diga-se de passagem, é que não se harmonizam tanto, pois Gabriel Soares apresenta mais negros para Pernambuco (quatro a cinco mil contra quatro mil), Cardim, mais para a Baía (três a quatro mil contra dois mil). Por outro lado, o total de dez mil, que Anchieta indica para Pernambuco (contra três mil para a Baía), parece condizer melhor com a circunstância de, segundo diferentes depoimentos, existirem mais engenhos na primeira do que na segunda dessas capitanias (66 contra 36, di-lo o proprio Cardim, que faz avultar o numero de negros da Baía). E tambem com o fato das possibilidades de recorrerem os senhores de engenho ao braço indigena serem aparentemente muito menores em Pernambuco, onde Cardim já encontrou bem diminuido o numero de indios em 1583 ("os indios da terra já são poucos", escrevia na "Narrativa Epistolar"), quando no Reconcavo ainda eram fartos e densos seus aldeamentos.
A outra razão sugerida contra o calculo de Anchieta, de que "dez mil negros para os 55 ou 66 engenhos de Pernambuco, seriam negros demais", um "esbanjamento de negros", parece relacionar-se à tendencia, constante no autor, para diminuir a importancia numerica dos que não se empregavam no negocio do açucar. Reiteradas vezes se avaliam aqui em 70% do total os negros que trabalhavam em engenhos de cana (e em 80% , mais tarde, os que se aplicariam na mineração). Ora, considerando que um mínimo de 20 e mesmo de 30% dos pretos desembarcados da Africa seriam "peças femeas", alheias, por conseguinte, àqueles trabalhos, quantos pretos machos ainda ficariam para outros misteres: milicia, serviços domesticos, familiares ou caseiros, todo genero de fabrica e manufatura, sem falar em outras lavras ou lavouras? E sem falar na parte, nada irrelevante, dos que, destinados primeiramente aos engenhos, neles não permaneciam. Dos negros, já dizia em uma das suas cartas, de agosto de 1608, o governador d. Diogo de Menezes, que sendo eles "a maior parte da pobreza dos homens", porque em adquiri-los gastam quanto têm, "quando cuidam que têm cinquenta negros (...) acham-se com menos da metade, porque fogem e metem-se pelos matos, e são tantos os que desta maneira andam, que já fazem aldeias, e andam alevantados e ninguem pode com eles..."
Com razão, opõe-se o autor à cronica de Calogeras, de que das 53.053 peças saidas de Angola para o Brasil, entre 1575 e 1591, conforme o relatorio de Abreu e Brito, todas, ou quase todas, se destinavam ao Brasil. Pondera bem que, nessa epoca, a maior parte iria para as Indias de Castela. Por outro lado, não parece levar na devida conta que o relatorio fala em negros embarcados, e que muitos deles não terão chegado nem à America Espanhola, nem à Peninsula Iberica, nem ao Brasil. Sobre esse ponto, são acordes todos os depoimentos da epoca: um deles ousa dizer que, dadas as más condições de transporte, onde "el mismo olor basta a matar los más", era maravilha que a vigesima parte dos embarcados pudesse chegar ao seu destino. "Não ha quatro meses", exclama, "dois mercadores tiraram para a Nova Espanha, de Cabo Verde, quinhentas em uma nau, e só em uma noite amanheceram mortas cento e vinte..." Esse depoimento está na obra de Tomas del Mercado intitulada Tratos y Contratos de Mercadores, publicada em 1569 e que pode ser consultada em nossa Biblioteca Nacional. O sr. Mauricio Goulart, em outra parte de sua obra (à pg. 275), toma conhecimento de noticias semelhantes, mas desconfiado por principio das cifras muito generosas, associa-as a exageros, liricos ou interessados, de abolicionistas e de traficantes.
Se em determinadas ocasiões, no Quinhentos, sobretudo, a America espanhola recebeu sem duvida mais africanos do que o Brasil, não parece exato que isso tenha ocorrido sempre, como tende a presumi-lo o autor (às pgs. 51, 101,111, 117 etc.). As restrições de carater religioso à introdução de escravos negros, que prevaleceram de inicio em dominios de Castela, e não em terras de Portugal, teriam contribuido, no primeiro caso, para certos escrupulos dos reis catolicos com relação ao seu comercio. E quando esses escrupulos se afrouxaram, não deixariam os soberanos espanhóis de reservar o privilegio do trato a particulares e companhias, que para isso pagavam taxas consideraveis. A proprosito de um dos mais antigos textos conhecidos de acordo para a introdução de negros no Novo Mundo - o acordo de 1542 entre Fernão Cortes e o marquês del Valle, só ultimamente publicado - consta que o intermediario genovês pagava então a soma de sete ducados para cada um dos novecentos africanos que negociasse. E em meados do seculo seguinte, segundo mostra o historiador Clarence Haring, os contratadores deveriam pagar à Coroa de trinta a quarenta ducados por cabeça, alem de uma taxa suplementar de três a trinta reais.
Observa o sr. Mauricio Goulart, para mostrar a maior importancia do trafico com as possessões espanholas, que os assentistas tinham muito mais empenho "em amealhar proveitos com a venda de negros para as Indias de Castela" do que para o Brasil. Mas isto é claro, pois que desfrutavam no primeiro caso de um monopolio exclusivo, que não lhes era dado no segundo, e monopolio que lhes custara avultadas somas. E quanto às constantes queixas dos nossos lavradores sobre a escassez de negros disponiveis, creio que essa escassez deva ser interpretada, não em sentido absoluto, mas apenas em relação com as grandes exigencias da lavoura.
Tudo isso nos leva a hesitar um pouco diante de alguns argumentos usados pelo autor em beneficio da tese defendida. Mas as objeções que seu estudo possa merecer só atingem aspetos parciais do problema e não modificarão sensivelmente os seus resultados. No conjunto, trata-se de contribuição exemplar e já hoje de consulta obrigatoria para quem se disponha a estudar o mesmo problema.

