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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A moda que revela as mudanças sociais

Roupas do passado e do presente servem como um espelho da sociedade e ajudam os pequenos a compreender transformações históricas. Ajude-os a questionar as permanências e as mudanças no modo de vestir através dos tempos
Bianca Bibiano (bianca.bibiano@abril.com.br)





Século 15 Entre a Idade Média e a Moderna,
os burgueses passam a copiar o estilo de
vestir dos nobres. Estes, por sua vez, criam
novas peças. Assim, nasce a moda




Século 18 Na Revolução Industrial, as roupas
passam a ser fabricadas em larga escala. O
algodão é a matéria-prima mais usada

para trajes de ambos os sexos


Longe de ser frívola, a moda se constitui numa referência da multiplicidade de formas na qual se exprime a criatividade humana. "Ela não é somente a roupa, mas tudo o que caracteriza o gosto específico de um grupo, passando por seu modo de vestir", explica João Braga, especialista na área e professor da Faculdade Santa Marcelina (Fasm) e da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Uma análise detalhada do tema traz à tona questões que permitem enriquecer o repertório das crianças sobre a evolução e os costumes dos grupos sociais. A história da vestimenta se enquadra no eixo natureza e sociedade por guardar relação com o comportamento através dos tempos e a produção cultural da humanidade - a organização do mundo, seu modo de ser e de viver.

Roupas e acessórios refletem mudanças de comportamento. As gravatas, por exemplo, apontam para a formalidade. Entraram para o vestuário masculino no século 17 e protegiam o pescoço da nobreza. Já a minissaia, tão comum hoje, mas impensável até a década de 1960, mostra uma revolução no universo feminino. Numa época em que as mulheres começavam a trabalhar fora, elas foram criadas para facilitar o andar.

A moda tem suas origens no início da Idade Moderna, com a ascensão da burguesia. Não que antes as pessoas não se importassem com o que vestiam. Pelo contrário. No Egito e na Grécia, as roupas já eram pensadas para valorizar o corpo e para embelezar. Entretanto, é só no fim da Idade Média que os burgueses passam a copiar o estilo de vestir dos nobres. "E eles, por sua vez, passam a ornamentar novas peças com o objetivo de garantir uma valorizada exclusividade. É aí que começa um ciclo eterno de moda", conta Braga. A expressão "obsolescência programada", usada por profissionais da área, descreve bem o que a moda se tornou a partir desse período. "O que está em voga hoje será passado no próximo mês ou até na próxima semana", diz.

Observar permanências e mudanças para compreender o uso das roupas




Anos 1920 Como herança da Primeira
Guerra Mundial, os homens usam
casacos utilitários. A mulher começa
a trabalhar fora, o que exige
vestidos soltos




Anos 1960 No auge da revolução sexual,
a calça ganha a preferência da mulher e
a barreira entre o masculino e o
feminino começa a se romper


Tudo o que colocamos sobre nosso corpo recebe o nome de indumentária. Sob esse título, estão vestimentas, chapéus, sapatos, maquiagens, piercings, tatuagens... "A moda é uma fração desse todo, caracterizada por aspectos que chamaram a atenção das pessoas em um determinado período", aponta o especialista.

E, cedo ou tarde, ela passa. O seu modo de vestir provavelmente se distingue do de seus pais quando eles tinham sua idade. Você pode dizer: "Ah, mas aqueles eram outros tempos". E eram mesmo. "A ideologia, a música e a arte acabam por se refletir nas roupas. Mesmo quando se faz um resgate do trejeito de ser de uma geração, não se pode copiá-lo fielmente porque os elementos que o influenciaram ficaram para trás", afirma. O assunto deve ser abordado em sala com meninos e meninas (leia a sequência didática). "O caráter de pesquisa envolvido em uma atividade desse tipo vai além do gênero, pois saber dos comportamentos de outros tempos enriquece o repertório de todos", afirma a escritora Kátia Canton, autora do livro Moda: Uma História para Crianças.

Quando começou uma sequência de atividades envolvendo a história do vestuário, a professora Ana Luisa Pavianni, do Sesc de Carazinho, a 292 quilômetros de Porto Alegre, teve receio de a turma não se interessar pelo assunto. "Falar em moda com crianças pequenas é um desafio. Mas fui aguçando a curiosidade delas com consultas a livros e fotos dos anos 1970, que os próprios pais enviaram", explica. Com a pesquisa em mãos, o grupo de Ana Luisa passou a produzir suas peças, feitas com papel e retalhos, entre outros materiais. "Incorporar os elementos estudados na própria produção era uma das propostas. Assim, foi possível observar os questionamentos que elas faziam sobre as permanências e as mudanças no modo de vestir, o que eles notavam nos trajes de hoje e nos do passado." Nesse universo, além das roupas usadas no dia a dia, há também as peças folclóricas, que podem ser estudadas como o modo de caracterizar um povo ou um grupo social. Resgatá-las em uma pesquisa ajuda a conhecer a História e os costumes da sociedade.

Agradecimento: Biblioteca do Centro Universitário SENAC Lapa Faustolo

Revista Nova Escola

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A Idéia de República no Brasil


Eiiti Sato *

Ao longo do tempo o termo república assumiu vários significados designando de maneira genérica uma forma de relacionamento entre governantes e governados ou servindo para designar certos Estados tais como Roma, depois da queda da monarquia, e Siena, dos fins da Idade Média. No Brasil, o entendimento mais corrente está muito próximo daquele utilizado por Maquiavel, que inicia O Príncipe afirmando que “todos os Estados ... foram e são, ou repúblicas ou principados”, ou seja, uma forma de governo como alternativa à monarquia. Assim, recentemente, no dia 15 de novembro foi celebrado o dia em que a forma republicana de governo foi adotada no Brasil em substituição à monarquia. Com o passar dos anos a data passou a ter um caráter comemorativo tornando-se um costume fazer dela uma ocasião para discursos e outras manifestações laudatórias das virtudes e das vantagens da forma republicana de governo. Este breve ensaio, no entanto, pensando no que poderia haver de relevante para a compreensão da política brasileira, propõe uma reflexão em outra direção. A observação dos acontecimentos na esfera política leva a crer que o sentido mais precioso do termo República não é o de forma de governo que substitui a Monarquia, mas sim o de res publica, isto é o do entendimento das instituições do Estado como coisa pública. Com efeito, olhando-se o Brasil de hoje, conclui-se que o advento da república não significou, após cinco gerações, uma forma mais avançada ou mais eficaz de organizar as instituições políticas. Na verdade, o que se observa nas nações consideradas mais avançadas do mundo é que não há diferença entre regimes republicanos e monárquicos, ao menos no que se refere à idéia de democracia representativa e quanto à capacidade do Estado de cumprir seu papel como eixo da ordem política e econômica voltado para a promoção da prosperidade. Nesse sentido, a presente análise sugere que seria mais apropriado, a cada dia 15 de novembro, simplesmente examinar a trajetória das instituições políticas do País e, de forma sensata e ponderada, procurar identificar aquilo que poderia ou deveria ser feito para defender e aperfeiçoar a democracia e as instituições que governam o País para que sejam, efetivamente, republicanas.

República, Democracia E Prosperidade

Em primeiro lugar vale insistir no fato de que uma escolha entre a forma republicana ou monárquica de governo não corresponde, na realidade, a uma opção a respeito do que pode haver de mais essencial na relação entre governantes e governados: liberdade, respeito às leis e direito de escolha. Há muito tempo, a república deixou de ser uma alternativa à tirania de príncipes autocráticos. O sentido essencial da república como expressão da vontade dos governados pode estar perfeitamente presente tanto nas monarquias quanto nos regimes chamados de republicanos. Parafraseando Maquiavel, pode-se dizer que “as grandes e modernas democracias de hoje ou são repúblicas ou monarquias constitucionais ...”. Em outras palavras, não se pode dizer que o apreço pela democracia e o apego ao processo de legitimação do poder político pela vontade dos governados, esteja menos presente na Dinamarca, no Reino Unido ou nos Países Baixos, que permanecem monarquias, do que nos Estados Unidos ou na França, que adotaram a forma republicana de governo. Esse fato sugere também que um conceito como democracia, entendido como princípio orientador da organização do Estado, pode projetar-se em instituições muito variadas, não sendo possível, por exemplo, dizer que um sistema bicameral seja superior ou mais eficaz do que um parlamento unicameral, ou que o presidencialismo americano seja melhor do que o parlamentarismo britânico. As instituições resultam de processos históricos vividos de maneira individual e particular pelas nações refletindo a combinação de uma variada gama de aspectos peculiares aos países que, dessa forma, ao longo do tempo e à sua própria maneira, vão construindo individualmente as instituições políticas que melhor lhes convém.
Mesmo do ponto de vista econômico, onde os dados quantitativos são abundantes, chama a atenção o fato de que não é possível estabelecer correlação entre formas democráticas de governo e formas de interação entre Estado e economia capazes de tornar a nação mais próspera. Ao longo da história, nações prosperaram dentro de um ambiente democrático e republicano, mas também prosperaram sob regimes autoritários e, em tempos mais recentes, casos como o da China e de outros países da Ásia lembram uma espécie de versão contemporânea do conceito de “absolutismo esclarecido” que tanto entusiasmou muitos filósofos nos primórdios do Estado moderno. São governos bastante fortes que, de maneira autoritária, estabelecem padrões e normas de comportamento para os atores econômicos tornando-os competitivos e gerando riqueza e abundância para suas sociedades. Pode-se argumentar que, no longo prazo, regimes autoritários acabam por tornar-se incompatíveis com o dinamismo exigido pelos negócios e pela inovação tecnológica que sustentam o progresso econômico. Por ora, no entanto, não há dados para confirmar essa hipótese e o analista pode apenas procurar sinais de que regimes políticos autoritários tornam-se gradativamente menos centralizadores e menos propensos à interferência na economia à medida que a sociedade prospera e que, inevitavelmente, vai se tornando mais integrada à ordem econômica internacional.
Por outro lado, nas grandes democracias ocidentais, a interferência na economia se faz menos por meio de medidas políticas de governantes, que estão sujeitos a leis, e mais por meio das ações do Estado como ator econômico capaz de influenciar e mesmo regular o ambiente econômico. Todavia, nesse domínio, a participação do Estado na economia varia muito, havendo países como os Estados Unidos onde o Estado representa aproximadamente 1/3 do PIB e nações como a maioria dos países mais prósperos na Europa onde o Estado ultrapassa a metade do PIB sem que se possa dizer que tenham deixado de proteger e valorizar a livre iniciativa e a liberdade econômica de uma forma mais ampla e que as economias desses países tenham deixado de ser competitivas nos mercados internacionais. Do mesmo modo, não é possível identificar qualquer correlação entre os níveis de participação e interferência do Estado na economia com a forma republicana ou monárquica de suas instituições políticas. No Japão, que é uma monarquia, o Estado representa uma parcela da economia semelhante à dos Estados Unidos enquanto na França republicana o Estado é, proporcionalmente, tão grande quanto em outros países europeus, que são monarquias e igualmente prósperas. Nenhum analista e nenhum grande partido político na Europa ou nos Estados Unidos associa eventuais dificuldades econômicas enfrentadas por qualquer uma dessas economias às respectivas formas de governo, mas tão somente a ocasionais equívocos na política econômica ou simplesmente às variações cíclicas da economia.

