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sábado, 11 de junho de 2011

SINCRETISMO E RELIGIÃO NA FESTA DO DIVINO


 Sabrina Gledhill
SINCRETISMO E RELIGIÃO NA FESTA DO DIVINO1

Sergio F. Ferretti
Dr. em Antropologia, professos associado da UFMA, realiza pesquisas na área de religião e cultura popular. E.mail: ferretti@elo.com.br

Sincretismo religioso


Sabemos que o sincretismo religioso é um tema complexo e muito discutido. Embora não se restrinja ao campo da religião, abrangendo também toda a cultura, tem sido mais debatido no âmbito da religião. Todas as religiões são sincréticas, são frutos de contatos culturais múltiplos, mas todas se julgam puras, perfeitas e não se querem misturadas com outras que seriam impuras. Em nossa sociedade o sincretismo é mais discutido, principalmente em relação às religiões afro-brasileiras, consideradas religiões sincréticas por excelência, por terem sido formadas no Brasil com a inclusão de elementos de procedências africanas, ameríndias, católicas e outras. Atualmente no Brasil também se discute o sincretismo em relação às religiões neopentecostais, sobre as quais não nos referiremos aqui.
Conforme a pesquisadora dinamarquesa Anita Leopold (2005), a categoria sincretismo é considerada uma das mais controversas no estudo da religião, que a maioria dos estudiosos da religião gostaria de abolir. De acordo com pesquisador holandês André Droogers (1989), o sincretismo é descrito como mistura de religiões e como avaliação de tal mistura, por isso muitos querem abolir este conceito. Na Antigüidade, conforme seu sentido etimológico, significava “junção de forças opostas face ao inimigo comum”. A partir do século XVIII, tomou caráter negativo, passando a referir-se à reconciliação ilegítima de pontos de vista teológicos opostos, ou heresia contra a verdadeira religião. Devido a essa mudança de sentido entre a definição objetiva e subjetiva o sincretismo tornou-se mal visto e tem sido rejeitado, provocando mal estar entre muitos, que evitam mencionar o conceito, considerado como sinônimo de mistura confusa de elementos diferentes, ou imposição de evolucionismo e do colonialismo.

O médico maranhense Nina Rodrigues, fundador do campo de estudos afro-brasileiros, curiosamente não emprega a categoria sincretismo, já conhecida em sua época e enunciada em 1902 em resenha de seu trabalho por Marcel Mauss2. Nina Rodrigues discorre sobre o tema, usando, entre outras, expressões como: fusão de crenças, justaposição de exterioridades e idéias, associação, adaptação, equivalência de divindades e, principal e significativamente, ilusão da catequese. Esta ilusão decorria, para ele, da equivalência entre as divindades. Afirmava que os negros baianos, sem renunciar aos orixás, tinham profunda devoção pelos santos (id., p. 182). Nas décadas de 1930 e 1940, o médico e antropólogo alagoano Arthur Ramos substituiu a perspectiva evolucionista e racista de Nina Rodrigues por idéias da teoria culturalista3 , então dominante, sobretudo na Antropologia norte-americana, na qual se destacava o africanista Meville J. Herskovits4.

Ramos incluía entre os resultados da aculturação, a aceitação, o sincretismo e a reação. Preferia chamar de sincretismo o que outros chamavam de adaptação. Considerava o sincretismo como um resultado harmonioso de contatos culturais sem conflitos. Nos últimos trabalhos, constata, porém, que nem sempre esse processo é harmonioso e não conflitivo, especialmente quando decorre da colonização e da escravidão. Em vários livros, Arthur Ramos apresenta quadros e esquemas de sincretismos, como era comum entre autores da época, referindo-se (1942, p. 6) a avalanches de sincretismos: “jeje-nagô-muçulmi-banto-católicoespírita-caboclo”, etc. Hoje, esses esquemas se mostram formais, mecânicos, e são considerados de reduzido valor explicativo, uma vez que apenas identificam misturas entre as raízes dos fenômenos, sem realizar maior análise explicativa sobre os mesmos.
O etnólogo Nunes Pereira, que, na década de 40 do século XX, redigiu importante trabalho sobre a Casa das Minas Jeje do Maranhão, considera que lá não havia sincretismo. Afirma (1979, p. 33) que as filhas-de-santo apreciam os santos católicos, “no entanto a distinção entre os dois cultos mina-jeje e o católico é bem nítida”. Para ele, os negros mantinham oratórios “para despistar os oficiantes - receosos de perseguições e castigos da parte dos senhores de escravos [...] no íntimo apreciavam [...] só os voduns da África”.

A teoria culturalista das décadas de 1940 e 1950 considerava o sincretismo como um processo de mudança cultural decorrente da aculturação ou do contacto entre culturas diferentes, uma forma de reinterpretação, exemplificada principalmente pelas religiões afrobrasileiras. Mas os autores de modo geral se interessavam principalmente pelas culturas consideradas mais puras ou não misturadas.

A partir dos anos de 1960, com a superação dos estudos culturalistas, o interesse pelo tema do sincretismo religioso não atraiu mais muita atenção. Na continuidade dos estudos afrobrasileiros, durante muitos anos os autores se desinteressaram pelo sincretismo ou dele trataram sem encontrar novas perspectivas. Entre as décadas de 1940 a 1970, Roger Bastide principal teórico dos estudos afro-brasileiros, redigiu textos com estudos sobre sincretismo. Para Bastide a idéia de sincretismo lembrava fusão, mistura ou identificação entre crenças.

Bastide se interessava mais pela preservação da pureza do candomblé baiano, em oposição à desintegração e à mistura, que julgava encontrar na macumba e na umbanda daí seu menor interesse pelo fenômeno do sincretismo, que entendia mais como mistura. Na linha de Bastide, muitos de seus discípulos se desinteressaram em dar continuidade ao tema e alguns expoentes dos estudos afro-brasileiros passaram a abominar o sincretismo e a valorizar a denominada “pureza africana”5.

O chamado “mito da pureza africana” tem sido defendido principalmente por estudiosos e praticantes do candomblé ketu, difundido no Brasil a partir da Bahia, como comentou o antropólogo Peter Fry em diversos trabalhos. Em texto a respeito da II Conferência Mundial da Tradição dos Orixás e Cultura, ocorrida em Salvador, em 1983, o autor comenta documento, assinado pela Yalorixá Mãe Stella de Oxóssi, do Ilê Axé Opô Afonjá, uma das mais importantes mães-de-santo baianas que lideraram o movimento contra o sincretismo, segundo o qual, se o catolicismo foi útil aos escravos, hoje os praticantes da religião dos orixás, que têm liturgia e doutrina próprias, não necessitam mais desse disfarce. Para Peter Fry (1984, p. 40), a polêmica demonstra que “o conceito de ‘pureza’ e o seu oposto, a ‘mistura’ ou o ‘sincretismo’ são sempre construções essencialmente sociais e tendem a aparecer em ocasião de disputa de poder e hegemonia”. O autor conclui que o sincretismo religioso remete a uma discussão mais ampla sobre o pensamento brasileiro em relação ao negro e à sua cultura.

Diversos autores com diferentes perspectivas demonstram que o tema do sincretismo afro-brasileiro ainda está longe de um consenso e é bastante atual, envolvendo-se diretamente com os conflitos intelectuais e sociais de nossa sociedade.

Josildete Consorte (1999, pp. 78/79) da PUC/SP, em coletânea coordenada por Caroso e Bacelar (1999), registra que o debate sobre o sincretismo se popularizou nas décadas de 30 e 40 do século XX, quando interessava apenas aos meios acadêmicos e à Igreja. A grande novidade foi que, na década de 1980, começa a envolver a comunidade do candomblé na Bahia e a ser divulgado nos meios de comunicação de massa. Para a autora, o sincretismo está ligado “ao processo de inserção do negro na sociedade brasileira e, conseqüentemente ao da (re)construção da sua identidade”.
Reginaldo Prandi, da USP, em artigo dessa mesma coletânea, divide a história das religiões afro-brasileiras em três fases: o período inicial de sincretização; o de branqueamento, com a formação da umbanda, entre 1920-30; e o de africanização, a partir de 1960, com a transformação do candomblé em religião universal.

Considera que até 1930 “as religiões negras poderiam ser incluídas na categoria das religiões étnicas ou de preservação de patrimônios culturais dos antigos escravos negros e de seus descendentes” (Prandi, 1999, p. 93). Só recentemente, segundo o autor, elas começaram a se desligar do catolicismo. Afirma que o movimento de africanização do candomblé “procura desfazer o sincretismo com o catolicismo e recuperar elementos rituais perdidos na diáspora, além de reaprender a língua ioruba” (id., p. 97). Nos anos 60 do século XX, com o movimento da contracultura, “o candomblé, a partir do Sudeste, foi transformando-se também em religião universal, isto é, religião para todos” (id., 103).

Segundo Stewart e Shaw (2005: 7/8) sincretismo não é um termo com significado fixo, pois seus sentidos foram historicamente constituídos e reconstituídos. Identificar um ritual ou tradição como sincréticos é dizer pouco, pois todas as religiões têm origens compostas e são continuamente reconstituídas. Parece mais importante focalizar o processo da síntese religiosa.

Stewart e Shaw lembram que é importante confrontar o sincretismo com o anti-sincretismo, que se relaciona com a construção da autenticidade e com a noção de pureza e que tanto as tradições puras quanto as sincréticas podem ser autênticas.
Durante mais de um século, através de correntes teóricas diferentes, muita coisa foi escrita sobre o sincretismo entre nós. Alguns acham que se deve evitar falar em sincretismo.

Outros falam em anti-sincretismo, dessincretização, ou africanização e reafricanização, em relação às religiões de origens africanas no Brasil. Historiadores preocupados com as mentalidades e a vida cotidiana discutem esse problema, que era considerado específico da Antropologia. A trajetória desse conceito permite visualizar disputas acadêmicas e políticas, que acompanham análises da realidade social. Sincretismo, cultura, identidade, etnicidade, hibridismo, multiculturalismo e outras categorias sociais complexas, necessitam continuar a serem pensadas e repensadas, com a colaboração de diferentes ciências e correntes de pensamento. É importante lembrar que a própria definição dessas diversas categorias, como do fenômeno do sincretismo, continua constituindo um desafio para os especialistas.

Festas Populares e sincretismo

As festas populares e as manifestações folclóricas refletem de modo geral a presença do sincretismo nas religiões populares. Consideramos, entretanto que as religiões populares ultrapassam o conteúdo do folclore. Existem nas práticas religiosas afro-brasileiras componentes especificamente religiosos distintos do folclore e das festas. Podemos indicar entre outros o respeito por seres, por lugares, por objetos, aos mais velhos, cânticos e palavras sagradas, gestos, rituais e a observação de cerimônias litúrgicas minuciosas e complexas.
Identificamos elementos do sincretismo religioso nas festas religiosas populares realizadas nos terreiros de tambor de mina do Maranhão que temos estudado. No tambor de mina, nome principal das religiões afro-maranhenses, entidades religiosas africanas e de outras procedências, pedem a realização de festas da cultura popular e são homenageadas pelos devotos com festas de vários tipos.
Assim nos terreiros de mina é comum a realização de festas do Divino Espírito Santo, de tambor de crioula, de bumba-meu-boi, banquete para os cachorros, ladainhas, procissões e outros rituais que são oferecidos em homenagens e como pagamento de promessa aos santos, a caboclos, voduns, orixás e outros encantados.
A realização destas festas nos terreiros constitui uma forma de expressão da religiosidade popular e não pode ser vista como superstição ou atraso ou ridicularizado como fator obscurantista que prejudica a pureza ou a africanidade da religião. Não se pode também dizer que o sincretismo foi um fenômeno que só funcionou no passado e que se encontra em desaparecimento ou que prejudique a tradicionalidade das manifestações religiosas. O sincretismo também não foi apenas um fator de resistência à dominação cultural e religiosa. Os que herdaram a religião dos antepassados africanos – o culto aos ancestrais, aos voduns, orixás, caboclos e encantados, tiveram também que aceitar a religião imposta pela dominação colonial, ficaram com as duas religiões e cultuam ambas com devoção idêntica.
Consideramos o sincretismo, como elemento essencial de todas as formas de religião, que está muito presente na religiosidade popular, nas procissões, nas comemorações dos santos, nas diversas formas de pagamento de promessas, nas festas populares em geral, como em diversos elementos da religião oficial, por exemplo no Catolicismo. Constatamos que o sincretismo constitui uma das características centrais das festas religiosas populares. Nas religiões afrobrasileiras o sincretismo é uma forma de relacionar o africano com o brasileiro, de fazer alianças como o escravo aprendeu na senzala e nos quilombos “sem se transformar totalmente naquilo que o senhor desejava” (Reis 1996: 20), nem ficar ”presos a modelos ideológicos excludentes” (Munanga, 1996: 63).

O sincretismo nas religiões afro-brasileiras não representa assim um disfarce de entidades africanas em santos católicos, mas uma “reinvenção de significados” e uma “circularidade de culturas”. Trata-se de uma estratégia de transculturação refletindo a sabedoria que os fundadores também trouxeram da África e, eles e seus descendentes, ampliaram no Brasil. Em decorrência do sincretismo, podemos dizer que as religiões afro-brasileiras têm algo de africanas e de brasileiras sendo, porém diferentes das matrizes que as geraram.