Folha de São Paulo

PORTUGAL SEM SOTAQUE


PORTUGAL SEM SOTAQUE

Publicado na Folha de S.Paulo, quinta-feira, 20 de dezembro de 1990

Coimbra guarda relíquias do passado remoto e do presente

FLORESTAN FERNANDES

As relações dos brasileiros com Portugal são atravessadas por emoções e pensamentos complicados. Eu próprio sou brasileiro da primeira geração. Convivi intensamente com a família de meu avós maternos (na maioria vinda de Portugal); estive sujeito às explosões de verdades cruas da minha mãe ("saímos de Portugal tangidos pela fome") e pertenci prolongadamente, com o comandante Sarmento Pimentel, Miguel Urbano Rodrigues e outros bravos companheiros, ao movimento pela anistia dos presos políticos de Portugal e de Espanha. Esse movimento criou laços morais e afetivos profundos, iberizando e aportuguesando ainda mais o meu modo de ser.

Sem detratar a metrópole, interpretei de maneira objetivamente crítica as construções da herança do antigo sistema colonial. Ela nos atou a uma servidão permanente, à dominação externa e ao monopólio da riqueza, da cultura e do poder pelos privilegiados. Entretanto, a revisão sociológica da formação histórica do Brasil não interferiu na condição de "portuguesinho": quando avistei Lisboa e sobrevoei a cidade, em 1965, as lágrimas brotaram e logo jorraram impetuosamente, indo às favas as boas maneiras e o machismo. Ali estava, linda e luminosa, uma jóia da civilização, que arrasou minha ignorada identidade lusitana.

