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domingo, 9 de novembro de 2014

O atentado de Sarajevo, pretexto para reescrever a história

Segundo uma análise cada vez mais difundida, o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro provocou a Primeira Guerra Mundial. Ao conferir um lugar central à política sérvia no início do conflito, essa leitura ajuda a criar a imagem sóbria dos Bálcãs e oculta as causas reais da carnificina de 18 milhões de mortos
por Jean-Arnault Dérens


sorte da Europa foi lançada em Sarajevo no dia 28 de junho de 1914? Nessa data, um jovem nacionalista “iugoslavo”, Gavrilo Princip, membro da organização secreta Jovem Bósnia, manipulada por certas facções do serviço secreto do reino da Sérvia, assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro da coroa do Império Austro-Húngaro, e sua esposa, a condessa Sofia Chotek.

A memória desse gesto mortal se manteve viva durante todo o século XX em diversas interpretações contraditórias. Em 1941, quando acabavam de penetrar em Sarajevo, oficiais nazistas arrancaram a placa comemorativa que havia no local do drama e a ofereceram a Hitler na ocasião de seu aniversário. Após a Libertação, sob a Iugoslávia socialista, uma nova placa foi instalada no mesmo lugar, com a pegada de Gavrilo Princip gravada no concreto. A Iugoslávia socialista considerava o jovem revolucionário – morto de tuberculose na prisão em 1918 – um “herói” e um “libertador”. No próximo dia 28 de junho, a prefeitura de Sarajevo planeja erigir um novo monumento à memória do arquiduque assassinado e inaugurar um busto de Gavrilo Princip em Belgrado, no Parque Kalemegdan.

Qual importância é conveniente conferir a seu gesto mortal? Em seu best-seller internacional, Les somnambules,1 o historiador britânico Christopher Clark propõe uma releitura das causas da guerra que, segundo ele, não era inevitável. O atentado de Sarajevo não teria servido apenas de pretexto para o Império Austro-Húngaro declarar, em 28 de julho, guerra contra a Sérvia – cujo jogo de alianças teria culminado no primeiro conflito mundial; teria desempenhado também o papel de disparador da guerra.

Reavaliar dessa forma a importância do atentado de Sarajevo conduziu o historiador a conferir uma responsabilidade central à política sérvia nos acontecimentos que precipitaram a Europa para a guerra. A questão de uma eventual unificação dos povos eslavos do sul – “iugo” significa sul – agitava os Bálcãs naquele momento, assim como as possessões territoriais austro-húngaras. A tutela (1878) e, principalmente, a anexação (1908) da Bósnia-Herzegovina haviam deteriorado seriamente as relações entre Viena e Belgrado.

Vingança ideológica do Ocidente

A abordagem escolhida pelo historiador, contudo, leva-o a relativizar a importância dos interesses imperialistas das “grandes potências” nos Bálcãs, que não queriam dividir os restos do Império Otomano que agonizava. Em vez disso, Clark retoma longamente as circunstâncias trágicas do golpe de Estado de 1903, com a deposição da dinastia sérvia dos Obrenovic e a ascensão da dinastia dos Karadjordjevic. O massacre dos membros da família real deposta provaria uma verdadeira “barbárie” sérvia, além de uma tendência ao regicídio, que o atentado de Sarajevo viria a confirmar.

Os historiadores sérvios se defenderam ao denunciar o que qualificaram como “revisionismo histórico”. Alguns nacionalistas entenderam o recado como “vingança ideológica” do Ocidente, que ainda desejaria punir os sérvios pelas guerras dos anos 1990. Mas as críticas abundam amplamente nos setores nacionalistas. O escritor e jornalista bósnio Muharem Bazdulj também estigmatiza essas reescrituras da história ao denunciar a confusão voluntária que essa leitura histórica faz dos conceitos de “nacionalismo sérvio” e “aspiração iugoslava”.2 Segundo ele, a “reabilitação” do Império Austro-Húngaro teria como objetivo, por consequência, negar qualquer legitimidade à experiência iugoslava. No momento de comemoração de seu centenário, no dia 28 de junho próximo, o projeto “Sarajevo, coração da Europa”, financiado pela União Europeia, exalta o “modelo” da reconciliação franco-austríaca, silenciando a ambição iugoslava de vida comum.

A retirada de “pequenos detalhes”

Amplamente repercutida nos meios de comunicação, a visão de Clark conforta uma imagem “negra” dos Bálcãs. No início dos anos 1990, o jornalista Robert D. Kaplan havia publicado Balkan ghosts,3 que exerceu uma profunda influência sobre a percepção dos Bálcãs por parte dos norte-americanos. Aí já estava a sugestão de que as verdadeiras raízes da Primeira Guerra Mundial deveriam ser buscadas nessa região. A Segunda Guerra Mundial, por sua vez, teria sido apenas uma consequência da primeira, e aí residiria a causa de todos os problemas da Europa no século XX. Nessa linha de pensamento, a “matriz ideológica” tanto do fascismo como do comunismo poderia estar no nacionalismo sérvio e croata...

De acordo com a historiadora búlgara Maria Todorova, esse imaginário ocidental dos “Bálcãs selvagens”4 permite definir, por contraste, a “verdadeira” Europa: ocidental, moderna, civilizada. Contudo, foi nas trincheiras da guerra de 1914 que, pela primeira vez na história, os jovens croatas e os jovens sérvios receberam ordens de matarem-se entre si: os primeiros vestiam o uniforme austro-húngaro, enquanto o governo dos segundos era aliado da França e da Grã-Bretanha.

A inversão de valores é explícita em um texto do jornalista italiano Domenico Quirico: “Sarajevo é o coração das trevas, e há cem anos a consciência europeia agoniza nos escombros de seu universo. É preciso vir aqui, aos Bálcãs, para compreender os egoísmos irracionais que a assassinaram”.5 Se essas palavras possuem algum sentido, é preciso compreender que são as “trevas” de Sarajevo que obscurecem há um século a “consciência europeia”, e os “egoísmos irracionais” dos Bálcãs que “assassinaram” essa Europa. Retiram-se da leitura histórica, assim, “detalhes” pouco importantes como os choques imperialistas, o colonialismo, o fascismo, o nazismo. A fonte primeira de todos os males do século XX foi finalmente encontrada: é essa terra “ensopada de sangue” que constitui os Bálcãs. 

Jean-Arnault Dérens redator-chefe do Courrier des Balkans.

1 Christopher Clark, Les somnambules. Été 1914: comment l’Europe a marché vers la guerre[Os sonâmbulos. Verão de 1914: como a Europa caminhou em direção à guerra], Paris, Flammarion, 2013.
2 Ler Muharem Bazdulj, “Attentat de Sarajevo: Gavrilo Princip, Hitler et l’idée yougoslave. Entretien avec Vuk Mijatović” [Atentado de Sarajevo: Gavrilo Princip, Hitler e a ideia iugoslava. Entrevista com Vuk Mijatović], Le Courrier des Balkans, 25 nov. 2013.
3 Robert D. Kaplan, Balkan ghosts: a journey through history [Fantasmas dos Bálcãs: uma jornada pela história], Picador, Nova York, 2005.
4 Maria Todorova, Imaginaire des Balkans [Imaginário dos Bálcãs], Paris, Éditions de l’Ehess, 2011.
5 Domenico Quirico, “À Sarajevo, la conscience de l’Europe râle sous les décombres” [Em Sarajevo, a consciência europeia agoniza em seus escombros], La Stampa/Le Monde, suplemento Europa, 16 jan. 2014.
Le Monde Diplomatique Brasil

domingo, 14 de setembro de 2014

Cidade de Sarajevo comemora fim de "século de conflito"

Em uma esquina à margem do rio foram disparados os tiros que deflagraram a Primeira Guerra Mundial. Os moradores esperam expurgar os fantasmas de conflitos passados

ANDREW MCDOWALL
DO "OBSERVER", EM SARAJEVO


Deitando uma coroa de flores no lugar em que o arquiduque Francisco Ferdinando e sua mulher Sofia, grávida, foram assassinados, exatamente 100 anos antes, Aleksandar Simec e Alexander Schneider explicavam porque sentiam que a morte do herdeiro do trono austríaco foi uma tragédia para a Europa e para o mundo.

"Se esse trágico evento não tivesse ocorrido, a guerra e milhões de mortes poderiam ter sido evitadas. O fim do Império Austro-Húngaro criou um vácuo político no centro da Europa que foi ocupado inicialmente pelos nazistas e depois pelo comunismo soviético", afirmam.
Antonio Bronic - 28.jun.2014/Reuters 

Atores vestidos como o arquiduque Franscisco Ferdinando e a condessa Sophie Chotek em performance na Bósnia.


"Os Habsburgos [a dinastia imperial austríaca] teriam resistido", diz Schneider, ativista austríaco da Aliança Aurinegra, uma organização que defende a restauração da monarquia austríaca e de uma união centro-europeia que acompanharia os limites do império Habsburgo.

Francisco Ferdinando e Sofia foram mortos a tiros por Gavrilo Princip ao lado da Ponte Latina em Sarajevo, a capital da Bósnia, em 28 de junho de 1914, um ato que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Schneider se inclina para posicionar fotos do casal assassinado ao lado da coroa, e Simec –nascido na Áustria e dotado de nacionalidade iugoslava, ostentando um rabo de cavalo e um broche monarquista no paletó– explica que Francisco Ferdinando desejava criar uma terceira entidade no Império Austro-Húngaro, para os eslavos, como os sérvios, bósnios e croatas. "Ele tinha a ideia de estabelecer uma espécie de Iugoslávia como parte do Império Austro-Húngaro".

Mais cedo naquele dia, a Aliança havia percorrido o trajeto do casal real em Sarajevo, mas em lugar de se deterem no local do assassinato eles prosseguiram até o destino planejado para o percurso do arquiduque, a estação ferroviária.

"Começamos exatamente na mesma hora e viajamos exatamente na mesma velocidade", diz Simec. "Queríamos desfazer o assassinato, simbolicamente".

Ao lado da placa que marca o local do assassinato, a coroa de flores da Aliança tem a companhia de duas outras, e de três ramalhetes. Sob um retrato emoldurado do casal, uma legenda em alemão diz "o objetivo da vida deles era paz para as nações. Sua morte trouxe guerra para as nações".

A dois metros de distância, uma placa provisória e um ramalhete de flores ocupam o lugar do qual Princip disparou. Velas finas de cera de abelha, como as usadas nas igrejas ortodoxas, estão acesas. Bósnio de etnia sérvia e encarado como herói nacional na era iugoslava, o legado de Princip é controverso, hoje. A placa recorda que um memorial a Princip foi removido do local em 1992, quando a Bósnia decaiu à guerra.

Mas os memoriais estão atraindo muito menos atenção do que uma réplica do carro do casal real estacionada ao lado, onde turistas posam com um homem vestido como Francisco Ferdinando. As edificações que cercam o local ainda mostram marcas de balas de uma guerra mais recente. Entre 1992 e 1995, a Bósnia foi dilacerada por um conflito entre os bósnios muçulmanos e os bósnios de origem sérvia e croata, no qual 100 mil pessoas morreram e Sarajevo foi submetida a um cerco de 1.425 dias por forças sérvias. A cidade vem relembrando o assassinato do arquiduque na esperança de que isso "feche o ciclo" de um século de conflito. Pouco antes da meia-noite, diversas performances aconteceram na Ponte Latina. Às 11h, o horário aproximado do assassinato, turistas e jornalistas enchiam as ruas próximas à ponte e as margens do rio Miljacka, por sob as árvores que acompanham o curso do rio, cujas águas brilham ao sol do verão. Acima avulta a cadeia de montanhas da qual a artilharia sérvia bombardeava a cidade durante a guerra.

