segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
Prostituta não é vagabunda
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Mary Tudor, a Maria I, a rainha Sanguinária
Rainha da Inglaterra e da Irlanda (1553-1558) nascida em Greenwich, a primeira rainha que governou de fato a Inglaterra (1553-1558) e com direito adquirido e que ficou conhecida por sua perseguição aos protestantes na tentativa frustrada de restabelecer Catolicismo romano como religião oficial na Inglaterra. Filha de Henrique VIII e de Catarina de Aragão, era a meia-irmã mais velha do rei Eduardo VI de Inglaterra, que não tinha filhos, e assim sendo, a opção mais direta para sucedê-lo. Foi proclamada princesa de Gales (1525) e foi educada como católica pela mãe Catarina e, por causa dessa formação, era radicalmente contra a aplicação anglicanismo ou quaisquer outras religiões como oficiais. Com o casamento do pai com Ana Bolena, foi declarada bastarda e privada do título de princesa, porém ela jamais admitiu sua ilegitimidade dinástica e não acatou a recomendação de entrar para um convento. Após o repúdio do pai a Ana Bolena, ofereceu-lhe o perdão, com a condição de que ela o reconhecesse como chefe da igreja da Inglaterra. Acatando a exigência obteve o direito de sucessão depois dos filhos varões do pai. Mesmo assim, temendo este retrocesso, o rei agonizante foi convencido por alguns conselheiros nomear outro herdeiro, no caso a protestante Joana Grey. Quando Eduardo VI sucedeu ao pai (1547) introduziu novas reformas na liturgia eclesiástica, como a substituição do latim pelo inglês, o que ela não aceitou e sofreu novas perseguições. Com a morte de Eduardo VI (1553). De uma descendência muito popular as princesas deserdadas não concordaram com a coroação e dominou a rebelião dos nobres ingleses. Então, com o apoio da população, a princesa mais velha destronou a rainha Jane, nove dias depois da coroação e foi proclamada a nova rainha no dia 10 de julho. Presos na Torre de Londres, Jane e o marido foram condenados e decapitados no ano seguinte (1554) depois de sufocar com violência uma revolta contra a rainha, organizada por Sir Thomas Wyatt. O seu governo caracterizou-se desgraçadamente por sua vã tentativa de fazer voltar o catolicismo romano como religião do país, inclusive com o emprego da violência. Perseguiu cruelmente os protestantes e por causa da religião casou-se com o sobrinho, o rei católico Filipe II da Espanha, o que provocou o ódio no povo inglês. Na guerra contra a França, a Inglaterra perdeu Calais, seu último baluarte no continente. Envelhecida, enferma e frustrada por falsas esperanças de maternidade, morreu em Londres no mesmo ano em que morria Carlos V da Espanha. Foi sucedida por sua meia-irmã Elizabeth (1533-1603), filha de Henrique VIII com Bolena, que procurou restaurar o anglicanismo criado por seu pai.
Figura copiada do site MARY TUDOR:
http://home.earthlink.net/~elisale/
UFCG
Jane Grey, Rainha Joana I da Inglaterra, Lady Dudley
(1537 - 1554)
Rainha da Inglaterra (1553) por nove dias nascida em Bradgate, Leicestershire, proclamada rainha de Inglaterra e da Irlanda a 10 de Julho, após a morte de Eduardo VI. De uma família aristocrata, filha do marquês de Dorset e de Lady Frances Brandon, era bisneta de Henry VII, e durante a infância passou por uma educação esmerada, de acordo com a tradição para as mulheres dos Tudor, aprendendo a falar e escrevia grego, latim, francês, hebraico e italiano. Seu pai recebeu o título de duque de Suffolk (1551) e ela passou a freqüentar a corte. O seu preceptor foi John Aymler da Universidade de Cambridge, o mesmo responsável por parte da educação da então princesa Isabel, futura famosa rainha, com quem inclusive passou algum tempo, na casa de Catarina Parr, a última rainha de Henrique VIII de Inglaterra. Protestante, casou-se em maio (1553) com o filho do Duque de Northumberland, o Lord Guildford Dudley. Quando o rei Eduardo VI de Inglaterra, estava para morrer e não tinha descendentes, o Duque de Northumberland, alegando posições religiosas, persuadiu o rei moribundo declarar a Lady Dudley como sua herdeira, deserdando suas meias-irmãs. Assim, ela foi proclamada a rainha no dia 10 de julho, embora a população apoiasse a meia-irmã do rei, a católica Maria Tudor. Com o apoio popular, Maria conseguiu proclamar-se nova rainha no dia 19 de julho. Convencida a abdicar imediatamente sem resistência, sua vida foi poupada por enquanto, mas o Duque de Northumberland foi executado por traição. A rainha deposta foi feita prisioneira juntamente com o marido e, posteriormente foram condenados por alta traição e decapitados no ano seguinte (12/02/1554), em Londres. Tinha então apenas 16 anos e meio e foi enterrada em Torre de Londres, na Capela de St. Peter in Vincula, ao lado das rainhas Ana Bolena e Katherine Howard. Assim nasceu e morreu A Rainha dos Nove Dias.
Figura copiada do site da UNIV. TEXAS / PORTRAIT GALERY :
http://www.lib.utexas.edu/photodraw/portraits/
UFCG
Maud ou Matilda I, Rainha da Inglaterra
(1103 - 1167)
Imperatriz consorte do Sacro Império, Condessa de Anjou e herdeira do trono de Inglaterra (1154) nascida em Londres, mas que não governou por causa da guerra civil chamada de Anarquia, provocada pelo usurpador Estevão de Blois, seu primo. Filha de Henrique I da Inglaterra e da princesa Matilde da Escócia, tornou-se na única descendente legítima de Henrique I, depois do naufrágio do White Ship que vitimou seu irmão e herdeiro direto Guilherme Adelin. Casou pela primeira vez (1114) com Henrique V, Imperador do Sacro Império, do qual ficou viúva (1125), com apenas 23 anos e de cujo casamento não deixou descendência. Casou novamente (1128) com Geoffrey V, Conde de Anjou, o Plantageneta, e dessa união nasceram no entanto três filhos: Henrique, Geoffrey e Guilherme. Para evitar uma guerra civil pela sucessão, seu pai nomeou-a sua sucessora e obrigou a nobreza jurar-lhe fidelidade. Foi uma escolha surpreendente e não popular por ela ser mulher e casada com um descendente de uma casa tradicionalmente adversária dos normandos. A morte de Henrique I (1135) provocou uma insurreição popular instigada pelos nobres normandos e a coroa de Inglaterra foi usurpada por Estevão de Blois, seu primo. A rainha não se conformou e com aliados como o rei David I da Escócia, seu tio materno, e Roberto de Gloucester, seu irmão bastardo organizou uma disputa armada pela recuperação do trono inglês. Assim surgiu um período de guerra civil moderada, que colocou em instabilidade todas as instituições políticas que a Inglaterra viveu nos 19 anos de governo de Estêvão, a denominada Anarquia. Depois da morte de Roberto de Gloucester (1147), viu-se obrigada a escapar de Inglaterra e nunca mais regressou ao país, morrendo em um auto exílio político em um convento, em Rouen. Seu filho Henrique Plantageneta pôs um fim à guerra civil obrigando Estevão a nomeá-lo como sucessor no tratado de Wallingford (1153).
UFCG
Dona Maria II, a Educadora
Figura copiada do site ROYALTY GUIDE
http://www.royaltyguide.nl/
UFCG
Dona Maria I, a Piedosa
OBS constante do Portugal - Dicionário Histórico (http://www.arqnet.pt/dicionario/maria1.html): Com monarca sem nenhum filho varão e perdendo a esperança de ter um filho homem, entendeu que sua filha primogênita devia casar com um príncipe português, visto ser ela a herdeira do trono, e escolheu para genro seu irmão D. Pedro, apesar da grande diferença das idades do tio e da sobrinha, 43 anos contra os 26 da princesa, e o casamento realizou-se no paço da Ajuda (1760). No entretanto a princesa afeiçoou-se a seu marido, sendo ambos muito amigos, e daquele consórcio houve três filhos: o príncipe D. José, que faleceu muito novo, D. João, mais tarde D. João VI, e a infanta D. Mariana Vitória, que casou com o infante de Espanha D. Gabriel.
Figura copiada do site ROYALTY GUIDE
http://www.royaltyguide.nl/
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Eleonor da Aquitânia

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AS MULHERES DURANTE O HOLOCAUSTO
— Anne Frank Stichting
O regime nazista condenou à perseguição e à morte todos os judeus, homens e mulheres, sem distinção. O regime nazista freqüentemente submetia as mulheres, judias e não judias, a brutais perseguições que, na maioria das vezes, estavam estritamente relacionadas ao sexo das vítimas. A ideologia nazista também canalizou seu ódio em mulheres ciganas, soviéticas, polonesas, e portadoras de deficiências que viviam institucionalizadas.
Alguns campos eram destinados apenas a mulheres, e outros tinham dentro das suas instalações áreas especialmente designadas para as prisioneiras. Em maio de 1939, as SS inauguraram Ravensbrück, o maior campo de concentração nazista para aprisionamento de mulheres. Até a libertação deste campo pelas tropas soviéticas, em 1945, estima-se que mais de 100.000 mulheres haviam sido lá encarceradas. Em 1942, as autoridades das SS construíram um complexo no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau (também conhecido como Auschwitz II) destinado a servir como como campo de prisioneiras, e entre as primeiras delas estavam as que as SS haviam transferido de Ravensbrück. Em Bergen-Belsen, no ano de 1944, as autoridades do campo construíram uma extensão feminina e, durante o último ano da Segunda Guerra Mundial, as SS para lá transferiram milhares de prisioneiras judias de Ravensbrück e Auschwitz.
Os alemães e seus colaboradores não poupavam nem as mulheres nem as crianças quando conduziam suas operações de assassinato em massa. A ideologia nazista apregoava o extermínio completo dos judeus, sem levar em consideração idade ou gênero. As SS e os agentes policiais colaboracionistas executaram esta política sob o código "Solução Final" e, em centenas de localidades do território soviético ocupado, homens e mulheres foram massacrados durante as operações de fuzilamento em massa. Durante as deportações, as mulheres grávidas e as mães com crianças de colo eram sistematicamente classificadas como "incapacitadas para o trabalho", sendo prontamente enviadas para os centros-de-extermínio, onde os oficiais geralmente as incluíam nas primeiras fileiras de prisioneiros a serem enviados para as câmaras de gás.
As judias ortodoxas, acompanhadas por crianças, eram especialmente vulneráveis, já que era mais fácil reconhecê-las pelos modestos trajes religiosos que usavam, o que as tornava facilmente identificáveis. Elas também eram as vítimas favoritas de atos de sadismo durante os massacres. O grande número de filhos nas famílias ortodoxas também transformava as mulheres destas famílias em alvos especiais da ideologia nazista.
As mulheres não-judias eram igualmente vulneráveis. Os nazistas cometeram extermínios em massa de mulheres ciganas no campo de concentração de Auschwitz; mataram mulheres portadoras de deficiências físicas e mentais nas chamadas operações de eutanásia T-4 e em outras similares; e também massacraram as que acusavam de serem partisans em muitas aldeias soviéticas entre 1943-1944.
Nos guetos e campos de concentração as autoridades alemãs colocavam as mulheres para trabalhar sob tais condições que não raro elas morriam enquanto executavam suas tarefas. As judias e ciganas eram sadicamente usadas pelos “médicos” e pesquisadores alemães como cobaias em experimentos de esterilização, e outras “pesquisas” cruéis e antiéticas. Nos campos e nos guetos as mulheres eram particularmente vulneráveis a espancamentos e estupros. As judias grávidas tentavam esconder a gravidez para não serem forçadas a abortar. As mulheres deportadas da Polônia e da União Soviética para fazerem trabalhos forçados eram sistematicamente espancadas, estupradas, ou forçadas a manter relações sexuais com alemães em troca de comida e outras necessidades básicas. Muitas vezes, as relações sexuais forçadas entre as trabalhadoras escravas oriundas da Iugoslávia, União Soviética ou Polônia, e homens alemães resultavam em gravidez, e se os "especialistas em raça" determinassem que a criança a nascer não possuía "genes arianos" suficientes, as mães eram forçadas a abortar, ou eram enviadas para darem à luz em maternidades improvisadas, onde as péssimas condições de higiene garantiriam a morte do recém-nascido. Outras eram expulsas para suas regiões de origem sem nenhuma comida, roupa, ou cuidados médicos.