Não existem duas Lisboas no mundo! Mas em Coimbra me envolvi no mesmo alvoroço. A "cidade dos doutores", de um fato inconfundível e uma poesia que exalta o complexo de Electra, possui várias histórias superpostas, apresenta duas fisionomias (com suas partes alta e baixa) e contém muitas relíquias do passado remoto ou do presente. Ela mostra que o fascismo salazarista não respeitou nem a morfologia nem a arquitetura de uma universidade multicentenária. Mas esbarrou na resistência da duração. Essa resistência ainda não foi estudada como tal nem pelos arqueólogos e antropólogos nem pelos historiadores. Contudo, sem levá-la em conta não se explicará nunca porque cada porção de Portugal - os camponeses em sua faina, as pequenas aglomerações aldeãs, um almoço em um restaurante ou uma festa, cidades como Lisboa, Coimbra ou Sintra, mesmo um personagem secundário de ficção, como o Titó, etc. - transmite a totalidade psicocultural por inteiro.

Em Coimbra o antigo, o moderno e o pós-moderno não aparecem no que se preservou, no que se destruiu ou no que se reconstrói passo a passo, na batalha pela continuidade da vida humana. Eles interagem no mesmo espaço histórico e mental. São grandes espetáculos: as galerias romanas; Conimbriga com seu museu, seus monumentos e, em particular, seus preciosos mosaicos; as igrejas, os conventos, os aquedutos, as casas e os bairros em subidas e descidas, o Mondego; os padrões de cortesia; a comida doce e salgada, finíssima, servida com generidade; a bebida rica e variada, que não se toma fora da região com o mesmo prazer; as artesanias. Acima de tudo, contam o sítio urbano e seus arredores, a universidade e o ser humano.

A universidade granjeou fama e se inscreveu também nas tradições de saber dos nossos letrados (até a vinda da Corte). Ela foi e é uma espécie de diamante, engastado em Coimbra. Sob Salazar, essa articulação sofreu um estilhaçamento. Todavia, ela se ilumina internamente, por sua renovação e pelo entrelaçamento que vincula seus institutos e professores com os ritmos do crescimento do saber no exterior (de que é exemplo seu Centro de Estudos Sociais). O pioneirismo gravita, pois, na seiva que corre por dentro ou procede dos vínculos com a revolução da ciência e da tecnologia em nossa era. Isso nos obriga a constar: a Universidade de Coimbra não "teve sua grandeza" e tampouco reflete apenas os lucros amealhados. Como a cidade, recria o seu esplendor.

A dimensão do ser humano resulta de muitas variáveis. Não tive a oportunidade de penetrar no horizonte intelectual dos camponeses e dos moradores pobres da cidade e sua periferia. Conversei com alguns deles. São desempenados, com olhos abertos para a transformação da sociedade portuguesa e suas perspectivas. Preocupam-se com a integração ao Mercado Comum Europeu e com os custos sociais que ela acarreta para os de baixo. Mas não se intimidam: esperam o nascimento de um "novo Portugal". Os camponeses permanecem um mistério. Do palácio em que fui alojado via-os na labuta, mulheres e homens humildes, mal vestidos e sombrios, ou tocando suas carretas na ida e na volta do trabalho cotidiano. Poderiam lembrar meus avós, minha mãe ou meus tios? Não. Seu aspecto não era o de estarem atados à miséria e ao desespero de buscar além-mar outros destinos. Na roda dos professores e dos estudantes fervilha um lusismo universalista do intelectual-semeador, voltado para as suas lides como para os "seus" combates. A "revolução dos cravos" dissolveu-se. O Mercado Comum pavimenta o caminho do capitalismo monopolista, com leves compensações sociais-democratas. Para muitos, no entanto, o socialismo subsiste como aspiração real. Em Coimbra, os focos dessa disputa concentram-se entre os jovens, como escolha em vir a ser. Nela, pulsa, como no passado, o coração de Portugal. Só que, agora, o saber não é fonte de colonização. Volta-se para a autoemancipação coletiva.