"Sarajevo é o foco: os olhos do mundo estão voltados para nós", diz Ivo Komsic, prefeito da cidade. "Nós, de Sarajevo, queremos enviar uma mensagem de nova esperança para as novas gerações, e de um melhor futuro".
Dado Ruvic - 24.jun.2014/Reuters 
O edifício Vijecnica em Sarajevo

Uma das peças centrais da celebração foi um concerto da Orquestra Filarmônica de Viena no edifício Vijecnica, a poucos metros de distância do local do assassinato, com o presidente da Áustria como um dos convidados. O notável Vijecnica, em estilo pseudomourisco e próximo à Ponte Latina, é um símbolo especialmente significativo para Sarajevo: ele abrigava a prefeitura na qual Francisco Ferdinando e Sofia participaram de uma recepção pouco antes de serem assassinados. O edifício mais tarde passou a abrigar a biblioteca da Bósnia e Herzegóvina e foi atacado pela artilharia sérvia durante o cerco, o que causou a perda de cerca de dois milhões de livros. Os moradores de Sarajevo descrevem como o ar estava repleto de pedaços de papel cobertos por elegante caligrafia árabe, que se convertiam em cinza ao cair no chão.

"O Vijecnica é muito importante para nós; é um símbolo de Sarajevo e sua mistura de estilos arquitetônicos demonstra que Sarajevo é um ponto de encontro de culturas", diz Komsic.

O edifício passou por uma restauração que durou 18 anos, mas especialistas em conservação disseram ao "Observer" que ele continua em estado precário. O edifício representa outro ponto de disputa em uma nação que ainda está dividida. Uma inscrição na parede, em inglês e no idioma local (até o nome do edifício é contestado), se refere aos "criminosos sérvios", o que o presidente e primeiro-ministro da Sérvia definem como difamação e os levou a boicotar a cerimônia em Sarajevo.

A guerra não deixou apenas cicatrizes físicas e psicológicas. A Bósnia se divide administrativamente entre a Federação, em sua maioria muçulmana e católica croata, e a República Sérvia, fortemente autônoma, cujo líder, Milorad Dodik, agita regularmente pela independência. Em 27 de junho, no distrito leste de Sarajevo, separado e governado pelos sérvios, Dodik inaugurou um parque que leva o nome de Gavrilo Princip, decorado por uma estátua do assassino.

Para muitos sérvios, Princip é um herói da independência dos eslavos do sul. E 28 de junho era um dia importante mesmo antes de 1914, porque foi a data de uma batalha travada em Kosovo em 1389 na qual, de acordo com o entendimento popular se não com o conhecimento histórico exato, uma derrota sérvia resultou em séculos de opressão pelos otomanos. É essa espécie de complexidade histórica que os encarregados de organizar eventos e exposições precisam encarar, em um ambiente altamente volátil. A Bósnia tem uma eleição geral marcada para o quarto trimestre, e a retórica nacionalista deve ganhar ainda mais força.

Uma exposição especial no Museu Histórico Nacional da Bósnia e Herzegóvina, com apoio do Museu Imperial da Guerra em Londres, foi aberta em 26 de junho, registrando a visita de Francisco Ferdinando, o assassinato e o período da guerra no país. A mostra começa com descrições de viajantes sobre Sarajevo em 1914, e mostra um bazar lotado de artesãos judeus e muçulmanos convivendo com uma cidade nova repleta de parques e de cafés em estilo vienense.

"A ideia não é que nos concentremos em um ou outro lado da história, mas que façamos de Sarajevo a principal protagonista", diz Elma Hasimbegovic, diretora do museu. "Francisco Ferdinando não é o personagem principal, e não estamos nos concentrando na história nacional. Bósnios combateram dos dois lados na Primeira Guerra Mundial, e queremos ver como as pessoas comuns foram afetadas pela guerra, e sua luta por sobreviver".

O museu foi vítima da política étnica do pós-guerra, já que não recebe verbas regulares do governo nacional, da federação, do governo cantonal ou da prefeitura. Passados 19 anos do final do conflito na Bósnia, ele e outras sete instituições nacionais continuam a viver em um limbo jurídico e financeiro –não existe Ministério da Cultura nacional, já que a cultura é alvo de disputas tão ferozes entre os políticos étnicos. Esses políticos são alvo de raiva de todas as partes em conflito, em um país no qual o desemprego é estimado em mais de 40% e o progresso quanto à integração com a União Europeia se viu bloqueado por disputas étnicas. Muita gente sonha com as certezas e a paz da Iugoslávia unida.
Dado Ruvic-27.jun.2014/Reuters 
O ator Jovan Mojsilovic reencena o assassinato de Gavrilo Princip em frente a sua estátua, inaugurada no último dia 27 em Sarajevo


"Os políticos deveriam ser todos mandados para Goli Otok!", diz Milan Bosanac, 79, sérvio da Bósnia, em referência a uma ilha árida no Mar Adriático que servia como presídio político na era comunista. "Tudo vai piorar. Quando o [ditador comunista] Tito estava vivo, tudo era ótimo, todo mundo tinha emprego. Agora centenas de milhares de pessoas estão desempregadas, e não há nada para os velhos".

A vida de Bosanac foi afetada pelo conflito desde a infância: na Segunda Guerra Mundial, sua família lutou com os partidários comunistas iugoslavos, contra os nazistas e os aliados destes. Depois que a guerra irrompeu na região em 1941, o pai dele morreu no campo de concentração de Jasenovac, operado pelos croatas, e a família fugiu para as montanhas Kozara, no nordeste da Bósnia. Um dia, ele se perdeu dos parentes na neve e foi resgatado por uma mulher que cuidou dele por meses.

Com a bengala na mão, Bosanac está sentado em seu apartamento em Grbavica, um subúrbio de Sarajevo que no passado era majoritariamente sérvio mas hoje é predominantemente muçulmano. A família viveu no bairro durante toda a guerra, se protegendo no porão quando os combates se intensificavam, e em certas ocasiões teve de provar sua nacionalidade a combatentes sérvios fanáticos. Eles deixaram a região e foram viver no sul da Bósnia e no Montenegro quando o bairro "mudou de mãos" depois da guerra, diz Stasha, sobrinha-neta de Bosanac, que voltou anos depois para ser "uma forasteira em minha própria cidade, em lugar de sermos forasteiros em terras distantes".

A filha dela, nascida quase uma década depois do final da guerra, também é afetada. No ano passado, as crianças muçulmanas da escola se recusaram a brincar com ela no período que antecedeu o primeiro recenseamento bósnio no pós-guerra, com o recrudescimento da retórica nacionalista para que as crianças, como os adultos, se identificassem como muçulmanas, sérvias ou croatas.

O lema para os eventos da semana passada era "um século de paz depois de um século de guerra". Há poucos países para os quais ele seja mais apropriado, e mesmo para alguns dos que desejam preservar o passado, o aniversário é um doloroso lembrete.

"A Ponte Latina é um símbolo da guerra, e por isso lamento por Sarajevo que a cidade seja vista como símbolo da guerra", diz Mirzah Foco, funcionário da comissão de preservação da herança cultural bósnia, durante uma conferência em Sarajevo. "Estive no exército e pode acreditar: quero esquecer tudo que me aconteceu. Acredite: foi um pesadelo".

Tradução de PAULO MIGLIACCI
Folha de S.Paulo

O impacto duradouro da Primeira Guerra Mundial

A. O. SCOTT
DO "NEW YORK TIMES"

"Me sinto como um soldado na manhã após o Somme." Tirada de um capítulo da segunda temporada do seriado da BBC "Call the Midwife", esta fala chamou minha atenção recentemente como um exemplo interessante de detalhe de época. Ela é dita por um médico a uma enfermeira logo depois de fazerem um difícil parto em casa. A comparação é com uma batalha que durou quatro meses, começando em 1º de julho de 1916 em um trecho lamacento da Picardia, e que foi, na época, o episódio de combate mais sangrento da história humana, tendo gerado 60 mil baixas em um único dia de combate, apenas do lado britânico. A comparação feita pelo médico certamente é um exagero metafórico, mas representa um estilo de humor familiar, o hábito de traçar comparações entre desafios que enfrentamos regularmente e calamidades que mal conseguimos imaginar.

Mas por que escolher essa calamidade em especial? Baseado numa série popular de memórias de Jennifer Worth, "Call the Midwife" acontece no final dos anos 1950, não muito tempo depois de uma guerra que ultrapassou de longe sua antecessora em termos de escala e extensão de carnificina global. É interessante o fato de o conflito anterior estar mais imediatamente presente no imaginário desse médico e enfermeira, mais ou menos jovens. A batalha do Somme é mais acessível e possivelmente mais imediata que Dunquerque ou o Dia D.

A alusão pode exigir uma nota de rodapé hoje, mas sua presença em um programa de televisão agudamente sensível à precisão histórica é um sinal de quão profundamente a Primeira Guerra Mundial ainda está entranhada na consciência popular. Descrita em sua época como "a guerra para acabar com todas as guerras", em vez disso ela se tornou a guerra à qual todas as guerras subsequentes, e muitas outras coisas da vida moderna, parecem fazer referência. Palavras e frases antes associadas especificamente à experiência do combate no front ocidental ainda fazem parte da linguagem comum. Mal reconhecemos frases como "nas trincheiras" ou "terra de ninguém" como sendo figuras de linguagem, muito menos imagens que evocam algo que foi no passado uma forma nova de morte organizada em massa. E raramente notamos que nosso entendimento coletivo do que aconteceu em trincheiras, selvas, montanhas e desertos muito distantes no tempo e espaço do arame farpado e sacos de areia da França e Bélgica nos chega filtrado pelo sangue, fumaça e sofrimento daqueles enfrentamentos anteriores.
Reuters 
Soldados americanos posam com diferentes modelos de máscaras de gás criados pelo Laboratório de Desenvolvimento Químico da Filadélfia, em imagem de 1919.


Uma pessoa que tomou nota da influência cultural duradoura e decisiva da Primeira Guerra Mundial foi Paul Fussell, estudioso literário e veterano da infantaria da Segunda Guerra Mundial cujo livro de 1975 "The Great War and Modern Memory" ainda é uma "tour de force" de crítica erudita e intensa. Fussell, morto em 2012, vasculhou romances, poemas e livros de memórias escritos na esteira da guerra e descobriu que eles estabeleceram um padrão que continuaria válido, conscientemente ou não, por boa parte do século 20.

Muitos soldados e oficiais britânicos chegaram ao front imersos em uma tradição literária que coloriu sua percepção –uma tradição que incluía não apenas épicos marciais e romances populares de aventura, mas também alegorias religiosas e românticas como "O Peregrino", de John Bunyan. O personagem principal dessa narrativa de dificuldade desesperadora e redenção final, escrita no século 17, é visto primeiramente como "um homem trajado em trapos" e com "um grande fardo sobre as costas". É uma descrição que parecia antever o recruta exausto, saído das trincheiras, com seu uniforme maltrapilho e mochila pesada.