Muitos grupos informais de "assistência mútua" foram criados dentro dos campos de concentração pelas próprias prisioneiras, as quais garantiam sua sobrevivência compartilhando informações, comida e roupas. Em geral, os membros destes grupos vinham da mesma cidade ou província, tinham o mesmo nível educacional, ou possuíam laços de família entre si. Outras sobreviveram porque as autoridades das SS as colocavam para trabalhar no conserto de roupas, na cozinha, lavanderia e na faxina.
As mulheres tiveram papel importante em várias atividades da resistência ao nazismo. Este foi o caso das mulheres que, previamente à guerra, eram membros de movimentos juvenis socialistas, comunistas ou sionistas. Na Polônia, as mulheres serviam como mensageiras que levavam informações para os guetos. Muitas mulheres conseguiram escapar escondendo-se nas florestas no leste da Polônia e da União Soviética, e servindo nas unidades armadas dos partisans>/i>. Na resistência francesa, da qual muitas judias participaram, a atuação das mulheres não foi menos importante. Sophie Scholl, uma estudante alemã da universidade de Munique, e membro do grupo de resistência White Rose, foi presa e executada em fevereiro de 1943 por divulgar propaganda antinazista
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Algumas mulheres lideraram ou integraram organizações de resistência dentro dos guetos. Entre elas estava Haika Grosman, de Bialystok. Outras se engajaram na resistência dentro dos próprios campos de concentração, como em Auschwitz I, onde cinco judias que haviam sido colocadas para trabalhar na separação de munição na fábrica “Vistula-Union-Metal”--Ala Gertner, Regina Safirsztajn (também conhecida como Safir), Ester Wajcblum, Roza Robota, e uma mulher não identificada, possivelmente Fejga Segal—forneceram a pólvora que foi usada para explodir uma câmara de gás e matar vários homens das SS durante um levante de membros do Sonderkommando (Grupo Especial) judeu naquele campo, em de outubro de 1944.
Outras mulheres participaram ativamente das operações de resgate e socorro aos judeus na parte da Europa ocupada pelos alemães. Entre elas estavam as judias Hannah Szenes, pára-quedista, e a ativista sionista, Gisi Fleischmann: Szenes, que vivia na área do Mandato Britânico na Palestina, saltou de pára-quedas na Hungria, em 1944, para ajudar os judeus, mas terminou sendo barbaramente torturada pelos alemães; e Fleischmann era a líder do grupo ativista Pracovna Skupina, Grupo de Trabalho, que operava dentro do Conselho Judaico de Bratislava, e que tentou deter a deportação de judeus da Eslováquia.
Milhões de mulheres foram perseguidas e assassinadas durante o Holocausto. No entanto, para todos os efeitos, foi o enquadramento na hierarquia racista do nazismo ou a postura religiosa ou política dessas mulheres que as tornaram alvos, e não o seu sexo.
Museu do Holocausto
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
A “NOITE DOS CRISTAIS” — TESTEMUNHO
Inge Auerbacher
Kippenheim, Alemanha
31 de dezembro de 1934
Inge era a única filha de Berthold e Regina Auerbacher, um casal judeu religioso que vivia em Kippenheim, um povoado no sudoeste da Alemanha, perto da Floresta Negra. Seu pai era um próspero comerciante no ramo têxtil, e a família vivia confortavelmente em uma mansão de dezessete aposentos, com empregados para executar os serviços domésticos.
1933-39: Em 10 de novembro de 1938 criminosos atiraram pedras e quebraram todas as vidraças da nossa casa. Naquele mesmo dia a polícia levou meu pai e meu avô. Minha mãe, minha avó, e eu conseguimos nos esconder em um galpão até que tudo estivesse quieto. Quando saímos do esconderijo soubemos que todos os homens judeus haviam sido levados para o campo de concentração de Dachau. Poucas semanas mais tarde, meu pai e meu avô conseguiram obter permissão para retornar, mas o coração do meu avô não resistiu e no mês de maio ele morreu, vítima de um ataque cardíaco.
1940-45: Quando tinha 7 anos fui deportada com os meus pais para o gueto de Theresienstadt, na Tchecoslováquia. Quando lá chegamos, tiraram tudo da gente, exceto as roupas que estávamos usando e minha boneca, Marlene. As condições de vida no campo eram cruéis. As batatas valiam tanto quanto diamantes. Passei a maior parte do tempo com fome, assustada e doente. No meu aniversário de oito anos meus pais me deram de presente um pequeno bolo de batata com uma pitada de açúcar; no nono, me presentearam com um traje para minha boneca, todo feito com trapos que conseguiram encontrar; e aos dez, um poema escrito por minha mãe.
Em 8 de maio de 1945, Inge e seus pais foram liberados do gueto de Theresienstadt onde haviam sobrevivido por aproximadamente três anos. Eles emigraram para os Estados Unidos em maio de 1946.
Museu do Holocausto
A discreta e sedutora "História das mulheres"

Diogo da Silva Roiz
Mestre em História pela UNESP, Campus de Franca. Coordenador do curso de História da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Campus de Amambai. diogosr@yahoo.com.br
As mulheres conquistaram o direito de terem a sua história também escrita no século XX. A "história das mulheres" é hoje um campo de pesquisa consolidado em universidades do mundo todo (ainda que em cada país ocorram níveis diferenciados de desenvolvimento e aceitação do campo). Percebe-se, cada vez mais, que a mulher não apenas tem história, mas também fez e faz (a sua) história. De um lado, a conquista do direito ao voto, ao trabalho (e a uma carreira profissional), a uma igualdade de direitos entre os sexos, portanto, buscados com afinco pelos movimentos feministas, a partir do início do século XX, deram margem aos estudos produzidos (em maior escala) – a partir dos anos de 1960. De outro, com os movimentos de massa daquela década, que repercutiram em todo o mundo, ganhando ainda maior repercussão com os movimentos estudantis de "Maio de 1968", vieram também a justificar ainda mais os estudos sobre a mulher, principalmente, com a abertura dos campos de pesquisa produzidos nos anos de 1970.
Mas nem sempre foi assim. Pelo contrário, durante muito tempo as mulheres, e a escrita de sua história, foi um tema opaco e sem sentido, particularmente para pesquisadores do sexo masculino. Tanto nas fontes, quanto nas pesquisas, o que se via era o silêncio, delas e sobre elas, que se prolongava ainda mais com a escassez de documentos, os quais, quase sempre, não demonstravam a sua presença. O que torna imprescindíveis os seguintes questionamentos: Como a mulher começou a aparecer nos estudos históricos como tema de pesquisa? O que é a "história das mulheres"? Quais os procedimentos e documentos mais adequados para perceber sua presença na história? Porque é importante escrever a "história das mulheres"?
Por mais de três décadas, a historiadora Michelle Perrot, uma das maiores estudiosas desse tema na França (e reconhecida no mundo todo), sentiu-se incomodada (e inspirada) por esses questionamentos, geralmente efetuados por colegas do sexo masculino, que a levaram a se engajar política e intelectualmente nesse projeto de escrita de uma "nova" história, onde as mulheres fossem incluídas (por direito e por importância) e não ficassem mais em silêncio.
Fruto direto dessas pesquisas, As mulheres ou os silêncios da História reúne parcela significativa de sua contribuição sobre o tema. Ao longo de seus 23 capítulos1 publicados entre 1974 e 1998 em revistas especializadas e em livros, a autora passa em revista as principais pesquisas, abordagens e documentos (pesquisados) sobre a "história das mulheres". Aí incluindo sua trajetória no interior desses debates (em que esteve desde o final da década de 1960) e sua contribuição para o tema, em que ainda se destaca a obra A história das mulheres no Ocidente (publicada originalmente entre 1990 e 1992), organizada em cinco volumes com Georges Duby (e a contribuição de outros pesquisadores e pesquisadoras) entre o final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990.
De forma didática, a autora dividiu a obra em cinco partes: a) na primeira, Traços, em que aparece a discussão de diários e correspondências do século XIX (por ela pesquisados), em quatro capítulos (29-146), nos quais, segundo ela, a "dificuldade da história das mulheres deve-se inicialmente ao apagamento de seus traços, tanto públicos quanto privados"; b) na segunda, Mulheres no trabalho, principalmente o do lar e o das fábricas, com seis capítulos (149-258), em que, segundo ela, a "questão do trabalho constituiu um front pioneiro da pesquisa sobre as mulheres"; c) na terceira, Mulheres na cidade, apresenta-se sua ação na política e nos debates sobre gênero, cidadania e direitos, em cinco capítulos (261-360), que segundo a autora,
a história das mulheres interessou-se inicialmente por seus papéis privados, observando-os, de certa forma, lá onde elas estavam, em seus corpos, sua casa, seus gestos cotidianos, correndo o risco de fechá-los em uma repetição (...) [mas] a questão do poder colocou-se rapidamente, pois ela funda a relação entre os sexos (261);
d) na quarta, Figuras, Perrot estuda o perfil de Flora Tristan e George Sand, em dois capítulos (363-424), tendo em vista que:
Flora Tristan e George Sand não gostavam muito uma da outra. Elas se impacientavam com seus respectivos comportamentos. Flora invejava George, que já era célebre, enquanto ela penava para poder publicar. George se irritava com as recriminações de Flora. Na verdade, estas contemporâneas mal se cruzavam. Flora morreu em 1844 e George, trinta e dois anos mais tarde (1876). No entanto, diversos traços as aproximam, a ponto que se pôde falar de 'vidas no espelho': sua revolta contra a condição das mulheres, que ambas experimentaram na carne; sua vontade de justiça social (...) sua idêntica preocupação com a moral em política (363);
e) finalmente, na quinta parte, Debates, ela apresenta alguns dos principais debates e abordagens sobre o tema, ao longo de seis capítulos (427-503), que avaliam, principalmente, as obras de Georges Duby, Mona Ozouf e Michel Foucault, pois, como diz a "história 'das mulheres' coloca numerosas questões, a começar por seu título, constituindo as mulheres em objeto (...) [que] é também um tanto fragmentado" (427-8).
O livro é, portanto, uma exposição amadurecida e articulada, por mais de trinta anos, sobre o que é, e como deve e pode ser feita, a "história das mulheres". Mas para poder atingir todos os objetivos almejados na obra, a autora diz que, antes, foi necessário definir por que houve tamanho silêncio sobre a questão, e como o tema passou a ser de interesse de pesquisadoras no mundo todo. Para ela,
a irrupção de uma presença e de uma fala feminina em locais que lhes eram até então proibidos, ou pouco familiares, é uma inovação do século 19 que muda o horizonte sonoro. Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao passado, um oceano de silêncio, ligado à partilha desigual dos traços, da memória e, ainda mais, da História, este relato que, por muito tempo, 'esqueceu' as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas tivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento (9).
Isso quer dizer que durante muito tempo
as mulheres [foram] mais imaginadas do que descritas ou contadas, e fazer a sua história é, antes de tudo, inevitavelmente, chocar-se contra este bloco de representações que as cobre e que é preciso necessariamente analisar, sem saber como elas mesmas as viam e as viviam (11).
De acordo com ela, esse
...defeito de registro primário é agravado por um déficit de conservação dos traços. Pouca coisa nos arquivos públicos, destinados aos atos da administração e do poder, onde as mulheres aparecem apenas quando perturbam a ordem, o que justamente elas fazem menos do que os homens, não em virtude de uma natureza rara, mas devido à sua fraca presença, à sua hesitação também em dar queixa quando elas são as vítimas. Conseqüentemente, os arquivos de polícia e de justiça, infinitamente preciosos para o conhecimento do povo, homens e mulheres, devem ser analisados até na forma sexuada de seu abastecimento" (12).
