Mostrando postagens com marcador Pobreza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pobreza. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

IDADE MÉDIA - A JUSTA IRA DOS POBRES




Prof. Dr. Cyro de Barros Rezende Filho
Professor da cadeira de História Antiga e História Medieval
Universidade de Taubaté.
Os séculos XIV e XV são uma época de turbulência para a Europa. Paralelamente à ocorrência generalizada de uma crise tríplice, agrária, demográfica e monetária, somam-se guerras incessantes e o rompimento do equilíbrio da cristandade medieval (Grande Cisma), que eram um prenúncio da crise estrutural do feudalismo. A característica social da época foi a eclosão de numerosas revoltas populares, tanto no campo, como nas cidades, quando os pobres se rebelaram contra a ordem estabelecida, explodindo em justa ira.
Houve uma pauperização progressiva, quer dos camponeses e rendeiros rurais, quer dos trabalhadores urbanos, o que ocasionou uma confluência de carências. Ao lado da dura luta pela sobrevivência, muitas vezes infrutífera, somou-se a falta de justiça, de paz e mesmo de esperança, uma vez que mais e mais pessoas eram atingidas pela pobreza. A posse de um lote de terra, ou de uma colocação laboriosa, deixou de ser a garantia de uma vida digna ou mesmo de sobrevivência, na medida em que a crise estrutural do feudalismo engolfava o corpo social e que o estado de pobreza se alastrava de forma incontrolável, abraçando a todos.
O resultado foi um período de violência endêmica, cuja característica básica foi uma generalizada revolta dos pobres, por toda a Europa. No campo, essas revoltas receberam a denominação de jacqueries, devido à presença massiva dos “Jacques” (homens comuns, homens do povo). Tiveram um caráter anti-senhorial e, por vezes, até anticlerical. Nas cidades, foram dirigidas contra a camada dirigente, o patriciado urbano (FOSSIER, 1970, p. 339s). No universo rural, registram-se revoltas na Borgonha (1308), na Flandres (1323 e 1328), no norte da França, Lombardia e Renânia (1358), na Inglaterra (1381 e 1408-1420), na Catalunha (1391 e 1410 –1414), na Jutlândia (1411), na Dinamarca (1436) e na Noruega, em 1438 (HEERS, 1970, pp. 114-120). E no contexto urbano ocorreram levantes populares em Bruges (1302), em Toulouse (1320 e 1356), nas cidades de Gand, Louvain, Maastricht e Bruxelas (1380), em Londres (1381), em Paris (1382, 1413 e 1418), em Worms, Spira, Francfurte e Mogúncia (1383) e em Florença, em 1378 e novamente em 1478 (ARAGONESE, 1948, p. 32s).
A origem dessas revoltas está no desconforto que a pobreza causa, na injustiça de sua imposição e na vergonha que ela ocasiona. Nas palavras de John Ball, o líder da grande sublevação inglesa de 1381, com base no dito popular “A bondade desconhece os ricos, que obrigam todos os homens a serem pobres”, encontra-se claramente expressa a constatação que segue:

E se todos nós descendemos de um mesmo pai e de uma mesma mãe, Adão e Eva, como podem os senhores afirmar e provar que eles são mais senhores do que nós – salvo que eles nos obrigam a cavar e cultivar a solo para depois virem esbanjar o que produzimos? Eles vestem-se com veludo e cetim, adornam-se com peles de esquilo, enquanto nós nos cobrimos com trapos. Eles têm vinhos, especiarias e pão fino, ao passo que nós temos apenas centeio, farinha estragada e palha, e só água para beber. Eles possuem lindas residências e feudos, enquanto para nós há trabalho e tributação, sempre nos campos debaixo da chuva e da neve. Mas é de nós e do nosso trabalho que provém tudo aquilo que mantém a pompa deles (LINDSAY, 1950, pp. 23 e 46-47).

É desnecessário dizer que a repressão a esses movimentos revestiu-se de caráter violentíssimo, impondo, nas regiões afetadas e nas cidades sublevadas, uma verdadeira paz de cemitério. Em um encontro de interesses comuns, a Igreja facilitou a ação dos poderes instituídos, atribuindo a característica de heresias a muitas dessas revoltas populares, o que facilitou a ação do braço secular.
Mas não foi apenas a Igreja Católica que se posicionou em favor da lei e da ordem. O próprio Martinho Lutero agiu no sentido de apoiar os príncipes contra os pobres em revolta, no episódio conhecido como a Guerra dos Camponeses (1524-1525), que atingiu uma Alemanha já caótica pela ação da Reforma. Afirmando que “Há que estrangulá-los. Há que matar o cão enraivecido que se lança contra ti: se não, ele te matará” (DELUMEAU, 1973, p. 44), ele abençoou o massacre de mais de cem mil camponeses.
Triste desfecho, para uma categoria social que iniciou sua trajetória no universo medieval desempenhando um papel funcional fundamental à existência dos bons cristãos.
Parte integrante: OS POBRES NA IDADE MÉDIA: DE MINORIA FUNCIONAL A EXCLUÍDOS
DO PARAÍSO 

 REVISTA CIÊNCIAS HUMANAS, UNITAU. Volume 1, número 1, 2009.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A pobreza condenada

Laura de Mello e Souza mostra como os pobres, que até os séculos 15 e 16 eram tratados naturalmente pela sociedade no mundo ocidental, passaram a ser considerados pessoas improdutivas e inúteis.