A Festa do Divino

A festa do Divino Espírito Santo é um ritual do Catolicismo popular que, como o carnaval, o bumba-meu-boi e outras festas populares, possui características específicas em diferentes regiões6. Mais do que outras manifestações populares, a Festa do Divino é realizada por questão de promessa e de fé sendo, portanto essencialmente uma festa religiosa. Enquanto na maior parte do país esta festa é um ritual do Catolicismo popular, no Maranhão, embora vinculada ao catolicismo, o Divino possui peculiaridades que a distinguem. Primeiro, a presença marcante de mulheres que são as principais organizadoras dos terreiros de tambor de minas e das festas do Divino. São também quase que só mulheres – as caixeiras, que tocam instrumentos musicais denominados caixas do Divino. Outra diferença, que ocorre principalmente em São Luís7, é estar incluída no calendário religioso dos Terreiros de Tambor de Mina ou casas de culto afromaranhenses. Quase todos os terreiros organizam, uma vez ao ano, uma festa do Divino em homenagem à entidade importante para a comunidade religiosa.

Algumas poucas pessoas organizam a festa em sua casa. Quase sempre são pessoas relacionadas com o tambor de mina e que, por algum motivo, fazem a festa fora do local de culto, mas geralmente em homenagem e a pedido de entidades cultuadas nos terreiros.

As caixeiras constituem elemento imprescindível e típico da festa do Divino no Maranhão. São senhoras idosas com o encargo de tocar caixas8 e entoar cânticos, repetidos de cor ou improvisados, em louvor ao Divino Espírito Santo. Costumam fazer isso por promessa ao longo da vida e vinculam-se a um grupo de seis a doze ou mais, que anualmente tocam em diversas casas, sob a liderança da caixeira régia9, ajudada pela caixeira mor. Normalmente as caixeiras não recebem remuneração, mas são muito valorizadas. Recebem alimento, algum dinheiro para transporte, vestimentas iguais em algumas festas e são agradadas com presentes e mantimentos.

Além de tocar e cantar, em alguns momentos elas dançam com as bandeireiras diante do trono e do mastro. No toque das caixeiras alguns percebem a presença do ritmo marcial dos tambores e da síncope africana ou então, que os cânticos lembram litanias e salmodias do canto chão gregoriano.

Segundo Dona Celeste, caixeira régia da festa na Casa das Minas, na festa do Divino devem ocorrer cerca de nove tipos diferente de toques10, com ritmos distintos, que a caixeira régia tem que conhecer bem e saber o momento em que devem ser tocados. Antes do início de uma festa há uma longa fase preparatória que começa com a tomada de decisão de realizá-la em pagamento de promessa, por devoção ou exigência de uma entidade religiosa que também é devota do Divino. Em todas as festas, especialmente na Festa do Divino, em que se realiza uma seqüência longa e barroca de rituais, os bastidores são essenciais para que se tenha uma boa festa, funcionando antes, durante e após o seu encerramento.

Em geral, há a expectativa de que uma festa bonita e bem organizada atraia muitas pessoas que, gostando, virão outras vezes, trarão novos convidados e, com isso, a cada ano a festa irá crescendo e atraindo mais pessoas. Quando se decide organizar a festa passa a ser feita durante vários anos, enquanto a principal responsável puder fazê-lo. Temos conhecimento de pessoas que organizaram festa do Divino em São Luís durante cinqüenta anos ou mais.

Com antecedência mínima de um ano, são escolhidos os membros dos impérios 11 como um casal de imperadores, de mordomos régio, mordomos mor, os padrinhos do mastro e outros colaboradores. Um semestre antes se escolhem as cores predominantes das vestimentas, a serem usadas pelas crianças, e dos enfeites, para que os organizadores comecem a adquirir o material necessário, devendo tudo ser preparado com bastante antecedência. No Maranhão uma festa do Divino considerada boa costuma ter, no mínimo, seis mesas de doces, cada uma com duas a três dúzias de enfeites ou lembranças para serem distribuídas entre os amigos e colaboradores.

Devido à complexidade e às dificuldades de se organizar uma festa do Divino completa, algumas casas realizam somente uma salva do Divino ou apenas erguem o mastro e rezam algumas orações. Mas, apesar de todas as dificuldades, que sempre aumentam para as populações mais pobres, existe no Maranhão o costume de, a cada ano, os grupos quererem fazer uma festa mais bonita e mais rica do que a anterior, como ocorre com o bumba-meu-boi e com outras festas populares. Constatamos que a festa do Divino atualmente não se encontra em decadência, mas em expansão.

A festa do Divino é comemorada pela Igreja Católica no Domingo de Pentecostes, com data móvel celebrada 50 dias após a Páscoa. Nesse dia é lembrada a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, representado iconograficamente por uma pomba e por línguas de fogo. Esse evento é considerado um dos mistérios da religião. A idéia de mistério é também um dos componentes das religiões afro-brasileiras muito acentuado no tambor de mina, onde grande parte do conhecimento religioso é considerada um segredo, um mistério, transmitido oralmente e conhecido por poucos 12. A pomba branca e a cor vermelha13 são símbolos presentes na festa do Divino em toda parte, como a bandeira, a coroa, o cetro, o mastro e outros elementos.

Em função de pregações missionárias anteriores e a partir de comparações feitas pelo catolicismo e por outras religiões14, entre a descida do Espírito Santo em Pentecostes e o transe religioso, provavelmente os praticantes das religiões de origem africana passaram a ver na festa de Pentecostes uma analogia com a possessão mediúnica por entidades sobrenaturais, fenômeno essencial nas religiões de transe ou possessão.

A abertura da tribuna, o buscamento e o levantamento do mastro são etapas preparatórias da festa que, como vemos, é extremamente ritualizada. Segundo Dona Celeste, “o que se faz no começo tem que ser feito no encerramento”15 ou no fechamento da tribuna. Dona Celeste compara a festa do Divino com o ritual da missa católica que não pode conter nenhum erro. Em outro trabalho (Ferretti, 1995: 185), indicamos relações entre a festa do Divino e o culto de Fá ou Ifá, dos Fons e Yorubás da África Ocidental, mostrando que essa festa é vista como um oráculo do futuro, uma vez que qualquer falha nos rituais é interpretada como prenúncio de mau agouro para a comunidade e para seus organizadores.

Há pessoas que organizam mais de uma festa do Divino por ano em diferentes locais, como dona Celeste responsável pela festa na Casa das Minas há cerca de 40 anos. Alguns pais-desanto que não gostam ou não freqüentam de bom grado o catolicismo, não deixam de organizar esta festa em seu terreiro, com receio de não cumprir corretamente as obrigações para suas entidades espirituais, pois esta festa não pode deixar de ser realizada nos terreiros que as organizam. Até bem pouco tempo, em São Luís a Festa do Divino era organizada quase que exclusivamente em Terreiros de Tambor de Mina, e muitos a organizavam. Nos últimos anos alguns Terreiros de Umbanda estão organizando também festas do Divino, principalmente em função do apoio de órgãos governamentais.

A Festa do Divino é uma tradição do Catolicismo e da cultura popular, muito encontrada em várias regiões do país, com características próprias em cada lugar. Em São Luís, é organizada principalmente por afro-descendentes, em Terreiros de Tambor de Mina, e nela se destacam os toques das caixeiras. É uma festa com organização minuciosa e complexa, com uma seqüência barroca de rituais, que não podem deixar de ser executados.

Considerações finais

A festa do Divino se caracteriza pela seriedade e devoção. Há pais ou mães-de-santo que não a organizam em seus terreiros pois dizem que implica em muitas obrigações. A festa é permeada por ambiente de fé e de devoção sincera por uma graça alcançada por intervenção do Espírito Santo. Embora a beleza da festa atualmente atraia o interesse das autoridades e dos turistas, não é um ritual vazio com falsa imitação, feito para o turista ver.
Apesar de momentos de descontração, de brincadeiras, de danças, é organizada com grande seriedade. Com os recursos arrecadados pelas doações ou jóias, deve-se distribuir a todos, alimentos e dar esmolas aos pobres, o que constitui uma das obrigações da festa. Na Casa das Minas antigamente, após a festa as crianças do império iam levar carroças com alimentos para serem distribuídos no leprosário. Hoje, ao regressar da Missa da coroação o império distribui na porta da Casa, alimentos e esmolas aos pobres e reza-se pedindo fartura de alimentos para todos e para que tudo corra bem durante o próximo ano.

A festa do Divino constitui-se um dos principais elementos que evidenciam a presença do sincretismo religioso nas religiões afro-maranhenses. O ritualismo barroco e minucioso, evidenciado nos cânticos lentos e demorados das caixeiras e nas longas cerimônias da festa do Divino nos terreiros é, encontrado em outros rituais do Tambor de Mina, lembrando o Te Deum e as Missas Solenes da Igreja Católica. O exagero barroco de rituais em contraste com a sóbria discrição dos participantes é, também, uma característica desta e de outras festas populares no Maranhão.

Como foi dito em outro trabalho (Ferretti, S. 1995 b: 187), o sincretismo da festa do Divino nos Terreiros de Mina pode ser visto como paralelismo entre religiosidade e rituais de origem africana e do catolicismo popular, como se fossem duas retas que se encontram no infinito. Paralelismo de idéias e valores que estão próximos, mas não se misturam nem se confundem.

A festa do Divino reflete aspirações de abundância e de glórias do passado que estão presentes nas classes populares. É uma festa comunitária que ritualiza a colaboração e a fartura conseguida através da organização e da criatividade popular. É uma festa solene e muito ritualizada que se destaca mais pelo cumprimento do dever e da obrigação, do que pelos elementos de brincadeira, que, entretanto, estão presentes em certos momentos. No passado a festa do Divino nos terreiros era considerada como uma heresia pelos setores mais conservadores da Igreja Católica. Hoje a o catolicismo oficial a encara com maior condescendência, considerando-a como um fenômeno cultural das classes populares, mas com raras exceções, o clero católico em geral não entende muito bem o significado profundo desta festa.
Alguns preferem utilizar o termo hibridismo (Burke: 2003) ao termo mais antigo sincretismo, que consideram de maior conotação religiosa. No caso da Festa do Divino no Tambor de Mina do Maranhão, trata-se eminentemente de um fenômeno religioso, incluído na convergência do catolicismo popular com as religiões afro-brasileiras. Muitos não gostam de utilizar o termo sincretismo por considerá-lo demasiadamente vinculado à dominação religiosa do período colonial. Não temos preconceito em utilizar o conceito de sincretismo. A nosso ver, o sincretismo imposto pelo colonizador foi assimilado junto com crenças de outras procedências e está presente na festa do Divino dos terreiros de tambor de mina como um fato evidente que não pode deixar de ser constatado.
A festa do Divino no Maranhão é uma festa barroca, como é também considerado o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro (Cavalcanti, 2006: 178) e muitas outras festas brasileiras. A ornamentação das tribunas e das mesas de doces das festas no Maranhão reflete a ornamentação rica que decora o interior da maioria das igrejas coloniais, onde se observam misturas de colunas douradas com pássaros, anjos, frutas e flores, num equilíbrio artístico bonito de ser apreciado. O excesso dos interiores das igrejas barrocas brasileiras, geralmente, contrasta com a singeleza das formas exteriores daqueles templos. Da mesma forma, o excesso e o luxo da festa do Divino muitas vezes contrasta vivamente com a pobreza do ambiente onde se realizam essas festas.
Consideramos que a Festa do Divino pode ser vista como uma continuidade das festas barrocas no Brasil, identificando nela características simbólicas de ritual de inversão, segundo Victor Turner (1969), através de um catolicismo popular que domina triunfante e caminha paralelo à religiosidade africana que resiste com vigor, utilizando, estrategicamente, a impressão de se mostrar dominado e subalterno. A ambigüidade dessas relações contraditórias faz com que o observador apressado enxergue nessa festa apenas uma das suas dimensões manifestas - o triunfo do catolicismo se sobrepondo à dominação da religião africana. Uma análise mais profunda e detalhada mostra, entretanto, a força do tambor de mina, que traz o catolicismo popular para dentro do terreiro e o conduz com autonomia, oferecendo a festa a uma entidade sobrenatural (vodum16 , orixá ou caboclo), que, como os devotos da festa, tem também devoção ao Divino Espírito Santo, fato que passa despercebido aos observadores externos menos atentos. É um exemplo de hibridismo religioso e cultural (Burke: 2003) que está tão presente na realidade brasileira, com a convergência de símbolos, valores e idéias de diversas procedências.