Esse soldado, por sua vez, depois de algumas mudanças em seu uniforme e equipamentos, percorreria as décadas seguintes, deixando para trás um conjunto de depoimentos em primeira mão surpreendentemente consistentes. Quer sejam apresentados como memórias ou ficção, os escritos pós-1918 sobre a guerra voltam sempre para os mesmos temas e atitudes. Entre eles estão a ênfase sobre o tédio e o pavor dos combates em terra; o fato de ser privilegiada a visão do soldado comum, em detrimento da de oficiais ou estrategistas; a atitude de desconfiança em relação à autoridade e a tendência a ironizar aqueles que a exercem; um senso forte da separação existencial absoluta entre aqueles que combateram e as pessoas que ficaram em casa; um pendor pelo absurdo, o sarcasmo e o humor negro, e a conclusão de que, seja qual for o desenlace ou a justiça da guerra como um todo, para o veterano de guerra individual seu legado será o cinismo e a desilusão.

Fussell identificou essas características na literatura inspirada em sua própria guerra –em "Os Nus e os Mortos", "Ardil 22" e "O Arco-íris da Gravidade"–, e elas saturam as narrativas sobre o Vietnã que se seguiram à publicação de seu livro. O título de "The Things They Carried", o ciclo de histórias autobiográficas de Tim O'Brien sobre a vida antes, durante e depois de combater no Vietnã, encerra ecos de "O Peregrino", e seu misto de prosa enxuta, naturalismo franco e terror surreal faz dele tanto um relato definitivo dessa guerra quanto uma recapitulação da Grande Guerra.

Como quase todos os outros autores homens que escrevem em inglês e já trataram do tema da guerra, O'Brien tem uma dívida evidente com Hemingway, que chegou mais perto que ninguém de definir um modelo de como ele deve ser tratado, com um trecho famoso de "Adeus às Armas":

"Havia muitas palavras que você não suportava ouvir, e finalmente apenas os nomes de lugares tinham dignidade. Certos números eram a mesma coisa, e certas datas, e estas, com os nomes dos lugares, eram só o que você podia dizer e lhes dar qualquer sentido. Palavras abstratas como glória, honra, coragem ou santificar eram obscenas diante dos nomes concretos de vilas, os números de estradas, os nomes de rios, os números de regimentos e as datas."
Photo National Army Museum 
Soldados britânicos leem notícias do conflito em um das trincheiras da linha de frente durante a Primeira Guerra.


Essa observação contundente –ela própria curiosamente abstrata, não obstante sua insistência sobre a especificidade– continuou válida ao mesmo tempo em que a geografia mudou. O imperativo de relatar o que realmente aconteceu, mesmo para um público ou posteridade incapazes de entender plenamente, gerou uma literatura repleta de nomes e datas. Verdun, Passchendaele, Gallipoli, Guadalcanal, Monte Cassino, Stalingrado, Inchon, Khe Sanh, Kandahar, Fallujah. 11 de novembro, 6 de junho, 11 de setembro.

Em 1964, 50 anos depois de a guerra começar, Philip Larkin, nascido em 1922, publicou um poema memorial intitulado "MCMXIV". Seu tema não é tanto a guerra quanto uma Inglaterra passada, feita de "rostos arcaicos" e hábitos que ficaram para trás, uma Inglaterra que deixou de existir em algum momento entre o assassinado do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo, em 28 de junho, e o começo das hostilidades plenas e continentais, no início de agosto. O poema procura congelar o momento em que o mundo mais velho –um mundo que os pais de Larkin conheceram intimamente, mas que estava um pouco além do horizonte de sua própria memória– "virou passado sem proferir uma palavra".

"Nunca mais essa inocência", Larkin conclui, resumindo aquilo que era, então e agora, uma base crucial da visão convencional sobre a Grande Guerra, uma noção que substanciou a rejeição de Hemingway da linguagem antiga e altiva sobre honra e glória. Ao mesmo tempo em que reconhece o poder sedutor da ideia de inocência perdida, Larkin sugere que ela é complexa, até enganosa. Indivíduos como as crianças e os maridos anônimos que povoam seus versos podem facilmente ser imaginados como inocentes. Estados-nações imperiais que passaram os últimos séculos conquistando a maior parte do resto do planeta são outra história.

Isso estava muito claro para Larkin, cujo patriotismo se baseava na noção de que a Inglaterra era o pior lugar do mundo, com a possível exceção de todos os outros lugares. A primeira vez em que ele emprega a frase "nunca tal inocência", ele a qualifica com "nunca antes ou depois", sugerindo que a aura edênica particular que paira sobre os meses de 1914 que antecederam a guerra pode ser ilusória, à sua própria maneira. Deixar entender que a Grã-Bretanha (ou qualquer outro país combatente) tenha sido de alguma maneira mais inocente na véspera da catástrofe é registrar um efeito posterior da própria catástrofe.

A guerra foi tão hedionda e terrível que só poderia ter explodido numa paisagem de bondade e pureza. Ou, pelo menos, esse é um dos mitos que ela deixa para trás. Outro, defendido na época por um punhado de intelectuais de vanguarda (notadamente os futuristas italianos) e adaptada por alguns historiadores posteriores, foi que a guerra acelerou tendências já presentes na sociedade moderna: em direção à violência mecanizada, ao conflito total e à fusão de tecnologia e política.

Muitos do relatos sobre aquele verão, especialmente na França e Grã-Bretaha, destacam o tempo belo e os prazeres veranis. "Fear", de Gabriel Chevallier, um romance de combate publicado em 1930, começa com a "França despreocupada" vestindo seus "trajes de verão". "Não havia uma nuvem no céu –um céu tão otimista, azul forte." Um exemplo rematado do jogo de realidade empírica com ornamentação literária: os registros meteorológicos podem atestar a cor e claridade do céu, mas apenas a ironia cruel e corretora da retrovisão poderia inspirar a palavra "otimista".
Reuters 
Oficiais alemães na Bélgica durante a Primeira Guerra Mundial, em 1917.


E então: "Em alguns poucos dias, a civilização foi exterminada". Esta sentença brutalmente concisa, algumas páginas depois do início de "Fear", resume a perda da inocência que será aprofundada nos capítulos subsequentes da narrativa na primeira pessoa. Mas esses capítulos também deixarão claro até que ponto essa "civilização", tão inebriada com seu discurso de glória nacional e destino heroico, seria a autora de sua própria extinção. A discrepância entre esse discurso altivo e a realidade hedionda da guerra abre um abismo na experiência humana que, segundo Fussell, nunca se fechou. "Estou dizendo", ele escreveu, "que parece haver uma forma dominante de entendimento moderno, que ela é essencialmente irônica e que ela se origina em grande parte com o debruçar da mente e da memória sobre os acontecimentos da Grande Guerra."

Acontecimentos mais recentes e a resposta imaginativa e eles podem indicar até que ponto as visões podem mudar e as recordações podem perder força. O "céu azul forte" de Chevallier inevitavelmente evoca um certo céu de final de verão sobre Manhattan, quase 13 anos atrás, em outro momento que acabaria por assinalar uma divisão entre o Antes e o Depois.

Depois do 11 de setembro de 2001, nos foi dito –dissemos a nós mesmos– que tudo havia mudado. Numa inversão curiosa da lógica da Grande Guerra, os ataques contra o World Trade Center e o Pentágono foram largamente e rapidamente vistos como tendo anunciado "a morte da ironia". O que isso quis dizer, pelo menos inicialmente, foi que um estilo cultural dominado (segundo Roger Rosenblatt na "Time", entre outros) por "desapego e caprichos pessoais" daria lugar a uma ética de seriedade e sinceridade. Mas, vistos em retrospectiva, os obituários da ironia não apenas foram prematuros como fizeram parte de uma reafirmação agressiva da inocência, um esforço coordenado para refutar a conclusão de "MCMXIV", de Larkin.

Seguiu-se uma reabilitação das palavras abstratas que Hemingway e sua geração perdida viram como tão intoleráveis. Soldados comuns passaram a ser descritos rotineiramente como "heróis" e "guerreiros", ao mesmo tempo em que seus ferimentos ou mortes eram mantidos longe das vistas do público. Este, em casa, era incentivado a fazer manifestações de patriotismo e apoio, mas também a levar adiante as rotinas otimistas do trabalho, lazer e compras, "como se" (citando Larkin) "fosse tudo uma brincadeira de um feriado de agosto".

Mas a Grande Guerra ainda não deixou por completo de estar conosco. Enquanto as guerras no Afeganistão e Iraque terminam em meio à inconclusividade sangrenta, os homens e mulheres que combateram nelas começaram a escrever, e os textos que produzem devem nos conduzir de volta à manhã após o Somme. O romance premiado de Ben Fountain "Billy Lynn's Long Halftime Walk", de 2012, extrapola a ironia para mergulhar na farsa, justapondo as experiências de um pelotão sofrido mergulhado do caos do Iraque para o espetáculo vulgar do Super Bowl, onde seu serviço militar é homenageado e explorado. O livro fica bem na companhia irreverente de "Ardil 22", ou seja, na mesma estante que "Nada de Novo no Front" e de "Fear", de Chevalier.

Enquanto isso, "Redeployment", de Phil Klay, lançado este ano, segue a linha pragmática e contundente de Hemingway e "The Things They Carried". Coletânea enganosamente modesta de contos interligados, o livro é cheio de topônimos, números e siglas militares, humor negro, frustração sexual, amizade sentimental e desprezo pela autoridade. Só pode ter sido escrito por alguém que esteve lá, se bem que, com alguns ajustes em matéria de tecnologia, jargão e clima, o "lá" pudesse igualmente bem ser Ypres ou Ramadi. E a moral poderia ter sido escrita pelo memorialista britânico Edmund Blunden, que tirou uma lição brutal de sua própria experiência na batalha do Somme: "A Guerra tinha vencido e continua a vencer".

Tradução de CLARA ALLAIN
Folha de S. Paulo

Há um século, estourava a Primeira Guerra, conflito até hoje nebuloso


MARCELO COELHO


RESUMO A responsabilidade russa, as atrocidades do exército prussiano sobre os belgas, o assassinato do arquiduque e o jogo político na Europa são alguns dos temas explorados em diversos livros recentes que investigam a Primeira Guerra, conflito que, cem anos depois de seu início, permanece ainda pouco investigado.

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Ao contrário da Segunda Guerra Mundial -que se explica pelo nazismo-, tudo é obscuro e controverso no conflito que foi de 1914 a 1918. A morte de ao menos 10 milhões de pessoas naqueles quatro anos parece ter sido um sacrifício inútil, causado não se sabe exatamente por que razão.

Os resumos de escola se contentam em mencionar o assassinato de Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, como o "estopim" da Primeira Guerra -que, em seguida, é desqualificada como um confronto entre potências imperialistas (França, Inglaterra, Rússia e, posteriormente, Itália e Estados Unidos de um lado; Alemanha, Império Austro-Húngaro e Império Otomano de outro).

Sem despertar maiores torcidas no plano moral, o interesse pela Primeira Guerra termina diminuído na comparação com a luta dos Aliados contra Hitler e Mussolini; a complicadíssima crise de 1914 pode ser fascinante, mas tende a atrair sobretudo os fanáticos pelos jogos de geopolítica e pelas teorias das relações internacionais.

Vários livros vão sendo editados no Brasil por ocasião do centenário da Primeira Guerra, e podem mudar bastante essa percepção.
Foto Eduardo Anizelli/Folhapress 

Nenhum dos que serão comentados neste texto consegue superar "Os Canhões de Agosto", clássico de Barbara Tuchman publicado nos Estados Unidos em 1962 e com tradução brasileira esgotada há bastante tempo. É que, ao contrário das interpretações correntes, a historiadora americana (1912-1989) não temeu os julgamentos morais -em seu livro, condena claramente a Alemanha-, sem sacrificar por isso a precisão e o ritmo fulgurantes da narrativa.