Por outro lado, diz a autora, "a consideração crescente da vida privada, familiar ou pessoal, modificou o olhar negligente que se tinha sobre as correspondências ou os diários íntimos" nos estudos históricos. No entanto, o
volume e a natureza das fontes das mulheres e sobre as mulheres variam conseqüentemente ao longo do tempo. [Por isso] longe de ser fruto do acaso, a constituição do Arquivo, da mesma forma que a constituição ainda mais sutil da memória, é o resultado de uma sedimentação seletiva produzida pelas relações de força e pelos sistemas de valor [e o] mesmo ocorre no que concerne à narrativa histórica, outro nível destes silêncios encaixados uns nos outros (14).
Não era por acaso que a autora se questionasse como esse silêncio foi rompido e, em seguida, se debruçasse em como as coisas aconteceram na França, lugar onde ela atua como pesquisadora do tema desde a década de 1960. Como esclarece, em cada país houve especificidades quanto ao desenvolvimento e a valorização dos estudos sobre a mulher. No caso da França, foi fundamental a contribuição da obra pioneira de Georges Duby, a partir dos anos de 1970. No campo das Ciências Humanas, os estudos sobre o sexo e a sexualidade humana também foram centrais para o desenvolvimento deste campo de pesquisa. De acordo com ela, três fatores foram fundamentais: a) os científicos "ligados à crise dos grandes paradigmas explicativos e à renovação dos contatos disciplinares nas décadas de 1960-70"; b) os sociológicos, em função da
feminização da universidade, inicialmente no nível do público, e depois, mais tardiamente, dos professores, favoreceu o nascimento de novas expectativas, de questionamentos diferentes, e conseqüentemente o desenvolvimento de cursos e pesquisas sobre as mulheres. As paixões e os interesses se conjugam, de maneira mais clássica, na constituição de um novo "campo" (17);
c) e os políticos, pois, "o movimento de liberação das mulheres – o MLF – surgido nos anos 70 dos silêncios (mais um deles) de Maio de 1968 sobre as mulheres". Nesse sentido, Perrot indica sua própria trajetória e como percorreu esses caminhos na França, no decorrer de suas pesquisas. Em suas palavras:
Experiência insubstituível para aquelas e aqueles que a fizeram, a história das mulheres (...) [no entanto] não mudou nem a atitude histórica, ainda reservada, nem as instituições universitárias, que se opõem a lhe dar um lugar, ainda que modesto. Os inevitáveis conflitos de território conduzem às vezes a tensões, internas e externas aumentadas, e cuja conta pode vir a ser paga pelas pesquisadoras mais jovens. E a França, sob este ângulo, parece mais arcaica do que a maioria de seus vizinhos. A história das mulheres também não mudou muito o lugar ou a "condição" destas mulheres. No entanto, permite compreendê-los melhor. Ela contribui para sua consciência de si mesmas, da qual é certamente ainda um sinal (26).
Assim, compreender, os percalços que ainda subsistem na pesquisa que empreende a escrita da história das mulheres não é uma tarefa nada fácil. Ao percorrer, no século XIX, as razões que levaram aos silêncios sobre as mulheres e, parcialmente, inviabilizaram a escrita de sua história, indica que:
Da História, a mulher é diversas vezes excluída. Ela o é, inicialmente, na narrativa, que, passadas às efusões românticas, constitui-se como encenação dos acontecimentos políticos. O positivismo opera um verdadeiro refluxo no tema feminino e, mais amplamente, no cotidiano. O austero Seignobos, grande mestre dos estudos históricos na Universidade, expulsa Eva, ao passo que as paredes da Sorbonne cobrem-se de afrescos em que flutuam diáfanas alegorias femininas (...). A "profissão de historiador" é um trabalho de homens que escrevem a história no masculino. Os campos que eles abordam são os da ação e do poder masculino, até mesmo quando eles se aventuram por novos territórios (...). Também – e esta é a segunda volta da chave – os materiais utilizados pelos historiadores (arquivos diplomáticos, ou administrativos, documentos parlamentares, biografias ou publicações periódicas...) são o produto de homens que têm o monopólio da escrita tanto quanto da coisa pública (...). Essa exclusão é, aliás, apenas a tradução, redobrada, de uma outra exclusão: a das mulheres da vida e do espaço público na Europa Ocidental no século XIX (197-8).
Para ela, uma exceção no século XIX sobre essa questão foi Jules Michelet, que empreendeu uma exaustiva pesquisa sobre a feitiçaria. Ressalta que as raras exceções de pesquisa e trabalhos sobre a mulher no período se devem ao próprio tipo de temas e abordagens então praticados nos estudos históricos que inviabilizavam a presença feminina no processo histórico e a percepção de sua existência.
Por outro lado, Perrot observa como a sociedade (entendida aqui no masculino) se preocupava em pensar o que era o "trabalho de mulher":
Os homens do século 19 europeu tentaram, de fato, isolar a força crescente das mulheres, tão fortemente sentida na era das Luzes e nas Revoluções, cujas infelicidades lhes seriam muitas vezes atribuídas, não somente enclausurando-as em casa, e excluindo-as de certos domínios de atividade – a criação literária e artística, a produção industrial e as trocas, a política e a história – mas também, e ainda mais, canalizando sua energia para o doméstico revalorizado, e até mesmo para o social domesticado (279).
Para ela, a "história das mulheres escreve[u]-se inicialmente sobre o modo da exceção: exceção das pioneiras que quebram o silêncio". Por isso, é possível entender porque ao longo de muitos destes ensaios, a autora volta a ressaltar incansavelmente os tipos de silêncio impostos às mulheres do passado – e a escrita de uma história das mulheres no século XX – enfatizando os detalhes, como os olhares sobre o corpo feminino, os espaços de fala e debates femininos, e a função da política, da cidadania e das guerras sobre a ação feminina. Por isso também, se preocupa tanto em equacionar os debates sobre a "história das mulheres" e os avanços alcançados pelas pesquisas ao longo do tempo. Em função de todas essas qualidades, este livro é uma bela contribuição para o tema, tema este que está em permanente processo de construção.
* Resenha do livro de Michelle Perrot, As mulheres ou os silêncios da história, 2005. Recebida para publicação em dezembro de 2007, aceita em março de 2008.
1 A edição francesa conta com 25, mas a tradução brasileira da obra não conseguiu a concessão de direitos para a publicação de dois ensaios.
Cadernos Pagú
Frágeis damas e mulheres fortes: a representação feminina na Restauração de Portugal (1640-1668)

Carlos Ziller CamenietzkiI; Rejane da Conceição MeirellesII
IDoutor pela Université de Paris IV-Sorbonne, Professor de História Moderna da UFRJ. carlosziller@ifcs.ufrj.br
IIMestranda em História pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ. rejanemeirelles@yahoo.com.br
RESUMO
Os escritores de Portugal não se furtaram a representar as mulheres portuguesas durante a Guerra da Restauração (1640-1668). Essas imagens, baseadas em escritos de época, se apresentavam aos leitores com um sentido bastante específico e ligado aos objetivos dos diferentes partidários do golpe restaurador. Com o passar do tempo, elas mudam de significado e acabam se integrando na pauta própria dos debates de cada época específica. Assim, para o tempo de agora, cumpre destacar o papel da combatente feminina desta guerra personalizado em Isabel Pereira, mulher de Ouguela.
Palavras-chave: Restauração de Portugal, Guerra contra Castela, Mulheres Combatentes, Fidalgas e Patriotas.
Muitas vezes, em função de problemas e tensões do presente, atentamos a temas do passado em busca de argumentos que fortaleçam nossos pleitos. Com isso, ao escolhermos nesse nebuloso tempo pretérito a imagem mais adequada, trazemos com ela elementos secundários que não parecem ter efeito imediato na disputa de agora, mas que acabam por consolidar uma idéia do passado francamente contraditória com os testemunhos e os resíduos deixados por aqueles tempos.
Em trinta de maio de 1840, encenou-se em Lisboa uma peça que viria a se tornar célebre: Philippa de Vilhena (Almeida Garrett, 1846:30-105). Obra ambientada às vésperas do golpe que restaurou a independência portuguesa diante da Monarquia Católica de Castela, em primeiro de dezembro de 1640, ela contribuiu significativamente para a formação da imagem da mulher portuguesa durante a guerra que se seguiu entre o reino recém-liberto e seus anteriores governantes. É certo que D. Philippa de Vilhena, na versão de Almeida Garrett – autor do texto – não foi a única versão, talvez nem mesmo a mais importante sobre o feminino português e sobre seu empenho na defesa da pátria (sempre é bom lembrar que neste tempo havia cerca de trinta anos das invasões napoleônicas em Portugal). Porém, trata-se de peça de largo sucesso, encenada e editada diversas vezes, adotada nas escolas e celebrada em exposições e mostras sobre a Restauração do reino. Por essa razão, cabe detida reflexão sobre ela, sobre a imagem feminina que busca consolidar e sobre seu confronto a documentos de época, tratando das mulheres portuguesas durante os vinte e oito anos dos combates.
A passagem tida como momento síntese da peça é a fala de D. Philippa enquanto "arma" seus dois filhos na madrugada do primeiro de dezembro de 1640.
Meus amigos e meus parentes, eu sou uma pobre viúva a quem Deus privou de toda a força e amparo n'este mundo (...) A pátria precisa de todos, tudo. Aqui estão meus filhos. Não tenho mais nada... – Meus filhos! Ajoelhai. Aqui estão no altar de Deus e da pátria... Vítimas inocentes e puras! Aceitai-as, meu Deus!... e dai-nos a vitória! Vão banhadas com algumas lágrimas, que se não podem conter no coração ... perdoai-mas, Senhor. Sou mãe, e estes são meus filhos. Senhores, é uma espada na mão de uma mulher que mal pode com ela. (...) Ajoelhai, meus filhos. Vossos avós foram armados cavaleiros nos campos de batalha por braços de reis com as espadas de grandes capitães. Vós, criancinhas, é vossa mãe, que ainda ontem vos acalentava, vossa mãe que lhe treme o braço, que lhe rebenta o choro nos olhos, que aqui está sustida d'uma força sobrenatural que ela mesma não compreende... Arma-vos vossa mãe, filhos, e sereis tão bons cavaleiros como os que vos precederam, porque eu tenho fé, porque chamo por Deus em cujo nome vos dou estas armas, e vos digo – D. Jerónymo de Ataíde, D. Francisco Coutinho, em nome de Deus e de vossos avós, eu vos armo cavaleiros. Tomai esta espada e não vos sirvais d'ella senão para defender a religião, a pátria, a liberdade do povo e os vossos legítimos reis.1
O trecho, que compõe uma obra de ficção – teatro – feita com fins comemorativos da Restauração da independência política, é efetivamente muito emotivo, forte, e demonstra a capacidade criativa de seu autor. Certamente, Almeida Garrett sabia perfeitamente que uma cena dessas nunca poderia ter lugar em Portugal de tempo algum. Armar cavaleiros apoiando a espada a seus ombros é um mote importante da Idade Média, vista pela literatura romântica do século XIX, mas é coisa que em terras lusas não faz o menor sentido, sobretudo para acontecimentos do tempo da Restauração. D. Philippa, que neste tempo contava já seus quase sessenta anos, é apresentada aqui como uma jovem e frágil senhora, ela que nada tinha de desprotegida: era viúva do Conde de Atouguia, mulher fidalga. Seus filhos, D. Jerónymo de Ataíde e D. Francisco Coutinho, os "cavaleiros" na peça, representados como crianças intrépidas, contavam já com mais de vinte anos em dezembro de 1640; eram homens feitos e experimentados.
Mas o problema relevante nessa passagem não é a identificação das impossibilidades históricas ou de uma hipotética fidelidade ao passado. Neste ensaio, interessa identificar o modelo feminino que Almeida Garrett buscou fixar com esse trecho. Aqui, a personagem é imagem da fidalga que o romantismo português desejou cultuar: mulher frágil, porém decidida; mãe delicada, mas vigorosa e comprometida com os ideais da nobreza, capaz de lançar seus rebentos numa operação perigosa pela liberdade da pátria; alguém que mal pode segurar uma espada sem o concurso da Divina Providência.