O advento da república no Brasil

Possivelmente esses fatos ajudam a explicar porque o advento da forma republicana de governo no Brasil não ocorreu dentro de um ambiente político de intensos debates sobre idéias e de disputas dramáticas de poder entre monarquistas e republicanos. A abolição da escravidão, a questão militar, a ascensão de uma classe média e outros eventos considerados pelos historiadores como importantes para o advento da república eram questões que poderiam ter sido manejadas dentro do regime vigente uma vez que não há como afirmar que tivessem por origem qualquer incompatibilidade substantiva com o regime e, além disso, nações como o Reino Unido, os Países Baixos ou a Noruega, ao longo do tempo, realizaram seguidas mudanças nas suas instituições políticas adequando-as às seguidas transformações, por vezes dramáticas, vividas pelas respectivas sociedades no decurso do último século e meio. Em 1889 a monarquia brasileira já era um governo do tipo representativo perfeitamente compatível com os padrões vigentes no mundo em matéria de instituições que procuravam acomodar as principais forças políticas da nação. Além disso, D. Pedro II estava longe de ser um governante autoritário e centralizador. Alguns historiadores mencionam as disputas entre a Coroa e a Igreja Católica como um desses eventos importantes que teriam desencadeado a queda da monarquia por ter contribuído para solapar a base política do Imperador. Entre as novidades advindas com a proclamação da república uma delas foi a separação entre o Estado e a Igreja mas esse processo ocorreu de uma maneira ou de outra em todas as monarquias que se modernizaram. A questão federativa, que aparece em destaque no Manifesto Republicano de 1870, a abolição da escravidão, as dificuldades econômicas ou ainda as inquietações no exército, na realidade constituíam parte de um processo de transformação mais ampla e profunda da sociedade brasileira diante de um mundo que também se transformava. Na realidade, em toda parte, as instituições políticas sofriam mudanças e se acomodavam às novas circunstâncias sem, contudo, associar esse processo a escolhas entre republicanismo e monarquia. Em resumo, o regime monárquico não constituía empecilho real para as demandas sociais ou para uma eventual revisão nos padrões de participação política das forças econômicas emergentes da nação.
Talvez o melhor retrato da implantação da forma republicana de governo tenha sido dada por Raul Pompéia que, em crônica publicada anonimamente, relata a melancólica partida do Rio de Janeiro de D. Pedro II e da família imperial logo após o decreto de expulsão promulgado pelo Governo Provisório.(1) No meio da madrugada, diz a crônica, sem manifestações de qualquer tipo, a família imperial partiu para o exílio sem deixar no Brasil nem sentimentos de ódio e nem partidários dispostos a iniciar uma luta política para promover seu retorno. Aliomar Baleeiro logo na introdução de seu ensaio sobre a Constituição de 1891 também faz uma apreciação na mesma direção: “o povo brasileiro cansara-se da monarquia, cuja modéstia espartana não incutia nos espíritos a mística e o esplendor dos tronos europeus. O Imperador vestia trajes civis, pretos, como qualquer sujeito respeitável da época, sem fardas de dourados ... Conta-se que a Princesa Imperial trazia consigo, no decote, fósforos para acender, ela mesma, as velas à boca da noite.”(2)

A res publica no Brasil de hoje


Em nossos dias, de tempos em tempos, a República tem sido abalada por escândalos e a ineficiência crônica do Estado aparece nos mais diferentes domínios das instituições encarregadas do provimento de bens como a justiça, a segurança e os inúmeros serviços públicos essenciais que os Estados modernos e organizados prestam hoje às suas populações. Convém refletir sobre o fato de que esses escândalos, assim como a crônica ineficiência do Estado brasileiro, não são produtos da forma de governo, mas da incapacidade de construir e manter instituições que tornem o Estado brasileiro tão eficaz quanto tem sido em muitos outros países republicanos ou monárquicos. Por exemplo, em países onde a justiça – talvez a componente mais essencial do Estado no que diz respeito à proteção dos direitos individuais e coletivos – se mostra razoavelmente operante, uma lei como a da chamada “ficha limpa” seria completamente inócua e desnecessária, uma vez que se a justiça funcionasse razoavelmente no Brasil os políticos indicados como passíveis de serem enquadrados nessa lei já teriam sido, há muito tempo, devidamente condenados ou absolvidos. Há políticos que tomam posse de cargos executivos ou legislativos apesar de condenados e procurados pela justiça por terem cometido crimes comuns, e cujo processo judicial tivera seu início bem antes da formalização até mesmo de sua candidatura. Há os tribunais eleitorais ou trabalhistas cuja existência é totalmente dispensável uma vez que qualquer ação julgada por essas instâncias pode ser levada ou contestada em outras instâncias judiciárias. A menos que o poder dessas instâncias seja efetivamente reconhecido nas matérias de que tratam, a manutenção dessas instâncias representa apenas um ônus para o Estado e, principalmente, um custo às vezes impagável para aqueles que buscam a justiça para proteger seus direitos.
A distância entre a noção de res publica e as instituições do Estado brasileiro – que parece aumentar continuamente – assume a feição de um patrimonialismo político cuja capacidade de adaptação se revela ilimitado. Falava-se de uma política “café com leite” referindo-se à República Velha quando o poder se alternava entre os produtores de café de São Paulo e os proprietários de terras de Minas Gerais. Hoje, após a eleição presidencial, Ministérios e agências da administração do Estado são disputados como se fossem espólios a serem conquistados. As manifestações a respeito de “direitos” a cargos e postos na administração pública ocorrem de forma aberta e sem qualquer pejo ou referência a qualquer propósito de servir à coletividade que justificaria a existência de um Ministério ou agência governamental. Nos fins da Idade Média, após a tomada de uma cidadela sitiada os vencedores disputavam entre si os espólios dos vencidos. Essa disputa se afigurava tão natural quanto o é no Brasil de hoje a disputa por cargos e indicações após uma vitória eleitoral. D. Quixote, personagem criada por Cervantes, com toda a sua ingênua pureza, prometia ao seu amigo e escudeiro Sancho Pança uma ilha que seria conquistada com o valor de seu braço. No caso do Brasil, trata-se de um espólio de proporções imensas. Conforme dados de 2009, disponíveis na página do Fundo Monetário Internacional, o Brasil é a oitava economia do mundo e o orçamento do Estado brasileiro, de quase US$ 600 bilhões, seria maior do que o PIB de países como Suíça (US$ 491 bilhões), Suécia (US$ 406 bilhões), Dinamarca ou Argentina (ambos com um PIB de cerca de US$ 310 bilhões). Na verdade, o Estado brasileiro equivalia, em 2009, à posição de 18ª. economia do mundo. Nesse quadro, a pergunta essencial é: para onde vai essa enorme soma de recursos? Além do sistema de arrecadação de taxas e impostos, existe alguma instituição do Estado que efetivamente funciona? Existe alguma instituição do Estado que possa ser qualificada como verdadeira res publica, isto é, serve ao interesse público? Por que as pessoas que possuem meios não procuram os hospitais públicos, não se utilizam dos transportes públicos, não confiam suas crianças à educação pública? Por que se demorou tanto tempo para realizar as operações recentes nas favelas do Rio de Janeiro e o que virá depois? Por que todas as organizações e indivíduos que possuem meios precisam contratar serviços privados de segurança? Enfim, a lista de perguntas seria interminável.
Esses fatos, mencionados a título de exemplo, apontam para o risco sempre presente de repetir o que se fez, em certa medida, nos fins do século XIX quando, ao invés de aperfeiçoar e adequar as instituições acompanhando as inevitáveis mudanças dos tempos, preferiu-se atacar as instituições. O ambiente que cercou as últimas eleições e seus desdobramentos em curso, na forma de partilha do espólio conquistado, revelam que a ineficiência do Estado em prover bens públicos essenciais deve continuar aumentando. Os recursos do orçamento público brasileiro são enormes, mas não são ilimitados. Pode haver focos de insatisfação na divisão do espólio que podem evoluir para defecções e crises. Corre-se o risco de comprometer até mesmo a democracia sem, contudo, atingir efetivamente os procedimentos e costumes viciados existentes nas várias instâncias do Estado que, assim, continuarão servindo de guarida à ganância dos políticos desonestos. Ernest Hambloch, em 1934, escreveu uma interpretação bastante crítica a respeito dos primeiros anos da república – a República Velha (1889-1930) – na qual lembra um curioso episódio: quando Rojas Paul, presidente da Venezuela, soube da queda da monarquia brasileira, teria exclamado triste e profeticamente: “Este é o fim da única república que jamais existiu na América.” (3) Obviamente, o presidente Rojas Paul empregava o termo república na sua acepção mais desejável: o do governo entendido como res publica.

NOTAS

(1)F. M. da Costa, Os Melhores Contos que a História Escreveu. Editora Nova Fronteira, R. De Janeiro, 2006 (pp. 461-7)
(2) A. Baleeiro, Constituições Brasileiras, volume II. 1891. Senado Federal, CEE/MCT, ESAF/MF. Brasília, 1999 (p. 13)
(3) E. Hambloch, Sua Majestade o Presidente do Brasil. Senado Federal, Brasília, 2000 (p. 34)

Eiiti Sato
Paulista de nascimento, diplomou-se em economia pela Fundação Alves Penteado- FAAP, tendo obtido o grau de Mestre em Relações Internacionais na Universidade de Cambridge (U.K.) e de Mestre e Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Foi consultor do Ministério das Relações Exteriores e Coordenador de Projetos do Centro de Estudos Estratégicos (2000/2004). Foi presidente da Associação Brasileira de Relações Internacionais na gestão 2005/2007. Atualmente é professor adjunto da Universidade de Brasília, onde exerce o cargo de diretor do Instituto de Relações Internacionais, com mandato até 2010.
Revista Liberdade e Cidadânia

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Reflexões sociológicas sobre a hospitalidade


WALTER PRAXEDES
Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e professor de Sociologia das Faculdades Nobel e Universidade Estadual de Maringá (UEM)Ao amigo João dos Santos Filho
1. A imaginação do turista
O turista é aquele que conquistou o privilégio da mobilidade espacial no mundo contemporâneo, uma mobilidade que depende do tamanho do seu privilégio Um privilégio que também pode ser encarado como uma enorme perda: não há como um turista deixar de imaginar que onde quer que ele esteja desfrutando momentos de satisfação, bem estar e segurança, poderia estar em outra parte.

É preciso saber lidar com a imaginação do turista pois é ela que o move a chegar e a partir de uma localidade. Em princípio, não há razão para ele se prender a um lugar específico por mais tempo do que o necessário para satisfazer o pássaro irrequieto de sua imaginação. E nada é mais angustiante para alguém que é movido pela paixão de conhecer o mundo do que perder a liberdade de escolher o seu destino.

Decorre desta inconstância da imaginação do turista os maiores desafios para aquelas localidades que são projetadas para propiciar hospitalidade aos visitantes. Para que estes se sintam bem em um local é preciso que esqueçam por um período todos os outros destinos que lhes escapam. E não há patrimônio ecológico, histórico ou cultural ou mesmo evento que possa prescindir de um lugar considerado belo pelo visitante, comida e bebida agradáveis, e uma boa companhia para aquelas conversas que não têm hora para começar, em que as palavras não saem apressadas atropelando umas às outras, e ninguém sente incômodo com o silêncio entre um assunto e outro.

2. O anseio por segurança

A liberdade de movimento do turista ocorre em um tempo e um espaço que ameaçam a sua segurança e colocam em risco o seu bem estar e a sua vida. A competição do mercado de trabalho e a ameaça de desemprego, as redes criminosas, a violência urbana, a corrupção governamental, os alimentos contaminados, a solidão e o desamparo na velhice são os temores que provocam no turista o desejo de fuga, nem que seja efêmera, para um local seguro e confortável.

Compreendida desta forma ampla, a segurança envolve desde a proteção contra as ameaças à integridade física por parte da violência das grandes cidades, serviços médicos e sanitários adequados e alimentação saudável, até a sensação de abrigo em uma noite fria, o aconchego de uma companhia que nos livre da solidão e com quem possamos compartilhar experiências e afetividade.

Outro dilema que não pode ser desconsiderado: embora o turista queira proteção contra os males mencionados, muitas vezes é ele próprio que os traz em sua bagagem. É um enorme paradoxo tentar impedir que o visitante leve à deterioração das condições de bem estar e segurança locais sem restringir a sua liberdade.

Hospitalidade, então, não pode ser confundida com a cordialidade superficial e indiferente dos vendedores e prestadores de serviços. É possível que até implique na necessidade de polidez e afabilidade nos primeiros contatos, mas é necessário que seja muito mais do que a troca de expressões superficiais entre compradores e vendedores, para significar proteger o visitante do perigo, da rotina que entedia, do cansaço e da doença. Significa, pois, garantir segurança ao visitante cuidando para que ele esteja livre das ameaças que colocam sua vida e o seu bem estar em risco.

3. Sociabilidade

A vida humana depende da ação dos indivíduos e de sua interação. O ser humano é um ser portador de necessidades que só se realizam através dos relacionamentos entre os humanos. O reconhecimento de um outro ser como humano implica em reconhecermos as suas necessidades de recursos materiais, bens simbólicos e da presença de outro ser humano. Para a satisfação desses três conjuntos de necessidades elementares é que se desenvolvem as mais diferentes formas de interação e relacionamento afetivo, de elaboração de conhecimentos, de atividades lúdicas e artísticas, e de produção de bens e serviços.

Para satisfazer a necessidade de presença de outro ser humano é que se desenvolvem as formas de sociabilidade como o namoro e a amizade, a polidez e a hospitalidade, a moral, a ética, o direito, o comércio e até o dinheiro, que é usado para facilitar a relação de troca entre os humanos, através do uso de uma mercadoria considerada equivalente a todas as outras.