Folha de São Paulo

OS ACONTECIMENTOS DE JOAZEIRO


OS ACONTECIMENTOS DE JOAZEIRO

Publicado na Folha da Manhã, terça-feira, 06 de novembro de 1934
Neste texto foi mantida a grafia original


Grupos de fanaticos, armados de cacetes, foices e pistolas, sobre pretexto de guardarem os despojos do Padre Cicero perturbavam o socego publico

FORTALEZA, 4 — Informações recebidas de Joazeiro anunciam que aquella cidade foi theatro de graves acontecimentos.
Grupos de fanaticos vinham ha dias guardando a igreja onde existe a imagem de nossa senhora das Dores, e está sepultado o padre Cicero.
Essa atitude dos fanaticos era devida ao facto de terem sido espalhados boatos de que os communistas roubariam hoje os ossos do padre Cicero.
Quando o vigario procurava fechar a igreja os fanaticos se opuzeram. O vigario pediu providencias á policia que compareceu e encontrou resistencia. Travou-se então violenta luta no recinto da igreja. Quando foi restabelecida a ordem verificou-se que estavam mortos nove fanaticos.


Novos pormenores

FORTALEZA, 4 — Chegaram novas informações de Joazeiro sobre os acontecimentos que ali se desenrolaram. Ha quasi um mez os fanaticos armados de cacetetes, foices e pistolas, a pretexto de defender as imagens, installavam-se na igreja e pertubavam o socego publico. Ultimamente apossaram-se das chaves e recusavam attender ao vigario. A policia interveio dahi resultando conflicto dentro da Igreja. Durante o tiroteio, alem de innumeros mortos, sahiram feridos o vigario, o capitão Uzim de Alencar, diversos populares e dois policiaes.

Folha de São Paulo

A RAÇA BRANCA EM PERIGO


A RAÇA BRANCA EM PERIGO

Publicado na Folha da Manhã, domingo, 13 de junho de 1937
Neste texto foi mantida a grafia original


O problema colonial concentra-se, hoje em dia, na Africa e nas Indias Orientaes. O resto do mundo está em mãos firmes. Paizes e continentes que, ha uma decada de annos, não passavam de colonias ou protectorados mais ou menos disfarçados, tornaram-se dominios autonomos e estados independentes. Porções importantes do Imperio Britannico consideram-se seus alliados, com direitos iguaes. A America do Norte e a do Sul perderam as suas caracteristicas coloniaes.

Assim, o nó do problema colonial está no Oceano Indico, num vasto semi-circulo que encerra a costa oriental da Africa, a Arabia, as Indias Orientaes e a Australia. Dessas terras, as que ficam em zonas temperadas, no sul — a União Sul-Africana e a sua contrapartida oriental, no outro lado do Oceano, a Australia — tornaram-se membros autonomos do Imperio Britannico.

O futuro da França, na Indochina, e da Hollanda, nas Indias Orientaes, depende de saber se a Inglaterra conseguirá sustentar a sua posição na India. Se estas tres potencias se mostrarem incapazes de manter-se na Asia, o Japão, inevitavelmente, pretenderá a herança. Somente o Imperio do Sol Nascente possue meios de construir outro imperio, nas margens do Oceano Indico. É duvidoso que o Japão tenha capacidade para colonizar, em grau igual ao dos "diabos brancos". Nem é certo que os povos da Indochina e das Indias Orientaes, acceitem de boa vontade uma mudança de senhores. O seu odio pelo Japão não é menos intenso do que pelos chinezes. Ultimamente, a India está tão afastada do Japão como da Europa, e a Inglaterra possue uma forte posição de flanco na Australia.

Mesmo as nações européas, que não se acham directamente interessadas na India e nas Indias Orientaes, têm interesse — uma verdadeira obrigação moral — de auxiliar os inglezes, os hollandezes e os francezes. Exigem-no os interesses da raça branca. A posição da Grã-Bretanha, na India, deve ser auxiliada em todas as circumstancias. A fronteira da Europa está em Singapura. O problema colonial asiatico só pode ter uma significação para a Europa.

A situação é muito differente na Africa, embora mesmo ahi a propaganda contra os brancos importada da Asia, desempenhe papel muito sério. Indianos, chinezes, arabes e japonezes encontram-se por toda a parte, entregues ao commercio, desde Aden à Cidade do Cabo, não raro em alta escala. O sonho do Japão do dominio do mundo, à moda britannica, estendeu-se por toda a Africa.