Mesmo que seu ponto de vista se revele contestável à luz de pesquisas mais recentes -como a de Sean McMeekin, no ainda não traduzido "July 1914" [Perseus, R$ 72,30, 464 págs.; disponível também em e-books], que aponta para a responsabilidade russa na crise-, o livro de Barbara Tuchman é o melhor "estopim" emocional para quem quiser se envolver nas discussões sobre o conflito.

MILITARISMO

Ainda que todos os participantes da Primeira Guerra tenham promovido atos hediondos -com monumental destaque para o genocídio armênio, que deixou pelo menos 1 milhão de mortos, empreendido pelos turcos a partir de 1915-, mesmo antes de Hitler o militarismo prussiano acumula um currículo com o qual é difícil rivalizar.

Os alemães foram os primeiros a utilizar gás venenoso na guerra, na segunda batalha de Ypres, em 1915. Antes disso, os franceses se limitaram ao gás lacrimogêneo. Logo os combatentes trataram de se proteger com máscaras de diversos tipos. Ao cloro letal, capaz de corroer o tecido dos pulmões, a tecnologia alemã acrescentou então o gás mostarda, que atua diretamente sobre a pele.

Veio dos alemães a decisão de usar submarinos (indetectáveis à época) para atacar não só navios militares como também navios mercantes, a partir de outubro de 1914, e também transatlânticos de passageiros, como o britânico Lusitania, em maio de 1915. O navio afundou em menos de 20 minutos, matando perto de 1.200 civis.

Foram também os primeiros, na Grande Guerra, a lançar ataques aéreos contra a população urbana. Em agosto de 1914, nove habitantes da cidade belga de Liège foram mortos por bombas jogadas de um zepelim. Inicialmente vetados pelo kaiser, os bombardeios contra Londres viriam no começo de 1915.

Numa incursão inútil ao litoral britânico, o almirante Von Hipper explodiu casas de veraneio e edifícios públicos em dezembro de 1914. Era o conceito de "guerra total", ou "absoluta", que se impunha sobre as populações europeias (embora tivesse precedentes mais antigos). Não mais se acreditava que um conflito entre países dependesse só de batalhas entre soldados; tratava-se de destruir todos os recursos econômicos, humanos e morais do adversário.

ATROCIDADES

Nenhuma dessas iniciativas alemãs teve efeito comparável, na opinião pública mundial, ao das famosas "atrocidades" (o termo virou um lugar-comum) cometidas na Bélgica logo nos primeiros dias da guerra.

Era tão grande a autoconfiança da máquina militar prussiana que os invasores nem sequer cogitavam uma possível resistência do pequeno país neutro. Os planos alemães previam passar pela Bélgica rapidamente, de modo a atacar a França pelo norte, evitando a linha de fortificações que protegia a fronteira leste francesa.

Não se teve ideia melhor do que redigir um ultimato à Bélgica -que não tinha nada a ver com o que acontecia do outro lado da Europa, entre russos, sérvios, austríacos e alemães. O pequeno país do rei Alberto 1º tinha sua neutralidade garantida por um tratado internacional assinado em 1839, pela Prússia inclusive.

O tratado? "Só um pedaço de papel", na frase famosa do ministro alemão das Relações Exteriores, Theobald von Bethmann-Hollweg. Para assegurar a marcha até Paris, ele expediu uma carta aos belgas, prometendo não atacá-los e pagar por eventuais prejuízos, caso franqueassem suas fronteiras às tropas alemãs.

Já em 1904, o kaiser Guilherme 2º acenara com ganhos territoriais para a Bélgica, em caso de derrota dos franceses. De modo tipicamente descalibrado -para dizer o menos-, prometera também a "coroa da Borgonha" ao soberano belga.

Preferindo resistir a anular-se como país independente, a Bélgica logo enfrentaria uma impiedosa devastação. Os alemães não duvidavam da própria superioridade militar, mas temiam a reação de franco-atiradores.
Em "Catástrofe - 1914: A Europa vai à Guerra" [trad. Berilo Vargas, Intrínseca, R$ 49,90, 704 págs.; R$ 29,90, e-book], do jornalista e historiador britânico Max Hastings, 68, alinham-se exemplos chocantes das retaliações do exército do "kaiser" sobre a população belga.

Trata-se de um dos raros livros recentes a insistir na tese da culpa alemã, tese essa que teve seu auge na década de 1960 com as pesquisas do germaníssimo (e ex-nazista) Fritz Fischer (1908-1999), da Universidade de Hamburgo.

Hastings conta que, em 5 de agosto de 1914 (dois dias depois de a Alemanha declarar guerra à França), dez moradores de uma aldeia belga, incluindo uma família de cinco pessoas, foram assassinados em resposta à morte de soldados alemães. Os 118 habitantes da vila de Soumagne foram mortos com tiros ou golpes de baioneta no dia seguinte.

Os alemães avançaram até Liège: em 8 de agosto, como punição por atos de resistência, 850 civis foram executados, e 1.300 casas, destruídas pelo fogo.

O pior aconteceria em Louvain, também na Bélgica, em 25 de agosto. Um incêndio acidental colocou os alemães em polvorosa. Invadiram casas, arrastaram moradores para a rua, espancaram-nos, fuzilaram-nos, e tiveram a ideia de incendiar uma das mais valiosas bibliotecas da Europa, com 300 mil volumes. Em seguida, impediram os bombeiros de agir, destruíram 2.000 edifícios e expulsaram 10 mil habitantes de suas casas, deportando 1.500 para a Alemanha.
Tatiana Blass/Divulgação 

Casos semelhantes fazem parte, hoje em dia, da rotina de qualquer guerra; na época, justificaram plenamente a imagem dos alemães como "bárbaros", ou "hunos", no vocabulário da propaganda britânica. Contra os 6.427 civis mortos pelos alemães em 1914, segundo Hastings, contam-se apenas 101 vítimas da população alemã na invasão russa da Prússia Oriental, no mesmo ano.

O que explica tanto furor guerreiro? Hastings cita o texto de um polemista alemão em 1913, segundo o qual "a destruição impiedosa das forças inimigas é o objetivo mais humano que se possa ter, por estranho que pareça". Havendo muita consideração pelo adversário, a guerra se prolongaria demais, com prejuízo para todos.

PERSPECTIVAS

Para encontrar perspectivas menos desfavoráveis aos alemães, é preciso fechar os livros de Barbara Tuchman e Max Hastings, cuja argumentação viemos seguindo até agora.

"Os Sonâmbulos" [trad. Laura Teixeira Motta e Berilo Vargas, Companhia das Letras, R$ 69,50, 704 págs.; R$ 39,50, e-book], do britânico Christopher Clark, tem vários pontos de superioridade sobre "Catástrofe". Concentra-se sobre os antecedentes históricos da Primeira Guerra, traçando com nitidez e verve a situação política, para lá de confusa, dos países envolvidos no conflito.

Enquanto Hastings é sobretudo um historiador militar da velha guarda, apressando a narrativa da crise diplomática de julho de 1914 para contar em pormenor as batalhas travadas ao longo daquele ano, Clark ilumina a sequência de improbabilidades, cálculos errados e tensões involuntárias que iria desencadear o conflito.

Evita o "jogo da culpabilização", ou "blame game", sempre tentador num desastre de tais dimensões. "A Grande Guerra foi uma tragédia, não um crime", afirma na conclusão.

CRIME BÁRBARO

Seja como for, o livro de Clark começa com um crime bárbaro e repugnante. Não se trata, ainda, do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e de sua mulher. Para uma descrição sensacional do atentado, a melhor leitura em português está em "O Assassinato do Arquiduque: Sarajevo, 1914, e o Romance que Mudou o Mundo" [trad. Gilson César Cardoso de Souza, Cultrix, R$ 52, 400 págs.], de Greg King e Sue Woolmans.

Mas o crime a que Clark se refere ocorreu em Belgrado, 11 anos antes. O rei Alexandre e a rainha Draga são acordados no meio da noite; é uma conspiração militar. Estão protegidos, nos aposentos reais, por uma pesada porta de carvalho -que uma carga de dinamite põe abaixo. O casal se esconde na rouparia.

Em outras partes de Belgrado, o massacre toma livre curso; dois irmãos da rainha são apunhalados, o primeiro-ministro e o ministro da Guerra são executados à queima-roupa. Por fim, o rei e a rainha serão encontrados, mortos e esquartejados. Era o fim da dinastia dos Obrenovic, notável pela brutalidade.

Toma conta do reino o representante da dinastia rival, de currículo não menos apavorante, mas seguindo um ideário supostamente liberalizante -e, principalmente, expansionista. Numa região pulverizada em pequenas nacionalidades, tentando emergir entre os destroços de dois impérios (o Otomano e o Austro-Húngaro), ganhava força o lema segundo o qual "onde há um sérvio, lá é a Sérvia".

O grupo que toma o poder após o assassinato de Alexandre e Draga tem apoio da Rússia, motivada não só por questões de identidade étnica -eram todos "eslavos"- mas também pelo afã de garantir o enfraquecimento de turcos e austríacos numa área de importância geopolítica fundamental até hoje. A saber, o lado oriental do Mediterrâneo e sua ligação com o mar Negro, capaz de prover a Rússia de portos incomparavelmente mais convenientes do que as águas geladas do norte europeu.

Os assassinos de 1903, em especial o famigerado Dragutin Dimitrijevic, o Apis (chefe da organização secreta Mão Negra e também responsável pelo serviço de inteligência do Exército sérvio) dariam inspiração e recursos para que o jovem Gavrilo Princip, nascido na Bósnia, mas de origem sérvia, disparasse os tiros de Sarajevo.

Do ponto de vista de hoje, marcado pelos atentados do 11 de Setembro, não chega a ser surpreendente que os austríacos tenham desejado reagir militarmente contra a Sérvia, cuja organização governamental estava implicada claramente em atos terroristas.

Com notável isenção, Clark lembra que não deixavam de ser legítimos os interesses da Sérvia em aumentar seu raio de independência, em meio a minorias nacionais sob o jugo dos austríacos.

Torre de Babel O regime do velhíssimo imperador Francisco José errou catastroficamente ao pretender punir a Sérvia. Seu Exército, uma torre de Babel de nacionalidades que mal e mal improvisaram um mínimo idioma alemão em comum, vinha acumulando derrotas durante todo o século anterior. Enquanto isso, a Rússia se armava e se modernizava, com entusiasmada assistência francesa.

Uma ação austro-húngara contra a Sérvia previsivelmente desencadearia uma represália russa. Sabendo disso, os austríacos enviaram à corte do kaiser, no começo de julho, uma missão encarregada de avaliar o apoio dos alemães à pretendida missão punitiva.

Obteve da Alemanha o famoso "cheque em branco", garantindo, nos termos da aliança entre os dois países, sustentação militar à invasão da Sérvia. Guilherme 2º esperava que os austríacos empreendessem uma "blitzkrieg" contra Belgrado, coisa que eles não estavam preparados para fazer. Grande parte do Exército, composto de camponeses, se preparava para a colheita do verão; quanto à metade húngara do sistema político dual do império, eram imensas as resistências a entrar em guerra.

Clark, assim como faz Sean McMeekin em sua reconstituição, dia por dia, dos mal-entendidos e hesitações da crise, é excelente ao demonstrar que, dentro de cada país e dentro do espírito de cada uma das principais lideranças políticas, nada existia de unívoco.

O kaiser tinha, com certeza, alguns parafusos a menos. Após um concerto, pegava o maestro pelo braço e lhe ministrava lições de música. Após receber um título puramente honorífico da Marinha britânica (era neto da rainha Vitória), começou a pedir informações e dar palpites sobre a organização do poderio naval alheio.