Como estamos discutindo os contornos da atividade de recepção turística, devemos ter em mente que a utilização do dinheiro como forma de remuneração dos serviços e bens que o turista escolhe não pode levar a que o tempo livre deste seja transformado em simples meio de ganhar dinheiro. Qualquer visitante se sente explorado quando percebe que as suas necessidades estão sendo manipuladas. Acredito, ainda, que nenhum turista considere hospitalidade um sorriso em um rosto acompanhado de uma mão estendida à espera de uma moeda.

A hospitalidade é uma forma de relação humana baseada na ação recíproca entre visitantes e anfitriões. Sempre que os humanos se relacionam, mesmo para a realização de atividades práticas ligadas a receber ou visitar alguém ou um local, o relacionamento depende dos valores daqueles que estão interagindo, ou seja, depende dos princípios que orientam as condutas dos envolvidos na relação. A discussão sobre a hospitalidade é muito mais do que uma simples difusão de técnicas de bom atendimento na atividade turística, pois depende de uma discussão prévia sobre os valores que devem fundamentar as práticas de recepção aos turistas. Valores novos devem ser propostos e debatidos livremente, mas nunca impostos.

4. Cidadania

Uma hospitalidade que faça com que o turista se sinta realmente bem vindo à localidade e seguro depende da qualidade de vida dos moradores locais. Não vá o empresário do setor turístico acreditar que terá um colaborador empenhado doando o melhor de si para o atendimento ao turista se o mesmo se sente desrespeitado e explorado, não teve acesso a uma educação adequada e está exposto ao estresse próprio daqueles que não controlam o próprio tempo nos momentos de descanso e lazer.

É outro dilema da hospitalidade disponibilizar prazer, bem estar e segurança para o turista sem gerar sofrimento para os anfitriões e moradores locais. Para gerar hospitalidade temos que garantir que os moradores locais vivam com qualidade de vida suficiente, segurança e bem estar para que não se sintam impelidos a ameaçar a segurança dos visitantes.

Não podemos querer imaginar um mundo hospitaleiro para o turismo enquanto escondemos a nossa pobreza, através da exclusão dos pobres dos espaços públicos destinados aos visitantes. Em meio à pobreza crescente dos centros urbanos no mundo todo agentes governamentais e empresários podem cair na tentação de restringir os movimentos dos mais pobres. Nosso dever é evitar que o projeto de produzir a hospitalidade que atraia os turistas gere o fascismo que leva à exclusão da cidadania, com os mais pobres perdendo o direito de transitar e de decidir sobre os rumos de sua cidade. Da cidade formada por ruas, praças, monumentos e edificações erguidas pelas suas mãos, enquanto eles próprios estão confinados nos bairros sem infra-estrutura e sem lazer.

5. Sexo e prostituição

Longe de negarmos o prazer como uma forma de reconciliação do ser humano com a sua própria natureza, pregando um moralismo que na prática leva à abstinência, defendo que a hospitalidade envolve a aceitação da possibilidade da interação sexual entre visitantes e moradores. Para os dois lados tal interação pode significar vida e sentimento fora das alternativas do sexo solitário, pela Internet ou comprado.

Podemos assim discutir a hospitalidade sem confundi-la com a relação promíscua entre turismo e as redes de prostituição e tráfico de mulheres e crianças. Se não houver na localidade anfitriã pessoas que transformem o corpo em mercadoria como um meio para a satisfação de suas necessidades de consumo, o fenômeno da prostituição perde a centralidade que hoje adquire no setor turístico. Então, para satisfazer as suas necessidades afetivas e sexuais o visitante deverá buscar a interação com os moradores locais simplesmente pela satisfação que o relacionamento poderá gerar para os envolvidos, e não em virtude do interesse monetário ou da coação dos criminosos sobre os mais pobres e indefesos da localidade que, neste caso, jamais pode ser chamada de comunidade, pois em uma verdadeira comunidade ninguém se sente desprotegido e carente ao ponto de ter que se prostituir.

6. Cultura popular

A importância de uma efervescência cultural na vida social local também não pode ser minimizada pelos planejadores da hospitalidade, pois como nos adverte Bauman (2003: 46) “um lugar pode estar fisicamente cheio, e no entanto assustar e repelir os moradores [e visitantes] por seu vazio moral”. Deriva deste raciocínio a importância que devemos atribuir às culturas populares locais, apoiando ou simplesmente não obstaculizando a sua livre manifestação. Para os planejadores da hospitalidade o apoio a um grupo de cultura popular não pode implicar no roubo de sua autonomia. Sem autonomia as culturas populares perdem a autenticidade, a afetividade, a alegria e a criatividade que as definem. Também não deve ser esquecido que o respeito à cultura popular, à diversidade das manifestações culturais dos mais pobres, não pode levar à sublimação das suas reais condições de vida. Respeitar a diferença não pode significar nos tornarmos indiferentes às situações que geram a desigualdade.

7. Humilhação

Em um de seus livros sobre a globalização Zygmunt Bauman comenta que a experiência de algumas cidades norte-americanas expressam o que podemos considerar uma predisposição contrária à hospitalidade: “a suspeita em relação aos outros, a intolerância face à diferença, o ressentimento com estranhos e a exigência de isolá-los e bani-los, assim como a preocupação histérica, paranóica com a “lei e a ordem”, tudo isso tende a atingir o mais alto grau nas comunidades locais mais uniformes, mais segregadas dos pontos de vista racial, étnico e de classe.” (Bauman, 1999: 54)

O próprio Bauman tenta explicar as possíveis causas da intolerância em seu livro. Para o sociólogo polonês, “a uniformidade alimenta a conformidade e a outra face da conformidade é a intolerância. Numa localidade homogênea é extremamente difícil adquirir as qualidades de caráter e habilidades necessárias para lidar com a diferença humana e situações de incerteza; e na ausência dessas habilidades e qualidades é facílimo temer o outro, simplesmente por ser outro – talvez bizarro e diferente, mas primeiro e sobretudo não familiar, não imediatamente compreensível, não inteiramente sondado, imprevisível” (Bauman, 1999: 55) O medo e a indiferença em relação ao desconhecido faz perdermos a oportunidade de um encontro para conhecermos e sermos conhecidos.

Não saber lidar com o considerado diferente, que pode ser alguém com um problema de saúde, uma necessidade especial ou uma identidade incompreendida e não aceita, até mesmo não intencionalmente pode levar o anfitrião a fazer o visitante se sentir humilhado. A humilhação gera o ressentimento com a gente do lugar e o desejo de fugir para não mais voltar. De outra perspectiva, a necessidade de humilhar o outro é sinal de imaturidade ou falta de capacidade para conviver e, no seu limite, se expressa, ainda, no desejo de subjugar o outro através da crueldade, como nos exemplifica o espetáculo demasiado humano das torturas dos cidadãos iraquianos praticadas pelos soldados das forças de ocupação norte-americanas.

8. Conexão com os fluxos globais

Por último quero recordar uma dimensão estratégica da hospitalidade para a gente de um lugar: uma forma de conexão com o mundo através do contato com o visitante. Do contrário podemos perder a capacidade de comunicação com os de fora da localidade, e o nosso destino será o confinamento e a exclusão dos fluxos globais de informações.

Na análise que o sociólogo Manuel Castells realiza sobre as sociedades contemporâneas é muitas vezes ressaltado o aspecto da dependência crescente das atividades humanas em relação à necessidade de processamento de informações para a geração de conhecimentos e sua distribuição. Este aspecto permite caracterizarmos as sociedades contemporâneas como informacionais, em virtude do fluxo contínuo de informações pelas redes comunicacionais. Uma consequência de tal característica é que “o controle da ciência e da técnica das tecnologias da informação chega a ser uma fonte de poder em si mesma”. (Castells, 1996: 15) O trânsito livre de investimentos no mercado financeiro global, os movimentos migratórios de trabalhadores, o turismo, os processos de produção de mercadorias e as tecnologias gerenciais dependem de informações que são produzidas e operacionalizadas em todas as regiões do planeta.

Para que se possa garantir a participação na rede mundial de fluxos de informações Castells acredita que é fundamental a “a habilidade de usar (e de alguma maneira produzir) tecnologias de informação”. Um segundo aspecto ressaltado é a necessidade de os cidadãos da sociedade global estarem conectados aos fluxos de informação e comunicação, pois “o acesso a tais fluxos se faz crítico para qualquer economia e, portanto para qualquer sociedade. Estar desconectado da rede é equivalente a não existir na economia global” (Castells, 1996: 22). Os efeitos da desconexão da economia informacional global podem ser percebidos na marginalização de vastas regiões do planeta, e no número crescente de cidadãos marginalizados em seus próprios países, sejam estes ricos ou pobres.

Conclusão

Hospitalidade é considerar todos os visitantes como bem vindos, compartilhando com eles o bem estar e a segurança que também não nos faltam. Hospitalidade é a generosidade de um agrupamento humano, seja uma comunidade, etnia, cidade, nação, estado ou país. É a ternura da gente de um lugar em relação ao estrangeiro e os seus mistérios, enquanto este também imagina os seus anfitriões como uma gente misteriosa e nem por isso deixou de visitá-la. A hospitalidade é, portanto, um encontro bem sucedido entre mistérios: Civilização não quer dizer outra coisa.
Revista Espaço Acadêmico

domingo, 30 de maio de 2010

A esquerda ontem e hoje: o dilema entre igualdade e liberdade

A esquerda ontem e hoje: o dilema entre igualdade e liberdade

Maria Francisca Pinheiro Coelho
Socióloga, professora da Universidade de Brasília. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre o pensamento político da geração de 1968 no Congresso Nacional

RESUMO

Este artigo discorre sobre as idéias da Esquerda na década de 1960 e as mudanças de paradigmas a partir da década de 1990, após a queda do Muro de Berlim e o colapso do socialismo real. Aborda um conflito que perpassa a história do socialismo: a questão dos direitos civis. Analisa também os dilemas da esquerda ontem e hoje, com ênfase na relação entre política e liberdade. Sugere que concomitante com a defesa da justiça social, a identidade de uma esquerda contemporânea se define pela defesa da liberdade como valor fundamental e essência da política.

Palavras-chave: paradigmas da esquerda, socialismo, liberdade política, autoritarismo, democracia.

O que é ser uma Esquerda contemporânea? Em que medida seu passado pode lançar luz sobre o futuro? Essas questões persistem no debate sobre a Esquerda, sua identidade e sua atuação política no momento. Este texto desenvolve uma reflexão com base no dilema entre igualdade e liberdade, considerando como ontem as mobilizações da década de 1960, principalmente o legendário ano de 1968, e como hoje as mudanças no paradigma da esquerda a partir dos anos 80, fundamentalmente após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o colapso do socialismo real, em 1991.

No mundo moderno, os preceitos de igualdade e liberdade, guias da Revolução Americana e da Revolução Francesa, tornaram-se norteadores dos ideais de convivência humana. Todos nascem livres e iguais são as marcas da sociedade moderna que, do ponto de vista jurídico, aboliu as desigualdades fundadas nas diferenças de nascimento e status.

Entre os protagonistas da Revolução Francesa surgiu também o conceito de Esquerda, atribuído aos representantes do povo e das classes médias que se sentavam do lado esquerdo da Assembléia e que enfatizavam a luta pela igualdade, o combate à desigualdade econômica. O dilema entre igualdade e liberdade, como valores integrantes do ideal fundador e regulador da modernidade, vai estar presente na trajetória da Esquerda. As antinomias próprias do capitalismo, sistema promotor da igualdade de direitos, a cidadania, mas ao mesmo tempo reprodutor de desigualdades econômicas e sociais, constituirão alvo das críticas ao sistema, a partir das quais se constrói o campo da utopia socialista.

O referido dilema perpassa os ideais reformistas e socialistas desde o princípio, consistindo-se em termômetro de diferentes concepções políticas. A conhecida tensão é objeto de estudos clássicos no campo das Ciências Sociais. O dilema dá roteiro a uma das grandes polêmicas no pensamento político desde a origem.

Tocqueville (1977, 1979) institui os termos dessa oposição tendencial nas promessas da democracia. Indaga sobre a relação entre esses preceitos no contexto da tendência irrefreável da igualdade na sociedade moderna. Mais do que uma afirmação da excelência da liberdade, busca compreender em termos culturais a menor ou maior estima que os homens têm por ela, na medida em que existem sociedades democráticas que não cultivam o gosto pela liberdade. Reconhece os ganhos proporcionados com as condições de igualdade na democracia, mas sua preocupação central é com a liberdade, a virtude cívica, procurando mostrar aos homens como escapar do que denominou a tirania da maioria.

