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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Festas Juninas: Rituais Pagãos


 A PREGAÇÃO DE SÃO JOÃO BATISTA, DE FRANCESCO UBERTINI BACCHIACCA II MUSEUM OF FINE ARTS, BUDAPEST

Ney Vilela
Em total desencontro de ideários, as festas juninas dedicadas a São João - no centro da pintura de Francesco Ubertini Bacchiacca II (1494-1557) - são pagãs e não cristãs, uma vez que celebram os ciclos existenciais dirigidos por uma ordem universal, anteriores ao cristianismo

Milênios antes do cristianismo, nossos ancestrais já reconheciam que a natureza possui ritmos e ciclos inevitáveis de nascimento e morte. Os primeiros pensadores, ao se preocupar em tentar compreender o mundo, sentiam que existia uma sabedoria cósmica, anterior à própria existência dos homens e que era totalmente independente das decisões tomadas pela humanidade.

Os velhos homens sábios recomendavam que nós devêssemos procurar a integração com a ordem universal do cosmos. Precisaríamos aceitar a organização cósmica (o logos), reverenciando-a carinhosamente.

Há dois momentos no calendário solar em que os ritmos universais são marcantes: os solstícios de verão e de inverno. Desde tempos imemoriais, os homens festejam essas datas com monumentos impressionantes (como o de Stonehenge) ou com festas deliciosas e sensuais.

Festas de solstício

No hemisfério norte, na época em que o cristianismo se consolidava, o solstício de inverno ocorria em 25 de dezembro e o solstício de verão acontecia em 24 de junho. O dia 25 de dezembro, contradizendo o pleno frio e o fato de que se vive a noite mais longa do ano, marca o renascimento: a partir daquela data, o Sol - vagarosa e inexoravelmente - ampliaria o seu percurso diário, vencendo as trevas. O dia 24 de junho, que era o dia mais longo do ano, expressa o auge do convívio, da fertilidade e da alegria; é o momento de se alimentar com guloseimas e de se purificar saltando sobre uma fogueira em que se atiram substâncias com efeitos sobrenaturais. As festas de solstício, consagradas pela sabedoria pagã e pela filosofia grega, marcam a comunhão com a ordem universal, externa ao domínio humano. Os gregos festejavam os solstícios com bebedeiras homéricas e orgias dionisíacas.

São João (que é festejado no Brasil com fogueiras, quadrilhas, comida, bebida, danças, jogos e adivinhações) provavelmente rejeitaria o estilo dos festejos criados para homenageá-lo. As festas juninas (que têm no dia de São João o seu ponto alto) são dionisíacas, celebrando o mistério da renovação da natureza. Em dia de São João, os convivas não se preocupam com os dogmas do catolicismo, mas em reverenciar os ciclos existenciais dirigidos por uma ordem universal, anteriores ao cristianismo e à própria existência da espécie humana.

São João e o logos

São João era primo de Jesus e morreu degolado na Palestina. Em seu apostolado, decretou que o logos encarnou em um Homem-Deus, que se fez crucificar e ressuscitar para salvar a humanidade. Para São João, a imortalidade não é algo anônimo e universal: só podem ascender ao paraíso aqueles que fazem a opção, individual e consciente, que assumem certos comportamentos e que obedecem a determinadas prescrições. O logos, no evangelho segundo São João, deixou de ser usufruído de maneira universal e inexorável; nem todos irão se salvar, permanecendo integrados ao cosmos, à vida eterna. São João construiu barreiras, distanciando do paraíso aqueles que não seguem as prescrições do Verbo que se fez carne.

Cristianismo e paganismo

Rituais como beber, comer, pular fogueiras, dançar quadrilhas, são herdados pela sabedoria pagã e pela Filosofia grega. Ainda que haja as procissões e algumas manifestações cristãs, os rituais dionisíacos, típicos da cultura pagã, predominam no imaginário social


Por que o cristianismo (que se afasta tanto da ideologia pagã) se apropriou das datas reverenciais mais importantes do paganismo? Há dois motivos que, no decorrer da Idade Média, tornaram-se evidentes: facilitar a catequese dos pagãos e esvaziar ideologicamente suas comemorações. Assim se construiu a tríade maior das festas da cristandade: a Páscoa, que ocorre no primeiro domingo de Lua cheia após o equinócio de primavera; o nascimento de Jesus de Nazaré, convencionado para o solstício de inverno, 25 de dezembro; São João, coroando as festas juninas, em 24 de junho.