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1
Comunicação originalmente apresentada em mesa redonda no Encontro Internacional sobre o Divino, organizado pelo SESC em S.Luís de 16 a 20/05/2007.
2
Na resenha em que noticia a publicação, em 1900, no Brasil, de L’Animisme Fétichiste des nègres de Bahia, Marcel Mauss (1901, p. 224-225) elogia as descrições e observações, que considera muito científicas, de Nina Rodrigues, constatando, entretanto, que aqui certas crenças apresentam características de um sincretismo mais profundo, com a fusão de elementos cristão, muçulmanos e africanos.
3
Como lembra Renato Ortiz (1978, p. 10), o fenômeno dos contatos culturais é denominado pelos franceses de “interpenetração de civilizações”.
4
Herskovits, um dos maiores conhecedores das religiões africanas e afro-americanas de sua época, realizou pesquisas no Benin, no Suriname, no Haiti, em Trinidad, nos USA e, durante a Segunda Grande Guerra, passou cerca de um ano em viagens de estudos e conferências pelo Brasil. Foi dos mais brilhantes expoentes do culturalismo norte-americano, tendo orientado, nessa perspectiva, teses de três pesquisadores brasileiros: o paulista Octávio da Costa Eduardo, único dos três que está vivo e que, em 1944, pesquisou no Maranhão; o também paulista Ruy Coelho, que realizou estudos no Caribe; e o médico pernambucano René Ribeiro, que estudou cultos afros em Recife.
5
Tendência no campo afro-brasileiro a se supervalorizar certos grupos religiosos, principalmente os nagôs, considerados como mais tradicionais, “puros” ou não sincréticos, que seriam continuadores de tradições africanas e que acabaram sendo mais pesquisados pelos antropólogos.
6
No mundo português, conforme diversos autores, essa festa se difundiu a partir dos Açores, levada, sobretudo pelos franciscanos. Sabemos que no início dos tempos coloniais, Portugal mandou casais açorianos para povoar o Brasil, sobretudo nas regiões próximas aos limites do Tratado de Tordesilhas, que passava, ao Norte, perto Belém do Pará e, ao sul, em Laguna, no atual estado de Santa Catarina. Talvez por isso, nessas regiões, como no interior do país, em Goiás essa festa até hoje continue muito importante, embora seja realizada também em outros estados como São Paulo e Rio de Janeiro. Na literatura específica constata-se sua ausência em vários estados, sobretudo no Nordeste, na região que vai de Sergipe ao Piauí, talvez em função do tipo de ação missionária aí desenvolvida no passado.
7
Em municípios próximos à capital como Alcântara e Paço do Lumiar, esta festa não tem relações com terreiros.
8
As caixas do Divino são tambores semelhantes aos usados pelos soldados nas paradas militares. São instrumentos membranofônicos confeccionados em metal cilíndrico, com cerca de 70 cm de altura por 50 de diâmetro e couro nas duas bocas, afinados por cordas laterais. São tocadas com duas varetas de madeira. São pintadas de vermelho e branco ou de azul e branco. Nos deslocamentos, ficam suspensas ao ombro da caixeiras por tiras de pano. São batizadas, possuem padrinhos e recebem nomes especiais. Em São Luís, diferentemente do que constatamos em outros lugares, os tambores ou caixas do Divino são tocados quase exclusivamente pelas caixeiras, que em alguns momentos executam dança complexa diante do mastro e do império, acompanhadas por meninas que seguram bandeiras, as bandeireiras.
9
A caixeira régia, que chefia as outras caixeiras, é personagem de grande importância na festa do Divino e precisa conhecer bem todos os cânticos e detalhes dos rituais.
10
São eles: (1) Toque do Espírito Santo Dobrado; (2) Toque do Espírito Santo Singelo; (3) Toque de Senhora Santana; (4) Toque do levantamento e da derrubada do mastro – (de Nossa Senhora da Guia); (5) Toque do hino da Missa; (6) Toque da Alvorada, que continua com o da Alvoradinha; (7) Toque da dança das caixeiras; (8) Toques de rezas e de ladainha nas caixas; (9) Toque do fechamento da tribuna, com o Bendito de Hortelã. A Festa do Divino e principalmente as caixeiras, têm despertado o interesse de estudiosos que redigem monografias, dissertações, artigos e trabalhos de pesquisa sobre o tema (Barbosa, 2002; Gouveia, 2000, 2001).
11
Na festa do Divino em São Luís o império é representado por cinco a dez ou mais crianças, na faixa etária entre 4 a 14 anos, vestidas com roupas de época, usando trajes da corte de imperadores e mordomos, com seus respectivos símbolos, como coroa, tiaras, cetro e outros. São saudados como nobres e sentam-se em tronos ou tribunas.
12
Palavras relativas ao mistério de Pentecostes e sobre os seus símbolos costumam ser acentuadas pelo padre que prega o sermão na Missa desse dia, assistida pelos participantes da festa.
13
Em algumas festas, o azul também é cor importante, sobretudo, nas vestimentas, na decoração do altar e das mesas de doces. Na Casa das Minas se diz que quando a festa é realizada em junho predomina o vermelho que é a cor dos santos comemorados com fogueiras nesse mês, e quando a festa cai em maio, mês de Maria, predomina o azul, que representa a cor do seu manto.
14
O pentecostalismo protestante e o movimento carismático católico hoje muito difundidos em toda parte, também comemoram a descida do Espírito Santo, desenvolvendo práticas como o êxtase ou transe, o dom de curas e a glossolália, ou fala em línguas estranhas, considerados símbolos do Espírito Santo, a partir de elementos inspirados em narrativas bíblicas. Esses movimentos, que costumam incentivar o êxtase pelo Espírito Santo, vêem o transe nas religiões afrobrasileiras como possessão demoníaca.
15
Há ritos que possuem simbolismo e eficácia específica e não podem deixar de ser realizados. Na festa do Divino, seguese um ritualismo minucioso, não podendo ocorrer erros que representam um mau agouro.
16
Na Casa das Minas a festa do Divino é uma devoção da vodum nochê Sepazim, que é uma princesa da família real de Davice (Ferretti: 1996).

SINCRETISMO E RELIGIÃO NA FESTA DO DIVINO


SINCRETISMO E RELIGIÃO NA FESTA DO DIVINO1

Sergio F. Ferretti
Dr. em Antropologia, professos associado da UFMA, realiza pesquisas na área de religião e cultura popular. E.mail: ferretti@elo.com.br

Sincretismo religioso


Sabemos que o sincretismo religioso é um tema complexo e muito discutido. Embora não se restrinja ao campo da religião, abrangendo também toda a cultura, tem sido mais debatido no âmbito da religião. Todas as religiões são sincréticas, são frutos de contatos culturais múltiplos, mas todas se julgam puras, perfeitas e não se querem misturadas com outras que seriam impuras. Em nossa sociedade o sincretismo é mais discutido, principalmente em relação às religiões afro-brasileiras, consideradas religiões sincréticas por excelência, por terem sido formadas no Brasil com a inclusão de elementos de procedências africanas, ameríndias, católicas e outras. Atualmente no Brasil também se discute o sincretismo em relação às religiões neopentecostais, sobre as quais não nos referiremos aqui.
Conforme a pesquisadora dinamarquesa Anita Leopold (2005), a categoria sincretismo é considerada uma das mais controversas no estudo da religião, que a maioria dos estudiosos da religião gostaria de abolir. De acordo com pesquisador holandês André Droogers (1989), o sincretismo é descrito como mistura de religiões e como avaliação de tal mistura, por isso muitos querem abolir este conceito. Na Antigüidade, conforme seu sentido etimológico, significava “junção de forças opostas face ao inimigo comum”. A partir do século XVIII, tomou caráter negativo, passando a referir-se à reconciliação ilegítima de pontos de vista teológicos opostos, ou heresia contra a verdadeira religião. Devido a essa mudança de sentido entre a definição objetiva e subjetiva o sincretismo tornou-se mal visto e tem sido rejeitado, provocando mal estar entre muitos, que evitam mencionar o conceito, considerado como sinônimo de mistura confusa de elementos diferentes, ou imposição de evolucionismo e do colonialismo.

O médico maranhense Nina Rodrigues, fundador do campo de estudos afro-brasileiros, curiosamente não emprega a categoria sincretismo, já conhecida em sua época e enunciada em 1902 em resenha de seu trabalho por Marcel Mauss2. Nina Rodrigues discorre sobre o tema, usando, entre outras, expressões como: fusão de crenças, justaposição de exterioridades e idéias, associação, adaptação, equivalência de divindades e, principal e significativamente, ilusão da catequese. Esta ilusão decorria, para ele, da equivalência entre as divindades. Afirmava que os negros baianos, sem renunciar aos orixás, tinham profunda devoção pelos santos (id., p. 182). Nas décadas de 1930 e 1940, o médico e antropólogo alagoano Arthur Ramos substituiu a perspectiva evolucionista e racista de Nina Rodrigues por idéias da teoria culturalista3 , então dominante, sobretudo na Antropologia norte-americana, na qual se destacava o africanista Meville J. Herskovits4.

Ramos incluía entre os resultados da aculturação, a aceitação, o sincretismo e a reação. Preferia chamar de sincretismo o que outros chamavam de adaptação. Considerava o sincretismo como um resultado harmonioso de contatos culturais sem conflitos. Nos últimos trabalhos, constata, porém, que nem sempre esse processo é harmonioso e não conflitivo, especialmente quando decorre da colonização e da escravidão. Em vários livros, Arthur Ramos apresenta quadros e esquemas de sincretismos, como era comum entre autores da época, referindo-se (1942, p. 6) a avalanches de sincretismos: “jeje-nagô-muçulmi-banto-católicoespírita-caboclo”, etc. Hoje, esses esquemas se mostram formais, mecânicos, e são considerados de reduzido valor explicativo, uma vez que apenas identificam misturas entre as raízes dos fenômenos, sem realizar maior análise explicativa sobre os mesmos.
O etnólogo Nunes Pereira, que, na década de 40 do século XX, redigiu importante trabalho sobre a Casa das Minas Jeje do Maranhão, considera que lá não havia sincretismo. Afirma (1979, p. 33) que as filhas-de-santo apreciam os santos católicos, “no entanto a distinção entre os dois cultos mina-jeje e o católico é bem nítida”. Para ele, os negros mantinham oratórios “para despistar os oficiantes - receosos de perseguições e castigos da parte dos senhores de escravos [...] no íntimo apreciavam [...] só os voduns da África”.

A teoria culturalista das décadas de 1940 e 1950 considerava o sincretismo como um processo de mudança cultural decorrente da aculturação ou do contacto entre culturas diferentes, uma forma de reinterpretação, exemplificada principalmente pelas religiões afrobrasileiras. Mas os autores de modo geral se interessavam principalmente pelas culturas consideradas mais puras ou não misturadas.

A partir dos anos de 1960, com a superação dos estudos culturalistas, o interesse pelo tema do sincretismo religioso não atraiu mais muita atenção. Na continuidade dos estudos afrobrasileiros, durante muitos anos os autores se desinteressaram pelo sincretismo ou dele trataram sem encontrar novas perspectivas. Entre as décadas de 1940 a 1970, Roger Bastide principal teórico dos estudos afro-brasileiros, redigiu textos com estudos sobre sincretismo. Para Bastide a idéia de sincretismo lembrava fusão, mistura ou identificação entre crenças.

Bastide se interessava mais pela preservação da pureza do candomblé baiano, em oposição à desintegração e à mistura, que julgava encontrar na macumba e na umbanda daí seu menor interesse pelo fenômeno do sincretismo, que entendia mais como mistura. Na linha de Bastide, muitos de seus discípulos se desinteressaram em dar continuidade ao tema e alguns expoentes dos estudos afro-brasileiros passaram a abominar o sincretismo e a valorizar a denominada “pureza africana”5.

O chamado “mito da pureza africana” tem sido defendido principalmente por estudiosos e praticantes do candomblé ketu, difundido no Brasil a partir da Bahia, como comentou o antropólogo Peter Fry em diversos trabalhos. Em texto a respeito da II Conferência Mundial da Tradição dos Orixás e Cultura, ocorrida em Salvador, em 1983, o autor comenta documento, assinado pela Yalorixá Mãe Stella de Oxóssi, do Ilê Axé Opô Afonjá, uma das mais importantes mães-de-santo baianas que lideraram o movimento contra o sincretismo, segundo o qual, se o catolicismo foi útil aos escravos, hoje os praticantes da religião dos orixás, que têm liturgia e doutrina próprias, não necessitam mais desse disfarce. Para Peter Fry (1984, p. 40), a polêmica demonstra que “o conceito de ‘pureza’ e o seu oposto, a ‘mistura’ ou o ‘sincretismo’ são sempre construções essencialmente sociais e tendem a aparecer em ocasião de disputa de poder e hegemonia”. O autor conclui que o sincretismo religioso remete a uma discussão mais ampla sobre o pensamento brasileiro em relação ao negro e à sua cultura.

Diversos autores com diferentes perspectivas demonstram que o tema do sincretismo afro-brasileiro ainda está longe de um consenso e é bastante atual, envolvendo-se diretamente com os conflitos intelectuais e sociais de nossa sociedade.

Josildete Consorte (1999, pp. 78/79) da PUC/SP, em coletânea coordenada por Caroso e Bacelar (1999), registra que o debate sobre o sincretismo se popularizou nas décadas de 30 e 40 do século XX, quando interessava apenas aos meios acadêmicos e à Igreja. A grande novidade foi que, na década de 1980, começa a envolver a comunidade do candomblé na Bahia e a ser divulgado nos meios de comunicação de massa. Para a autora, o sincretismo está ligado “ao processo de inserção do negro na sociedade brasileira e, conseqüentemente ao da (re)construção da sua identidade”.
Reginaldo Prandi, da USP, em artigo dessa mesma coletânea, divide a história das religiões afro-brasileiras em três fases: o período inicial de sincretização; o de branqueamento, com a formação da umbanda, entre 1920-30; e o de africanização, a partir de 1960, com a transformação do candomblé em religião universal.

Considera que até 1930 “as religiões negras poderiam ser incluídas na categoria das religiões étnicas ou de preservação de patrimônios culturais dos antigos escravos negros e de seus descendentes” (Prandi, 1999, p. 93). Só recentemente, segundo o autor, elas começaram a se desligar do catolicismo. Afirma que o movimento de africanização do candomblé “procura desfazer o sincretismo com o catolicismo e recuperar elementos rituais perdidos na diáspora, além de reaprender a língua ioruba” (id., p. 97). Nos anos 60 do século XX, com o movimento da contracultura, “o candomblé, a partir do Sudeste, foi transformando-se também em religião universal, isto é, religião para todos” (id., 103).

Segundo Stewart e Shaw (2005: 7/8) sincretismo não é um termo com significado fixo, pois seus sentidos foram historicamente constituídos e reconstituídos. Identificar um ritual ou tradição como sincréticos é dizer pouco, pois todas as religiões têm origens compostas e são continuamente reconstituídas. Parece mais importante focalizar o processo da síntese religiosa.