Em meados do século XX, com o mundo dividido entre os blocos capitalista e socialista e a existência da "guerra fria", a reflexão sobre a liberdade é eixo condutor do pensamento político de Hannah Arendt (1989). A Esquerda, fortalecida com a expansão do socialismo no Pós-Guerra, não recebeu bem sua crítica igualando o totalitarismo de direita e de esquerda, estudado por ela com base na experiência coetânea do nazismo e stalinismo.

Em sua análise, ambos os regimes se sustentam na ideologia do terror, que tem como fundamento a lógica de uma idéia e a ausência de um princípio orientador da ação. Montesquieu utilizou a distinção entre princípios orientadores da ação para classificar as formas de governo. Segundo Arendt, o totalitarismo é uma nova forma de regime, diferente das ditaduras e tiranias do passado, por não ter um princípio orientador da ação e um inimigo visível. O inimigo no totalitarismo é invisível, pode ser qualquer um (Arendt, 1989). O objetivo desse regime é o domínio total e ele se fundamenta na destruição do espaço público e privado, o que leva o homem ao seu desenraizamento da sociedade. Para a autora (1987), sem liberdade não há espaço para a política, a condição humana da pluralidade e atividade política por excelência.

No final da década de 1980, com a queda do Muro de Berlim e, em seguida, o colapso do socialismo real o dilema entre igualdade e liberdade emerge com vigor. O fracasso do modelo socialista do Leste Europeu vai ter profunda repercussão no ideário da Esquerda. No plano das idéias, a reflexão sobre essa oposição tendencial vai ser retomada em estudos de Giddens para além da Esquerda e da Direita (1996) e sobre a terceira via (2001); de Bobbio sobre a validade do conceito de Esquerda (2006); de Jürgen Habermas (2002), Bauman (2003), entre outros, sobre os desafios da globalização, multiculturalismo, inclusão do outro, temas integrantes da agenda atual.

Sob o impacto dos novos acontecimentos, a Esquerda procura redefinir caminhos da luta pela construção da justiça social e traços de um suposto modelo socialista. No entanto, no campo da Esquerda, multifacetado e plural, nem todas as tendências vão adotar uma postura crítica em relação ao passado ou ao modelo concreto utilizados, e ainda novos outros grupos e movimentos são criados cravados na velha tradição.

Este texto argúi sobre a necessidade de redimensionamento do enfoque acerca da liberdade no campo da Esquerda. Se, até a década de 1960, a questão da igualdade se constituiu a sua marca, enquanto a questão da liberdade é a marca do pensamento liberal, após a queda do Muro de Berlim e o colapso do socialismo real não é mais possível postular a oposição nesses termos. Novas estratégias e identidades devem ser inventadas.

A antinomia entre igualdade e liberdade precisa ser enfrentada como forma de sobrevivência e legitimidade da Esquerda contemporânea. Sem nenhuma pretensão de decretar o fim de uma ideologia, percebe-se que, na atualidade, a identidade da Esquerda requer, além da luta pela justiça social, a incorporação da liberdade e da democracia como valores universais.



1

Antes de demarcar os dois períodos, o da década de 1960 e o dos anos 80, e as principais bandeiras da Esquerda nesses momentos, buscar-se-á fazer uma digressão na história do século 20, com o objetivo de identificar o conflito entre igualdade e liberdade que perpassa as divergências no interior da social-democracia na Europa e que levaram à sua principal dissidência, o bolchevismo, tendência predominante na Revolução Russa, de 1917.

O tratamento da questão da liberdade dividiu a esquerda na teoria e na prática até hoje, impedindo-a de construir uma única identidade. Poder-se-sia dizer que sempre existiram duas esquerdas: a democrática e a autoritária. Brandão (1997) refere-se à existência de duas almas do Partido Comunista: a alma democrática e a revolucionária, que defende o levante armado. As duas visões reivindicam o legado marxista (Coelho, 1993).

A origem desse conflito reside na abordagem distinta da questão da liberdade, debate anterior mesmo à tradição marxista. Essa reflexão já está presente no socialismo utópico e no anarquismo. A questão de como conciliar os princípios da igualdade e da liberdade será divisor de águas na polêmica entre anarquistas e comunistas. Contudo, no interior da tradição socialista, que englobará todas essas correntes, o marxismo se transformará na principal tendência.

Vale salientar que uma esquerda democrática não se identifica necessariamente com uma postura não revolucionária. Sua identidade reside em considerar a liberdade como valor fundamental e em agir com o objetivo de preservá-la.

O conceito de liberdade não comporta restrições aos direitos civis, porém há ênfases diferentes quanto à compreensão do conteúdo do conceito. O conceito liberal de cidadania enfatiza o lugar do indivíduo e seus interesses, sem se ater à coletividade. A visão liberal corresponde à liberdade dos modernos, uma liberdade negativa cuja finalidade seria livrar o indivíduo dos constrangimentos legais. A visão republicana ou de liberdade positiva enfatiza a preocupação com a res publica, com o bem coletivo (Belin, 1981).

A concepção republicana de liberdade, se bem que pressupõe a inclusão do conjunto dos direitos fundamentais, valoriza a inserção do indivíduo na vida pública. Não se restringe a uma interpretação individualista de liberdade, de ação voltada para si mesmo, mas tem a conotação de ação no mundo. A liberdade é assim percebida como um conceito nascido da política e a sua própria razão de ser (cf. Arendt, 1972).

Na social-democracia alemã, um exemplo desse entendimento sobre a liberdade é a crítica de Rosa Luxemburgo, integrante da tendência libertário-revolucionária, aos rumos da Revolução Russa. Em escrito de 1918, classificou o regime implantado por Lenin de uma ditadura que não diferia de uma ditadura burguesa nem de um tipo de dominação jacobina. Prognosticou: o não respeito à questão democrática levaria necessariamente a uma barbarização da vida pública, com perseguições, atentados, fuzilamentos. Foi o que aconteceu.

A autora expressa a visão de que, quanto mais democrática a instituição, mais viva e forte é a pulsação da vida política das massas, mais direta e forte a ação que exercem. Em sua crítica, é enfática na defesa da liberdade:

Liberdade somente para os partidários do governo, para os membros de um partido, por numerosos que sejam, não é liberdade. Liberdade é sempre a liberdade daquele que pensa de modo diferente. Não por fanatismo da 'justiça', mas porque tudo quanto há de instrutivo, de salutar e purificante na liberdade política prende-se a isto e perde sua eficácia quando a 'liberdade' torna-se privilégio. (Luxemburgo, 1987, p. 166).

As revoluções socialistas que ocorreram depois da Revolução Russa foram seguidas de supressão das liberdades, implantação de regimes ditatoriais, decretação do partido único, perseguição e aniquilamento de dissidentes. Os que pensavam diferente da orientação política do regime eram perseguidos ou mortos pelo partido, que muitos tinham ajudado a construir. A maior parte das vezes, mortos não porque abdicaram de seus ideais revolucionários, mas porque tinham visões diferentes do processo político-revolucionário.



2

Na década de 1960, o espírito contestador e revolucionário ascendeu nos movimentos liderados fundamentalmente por gerações jovens. Em nenhuma outra década desse século, denominado por Eric Hobsbawm de "era dos extremos", a juventude mostrou tanta força como nessa época. E se houve um momento que correspondeu a um levante mundial simultâneo foi, sem dúvida, 1968.

O crescimento da educação em massa levou ao aumento da demanda no ensino superior, que passou por um período de expansão em todo mundo. Houve uma explosão no número de matrículas, mas existia uma insatisfação com a estrutura das universidades, que não estavam preparadas para as mudanças. Para o historiador, não surpreende, portanto, que a década de 1960 tenha se tornado a década da agitação estudantil por excelência (cf. Hobsbawn, 1995).

Essa década foi marcada pelo confronto de ideologias do Pós-Guerra. A divisão do mundo entre duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, e a existência da "guerra fria" gerava um clima de tensão permanente. A coexistência pacífica entre os dois blocos encobria um estado de guerra latente e políticas de cunho imperialista. Guerras e conflitos localizados faziam parte da disputa pelo controle do mundo.

Existia uma polarização entre os modelos de capitalismo e de socialismo. Rebeliões de juventude e contestações políticas de toda ordem caracterizaram essa década. A coragem e a determinação marcaram as lutas do período contra a guerra do Vietnam, o racismo, a opressão das mulheres, o imperialismo ianque e as ditaduras militares na América Latina.

Em todos esses movimentos os jovens foram os principais protagonistas. Movia-os uma paixão por um mundo melhor. Queriam construir uma nova sociedade, de preferência socialista. Sinceramente, não pareciam medir a relação de forças entre os movimentos e o poder dominante. Estavam dispostos a dar a vida por seus ideais. O ano de 1968 não admitiu neutralidade. O estilo de vida e o modo de pensar expressavam o comportamento dos jovens contra o conformismo e o status quo.1

Influenciados pelo espírito beligerante da época, chegavam mesmo a assumir como libertários modelos autoritários de sociedade. Naquele mundo dual e sem espaço para conciliações, aos gritos de liberdade, eles chegavam a perder a compreensão da liberdade como valor universal. Poucas vozes sensatas alertavam para os perigos iminentes da perda desse valor. Correspondia à separação entre os blocos socialista e capitalista uma nítida divisão entre os campos da Esquerda e da Direita. Os rebeldes não reconheciam que no interior de cada bloco coexistiam ideologias democráticas e autoritárias.

Os ventos da liberdade sopravam tanto no mundo capitalista quanto no socialista. As transformações nos costumes, nas artes, na música, rompiam com posturas retrógradas e inauguravam padrões novos e modernos de comportamento. O movimento feminista se firmava na luta pela igualdade de direitos entre os sexos. A escola de Frankfurt pregava um marxismo humanista, aproximando Marx e Freud. O pensamento de Marcuse inspirava as rebeliões estudantis ao mostrar os paradoxos da sociedade industrial, com sua cultura do consumo. A crítica da sociedade de massa, com seus subprodutos da alienação, uniformidade e conformismo, fortalecia o movimento da contracultura em todo mundo.

O Maio francês, com suas barricadas e a defesa da aliança operário-estudantil, estimulou levantes semelhantes no mundo capitalista. Se nesse sistema as contradições pareciam insuperáveis nos marcos da estrutura social, do lado socialista os problemas não seriam menores. Contudo, apesar das divergências político-ideológicas entre as orientações comunistas, maoístas, trotskistas e castristas, a esquerda na sua essência se mantinha fiel aos pilares do marxismo-leninismo: a revolução socialista e a ditadura do proletariado.

Em agosto de 1968, a crise política manifestou-se no bloco soviético com a invasão da Checoslováquia pelos tanques do Pacto de Varsóvia, reprimindo manifestações que visavam combinar socialismo com liberdades políticas. O movimento, que entrou para a história como a Primavera de Praga, tinha como fundamento um programa de reformas políticas que extinguia a censura e estimulava as pessoas a se encontrarem para discutir e sonhar com uma sociedade aberta, solidária, fraternal e democrática. Em suma, pretendia "construir um socialismo com face humana", o lema do movimento.

Apesar das manifestações contra a invasão da Checoslováquia e dos protestos no interior da própria União Soviética, o movimento em Praga, aos olhos da maioria dos partidos de Esquerda, estava na contramão da história, pois enfraquecia o socialismo. No entanto, outras vozes somaram-se às da Checoslováquia, como a do Partido Comunista Italiano. O secretário do PCI, Luigi Longo, responsabilizou a União Soviética pela invasão. Era a primeira condenação à URSS desde a fundação do PCI, em 1921. Com essa atitude, o partido mantinha-se fiel à sua doutrina do policentrismo, que defendia que cada país realizasse o socialismo da maneira que julgasse mais conveniente.

Por sua vez, a União Soviética justificava a invasão com o argumento de que a Checoslováquia tentava retornar ao capitalismo. Não obstante o protesto de alguns PCs e de grupos trotskistas, esses últimos caracterizando a rebelião de Praga como a emergência de uma revolução política contra o socialismo de Estado, a versão oficial da URSS tornou-se predominante na maioria das organizações de esquerda, inclusive na América Latina.

No cenário internacional, a situação da América Latina agravava-se pela existência das ditaduras militares. O movimento estudantil, que, na maior parte das vezes, - se iniciou com reivindicações específicas no interior das universidades, incorporou a luta política contra os governos militares. No interior do movimento predominavam duas orientações distintas, mas não necessariamente opostas: a reivindicativa e a revolucionária. Essas eram as interfaces do movimento, segundo Foracchi (1972, p. 88):

É difícil precisar os limites dessa distinção, pois, na prática estudantil, elas com frequência se entrecruzavam dissolvendo-se uma na outra. O efeito revolucionário ou reivindicativo, da contestação estudantil, depende da repercussão que alcançam em termos do sistema social, e da capacidade que este mobiliza no sentido de imprimir-lhes uma canalização institucional ou reprimi-las, radicalizando-as.