As concessões japonezas para plantação de algodão na Abyssinia mostram o que se pode esperar de tal infiltração. Entretanto, de uma maneira geral, os interesses europeus na Africa correm menos perigo do que em qualquer outro continente. Mas, se o Japão conseguir avançar as suas sentinellas para além da India e das Indias Neerlandezas, à custa dos brancos, a Africa ficará em posição extremamente critica.

Mas, ao falar da communidade dos interesses europeus na India e nas Indias Neerlandezas, é claro que esta communidade de interesses só pode permanecer effectiva, se os direitos, tanto quanto os deveres das nações européas, forem distribuidos por igual. A superficie da Africa é superior a onze milhões de milhas quadradas. Quase 40 por cento dessa área enorme pertence á Inglaterra, 30 por cento á França, 8 por cento a Belgica e mais ou menos 7 por cento a Portugal. É impossivel afirmar que tal distribuição corresponda, de qualquer forma, á importancia dos varios paizes europeus nos destinos da Europa, tomados em conjunto.

Uma coisa é certa. A Inglaterra, a França, e a Hollanda têm tudo a perder na Asia, a menos que tenham por trás as nações européas a defender ali as suas possessões. Se o Japão conseguir expulsar os hollandezes das Indias Neerlandezas, toda a Asia ficará perdida para os europeus. Pode a Hollanda defender sozinha as Indias? Que acontecerá se rebentarem simultaneamente rebeliões na India e no Egypto contra a Inglaterra, nas Indias Neerlandezas contra os holandezes, e na Indochina contra a França? Que acontecerá no dia em que toda a China cahir nas mãos dos japonezes? Appellará Londres, na hora da afflicção, para a Europa, em seu auxilio? E conseguirá a Europa afastar e dominar a tempestade de propaganda que se manifestará nas plagas africanas? Em Moçambique (Africa oriental portugueza) ha apenas 15.000 brancos para dois milhões e meio de pretos. Na Africa oriental britanica e franceza a proporção não é muito differente. Cerca de 1.500 asiaticos foram recentemente expulsos de Moçambique por serem considerados fermento de perturbação anti-européa. No Tanganika, 8.500 brancos estão completamente perdidos no meio de cinco milhões de pretos e 33.000 asiáticos.

Qual é hoje o problema da Africa? As duas grandes potencias, a Inglaterra e a França, devem compreender que, a menos de fazerem concessões satisfatorias, ao restante da Europa, terão de combater sozinhos as suas batalhas, em outras partes do mundo. A assistencia da Europa e de outras grandes potencias na Asia não pode ser alcançada livre de encargos. O papel da Inglaterra em 1914, não detendo a guerra, com a sua determinação ferrea, foi indubitavelmente uma falta de visão do ponto de vista dos interesses da raça branca. Os accordos coloniaes de 1919 foram verdadeiras loucuras.

Devemos agora recomeçar no ponto em que estavamos em 1914. Devemos passar para mãos fortes aquelles territorios africanos que, ao presente, estão em fracas mãos, isso á parte qualquer revisão do estatuto colonial corporificado nos tratados de paz. Ninguem razoavelmente deve oppôr-se á idéa de um condominio na Africa. Tambem ninguem pensa em despojar os belgas ou os portuguezes dos seus dominios da Africa. Mas, deve compreender-se que o principio da porta aberta não é apenas um principio commercial, no que diz respeito á Africa. O vigoroso desenvolvimento do continente negro depende da participação de todos os povos europeus, o que dará maiores facilidades de vida á propria Europa. O facto da Italia ter perdido a paciencia e começado a agir por conta propria, independentemente, mostra que chegou a hora de encarar estes problemas num espirito racional.

Ápparte a Africa do Norte franceza que é bem administrada e goza de um commercio activo, áparte a Africa do Sul que é por si mesma um Estado, e áparte ainda o Egypto cuja posição geographica é particularmente favoravel, o desenvolvimento economico da Africa caminha muito devagar. Ha falta de europeus empreendedores e audazes. Não se trata de apoderar-se de um boccado da Africa, mas sim de resolver o problema africano. Se esperarmos que comece a inevitavel luta na Asia, será tarde demais. A supermacia dos brancos na Africa estará em perigo.