Ilustração do espanhol José Benlliure y Gil que mostra São Francisco misturado aos pobres pedindo esmola. Nos séculos 15 e 16, houve uma mudança radical no tratamento dado à pobreza, que antes era associada à santidade.


No mundo ocidental, os séculos 15 e 16 viram-se marcados por transformações profundas. A centralização política substituiu a fragmentação medieval, o comércio cresceu e deu força à burguesia, o controle da terra se tornou privilégio de alguns, solapando a exploração comunal: os cercamentos ingleses, com seus muros de pedra que confinavam os carneiros e impediam o acesso dos seres humanos, são uma espécie de emblema desse processo.
A pobreza eraconsiderada natural e, às vezes,associada à santidade

Até então, a pobreza era considerada natural e, às vezes, associada à santidade. Quem desejasse renunciar às vaidades terrenas começava, quase sempre, por abrir mão de seus bens, como São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loiola ou Santa Teresa de Ávila.

O voto de pobreza sempre foi requisito para ingressar na vida religiosa, a tradição cristã rezando ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. Cada convento ou mosteiro tinha seus comensais pobres, que ali acorriam para receber a sopa e o pão. Cada aldeia tinha seus mendigos e aleijados, conhecendo-os pelo nome e os socorrendo conforme pudesse.

Mas as coisas mudaram de modo radical. Vastos contingentes de trabalhadores deixaram os campos rumo às cidades e quem nada tinha além da força de trabalho procurou viver dela, muitas vezes sem sucesso. Nas ruas, nas estradas, nos adros das igrejas, os mendigos constituíam multidão.


Detalhe da tela ‘São Francisco casando-se com a pobreza’, pintada em 1633 pelo italiano Andrea Sacchi. O voto de pobreza sempre foi requisito para ingressar na vida religiosa.

Juan Luís Vives (1492-1540), grande humanista hispano-flamengo e um pioneiro na reflexão sobre os pobres, não deixou de retratá-los com impiedade, condenando-os por “desavergonhada e inoportunamente” abrirem caminho no interior dos templos, “deformados por suas pústulas, exalando dos corpos um odor insuportável” e distraindo a atenção dos fiéis que assistiam à missa.

Na Roma do papa Sixto V, a situação se tornou tão grave que uma bula papal de 1587 fulminou os vagabundos que erravam como animais pelos lugares públicos, vociferando contra a sorte. Estrangeiros nas vilas e cidades sobre as quais se atiravam, esses pobres em movimento eram vistos como ameaçadores, com seus rostos desconhecidos. Em 1516, o Parlamento de Paris decretou a expulsão dos vagabundos, que dessa formase deslocariam para outros núcleos urbanos até serem expulsos de novo.
Pobres e vagabundos não eram senão o “peso inútil da terra”

Pobreza e itinerância deixaram assim de ser toleradas pela Igreja e pelos organismos de assistência para se tornar alvo de ações governamentais. Os nascentes Estados europeus foram, sem exceção, ferrenhos opositores dos pobres, procurando transformá-los em indivíduos úteis à República e impedir que pesassem sobre a ‘parte saudável’ da sociedade.

Pobres e vagabundos, pontificaria um jurista francês do século 17, não eram senão o “peso inútil da terra”. Hospícios, casas de trabalho forçado e obras públicas absorveram um número cada vez maior dessas criaturas, obrigando-as a se ocupar em trabalhos manuais, a remar nas galeras do rei – como na França de Luís XIV –, a abrir estradas por toda a Europa, da Holanda calvinista ao Portugal ultracatólico.

Mais da metade dos pobres socorridos em 1541 pela paróquia de Santa Gertrudes, nacidade flamenga de Louvain, eram crianças. Dez anos depois, 60% dos miseráveis de Segóvia eram mulheres, cifra que em Medina del Campo – ambas cidades da Espanha –atingia então os 83%.

A história de João e Maria, abandonados na floresta pelos pais miseráveis e atraídos pelabruxa, sintetiza admiravelmente esse mundo no qual os desvalidos penavam parasobreviver e a pobreza era cada vez mais associada ao desvio e à maldade. Porque muitas das mulheres perseguidas por bruxaria nos séculos 16 e 17 eram viúvas pobres, vistas como improdutivas e desprovidas de qualquer utilidade.

Laura de Mello e Souza
Departamento de História
Universidade de São Paulo
Revista Ciência Hoje