Os jovens exprimiam o sentimento de indignação da sociedade com o regime político e pertenciam a uma geração disposta a dar a vida pela liberdade.2 Eis a característica principal do movimento estudantil daquele período. A rebelião dos jovens na América Latina logo ecoou como uma luta contra as ditaduras militares. O cenário de 1968 no Brasil, vértice dessa revolução da juventude, não foi diferente de outros países, como descreve Ventura (1988, p. 14):

Na verdade, a aventura dessa geração não é um folhetim de capa-e-espada, mas um romance sem ficção. O melhor do seu legado não está no gesto - muitas vezes desesperado; outras, autoritário - mas na paixão com que foi à luta, dando a impressão de que estava disposta a entregar a vida para não morrer de tédio. Poucas - certamente nenhuma depois dela - lutaram tão radicalmente por seu projeto, ou por sua utopia. Ela experimentou os limites de todos os horizontes: políticos, sexuais, comportamentais, existenciais, sonhando em aproximá-los sempre.

No Brasil, manifestações específicas contra o acordo MEC-Usaid e por mais vagas e mais verbas nas universidades públicas vincularam-se à luta contra o imperialismo norte-americano e a ditadura militar. Era a versão brasileira da palavra de ordem francesa: "Seja realista, exija o impossível." Já no mundo artístico, a bandeira apropriada era "a imaginação no poder". Imersos no clima de rebeldia, os jovens importaram também de Paris o slogan "É proibido proibir", que expressava o desejo de liberação em todos os sentidos. A política tinha primazia sobre as outras atividades, pois tudo era político. "O pessoal é político", era a compreensão da época.

Vivia-se uma revolução social e cultural, no mundo dos costumes e das artes. E a revolução cultural chegava a ser mais abrangente do que o movimento político porque rompia com um estilo de vida. A contracultura manifestava-se como radicalmente oposta às formas tradicionais de criação e, dificilmente, era assimilável à noção racional da política que norteava o movimento estudantil.

A contracultura ultrapassava o nível da ideologia e propunha, como meta, a transformação profunda do estilo de vida moderno, na medida em que esse era culturalmente modelado à imagem da sociedade. Para Foracchi (1972, p. 93), o percurso da "geração à revolução" é tortuoso, principalmente quando se leva em conta que o significado da "revolução" pode ser concretizado, tanto por meio da política com que o movimento estudantil está identificado, quanto no movimento da contracultura em geral, que congrega uma atitude de repúdio às formas de vida possíveis na sociedade moderna.

No Brasil, o ano que começou com passeatas por mais vagas e mais verbas nas universidades públicas terminou com a luta contra a ditadura militar e com a decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro, que fechou o Congresso Nacional e cassou direitos políticos. O movimento estudantil entrou em descenso. O chamado golpe dentro do golpe intensificou a repressão, iniciando o que foi denominado de "anos de chumbo". Porém, mesmo enfraquecido, ao ser colocado contra a parede o movimento reagiu com a palavra de ordem: A luta continua!

Com a intensificação da repressão, boa parte dos grupos de esquerda que atuava no movimento estudantil aderiu à luta armada. O debate político, antes voltado para as manifestações de massa, transportou-se para o campo da guerra popular e da guerrilha. A experiência e os ensinamentos vinham, principalmente, da China, Vietnam e Cuba. Che Guevara, morto em 1967, tornou-se um ícone. Sua imagem, como aquele que unia coragem e ternura, transformou-o no tipo ideal do homem socialista. Das fileiras do movimento estudantil saíram os guerrilheiros nos anos 70.

O movimento estudantil na década de 60 tinha um caráter emancipatório. Seu poder vinha de convicções comuns, da desobediência civil, da confrontação com o poder com base na livre união dos indivíduos contra os instrumentos coercitivos do aparelho estatal, mantido pela violência. Em nenhum outro tempo depois se agiu com tanto desprendimento e paixão, com tamanha ousadia.

Os rebeldes de 1968 se entregaram à luta pela liberdade a todo custo. Seus ideais eram próprios daquele tempo. Movidos pela coragem e pelos desafios da época, nem conseguiam perceber direito os paradoxos existentes de que, ao lutarem pela liberdade, defendiam também regimes autoritários. Após trinta anos, essa foi a crítica de Cohn-Bendit (1998), um dos líderes do Maio francês:

A grande diferença entre os jovens de 68 e os de hoje é que nós não tínhamos medo do futuro. O futuro era nosso e a nossa briga era para vivê-lo como a gente bem entendia. Contudo nós não tínhamos razão em tudo. Falávamos em liberdade, desfilando com o retrato de Mao Tsé-Tung; outros protestavam contra o autoritarismo, carregando o de Fidel ou de Ho Chi Min.

A década de 60 ficou como referência para a Esquerda do mundo todo que, durante anos, reproduziu aquela utopia. O legado da geração de 68 é o de ter assumido um destino coletivo de lutar por um mundo melhor. Nos anos posteriores, vieram as críticas, questionamentos das táticas políticas, mas a opção socialista permaneceu como a matriz da Esquerda. Em seu balanço, tinha valido a pena e ainda valia lutar pela revolução socialista.

Os anos 80 trouxeram novos desafios para o pensamento de Esquerda, com especificidades para o da América Latina e do Brasil. No país, o primeiro deles foi compreender o processo de redemocratização e os novos parâmetros das lutas sociais. Nos movimentos que caracterizam o final do regime militar e a transição política, há um deslocamento da palavra de ordem de "revolução" para "democracia" (Weffort, 1984).

Ao lado da defesa da democracia - antes considerada uma palavra de ordem democrático-burguesa - surge um novo vocabulário nas lutas sociais. No arcabouço da defesa da democracia outros conceitos são incorporados, como os de cidadania e sociedade civil, termos pouco referidos anteriormente. O conceito de democracia como valor universal é incorporado na linguagem da Esquerda (Coutinho, 1984). Entretanto, o socialismo como modelo de sociedade permanece como seu objetivo.



3

O modelo socialista entrou em crise quando, em 1989, o mundo foi surpreendido com a queda do Muro de Berlim e, em 1991, com o fim do socialismo no Leste Europeu. A esquerda mal tinha se reorientado na nova conjuntura política, refazendo bandeiras da década de 60, como substituir o conceito de revolução por democracia, quando vivenciou o fim de uma utopia. Na época, já lidava com alguma teorização sobre a importância das bandeiras democráticas, mas o marxismo-leninismo ainda permanecia como forte representação no seu arquétipo político.

Com o fim do socialismo real, o debate em torno da democracia e da liberdade ganhou prioridade. Na teoria e na prática tornou-se insustentável a defesa do socialismo sem a garantia das liberdades democráticas. Com isso, propostas que antes integravam o programa da esquerda - como a ditadura do proletariado, ou distinções como partidos burgueses, partidos revolucionários de massa e partidos quadros - herdadas da ortodoxia marxista-leninista, perderam a pretensão de legitimidade.

Mesmo que já existissem críticas ao socialismo de Estado, foi com o colapso do socialismo real que a defesa desse modelo tornou-se insustentável. Serge (1987), intelectual bolchevique dissidente, registrou em suas memórias as perseguições e mortes do partido, ainda sob o comando de Lenin. Michels (1972), com base na análise da estrutura e organização dos partidos operários de massa, descreve o processo de formação das oligarquias partidárias, fenômeno que denominou de "lei de ferro das oligarquias".

Arendt, como foi mencionado, criticou o totalitarismo soviético, mas não assistiu à sua queda. Em 1970, cinco anos antes de sua morte, em entrevista concedida ao escritor alemão Adelbert Reif, negou-se a fazer comparações entre o capitalismo e o socialismo como modelos opostos, situando no centro da discussão a questão dos direitos civis e da própria compreensão da política:

Liberdade é liberdade quer seja garantida pelas leis de um governo 'burguês' ou por um Estado 'comunista'. Do fato de que os governos comunistas não respeitam hoje os direitos civis e não asseguram liberdade de expressão e associação não decorre que tais direitos e liberdade sejam 'burgueses'. [...]

Eu repito: a questão é pura e simplesmente se eu posso falar e imprimir o que eu quiser, ou se não posso; se meus vizinhos me espionam ou não. Liberdade sempre implica liberdade de divergir. (Arendt, 1999, p. 190).

Após a queda do socialismo real, reacende-se um debate sobre a própria pertinência dos conceitos de esquerda e direita, na medida em que surgiram questionamentos sobre os fundamentos dessa distinção. Bobbio vai defender a validade do uso desses conceitos. Argumenta que o traço distintivo da Esquerda é o de ressaltar o princípio da igualdade, sem abrir mão, evidentemente, do princípio da liberdade. Segundo ele, é papel da Esquerda manifestar sua indignação com as iniquidades sociais:

Nenhuma pessoa de esquerda (sinistrorso) pode deixar de admitir que a esquerda de hoje não seja mais a de ontem. Mas, enquanto existirem homens cujo empenho político seja movido por um profundo sentimento de insatisfação e de sofrimento perante as iniquidades das sociedades contemporâneas - hoje talvez menos ofensivas do que em épocas passadas, mas bem visíveis -, eles carregarão consigo os ideais que há mais de um século têm distinguido todas as esquerdas da história. (Bobbio, 1995, p. 23-24).

Giddens assevera que há um esgotamento da Esquerda nos moldes tradicionais, todavia afirma que o neoliberalismo igualmente está em crise. Sugere como proposta alternativa aos dois modelos a política da terceira via:

A terceira via se refere a uma estrutura de pensamento e de prática política que visa a adaptar a social-democracia a um mundo que se transformou fundamentalmente ao longo das duas ou três últimas décadas. É uma terceira via no sentido de que é uma tentativa de transcender tanto a social-democracia do velho estilo quanto ao neoliberalismo. (Giddens, 1996, p. 36).

De acordo com o autor, a terceira via consiste em uma social-democracia revigorada. Suas principais características são: a democratização da democracia; a reflexividade social; o resgate do conceito de público para além do Estado. A reflexividade social baseia-se em uma dimensão dialética que reúne interação social e cidadania ativa. A proposta da terceira via visa à responsabilidade pessoal, à reconstrução das instituições públicas e ao fortalecimento da sociedade civil.



4

No século 21, após tantos reveses na história da esquerda, não é mais possível pensá-la nos marcos do passado, da desapropriação da propriedade privada e da ditadura do proletariado. Por sua vez, a esquerda de 1968 que, com sua utopia, transformou a visão tradicional do mundo, se nutriu muito desse modelo. A esquerda depois da queda do Muro de Berlim sofreu grande golpe. Qual sua identidade no momento?

Uma nova esquerda se caracteriza pelo resgate definitivo do conceito de liberdade e pela rejeição a qualquer forma de autoritarismo. Seu perfil se define pela identidade com o interesse público. A geração de 1968 demonstrou a importância da participação na vida pública e como a dimensão da política pode modificar as pessoas. Ao participar da vida pública, aquela geração descobriu a 'felicidade pública' que significa abrir para si uma dimensão de experiência humana que, de outra forma, não desenvolveria.

A política, no sentido da ação compartilhada na vida pública, possibilita que os indivíduos atinjam sua plena realidade como homens, na medida em que não apenas existem para eles mesmos, mas aparecem para os outros. Essa é a origem da postura ética: aparecer para si mesmo como gostaria de aparecer quando visto pelos outros.

De acordo com autores citados, pode-se dizer que a única Esquerda que hoje pode falar alguma coisa para o futuro tem de ser democrática, que define o sentido da política como coisa pública, que se compromete com a defesa da cidadania, e que luta pela justiça social. Em suma, que não abdica da defesa da liberdade como valor fundamental e razão de ser da política.

Notas

Revista Sociedade e Estado - UNB

domingo, 7 de março de 2010

O “Fim da História”, de Fukuyama, vinte anos depois: o que ficou?


O “Fim da História”, de Fukuyama, vinte anos depois: o que ficou?
por Paulo Roberto de Almeida
21/01/2010
1. O que restou, vinte anos depois, da tese controversa de Fukuyama?