Folha de São Paulo

O MANIFESTO DO GENERAL LUIZ CARLOS PRESTES


O MANIFESTO DO GENERAL LUIZ CARLOS PRESTES

Publicado na Folha da Manhã, segunda-feira, 18 de março de 1929
Neste texto foi mantida a grafia original



"Para o "caso brasileiro" não ha solução dentro dos tramites constitucionaes"

O ponto de vista dos revolucionarios em relação aos partidos de opposição está contido no seguinte manifesto do general Luiz Carlos Prestes:

"As ultimas controversias politicas, largamente discutidas pela imprensa do paiz, envolvem, de tal fórma, o meu nome no enredo das conjecturas com que se tem apreciado a situação da minoria revolucionaria perante a nação, que nos sentimos obrigados a vir positival-a definitivamente, esclarecendo-a sobretudo, no que diz respeito ás suas ligações com os partidos politicos de opposição.

Ha, por parte dos que, até agora, tem julgado interpretar o nosso pensamento, deante da conducta dos partidos, um erro inicial, e grave de apreciação. Esse erro reside, antes de tudo, na presupposição de que ha, entre as collectividades partidarias e os chefes revolucionarios, compromissos reciprocos de qualquer natureza. Essa supposição é descabida, porque implica numa generalisação falsa. Os vinculos de verdadeira solidariedade que nos ligam a alguns chefes democraticos não implicam em qualquer compromisso, mesmo tacito, entre a revolução e os partidos a que elles pertencem.

Os partidos, coherentes com o seu ponto de vista politico, organisaram seus programmas, elegendo a propaganda pacifica, pela dignificação do voto, em arma pre-excellente para executal-os. Suas "élites" directoras estão sinceramente convencidas da efficiencia dessa actuação pacifica. É natural, portanto, que a préguem, num intenso apostolado civico, cuja sinceridade não podemos contestar.

Nós, os revolucionarios, somos inteiramente descrentes das possibilidades de uma solução efficiente, para o caso brasileiro, dentro dos tramites constitucionaes. Nem cremos que os partidos de opposição consigam, pelo voto, desalojar de suas posições os actuaes donatarios do poder, nem lobrigamos como, depois de vencerem essa primeira etapa, poderão desembaraçar-se, legalmente, do acervo monstruoso de erros e rotinas com que alguns decennios de legislação criminosa contaminaram as instituições do paiz.

Mas essa divergencia de pontos de vista não implica, ao nosso vêr, em incompatibilidade insanaveis, entre a minoria revolucionaria e as actuaes organisações partidarias de opposição. É necessario não confundir a nossa persistencia com intransigencia, nem a intransigencia de principios com rigidez de processos. Marchamos todos lealmente para o mesmo fim, e seria insensato que nos dispersassemos em controversias estereis justamente na hora em que devemos unir as nossas forças, numa frente unica, contra os usurpadores do poder.

Do nosso ponto de vista, só temos palavras de louvor para todos os que embora por caminhos diversos, vão avançando em busca de um ideal que tambem é nosso. Sentimos que nenhuma surpreza desagradavel poderá trazer-nos o futuro desfecho dessa avançada democratica. Se - contrariamente ás nossas convicções lograr resolver, pacificamente, o problema brasileiro, dissolver-nos-emos satisfeitos, no seio dos partidos, porque terão cessado os motivos de nossa intransigencia revolucionaria. Se - pelo contrario e conforme prevemos - os esforços democraticos ruirem deante da prepotencia e desfaçatez dos actuaes donatarios do poder - ou as "élites" partidaria virão ao nosso encontro para partilhar comnosco o commando de suas legiões, ou essas legiões, convertidas em soldados, virão por si mesmas collocar-se sob a bandeira da Revolução.