O autor do texto certamente contou com o apoio decisivo do mais afamado historiador português da Restauração, D. Luís de Menezes, Conde da Ericeira, autor da conhecida História de Portugal Restaurado, publicada pela primeira vez em 1679. Nesta obra, Ericeira relata uma curta passagem sobre D. Philippa de Vilhena e seus filhos na madrugada do primeiro de dezembro. Os termos são os seguintes:
Preveniram-se e armaram-se todos, e foi muito para louvar o valor de D. Philippa de Vilhena, condessa de Atouguia, porque, fiando-se da sua prudência o segredo deste negócio, ajudou a armar seus dois filhos D. Jerónimo de Ataíde e D. Francisco Coutinho, e os exortou a conseguir a valorosa ação que empreendiam (Menezes, 1945:119).
Comparando a narrativa de um contemporâneo dos acontecimentos com o texto da peça do século XIX, não é difícil imaginar que a expressão "ajudou a armar" transformou-se em "armou cavaleiro", na apreensão do escritor romântico. Também não é impossível supor que o tema da Restauração – "restaurar, recompor o que se desfez" – tenha ajudado a inspiração de Almeida Garrett a retroceder a um tempo supostamente medieval, para compor sua imagem da Condessa de Atouguia, embora saibamos que esses rituais de sagração de cavaleiros em nada combinam com a conquistadora Idade Média portuguesa.
Mas o acontecido ganhou notoriedade. A passagem da História do Conde da Ericeira teve foro de testemunho privilegiado dos feitos da guerra e da política do reino durante os quase trinta anos do conflito. O ponto-de-vista de D. Luís de Menezes sobressaiu dentre os demais de seu tempo e a história fidalga da Restauração acabou por suplantar suas concorrentes.2 É verdade que, no que respeita à passagem relativa a D. Philippa, os testemunhos não andavam muito diferentes, conforme pode ser visto no livro de Giovanni Battista Birago, escrito por instância de D. Vasco Luís da Gama, Marquês de Niza e então embaixador de D. João IV na França.3 Outro testemunho do século XVII, de Alessandro Brandano, também escritor fidalgo, este a serviço de D. Pedro II, aproveita para lembrar a "incapacidade" do sexo feminino em sua narrativa dos acontecimentos daquela madrugada.4 Um tanto mais generoso, o Abade Vertot, em sua primeira obra, caracteriza a participação de D. Philippa de Vilhena de modo mais dramatizado, incluindo uma hipotética fala da condessa a seus filhos.5
António de Sousa de Macedo, secretário da embaixada à Inglaterra nos primeiros tempos do governo de D. João IV, empenhado escritor político da Restauração, futuro Secretário de Estado no governo de Castelo Melhor, sob Afonso VI, também deixou registro da ação de D. Phelippa. Seu livro foi publicado em Londres ainda em 1645 e Sousa de Macedo trata do empenho feminino na madrugada do primeiro de dezembro em termos pouco dramatizados, porém não menos entusiasmados.6 Porém, a referência que mais importa aqui citar é aquela de João Pinto Ribeiro, importante organizador do golpe restaurador e importante político dos primeiros anos da independência recuperada. Diz ele:
Mais que muito, pois aquele generoso espírito de Dona Philippa de Vilhena, ilustre Condessa de Atouguia, armou por suas mãos, naquela manhã a seus filhos, o Conde D. Jerónimo de Ataíde, & D. Francisco Coutinho, animando-os a obrarem como quem erão, em serviço de sua pátria, & da liberdade de todos, sentida & invejosa de os não poder acompanhar naquele ato, como os acompanhava na vontade e no valor (Ribeiro, 1730:31).7
Conforme se pode ver facilmente, a imagem da mulher fidalga portuguesa de Almeida Garrett em nada se parece com aquela deixada pelos seus contemporâneos e pelos historiadores do século XVII.8
Contudo, a fidalguia é apenas parte do problema que nos ocupa. Bem mais interessante que o ato da Condessa encorajando seus filhos e as interpretações dos tempos posteriores sobre este acontecido são os testemunhos da ação efetiva das portuguesas nas vilas e nas cidades em que o conflito militar realmente ocorreu. Aqui, é claro, trata-se de outro tipo de mulher: nenhuma mulher fidalga participou de qualquer combate na fronteira, não houve Jeanne D'Arc nas zonas do conflito luso-castelhano de 1640-1668, não houve comandante militar feminino que tenha sido registrado pelos testemunhos que nos restaram. Porém, cabe-nos lembrar que nem só de fidalgos são feitas as crônicas e histórias da Restauração e nem só de fidalgas são feitos os registros do passado. Aldeãs, camponesas, burguesas, freiras e muito mais estiveram presentes no conflito e certamente o registro de seus feitos – ainda que poucos – pode revelar elementos importantes da condição feminina na guerra, nesta guerra.
* * *
A Guerra da Restauração da independência de Portugal foi travada no terreno bélico propriamente dito, tal e qual toda guerra, com enfrentamentos militares na fronteira, etc., mas também no publicismo, no debate jurídico e na diplomacia. Inúmeros escritores de Portugal se lançaram em manifestos, histórias e em relatos sobre a evolução do conflito; os castelhanos, é claro, também fizeram o mesmo e ambos mobilizaram escritores de diversos países da Europa. A Restauração de Portugal foi, de fato, um dos grandes acontecimentos do Velho Mundo no século XVII.
Para o que interessa no momento dentre todo esse material impresso, as relações de guerra são capazes de ajudar a compreender a condição feminina neste processo. Eram estas relações textos curtos que narravam acontecimentos do confronto. Seus autores, na imensa maioria não identificados, eram homens que acompanhavam as tropas – militares, secretários, encarregados, etc. – e registravam as proezas dos portugueses nas fronteiras, ou escritores do governo que reelaboravam o material relatado na frente de combate. Dada a quantidade de relações e sua distribuição ao longo dos quase trinta anos do conflito, podemos dizer que formam um conjunto bastante expressivo daquilo que se desejava fazer crer sobre os combates e sobre a atitude dos portugueses. Afinal, esses textos eram escritos a partir de registros da fronteira e impressos para circulação e leitura nas cidades e nas vilas do reino.
As relações foram publicadas durante todo o período da guerra, mas elas são mais abundantes no início do confronto (1641-1645) e, nesta fase, as ações das mulheres aparecem com maior freqüência. Há, nessas primeiras publicações, uma forte preocupação por parte de seus autores em expressar a galhardia e a determinação de todo o povo português, incluindo as mulheres, na luta pela restauração da independência política; note-se também que elas buscam enaltecer a ação dos capitães e dos mais novos chefes militares que agiam nas escaramuças e nos conflitos. Ao passo que, nas últimas, o relato fica bem mais restrito ao desempenho dos soldados e dos grandes chefes militares.
No momento, interessa a peculiaridade da ação das mulheres e o modo de sua participação nas batalhas. Percebe-se facilmente que aquelas que estão presentes nos acontecimentos não são passivas nem fracas, tampouco apenas encorajam os homens; ao contrário, elas são retratadas exercendo um papel importante e ativo nos campos de batalha. Mulheres destemidas, dotadas de consciência do dever patriótico e da coragem comumente conferida apenas aos homens são características detectadas sem muito esforço nas relações. São-nos oferecidas, pelas penas dos autores, descrições de enfrentamentos em que bravas e corajosas mulheres ofereciam a vida pela independência de Portugal. Em uma das relações encontra-se a seguinte passagem sobre uma mulher, que bem ilustra isso:
Achou-se nesta ocasião em Ouguella uma mulher tão varonil, que saiu com um chuço às trincheiras e entre os nossos soldados ajudou a resistir ao inimigo, como qualquer entre eles, e afirma-se, que dos que mataram foram alguns por sua mão, feriram-na na cabeça e querendo os nossos recolhê-la para se curar, o não consentiu, antes perseverou animosa, pelejando com mais irritado valor.9
Além do já citado louvor à atitude de uma mulher no combate, chama a atenção o inaudito modo como ela adentrou no universo bélico: de sua própria iniciativa. Tornam-se soldados as mulheres por um ato corajoso, inesperado e, sobretudo, voluntário. E mais do que isso, soldado valoroso que matou alguns inimigos com sua arma10 e, mesmo ferida, ainda mais vigorosamente combateu e mostrou seu valor. É curioso reter ainda que o nome da mulher não é apresentado: uma anônima inesperada invade a cena e, com sua fúria, chama a atenção do leitor.
Mas os escritores das relações, neste particular, não se limitaram à descrição de proezas femininas durante a peleja nem ao registro de sua curiosa inserção por iniciativa própria. Além de abundantes narrativas heróicas sobre as mulheres no front, há relações em que os autores buscam enaltecer o procedimento diferenciado de suas compatriotas por intermédio de referências histórico-literárias, buscando em antigas crônicas romanas e portuguesas uma ilustração do valor das mulheres portuguesas. O passado confirma a ação heróica das mulheres de Portugal. Especificamente nessa relação, busca-se na literatura histórica a lembrança de mulheres que voluntariamente se tornaram elementos eficazes nas batalhas de outrora, tendo como elemento fundamental a atitude heróica de cada uma delas:
Aqui vemos renovadas as façanhas não só dos homens, mas ainda das mulheres Portuguesas, de que fazem menção as Crônicas Romanas e as nossas. Porque aqui andaram as mulheres no meio do conflito ajudando aos maridos e carregando-lhes os arcabuzes, para os descarregarem no Castelhano, a que fizeram retirar, deixando às nossas vistas duzentos infantes mortos. Não foi menor o zelo de uma mulher do mesmo lugar, que vendo entre os inimigos um tio seu, que daquele lugar se passara fugitivo para Castela, e tornava contra sua pátria, lhe atirou com uma pedra, de que o matou, mostrando que quem negava sua pátria, os mesmos parentes por honra sua lhe deviam dar a morte.11
A passagem mostra que a mulher em questão agiu seguindo uma hierarquia de valores bastante específica e surpreendente quando se considera que o episódio teria ocorrido em meados do século XVII, em plena ascensão do que é chamado de "Antigo Regime". A pátria situa-se no topo da hierarquia com o valor máximo, sobrepondo-se inclusive à estrutura familiar e ao parentesco mesmo nas situações mais delicadas. Diante da escolha entre imolar a vida de um ente familiar e cumprir um dever patriótico, ou proteger um parente e compactuar com a traição à pátria, a primeira opção é a que deve ser tomada, e é aquela que foi adotada pela anônima mulher da fronteira de Almeida. Quer o escritor convencer seus leitores, em 1642, de que a própria família pode ser sacrificada em virtude do bem-estar e promoção da pátria; e mais, de que o agente deste sacrifício é uma mulher!
O ideal romano de pátria, descrito por Cícero e certamente muito conhecido dos autores lusos do século XVII, parece relevar-se nesta situação: "prefira-se a salvação da Pátria à conservação do pai" (Caneca, 2001:90). Também Tito Lívio, outro autor bastante cultuado em toda a Europa daquele tempo, parece ter seu mote confirmado pelas lusas da Restauração: "o cidadão virtuoso tem a República em maior preço do que os parentescos particulares" (Id. ib.). Essa reflexão, expoente da firme posição no que tange ao amor à pátria, ultrapassou tempos e mares. Até no século XIX, essas citações romanas foram empregadas por Frei Caneca, em meio às discussões relacionadas com as disputas políticas entre os governos provinciais e o governo central no império brasileiro. É certo que a "pátria" da portuguesa da fronteira e aquela do escritor da relação não é a mesma de Cícero ou de Tito Lívio, ou ainda aquela de Frei Caneca e dos escritores do século XIX, contudo, firma-se o parâmetro, e sua projeção em todo o Ocidente contemporâneo e moderno é claramente perceptível: "à pátria tudo".