Stewart e Shaw lembram que é importante confrontar o sincretismo com o anti-sincretismo, que se relaciona com a construção da autenticidade e com a noção de pureza e que tanto as tradições puras quanto as sincréticas podem ser autênticas.
Durante mais de um século, através de correntes teóricas diferentes, muita coisa foi escrita sobre o sincretismo entre nós. Alguns acham que se deve evitar falar em sincretismo.

Outros falam em anti-sincretismo, dessincretização, ou africanização e reafricanização, em relação às religiões de origens africanas no Brasil. Historiadores preocupados com as mentalidades e a vida cotidiana discutem esse problema, que era considerado específico da Antropologia. A trajetória desse conceito permite visualizar disputas acadêmicas e políticas, que acompanham análises da realidade social. Sincretismo, cultura, identidade, etnicidade, hibridismo, multiculturalismo e outras categorias sociais complexas, necessitam continuar a serem pensadas e repensadas, com a colaboração de diferentes ciências e correntes de pensamento. É importante lembrar que a própria definição dessas diversas categorias, como do fenômeno do sincretismo, continua constituindo um desafio para os especialistas.

Festas Populares e sincretismo

As festas populares e as manifestações folclóricas refletem de modo geral a presença do sincretismo nas religiões populares. Consideramos, entretanto que as religiões populares ultrapassam o conteúdo do folclore. Existem nas práticas religiosas afro-brasileiras componentes especificamente religiosos distintos do folclore e das festas. Podemos indicar entre outros o respeito por seres, por lugares, por objetos, aos mais velhos, cânticos e palavras sagradas, gestos, rituais e a observação de cerimônias litúrgicas minuciosas e complexas.
Identificamos elementos do sincretismo religioso nas festas religiosas populares realizadas nos terreiros de tambor de mina do Maranhão que temos estudado. No tambor de mina, nome principal das religiões afro-maranhenses, entidades religiosas africanas e de outras procedências, pedem a realização de festas da cultura popular e são homenageadas pelos devotos com festas de vários tipos.
Assim nos terreiros de mina é comum a realização de festas do Divino Espírito Santo, de tambor de crioula, de bumba-meu-boi, banquete para os cachorros, ladainhas, procissões e outros rituais que são oferecidos em homenagens e como pagamento de promessa aos santos, a caboclos, voduns, orixás e outros encantados.
A realização destas festas nos terreiros constitui uma forma de expressão da religiosidade popular e não pode ser vista como superstição ou atraso ou ridicularizado como fator obscurantista que prejudica a pureza ou a africanidade da religião. Não se pode também dizer que o sincretismo foi um fenômeno que só funcionou no passado e que se encontra em desaparecimento ou que prejudique a tradicionalidade das manifestações religiosas. O sincretismo também não foi apenas um fator de resistência à dominação cultural e religiosa. Os que herdaram a religião dos antepassados africanos – o culto aos ancestrais, aos voduns, orixás, caboclos e encantados, tiveram também que aceitar a religião imposta pela dominação colonial, ficaram com as duas religiões e cultuam ambas com devoção idêntica.
Consideramos o sincretismo, como elemento essencial de todas as formas de religião, que está muito presente na religiosidade popular, nas procissões, nas comemorações dos santos, nas diversas formas de pagamento de promessas, nas festas populares em geral, como em diversos elementos da religião oficial, por exemplo no Catolicismo. Constatamos que o sincretismo constitui uma das características centrais das festas religiosas populares. Nas religiões afrobrasileiras o sincretismo é uma forma de relacionar o africano com o brasileiro, de fazer alianças como o escravo aprendeu na senzala e nos quilombos “sem se transformar totalmente naquilo que o senhor desejava” (Reis 1996: 20), nem ficar ”presos a modelos ideológicos excludentes” (Munanga, 1996: 63).

O sincretismo nas religiões afro-brasileiras não representa assim um disfarce de entidades africanas em santos católicos, mas uma “reinvenção de significados” e uma “circularidade de culturas”. Trata-se de uma estratégia de transculturação refletindo a sabedoria que os fundadores também trouxeram da África e, eles e seus descendentes, ampliaram no Brasil. Em decorrência do sincretismo, podemos dizer que as religiões afro-brasileiras têm algo de africanas e de brasileiras sendo, porém diferentes das matrizes que as geraram.

A Festa do Divino

A festa do Divino Espírito Santo é um ritual do Catolicismo popular que, como o carnaval, o bumba-meu-boi e outras festas populares, possui características específicas em diferentes regiões6. Mais do que outras manifestações populares, a Festa do Divino é realizada por questão de promessa e de fé sendo, portanto essencialmente uma festa religiosa. Enquanto na maior parte do país esta festa é um ritual do Catolicismo popular, no Maranhão, embora vinculada ao catolicismo, o Divino possui peculiaridades que a distinguem. Primeiro, a presença marcante de mulheres que são as principais organizadoras dos terreiros de tambor de minas e das festas do Divino. São também quase que só mulheres – as caixeiras, que tocam instrumentos musicais denominados caixas do Divino. Outra diferença, que ocorre principalmente em São Luís7, é estar incluída no calendário religioso dos Terreiros de Tambor de Mina ou casas de culto afromaranhenses. Quase todos os terreiros organizam, uma vez ao ano, uma festa do Divino em homenagem à entidade importante para a comunidade religiosa.

Algumas poucas pessoas organizam a festa em sua casa. Quase sempre são pessoas relacionadas com o tambor de mina e que, por algum motivo, fazem a festa fora do local de culto, mas geralmente em homenagem e a pedido de entidades cultuadas nos terreiros.

As caixeiras constituem elemento imprescindível e típico da festa do Divino no Maranhão. São senhoras idosas com o encargo de tocar caixas8 e entoar cânticos, repetidos de cor ou improvisados, em louvor ao Divino Espírito Santo. Costumam fazer isso por promessa ao longo da vida e vinculam-se a um grupo de seis a doze ou mais, que anualmente tocam em diversas casas, sob a liderança da caixeira régia9, ajudada pela caixeira mor. Normalmente as caixeiras não recebem remuneração, mas são muito valorizadas. Recebem alimento, algum dinheiro para transporte, vestimentas iguais em algumas festas e são agradadas com presentes e mantimentos.

Além de tocar e cantar, em alguns momentos elas dançam com as bandeireiras diante do trono e do mastro. No toque das caixeiras alguns percebem a presença do ritmo marcial dos tambores e da síncope africana ou então, que os cânticos lembram litanias e salmodias do canto chão gregoriano.

Segundo Dona Celeste, caixeira régia da festa na Casa das Minas, na festa do Divino devem ocorrer cerca de nove tipos diferente de toques10, com ritmos distintos, que a caixeira régia tem que conhecer bem e saber o momento em que devem ser tocados. Antes do início de uma festa há uma longa fase preparatória que começa com a tomada de decisão de realizá-la em pagamento de promessa, por devoção ou exigência de uma entidade religiosa que também é devota do Divino. Em todas as festas, especialmente na Festa do Divino, em que se realiza uma seqüência longa e barroca de rituais, os bastidores são essenciais para que se tenha uma boa festa, funcionando antes, durante e após o seu encerramento.

Em geral, há a expectativa de que uma festa bonita e bem organizada atraia muitas pessoas que, gostando, virão outras vezes, trarão novos convidados e, com isso, a cada ano a festa irá crescendo e atraindo mais pessoas. Quando se decide organizar a festa passa a ser feita durante vários anos, enquanto a principal responsável puder fazê-lo. Temos conhecimento de pessoas que organizaram festa do Divino em São Luís durante cinqüenta anos ou mais.

Com antecedência mínima de um ano, são escolhidos os membros dos impérios 11 como um casal de imperadores, de mordomos régio, mordomos mor, os padrinhos do mastro e outros colaboradores. Um semestre antes se escolhem as cores predominantes das vestimentas, a serem usadas pelas crianças, e dos enfeites, para que os organizadores comecem a adquirir o material necessário, devendo tudo ser preparado com bastante antecedência. No Maranhão uma festa do Divino considerada boa costuma ter, no mínimo, seis mesas de doces, cada uma com duas a três dúzias de enfeites ou lembranças para serem distribuídas entre os amigos e colaboradores.

Devido à complexidade e às dificuldades de se organizar uma festa do Divino completa, algumas casas realizam somente uma salva do Divino ou apenas erguem o mastro e rezam algumas orações. Mas, apesar de todas as dificuldades, que sempre aumentam para as populações mais pobres, existe no Maranhão o costume de, a cada ano, os grupos quererem fazer uma festa mais bonita e mais rica do que a anterior, como ocorre com o bumba-meu-boi e com outras festas populares. Constatamos que a festa do Divino atualmente não se encontra em decadência, mas em expansão.

A festa do Divino é comemorada pela Igreja Católica no Domingo de Pentecostes, com data móvel celebrada 50 dias após a Páscoa. Nesse dia é lembrada a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, representado iconograficamente por uma pomba e por línguas de fogo. Esse evento é considerado um dos mistérios da religião. A idéia de mistério é também um dos componentes das religiões afro-brasileiras muito acentuado no tambor de mina, onde grande parte do conhecimento religioso é considerada um segredo, um mistério, transmitido oralmente e conhecido por poucos 12. A pomba branca e a cor vermelha13 são símbolos presentes na festa do Divino em toda parte, como a bandeira, a coroa, o cetro, o mastro e outros elementos.

Em função de pregações missionárias anteriores e a partir de comparações feitas pelo catolicismo e por outras religiões14, entre a descida do Espírito Santo em Pentecostes e o transe religioso, provavelmente os praticantes das religiões de origem africana passaram a ver na festa de Pentecostes uma analogia com a possessão mediúnica por entidades sobrenaturais, fenômeno essencial nas religiões de transe ou possessão.

A abertura da tribuna, o buscamento e o levantamento do mastro são etapas preparatórias da festa que, como vemos, é extremamente ritualizada. Segundo Dona Celeste, “o que se faz no começo tem que ser feito no encerramento”15 ou no fechamento da tribuna. Dona Celeste compara a festa do Divino com o ritual da missa católica que não pode conter nenhum erro. Em outro trabalho (Ferretti, 1995: 185), indicamos relações entre a festa do Divino e o culto de Fá ou Ifá, dos Fons e Yorubás da África Ocidental, mostrando que essa festa é vista como um oráculo do futuro, uma vez que qualquer falha nos rituais é interpretada como prenúncio de mau agouro para a comunidade e para seus organizadores.

Há pessoas que organizam mais de uma festa do Divino por ano em diferentes locais, como dona Celeste responsável pela festa na Casa das Minas há cerca de 40 anos. Alguns pais-desanto que não gostam ou não freqüentam de bom grado o catolicismo, não deixam de organizar esta festa em seu terreiro, com receio de não cumprir corretamente as obrigações para suas entidades espirituais, pois esta festa não pode deixar de ser realizada nos terreiros que as organizam. Até bem pouco tempo, em São Luís a Festa do Divino era organizada quase que exclusivamente em Terreiros de Tambor de Mina, e muitos a organizavam. Nos últimos anos alguns Terreiros de Umbanda estão organizando também festas do Divino, principalmente em função do apoio de órgãos governamentais.

A Festa do Divino é uma tradição do Catolicismo e da cultura popular, muito encontrada em várias regiões do país, com características próprias em cada lugar. Em São Luís, é organizada principalmente por afro-descendentes, em Terreiros de Tambor de Mina, e nela se destacam os toques das caixeiras. É uma festa com organização minuciosa e complexa, com uma seqüência barroca de rituais, que não podem deixar de ser executados.

Considerações finais

A festa do Divino se caracteriza pela seriedade e devoção. Há pais ou mães-de-santo que não a organizam em seus terreiros pois dizem que implica em muitas obrigações. A festa é permeada por ambiente de fé e de devoção sincera por uma graça alcançada por intervenção do Espírito Santo. Embora a beleza da festa atualmente atraia o interesse das autoridades e dos turistas, não é um ritual vazio com falsa imitação, feito para o turista ver.
Apesar de momentos de descontração, de brincadeiras, de danças, é organizada com grande seriedade. Com os recursos arrecadados pelas doações ou jóias, deve-se distribuir a todos, alimentos e dar esmolas aos pobres, o que constitui uma das obrigações da festa. Na Casa das Minas antigamente, após a festa as crianças do império iam levar carroças com alimentos para serem distribuídos no leprosário. Hoje, ao regressar da Missa da coroação o império distribui na porta da Casa, alimentos e esmolas aos pobres e reza-se pedindo fartura de alimentos para todos e para que tudo corra bem durante o próximo ano.

A festa do Divino constitui-se um dos principais elementos que evidenciam a presença do sincretismo religioso nas religiões afro-maranhenses. O ritualismo barroco e minucioso, evidenciado nos cânticos lentos e demorados das caixeiras e nas longas cerimônias da festa do Divino nos terreiros é, encontrado em outros rituais do Tambor de Mina, lembrando o Te Deum e as Missas Solenes da Igreja Católica. O exagero barroco de rituais em contraste com a sóbria discrição dos participantes é, também, uma característica desta e de outras festas populares no Maranhão.

Como foi dito em outro trabalho (Ferretti, S. 1995 b: 187), o sincretismo da festa do Divino nos Terreiros de Mina pode ser visto como paralelismo entre religiosidade e rituais de origem africana e do catolicismo popular, como se fossem duas retas que se encontram no infinito. Paralelismo de idéias e valores que estão próximos, mas não se misturam nem se confundem.