No verão de 1989, a revista americana National Interest publicava um ensaio teórico – mais exatamente de filosofia da História – do intelectual nipo-americano Francis Fukuyama sobre os sinais – até então simplesmente anunciadores – do fim da Guerra Fria, cujo título estava destinado a deslanchar um debate ainda hoje controverso: “The End of History?”.[1] Vinte anos depois, em vista das muitas críticas feitas naquela conjuntura – e ainda hoje – às principais teses do autor, vale a pena retomar seus principais argumentos e verificar se eles ainda conservam alguma validade para nossos tempos, que poderiam ser considerados como de pós-Guerra Fria, mas que alguns interpretam, ou consideram efetivamente, como de volta à Guerra Fria, ainda que sob novas modalidades (com uma Rússia singularmente diminuída e uma China hesitante em se posicionar como contendor estratégico dos Estados Unidos).

Antes, contudo, de ingressar numa descrição linear desses argumentos, qualquer que seja sua validade relativa ou absoluta para o tema que nos interessa – qual seja, o da natureza das opções abertas aos países em termos de reforma e desenvolvimento paralelos do sistema econômico e do regime político, que Fukuyama identificava com a redução dessas opções à democracia de mercado – cabe chamar a atenção para uma peculiaridade geralmente descurada no debate anterior (e talvez atual) sobre a validade das teses de Fukuyama, sobretudo por aqueles que recusavam, in limine, a essência mesma do argumento do autor. Esta peculiaridade tem a ver, basicamente, com um simples sinal diacrítico: o ponto de interrogação ao final do título, geralmente ignorado pelos críticos das teses de Fukuyama, e provavelmente também por aqueles que apóiam, em grande medida, o sentido dos seus argumentos. Ou seja, Fukuyama não fazia uma afirmação peremptória, mas levantava uma hipótese, a do final presumido da história, numa análise de corte essencialmente conceitual, ainda que fortemente embasada nos fatos históricos, e nunca pretendeu formular uma sentença de caráter terminativo, indicando um “congelamento” das formas possíveis de organização social, econômica e política. O interrogante básico de seu argumento tem a ver com a possibilidade de alternativas credíveis às democracias liberais de mercado, ponto.

O ponto de interrogação, por si só, tem o poder de desmantelar boa parte das críticas superficiais, embora ele não elimine uma discussão responsável sobre a essência de sua tese, que caberia discutir, após o resumo inicial de seus argumentos. A tese – vale a pena resumir desde o início – tem a ver com o caráter incontornável da democracia de mercado como sendo uma espécie de ‘horizonte insuperável de nossa época’, como poderia argumentar – mas a propósito do marxismo – Jean Paul Sartre, um dos estudantes, junto com Raymond Aron, da tese original de Hegel, através de Alexandre Kojève.


2. O que Fukuyama de fato escreveu?

A tese principal era a de que, após um século de emergência e declínio dos regimes fascistas e comunistas, de enormes turbulências políticas e de crises econômicas, de contestação intelectual e prática ao liberalismo econômico e político de corte ocidental, o mundo estava retornando ao seu ponto inicial, qual seja o do triunfo inquestionável – an unabashed victory, nas palavras de Fukuyama – do sistema liberal ocidental. Segundo ele, tratava-se de um triunfo da “idéia ocidental”, tornada evidente pela exaustão das alternativas viáveis ao liberalismo ocidental. Esse triunfo era mostrado, em primeiro lugar, pela disseminação da cultura consumista ocidental nos dois países mais importantes do ‘mundo alternativo’, a China e a União Soviética (cabe registrar, imediatamente, que em nenhum momento de sua análise, Fukuyama esperava a dissolução imediata do regime monocrático e o rápido desaparecimento do próprio império soviético). Como ele mesmo observou logo ao início do artigo, “a vitória do liberalismo ocorreu primariamente no domínio das idéias, ou da consciência, e é ainda incompleto do mundo real ou material”.

Mas como afirmou, logo em seguida, o próprio Fukuyama, “há razões poderosas para acreditar que é essa idéia que irá governar o mundo real no longo prazo” (ênfase original). Se aceitarmos o conhecido aforismo keynesiano, segundo o qual, a longo prazo, todos estaremos mortos, essa afirmação do cientista político americano o deixa inteiramente à vontade para acomodar quaisquer desenvolvimentos políticos e econômicos imediatos e de médio prazo, retirando sua responsabilidade sobre a validade de sua tese na perspectiva do cenário de curto prazo. Esse fato pode transformar sua tese principal no equivalente acadêmico dessas previsões de cartomantes ou adivinhos, que deixam a um futuro indefinido a realização de seus exercícios de futurologia amadora, mas caberia aceitar, em princípio, as premissas de Fukuyama como uma proposta passível de discussão apoiada em metodologia rigorosa.

Em todo caso, seu texto engajava, a partir daí, uma discussão em torno das questões teóricas relativas à natureza da mudança histórica, processo que ele remonta a Hegel e Marx, sobretudo o primeiro, formulador da teoria do progresso na história universal.[2] O fim da história, na concepção hegeliana (tal como interpretada por Kojève), estava identificado com a afirmação dos princípios do direito universal à liberdade e da legitimação de um sistema de governo apenas com o consentimento e a aprovação explícita dos governados, o que foi chamado de “Estado homogêneo universal”. Uma vez que todas as contradições anteriores já teriam sido resolvidas com a aceitação e por meio do estabelecimento desse Estado – e como, para Hegel, o mundo real deveria corresponder ao mundo ideal, pelo menos aquele que figurava na cabeça do filósofo –, então não existiriam mais espaços para conflitos de maior escopo em torno da organização política desse Estado, restando apenas encaminhar e resolver os pequenos problemas da atividade econômica e da política corrente. O mundo se converteria, então, numa simples “administração das coisas”, segundo a frase de Engels para representar a situação das sociedades humanas na fase pós-socialista, quando supostamente já não mais existiriam a exploração dos trabalhadores e a dominação política sobre os homens.

Obviamente, Hegel não era tão simplista como a exposição acima poderia sugerir, sobretudo com esse ‘idealismo filosófico’ de equalizar o mundo ideal ao mundo real. Para o filósofo alemão – mais especificamente prussiano, talvez –, as contradições existentes no mundo real se formam a partir de um conflito de idéias, ou seja, de diferentes concepções sobre como deveria ser organizado o mundo real da política e da economia. As distinções entre um mundo e outro seriam apenas aparentes, posto que as idéias que encontravam abrigo na consciência dos homens acabariam por se tornar necessidades do mundo real, fechando assim o ciclo de realização da idéia universal.[3]

A consequência prática dessa concepção seria a de que, posto que as democracias de mercado provaram sua capacidade de não apenas resistir aos desafios colocados por crises econômicas e por guerras devastadoras, mas também de atender aos requerimentos suscetíveis de trazer prosperidade e riqueza a todos os países que aderiram a seus princípios organizadores, elas estavam habilitadas a cumprir seu mandato hegeliano de realizar o ‘Estado universal homogêneo’, fechando, assim, um ciclo completo da história. À pergunta – sempre o ponto de interrogação – de saber se chegamos ao fim da história, deve-se agregar esta outra, sobre se existem contradições tão fundamentais na vida humana que não possam ser encaminhadas através de qualquer outra forma alternativa de estrutura político-econômica que não o liberalismo moderno de mercado. Não se trata de saber o que pode ocorrer, em termos práticos, na Albânia ou em Burkina Faso, mas o que importa, realmente, em termos de ‘herança ideológica comum da humanidade’.

Como indica corretamente Fukuyama, no decorrer do século 20, foram dois os desafios mais importantes ao liberalismo político e econômico: o fascismo e o comunismo. Ambos poderiam, na verdade, ser abrigados sob o conceito comum de regimes anti- ou aliberais, no terreno político, e sob o conceito de sistemas coletivistas no domínio econômico (embora o comunismo, ou o socialismo soviético, tenha sido muito mais ‘coletivista’ do que o fascismo). Tendo este último sido enterrado sob os escombros da Segunda Guerra Mundial, restava o comunismo, que, no momento em que Fukuyama redigia seu panfleto hegeliano, ainda não tinha sido enterrado de vez. Essa recordação é importante: afinal de contas, na segunda metade de 1988 e o início de 1989, quando Fukuyama redigiu seu ensaio especulativo, Gorbachev ainda se debatia para implementar sua glasnost e sua perestroika, destinadas, como se sabe, não a enterrar o comunismo, mas a introduzir elementos de mercado em seu funcionamento efetivo, de maneira que a nova NEP sob o comando de um reformista do Partido Comunista pudesse assegurar a continuidade do sistema e do império; por outro lado, a China de Deng Xiao-Ping exibia, naquela conjuntura, apenas 20% de sistema de mercado como locus da produção global do país e, ao que se sabe, a plutocracia do PCC pretende, até hoje, construir um fantasmagórico “socialismo de mercado com características chinesas”.[4]

Fukuyama não deixa de ironizar o fato de que entre os maiores opositores do marxismo e das economias coletivistas nos países ocidentais estão os ‘perfeitos materialistas’ de Wall Street, que cultivam o mais acirrado anticomunismo e não deixam de ser defensores de princípios similares aos dos marxistas. Como ele escreve: “A inclinação materialista do pensamento moderno é uma característica não apenas do pessoal da Esquerda, que podem ser simpáticos ao Marxismo, mas de muitos antimarxistas passionais também. De fato, existe na direita o que se poderia rotular de escola do Wall Street Journal do materialismo determinista, que relativiza a importância da ideologia e da cultura e vê o homem como sendo essencialmente um indivíduo racional, maximizador dos lucros. É precisamente esse tipo de indivíduo e a sua busca de incentivos materiais que aparece como a base da vida econômica nos manuais de economia.”

Não se trata de mera ironia gratuita, pois como lembra em seguida Fukuyama, é essa mesma escola do materialismo determinista de Wall Street Journal que aponta para os notáveis sucessos de países dinâmicos da Ásia nas últimas décadas como uma evidência da viabilidade da economia de mercados livres, com a implicação decorrente de que todas as sociedades poderiam conhecer desenvolvimentos similares se elas simplesmente deixassem as pessoas perseguirem livremente seus interesses materiais. O próprio Fukuyama aponta para os elementos “ideais” presentes nessa transformação e na ulterior transição do socialismo ao capitalismo, ao dizer que os dirigentes dessas fracassadas experiências do socialismo real já tinham constatado há muito tempo que o sistema simplesmente não funcionava. Registre-se que Fukuyama escrevia antes que o socialismo implodisse de fato e que os chineses formalizassem sua receita original de transição do socialismo ao capitalismo, com as justificativas teóricas disponíveis, o que foi feito apenas a partir de 1991-92.


3. Fukuyama tinha razão?

Na terceira parte de seu ensaio, Fukuyama se pergunta se atingimos, de fato, o fim da história. “Existem, em outras palavras, quaisquer ‘contradições’ fundamentais na vida humana que não possam ser resolvidas no contexto do liberalismo moderno, e que poderiam ser solucionadas por uma estrutura político-econômica alternativa? Se aceitarmos as premissas idealistas expostas acima, precisaremos buscar uma resposta a esta questão no terreno da ideologia e da consciência.” Seria verdade essa firmação de Fukuyama, em sua época e ainda hoje?

A proposta de Fukuyama sobre o “fim da História”, apresentada com um suporte hegeliano aparentemente consistente, é de tão fácil aceitação, do ponto de vista intelectual, quanto desprovida de maior importância explicativa, do ponto de vista prático. Em sua roupagem puramente acadêmica, ela oferece um excelente terreno de manobras para divagações ‘inocentes’ sobre o “triunfo definitivo” do liberalismo ocidental. Quando se trata, no entanto, de – parafraseando a décima-primeira tese de Marx sobre Feuerbach – não mais “interpretar” o mundo, simplesmente, mas de “transformá-lo”, verdadeiramente, essa nova tese ‘jovem hegeliana’ perde-se em seu próprio ‘pântano’ ideológico.

Em outros termos, se a História realmente aproxima-se de seu final filosófico — isto é, se a Razão exauriu as possibilidades conceituais de explicar o Real — e se a organização formal do mundo material confunde-se com sua atual configuração histórica, isto não quer dizer que a história esteja perto de seu final concreto — isto é, que o Real tenha esgotado de vez as possibilidades práticas de ordenar o mundo em conformidade com o reino da Razão — ou que a organização material do mundo potencial esteja limitada a um determinado sistema sócio-político. Sem dúvida alguma, muito ainda resta a ser feito para que o homem comum possa trabalhar pela manhã, pescar na hora do almoço e dedicar-se à filosofia pela tarde, como queria o Marx hegeliano da juventude. Em todo caso, a maior parte da humanidade não foi ainda advertida sobre essas novas possibilidades de épanouissement individuel.