A participação feminina nas guerras do século XVII não se restringia à costumeira condição de vítima preferencial da ferocidade dos vencedores ou de fonte de insegurança dos seus combatentes. Durante a investida galega de 1658 no Minho, norte de Portugal, uma pequena passagem do Conde da Ericeira sobre o cerco de Lapela nos evidencia esse último papel reservado às mulheres: o terror incutido nos soldados pela visão dos cadáveres e pela aflição das mulheres e das crianças provoca a rendição indevida do governador português.12
Além dessas participações, diversas mulheres acompanhavam os conflitos em condições variadas: seguiam as tropas guardando os frutos dos saques, cuidando dos filhos e do material de seus companheiros; para os soldados "profissionais" nas guerras prolongadas, cozinhavam e preparavam o material bélico, carregavam as armas de fogo ligeiras (arcabuzes, etc.) e realimentavam combatentes, cuidavam dos feridos. Em batalhas de defesa, como a maior parte daquelas retratadas nas relações que estudamos, participavam dos feitos como resistentes defensoras de suas cidades e aldeias e, na menos marcante das atuações, guardavam e protegiam as crianças.
Do modo tratado no presente estudo, diante do testemunho quente dos combates, não é possível considerar o feito bélico apenas como proeza daqueles que se enfrentaram com as armas em punho, buscando uma vitória de grande significado. Por mais que queiramos, não nos é possível ver uma guerra prolongada apenas como arranjo de fidalgos em busca de promoção. E, nessa guerra lenta e combatida mais em escaramuças que em grandes e retumbantes batalhas, diversas mulheres se apresentam como valorosos e vigorosos soldados.
No cerco de Monção, efetuado pelas forças de Castela entre outubro de 1658 e fevereiro de 1659, o empenho feminino na defesa da cidade ganhou destaque na obra do conde da Ericeira. Referindo-se aos momentos finais do cerco, pouco antes da sua rendição aos galegos, diz ele:
...sendo tantos os mortos e os feridos, que faltava quem guarnecesse os postos mais importantes, e até nas mulheres faziam lastimoso emprego. Governava as trinta que ficaram na praça, Helena Peres, mulher que havia sido de João Filgueira, com um chapéu na cabeça e um chuço nas mãos conduzia as outras aos maiores conflitos, sem se conhecer em alguma delas o menor indício de temor (Id. ib.:238).
O conde certamente não dissimula suas expectativas quanto ao desempenho militar das mulheres e menos ainda aquilo que considerava ser seu lugar efetivo numa frente de combate. Contudo, o registro da ação bélica das trinta mulheres de Monção chegou até nós e ele também colocou seus feitos na seqüência histórica lembrando que é "... timbre de todas as mulheres de Monção imitarem Deusadeu Martins...", lendária figura das guerras passadas entre portugueses e castelhanos na região. Com esse registro, Ericeira também contribuiu para consolidar mitos regionais lusitanos sobre as mulheres minhotas, ativos ainda hoje, no século XXI.
Também não passou despercebida ao conde da Ericeira a colaboração da condessa de Castelo Melhor nos combates de seu marido, governador das armas do Minho e pai de Luís Vasconcelos e Sousa, futuro Escrivão da Puridade poucos anos depois. D. Mariana de Lencastre teria enviado cento e cinqüenta soldados em socorro do conde, contudo "...foram sentidos e desbaratados mostrando o varonil espírito da condessa, que até nas desgraças da guerra acompanhava fielmente a seu marido" (Id. ib.:169). Claro fica, ainda, que o historiador apreciava bem pouco o Conde de Castelo Melhor e menos ainda seu filho, com quem viveu difícil confronto nos anos seguintes.
Em algumas ocasiões, a mulher chega a ocupar o papel principal no teatro das operações. No combate, elas eram soldados impávidos, causando baixas ao inimigo mesmo diante dos reveses mais inesperados. Na logística, eram ajudantes eficientes. Na pátria, símbolo de coragem:
E sobre todos se realçou o feito da outra mulher, que na mesma vila matou por detrás de uma porta com uma cachaporra sete castelhanos, imitação da celebre forneira de Aljubarrota, mas menos venturosa no sucesso, pois com dois piloros a mataram por cima de um telhado. E depois de morta foi achada com uma criança de peito mamando-lhe nos seus. Fazem menção destas façanhas, porque se veja que com as ocasiões ressuscitam os brios nos Portugueses, e que com razão disseram os Castelhanos nesta ocasião, que quatro sebosos Portugueses haviam burlado de toda Castela.13
Arma comum nos combates daquele tempo: o porrete. Dele se serviu uma mulher com tal eficácia que deu morte a sete castelhanos. Defendia sua aldeia esta mulher que teve por paga do seu feito a morte por balas inimigas. Imagem forte ainda mais reforçada com a notícia de ter sido achada morta com uma criança mamando-lhe os peitos. Mais feminino que isso, difícil encontrar.
Contudo, não se trata aqui de verossimilhança, ademais, depois de baleada com dois pelouros, não é de se crer que possa estar em condições de amamentar, ainda que ela tivesse filho pequeno. Trata-se de uma imagem oferecida ao público vivo e afastado da frente de combate, aos leitores de Lisboa, de Coimbra, de Évora e das demais cidades distantes dos combates: o heroísmo desta mulher, que após participar com sucesso do enfrentamento, morre nutrindo uma criança aos peitos. Novamente é mulher sem nome, cuja marca de distinção é a própria morte, é mulher portuguesa, grosseira, que combate com um cacete e que cria eficácia com seu vigor e empenho. Narrar esse episódio é cumprir o programa anunciado logo a seguir na mesma citação: fazer renascer o brio português, fazer engajar na guerra de Restauração todo o povo de Portugal. Aparentemente, nada impedia os escritores no seu firme labor pela independência política do reino.
* * *
Bastante freqüente, o recurso aos feitos das portuguesas do passado remete o leitor à origem da inquietação portuguesa no conflito ibérico: restaurar. Afinal, os inssurretos de primeiro de dezembro e seus seguidores queriam repor um passado glorioso em presente, no seu presente. Então, relatar essas heróicas participações femininas no confronto pela independência aproxima e relembra os feitos celebrados em textos históricos, muito difundidos em Portugal daqueles anos. Para ficarmos apenas em uma obra histórica citada diversas vezes nos textos da Restauração, tomemos a Ásia de João de Barros e de Diogo do Couto. Como sabemos, essa obra clássica da literatura portuguesa foi escrita a mando real por historiadores escolhidos entre os humanistas de maior renome na época. Trata-se de obra vultosa organizada em décadas, segundo o modelo do romano Tito Lívio. Pretendeu-se com esse trabalho registrar e celebrar as glórias das conquistas portuguesas no Oriente. Sua leitura no início do século XVII não podia deixar de trabalhar os espíritos mais vivos no sentido de exaltar a condição perdida com a incorporação do reino à coroa de Castela, em 1580.
As relações da guerra da Restauração também utilizaram as Décadas de Diogo do Couto para lembrar e fortalecer a galhardia da mulher portuguesa nas lutas do reino. Em 1641, quando de um dos diversos cercos de Olivença, o escritor da relação aproveita-se do material histórico da quinta década para enaltecer o valor das mulheres durante um ataque inimigo:
Não merecendo menos as mulheres, que com grande animo ocupavam as trincheiras, asssoviando-lhe pelos ouvidos espessas nuvens de pelouros, as não podiam lançar fora, pedindo licença para com sombreiros guarnecerem as trincheiras mais faltas de gente, renovando a memória das antigas Portuguezas Anna Fernandes, & Isabel da Veiga, que no primeiro Cerco de Dio sustentado pelo grande Antonio da Silveira, obraram as maravilhas que Diogo Do Coutto na sua quinta Decada relata.14
O episódio em questão, da Ásia (Couto, 1979:405), está exposto quando o autor relata o primeiro cerco de Diu, de 1538. É uma passagem um tanto pitoresca em que uma mulher confunde um soldado português desfigurado por queimaduras e ferido gravemente, com um turco prisioneiro. Ela tenta bater na cabeça com uma gamela e, sendo impedida, vai protestar veementemente com o comandante pedindo-lhe que a deixe agredi-lo. Sua reação, no texto de Diogo do Couto, é típica de quem não hesita em cumprir o dever de eliminar aqueles que obram contra o sangue português. Ela teria dito ao capitão:
Como mandais vós, senhor, dar vida a uns inimigos que tanto têm trabalhado para nos beber o sangue? Se tal é verdade, eu, e estas minhas companheiras que neste cerco temos tamanho quinhão, como todos os homens, o não havemos de consentir, antes os havemos de espedaçar com nossas mãos, por isso mandai que no-los entreguem (Couto, 1779:405).
Bravura incontida da moradora da cidade cercada pelos inimigos, empenhada na sua defesa, tal e qual os homens, mas cujo excesso produz certa comicidade. Diogo do Couto registra a passagem dessa mulher não sem relatar diversos outros episódios em que as mulheres portuguesas de Diu mostram seu valor e sua eficácia durante os combates. Bem mais do que relatar um ocorrido, esse apelo histórico encaixa-se perfeitamente no programa restaurador, buscando revolver o "brio português", um tanto abalado pelos quase sessenta anos de domínio castelhano sobre o reino.
Nunca é demasiado lembrar que durante um bom tempo da guerra, Portugal foi governado por uma mulher, aliás, castelhana. Com a morte de D. João IV em 1656 e com a menoridade de D. Afonso, D. Luísa de Gusmão, rainha e esposa de D. João, assumiu a regência do reino e dirigiu o governo lusitano durante seis anos, inclusive durante momentos cruciais do conflito: perda de Olivença, batalha de Elvas, etc. A rainha era natural da Andaluzia, irmã do Duque de Medina Sidónia.
O fato de se viver sob o comando de uma mulher, aparentemente, não interferiu de modo substantivo no desenrolar dos acontecimentos na fronteira, ao menos pelo que registram as relações de guerra deste período. Contudo, os relatos não deixaram passar em brancas nuvens o comando feminino das armas de Portugal. Em Aronches, quando de uma investida inimiga que aprisionou mais de vinte portugueses, os castelhanos provocavam os portugueses cantando os versos seguintes: "o nosso rei he hum cravo, a rainha huma rosa, se não fora castelhana, inda fora mais fermosa".15 Desnecessário dizer que a crônica registra o desbaratamento da tropa pelos portugueses: os inimigos pagaram sua ousadia com o próprio sangue.
Imbuídas de determinados sentimentos e ideais que têm por objetivo a defesa do reino, as mulheres dos relatos de guerra são tão capazes de realizar feitos heróicos quanto os homens. Nesse processo, mesmo que também apareça uma referência genérica a uma fragilidade feminina, ela fica eclipsada pela pujança patriótica, o próprio relato a contradiz. A suposta, ou esperada, fraqueza da mulher quase sempre aparece pela sua negação, apoiada nos feitos considerados pelos autores suficientemente importantes para serem registrados nas narrativas e retidos pelos seus leitores. O trecho que se segue, retirado de uma relação sobre os feitos portugueses no cerco de Ouguela em 1644, demonstra bem esse fato, já apresentado em outra citação mais acima:
Mataram mais um soldado Português, feriram dois, e uma mulher por nome Isabel Pereira, que fará esquecer o valor das formosas Portuguesas, que nos insignes Cercos de Dio, & Mazagão fizeram feitos de imortal memória, porque desmentindo esta a fragilidade do sexo feminino, fez notáveis demonstrações de valor, assim pelejando nas trincheiras, como repartindo pólvora, e balas aos soldados, e retirada ao castelo ficou desacordada por algum espaço com a ferida que lhe deram, até que tornando em si, e vendo que não era perigosa, prosseguiu a peleja com maiores brios até o fim.16
Aqui, a mulher em questão tem nome, Isabel Pereira, e não tem marido, e suas proezas nas trincheiras e na preparação e distribuição do material de combate aparecem como feitos comuns a todos os soldados em qualquer batalha. Aqui não se trata mais de uma mulher valorosa e excepcional que realiza proezas extraordinárias: mata diversos inimigos com um porrete, ameaça com uma gamela, ou ainda que atira pedras. Isabel combate pela sua cidade, pela independência de seu reino, tal e qual os demais moradores de Ouguela. Sua entrada na História das guerras da Restauração vem somar aos feitos masculinos, num terreno predominantemente masculino, o empenho presumido das mulheres de Portugal na defesa do reino recém-liberto do domínio político da mais poderosa monarquia daqueles anos.
Com isso, e sem desejar acumular mais referências e notas, cumpre refletir sobre o feminino nesta guerra que consumiu boa parte das energias e das riquezas ibéricas.