A festa do Divino reflete aspirações de abundância e de glórias do passado que estão presentes nas classes populares. É uma festa comunitária que ritualiza a colaboração e a fartura conseguida através da organização e da criatividade popular. É uma festa solene e muito ritualizada que se destaca mais pelo cumprimento do dever e da obrigação, do que pelos elementos de brincadeira, que, entretanto, estão presentes em certos momentos. No passado a festa do Divino nos terreiros era considerada como uma heresia pelos setores mais conservadores da Igreja Católica. Hoje a o catolicismo oficial a encara com maior condescendência, considerando-a como um fenômeno cultural das classes populares, mas com raras exceções, o clero católico em geral não entende muito bem o significado profundo desta festa.
Alguns preferem utilizar o termo hibridismo (Burke: 2003) ao termo mais antigo sincretismo, que consideram de maior conotação religiosa. No caso da Festa do Divino no Tambor de Mina do Maranhão, trata-se eminentemente de um fenômeno religioso, incluído na convergência do catolicismo popular com as religiões afro-brasileiras. Muitos não gostam de utilizar o termo sincretismo por considerá-lo demasiadamente vinculado à dominação religiosa do período colonial. Não temos preconceito em utilizar o conceito de sincretismo. A nosso ver, o sincretismo imposto pelo colonizador foi assimilado junto com crenças de outras procedências e está presente na festa do Divino dos terreiros de tambor de mina como um fato evidente que não pode deixar de ser constatado.
A festa do Divino no Maranhão é uma festa barroca, como é também considerado o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro (Cavalcanti, 2006: 178) e muitas outras festas brasileiras. A ornamentação das tribunas e das mesas de doces das festas no Maranhão reflete a ornamentação rica que decora o interior da maioria das igrejas coloniais, onde se observam misturas de colunas douradas com pássaros, anjos, frutas e flores, num equilíbrio artístico bonito de ser apreciado. O excesso dos interiores das igrejas barrocas brasileiras, geralmente, contrasta com a singeleza das formas exteriores daqueles templos. Da mesma forma, o excesso e o luxo da festa do Divino muitas vezes contrasta vivamente com a pobreza do ambiente onde se realizam essas festas.
Consideramos que a Festa do Divino pode ser vista como uma continuidade das festas barrocas no Brasil, identificando nela características simbólicas de ritual de inversão, segundo Victor Turner (1969), através de um catolicismo popular que domina triunfante e caminha paralelo à religiosidade africana que resiste com vigor, utilizando, estrategicamente, a impressão de se mostrar dominado e subalterno. A ambigüidade dessas relações contraditórias faz com que o observador apressado enxergue nessa festa apenas uma das suas dimensões manifestas - o triunfo do catolicismo se sobrepondo à dominação da religião africana. Uma análise mais profunda e detalhada mostra, entretanto, a força do tambor de mina, que traz o catolicismo popular para dentro do terreiro e o conduz com autonomia, oferecendo a festa a uma entidade sobrenatural (vodum16 , orixá ou caboclo), que, como os devotos da festa, tem também devoção ao Divino Espírito Santo, fato que passa despercebido aos observadores externos menos atentos. É um exemplo de hibridismo religioso e cultural (Burke: 2003) que está tão presente na realidade brasileira, com a convergência de símbolos, valores e idéias de diversas procedências.

Referências Bibliográficas:
BARBOSA, Marise Glória – Umas mulheres que dão no couro. As caixeiras do Divino no Maranhão. São Paulo: Dissertação de Mestrado em História. PUCSP, 2002.

BASTIDE, Roger. “Contribuição ao estudo do sincretismo católico-fetichistas” Estudos AfroBrasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1973, pp. 159-191 (Original, 1946).

BURKE, Peter. Hibridismo cultural. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2003.

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Carnaval Carioca. Dos Bastidores ao Desfile. Rio de Janeiro: EdUFRJ, 2006 (3ª Ed.).

CAROSO, C. & BACELAR, J. (Org.). Faces da Tradição Afro-Brasileira. Rio de Janeiro/ Salvador: Pallas/ CEA0, 1999.

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1
Comunicação originalmente apresentada em mesa redonda no Encontro Internacional sobre o Divino, organizado pelo SESC em S.Luís de 16 a 20/05/2007.
2
Na resenha em que noticia a publicação, em 1900, no Brasil, de L’Animisme Fétichiste des nègres de Bahia, Marcel Mauss (1901, p. 224-225) elogia as descrições e observações, que considera muito científicas, de Nina Rodrigues, constatando, entretanto, que aqui certas crenças apresentam características de um sincretismo mais profundo, com a fusão de elementos cristão, muçulmanos e africanos.
3
Como lembra Renato Ortiz (1978, p. 10), o fenômeno dos contatos culturais é denominado pelos franceses de “interpenetração de civilizações”.
4
Herskovits, um dos maiores conhecedores das religiões africanas e afro-americanas de sua época, realizou pesquisas no Benin, no Suriname, no Haiti, em Trinidad, nos USA e, durante a Segunda Grande Guerra, passou cerca de um ano em viagens de estudos e conferências pelo Brasil. Foi dos mais brilhantes expoentes do culturalismo norte-americano, tendo orientado, nessa perspectiva, teses de três pesquisadores brasileiros: o paulista Octávio da Costa Eduardo, único dos três que está vivo e que, em 1944, pesquisou no Maranhão; o também paulista Ruy Coelho, que realizou estudos no Caribe; e o médico pernambucano René Ribeiro, que estudou cultos afros em Recife.
5
Tendência no campo afro-brasileiro a se supervalorizar certos grupos religiosos, principalmente os nagôs, considerados como mais tradicionais, “puros” ou não sincréticos, que seriam continuadores de tradições africanas e que acabaram sendo mais pesquisados pelos antropólogos.
6
No mundo português, conforme diversos autores, essa festa se difundiu a partir dos Açores, levada, sobretudo pelos franciscanos. Sabemos que no início dos tempos coloniais, Portugal mandou casais açorianos para povoar o Brasil, sobretudo nas regiões próximas aos limites do Tratado de Tordesilhas, que passava, ao Norte, perto Belém do Pará e, ao sul, em Laguna, no atual estado de Santa Catarina. Talvez por isso, nessas regiões, como no interior do país, em Goiás essa festa até hoje continue muito importante, embora seja realizada também em outros estados como São Paulo e Rio de Janeiro. Na literatura específica constata-se sua ausência em vários estados, sobretudo no Nordeste, na região que vai de Sergipe ao Piauí, talvez em função do tipo de ação missionária aí desenvolvida no passado.
7
Em municípios próximos à capital como Alcântara e Paço do Lumiar, esta festa não tem relações com terreiros.
8
As caixas do Divino são tambores semelhantes aos usados pelos soldados nas paradas militares. São instrumentos membranofônicos confeccionados em metal cilíndrico, com cerca de 70 cm de altura por 50 de diâmetro e couro nas duas bocas, afinados por cordas laterais. São tocadas com duas varetas de madeira. São pintadas de vermelho e branco ou de azul e branco. Nos deslocamentos, ficam suspensas ao ombro da caixeiras por tiras de pano. São batizadas, possuem padrinhos e recebem nomes especiais. Em São Luís, diferentemente do que constatamos em outros lugares, os tambores ou caixas do Divino são tocados quase exclusivamente pelas caixeiras, que em alguns momentos executam dança complexa diante do mastro e do império, acompanhadas por meninas que seguram bandeiras, as bandeireiras.
9
A caixeira régia, que chefia as outras caixeiras, é personagem de grande importância na festa do Divino e precisa conhecer bem todos os cânticos e detalhes dos rituais.
10
São eles: (1) Toque do Espírito Santo Dobrado; (2) Toque do Espírito Santo Singelo; (3) Toque de Senhora Santana; (4) Toque do levantamento e da derrubada do mastro – (de Nossa Senhora da Guia); (5) Toque do hino da Missa; (6) Toque da Alvorada, que continua com o da Alvoradinha; (7) Toque da dança das caixeiras; (8) Toques de rezas e de ladainha nas caixas; (9) Toque do fechamento da tribuna, com o Bendito de Hortelã. A Festa do Divino e principalmente as caixeiras, têm despertado o interesse de estudiosos que redigem monografias, dissertações, artigos e trabalhos de pesquisa sobre o tema (Barbosa, 2002; Gouveia, 2000, 2001).
11
Na festa do Divino em São Luís o império é representado por cinco a dez ou mais crianças, na faixa etária entre 4 a 14 anos, vestidas com roupas de época, usando trajes da corte de imperadores e mordomos, com seus respectivos símbolos, como coroa, tiaras, cetro e outros. São saudados como nobres e sentam-se em tronos ou tribunas.
12
Palavras relativas ao mistério de Pentecostes e sobre os seus símbolos costumam ser acentuadas pelo padre que prega o sermão na Missa desse dia, assistida pelos participantes da festa.
13
Em algumas festas, o azul também é cor importante, sobretudo, nas vestimentas, na decoração do altar e das mesas de doces. Na Casa das Minas se diz que quando a festa é realizada em junho predomina o vermelho que é a cor dos santos comemorados com fogueiras nesse mês, e quando a festa cai em maio, mês de Maria, predomina o azul, que representa a cor do seu manto.
14
O pentecostalismo protestante e o movimento carismático católico hoje muito difundidos em toda parte, também comemoram a descida do Espírito Santo, desenvolvendo práticas como o êxtase ou transe, o dom de curas e a glossolália, ou fala em línguas estranhas, considerados símbolos do Espírito Santo, a partir de elementos inspirados em narrativas bíblicas. Esses movimentos, que costumam incentivar o êxtase pelo Espírito Santo, vêem o transe nas religiões afrobrasileiras como possessão demoníaca.
15
Há ritos que possuem simbolismo e eficácia específica e não podem deixar de ser realizados. Na festa do Divino, seguese um ritualismo minucioso, não podendo ocorrer erros que representam um mau agouro.
16
Na Casa das Minas a festa do Divino é uma devoção da vodum nochê Sepazim, que é uma princesa da família real de Davice (Ferretti: 1996).

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

SINCRETISMO RELIGIOSO NO UNIVERSO SIMBÓLICO DOS “BORBOLETAS AZUIS” DE CAMPINA GRANDE – PB

SINCRETISMO RELIGIOSO NO UNIVERSO SIMBÓLICO DOS “BORBOLETAS AZUIS” DE CAMPINA GRANDE – PB
Elizabete Costa
Fabrícia Maria de Araújo Silva
Karina Alves de Sousa
Adriana Freire Pereira

O presente trabalho relata a história do grupo Messiânico Borboletas Azuis que teve sua origem no final da década de 1960 e início de 70 na cidade de Campina Grande, este grupo mistura práticas religiosas do Catolicismo, do Espiritismo e do protestantismo. A sede do grupo é conhecida como Casa de Caridade Jesus no Horto, fundada por Roldão Mangueira, líder religioso. O funcionamento desta Casa de Caridade ocorria através da união de sessões espíritas, realizadas sobre a “Mesa de Caridade” no interior da casa e de orações do Ofício de Nossa Senhora e demais preces católicas. Os seguidores de Roldão Mangueira eram orientados por normas de comportamentos que condenavam cores aberrantes, esporte, a prática da medicina e atos mundanos. Os Borboletas Azuis percorreram Campina Grande e Municípios vizinhos divulgando a profecia de um dilúvio que chegou ao conhecimento nacional por via imprensa. A profecia não se cumpriu e houve grande tumulto em frente a Casa de Caridade Jesus no Horto. O malogro da profecia fez com que o grupo perdesse um grande número de adeptos e os que permaneceram se limitaram a orações internas.
Palavras-chave : Sincretismo. Profecia. Borboletas Azuis.

Revista Alpharrabios

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pedro Malazartes: do sincretismo cultural à resistência pelo riso


Pedro Malazartes: do sincretismo cultural à resistência pelo riso

por Luciano Fussieger
Graduando em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bolsista de Iniciação Científica pelo programa PIBIC/CNPQ/UFRGS. Orientado pela Prª Drª Ana Lúcia Liberato Tettamanzy. E-mail: lucianofussieger@gmail.com


RESUMO: Em se tratando de cultura brasileira, torna-se redundante a afirmação de que esta muito deve às influências portuguesas e africanas. Igualmente redundante seria afirmar que essas influências se fazem notar na tradição oral brasileira, assim como na tradição escrita. Porém, torna-se frutífero e instigante pensar como as culturas formadoras destas tradições se sobrepõem e se cotejam. Este trabalho, examina o entretecimento de elementos culturais portugueses e africanos para formar um elemento presente na(s) atual(ais) cultura(s) brasileira(s), a saber, a narrativa de Pedro Malazartes. O confronto da recorrência dessa narrativa em Portugal (através das coletas de contos orais feitas por Teófilo Braga e Consiglieri Pedroso) e no Brasil (nas coletas de Lindolfo Gomes, Câmara Cascudo e Sílvio Romero) revela um número significativamente maior de narrativas no Brasil. A pesquisa aponta que este fato pode ser visto como resultado de um sincretismo cultural de origem africana. Malazartes no Brasil, diferentemente que em Portugal, se investe de astúcia, inteligência, malícia e "jinga", elementos sincretizados no contato com a tradição oral africana. Assim, no Brasil, o mito de Malazartes pode ser visto como uma narrativa de resistência simbólica frente ao opressor, resistência esta que se dá através do riso, ora ingênuo, ora corrosivo.

PALAVRAS-CHAVE: Malazartes - Resistência - Riso.