No que concerne à Páscoa, a Igreja atingiu seus objetivos: os sensuais rituais celtas e germânicos do equinócio foram substituídos pelo jejum, penitência, retiro e contemplação religiosa da quaresma. Mesmo que se afirme que as penitências tenham encolhido nos tempos atuais e que pouco resta além da atitude de abstinência em relação à carne vermelha (na Sexta Feira da Paixão), o espírito da quaresma norteia, ainda hoje, o comportamento de centenas de milhões de pessoas.

O Natal está escapando ao domínio ideológico da Igreja: os atos de consumismo, os presentes caros, as mesas fartas obscurecem, em muitos lares, o mistério do nascimento de Deus-homem. Até a ideia de confraternização migrou para a semana seguinte, em que se comemora o início do ano, de acordo com o calendário do Papa Gregório, o grande.

Mas não há como negar que a força dos rituais de alimentação, o arrasta-pé sensual, o "quentão", a vontade de adivinhar quem vai casar e o calor da fogueira indicam que, na batalha ideológica das festas de junho, a vitória é do sensualismo pagão. Santo Antonio tornou-se o legitimador de conjunções carnais; as procissões foram substituídas por quadrilhas; a roupa de caipira substituiu o traje litúrgico; heróis ibéricos, cavalhadas e os rojões que simbolizam as armas dos cavaleiros medievais ocupam os lugares que eram dos santos, dos martírios e da cruz.

No confronto do solstício do meio do ano, a Igreja perdeu para o paganismo. As festas juninas são rituais pagãos.


NEY VILELA é mestre em Comunicação Midiática e coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela.
Revista Leituras da História

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Isto é São João?


Isto é São João?
Banho de rio, dança indígena, culto a Xangô. A festa se reinventa na diversidade brasileira
Lorenzo Aldé

Na decoração do “Maior São João do Mundo”, que atrai cerca de 2 milhões de pessoas, há três enormes maquetes reproduzindo construções importantes para a história de Campina Grande (PB). Lá estão, lado a lado, a sede da Câmara e Cadeia, a catedral de Nossa Senhora da Conceição e... o Cassino Eldorado — famoso cabaré que funcionou na cidade até os anos 1960.

O que mais causa surpresa nessa informação não é a vizinhança entre igreja e cabaré. Afinal, ela sintetiza a origem da festa: um rito pagão em homenagem à fertilidade da terra transformado em celebração católica. São João sempre esteve cercado por essa dupla natureza da fogueira — sagrada e profana, pecado e purificação.

Mais impactante é constatar que o festejo ancestral não só se mantém vivo como parece cada vez mais forte. O que levou um evento essencialmente familiar e comunitário a atingir a megaconcentração de 2 milhões de pessoas?

Se você é adepto do candomblé, a explicação pode estar em Xangô. Para quem não sabe, este foi o orixá escolhido como equivalente a São João, no processo de sincretismo que levou os cultos afro-brasileiros a adotar referências católicas em suas práticas, ainda no Brasil Colônia. São João, Xangô menino, a entidade do elemento fogo. “Em 23 de junho, os terreiros da Bahia fazem festa para ele. Seus filhos comandam um ritual chamado ajerê: em transe após receber o santo, botam na cabeça uma panela cheia de brasa ou óleo fervente, e com ela dançam atravessando a roda sem se queimar”, explica Muniz Sodré, professor da UFRJ e diretor da Biblioteca Nacional. Outra prática comum é caminharem descalços sobre as cinzas incandescentes da fogueira — também ali, o símbolo central da festa. Para completar, os participantes servem-se de iguarias como bolos e canjica.

Igual mas diferente? Essa contradição não é problema para o São João brasileiro. É solução: a festa, como poucas no país, parece capaz de incorporar as mais variadas referências de nossa miscigenada cultura. Nada recusa, nada descarta, tudo aproveita. Não à toa, Xangô é também conhecido como o orixá da transformação.