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Contudo, seguindo a tensão entre os modelos de mulher propostos pelos escritores aqui rapidamente escolhidos, cumpre destacar que não faltaram mulheres nos relatos da guerra da Restauração. Para o escritor romântico do século XIX, Almeida Garrett, a mulher portuguesa que importa destacar encontra seu modelo na D. Philippa de Vilhena, condessa de Atouguia. Sua escolha, conforme vimos, tem amparo nos mais destacados escritores da época barroca que se dedicaram ao problema da conquista da independência de Portugal. A atitude do autor da famosa peça denuncia claramente aquilo que ele buscava modelar, não para a sociedade portuguesa do século XVII, mas para o seu próprio tempo vivido: D. Philippa, mulher fidalga.
Nada nos impede, embora sem o brilhantismo de Garrett, de tentar um outro modelo feminino para as mulheres portuguesas daquele tempo: Isabel Pereira. Esta é mulher que combate efetivamente nas trincheiras, que reparte a pólvora, distribui alimentos etc. Ela não aparece apenas no início do esforço libertador, Isabel defende sua terra, sua gente e sua pátria contra aqueles que a querem ver submissa. Ferida, ela se reergue e continua seu combate até o final. Sua participação se estende por toda a fronteira e se apresenta em todos os anos do enfrentamento, em todos os combates. D. Pereira não é frágil e não faz valer suas capacidades nos palácios da Capital, não se realiza pelos atos de seus filhos; aliás, pouco importa se tem filhos, se é viúva. Ela empunha a arma que está a seu alcance (porrete, pedra, espada, espingarda etc.), e tem forças para isso. Ela o faz sem o auxílio da Divina Providência.
Escolher entre D. Philippa de Vilhena e Isabel Pereira o modelo feminino da Restauração: eis o problema!
Na primeira, encontramos apoio num texto forte de um dos escritores de maior prestígio de Portugal em meados do século XIX, autor comprometido com os valores da fidalguia de seu tempo. Com ela se vai construindo uma mulher num tempo longínquo que apenas mostra sua eficácia para as mulheres vivas de hoje: a tradição nos dá uma mulher frágil e nobre, mãe patriótica e zelosa de seus filhos, capaz de desempenhar as funções masculinas, que não lhe são próprias, com a ajuda da Divina Providência, se a ocasião assim o exigir. A condessa de Atouguia, modelo feminino de Almeida Garrett, nos lega, assim, a imagem cômoda de um inimigo fácil de abater na construção da igualdade entre os gêneros. Inimigo tão frágil quanto o personagem do teatro, embora determinado e renitente, ela persiste no cenário das discussões sobre o feminino tal e qual persiste o fidalgo entre nós, os vivos do século XXI.
Isabel Pereira, modelo de mulher igualitária, foi abandonada pelas letras de língua portuguesa. Mais parece que temos medo do passado vivenciado por ela, tamanho esquecimento lhe legamos. Mas isso fomos nós que o fizemos, nós a abandonamos. Nós a trocamos por uma imagem mais cômoda de celebrar e de combater.
Mais firmemente ancorada na literatura, sua oposta lhe venceu todos os combates de que não participou e Isabel perdeu todos aqueles travados sem a sua presença, três séculos ou mais depois de sua morte.
Referências bibliográficas
Cadernos Pagú
Estereótipos e mulheres na cultura marroquina


Fatima Sadiqi
Universidade de Fes. http://iea:um5s:ac.ma
0. Introdução
O termo "estereótipo" referia-se inicialmente a um molde de impressão que era usado para reproduzir múltiplas cópias de um único modelo. Walter Lippmann (1922) foi o primeiro estudioso a adotar o termo e usá-lo como meio de descrever a maneira como a sociedade passa a categorizar pessoas ou "imprimi-las" com uma série específica de características. Lippmann (Ib. id.) identifica quatro aspectos principais de estereótipos: simplificação, aquisições secundárias, falsidade, e resistência à mudança. Desse modo, estereótipos são mais simples que a realidade (seguidamente passíveis de serem resumidos em apenas duas ou três sentenças), assimilados de mediadores culturais ao invés de experiências diretas, falsos por natureza (uma vez que estes estereótipos tentam afirmar que cada indivíduo de um determinado grupo compartilha um conjunto de qualidades com os membros deste mesmo grupo), e persistentes (mesmo depois de séculos de história escrita, os velhos estereótipos relacionados a gênero e classe encontram-se ainda teimosamente presentes nos países mais desenvolvidos).
No Marrocos, estereótipos são significativos, porque a cultura marroquina regula a vida de homens e mulheres de forma bastante estrita e, portanto, cria uma forte postura cultural que se traduz em modelos sociolingüísticos de pensamento e comportamento. Estereótipos no Marrocos são expressões diretas de crenças e valores. Este artigo está estruturado em três sessões principais: A sessão 1 trata dos principais componentes que constituem a cultura marroquina, a sessão 2 dos estereótipos e relações de gênero, e a sessão 3 das reações das mulheres aos estereótipos negativos.
1. Os componentes principais da cultura marroquina
Cultura pode ser definida de maneira ampla como um sistema de práticas, rituais, crenças e formas de significação de uma comunidade. Todas as culturas controlam seus membros, mas elas diferem nos graus de controle que impõem aos comportamentos individuais e sociais de seus membros, assim como aos parâmetros nos quais esses membros conduzem seus destinos dentro do ambiente geral. A cultura marroquina é do tipo que controla fortemente o comportamento dos homens e das mulheres. A força desse controle vem do fato de que ela é canalizada através de instituições sociais poderosas, oito das quais possuem impacto direto na percepção de gênero e determinação de papéis: (i) história, (ii) geografia, (iii) Islã, (iv) oralidade, (v) realidade multilíngüe, (vi) organização social, (vii) status econômico, e (viii) sistema político (Sadiqi, 2003).
1.1. História
Apesar da história nacional do Marrocos encontrar-se em processo de criação e ainda ser um produto tanto da tradição oral quanto da história escrita, ela é considerada pelo Estado e pelo sistema educacional marroquino como parte do al-'ilm (conhecimento/ciência escrita). A história nacional marroquina tem sido escrita oficialmente por homens e, portanto, as imagens das mulheres são representadas a partir de pontos de vista tipicamente masculinos. Nessas visões, os papéis das mulheres como indivíduos são ignorados ou tornados secundários em relação aos homens e, desse modo, a subordinação das mulheres tem sido construída e transmitida por anos a fio. De fato, a visão masculina nos registros históricos justifica a subordinação das mulheres em sociedades pós-coloniais (cf. Kandiyoti, 1991; Cooke, 1994; Badran, 1995). Dada a quase total ausência de interpretações femininas dos eventos da história escrita do Marrocos, uma dicotomia rígida de gênero tem sido adotada através dos séculos e foi herdada pelas gerações relativamente recentes da atualidade. Esse legado histórico aprofundou o abismo entre os sexos e seu impacto tem se acentuado pelo status da história escrita como uma instituição "venerada" no contexto sócio-cultural marroquino. A íntima associação entre a história nacional do Marrocos e as línguas escritas1 a distancia ainda mais das mulheres, cuja assustadora maioria é ainda analfabeta e, portanto, ignorante da história escrita do Marrocos.
1.2. Geografia
A posição geográfica do Marrocos é importante na compreensão da cultura "pluralística" do Marrocos (Khatibi, 1983). O Marrocos é o país mais ocidental do norte da África; está situado no cruzamento entre África e Europa, um fato que provê a ele tanto características africanas quanto européias. Apesar de o Marrocos ter sido sempre considerado parte do Oriente pelos ocidentais, é o mais acessível ao Ocidente; é a primeira parada para muitos viajantes da Europa ocidental que consideram o Marrocos como o país protótipo africano, árabe e muçulmano. A posição geográfica do Marrocos explica três fatos relacionados a gênero: tolerância religiosa, heterogeneidade cultural e complexidade lingüística. Comparado com muitos outros países árabes no Oriente Médio ou mesmo na África do Norte, o Marrocos é mais aberto a trocas culturais, incluindo uma percepção européia dominante de papéis de gênero. A permeabilidade das fronteiras geográficas do Marrocos e sua população diversificada permitiram uma visão flexível dos papéis de gênero e uma atitude mais favorável em relação às mudanças nestes papéis. Isso está ligado ao uso tolerante das línguas européias. Essa flexibilidade contrabalança as visões patriarcais rígidas e se correlaciona com as visões mais modernas.
1.3. Islã
Como a história e a geografia, o Islã é um pilar da cultura marroquina. O Islã foi introduzido no Marrocos em 712 e desde então se tornou a religião oficial do Estado.2 O Marrocos está definido pela Constituição como uma monarquia islâmica, simbolizada pelo status do rei como cabeça do poder executivo e o amir a-lmu? minin [O Dirigente do Fiel]. A proximidade do Marrocos com a Europa promoveu um espírito de tolerância na forma como o Islã foi concebido e praticado no Marrocos. O Islã, neste país, nunca foi ameaçado pela presença do cristianismo ou judaísmo, como é o caso no Oriente Médio, onde o Islã coexiste e mesmo "compete" com essas duas religiões.3
Ao se tratar do Islã e da modernidade, é crucial diferenciarmos o Islã como "fé" e o Islã como "cultura". O Islã como fé é percebido como uma relação pessoal entre um indivíduo e Deus e o Islã como cultura é percebido como parte e parcela da identidade geral dos marroquinos (quer pratiquem ou não o islamismo). O aspecto da forte identidade cultural do Islã é aparente em diversos ícones da vida social marroquina. Por exemplo, quase todos os aspectos do comportamento social marroquino são religiosos em origem e natureza, como os cumprimentos e despedidas, assim como os rituais que acompanham as celebrações de casamentos, nascimentos, circuncisões, funerais, etc.
O Islã interage com outros aspectos da cultura marroquina (Geertz, 1968; Eickelman, 1976). Ele é percebido e praticado de forma peculiar ao contexto sócio-cultural marroquino, no sentido em que os princípios islâmicos foram traduzidos para a cultura local marroquina e tornou-se impregnada por ela. Isso pode ser verificado no "estilo clássico" do Islã marroquino em oposição ao "estilo nacional" do Islã indonésio (cf. Geertz, 1971), por exemplo. Como nota Geertz (1971), essas diferenças são evidentes na forma das mesquitas, vestimentas e práticas rituais e são também devidas ao fato do Marrocos e Indonésia constituírem os limites geográficos mais distantes da área geográfica islâmica. A relação entre "gênero", como um instrumento analítico moderno, e o Islã está intimamente ligada à relação entre o feminismo e o Islã: feministas liberais ligam o feminismo ao Islã já que o Islã é parte e parcela da cultura marroquina e, portanto, incorporado pela orientação secular feminista.
1.4. Oralidade
A oralidade é um importante componente da cultura marroquina que a diferencia profundamente da cultura ocidental dominante. Na cultura marroquina, a fala carrega maior significado ao regular a vida diária do que a escrita, uma vez que a comunicação é canalizada principalmente através de linguagens não-escritas. Como a cultura marroquina é profundamente baseada no "Eu coletivo" (Sadiqi, 2003), as posições alheias contam e carregam significados sociais. Por exemplo, bênçãos orais, profanações, maldições, insultos, etc., são mais conseqüentes na cultura marroquina que na cultura ocidental. Essas formas orais de expressão do Eu não são palavras vãs; elas carregam valores positivos ou negativos genuínos e regulam o comportamento das pessoas de forma nada trivial. A importância da fala na cultura marroquina é também verificada no fato de que a conversa é percebida como meio de criação de laços entre as pessoas. A fala na cultura marroquina é inerentemente dependente da dicotomia privada e pública – fala pública e privada são dois atos diversos: enquanto a primeira é dirigida à manutenção das aparências e, portanto, distante de refletir realmente os fatos, a última é mais pessoal e direta.
A razão desse local singular da oralidade no Marrocos deve-se especialmente ao fato de que as duas línguas maternas usadas neste país (árabe marroquino e berbere) ainda são percebidas como meios orais de comunicação. O laço estreito entre línguas maternas não-escritas e oralidade posiciona esta última no centro da experiência sensorial da comunidade da fala marroquina. Como tal, a oralidade é um sistema poderoso de comunicação que modela profundamente a maneira das representações visuais e não visuais dos papéis culturais, entre eles, papéis de gênero são construídos, mantidos e perpetuados na cultura marroquina. Diretamente relacionada com a visão e a escuta, a oralidade é uma fonte valiosa de informação e um forte veículo de valores culturais.