SUMMARY: When dealing with Brazilian culture, it has become redundant to affirm that it owes a lot to Portuguese and African influences. As redundant would be to affirm that these influences can be noticed in
Brazilian oral tradition, as well as in the written
one. However, it is fertile and instigating to think
of how the cultures that form this tradition overlap
and conform to each other. This work examines the
intertwining of Portuguese and African cultural
elements to form another element, which is present in
the Brazilian culture(s) nowadays, namely, the
narrative called Pedro Malazartes. The confrontation
of the recurrence of this narrative in Portugal
(through the compilation of oral tales made by Teófilo
Braga and Consiglieri Pedroso) and in Brazil (in the
compilations of Lindolfo Gomes, Câmara Cascudo and
Sílvio Romero) reveals a significantly greater number
of narratives in Brazil. The research shows that this
fact can be seen as a cultural syncretism of African
origin. Malazartes in Brazil, differently from
Portugal, shows a great deal of malice, intelligence,
cleverness and what Brazilians call "jinga", elements
which were syncretised in the contact with the African
oral tradition. This way, in Brazil, the myth of
Malazartes can be seen as a narrative of symbolical
resistance to the oppressor through laughter, whether
naïve or corrosive.

KEY-WORDS: Malazartes - Resistance - Laught.

ORALIDADE, TEXTO E TRADIÇÃO


É crescente e notório o interesse dos estudos "científicos" pelas narrativas de origem tradicionais orais. Diversas áreas do conhecimento humano têm se debruçado sobre essas narrativas e feito delas material de estudo e análise. Exemplos disso são a Antropologia, a Sociologia, a História, a Psicanálise. E cada uma destas diferentes áreas do pensamento atesta, através de suas análises, a importância destas narrativas, ditas populares.

Sendo assim, torna-se um tanto quanto dispensável aqui a discussão sobre a relevância das narrativas tradicionais orais para a área das Literaturas, assim como o porquê do interesse neste tipo de narrativas. É verdadeiramente frutífero pensarmos a literariedade de tais narrativas, bem como sua simbologia e todas as formas hermenêuticas possíveis de serem aplicadas sobre elas, que, a grosso modo, são a voz do povo que as enraíza em sua tradição. Assim, nenhum estudo cultural que se pretenda profundo pode ignorar ou mesmo se afastar destas narrativas.

A dificuldade de trabalharmos com esse tipo de "texto" está justamente nos limites do que compreendemos como texto. As narrativas tradicionais orais estão impregnadas de elementos textuais que estão além da dimensão do papel. Sua face oral as imbui de elementos que se prestam muito mais a uma análise ideológica, semiológica ou sociológica. Como nos afirma J. David Pinto-Correia, em ensaio dedicado a uma teoria sobre esse tipo de texto:


O texto da literatura tradicional constitui, pois, uma "entidade" que tem de ser compreendida não tão simplesmente como o texto literário. Se este se manifesta como única e fixa "superfície fenomenal", já aquele que estamos agora a referir-nos é um todo complexo que abrange primeiramente o sistema englobante, que designamos "apotexto", que é sempre virtual, e, como tal, nunca actualizado (...), o qual, numa dialéctica interna, gera/genera as versões, isto é, as suas realizações, podendo naturalmente, em certos pormenores, por elas ser gerado/generado.
Mas o estatuto do texto da Literatura tradicional torna-se tanto mais complexo quanto mais exige que sempre seja situado na enunciação, no seu extratexto.
[...]O conjunto do fanerotexto ou fanerotextos (variações) e apotexto (texto primário e virtual) completar-se-á com todo o extracontexto social e cultural que o envolve; é o que chamaremos "etnotexto".
Fundamentais, portanto, para o texto da Literatura Popular Tradicional, são as informações sobre os produtransmissores, respectivas atividades, estado e idade, locais de recolha (...) e a própria condição de sujeito enunciador..."[1]

Reconhecer isso é o primeiro passo para quem pretende trabalhar com esse tipo de narrativa. Para esta análise recorre-se às narrativas materializadas em papel através de compiladores, que coletaram as mesmas na oralidade e deram-lhes uma face escrita e cristalizada. Mesmo assim, encontram-se nestas narrativas marcas de sua origem oral. Marcas que aparecem através de uma pequena análise do discurso, onde afloram elementos como: "contaram-me...", "foi assim que eu ouvi...", "se me lembro bem...". Reconhecer a oralidade, mesmo no texto escrito, é importante para não perdermos de vista um dos principais aspectos que caracterizam as narrativas orais, seu percurso dinâmico através do tempo. Estas narrativas, sendo destituídas da barreira da autoria, põem-se em constante e intensa transformação, realizada cada vez que a história é contada e com isso modificada em pequenos elementos que denunciam aspectos referentes ao seu locutor e/ou a seus ouvintes. Posta essa noção numa linha do tempo, temos que as narrativas nos falam de tempos diversos e distantes, e delas ouvimos o processo de transformação e solidificação das tradições e de todos os valores disseminados por estas. Assim, traçando paralelos entre narrativas distintas, mesmo que dentro de uma mesma forma/motivo, chegamos ao objeto desse estudo: as narrativas brasileiras de Pedro Malazartes. Partindo destas, fez-se necessária a busca de narrativas de outras origens, no caso portuguesa e africana. Advém desse paralelismo entre diversas narrativas (identificadas entre si pela semelhança, tanto da forma quanto dos motivos) a pergunta que desencadeou essa investigação, bem como a resposta que se ensaia à mesma.


O MITO DE PEDRO MALAZARTES


O questionamento que se apresentou após as leituras dos contos brasileiros de Pedro Malazartes, confrontados com a leitura dos mesmos contos de origem portuguesa, foi: por que o mito[2] de Pedro é muito mais fértil em solo brasileiro?

Com efeito, se formos contabilizar a recorrência das narrativas de Pedro em Portugal (nas coletas de Teófilo Braga e Consiglieri Pedroso) e no Brasil (nas coletas de Lindolfo Gomes, Câmara Cascudo e Sílvio Romero), salta-nos aos olhos a maior quantidade de narrativas no Brasil. Pondo em dados quantitativos, temos que em Portugal há uma única narrativa coletada, através de Teófilo Braga, intitulada Pedro de Malas-Artes[3], embora algumas outras, a bem da verdade, apresentem figuras semelhantes com outros nomes. Quanto ao Brasil, temos uma maior recorrência da figura de Pedro. Lindolfo Gomes, em seus Contos Populares Brasileiros, recolheu doze histórias de Malazartes e as organizou no que chamou de Ciclo de Pedro Malazartes[4]. Câmara Cascudo, em seu livro Contos Tradicionais do Brasil, recolheu seis histórias de Malazartes[5]. Já Sílvio Romero, em seus Contos populares do Brasil, fez a recolha de um conto intitulado Uma das de Pedro Malas-Artes[6]. Conto esse que, apesar de filho único, parece ser uma espécie de junção de vários motivos/histórias de Pedro Malazartes. Tanto que o próprio Sílvio Romero o classifica como um "conto acumulativo de gênero abundante"[7].

Por essa ótica, vemos que a figura de Pedro parece ser um motivo muito produtivo no imaginário brasileiro, em contraste com o que ocorre no imaginário português. Analisando além do aspecto quantitativo, que não fornece nada mais do que um elemento primário para a discussão, temos que o conteúdo das narrativas brasileiras de Pedro, em contraste com o conteúdo da narrativa portuguesa, é radicalmente oposto. Em Portugal, Pedro Malazartes é identificado como uma personagem ingênua, que encara tudo que lhe é dito de maneira literal. Com isso, se expõe ao ridículo frente às outras personagens que figuram no conto. O que o leva a ser visto como uma pessoa que sofre de certa debilidade mental. Em contrapartida, Malazartes no Brasil se nos apresenta como uma personagem caracterizada, principalmente (e de maneira textualmente ressaltada nos contos), pela inteligência e astúcia. Além disso, aparecem outros elementos espalhados em vários contos, que ajudam a formar a figura de Pedro, que também é identificado como audaz, amoral, vadio e trocista. Tudo isso contrasta com sua pouca força física e com sua condição social de pobreza[8]. Assim, o Malazartes brasileiro, longe de ser um inepto, faz das outras personagens com quem se relaciona figura de ludíbrio. Aqui é interessante uma análise mais profunda. Nota-se que as personagens com as quais Pedro se depara são (com a exceção de duas narrativas) representativas da hierarquia da sociedade. Com efeito, lendo todos os contos coletados pelos já citados autores, temos que, na maioria deles, Malazartes logra proprietários de terras, fazendeiros, homens ricos, enfim, pessoas representantes de uma espécie de elite econômica[9]. Isso nos leva a pensar Pedro dentro da lógica, apontada pelas ciências sociais brasileiras, da malandragem[10]. Dessa maneira, talvez, seja Malazartes a proto-origem da figura do malandro. Este, como nos aponta Da Matta, vive na tensão entre a ordem e a desordem, entre o permitido e o socialmente condenado. O malandro é a personagem da sociedade brasileira que "corre o risco de virar o marginal pleno, deixando assim de fazer parte dos interstícios do sistema, onde vive comprometido no ponto certo do equilíbrio entre a ordem e a desordem."[11].

Malazartes, em sua prática, nos põe à prova as afirmações acima. Da tensão entre sua má vontade para o trabalho e sua astúcia nasce sua maneira de enfrentar o mundo e de nele sobreviver. Tomando todas as narrativas brasileiras de Pedro, dentro das três coletas já citadas, como um corpus de análise, temos que a história de vida de Malazartes se inicia com seu primeiro contato negativo com o mundo do trabalho. Quem nos traz essa informação é Câmara Cascudo, na primeira de suas seis histórias de Pedro.


Um casal de velhos possuía dois filhos homens, João e Pedro, este tão astucioso e vadio que o chamavam Pedro Malazartes. Como era gente pobre, o filho mais velho saiu para ganhar a vida e empregou-se numa fazenda onde o proprietário era rico e cheio de velhacarias, não pagando aos empregados porque fazia contratos impossíveis de cumprimento. João trabalhou quase um ano e voltou quase morto. O patrão tirara-lhe uma tira de couro desde o pescoço até o fim das costas e nada mais lhe dera. Pedro ficou furioso e saiu para vingar o irmão[12].

Vê-se neste trecho a identificação das características, já mencionadas, de Pedro, bem como o início de sua relação com o trabalho, uma relação marcada pelo sentimento de vingança. João, que, ao contrário de Pedro, era trabalhador, sofre o abuso de um patrão rico e cheio de velhacarias. Interessante notar a alusão a um contrato de trabalho que, no decorrer do conto, se mostra com duas cláusulas: primeira, o empregado não podia recusar serviço; segunda, nem empregado, nem patrão poderiam ficar zangados, o primeiro que assim ficasse perderia uma tira de couro das próprias costas. Esse contrato é símbolo da relação legal entre patrão e empregado, símbolo do Estado e de suas leis, que privilegiam o detentor das forças produtivas (no caso do conto, o homem rico que emprega João e Pedro). João é vítima desta relação, que pode ser vista como uma alegoria das relações de trabalho, perdendo literalmente uma tira de couro das costas. Uma violência que, como nos informa Da Matta, é "símbolo claro de uma exploração violenta pela aproximação direta do homem com o animal de carga ou tração e do trabalho com o peso insuportável de uma carga, que tira o couro das costas."[13]. E é essa exploração desumana, do trabalhador por parte do patrão, permitida pelo Estado e suas leis, que Pedro Malazartes procura negar. Sua busca por vingança contra o patrão que tirou o couro das costas do irmão é uma vingança simbólica contra a relação de exploração permitida pelo Estado-Nação. Malazartes nega esse Estado através de sua relação com ele: se utiliza das brechas deixadas pelo próprio Estado e por suas leis. É o que nos mostra o desencadeamento do conto acima citado. Nele, após a volta de João à casa dos pais, Pedro se emprega com o mesmo patrão, submetido ao mesmo contrato que o irmão aceitara. Então, inicia sua vingança apoiado nos interstícios do referido contrato. Ocorrem uma série de episódios em que Malazartes, através de sua astúcia, contorna as velhacarias do patrão ganancioso. Primeiro o patrão manda Pedro trabalhar nas plantações de milho. Junto com Pedro vai uma cachorrinha. Pedro, segundo as ordens do patrão, só pode voltar para almoçar quando a cachorrinha assim o quiser. Chegando próximo ao meio dia, Pedro desfere uma paulada na cachorra, que sai correndo pra casa e com ela vai Malazartes. À tarde, quando volta à plantação, Pedro só ensaia o gesto e a cachorra já sai correndo de volta. No segundo dia, o patrão propõe que Pedro limpe o roçado de mandioca. Pedro assim o faz, literalmente. Ele arranca todas as plantas, deixando o roçado completamente vazio. Num outro dia, o patrão pede que Pedro traga uma carga de "madeira sem nó". Malazartes corta todo o bananal, explicando ao patrão que bananeira é madeira sem nó. Em outra feita, propõe o patrão que Malazartes coloque uma carroça e sua junta de bois dentro de uma sala, não podendo eles passarem pela porta. Pedro pega o machado, corta a carroça em pedaços, mata os dois bois, esquarteja-os e joga tudo dentro da salinha, pela janela. Outro dia, ao ser mandado vender um bando de porcos na feira, Malazartes os vende, fica com o dinheiro, mas corta-lhes a ponta do rabo. Em seguida, enterra as pontas num lamaçal, indo dizer ao patrão que eram os porcos que lá estavam. O patrão, desesperado, manda Pedro até a casa buscar duas pás. Ele vai e fala para a mulher do patrão que este quer dois contos de réis[14]. A velha não acredita e Malazartes, pedindo confirmação ao patrão, aponta pra ele com os dedos, mostrando dúvida se um ou dois. O patrão confirma que são dois e sua mulher dá o dinheiro, que Pedro toma para si. Não agüentando mais o empregado, o patrão resolve matar Pedro. Fala com ele e diz que há um ladrão por perto e que à noite os dois lhe farão uma tocaia. A idéia do patrão era matar Pedro dizendo que o confundira com o ladrão e assim escapar das autoridades. Pedro desconfia da história e à noite, quando devia render o patrão na tocaia, ele acorda a mulher deste dizendo que o ladrão está do lado de fora da casa e que ela deve ir lá com uma espingarda para ajudar a cercá-lo. Quando ela sai, o patrão de Pedro mata-a pensando ser Malazartes. Assim que ouve o tiro, Pedro aparece e acusa o patrão de assassinato. Este paga uma grande soma em dinheiro para Pedro se calar frente às autoridades e acrescenta uma quantia ainda maior para se ver livre de Malazartes. Assim, Pedro volta para casa rico e tendo vingado o irmão.