Longe dali, no Pantanal sul-matogrossense, a mistura de povos típica de fronteira deu origem a manifestações juninas bastante peculiares. Esqueça a quadrilha e o forró. Tente imaginar uma dança chamada cururu, de origem guarani. Agora imagine o cenário: num eco distante dos solstícios de inverno (dezembro) e verão (junhos) europeus, o que se aprende com a natureza pantaneira é o ritmo das cheias (dezembro a junho) e vazantes (junho a dezembro). Nada mais natural, para o São João local, do que a substituição do fogo pela água. “Diversas imagens de S. João, apesar do cortante frio que reinou na noite de 23, foram levadas em procissão até o porto da cidade, em cujas águas sofreram o indefectível banho tradicional”, noticiou o periódico O Autonomista, de Corumbá, referindo-se às celebrações populares que movimentaram a localidade em 1908.

Autor de tese de doutorado sobre o assunto, João Carlos de Souza, professor da Universidade Federal da Grande Dourados, atribui os banhos de São João — até hoje praticados na cidade — a uma tradição dos povos árabes, via colonização portuguesa. E lembra que o simbolismo da água há tempos está presente nas lendas em torno do profeta João. Não só pelos batismos que realizava no rio Jordão. “Contava-se que, após ter sido decapitado o corpo de São João Batista foi atirado a uma fogueira, contudo permanecia íntegro, brilhante. Tomado pelos discípulos de Jesus, foi lançado ao rio Jordão. Numa segunda versão, salientava-se que algumas pessoas, ao verem o corpo na fogueira, tentavam apagar o fogo jogando água, mas a fogueira ficava ainda maior”, escreveu o historiador, em artigo publicado em 2004. Ainda segundo as crenças populares, o corpo de João teria sido batizado por Jesus no mesmo rio, numa inversão do batismo bíblico — o que deu origem a um hino junino local: “João batiza Cristo / Cristo batiza João / Onde foram batizados / No rio Jordão”.

Nas margens do rio Paraguai, religião e festa profana também convivem em harmonia. “O fogo e a água são símbolos usuais de purificação, de modo que é plausível afirmar que o significado da festa era a renovação e a regeneração, e também a fertilidade, pois também existiam rituais para adivinhar se a próxima colheita seria boa ou se uma determinada moça se casaria no ano seguinte”, interpreta João Carlos de Souza.

Vem de seu estudo no Pantanal uma boa teoria a respeito do poder casamenteiro de João, que lá é considerado ainda mais eficaz do que Santo Antônio para realizar o sonho das moças solteiras. Como as festas duravam vários dias e atraíam muitos moradores da zona rural para a cidade, a socialização era vista como boa oportunidade de encontrar um parceiro. Daí a profusão de simpatias que se registram de norte a sul do país — em Corumbá consistiam, principalmente, em passar por debaixo do andor que levava o santo.

E nem só de intenções matrimoniais vivem as simpatias e adivinhações juninas. “Na minha infância conhecia uma simpatia que era assim: sob a luz da fogueira, olhar para dentro de uma bacia com água e tentar ver seu reflexo. Quando o reflexo surgia, significava que a pessoa ia permanecer viva até o ano seguinte. Se não conseguisse se ver, era sinal de que iria morrer. Nem todo mundo tinha coragem de experimentar”, relembra Flávio Carreiro de Santana, professor da Universidade Estadual da Paraíba e pesquisador da história regional. Nascido no município de Pombal, a 370 quilômetros de João Pessoa, ele considera o acontecimento mais marcante de suas vivências juninas a escolha de sua “madrinha de fogueira”. Trata- se de um ritual semelhante ao batismo católico, mas sem padre e sob as bênçãos do fogo. Nem por isso é levado na brincadeira: muitos nordestinos têm sua madrinha de fogueira (segundo Flávio, padrinho é dispensável) e carregam este vínculo vida afora.

O tradicional casamento na roça, para muitos mera brincadeira, acredite, também já foi pra valer. “Na região entre Piauí e Goiás, o casamento na fogueira de São João constituía, pelo menos até 1912, um sacramento”, anotaram Arthur Neiva e Belisário Pena em sua Viagem científica pelo norte da Bahia, sudoeste de Pernambuco, sul do Piauí e de norte a sul de Goiás, publicado em 1916. A razão era simples: em localidades isoladas, sem a presença de sacerdotes, o jeito era realizar a cerimônia em torno da fogueira, nos dias do santo, com direito aos dos noivos, padrinhos, familiares e convidados. A união, considerada válida pelos fiéis, era abençoada quando um religioso passava pelo local.