"Os Três Imperadores" [trad. Clóvis Marques, Objetiva, R$ 57,90, 600 págs.; R$ 29,90, e-book], da britânica Miranda Carter, faz a biografia conjunta, com algum excesso de fofocas familiares, dos primos George 5º (Inglaterra), Nicolau 2º (Rússia) e Guilherme 2º (Alemanha).

No plano puramente estratégico, o soberano alemão tinha sempre uma proposta absurda: numa crise entre EUA e Japão, por exemplo, ofereceu ao presidente americano um destacamento militar para guardar a costa californiana.

Enquanto os austríacos não invadiam a Sérvia, o medo passou a tomar conta de Guilherme 2º; cada dia de atraso tornava mais provável a mobilização russa em favor do pequeno país eslavo.

Por que não desistir, então?

Bem que o kaiser tentou, assim como Nicolau 2º do lado russo, mas a crise acabou chegando a um ponto em que a técnica (e os desejos) puramente militares tornavam difícil recuar.

A diplomacia significava cada vez menos. É difícil, apesar das argumentações de Clark e de McMeekin, crer na sinceridade dos esforços, ou na acidentalidade dos erros, de um personagem como Bethmann-Hollweg, ministro das Relações Exteriores alemão. Cada passo inexplicável da diplomacia alemã pode ser visto como falha profissional mas também como aposta no caminho de fazer a Rússia, e não a Alemanha, surgir como responsável pela beligerância.

"MYGOTOVY!"

Sem dúvida, a violência com que a Alemanha desencadeou o ataque à Bélgica e à França só se justifica, do ponto de vista subjetivo, pelo fato de que se sentia efetivamente acuada por inimigos a ponto de querer destruí-los.

A teoria de que a Alemanha estava "cercada" e que só desejava "um lugar ao sol" ganha argumentos no livro de Clark e, mais ainda, em "O Horror da Guerra" [trad. Janaína Marcoantonio, Planeta, R$ 89,90, 768 págs.], do escocês Niall Ferguson, pelo fato de que repetidas vezes a Inglaterra vetou empreendimentos comerciais alemães no Oriente e na África.

É mais fácil ver, por outro lado, o que a França teria a ganhar na eventualidade de uma guerra (tratava-se de recuperar as regiões da Alsácia e da Lorena, perdidas para Bismarck em 1870), do que os benefícios à Alemanha. Se a Rússia quisesse entrar em guerra com Alemanha e Áustria em função de algum conflito balcânico, disse famosamente o francês Poincaré em 1912, "estamos prontos" a ajudar. Falou em russo: "Mygotovy!"

A certeza de que a Rússia, com ajuda francesa, militarizava-se cada vez mais foi um importante fator para o pensamento militar germânico. Melhor entrar em guerra agora do que mais tarde, raciocinava Moltke, o chefe do Estado-Maior alemão.

Ele sabia que a guerra europeia, nas condições modernas, seria prolongada e destrutiva (ao contrário, seu equivalente francês, Joffre, apostava em cargas de cavalaria e baionetas no estilo napoleônico). Mesmo representando o "fim da civilização", era uma realidade que teria de ser encarada.

Trata-se de um bom exemplo daquele "pensamento trágico" tão ao gosto dos conservadores -de qualquer país, aliás. O debate sobre as responsabilidades de cada um no morticínio é interminável. A bibliografia, mesmo em português, não cessa de aumentar.

"Os Sonâmbulos", de Clark, é o melhor da atual safra. "O Horror da Guerra", de Ferguson, formula as perguntas cruciais sobre a guerra em seu conjunto (por que as pessoas lutavam? Houve entusiasmo da população? Que país era o mais militarista?), mas peca por certa extravagância nas respostas, com marcada antipatia pela posição inglesa no conflito. O excesso de estatísticas e notas torna mais trabalhosa, ademais, sua leitura.

"Catástrofe", de Max Hastings, combina história diplomática, narrativa militar e depoimentos de soldados e civis para traçar um quadro do primeiro ano do conflito, atento à voga da "história do cotidiano", à técnica militar e à tendência recente de enfocar o desenvolvimento dos conflitos nas decisões individuais de seus protagonistas. O resultado é que o texto, apesar de muito claro, parece oscilar entre essas três perspectivas.

A vida nas trincheiras e nas regiões assoladas pelo conflito é tratada de forma engenhosa em outro livro, "A Beleza e a Dor" [trad. Fernanda Sarmatz Åkesson, Companhia das Letras, R$ 62, 520 págs.], do sueco Peter
Englund, que entrelaça histórias reais de pessoas de várias nacionalidades durante aqueles anos.

Como texto de referência, algo como um verbete de enciclopédia bastante estendido, há ainda "A Primeira Guerra Mundial" [trad. Roberto Cataldo Costa, Contexto, R$ 69,90, 560 págs.], de Lawrence Sondhaus. Até o final deste ano do centenário da Grande Guerra, certamente mais coisa será lançada nesse horizonte, já tão cheio de clarões e de fumaça.

MARCELO COELHO, 55, é colunista da Folha.
TATIANA BLASS, 34, artista plástica, é autora de "A Família Mobília" (Cosac Naify).
FOLHA DE S.PAULO

terça-feira, 6 de maio de 2014

Freud e a Guerra de 1914

Ensaio pungente sobre conflito sangrento é lembrado e analisado por cientista político na  interpretação freudiana destaca uma fratura irreparável no processo civilizador.

Renato Lessa


‘Considerações atuais sobre a guerra e a morte’ foi escrito por Freud quando a Guerra de 1914 já revelara marcas que o tornariam muito distinto dos que o precederam. (foto: Wikimedia Commons – CC BY 2.0)

Os 100 anos da deflagração da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) dão hoje ensejo a reflexões tanto acerca dos fatores que a provocaram quanto sobre as implicações civilizatórias por ela legadas. Muito se escreveu a respeito, mas uma das interpretações mais instigantes da Guerra de 1914 foi produzida, no calor da hora, por Sigmund Freud (1856-1939), em ensaio pungente: Considerações atuais sobre a guerra e a morte, escrito em 1915, quando o conflito já revelara marcas que o tornariam tão distinto dos que o precederam.

É justamente esse juízo – a originalidade da Grande Guerra – que compõe o núcleo do argumento de Freud.

A releitura da interpretação freudiana permite o reencontro com um poderoso argumento a respeito da ideia mesma de civilização, necessário ao entendimento dos fatores que determinaram o colapso desta.
Mais do que da guerra, como episódio geopolítico ou militar, Freud trata das vicissitudes do processo civilizador, que teria sofrido fratura irreparável

Mais do que da guerra, como episódio geopolítico ou militar, Freud trata das vicissitudes do processo civilizador, que teria sofrido fratura irreparável. A Guerra de 1914, segundo especialistas na arte militar, marcou a passagem de um padrão, digamos, civilizado, em que o teatro das operações bélicas mantinha-se segregado do conjunto das rotinas sociais, para uma perspectiva da guerra total, na qual nada menos que o aniquilamento – ou ao menos a sujeição brutal – do oponente aparece como horizonte desejado.

Tal separação apresentava-se, por exemplo, na distinção entre combatentes e não combatentes e na presença de uma ética militar cavalheiresca, que fazia com que soldados, embora em exércitos opostos, fossem tomados como parte de uma mesma sociedade, maior e supranacional, dotada de regras de contenção da própria letalidade da guerra.

É claro que parte considerável dessa ‘ética da guerra’ já havia sido maculada antes. As batalhas da guerra civil norte-americana, e as que opuseram exércitos coloniais a populações aborígenes, exibiram pouco ou nada do espírito das guerras civilizadas.

A Guerra de 1914, porém, trouxe para o cenário europeu, sede do processo civilizador, a experiência com o ilimitado da carnificina, imposta com frequência a povos não europeus, ao longo do tempo. Trouxe, em outros termos, o experimento da incivilidade da guerra. 
 
Para Freud, a Grande Guerra é, antes de tudo, a vivência do abismo de uma forte desilusão, que decorre da perda de sentido do processo civilizador. (foto: Wikimedia Commons – CC BY 2.0)

Para Freud, a Grande Guerra é, antes de tudo, a vivência do abismo de uma forte desilusão. Tal sensação decorre da perda de sentido do processo civilizador e de suas escoras fundamentais: “uma enorme restrição de si mesmo, uma larga renúncia da satisfação instintual”, ambas materializadas em prescrições morais – “frequentemente severas demais” – sobre os indivíduos.

As implicações de tal ‘severidade’ constituem um dos objetos preferenciais da escritura e da clínica de Freud. Seu clássico ensaio ‘O mal-estar na civilização’ fixaria, em 1930, os termos da tensão entre vida instintual e imposições da vida cultural.

Antes, em 1915, Freud fala-nos da quebra civilizacional da guerra, por meio do transbordamento dos instintos, mal contidos por um padrão de ‘hipocrisia cultural’, no qual os hábitos civilizados operam como débil e insuficiente camada protetora contra danos entre os indivíduos.

A hipocrisia cultural decorre, com certeza, da pesada carga de contenção e repressão imposta pelo processo civilizador a indivíduos portadores de pulsões. A aptidão cultural, contudo, não é afetada apenas pela vida pulsional. O próprio ‘Estado civilizado’ nos fornece estímulos para a inaptidão: ele pratica nos campos de batalha – e contra os ‘inimigos’ – aquilo que proíbe expressamente a súditos seus.

Freud revela, assim, uma das principais facetas do Estado, a de buscar exercer o monopólio legítimo da injustiça.

Renato Lessa
Fundação Biblioteca Nacional
Revista Ciência Hoje

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A mãe das batalhas

Há 90 anos, terminava o primeiro combate armado de escala global. O armistício, assinado em 11 de novembro de 1918, colocava ponto final a quatro anos das batalhas mais sangrentas que o mundo havia assistido até então. Durante o confronto, a indústria bélica lançou tecnologias inéditas e, pela primeira vez, populações inteiras foram afetadas diretamente pelas conseqüências da guerra. O saldo incluiu 20 milhões de mortos e igual quantidade de feridos.
Ilustração: Sandro Castelli

Os números impressionam. Mas, ao abordar esse tema, é importante lembrar que o ensino de História não tem a finalidade apenas de condenar os horrores do passado e incutir nos jovens o desejo de construir um futuro diferente. "Isso não se ref lete em aprendizado. Os alunos precisam entender como os fatos aconteceram e em quais contextos se inseriam - até para ter elementos e condenar as guerras no futuro", explica Daniel Vieira Helene, selecionador do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10.

No caso da Primeira Guerra Mundial, a contextualização pede um estudo cuidadoso sobre as causas do conf lito (veja o mapa da página ao lado). A Europa passava por um período de forte crescimento industrial e as grandes potências, em especial a Grã-Bretanha e a Alemanha, disputavam mercados. Também havia questões territoriais em jogo: Japão, Itália e Alemanha estavam descontentes com o número de colônias que controlavam. E o crescimento do nacionalismo, principalmente entre os bósnios (que buscavam a independência do Império Austro-Húngaro) e nos povos árabes (que queriam se libertar do Império Turco-Otomano), esquentava ainda mais os ânimos. Para completar o cenário, várias nações - Grã-Bretanha, França e, novamente, a Alemanha - estavam se armando e desenvolvendo novas tecnologias bélicas, como tanques, metralhadoras e armas químicas (veja os infográficos da próxima página). 