Interessante é notarmos que essa vingança se faz através do uso do próprio contrato proposto pelo patrão. Só que Pedro o interpreta a seu favor, da sua maneira e de forma literal. Isso se repete em outro conto de mesmo motivo. Neste, Pedro se depara com um "homem rico e muito avarento"[15], que não pagava pelo serviço dos empregados pois propunha a estes apostas impossíveis de serem ganhas. Pedro se emprega com esse homem. As condições propostas foram que Pedro deveria trabalhar trinta dias sem pedir a conta, se conseguisse fazer isso o homem pagaria três vezes o ordenado, caso contrário, Pedro deveria ir embora sem nada. A primeira ordem do patrão a Pedro foi para ele atravessar mais de duzentas ovelhas por uma garganta estreita. Muitos empregados tinham tentado e desistido, mas Pedro, sendo muito astuto, amarrou uma ovelha pela perna, puxando-a através da garganta, e as outras a seguiram sem problemas. O homem não deu lugar para Pedro dormir, dizendo que este deveria se arranjar em qualquer lugar. Malazartes subiu no armário onde se guardava a comida, não deixando ninguém chegar perto, dizendo ser aquele seu lugar de dormir. Não tendo outra alternativa, o patrão teve que deixar Pedro comer sua comida. Outra tarefa proposta a Malazartes repete a cena do carro de boi descrita no conto já tratado. Os bois também são personagens de outra tarefa de Pedro. Indo o homem viajar, pediu ele a Pedro que cuidasse do rebanho e deixou ordens expressas para Malazartes, dizendo que quando voltasse queria ver o gado sorrindo de tão saudável. Quando o homem voltou de sua viagem, encontrou o gado com os lábios cortados e os dentes à mostra como se estivesse sorrindo. Não tendo dúvidas, o homem pagou o ordenado triplicado a Malazartes e o mandou embora.

Assim se ilustra a idéia já mencionada de que a figura de Malazartes, sendo imbuída dos elementos da malandragem, tem em si o conhecimento da liminariedade das estruturas estatais e de suas leis, vivendo nesse e deste interstício. Outra coisa interessante é o final do primeiro conto, onde se afirma que Malazartes volta pra casa rico. Essa relação de riqueza é uma relação transitória, efêmera, pois a não ascensão social é recorrente nas narrativas de Pedro Malazartes. Cada vez que Pedro consegue ludibriar algum homem rico tirando-lhe alguma grande quantia de dinheiro, este é gasto de maneira dita ou implícita: "Quando chegou a cidade, Pedro meteu-se em divertimentos com os estudantes e gastou todo o dinheiro"[16], "Foi então que Pedro se encontrou com um de seus irmãos, com quem gastou em pândegas muito dinheiro."[17] Parece se tratar de um elemento constituinte de sua lógica e de sua figura a falta de vontade de se estabelecer, de se fixar, de criar raízes e, principalmente, de ascender na hierarquia social. Isso transparece nas narrativas como uma conseqüência da vontade de Malazartes de ser livre, solto, de correr mundo. Se olharmos no escopo de todas as narrativas de Pedro, encontraremos uma delas, na coleta de Câmara Cascudo, onde temos a afirmação de que "não podendo ficar sossegado, Malazartes largou a casa indo correr mundo"[18].

Sabendo que a figura de Pedro é de origem européia (e aqui, está representada pelos contos portugueses), é um tanto quanto estranho essas características do mito no Brasil. Na tradição oral européia temos como constantes as histórias que trazem exemplos de personagens que ascenderam socialmente dentro da hierarquia da sociedade na qual estão inseridas, tanto através de feitos grandiosos, quanto através da inteligência. Mas a figura brasileira de Malazartes não se identifica com essas ascensões. Pelo contrário, Malazartes preza, acima de tudo, sua liberdade, sua condição de vagamundo. Pedro, no Brasil, está preocupado em desfrutar a vida e sua juventude. Esse elemento estrangeiro às narrativas portuguesas faz com que se pense em uma relação de troca, de fusão da figura européia de Malazartes com as de outras culturas postas em convivência no solo brasileiro. Creio que aqui é possível assumir a origem africana desses elementos dos quais o Malazartes brasileiro se constitui. Com efeito, para qual cultura era de interesse pôr em xeque as estruturas sociais vigentes no Brasil? Para qual cultura o valor da liberdade era mais caro? Dentro da relação patrão/empregado, detentor/desprovido, dominador/dominado, qual cultura formadora da nação brasileira[19] teve mais interesse em negar o valor do trabalho, e todas as ideologias de crescimento e ascensão social vinculadas a este? Parece-me que a resposta se configura como a cultura negra, a cultura africana[20].


O SINCRETISMO CULTURAL NA FIGURA BRASILEIRA DE PEDRO MALAZARTES


Essa afirmação não é feita do nada. Há indícios textuais nas narrativas brasileiras de Malazartes que nos remetem ao período escravagista no Brasil. Além disso, buscando subsídio textual para este estudo, temos que no imaginário africano (aqui representado pelos contos moçambicanos coletados por Lourenço do Rosário) aparecem figuras mítico/simbólicas cujo papel é idêntico ao do Malazartes brasileiro. No caso da coleta mencionada, temos um ciclo de histórias onde a personagem é caracterizada pela sua astúcia e inteligência, com as quais enfrenta as situações dramáticas postas nas narrativas. Esses contos aparecem sob a roupagem de fábulas onde temos a figura do Coelho numa simetria de caráter perfeita com a figura brasileira de Pedro Malazartes. Além do Coelho, temos outras figuras animais que se encaixam nessa simetria perfeita com Malazartes; estes são o Macaco e a Aranha.

No livro Maravilhas do Conto Africano há um conto intitulado Como Deus se Separou do Homem[21],onde temos a figura da Aranha Ananse que, através de sua extrema inteligência e astúcia, consegue enganar até o deus criador, Wulbari. Esse conto, apesar de não pertencer diretamente ao corpus de análise, traz um elemento de semelhança extrema com o conto de Malazartes coletado por Sílvio Romero. Com efeito, dentro do texto aparece a figura da Aranha pedindo ao deus criador uma espiga de milho e prometendo em troca cem escravos. O deus criador dá a espiga de milho à Aranha, conhecida e respeitada por todos pela sua inteligência e astúcia, e ela segue rumo a uma cidade. Durante a viagem, Ananse vai trocando a espiga de milho por diversos produtos. Estas trocas são mediadas por sua capacidade de ludibriar pessoas importantes como proprietários de terras e reis de nações tribais. As trocas que Ananse vai fazendo são literalmente as mesmas que Pedro faz no conto brasileiro, inclusive se utilizando do truque com o cadáver que termina com o ciclo de trocas e a realização da transformação da espiga de milho em cem escravos. Mesmo não pertencendo ao corpus de análise, que se restringe às narrativas coletadas em nações africanas de colonização portuguesa, este conto tem uma força enorme de argumento para a afirmação de que o Malazartes brasileiro muito deve (no que tange a sua índole, comportamento e imaginário) à condição sincrética entre as culturas portuguesa e africana. Voltando ao corpus de análise, ou seja, às narrativas moçambicanas, temos a figura do Coelho que também estabelece, como já foi dito acima, uma relação de perfeita simetria com o Malazartes brasileiro. Para efeito de comparação, temos que Lourenço do Rosário classifica os contos coletados[22] de acordo com dois critérios. O primeiro de ordem morfológica, e o segundo de ordem temático-antropológica. O que aqui nos interessa é a segunda classificação, onde ele afirma pertencerem os contos em torno da figura do Coelho às narrativas de "animais pequenos antropomorfizados que, pela sua esperteza, vencem os animais maiores a mais fortes"[23]. Essa classificação por motivo nos remete às afirmações que fizemos em torno da figura de Malazartes e de sua relação com as personagens ludibriadas. Parece que tanto o Coelho das narrativas moçambicanas quanto o Malazartes das narrativas brasileiras se utilizam de astúcia e inteligência para resistirem frente ao dominador (os animais mais fortes, no caso do Coelho, e os proprietários de terras e poderosos, no caso de Malazartes). Indo aos contos propriamente ditos, temos outras semelhanças que aparecem de forma textual. O caráter de amoralidade que conferimos às ações de Pedro também se aplica às ações do Coelho que, em várias narrativas, propõe aos outros animais que ambos matem suas mães para aumentar seu estoque de comida. Em outras narrativas como Ano de Sol e O Coelho e os Macacos, ele provoca a morte de outros animais, o que se assemelha à primeira narrativa de Malazartes aqui tratada. Temos também posto, em algumas narrativas, a característica de ser o Coelho, da mesma maneira que Pedro, avesso ao trabalho[24]. Assim temos, literalmente:

Foi numa temporada em que não chovia e a seca assolava toda a mata. Os animais morriam de sede.
Vai daí, todos eles se reuniram para encontrar a solução do problema. "Procurar água de todas as maneiras possíveis".
Os animais começaram por cavar, cavar, não encontraram nada. Então resolveram cortar árvores para ver em qual delas seria possível encontrar água.
O coelho, porém, que tinha sido convocado como os outros, recusou-se a participar, dizendo: "Não preciso procurar água, basta-me o orvalho da manhã."[25].


Um dia, o leão convocou todos os animais para efectuarem queimadas e abrirem campos de cultivo, porque avizinhou-se a época das cheias e com ela viria a fome.
O coelho respondeu: "Eu não vou trabalhar porque me basta a cinza para sobreviver ". O emissário do rei ficou muito admirado mas foi comunicar ao leão que o coelho tinha se recusado[26].


Assim, a afirmação de que houve um sincretismo[27] cultural entre a figura européia de Malazartes e a Weltschaung dos escravos africanos provém desses elementos textuais, encontrados nas narrativas orais tradicionais de origem africana, fundidos com os elementos contidos nas narrativas brasileiras de mesmo caráter onde figura o mito de Pe onddro Malazartes... Retomando, temos elementos textuais implícitos como:

- A relação das personagens ludibriadas por Malazartes e seus lugares na sociedade, dados através de suas posses: "empregou-se numa fazendae o proprietário era rico e cheio de velhacarias"[28], "Ao anoitecer estava diante de uma casa grande e bonita, alpendrada"[29], " O dono desse pomar era homem rico e violento"[30], "Um homem rico e muito avarento"[31], "[...] o fazendeiro havia de vir no seu rasto[...]"[32], "E foi dar no castelo de um ricaço[...]"[33], etc;

- A relação estabelecida entre as posses e o caráter de quem possui. Como exemplo dessa relação temos os pares binários acima;

- A não vontade de ascensão social por parte de Pedro Malazartes e seu desapego material; e, como conseqüência,

- Seu forte apego à liberdade.