Deixa estar que é divertido ver como a festa popular subverte e reinventa seus símbolos religiosos. Nada mais justo do que essa constante volta às origens, uma vez que foi a Igreja, na Idade Média, quem inventou de se apropriar de ritos pré-cristãos, moldando-os de acordo com seus dogmas. Por mais que tenha santo até no nome e inúmeras referências religiosas — capelinha, compadrio, casamento, padre, bandeira —, não tem jeito: o São João é do povo. “É uma festa profana”, sentencia Muniz Sodré. “São 30 dias de festa sem vinculação religiosa”, reforça Flávio Carreiro de Santana.

Será que o bispo de Campina Grande tem opinião diferente? Nem ele. Com espírito esportivo, Dom Jaime Vieira Rocha já entregou os pontos. “São João foi um grande profeta, o precursor de Cristo, trazendo uma mensagem de mudança de vida. Mas esse aspecto não se manifesta no mês de junho. Não se dá atenção”, reconhece. Potiguar de nascimento, ele próprio se recorda dos sentidos que a fogueira assumia em sua infância. “As cinzas eram vistas como fonte de fertilidade. Os agricultores separavam sementes de milho, cuja colheita é em junho, e as guardavam misturadas com as cinzas da fogueira, para plantar no ano seguinte e garantir boa safra”. Dom Jaime garante que a Igreja não se incomoda mais com as práticas populares nada ortodoxas. Encara o compadrio de fogueira como “um gesto de confirmação da relação de amizade entre famílias e pessoas” e diz que sua diocese atualmente apenas “administra as implicações da festa”. Nada a ver com a licenciosidade sexual de outrora, que levou a Igreja a proibir as fogueiras e até as cerimônias noturnas. Imbuído de “uma nova mentalidade”, o líder católico está em dia com a agenda socioambiental: na abertura do São João, costuma conclamar os fiéis contra a violência urbana e alertá-los para os riscos do aquecimento global.

Ainda que por novos motivos, as fogueiras estão mais uma vez no alvo das autoridades. No ano passado, a Diocese e o Ministério Público proibiram que fossem acesas na zona urbana devido aos problemas respiratórios causados pela fumaça, que superlotam hospitais com crianças e idosos. Dom Jaime lembra ainda que a lenha das fogueiras costuma ser obtida de forma ilegal, contribuindo para o desmatamento da já ameaçada caatinga nordestina. Mas em defesa da cultura popular, volta a “administrar” a situação: não é justo culpar apenas a festa junina por isso, enquanto não há campanhas permanentes contra cerâmicas e padarias, estas sim grandes sumidouros de madeira ilegal.

Não há quem consiga fazer valer as proibições às violentas guerras de buscapé em Estância (SE), outra grande manifestação junina. O povo resiste. Entre tradições e renovações, São João segue firme e forte. Há quem torça o nariz para os palcos de superprodução onde se revezam dezenas de grupos de neo-forró e outras músicas modernas — atrações que arrebanham os famosos 2 milhões de Campina Grande. Vêem neles uma ameaça às tradições. Será? “A tradição é sempre inventada, assim como os processos de construção identitária dos grupos sociais são um constante fazer e desfazer”, tranquiliza o professor Valdir Morigi, da UFRGS, especialista no São João paraibano. “Tanto os elementos do passado quanto os presentes são manifestações da identidade dos grupos. Um ritual ou prática social nunca se repetem da mesma maneira, pois as pessoas não são as mesmas e os contextos em que são realizados também passam por mudanças”, ensina.