O estopim: um assassinato

O barril de pólvora estourou com o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro. Em 28 de junho de 1914, em uma visita a Sarajevo, na Bósnia, ele e a esposa foram mortos por um nacionalista partidário da união com a Sérvia. O Império Austro-Húngaro culpou a Sérvia pelo crime e, um mês depois, declarou guerra ao país. A partir daí, foi uma bola-de-neve: para resolver antigos impasses, as potências também aderiram ao combate.
Ilustração: Sandro Castelli

Assim que cada nação alinhou seus interesses para se posicionar no conflito, formaram-se duas frentes: os Aliados (os principais eram Grã-Bretanha, França, Itália, Sérvia, Rússia e, mais tarde, Estados Unidos) e os Impérios Centrais (Alemanha, Império Austro-Húngaro, Império Turco-Otomano e Bulgária). Quando irromperam os combates mais violentos (veja a linha do tempo abaixo), a realidade da guerra chegou ao cidadão comum, que sofreu com os bombardeios, os racionamentos e a destruição de cidades (leia o plano de aula na página ao lado). Toda a população européia estava mobilizada em torno das batalhas, que receberam o nome de Grande Guerra - a expressão Primeira Guerra Mundial viria mais tarde, depois da Segunda.


A tecnologia no front

ARMAS QUÍMICAS 
Em 1915, os alemães lançaram gás cloro sobre as tropas aliadas. Seu efeito é devastador: se inalado, destrói os órgãos respiratórios. 

AVIÃO 
No começo, era usado em missões de mapeamento e observação. Mas logo integrou planos de ataque, com bombardeios sobre trincheiras e cidades. 

TANQUE 
Contra as metralhadoras, parte das tropas avançava em tanques blindados, que superavam arames farpados e trincheiras. 

SUBMARINO 
Usado para isolar os Aliados e responder a bloqueios da marinha inglesa, os submarinos alemães destruíram mais de 6,5 mil navios. 

METRALHADORA 
Disparando até 450 tiros por minuto, deixou as batalhas mais violentas e dificultou a aproximação dos adversários.

Morte globalizada

De fato, esse foi o primeiro conf lito de proporções globais. Os Estados Unidos, por exemplo, entraram nele em 1917, usando o pretexto do afundamento de navios por submarinos alemães (a verdade é que os aliados haviam contraído grandes dívidas com os Estados Unidos. Temendo um calote por causa da derrota, os americanos foram para a briga). Até mesmo o Brasil se viu obrigado a enviar tropas - foram 1.502 homens, no total. 

Ao fim de 1918, a paz, enfim, chegou, mas destinada a durar pouco. Com a vitória dos Aliados, as quatro principais potências do bloco (Estados Unidos, Inglaterra, França e Itália) reuniram-se em uma conferência em Paris e assinaram o Tratado de Versalhes. O documento, de 28 de junho de 1919, responsabilizou a Alemanha pela guerra e deu margem a um forte sentimento revanchista, que culminaria na Segunda Guerra Mundial. Outros tratados, como os de Trianon, Neuilly e Sèvres, também redesenharam a geografia da Europa (veja o mapa da página 101) e abriram as portas para conf litos locais. Prova de que a Liga das Nações, entidade internacional criada para evitar novos confrontos, havia fracassado. 

Pior: a sensação de humilhação dos perdedores deu força ao surgimento de ditaduras e movimentos de extrema direita, como o fascismo e o nazismo. A "guerra que prometia acabar com todas as guerras", como definiu o historiador Eric Hobsbawn no livro Era dos Extremos, fez do cenário mundial um berço para ainda mais desentendimentos e violência.


Seis momentos cruciais

jun/1914 
ASSASSINATO DE FRANCISCO FERDINANDO 
O Império Austro-Húngaro culpou a Sérvia por não impedir o crime e declarou guerra um mês depois. 

ago/1914 
BATALHA DAS FRONTEIRAS 
Entre a Alemanha e a França, diversas batalhas simultâneas resultam em 1,3 milhão de mortos para cada lado. 

abr/1917 
ENTRADA AMERICANA 
Respondendo ao afundamento de navios pelos alemães, os Estados Unidos enviam dinheiro e soldados aos Aliados. 

dez/1917 
SAÍDA RUSSA 
Após a revolução comunista de 1917, os russos assinam a paz com a Alemanha, que volta sua atenção ao front ocidental. 

ago/1918 
2ª BATALHA DO MARNE 
Com reforço americano, franceses e ingleses batem os alemães. A partir daí, os Aliados dominam as batalhas. 

nov/1918 
RENDIÇÃO 
Em 30 de outubro, o Império Turco-Otomano assina o armistício. Em 3 de novembro, é a vez do Império Austro-Hungaro. No dia 11, da Alemanha.
Daniel Vieira Helene 
Revista Nova Escola

domingo, 30 de outubro de 2011

1916 - O Colosso Blindado


A máquina de moer trincheiras: o 'Big Willie' britânico é a grande novidade tecnológica desta etapa do conflito na Europa

Vem aí o ‘tanque’, novidade desta guerra – Novo veículo
de combate da Grã-Bretanha ultrapassa trincheiras e arame farpado –
Aguardada estreia deve acontecer no Somme, nas próximas semanas

Está prestes a entrar no campo de batalha a grande esperança dos aliados para vencer as trincheiras e os emaranhados de arame farpado que engessam o combate contra o inimigo – leia-se Alemanha – no front europeu. Trata-se de uma nave terrestre blindada de 28 toneladas, equipada com canhões e metralhadoras, capaz de carregar entre três e oito soldados, impulsionada por lagartas (como as que são usadas em tratores) e que, além de ultrapassar trincheiras e fazer picadinho de arame farpado, servirá como escudo para os avanços da infantaria pelos campos de combate. Desde que Londres deu o aval para a produção desses novos e revolucionários veículos de combate, no início do ano, os operários da fábrica Fosters, em Lincoln, na Inglaterra, responsável pelo projeto do colosso de ferro, trabalham febrilmente. Com isso, a empresa conseguirá entregar aos militares dentro de poucas semanas a primeira leva de veículos. Ainda sem nome oficial, estão sendo apelidados de “tanques”, por sua semelhança com os caminhões de transporte de água.

Nos testes realizados em fevereiro último, o “Big Willie”, protótipo idealizado e apresentado pela dupla William Tritton, diretor da Fosters, e Walter Wilson, da Reserva Real da Marinha, arrancou suspiros da cúpula londrina, convencida de ter encontrado a síntese ideal para o trinômio proteção-mobilidade-poder de fogo. A fabulosa nave conta com um propulsor Daimler de 105 cavalos e, além das lagartas, apresenta duas rodas traseiras para equilíbrio e direção. A máquina obteve êxito em atravessar uma trincheira de 3 metros e sobrepujar espantosamente um obstáculo vertical de 1,3 metro, movimentando-se com vigor a uma velocidade que fica entre os 3 e 6 quilômetros por hora. Maravilhados, os integrantes do comando britânico não hesitaram em assinar o cheque para uma encomenda de cem unidades. Boa parte deles já tem destino certo: a terra de ninguém do Somme, onde o colosso certamente será recebido como um verdadeiro maná belicoso.

Graças a ele: Churchill apoiou projeto

‘Churchill-móvel’ – Se comprovada sua eficácia em combate, os soldados britânicos devem juntar em suas preces de agradecimento o nome de Winston Churchill ao de Deus e do rei George. Em retrospectiva, Winnie é o responsável pela materialização do projeto do “tanque”. Foi o hoje defenestrado Churchill, quem, em fevereiro do ano passado, durante seu mandato como Primeiro Lorde do Almirantado, a despeito da oposição do Ministério da Guerra, bancou a criação do Comitê de Naves Terrestres, consciente da importância de um veículo blindado para todos os terrenos. (O Real Serviço Aéreo Naval, no início da guerra, possuía alguns carros blindados para trabalhar em conjunto com o esquadrão baseado em Dunquerque, seja como reconhecimento de terra ou resgate de pilotos; esses modelos, porém, não poderiam ser levados às trincheiras – e então a Marinha seguiu adiante no suporte aos novos projetos.) Em segredo, Tritton e Wilson desenvolveram na unidade de Lincoln o protótipo que agora entra em fabricação industrial a pedido de Londres. O oficial Wilson, porém, acredita que o “tanque” ainda pode ser melhorado, e já se dedica ao desenho de um novo modelo. É o Mark I, que, ainda no papel, tem duas configurações, o “macho” (municiado com dois canhões de seis libras nas laterais e quatro metralhadoras) e a “fêmea” (sete metralhadoras). Caso a engenhoca vingue, será a melhor amiga das tropas aliadas, não importando o gênero.
Revista Veja na História

quarta-feira, 30 de março de 2011

Liga das Nações



A Liga das Nações foi uma organização internacional criada em abril de 1919, quando a Conferência de Paz de Paris adotou seu pacto fundador, posteriormente inscrito em todos os tratados de paz.

Ainda durante a Primeira Guerra Mundial, a idéia de criar um organismo destinado à preservação da paz e à resolução dos conflitos internacionais por meio da mediação e do arbitramento já havia sido defendida por alguns estadistas, especialmente o presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson. Contudo, a recusa do Congresso norte-americano em ratificar o Tratado de Versalhes acabou impedindo que os Estados Unidos se tornassem membro do novo organismo.

A Liga possuía uma Secretaria Geral permanente, sediada em Genebra, e era composta de uma Assembléia Geral e um Conselho Executivo. A Assembléia Geral reunia, uma vez por ano, representantes de todos os países membros da organização, cada qual com direito a um voto. Já o Conselho, principal órgão político e decisório, era composto de membros permanentes (Grã-Bretanha, França, Itália, Japão e, posteriormente, Alemanha e União Soviética) e não-permanentes, estes últimos escolhidos pela Assembléia Geral. Não possuindo forças armadas próprias, o poder de coerção da Liga das Nações baseava-se apenas em sanções econômicas e militares. Sua atuação foi bem-sucedida no arbitramento de disputas nos Bálcãs e na América Latina, na assistência econômica e na proteção a refugiados, na supervisão do sistema de mandatos coloniais e na administração de territórios livres como a cidade de Dantzig. Mas ela se revelou impotente para bloquear a invasão japonesa da Manchúria (1931), a agressão italiana à Etiópia (1935) e o ataque russo à Finlândia (1939). Em abril de 1946, o organismo se autodissolveu, transferindo as responsabilidades que ainda mantinha para a recém-criada Organização das Nações Unidas, a ONU.http://www.fgv.br

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Em casa de doença venérea (1914-1918) - parte 2


Jean-Yves Le Naour


A SOLUÇÃO PARA A CLÍNICA

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Por iniciativa de uma dinâmica desordenada e poucos especialistas, tais Pautrier de Bourges e Tours Gougerot Spilmann Nancy, instituições Dermatovenereologia aparecem no interior da caixa com a tarefa de hospedagem venéreas anonimamente, de proporcionar tratamento ambulatorial, evitando internações e os constrangimentos resultantes. Professor Nicolas, fundador do primeiro centro do género Venereologia em Lyon, em Dezembro de 1914, é o precursor. Pautrier Bourges e Perrin imitar o Marselha em 1915[15]
[15] SHAT, S 9 N 978, Relatório sobre a organização da luta ...
resultado
, mas não era até 25 de setembro de 1916 para que eles sejam submetidos a gestão unificada e generalizada de Godart. Em 1º janeiro de 1918, que são centros de vinte e cinquenta e três sub-centros distribuídos em dezoito regiões militares do interior e da zona de guerra.