A oralidade está também intimamente relacionada às mulheres analfabetas, uma vez que a maioria delas é analfabeta e não têm acesso a textos impressos ou eletrônicos. Essas mulheres expressam seu "eu profundo", transmitem vários tipos de conhecimento para seus filhos e se comunicam com o mundo exterior exclusivamente através do meio oral. O meio escrito é geralmente percebido por essas mulheres como alheio; e mesmo quando as linguagens escritas (árabe Standard e francês) são usadas oralmente na mídia audiovisual, essas mulheres não se identificam instantaneamente com estas linguagens; elas geralmente não compreendem difusões de filmes e programas na TV. A maioria delas se identifica com filmes egípcios, porque são transmitidos no dialeto egípcio tipicamente oral.
A oralidade tem um status duplo no Marrocos: ele é simultaneamente um meio de expressão "decadente", "vulgar" e "da classe baixa", e também expressão e símbolo poderoso de identidade e autenticidade. A atitude negativa em relação à oralidade reside no fato de que ela é transmitida através das línguas maternas de pouco prestígio: berbere e árabe marroquino. A atitude positiva em relação à oralidade reside no fato de que ela caracteriza a cultura marroquina vista a partir das culturas ocidentais e, assim, constitui um aspecto de identidade nos encontros de cruzamentos culturais. O poder do lkelma (o mundo oral) é verificado em aspectos profundos da cultura marroquina, como nos contratos de casamento, nos contratos de negócios e mesmo nos legados após a morte. Esses contratos eram, até recentemente, baseados exclusivamente em meios orais. Nos dias atuais, na sociedade lkelma, mais precisamente lkelma d rrajel, "a palavra oral de um homem" tem autoridade, especialmente em áreas rurais. O status duplo da oralidade no contexto sócio-cultural do Marrocos está profundamente relacionado ao status ambíguo das mulheres no contexto sócio-cultural marroquino.
1.5. Multilingüismo
Como a oralidade, o multilingüismo é um componente que define a cultura marroquina. Uma compreensão da concepção do papel de gênero na cultura marroquina implica um entendimento prévio da realidade lingüística completa nesse país, assim como a forma como as linguagens são usadas por homens e mulheres. A situação lingüística no Marrocos é complexa uma vez que ela não envolve somente uma variedade de linguagens, mas também sublinha os sentidos sociais de oposições tais como língua materna/linguagens aprendidas, linguagens orais/escritas, linguagens de prestígio/sem prestígio, etc. A complexidade dessa situação lingüística é o resultado do background histórico e posição geográfica. As linguagens usadas no Marrocos tampouco possuem o mesmo status, nem o mesmo valor simbólico no mercado lingüístico local (Ennaji, 1991; Boukous, 1995).
Ao contrário das culturas do Oriente Médio, onde o multilingüismo é freqüentemente considerado uma ameaça à unidade e identidade árabes, este é percebido na cultura marroquina como um formador positivo de identidade. O multilingüismo é altamente valorizado e normalmente percebido como uma forma de aumentar o potencial do indivíduo para a comunicação e uma maneira de abrir os horizontes para ele/ela no que concerne ascensão social e trabalho. De fato, o domínio e uso de mais de uma língua traz poder social aos marroquinos. No setor privado, conhecimento de francês e/ou inglês é um requerimento absolutamente necessário. Os intelectuais percebem o multilingüismo como meio de maior auto-conhecimento, de conhecer melhor a/s própria/s linguagens e a cultura como fonte de capital social, assim como uma base de tolerância em relação aos outros.
Sendo um fator relacionado a poder, no Marrocos, multilingüismo possui sentido social e é importante para a percepção e a construção de gênero. Sua importância decorre de sua correlação com classe e nível de educação: quanto mais educada e economicamente privilegiada for uma pessoa, é mais provável que ele/a seja poliglota; os mais pobres e menos educados provavelmente não serão multilíngües (cf. Boukous, 1995; Ennaji, 1997).
Se as mulheres marroquinas são consideradas como um grupo, então, as seções economicamente mais privilegiadas serão provavelmente bilíngües, senão multilingües. Mulheres que somente falam berbere e/ou árabe marroquino normalmente pertencem a classes menos favorecidas e têm desvantagens no nível de comunicação em comparação com as mulheres da classe média e alta. As mulheres monolíngües, que falam ou berbere ou árabe marroquino, na maioria dos casos, são analfabetas. Mulheres monolíngües berberes normalmente vivem em vilas rurais remotas. Nesse contexto geral marroquino, mulheres monolíngües são percebidas socialmente como pertencentes à porção mais desvalida da população marroquina (Ennaji e Sadiqi, no prelo). No entanto, essas mulheres são muito bem-sucedidas nas comunidades locais onde vivem: elas trabalham em suas casas e nos campos, sustentam famílias e transitam com facilidade entre vilas locais.
1.6. Organização social
De todos os componentes da cultura marroquina, é sua organização social que tem o maior impacto na percepção e construção de gênero. Homens e mulheres no Marrocos se desenvolvem dentro do mesmo contexto social e cultural. Discursos culturais circulam constantemente e afetam sua fala e comportamento. Esses discursos não são internalizados e reproduzidos mecanicamente; eles são filtrados através de um mecanismo de reprodução "ativa", onde a organização social possui um papel chave. A sociedade marroquina é construída sobre uma distribuição de papéis claramente determinados para homens e mulheres. Esses papéis garantem a estrutura e funcionamento da sociedade. O controle sobre o comportamento dos homens e das mulheres é assegurado pelos rituais, pelos códigos de honra e moral e pelo "Eu coletivo" (Sadiqi, 2003). Esses três desígnios são criados, estabelecidos e perpetuados na unidade da organização social: a família. A família no Marrocos é, na maioria dos casos, agnática e patriarcal. A estrutura familiar marroquina geralmente é encabeçada pelo pai e pela linhagem masculina do lado paterno e é legalmente baseada nas relações de sangue; a filiação natural (isto é, casos nos quais as mulheres, normalmente muito jovens, dão a luz a uma criança cujo pai não é conhecido) e a adoção são rejeitadas culturalmente.
O sistema patriarcal é construído sobre a exclusão das mulheres dos espaços de poder público e pela sanção de todas as formas de violência física e moral contra elas nestes espaços. A liberdade das mulheres é vista como desafio à fábrica social e ao status quo masculino. É dentro da família que as mulheres são iniciadas no seu papel de guardiãs da organização. Essa iniciação é canalizada através de um sistema rígido de relações de parentesco, de uma bateria de tradições e rituais e tabus. Essa canalização é atingida principalmente através do uso da linguagem. Em vista desta situação, é somente no quadro da organização social que a determinação e a subversão de papéis de gênero podem ser compreendidas.
1.7. Status econômico
O status do desenvolvimento econômico do Marrocos é outro componente da cultura marroquina. Antes e durante a colonização pela França, entre 1912 e 1956, a economia do Marrocos era tipicamente rural e tradicional, uma vez que ela se baseava principalmente na agricultura. Após a independência do Marrocos, o país iniciou seu processo de modernização que se materializou com o surgimento de cidades modernas e sustentou o êxodo rural para as áreas urbanas. Essa dramática transição abalou profundamente a organização social marroquina e resultou numa transformação, relativamente abrupta, nas relações de gênero. Dois aspectos dessas transformações são relevantes na perspectiva deste artigo: a reorganização dos espaços gendered, com o advento do trabalho assalariado para as mulheres, e o problema do analfabetismo, especialmente nas áreas rurais. Ambos os aspectos existiam antes da modernização, mas seus significados sociais mudaram com a modernidade. Por exemplo, com o surgimento do trabalho assalariado, as noções de "espaço público" e "espaço privado" mudaram e com o surgimento de uma elite feminina liberal urbana, o analfabetismo tornou-se associado às áreas rurais pobres. A esses aspectos adiciona-se o fato de que o desenvolvimento trouxe uma ampliação da diferença entre o que as mulheres produzem e o que elas ganham, assim como uma diferença nas tecnologias usadas por homens no trabalho e as usadas por mulheres em casa.
1.8. Sistema político
O sistema político é outro componente importante para a compreensão de dois aspectos principais da percepção de gênero no contexto marroquino: a rígida dicotomia de gênero na esfera pública e o papel da monarquia na promoção das mulheres no nível político. De fato, o ambiente político é um lugar forte de poder público que está intimamente ligado aos homens na sociedade marroquina (Arat, 1989). Os homens são aqueles que fazem política e discutem política dentro e fora da família. Essa associação entre política e homens tem suas raízes na cultura marroquina, onde a noção de jama'a (grupo), que constitui a base da tradição árabe-islâmica de governar, é percebida como algo pertencente somente aos homens. Em conseqüência, a cidadania é culturalmente assumida primeiramente, e acima de tudo, como masculina, porque na imagística cultural marroquina os homens são aqueles que supostamente dão as regras para as mulheres e as crianças. O efeito cumulativo desse estado de coisas criou uma "política cultural" na qual a superioridade hierárquica dos homens sobre as mulheres tornou-se profundamente inscrita na esfera pública.
A monarquia é vista positivamente na cultura marroquina, uma vez que está associada simultaneamente com a religião e a modernidade. A monarquia tem tido um impacto significativo no status político das mulheres na sociedade marroquina. Mais do que os partidos políticos e a sociedade, foram os monarcas que permitiram a entrada das mulheres na cena política. Os últimos três reis marroquinos encorajaram abertamente a integração das mulheres no desenvolvimento social e econômico, ao adotar uma visão que reconcilia "tradição" com "modernidade". Mohamed V, que reinou de 1927 a 1961, foi o primeiro rei na história do Marrocos a "retirar o véu" de sua própria filha em público; o Rei Hassan II, que governou de 1961 a 1999, indicou as primeiras quatro mulheres como secretárias de Estado. O Rei Mohamed VI, que se tornou rei em 1999, é o primeiro monarca marroquino a nomear uma conselheira real. Além disso, ele constantemente enfatiza a necessidade de criar novas oportunidades e maior participação das mulheres nas tomadas de decisão e de dar-se atenção especial à erradicação do analfabetismo feminino nas áreas rurais e urbanas.
Esse breve panorama dos principais componentes da cultura marroquina pretendeu mostrar que a percepção de gênero e distribuição de papéis de gênero no Marrocos decorre da maneira como a cultura marroquina define homens e mulheres. A estereotipagem das mulheres se dá principalmente nas representações bastante negativas que esta cultura cria na família e perpetua nas poderosas instituições da esfera pública. Essa é, portanto, a relação entre papéis de gênero e estereotipagem no Marrocos. Ou: qual é, portanto, a relação entre gênero e seus papéis e a estereotipagem no Marrocos?
2. Estereótipos e relações de gênero na cultura marroquina
Os estereótipos, instrumentos valiosos na análise das relações de gênero na cultura marroquina, fornecem uma expressão importante e reveladora de crenças e valores que, de outra forma, permaneceriam escondidos. Isso significa que os estereótipos são especialmente úteis para traçar a evolução das relações de gênero – a maneira pela qual crenças e valores associados a grupos específicos mudam com a passagem do tempo.
É verdade que as mulheres marroquinas são socialmente heterogêneas, mas elas estão sujeitas ao mesmo patriarcado (baseado no espaço – hudud) (Mernissi, 1994) e à mesma organização social, ambos constituem a raiz da estereotipagem. É dentro da família que começa a socialização, que as mulheres marroquinas são vistas como "demasiado emocionais", "demasiado fracas", "demasiado más", "trabalhadoras", "pacientes" e "obedientes".