Além disso, há indícios explícitos em algumas narrativas que se referem a um contexto temporal onde temos instaladas as relações de escravidão. Numa destas narrativas, dentro da coleta de Lindolfo Gomes, temos transcrito que a senhora da casa vai em auxílio de sua "mucama", e algumas linhas à frente temos que o senhor da casa, após a descoberta de uma traição por parte da mulher, "moeu os ossos tanto da senhora como da escrava[34]". Na narrativa coletada por Sílvio Romero também encontramos esse tipo de indício. Nessa história, Pedro Malazartes vai até o Rei pedindo-lhe três botijas de azeite e "prometendo-lhe em troca três mulatas moças e bonitas"[35]. Temos que concordar que essa troca é um tanto quanto estranha e só se torna possível na condição de que pessoas, no caso as mulatas, sejam tratadas como moeda de troca. O conto tem como mote a esperteza de Malazartes, que, através de uma série de artimanhas, vai trocando as botijas de azeite por outros produtos: as três botijas de azeite por três galinhas, estas por seis perus, estes por seis ovelhas, as ovelhas por seis bois, estes, por sua vez, trocou Malazartes por ouro. Indo mais adiante, Pedro encontrou um grupo que ia enterrar uma moça defunta. Pediu-lhes para que deixassem ele enterrá-la, todos concordaram. Então Malazartes encheu a defunta de ouro e foi pedir abrigo num rancho dizendo ser a moça filha do Rei. Concederam-lhe pouso e Pedro deixou ordens aos empregados para que, caso a filha do Rei chorasse à noite, era para lhe darem uma surra, coisa a que ela estava acostumada. De fato, no meio da noite foi Pedro para debaixo da cama da defunta e começou a fazer um barulho como se esta estivesse chorando. Como foram instruídos, os empregados da casa bateram muito na defunta, até Pedro parar com o barulho. Assim que os empregados saíram do quarto, Pedro se foi. Pela manhã Pedro acordou e pediu pela moça, pois queria seguir viagem. Foram acordá-la e constataram que estava morta. Malazartes fez um escândalo enorme dizendo que a moça era filha do Rei e que estavam todos condenados. O dono da casa, muito assustado, oferece qualquer coisa em troca. Pedro recusou tudo, até que "exigiu três mulatas das mais moças e bonitas. O homem rico as deu[...]"[36]. Vemos uma clara relação com a escravidão nessa narrativa. O fato das moças exigidas por Pedro serem mulatas e o tratamento recebido por elas ser de mercadorias que podem ser dadas, remete aos tempos de escravidão[37]. Enfim, parece claro que o tempo em que se passa a maioria das narrativas brasileiras de Pedro Malazartes nos remete ao período da escravidão no Brasil. Não quero dizer que a origem dessas narrativas se encontra enclausurada nesse período histórico, mas afirmo que o imaginário dessas narrativas se encontra num tempo histórico em que as relações e a hierarquia social se construíam a partir das estruturas latifundiárias e da mão de obra escrava. Dentro desse mundo, Malazartes é figura de negação, de resistência, é a contradição, é o anti-herói, ou melhor, é o herói, só que do lado do oprimido. Sua figura procura contrapor-se a esse sistema social, sua estrutura e relações. Logo, posso afirmar que o discurso de resistência parte daqueles atores sociais que se encontram na margem, no limiar dessa organização social. A proposta contrária a esta ordem das coisas só pode partir daqueles que não encontram seu espaço dentro dessa ordem. Papel este que recai sobre os escravos africanos. Assim, retomando a idéia de resistência cultural através do sincretismo entre a figura européia de Pedro Malazartes com elementos da tradição oral africana, afirmo ser Malazartes no Brasil um mito de desconstrução de um sistema social. Desconstrução esta que se dá através do cômico, do sarro e do riso, ora irônico, ora corrosivo.


RESISTÊNCIA ATRAVÉS DO RISO


A esse respeito apelo um pouco para as teorias acerca do cômico.

Em seu elucidativo ensaio intitulado De que se riem os índios?, o antropólogo francês Pierre Clastres nos chama a atenção para o fato de que, em se tratando de narrativas orais, há uma tendência à hiperinterpretação simbólica destas narrativas, indo algumas análises parar somente no limite dado pela ontologia. Assim nos diz Clastres, num tom irônico frente a essa seriedade intelectual casmurra:


Tomando decididamente a sério as narrações dos "selvagens", a análise estrutural ensina-nos, desde há alguns anos, que essas narrações são precisamente muito sérias e que nelas se articula um sistema de interrogações que elevam o plano do pensamento mítico ao plano do pensamento propriamente dito.[38]

Adiante, Clastres nos aponta um elemento novo para pensarmos determinadas narrativas orais, algo que os antropólogos, versados nas técnicas estruturais, não concebiam como instância (séria) de significação.


Não menos sérios para aqueles que os contam (os índios por exemplo) do que para aqueles que os recolhem e os lêem, podem contudo os mitos desenvolver uma intenção marcada pelo cômico, por vezes preenchendo a função explícita de divertir os auditores, de desencadear a sua hilaridade. Se tivermos a preocupação de preservar integralmente a verdade dos mitos, é preciso não subestimar o alcance real do riso que eles provocam e considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas graves e fazer rir aqueles que o escutam.[39]

Essa é a idéia que nos aproxima das narrativas brasileiras de Malazartes e que pretendo reter aqui, a questão de que estamos trabalhando com narrativas de profundo caráter cômico, sendo que este deve ser, necessariamente, uma instância de significação. Quanto à hilaridade comentada por Clastres no trecho supra citado, nos remete novamente à natureza oral das narrativas aqui trabalhadas, fato esse que foi problematizado no início do ensaio. Como as questões extratextuais se perderam para nós, não temos como analisar o tipo ou intensidade do riso que as narrativas de Malazartes provocavam/provocam em seus ouvintes. Essa instância se perdeu no momento da coleta, ou está ainda atuante nos grupos que se utilizam destas narrativas, mas que, mesmo assim, está inacessível para efeitos desta análise. O que nos interessa, e o que Clastres nos traz de positivo, é a capacidade de pensarmos os textos de Malazartes dentro da, já apontada, lógica de desconstrução, de crítica social, sem perdermos um traço presente e significante do texto: o seu caráter cômico. Essa relação entre texto cômico e crítica social também foi apontada por Propp, em seu estudo Comicidade e Riso, onde ele analisa textos provindos da tradição oral russa. Para Propp essa relação é imediata nas narrativas onde temos uma personagem que faz outra de boba, objeto de riso, de embuste. Narrativas estas que Propp analisa no capítulo quinze do livro citado, intitulado O fazer alguém de Bobo. Sua análise deste tipo de conto leva-o a afirmar que


Contos maravilhosos como esses representam para o homem atual um certo mistério. O riso surge aqui cínico e como que desprovido de sentido. Mas o folclore tem suas próprias leis: o ouvinte não as relaciona com a realidade; trata-se de um conto maravilhoso, não de histórias verídicas. O vencedor tem razão só pelo fato de vencer, e este gênero de conto não se condói nem um pouco dos crédulos bobalhões que são vítimas de peça pregada pelo bufão. Esses contos maravilhosos assumem facilmente o caráter de sátira social. Os enganados são o pope ou o patrão e o enganador é o peão da roça. O peão arruina e até mata o pope, estropia e corta em pedacinhos os seus filhos, desonra-lhe a mulher e a filha ou atira a mulher no precipício - e tudo isso sem a menor piedade, porque no folclore o povo não sente nenhuma compaixão para com os próprios inimigos, sejam estes os tártaros do epos, os franceses das canções históricas sobre Napoleão ou os proprietários de terras e os popes dos contos maravilhosos.[40]

Com efeito, vemos essas relações citadas por Propp dentro das narrativas do Malazartes brasileiro. O que nos falta agora é apontarmos como isso transparece no corpo das narrativas.

Evoquemos como ponto de partida novamente a comparação da figura portuguesa de Pedro com a brasileira. Já foi mencionado que, em Portugal, Malazartes aparece como uma personagem que interpreta tudo que lhe é dito de maneira literal, transformando-se, assim, numa figura ridícula. Em Portugal, Malazartes é o agente receptor, o motivo do riso, é a personagem que centraliza em si mesmo o cômico. Em contrapartida, no Brasil, Malazartes se reveste das características que nos levaram a inseri-lo dentro da lógica da malandragem. Aqui, Malazartes é astucioso, ardil, embusteiro; ele é o agente provocador do riso, pois, através de sua inteligência, sempre leva vantagem sobre as personagens com quem se relaciona dentro dos contos, e o cômico aparece através do resultado dessas relações. Podemos indicar dois elementos textuais como os agentes do cômico dentro das narrativas brasileiras de Malazartes. O primeiro é o cômico identificado com elementos escatológicos, o que podemos chamar de o cômico do baixo corporal. Este elemento de comicidade aparece nas narrativas em que Malazartes, através de sua lábia e astúcia, consegue fazer com que outras personagens (sempre dentro da lógica de que estas representam pessoas abastadas, ricas, mas que, em contrapartida, são facilmente enganadas) lhe dêem dinheiro em troca de "produtos" nada convencionais. Nas três coletas brasileiras temos que Malazartes faz dinheiro com cadáveres, sendo que na história coletada por Lindolfo Gomes o cadáver em questão é o da própria mãe de Malazartes. O mecanismo para essa façanha já foi explicado acima, quando se tratou do conto coletado por Sílvio Romero. Nas coletas de Lindolfo Gomes e de Câmara Cascudo temos também outros dois episódios onde afloram esse cômico de ordem escatológica, nascido do estranho comércio praticado por Malazartes. Contam-nos os dois coletadores que Pedro também vende um urubu a um rico fazendeiro, dizendo a este que o animal era vidente. Mas, sem dúvida, a narrativa que leva esse tipo de comicidade (atrelada à escatologia) a um extremo é aquela que narra como Malazartes vendeu as próprias fezes, camufladas sob o seu chapéu, a um homem que passava, ao qual disse tratar-se de um lindo e raro passarinho. Essa narrativa aparece tanto em Câmara Cascudo quanto em Lindolfo Gomes, que também coletou uma segunda narrativa dessa ordem, sugestivamente intitulada De como Malazartes fez mais uma que parecia duas. Nesta, nos contam a vez que Malazartes, estando na casa de um rico e respeitado juiz, sentiu um "chamado irresistível da natureza" e, não tendo outra alternativa, teve que satisfazer suas necessidades dentro da cartola do anfitrião.

O segundo agente da comicidade dentro das narrativas brasileiras de Malazartes provém do mecanismo de inversões dos papéis representados pelas personagens, onde, como nos diz Bergson, "teremos quase sempre diante de nós um personagem que prepara a trama na qual ele mesmo acabará por enredar-se"[41]. Os dois primeiros contos tratados neste ensaio são os melhores exemplos desse tipo de mecanismo cômico. Temos dois patrões que fazem, um através de um contrato e outro através de uma aposta, com que seus empregados trabalhem sem receberem pagamento financeiro. Realidade essa que Malazartes vai quebrar ao interpretar as condições, tanto do contrato quanto da aposta, a seu favor, produzindo assim uma inversão. Ao final, Malazartes torna-se rico sem ter trabalhado, e, o que é pior, tendo causado um enorme prejuízo material para ambos os patrões.

Esse segundo mecanismo leva a pensar as narrativas de Malazartes num contexto mais amplo que o estritamente textual (já que se tratam de narrativas orais isso nos é permitido, mesmo que dentro do campo da especulação). Parece que esse mecanismo de inversão não está somente posto naqueles contos onde ele realmente aparece de maneira textual. Penso ser esse o mecanismo que subjaz a todas as narrativas brasileiras de Malazartes (e é importante ter em mente que, como defendemos neste ensaio, estas narrativas são o resultado do sincretismo entre as culturas portuguesa e africana). Como já sabemos de antemão, ele é o agente provocador do riso que, através de sua inteligência, astúcia, lábia, amoralidade e jinga, vai terminar o conto em vantagem com relação às demais personagens. Estas, por sua vez, são, em todos os contos, explícita ou implicitamente, agentes sociais que ocupam posições superiores a de Malazartes dentro da sociedade. Esse ponto já foi mencionado inúmeras vezes ao longo do ensaio, mas é de interesse para entendermos o porquê da comicidade dos contos de Malazartes. Se o mecanismo de inversão é válido dentro do texto, também é válido dentro da sociedade e é igualmente cômico quando temos uma inversão dos papéis sociais, quando o dominado vence o dominador, quando o despossuído suplanta aquele que detém os bens materiais.

Estes fatos vêm corroborar a idéia já expressa de que as narrativas brasileiras de Pedro Malazartes são de desconstrução de uma realidade social, fato este que, é bom ressaltarmos, está presente nas próprias narrativas. Desconstrução que se dá através do riso, pois, sendo este um fenômeno estritamente coletivo, deve ter, como nos afirma categoricamente Bergson, "uma significação social"[42].

Talvez seja função do riso, provocado por essas narrativas, trabalhar com os traumas provocados por uma sociedade injustamente organizada sobre a exploração do trabalho, já que, como foi demonstrado, muitas narrativas nos remetem ao tempo da escravidão. Assim, o riso provocado pelas narrativas de Malazartes desconstrói e questiona uma realidade, fazendo com que aqueles que riem possam, mesmo que imaginariamente através do simbólico, exercer sua vingança e apresentar seus sonhos de liberdade. Mas, afirmar isso seria adentrar no campo da psicologia social e de maneira extremamente especulativa. Apesar disso, o que podemos afirmar categoricamente é que essa análise, exposta ao longo destas páginas, pode ser aplicada e visualizada no corpo das próprias narrativas, ficando a cargo do leitor a aceitação, ou não, deste último vôo hermenêutico.

Retomando e concluindo.

Parti da comparação entre a figura portuguesa e brasileira de Pedro Malazartes, vendo que em solo nacional esta é mais recorrente. Desencadeou-se desta constatação a pergunta cuja resposta foi ensaiada: por que, afinal, Malazartes é mais frutífero no Brasil? Minha resposta partiu da análise qualitativa dos contos tanto portugueses quanto brasileiros, constatando, então, que há uma diferença crucial quanto à caracterização do Malazartes brasileiro em relação à do português. Para explicar essa dicotomia fui a outras fontes formadoras da cultura brasileira, propondo que houve um sincretismo entre a figura de Malazartes (cuja origem é européia) e personagens da tradição oral africana, que lhe emprestaram suas características (inteligência, astúcia, jinga, etc). Isto, ao meu ver, tem um significado profundo, pois as narrativas brasileiras de Pedro Malazartes dramatizam uma realidade social. Realidade esta que, como tentei mostrar, se baseava na relação de exploração do trabalho escravo. Malazartes, no Brasil, vem desconstruir essa organização através do cômico, do riso. Assim, as narrativas brasileiras de Pedro Malazartes são representações simbólicas onde temos a dramatização que inverte papéis sociais, propondo o questionamento de valores (trabalho, riqueza) em prol de outro (liberdade) e a desconstrução da ordem social vigente. Isso me levou a inserir Malazartes dentro da lógica da malandragem, pondo-o no rol dos, literalmente, anti-heróis, a exemplo de João Grilo e Macunaíma, sendo estes os heróis mais dignos de admiração por parte da grande massa do povo brasileiro. Pena não o serem de fato...


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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Revista MUFUA - UFSC