Para ser honesto com Fukuyama, sua tese é basicamente correta em sua aparente simplicidade propositiva: não há mais contestação ideológica possível – de origem ‘socialista’, entenda-se bem – à hegemonia filosófica, política e econômica do liberalismo ocidental. Este último emergiu claramente vencedor das contendas ideológicas do período de Guerra Fria; mas não apenas ideológicas, as práticas também: com efeito, o socialismo não foi ‘derrotado’ pelo capitalismo, de qualquer forma concreta e visível, ele simplesmente implodiu pela sua absoluta incapacidade de produzir, não mísseis nucleares, mas meias de nylon. Parodiando o autor da Critique de la Raison Dialectique, até se poderia adivinhar a brincadeira outre-tombeque, a propósito do liberalismo ocidental, Aron dirigiria contra Sartre: à diferença do marxismo, ela, sim, a economia liberal de mercado, teria se tornado o “horizonte insuperável de nossa época”.

É altamente improvável, porém, que Aron concordasse com a previsão de Fukuyama sobre os états d’âme associados a um liberalismo fin-de-siècle: uma clara época de tédio (a very sad time, prospects of centuries of boredom, como diz Fukuyama), marcada pela preocupação quase que exclusiva com exigências materiais, sem as experiências ‘heróicas’ ou ‘excitantes’ que todo período maniqueísta sabe suscitar. Relativamente pessimista – dotado de um scepticisme serein, preferiria dizer ele mesmo – no que se refere às realidades dos Estados e dos sistemas de poder existentes, Aron não alimentaria nenhuma ilusão quanto a que o alegre ‘enterro do socialismo’ operado na última década do século 20 pudesse conduzir a uma ‘primavera das democracias’ razoavelmente estável ou a uma versão atualizada da ‘paz universal’ prometida em meados do século 18 por um prelado francês, e um pouco mais tarde pelo próprio Kant.[5]

Em todo caso, a anarquia política característica da ordem inter-estatal contemporânea, bem como os enormes diferenciais de recursos e de poder entre os Estados, no quadro de um sistema internacional ainda fortemente hierarquizado, parecem garantir um “fim da História” bem movimentado para os atores que continuarem a participar desse cenário ‘pós-socialista’. De fato, não é credível que disputas hegemônicas e conflitos de poder venham a termo apenas porque a superestrutura ideológica do sistema mundial foi transformada pelo súbito desaparecimento de um dos seus pólos, uma ‘invenção’ mal concebida de engenharia social, mais mal implementada ainda, que num certo momento fez ‘tilt’, deu dois suspiros e depois morreu, sem choro e sem vela (bem, ocorreram, sim, algumas lágrimas e condolências sentidas de algumas viúvas do comunismo e de órfãos do socialismo, aqui mesmo no Brasil).

Entendamo-nos bem: Aron certamente não se importaria em que os aléas de l’Histoire conduzissem a Humanidade a um fin-de-siècle bem pouco aroniano, isto é, livre de uma vez por todas da terrível ameaça do holocausto nuclear. Mas, para ele, a superação da Machtpolitik da era bipolar não significava em absoluto que as relações internacionais contemporâneas – e presumivelmente as do futuro próximo – passassem a ser desprovidas, mesmo num cenário multipolar, de todo e qualquer elemento de ‘política de poder’. A despeito da crescente afirmação do primado do direito internacional – ou seja, da ‘força da razão’ — a Machtpolitik continuaria a existir por largo tempo ainda, inclusive em seus aspectos mais elementares de exercício puro e simples da ‘razão da força’.

A diferença está, provavelmente, em que, no cenário otimista traçado por Fukuyama, o desafio ideológico representado pelo socialismo – the socialist alternative, em suas palavras – simplesmente deixou de existir. Mesmo imaginando-se (no l’au-delà) o ‘sorriso cético’ de Raymond Aron – que, todavia, nunca reduziu o confronto inter-imperial a um mero enfrentamento ideológico –, não podemos descartar, de plano, a versão revista e melhorada por Fukuyama da tese de Bell sobre o ‘fim das ideologias’. Para fins do argumento em espécie, isto é, para a conformação de nosso ‘retorno ao futuro’ do socialismo, a differentia specifica representada pelo afastamento do concorrente ideológico pode ser funcionalmente explicativa para justificar um futuro “estado universal homogêneo” ao estilo hegeliano.

Numa época em os modernos ideólogos identificaram, repetidas vezes, sinais de “fim das ideologias” (ou, agora, do próprio “fim da História”), perde-se facilmente a visão de como o elemento ideológico influenciou a construção do mundo contemporâneo. O Ocidente em geral, nos últimos setenta anos, e a Europa em particular, nos últimos quarenta anos, viveram sob o signo das relações Leste-Oeste. Sua face mais ameaçadora produziu o que, acertadamente, ficou identificado sob o conceito de “guerra fria”. Depois de pelo menos quatro décadas de livre circulação, essa verdadeira hantiseestratégico-ideológica parece agora ter-se finalmente encaminhado para o museu das antiguidades, ao lado do machado de bronze e da roca de fiar (como diria Engels).

A Guerra Fria entre as duas superpotências, que marcou indelevelmente toda a história da segunda metade do século 20, não foi, provavelmente, apenas um produto de ideologias conflitantes. Mas, foram certamente as racionalizações políticas e militares construídas a partir das “intenções malévolas” do concorrente estratégico que lhe deram uma dimensão jamais vista nas antigas disputas hegemônicas (seja entre os impérios da antiguidade clássica, seja entre os Estados-nacionais da era moderna). Mais que tudo, foi a crença ideológica – quase religiosa, podemos dizer – em uma missão histórica especificamente socialista, qual seja, a de enterrar não apenas o inimigo burguês, mas o próprio modo de produção capitalista, que exacerbou tremendamente o ‘conflito ideológico global’ (como diriam os generais da geopolítica), levando-o, em algumas ocasiões, ao limiar da escalada nuclear.

O afastamento da “espoleta ideológica” – a iskra leninista – do socialismo, antecipada pela tese sobre o “fim da História”, significaria agora que o mundo estaria encaminhando-se, finalmente, para uma era de paz (ou pelo menos de não-guerra) ? Descartando-se a permanência dos chamados conflitos regionais e das guerras locais conduzidas por motivos étnicos ou territoriais, é provável que sim, mas, isto tem pouco a ver com o fim do desafio socialista: o abafamento das paixões bélicas nas sociedades contemporâneas é mais o resultado de mudanças substantivas na ordem econômica global do que devido a motivos de natureza política ou ideológica (a falência do socialismo, finalmente, não significou apenas a bancarrota de uma idéia, mas o esboroamento de todo um ‘modo de produção’).

Com efeito, querer responsabilizar a ideologia socialista pelas “guerras de religião” contemporâneas (algo de que não se pode acusar Fukuyama) nada mais significa senão uma racionalização filosófico-sociológica a posteriori pouco condizente com uma realidade histórica muito mais complexa que todas as vãs “filosofias da história”, mesmo em versão supostamente hegeliana. Num século marcado pelas ideologias, o socialismo não foi, de longe, a mais belicista ou a mais agressiva delas, perdendo para o fascismo em várias frentes.

Um exame imparcial da história do período anterior a 1945, mostraria que não foi a oposição entre,’– conceda-se-lhes, cum grano salis, o epíteto de marxistas – que provocou o quadro de instabilidade política e militar durante a primeira metade do século 20 e que precipitou os conflitos que retirariam definitivamente da Europa as alavancas do poder mundial. Ao contrário, foram os conflitos de natureza quase “feudal” – como diria o historiador Arno Mayer[6] –, latentes no continente europeu desde finais do século 19, que permitiram o surgimento do poder socialista e, com ele, do conflito ideológico global. Basta com mencionar a ação agressiva das novas potências da mittelEuropa para escapar ao cerco das velhas potências imperiais, ou o papel das ideologias fascistas do “espaço vital” e da “regeneração nacional” no entre-guerras, para dar a exata dimensão da responsabilidade do socialismo no caótico quadro político-militar da modernidade. A ‘ameaça socialista’ sempre foi menor do que se imaginou e poderia mesmo ter sido simplesmente irrelevante, para todos os efeitos práticos, não fosse por um desses imponderáveis do acaso – os famosos ifs da história virtual – que costumam esconder-se nas já mencionadas dobras da História.

Não se deve, com efeito, esquecer que o surgimento da dimensão Leste-Oeste no contexto político europeu é virtualmente o resultado prático de um pequeno, mas fecundo, ‘acidente’ histórico, desencadeado involuntariamente por um dos beligerantes durante a Primeira Guerra Mundial: o retorno à Rússia de um punhado de bolcheviques exilados, praticamente desanimados pela ausência de perspectivas revolucionárias em sua terra natal. O voluntarismo oportunista da diplomacia do Kaiser, que buscava apenas provocar um pequeno “tremor” político na frente de guerra oriental, podendo servir a interesses militares imediatos, transformou-se porém em cataclismo histórico de proporções inimagináveis, dando nascimento aliás ao próprio conceito de relações Leste-Oeste.

Uma vez instalado o novo poder bolchevique, as diversas intervenções das potências ocidentais em território russo (ou soviético) contribuíram mais para alimentar a oposição ideológica irredutível com os países capitalistas do que uma suposta “luta de classes” em escala internacional. No segundo pós-guerra, igualmente, a busca constante do rompimento do ‘cerco imperialista’ era mais ditada por considerações de natureza estratégica (segurança militar) do que por reflexos de princípios ideológicos. Para Stalin, por exemplo, a razão de Estado sempre teve preeminência sobre o ‘internacionalismo proletário’, este último invariavelmente servindo de disfarce ideológico aos interesses do Estado soviético. Exatamente por causa da a razão de Estado, que prevalece sobre as ideologias, não existe um “fim da história”, como o próprio Fukuyama reconhece ao final de seu ensaio.


4. Do fim da História ao fim da Geografia

Seja qual for o destino futuro da ‘ideologia socialista’, seu itinerário terá pouco a ver com o ocaso da História. Na verdade, estamos assistindo, não tanto ao fim da História, quanto, mais propriamente, aos limites da Geografia, a partir da crescente globalização dos circuitos produtivos e da interdependência acentuada das economias desenvolvidas. O próprio Fukuyama observou que o desafio da alternativa socialista nunca esteve, realmente, no terreno das possibilidades concretas no Atlântico norte, região de capitalismos bem estabelecidos e de democracias de mercado relativamente estáveis – com a exceção, talvez, da periferia mediterrânea – e que o sucesso dessa alternativa foi, na verdade, sustentado por experiências em sua periferia: na Ásia, na África e numa simples ilha da América Latina.

De fato, foi na Ásia onde o socialismo conseguiu alguma penetração duradoura – hoje largamente simbólica – mas é nas universidades públicas da América Latina – em grande medida medíocres em termos de produção humanística significativa – onde o marxismo esclerosado ainda consegue uma ridícula sobrevivência, embora desprovido de qualquer inovação filosófica ou de melhorias significativas nas suas propostas econômicas relevantes.[7] Não se imagine, contudo, que o disfarce ‘socialista’ da liderança plutocrática chinesa constitua um sobrevivência qualquer da ideologia marxista, ou que ela represente um desafio fundamental ao capitalismo real: os líderes chineses, desde Deng Xiao-Ping, perceberam que a sobrevivência do ‘comunismo’ na China só se daria por obra e graça do capitalismo, e à sua construção eles vem se dedicando com extraordinário esforço e o zelo engajado dos verdadeiros crentes, os ‘novos cristãos’ da verdadeira fé nas virtudes do regime de mercados.

O que está em causa, obviamente, não é o futuro, sequer o destino do socialismo, mas pura e simplesmente o poder político nas mãos dos novos mandarins chineses, uma nova classe basicamente similar à antiga nomenklatura soviética, mas que foi esperta o bastante para construir um sistema de dominação que transforma os novos capitalistas em seus aliados permanentes, posto que, como ensina Fernand Braudel, o capitalismo só triunfa, de verdade, quando ele transforma em Estado, quando ele é o Estado.[8] Alguns observadores já chamaram esse novo sistema de “corporativismo leninista”,[9] mas o nome, na verdade, importa menos do que a realidade tangível do novo sistema chinês: esse sistema é essencialmente capitalista, mesmo se ele não é democrático e muito menos liberal, no sentido político da palavra; mas as políticas econômicas mobilizadas são, no seu sentido básico, de corte liberal. Aliás, em vista da crise econômica mundial de 2008-2009, vários outros observadores se perguntaram se, depois do ‘comunismo’ chinês ter sido salvo pelo capitalismo, não seria ele agora, pela pujança da demanda e da produção manufatureira de alcance global, a salvar o capitalismo. Ao que se sabe, o ensaio de Fukuyama não recebeu uma edição revista e atualizada para poder capturar esta última ‘astúcia da Razão’, ou essa “artimanha da História”, uma ironia suprema que seria bem recebida por Marx, mas certamente não por Lênin e seguidores.