Esses estereótipos são criados e perpetuados por significados sociais que elas recebem no contexto sócio-cultural marroquino: as mulheres são socialmente definidas como demasiado emocionais, fracas, demasiado más, mais trabalhadoras, mais pacientes e mais obedientes que os homens. Essas definições sociais construídas das mulheres, muitas vezes paradoxais, são fortemente valorizadas e, consequentemente, facilmente adotadas e transmitidas por mulheres e homens a seus filhos. A falência na adaptação desses ideais socialmente construídos, no que concerne à expectativa de como as mulheres devem ser ou se comportar, recebe forte resistência da sociedade, o que conduz à rejeição e marginalização. O atual processo de estereotipagem é cumulativo e, no geral, amplamente inconsciente, um fato que explica sua insistência e difusão no sistema social. Essa insistência e difusão derivam-se da natureza "presumível" dos estereótipos e aprova sua validade e associação íntima com a sabedoria social numa sociedade.
Estereótipos de gênero na cultura marroquina apresentam uma série de características. Em primeiro lugar, eles são canalizados através da linguagem. De fato, existe uma correlação direta entre a forma como os que falam as línguas marroquinas usam nuances de gênero em sua fala cotidiana e o conhecimento ou estereótipos sobre a maneira como papéis sexuais são distribuídos na sociedade marroquina. Uma série de expressões paradoxais em árabe marroquino, como lmra γir wliya ("uma mulher é fraca"), lçyalat lefçat ("mulheres são víboras"), refletem claramente os estereótipos de que as mulheres são, ao mesmo tempo, fracas, pouco confiáveis e más por natureza. Outras expressões que invocam "utilidade social", como ser uma boa esposa e uma boa mãe, são mais positivas: mra Salħa ħsan man myat rajel ("uma mulher socialmente útil é melhor que uma centena de homens"). A simples declaração dessas expressões estereotipadas tem grande força de persuasão nas conversas. De fato, expressões que reforçam estereótipos funcionam como lembretes sociais de como as mulheres precisam se comportar e de como os homens devem tratá-las.
Em segundo lugar, os estereótipos de gênero no contexto sócio-cultural marroquino podem ser explícitos ou implícitos. Estereótipos explícitos incluem identidade explícita de gênero e podem ser vistos nas áreas que se relacionam à casa e ao trabalho. Esses estereótipos sublinham a atitude ambivalente da sociedade em geral, e dos homens em particular, em relação às mulheres. Por exemplo, os homens demonstram uma atitude positiva em relação às mães e às "boas" esposas, mas atitudes negativas em relação à "líder feminina". Estereótipos explícitos reforçam a relação próxima entre mulheres e suas casas e "combatem" qualquer associação entre mulheres e a esfera pública (a rua em oposição a casa) ao caracterizar as mulheres como vítimas, seres estranhos, invasoras transgressivas do domínio público. Esse tipo de estereótipo é exemplificado em dois ditos populares: shawr lmra w la ddir brayha ou "consulte uma mulher, mas não leve sua opinião em consideração" e lmra çqalha Sγir ou "a mente de uma mulher é pequena".
Os estereótipos implícitos constituem a soma de atitudes e crenças internalizadas sobre gênero como categoria social. Essa internalização geralmente é inconsciente e resulta da socialização e do comportamento cumulativo em casa, na escola, no trabalho, etc. Como tal, estereótipos implícitos operam de uma maneira que, freqüentemente, escapam ao controle consciente e acabam por transformar-se num tipo de lei simbólica para os membros de uma comunidade. Por exemplo, mulheres implicitamente são vistas como líderes públicas frágeis, interlocutoras pobres nas questões religiosas, conselheiras fracas em assuntos relevantes, etc. Tais estereótipos implícitos são percebidos no comportamento e na fala mesmo de pessoas que não apóiam estereótipos explícitos. Comparados aos estereótipos explícitos, os estereótipos implícitos são extremamente perniciosos e permanentes.
Em terceiro lugar, estereótipos de gênero na cultura marroquina podem, a princípio, ser positivos ou negativos. Enquanto os positivos não são problemáticos, os negativos criam preconceitos e moldam uma poderosa e permanente mentalidade de grupos. A maior parte dos estereótipos sobre as mulheres na cultura marroquina é negativa. Em geral, a fala, os atributos, as ações e os hábitos femininos são mais negativamente descritos nas linguagens marroquinas do que a fala, os atributos, as ações e os hábitos masculinos. As mulheres e sua linguagem são sistematicamente sujeitas aos estereótipos preconceituosos, pejorativos e reducionistas que se refletem nas expressões mais comuns da fala cotidiana, como suq nnsa (literalmente, "mercado das mulheres", mas querendo dizer "trivial" e "sem valor"), shγul lçyalat (literalmente, "trabalho de mulher", mas querendo dizer "algo mal feito"), e klam leçyalat (literalmente, "fala de mulher", mas querendo dizer "não-confiável" e "infantil"). Estas e outras expressões similares são freqüentemente usadas como termos pejorativos ou mesmo insultos. O fato de que a voz feminina na cultura marroquina é awra (tabu) encontra-se na raiz dos fortes estereótipos que envolvem sua linguagem. De fato, existe um estereótipo na cultura marroquina que desfavorece fortemente a linguagem das mulheres em geral. A noção da diferenciação da linguagem da mulher marroquina e do homem resulta do estereótipo da "dualidade" (homem-líder/mulher-subordinada) que está profundamente enraizada na cultura marroquina. É sobre a base deste estereótipo que o que se compreende como "linguagem das mulheres" está associado seguidamente com uma pronúncia distinta (isto é, tons agudos), escolhas distintas de palavras (isto é, diminutivos), e estilos de performances distintos (isto é, eufemismos), apesar das mulheres marroquinas demonstrarem uma variedade ampla em seus modelos de entonação, nem sempre usarem diminutivos, e serem freqüentemente taxadas com a falta de nuances em suas expressões que são comprovadas em construções específicas como nos eufemismos. A atitude social com a "linguagem das mulheres" é uma visão de uma imagem monolítica da mulher que a sociedade marroquina construiu e quer preservar. Essa imagem construída produz livremente estereótipos, segundo os quais, as mulheres falam em demasia, ou muito alto, ou fazem fofoca, mentem, limitam sua conversa a trivialidades, pronunciam as palavras incorretamente, ou sem muita precisão, hesitam, ou são muito ásperas ou muito polidas. A "linguagem das mulheres" é também estereotipada como doméstica e subserviente na cultura marroquina.
Um outro estereótipo sobre a mulher marroquina é o fato de elas possuírem o poder do "mal-olhado" através de sua fala. Este mal-olhado se refere ao "mal" (doença, desgraça, ou mesmo morte) que a linguagem ou a simples presença de uma pessoa poderia causar. Se, por exemplo, uma pessoa se machuca, perde algo, ou escuta más notícias depois de ter encontrado ou falado com uma mulher, esta pessoa prontamente atribui o acontecimento àquela mulher. Mulheres que são especialmente consideradas como fontes de mal-olhado, em geral, são velhas, divorciadas, ou viúvas. Na presença dessa categoria de mulheres, recém-nascidos, noivas e mesmo os negócios são normalmente "protegidos" por "amuletos" inseridos nas roupas ou em locais escondidos. Esse estereótipo neutraliza o poder que essas mulheres têm na cultura marroquina; um poder que subverte os papéis convencionais de gênero, e que reside no fato delas possuírem mais liberdade pública e, provavelmente, poderem subverter melhor os papéis convencionais de gênero e, portanto, precisam ser "socialmente domesticadas" através da aplicação de estereótipos. É interessante notar que homens velhos e divorciados, assim como viúvos, são vistos positivamente na cultura marroquina como maridos em potencial e não ameaçam o status quo masculino.
Alguns estereótipos não são claramente negativos, mas são "nocivos" às mulheres, no sentido que colocam demasiada pressão sobre elas. Por exemplo, na sociedade marroquina, espera-se que as mulheres trabalhem duramente, a ponto de sacrificar todo seu tempo para o bem-estar de seus maridos e seus filhos. Quanto mais duro trabalhar uma mulher, melhor ela será julgada socialmente. Esse estereótipo tem seu epítome nos dois conceitos de sbbara (resistir) e ħadga (trabalhar duro), ambos vistos como atributos altamente valorizados de acordo com os quais as mulheres são basicamente julgadas dentro e fora de suas famílias. As meninas são treinadas para serem resistentes e árduas trabalhadoras desde a tenra idade, e quanto mais vontade essas meninas mostram de fazer tarefas domésticas, maiores serão suas chances de encontrar um marido. Mesmo se elas têm um trabalho fora de casa, espera-se que as mulheres sejam resistentes e trabalhem duro. Uma mulher com carreira urbana é conhecida como mra w rajel (tanto mulher quanto homem) ou lalla w mulati (chefe de casa); ambas as expressões se referem às mulheres "que fazem de tudo". Estes últimos estereótipos são tão pouco liberadores quanto os anteriores; eles freqüentemente fazem com que as mulheres sintam a necessidade de trabalhar duro continuamente e justificar cada uma de suas ações, de modo a alcançar reconhecimento na família e na sociedade. Paradoxalmente, a categoria da mulher "que faz de tudo" não se insere na categoria4 da mulher tímida, submissa e "feminina", vista positivamente, e fica a cargo das mulheres acomodarem ambas as posturas (Belarbi, 1987), o que coloca ainda mais stress sobre elas.
Reações das mulheres marroquinas
As mulheres marroquinas nunca foram depositárias passivas de estereótipos negativos. Dependendo das variáveis sociais, como as de origem geográfica, de classe, nível de educação, estado civil, etc., as mulheres reagem a tais estereótipos adotando uma das seguintes estratégias:
Em primeiro lugar, o uso de "contratipos". Um "contratipo" é um estereótipo positivo (um que provoca "boas" emoções e associa um grupo de pessoas com características socialmente aprovadas), que se desenvolve como uma tentativa de substituir ou "contrapor" um estereótipo negativo que tenha sido previamente aplicado a um grupo específico de pessoas. O estereótipo negativo das "Mulheres como Vítimas Desprotegidas" tem sido questionado nos últimos anos. Contratipos são importantes reflexões (e formadores) de crenças e valores populares, mas pelo menos duas características precisam ser enfatizadas a fim de que não permitamos que boas intenções nos ceguem para seu significado e natureza verdadeira: (i) contratipos são também estereótipos, e isto significa que eles são ainda visões muito simplificadas do grupo que recebem estereótipos. Um contratipo, em outras palavras, não pode ser aceito ao pé da letra mais facilmente que o estereótipo negativo que ele tenta substituir ou melhorar; (ii) contratipos são freqüentemente meros corretivos superficiais – arranhe um contratipo intencional e você vai freqüentemente descobrir um velho estereótipo espiando logo abaixo.
Em segundo lugar, grupos de defesa das mulheres têm argumentado por anos que a ausência de modelos de mulheres bem-sucedidas, particularmente na vida pública e na educação, perpetua os estereótipos da incompatibilidade da mulher para papéis de liderança.
Em terceiro lugar, intelectuais demonstraram que ao colocar as mulheres em categorias facilmente compreensíveis elimina-se a necessidade de tentar compreendê-las, ao mesmo tempo servindo para reforçar a superioridade da maneira própria de pensar dos homens.
Em quarto lugar, pesquisadores em administração demonstraram que comportamento baseado em estereótipos pode ter conseqüências dramáticas para o sucesso de uma organização.
Em quinto lugar, pesquisadores revelaram também que redes de trabalho exclusivamente masculinas podem ser responsáveis pelo desenvolvimento de estereótipos e pelo fomento de atitudes negativas e preconceitos contra mulheres em cargos de chefia.
Conclusão
A cultura marroquina é repleta de estereótipos negativos em relação às mulheres. Esses estereótipos escondem a heterogeneidade e a grande complexidade das mulheres no Marrocos. No contexto marroquino, estereótipos são muito difíceis de evitar, porque eles seguidamente são inconscientes e vividos como uma reação emocional a nossa própria programação cultural, lendas urbanas e mitos populares, boatos, categorizações, e representações errôneas da mídia. É mais fácil criar estereótipos quando existe um atributo claramente visível e consistente que pode ser facilmente reconhecível. É por isso que se podem criar estereótipos sobre as mulheres tão facilmente. Tornar-se consciente dos estereótipos que afetam as mulheres é o primeiro passo para combatê-los.
Referências bibliográficas
Cadernos Pagú