Transformação. Para o São João, esta é a rima e a solução.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Festas Juninas: Rituais Pagãos

Ney Vilela

A PREGAÇÃO DE SÃO JOÃO BATISTA, DE FRANCESCO UBERTINI BACCHIACCA II MUSEUM OF FINE ARTS, BUDAPEST

Em total desencontro de ideários, as festas juninas dedicadas a São João - no centro da pintura de Francesco Ubertini Bacchiacca II (1494-1557) - são pagãs e não cristãs, uma vez que celebram os ciclos existenciais dirigidos por uma ordem universal, anteriores ao cristianismo

Milênios antes do cristianismo, nossos ancestrais já reconheciam que a natureza possui ritmos e ciclos inevitáveis de nascimento e morte. Os primeiros pensadores, ao se preocupar em tentar compreender o mundo, sentiam que existia uma sabedoria cósmica, anterior à própria existência dos homens e que era totalmente independente das decisões tomadas pela humanidade.

Os velhos homens sábios recomendavam que nós devêssemos procurar a integração com a ordem universal do cosmos. Precisaríamos aceitar a organização cósmica (o logos), reverenciando-a carinhosamente.

Há dois momentos no calendário solar em que os ritmos universais são marcantes: os solstícios de verão e de inverno. Desde tempos imemoriais, os homens festejam essas datas com monumentos impressionantes (como o de Stonehenge) ou com festas deliciosas e sensuais.

Festas de solstício

No hemisfério norte, na época em que o cristianismo se consolidava, o solstício de inverno ocorria em 25 de dezembro e o solstício de verão acontecia em 24 de junho. O dia 25 de dezembro, contradizendo o pleno frio e o fato de que se vive a noite mais longa do ano, marca o renascimento: a partir daquela data, o Sol - vagarosa e inexoravelmente - ampliaria o seu percurso diário, vencendo as trevas. O dia 24 de junho, que era o dia mais longo do ano, expressa o auge do convívio, da fertilidade e da alegria; é o momento de se alimentar com guloseimas e de se purificar saltando sobre uma fogueira em que se atiram substâncias com efeitos sobrenaturais. As festas de solstício, consagradas pela sabedoria pagã e pela filosofia grega, marcam a comunhão com a ordem universal, externa ao domínio humano. Os gregos festejavam os solstícios com bebedeiras homéricas e orgias dionisíacas.

São João (que é festejado no Brasil com fogueiras, quadrilhas, comida, bebida, danças, jogos e adivinhações) provavelmente rejeitaria o estilo dos festejos criados para homenageá-lo. As festas juninas (que têm no dia de São João o seu ponto alto) são dionisíacas, celebrando o mistério da renovação da natureza. Em dia de São João, os convivas não se preocupam com os dogmas do catolicismo, mas em reverenciar os ciclos existenciais dirigidos por uma ordem universal, anteriores ao cristianismo e à própria existência da espécie humana.

São João e o logos

São João era primo de Jesus e morreu degolado na Palestina. Em seu apostolado, decretou que o logos encarnou em um Homem-Deus, que se fez crucificar e ressuscitar para salvar a humanidade. Para São João, a imortalidade não é algo anônimo e universal: só podem ascender ao paraíso aqueles que fazem a opção, individual e consciente, que assumem certos comportamentos e que obedecem a determinadas prescrições. O logos, no evangelho segundo São João, deixou de ser usufruído de maneira universal e inexorável; nem todos irão se salvar, permanecendo integrados ao cosmos, à vida eterna. São João construiu barreiras, distanciando do paraíso aqueles que não seguem as prescrições do Verbo que se fez carne.

Cristianismo e paganismo


Rituais como beber, comer, pular fogueiras, dançar quadrilhas, são herdados pela sabedoria pagã e pela Filosofia grega. Ainda que haja as procissões e algumas manifestações cristãs, os rituais dionisíacos, típicos da cultura pagã, predominam no imaginário social
Por que o cristianismo (que se afasta tanto da ideologia pagã) se apropriou das datas reverenciais mais importantes do paganismo? Há dois motivos que, no decorrer da Idade Média, tornaram-se evidentes: facilitar a catequese dos pagãos e esvaziar ideologicamente suas comemorações. Assim se construiu a tríade maior das festas da cristandade: a Páscoa, que ocorre no primeiro domingo de Lua cheia após o equinócio de primavera; o nascimento de Jesus de Nazaré, convencionado para o solstício de inverno, 25 de dezembro; São João, coroando as festas juninas, em 24 de junho.