5. Existem opções aos órfãos do socialismo?

Não é seguro que uma alternativa credível em termos de sistema econômico e político se apresente nos palcos da História, ainda que as viúvas do comunismo e os deserdados da causa mantenham uma esperança quase religiosa – que se renova febrilmente a cada crise do capitalismo – de que isso seja possível em suas vidas terrenas. O mais provável é que as últimas ‘terras incógnitas’ do capitalismo realmente existente – que são alguns tresloucados ‘socialistas do século 21’, perdidos em seus próprios desastres econômicos, e um punhado mais numeroso de satrapias africanas, mas que não constituem Estados, no sentido hegeliano do termo – se juntem à locomotiva da interdependência econômica mundial em algum momento deste século: embora atrasados, eles também serão bem-vindos, mesmo que tenham de desempenhar funções subalternas no trem do capitalismo, até sua própria qualificação produtiva.

Alternativas políticas à democracia liberal sempre podem existir, posto que as molas do poder respondem em grande medida mais às paixões humanas – o que os dramaturgos gregos, Shakespeare e Maquiavel já sabiam desde sempre – do que aos mecanismos de produção e de distribuição de ativos reais, e isto vem sendo provado a cada instante da história mundial. Não se imagina, porém, que o ‘som e a fúria’ da luta pelo poder, nas comunidades contemporâneas conduza a novos tipos de conflitos globais como os conhecidos desde a era napoleônica até a ‘segunda guerra de trinta anos’ do século 20. Nenhuma Realpolitik se exerce da mesma maneira depois que o gênio do poder nuclear saiu da garrafa.

Aliás, a Realpolitik da atualidade tem um novo nome, superioridade tecnológica, e o cenário de seu desenvolvimento é a própria weltwirtschaft, a economia mundial, num mundo cada vez mais borderless, ou seja, sem fronteiras. Com efeito, assiste-se hoje em dia a um deslocamento de hegemonias, menos devido à força das canhoneiras do que ao peso dos navios cargueiros (a China, por falar nisso, possui os maiores portos do mundo). Mais exatamente, a tendência não é mais à constituição de rivais imperiais, mas ao estabelecimento de competidores mais eficazes, guerreiros de uma nova espécie, que buscam não tomar de assalto velhas fortalezas, mas inundá-las com pacíficos obuses eletrônicos, manufaturados segundo os mais modernos requisitos da tecnologia.

Os cavaleiros mais dinâmicos dessa nova ordem mundial consideram os arsenais nucleares como catapultas pouco práticas do ponto de vista das modernas técnicas de conquista, da mesma forma que eles tendem a desdenhar os conflitos ideológicos como querelas teológicas de reduzido poder agregador: os hábitos de consumo unificam mais os povos, hoje em dia, do que as velhas crenças. Teutônicos ou samurais, mandarins ou gurus da nova era, os novos cavaleiros da economia mundial não buscam exatamente dominar ou converter outros povos, mas tão simplesmente extrair recursos pela via comercial.

A estratégia econômica desses novos cruzados é verdadeiramente internacional, no sentido mais planetário do termo: busca de vantagens comparativas dinâmicas, rápido deslocamento geográfico de fatores, divisão racional de mercados, em suma, uma globalização acabada dos circuitos produtivos e de distribuição. A característica mais saliente dessa nova ordem mundial é a crescente interdependência dos países mais inseridos na economia de mercado. Mas, assim como na fábula orwelliana sobre a ‘igualdade’ na fazenda ‘socialista’ dos animais, nessa nova ‘fazenda capitalista’ das nações, alguns membros são mais ‘interdependentes’ do que outros. Não se trata apenas de saber quem é mais ‘transnacional’ nessa confraria, mas sim de determinar quem melhor sabe maximizar os mecanismos de controle da racionalidade instrumental própria à economia de mercado: o lucro e o investimento produtivo.

Assim, se o “fim da História” – compreendido não no sentido de que o mundo estaria a ponto de se tornar um porto tranquilo para o exercício da democracia política, mas no do término da busca dos princípios fundamentais que devam reger a organização da sociedade – está ou não próximo de converter-se em realidade, esta é uma questão ainda em aberto. Uma alternativa política ao liberalismo ocidental não parece, em todo caso, perto de nascer. Isto não quer dizer que não existam alternativas práticas, reais, à democracia burguesa, como o próprio caso da China o demonstra. O que se pretende constatar é que o sistema chinês de dominação política não oferece atrativos para qualquer país que se pretenda ‘normal’ no quadro da interdependência contemporânea: ele simplesmente não constitui um modelo que possa ser replicado em caráter voluntário por outras comunidades políticas. Não fosse assim, a plutocracia chinesa não precisaria manter um formidável aparato de repressão, disseminar a censura pelos terrenos sempre fugidios da internet, condenar a condenar “dissidentes” e “violadores da legalidade” com o mesmo ardor – embora com menor brutalidade – que seus antecessores declaradamente marxistas-leninistas. A tese de Fukuyama, em seus contornos filosóficos, ainda não foi desmentida pelos defensores do ancien régime leninista.

Em outros termos, a boa e velha democracia burguesa, em que pese algumas rugas vitorianas, ainda não parece ter sido vencida por alguma “contradição insanável”, do tipo das que costumavam frequentar o universo conceitual do marxismo clássico. Em contrapartida, no terreno da economia, o ‘fim da Geografia’ parece mais à vista, sobretudo quando se considera o escopo espacial das atividades empresariais. O mundo material está sendo progressivamente unificado por uma ‘cultura comum’, senão da abundância, pelo menos de consumismo, posto que jovens iranianos de uma das teocracias mais reacionárias que possam existir, jovens chineses do “socialismo de mercado” e jovens bolivarianos de um novo socialismo surrealista, todos eles desejam encontrar satisfação para padrões de consumo relativamente similares: filmes série B de Hollywood, fast-food, iPhone, iPod e internet. Quem fica de fora – cubanos, coreanos do norte – está louco para entrar…

Esse processo de constituição de um borderless-world não deve ser confundido com o pretenso ‘declínio do Estado-nação’, tendência já desmentida pelo acelerado ressurgimento do ‘nacionalismo’ nos mais diversos quadrantes do globo. O que ocorre, mais exatamente, é uma combinação do policentrismo inter-estatal com a unificação dos espaços geoeconômicos, nos quais as competências estritas dos Estados nacionais no terreno econômico passam a ser exercidas por blocos de integração (zonas de livre comércio, uniões aduaneiras ou mercados comuns). Em todo caso, não parece haver muito espaço para o socialismo nesse “admirável mundo novo” do ‘fim da Geografia’. Ele só consegue sobreviver nas academias esclerosadas de certas faculdades de ciências sociais de universidades públicas de países periféricos, como mais uma demonstração de certas profecias corrosivas (como aquela de Millor Fernandes, que dizia que quando as ideologias ficam bem velhinhas, elas se mudam para certos países latino-americanos que conhecemos todos).

Na prática, como as economias de mercado conseguem conviver com todos os tipos de regimes políticos, o que se tem é que o mercado e a democracia política convivem tranquilamente com esquemas diversos de controle social e de intervencionismo estatal, um pouco, aliás, como em diversos países periféricos do ‘capitalismo realmente existente’. Isso não representa exatamente um problema filosófico do ponto de vista das teses de Fukuyama: se a chamada ‘democracia burguesa’ conseguiu sobreviver durante tanto tempo, foi exatamente devido a seu caráter essencialmente ‘formal;, ou seja, uma democracia simplesmente política, destituída de qualquer conteúdo real, em termos de direitos econômicos ou sociais. Contudo, a simples garantia da igualdade jurídica e da liberdade individual representa, ainda assim, um enorme passo à frente no itinerário da sociedade civil, pelo menos para grande parte da Humanidade. É possível, assim, que a administração da ‘coisa pública’ nesses regimes híbridos que existem no mundo real seja uma tarefa tão ‘aborrecida’ e fastidiosa quanto, digamos, a atividade política em certas democracias avançadas do Ocidente, algo que já tinha sido percebido por um filósofo tão pouco hegeliano quanto Norberto Bobbio.

O fato, porém, de que nenhum sistema social humanamente concebido poderá resolver a contento a questão da distribuição dos bens raros e socialmente valorizados – e a mercadoria ‘poder’ é a primeira a inscrever-se nessa categoria – garante que os palcos da História continuarão, durante muito tempo, a ser excitantes. Não há, aqui, nenhum pessimismo de princípio quanto a que, no terreno do mundo material pelo menos, se possa um dia realizar a conhecida utopia socialista: “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”. Mas, é altamente improvável, conhecendo-se a natureza humana, que se possa cumprir, com ou sem ‘final da História’, a profecia engelsiana segundo a qual, no futuro, “o comando dos homens será substituído pela administração das coisas”.




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[1] Ver Francis Fukuyama, “The End of History?”, The National Interest (Summer 1989, p. 3-18), bem como seu livro sobre a questão: The End of History and the Last Man (New York: Free Press, 1992).

[2] Hegel não foi o primeiro, em termos absolutos; antes dele, filósofos escoceses (como Ferguson) e franceses (como Condorcet) já tinham debatido a idéia do progresso da civilização, muitas vezes numa perspectiva linear, seguindo a flecha do tempo; mas foi Hegel quem deu à idéia de progresso um sentido de necessidade histórica, que o fez situar-se no centro da evolução possível das sociedades humanas.

[3] Marx inverteu esse processo, como se sabe, mas apenas para converter o socialismo na realização necessária, em última instância, da idéia universal, uma espécie de fatalismo pelo lado da sucessão inevitável dos ‘modos de produção’, um conceito que ele cunhou e que ainda hoje é usado por discípulos, de modo geral, mas também por opositores dos próprios sistemas hegeliano e marxista.

[4] Sobre essa verdadeira “contradição nos termos” – como disse Marx a propósito do sistema de Proudhon, exposto em Filosofia da Miséria, e criticado por ele em Miséria da Filosofia (1847) –, ver meu artigo: “Falácias acadêmicas, 13: o mito do socialismo de mercado na China”, Espaço Acadêmico (ano 9, n. 101, outubro 2009, p. 41-50; disponível: http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/8295/4691).

[5] Ver, a esse propósito, meu ensaio “Uma paz não-kantiana?: Sobre a paz e a guerra na era contemporânea”, In: Eduardo Svartman, Maria Celina d’Araujo e Samuel Alves Soares (orgs.), Defesa, Segurança Nacional e Forças Armadas: II Encontro da Abed (Campinas: Mercado de Letras, 2009, p. 19-38; disponível: http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/1987PazNaoKantianaABEDbook.pdf).

[6] A caracterização é do historiador Arno Mayer, The Persistence of the Old Regime: Europe to the Great War (London: Croom Helm, 1981); existe edição brasileira.

[7] Veja-se, a esse propósito, a nota crítica que fiz, a propósito de um desses exemplos lamentáveis de marxismo esclerosado da academia brasileira, nesta texto: “Marxistas totalmente contornáveis” [Resenha de Jorge Nóvoa (org.): Incontornável Marx (Salvador/São Paulo: Unesp/UFBA, 2007)], Espaço Acadêmico (ano 7, n. 84, maio 2008, disponível: http://www.espacoacademico.com.br/084/84res_pra.htm); ela suscitou, como seria de se esperar, reações enraivecidas por parte da tribo em questão, devidamente registradas neste artigo: “Manifesto Comunista, ou quase…: dedicado a “marquissistas” à beira de um ataque de nervos (a propósito de uma simples resenha)”, Espaço Acadêmico (ano 8, n. 85, junho de 2008; disponível: http://www.espacoacademico.com.br/085/85pra.htm).

[8] Ver a trilogia braudeliana, Civilisation Matérielle, Economie et Capitalisme, XV-XVIIIème siècles (Paris: Armand Colin, 1979, 3 vols.).

[9] Cf. Jean-Luc Domenach, La Chine m’inquiète (Paris: Perrin, 2008), p. 58 e 65-66.


Paulo Roberto de Almeida é Doutor em ciências sociais pela Universidade de Bruxelas (1984); diplomata de carreira do serviço exterior brasileiro desde 1977; professor de Economia Política Internacional no Mestrado em Direito do Centro Universitário de Brasilia – Uniceub; autor de diversos livros de história diplomática e de relações internacionais (pralmeida@mac.com).

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