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Ao mesmo tempo, como reflexão elaborada sobre a criação de centros militares de dermato-Venereologia, Louis-Jean Malvy, ministro do Interior, Justin Godart e seu colega foram a favor de um sistema baseado na responsabilidade individual nas zonas rurais civis. Em clínicas de DST chamados "serviços auxiliares em hospitais, os pacientes podem ser tratados com total discrição, sem qualquer restrição, com tratamento ambulatorial e sem acusação desde o Estado assumirá integralmente custear as despesas. A idéia liberal da clínica de doenças venéreas nas antípodas do parto não é de facto uma invenção da guerra. Já em 1903, o professor Alfred Fournier, o verdadeiro fundador da sifilografia, exigiu instalações para consulta "numerosas, acesso fácil, livre, aberta na hora em que o trabalhador pode alcançar sem prejuízo de seu trabalho e sua bolsa "(citado em Quetel, 1986, 169), mas defendendo as virtudes de internamento hospitalar, ele afastou-se do espírito liberal e pode ser resumido nesta máxima: o tratamento de doenças venéreas realmente funciona quando "deixa de ser a compulsão para se tornar um prazer[16]
[16] Val-de-Grace, 239-1, Relatório Médico Clemente Simon ...
continuou
. " Na verdade, a introdução do tratamento ambulatorial depende fortemente da terapêutica e não era possível antes de 1910 e as descobertas médicas do alemão Ehrlich - preparação arsenical injetado chamado salvarsan por via intravenosa ou 606[17]
[17 ] Era a sua 606ªexperiência.Continua ...
resultado
- a considerar a nova forma de clínica de doenças venéreas. Na verdade, a nova era de arsenobenzènes pode tratar o paciente rapidamente, evitando um hospital de cura tão pesado quanto tempo. Além disso, desde o final do ano de 1910, e seu colega Professor Jeanselme Hudelo organizar uma sífilis clínica no Hospital de Broca (Paris), o primeiro de seu tipo na França[18]
[18] A profilaxia venérea, 1940 "As clínicas ...
resultado
. Cada sifilítica que está presente é dada uma injeção e, em seguida, uma nomeação para uma consulta semanal, um sistema flexível, que requer apenas uma insignificante perda de tempo e dinheiro e reduz os custos hospitalares através da eliminação camas. Com a guerra eo medo de um aumento das doenças venéreas, a experiência pioneira do Hospital Broca aparece como um exemplo a seguir[19]
[19] Boletim da Academia de Medicina da reunião de 28 de ...
resultado
.

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Portanto, uma política abrangente de prevenção, metódica e coordenada, na prática, substituindo o esforço local. Pela primeira vez, o estado está preocupado com a doença chamada "especial" e pretende fazê-los desaparecer. Em 13 de julho de 1916, Justin Godart reúne chefes de centros e subcentros de Dermatologia Venereologia e todas as autoridades envolvidas com a questão. Ele alisa as várias medidas tomadas no exército na frente nas regiões militares ea população civil. A reunião resultou no desenvolvimento da circular de 25 de setembro de 1916 que estabelece em doze páginas de todos os meios e instruções relativas ao controle de doenças venéreas[20]
[20] Val-de-Grace, 239-1. Clemente Simon chama de "fretado ...
resultado
. No ano seguinte, 05 de junho de 1917, por sua vez Malvy relatórios para a organização geral do serviço em horários tardios de uma circular, mas agora está ciente da participação financeira das dotações do Estado têm sido votados pelo Parlamento. Estes serviços, bem equipado com um laboratório para estabelecer cientificamente o diagnóstico de sífilis por reação de Wassermann desenvolveu em 1905, diretamente ruptura com a era da clínica de párias e estigmatização dos doentes. Além disso, Malvy insiste em que são removidos de seus profissionais de gestão "não ter outra forma que não seja responsável pelo acompanhamento da saúde das prostitutas, que está longe de ser uma referência[21]
[21] NA , F1a 3520. ...
continuou
. " O horário de serviço liberal também é popular entre as prostitutas que já não hesitam em procurar tratamento, enquanto o sistema de regulamentação e sua promessa de encarceramento ficou doente meninas sim para fugir da visita e esconder sua condição. A circular também recomenda que as consultas são abertas à noite e domingo de manhã para que os funcionários pode chegar lá sem perder parte do seu salário e, sobretudo, "sem pedir autorização a seus empregadores que eles não indicam motivo ". Finalmente, para divulgar o serviço de agendamento, Malvy chamadas para a publicidade sutis nos jornais sob o nome de "consulta para as doenças da pele e mucosas, proporcionando assim vergonhosa doença viés a ser considerada, mas também conta com a cooperação dos sindicatos, sociedades de benefício fraterna, prefeitos, médicos e farmacêuticos, que são enviados boletins incluindo vários modelos estão em anexo à circular de 05 de junho de 1917. Muito rapidamente, as clínicas de DST estão se multiplicando: o número 40 para o final de 1916, são 120 mil em 1919 e é atingido em 1927[22]
[22] A profilaxia anti-venérea, Março de 1931. ...
resultado
.

15

Locais onde há tropas estacionadas ou em quatro, assim como concentrações significativas de trabalhadores foram fornecidas rapidamente com esses serviços, com algumas excepções (principalmente os municípios de Brest, Le Mans Castres e cuja situação financeira pretextos escondida realmente um Puritan rejeição de apoio para "doença vergonhosa"). represa recusa A clínica iria, contudo, dar a terra para melhorar continuamente a desaparecer para sempre em meados da década de vinte[23]
[23] Em 1º agosto de 1919, dezenove departamentos, ...
resultado
.

A PROFILAXIA EMPRESA OU O TRIUNFO DA RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL

16

A intervenção dos EUA, a presença física das tropas de estrangeiros em França a partir de junho de 1917, reavivou a discussão sobre novos métodos de prevenção de doenças venéreas. Primeiro preste atenção ao funcionamento dos franceses, de junho a outubro de 1917, os americanos rapidamente declarar falência, à luz de novos casos de doenças venéreas observados na sua força expedicionária: a regulamentação da prostituição é considerada inoperante, bordéis em seguida, são gravadas para os soldados ea ênfase é na prevenção da doença através da profilaxia pessoal. Após contato sexual antes e três horas a decorrer, o soldado tem que ir para a estação profilática, quando o produto local para higiene pessoal, usando pomadas diferentes e solução protargol que s Introduz-se na uretra e, em seguida executa um cartão de tratamento, indicando a data e hora de atendimento[24]
[24] SHAT, 9 N 987 S, Ordem Geral N º 77 de 18 de dezembro ...
resultado
. Se uma doença ocorre, e o soldado não pode provar que ele passa a estação, ele alterna a tribunal marcial sob a ordem geral de 02 julho de 1917 condenando o paciente como "carente em todos os seus deveres para com seu país e seus companheiros e viu o seu salário suspenso por três meses[25]
[25] Jornal da higiene e da saúde animal, 1918, "...
resultado
. A abordagem americana, que depende inteiramente da disciplina individual, a chave para a sanção para o incumprimento, dá resultados que impressionam os médicos franceses. De acordo com dados tornados públicos, novos casos de doenças venéreas aumento de 16,8 por mil para 2,1 por mil de outubro de 1917 a janeiro de 1918 por tropas brancas de Saint-Nazaire e 108-11 por mil de soldados negros[26]
[26] SHAT, 9 N 987 S, os valores citados pela equipe médica Gastou ...
resultado
. Não demora mais para a comunidade médica e gritos entusiasmados de aplicar a correção rápida em que o americano retorna uma certa fascinação pela modernidade e as poderosas capacidades de aliados. "É hora de fazer coisas novas, principalmente as coisas que vão com o gosto americano e encanto que temos para os americanos", disse o Dr. Jacques Bertillon[27]
[27] SHAT, 9 N 989 S, 29 de julho de 1918 reunião da Comissão ...
resultado
.A maioria dos nacionalistas, no entanto, recordar com orgulho que os americanos inventaram nada, mas a paternidade de Profilaxia individual pertence ao francês, é devido às pesquisas de Metchnikoff e Roux no Instituto Pasteur em 1906 mostrou que o atrito de sexo com uma pomada mercurial, antes ou após a relação sexual, reduz significativamente o risco de contrair doença venérea. Este método foi prescrito, então, por uma circular de 23 de setembro de 1907 pelo Secretário de Estado Adjunto H.Cheron, um verdadeiro fundador da empresa profiláticos, mas não qualquer projecto de realização.

17

Louis Mourier, Justin sucessor Godart, em fevereiro de 1918, não podem mais ignorar o "sucesso" dos americanos, nem os repetidos pedidos de seus subordinados.Antes de decidir, Mourier carregar a equipe médica Gastou um relatório sobre o assunto conclui que o interesse claro do estabelecimento da empresa, sem profilaxia esconder as desvantagens, no entanto, que o "espírito francês" rápido transformando a instituição ao ridículo e tirar sarro de quem vai usar[28]
[28] SHAT, 987 S. 9 N...
resultado
. O obstáculo fundamental não é que um e gira em torno da questão do tratamento obrigatório: no caso de adotar o sistema dos EUA, devemos fazer a transição para a empresa profilático obrigatório, sob pena sanção, ou deixando o uso opcional, como no espírito da Cheron em 1907? Para o professor Gougerot, a eficiência é sinônimo de ameaça e perda de equilíbrio, a exemplo dos EUA, ou a sala de polícia para "secretas" não ter para atender o gabinete profilaxia[29]
[29] SHAT, 9 S 987 N Relatório de 31 de março de 1918 a Louis Mourier. ...
resultado
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18

Na Companhia de saúde preventiva e da moralidade, é dividido entre aqueles que não querem que o paciente seja um delinquente (e os médicos Granjux Pileur) e aqueles que pretendam exercer a doença - e os seus titulares - por todos os meios (Dr. Paulo Faivre)[30]
[30] Boletim da Sociedade de saúde preventiva e ...
Seguindo
o risco de contradizer a tradição da sociedade, que sempre protestou contra a punição de militares venéreas.Em 26 de junho de 1918, o Comité de Saúde Pública da Câmara, o membro Fernand Merlin leu o seu relatório sobre a criação de postos de saúde-doença venérea que ele quer instalado em ambas as da classe trabalhadora o no quartel e toma festa para o título, a única garantia de utilidade inquestionável. Ele é desmentida pelo presidente, Doizy, para quem "a utilidade relativa" é para ser tomado em consideração: "Se dez homens foram curadas em cinco, será sempre um resultado adquiriu os restantes cinco, mais cedo ou mais tarde submetidas medidas profiláticas, seja por força do hábito, ou por contágio moral do senso comum da palavra[31]
[31] C ANO 7726, Reunião de 26 de junho de 1918. ...
resultado
. Louis Mourier concorda com esta opinião. 17 e 18 de junho, ele autorizou o teste de estações profilático na IXª e XVª regiões, fornecendo assim "não haverá necessidade de considerar obrigatória[32]
[32] SHAT, 9 987 S. N...
continuou
. " Assim, quando se trata 05 de julho de 1918 perante o comitê da Câmara com um projeto para criar empresas profilática no modelo americano, mas é opcional, é criticada por Fernand Merlin. No entanto, o jogo está mais perto do Comité Consultivo Superior de Saúde[33]
[33] Esta comissão criada por despacho de 07 janeiro de 1915 e ...
Após
Mourier que apresentou a matéria em 09 de julho. Além de alguns preconceitos morais, o campo da obrigação de triunfar de forma brilhante. Dr. Thibierge não menos estridente: "Assim como um soldado não tem o direito de mutilar, ou de recusar a vacinação contra a varíola ou febre tifóide, e ele não tem direito a torná-lo disponível para uma doença venérea para a luta econômica do período pós-guerra, para torná-lo impróprio para o repovoamento do país[34]
[34] SHAT, 989 S. 9 N...
resultado
. "Nós vamos votar porque o voto de obrigação de utilizar unanimidade. A palavra final continua a Mourier passando o problema da punição em silêncio na circular de 08 de agosto que generaliza a experiência da França todas as empresas profilática já praticada em várias regiões[35]
[35] SHAT, 17 N º 201, Circular n º 772 Ci / 7....
resultado
.