É essa a realidade da nossa situação em face dos partidos. E não ha como toldal-a com atitudes extremadas. Louvamos a obra de educação civica a que se estão dedicando as collectividades partidarias. Isso não significa, entretanto, que a ellas estejamos subordinados, nem, tão pouco, que alimentemos a velleidade de lhes ditar normas de acção. E, assim sendo, erram por exagero os que, conhecendo essas divergencias, de todos sabidas, entre as nossas opiniões radicaes e os programmas dos partidos, procuram enxergar, ahi, dissidencias ou scisões que, logicamente, não devem existir.

Santa Fé, 8 de Março de 1929. — (a.) Luiz Carlos Prestes".

Folha de São Paulo

VOTO FEMININO

Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes (RN) em 1928


VOTO FEMININO
Publicado na Folha da Manhã, sábado, 12 de maio de 1928
Neste texto foi mantida a grafia original


O aeroplano como vehiculo de propaganda

RIO, 12 - O feminismo continua a sua propaganda.
Hoje, a cidade assistiu a um interessante e inedito acontecimento. Distinctas senhoras, que fazem parte proeminente da diretoria da "Federação Brasileira pelo Progresso Feminino", voaram sobre a cidade em aeroplano, distribuindo cartões postaes e manifestos de propaganda do voto feminino.
Foram as sras. Bertha Lutz, sua brilhante presidente, d.Maria Amalia Bastos, primeira secretaria e dra. Carmen Velloso Portinho, thesoureira.
Um dos postaes tinha os seguintes dizeres:
"As mulheres já podem votar em trinta paizes e um Estado brasileiro porque não hão de votar em todo o Brasil?
Paizes nos quaes as mulheres exercem direitos eleitoraes: Allemanha, Argentina (S.Juan), Australia, Austria. Belgica, Birmania, Canadá, Colonia de Kenya, Dinamarca, Estados Unidos, Esthonia, Finlandia, Grã Bretanha, Hespanha, Hollanda, Hungria, Irlanda (Estado Livre), Irlanda (Norte), Islandia, Indias Britannicas e Estados Livres, Italia, Jamaica, Lethonia, Lithuania, Luxemburgo, Man (Ilha de), Mancha (Ilha da), Mexico, Noruega, Nova Zelandia, Palestina, Polonia, Rhodesia do Sul, Rumania, Russia, Suecia, Terra Nova, Tcheco Slovaquia e Brasil "Rio Grande do Norte".
Outro transcreve estas palavras de ouro de Ruy Barbosa:
"A desigualdade entre os dois sexos era, sobretudo, um dogma politico.
Mas, da politica, já elle desappareceu com a revolução que introduziu, de uma vez, no eleitorado britannico, seis milhões de eleitores que nos demais paizes eleitoraes onde a civilização põe a sua vanguarda, tem elevado a mulher aos cargos administrativos, ás funcções diplomaticas, cadeiras parlamentares e, até, aos ministerios, como em alguns Estados da União Americana, ha muito já se costuma.
Não bato, srs., moeda falsa: não tenho opiniões de occasião. Nem supponhaes que seja de agora esta minha maneira de ver. As tendencias da minha natureza, o amor de minha mãe pela companhia de minha esposa, a admiração da mulher na sua influencia sobre os destinos de todos os que a comprehendem, bem cedo, me convenceram de que as theorias do nosso sexo acerca do outro, estão no mesmo caso da historia narrada pelo fabulista do leão pintado pelo homem. A mulher pintada pelo homem é a mulher desfigurada pela nossa ingratidão.
Quando cabeças como a de Stuart Mil assim pensam, não se há de envergonhar um cerebro ordinario como o meu, de pensar talqualmente".
Ruy Barbosa (Palavras da conferencia pronunciada do Theatro Lyrico em 20 de Março de 1919 e publicada no "Correio da Manhã" de 21 do mesmo mez e anno).
As feministas deixaram ainda cahir o seguinte appello á imprensa:
"A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, orgam do movimento feminista no Brasil faz um appello á imprensa carioca, sempre generosa na defesa das causas nobres, solicitando que dê o seu apoio á campanha em pról dos direitos politicos da mulher".

Folha de São Paulo