19

Bond ou não, a profilaxia é o entusiasmo pessoal, e espero terminar definitivamente com sífilis, enquanto os homens se disciplinar um pouco. Mesmo antes Mourier não é permitido, há planos para instalar o gabinete de guerra nas fábricas, universidades e até em estações de trem, perto de onde as prostitutas muitas vezes oficiar, oferecendo a oportunidade para aqueles que têm apenas relações para proteger-se imediatamente.Infelizmente, o otimismo cego dos primeiros dias de amarga desilusão a seguir: 20 de dezembro de 1918, diretores dos serviços de saúde das regiões militares são convidados a comentar a empresa, a experiência de saúde e, além do médico Diretor do Barão Terceiraª região (Rouen), que continua a ter confiança[36]
[36] "As instalações não funcionam por muito tempo ...
resultado
, todo mundo faz a constatação de fracasso.

20

"declarações mensais sobre o funcionamento destas estações são todos profilática nada marcado. A situação existente no nosso centro tem recebido desde a sua criação, apenas um cuidado preventivo militar. "[Le Mans IVª Região].

21

"O desempenho dessas estações profilático útil foi quase nulo até agora. [Orleans, Vª região].

22

"Em geral, essas estações são mal atendidos [...]. Os disponíveis para as tropas argelinas são religiosamente evitado. [Toulouse, XVIIª região].

23

Na XIª região (Nantes), onde havia uma média de três visitas de uma estação de três meses, os médicos Petges chefe atribui a falta de "espírito francês" que teme o ridículo e zomba Ao contrário dos americanos que são mais educados e disciplinados. A exigência de um tratamento completo, provavelmente, trabalhou contra a estação, o medo de ser indiscreto Soberano. Após o enorme fracasso de profilaxia pessoal, o exemplo norte-americano já não é considerada com o mesmo interesse e começamos a denunciar o que é fumaça e espelhos.Evidentemente, as estatísticas apresentadas pelo Ministério da Saúde mostram uma queda dramática em novos casos de doenças venéreas EUA após a introdução da estação profilática , mas é certo que eles são completamente distorcida pelo medo da punição. O venéreas tratados infratores esconder seu mal e ocorrem em horários de serviço, centros e subcentros de francês para evitar ser punida. Em Bourges, Professor Pautrier o primeiro recusou, mas como eles se tornaram vítimas de charlatões e ervanários má medicina e farmacêuticos, ele voltou atrás em sua palavra, mas não carregavam mais nenhuma ilusão sobre as virtudes do sistema americano "Temos de afirmar que as estatísticas publicadas tão feliz que os americanos são completamente falsas, que o número de homens infectados é alto[37]
[37] SHAT, 9 N 989 S, Relatório do Professor Pautrier, outubro ...
continuação
... "segundo o relatório médico apresentado para Funcionários Gastou Mourier 15 agosto de 1918 reconhece que, entre a inspeção de saúde de primeira também é mal feito na U. S. exército no exército francês, com o resultado que a identificação de venéreas é limitado eo ilusório sanção.Ele também tratou soldados americanos e se recusou a denunciar os seus aliados do companheiro sigilo médico[38]
[38] SHAT, 987 S. 9 N...
resultado
.

24

Depois de muito esforço, o Ministério da Saúde não se inverter e continuar no futuro a apoiar a solução profilática a empresa, acompanhando o desenvolvimento da propaganda educativa, mas nenhum grande ilusão[39]
[ 39] SHAT, 9 N 964 S, Circular 5. 106 B4 / 7, 11 mar ...
resultado
. Elemento entre outros em um enorme bolo de casamento de medidas profiláticas de espírito, por vezes contraditórias, o episódio da estação sanitária é indicativa da atitude do Exército, entre o autoritarismo ea persuasão, a ambigüidade decorrente dúvidas sobre a eficácia respectivos destas duas políticas que são preferidos por causa da melhor combinação. O fracasso dos sanitários individuais da estação e as contradições de uma ação militar não deve obscurecer a novidade importante é que o investimento maciço do governo no campo das doenças venéreas, até agora, os pais pobres da saúde pública . Naturalmente, o irracional presidiu a empresa, a angústia de uma França degenerar ea necessidade de purificação que acompanha a guerra mobilizou as energias, mas o pragmatismo e da razão ter prevalecido com o estabelecimento da clínica que continuará a ser o centro da luta contra as doenças venéreas no período entre-guerras.

Jean-Yves LE NAOUR
jy. Lenaour @ libertysurf. en

BIBLIOGRAFIA

Citações

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AUDOIN-ROUZEAU, e Stéphane BECKER, Annette (1996), "Violência e Consentimento: a" guerra cultural "da I Guerra Mundial, 251-271, em uma história cultural, eds. por Jean-Pierre Rioux e Jean-François Sirinelli, Paris, Seuil,.

BARNIER, André (1938), sífilis durante a guerra de Medicina da Tese, em Paris.

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CORBIN, Alain (1998), "O heredosyphilis ou resgate impossível", 141-169, Le Temps, desejo e horror,Paris, Flammarion.

DARMON, Pierre (2000), "Grande Guerra eo surto de doença venérea. A magnitude do flagelo,Ginecologia, Obstetrícia e Fertilidade, 754-756.

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QUÉTEL, Claude (1986), O mal de Nápoles, Paris, Seghers.

NOTAS

[1]

1. A peça de Eugene Brieux, danos (Paris, Stock, 1902), provavelmente marcou o auge dessa consciência.Retour

[2]

2. SHAT, 9 N 964 S, a Circular n º 213 07/03.Retour

[3]

3. AN, C 7726, reunião de 2 de junho de 1916.Retour

[4]

4. SHAT, S 9 N 968, Relatório da Comissão Permanente de higiene e profilaxia sobre os perigos das doenças venéreas.Retour

[5]

5. Boletim da Academia de Medicina da reunião de 28 de março de 1916, p. 359-360.Retour

[6]

6. A Onda, 7 de novembro, 1918.Retour

[7]

7. Os dados estatísticos sobre a guerra de 1914-1918, Melun, Archives of Public Welfare, 1922, citado por Walter, 2000, 755.Retour

[8]

8. Shat, 16 N 227, o recorde de cinco dias para dez dias a 1º outubro de 1917.Retour

[9]

9. Jornal das doenças venéreas, 1916, "A prevenção de doenças venéreas na" Exército, p. 541-542.Retour

[10]

10. Não foi até 1942 e medidas expeditas para Vichy denunciou o contaminante é legalmente obrigado a ser visitado na cadeia.Retour

[11]

11. Val-de-Grace, 239-1, relatório da equipe médica da ambulância Armeilla 03/12 do VIIIº Exército, Junho de 1917.Retour

[12]

12. UM, C 7690, a Circular n º 389 Ci / 7.Retour

[13]

13. O relatório da equipe médica Armeilla mais de um ano de observação e de 2095 caso não pode fazer revelações que 639 ou 30,5% do total, onde as prostitutas, todas as categorias, são o orgulho com 79% das origens de contaminação.Retour

[14]

14. a classificação de 1054 sífilis entrevistado pelo médico ajudante maleína Central Dermatovenereologia de Bar-le-Duc, o relatório de 31 de Janeiro de 1917, VDG, 239-2.Retour

[15]

15. SHAT, S 9 N 978, Relatório sobre a organização do controle de doenças venéreas entre os militares e civis, sdRetour

[16]

16. Val-de-Grace, 239-1, Clemente Médico Simon Relatório sobre o funcionamento das doenças venéreas apresentou Godart 15 julho de 1917, 215 p.Retour

[17]

17. Esta foi a sua 606ª experiência. Ele continuou suas pesquisas sobre a pista e em seguida, colocar arsenobenzènes desenvolveu o Neosalvarsan ou 914 (Quetel, 1986, 178).Retour

[18]

18. A profilaxia contra a doença venérea, de 1940, "O Hospital de Clínicas de Broca.Retour

[19]

19. Boletim da Academia de Medicina da reunião de 28 de março de 1916, "As doenças venéreas durante a guerra para o hospital e seus anexos Villemin, 1916, p. 352-360.Retour

[20]

20. Val-de-Grace, 239-1. Clemente Simon chama de "Carta de profilaxia contra a doença venérea."Retour

[21]

21. NA, F1a 3520.Retour

[22]

22. A profilaxia anti-venérea, Março de 1931.Retour

[23]

23. Em 1º agosto de 1919, dezenove departamentos, principalmente nas regiões rurais, ainda estão sem o serviço para: Brittany, Vendee, Mayenne, Eure, Seine-et-Marne, Aisne, Gers, Pyrenees-Orientales, Tam, Tam -et-Garonne, Aveyron, Lozere, Cantal, Corrèze, Creuse, Haute-Savoie, Haute-Marne, Haute-Saone, Haut-Rhin.Retour

[24]

24. SHAT, 9 N 987 S, Ordem Geral N º 77 de 18 de dezembro de 1917.Retour

[25]

25. Jornal da higiene e da saúde animal, 1918, "Profilaxia das Doenças Venéreas no S. U. Exército", p.773-803.Retour

[26]

26. SHAT, 9 N 987 S, os números citados pela equipe médica Gastou no seu relatório sobre o funcionamento das estações profilática entregue ao U. S. Secretário de Estado Adjunto Louis Mourier 04 maio de 1918.Retour

[27]

27. SHAT, 9 N 989 S, 29 julho de 1918 Reunião do Conselho Consultivo Superior de Saúde Comitê.Retour

[28]

28. SHAT, 987 S. 9 NRetour

[29]

29. SHAT, S 9 N 987, Relatório de 31 de março de 1918 para Louis Mourier.Retour

[30]

30. Boletim da Sociedade de saúde preventiva e da moral, junho de 1918.Retour

[31]

31. C ANO 7726, Reunião de 26 de junho de 1918.Retour

[32]

32. SHAT, 987 S. 9 NRetour

[33]

33. Esta comissão criada por decreto de 07 de janeiro de 1915 e composto por 21 membros escolhidos pelo Parlamento, os principais organismos científicos e do exército, que veio a associar, por decreto de 22 de novembro de 1915, 26 novos membros, incluindo uma delegação Comissão de Saúde Pública da Casa, é encontrar ou completar as melhorias e aperfeiçoamentos que são necessários para o serviço médico do exército em território nacional e dos exércitos.Retour

[34]

34. SHAT, 989 S. 9 NRetour

[35]

35. Shat, 17 N 201, Circular n º 772 Ci / 7.Retour

[36]

36. "As instalações não trabalham o suficiente de modo que agora podemos ver estatísticas de uma redução substancial de doenças venéreas. Mas é certo que em breve vamos salvar resultados significativos, quando os militares vão estar mais familiarizado com estes novos métodos de profilaxia contra a qual, na verdade, eles ainda têm alguma suspeita ", o relatório de 21 de dezembro de 1918 , SHAT, 987 S. 9 NRetour

[37]

37. SHAT, 9 N 989 S, Relatório de Pautrier Professor, outubro de 1918.Retour

[38]

38. SHAT, 987 S. 9 NRetour

[39]

39. SHAT, 9 N 964 S, B4 Circular 5106 / 7, em 11 de março de 1920.

Annales de démographie historique