No que concerne à Páscoa, a Igreja atingiu seus objetivos: os sensuais rituais celtas e germânicos do equinócio foram substituídos pelo jejum, penitência, retiro e contemplação religiosa da quaresma. Mesmo que se afirme que as penitências tenham encolhido nos tempos atuais e que pouco resta além da atitude de abstinência em relação à carne vermelha (na Sexta Feira da Paixão), o espírito da quaresma norteia, ainda hoje, o comportamento de centenas de milhões de pessoas.

O Natal está escapando ao domínio ideológico da Igreja: os atos de consumismo, os presentes caros, as mesas fartas obscurecem, em muitos lares, o mistério do nascimento de Deus-homem. Até a ideia de confraternização migrou para a semana seguinte, em que se comemora o início do ano, de acordo com o calendário do Papa Gregório, o grande.

Mas não há como negar que a força dos rituais de alimentação, o arrasta-pé sensual, o "quentão", a vontade de adivinhar quem vai casar e o calor da fogueira indicam que, na batalha ideológica das festas de junho, a vitória é do sensualismo pagão. Santo Antonio tornou-se o legitimador de conjunções carnais; as procissões foram substituídas por quadrilhas; a roupa de caipira substituiu o traje litúrgico; heróis ibéricos, cavalhadas e os rojões que simbolizam as armas dos cavaleiros medievais ocupam os lugares que eram dos santos, dos martírios e da cruz.

No confronto do solstício do meio do ano, a Igreja perdeu para o paganismo. As festas juninas são rituais pagãos.

NEY VILELA é mestre em Comunicação Midiática e coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela

Revista Leituras da História

domingo, 22 de novembro de 2009

Nhá-história do arraiá: a origem das festas juninas


Nhá-história do arraiá: a origem das festas juninas
Desde antes de Cristo já havia festa no mês de junho e julho, acendiam-se fogueiras para saudarem o verão europeu, até que o catolicismo fundiu as comemorações pagãs ao aniversário de São João dando origem assim às hoje conhecidas festas juninas.
por Marcelo Affini
Antes de Cristo já havia festa de São João... com outro nome. Eram as fogueiras que saudavam a chegada do verão Europeu. Até que, no século VI, o catolicismo associou essas celebrações pagãs ao aniversário de São João. No século XIII, os portugueses passaram a comemorar também as noites de São Pedro e Santo Antonio. No Brasil, as festas são populares desde 1583.

A fogueira de São João nasceu antes de são João. Quando o Vaticano instituiu, no século VI, o dia 24 de junho para a comemoração do nascimento daquele que batizou Cristo, os povos europeus já celebravam, com grandes fogueiras, a chegada do sol e do calor. Em 58 a.C., quando o imperador romano César conquistou a Gália (França), os bárbaros já comemoravam o solstício do verão, no dia 22 ou 23 de junho - o momento em que o Sol pára de afastar-se (solstício vem do latim e significa “sol estático”) e volta a incidir em cheio sobre o hemisfério norte. “Os cultos pagãos eram rituais de abundância e fertilidade”, diz a professora maria Montes, antropóloga da Universidade de São Paulo. “Havia sacrifícios de animais e oferendas de cereais para afastar os demônios da esterilidade, das pestes agrícolas e da estiagem”. O cristianismo, na verdade, apenas “converteu” uma tradição pagã em festa católica.

Até hoje, as tradições pagãs e cristãs convivem. A seita uika, inspirada nos antigos celtas (povo que dominou ooeste da Europa no primeiro milênio antes de Cristo) acende grandes fogueiras ao redor do mundo, no solstício do verão europeu. no Brasil, a Uika promove comemorações místicas, com mais de 500 pessoas, no dia de São João, em São Tomé das Letras (MG) e Mauá (RJ). Na Espanha, as Hogueras de San Juan são uma das tradições mais cultivadas, especialmente na Catalunha.

Em portugal, as comemorações foram ampliadas no século XIII, incluindo o dia de nascimento de Santo Antonio de Pádua (que nasceu em Portugal mas morreu na Itália, no dia 13 de junho de 1195), e o da morte de São Pedro, em 29 de junho. Transportadas para o Brasil colonial, as festas “pegaram” entre índios e escravos. Descrevendo as celebrações católicas “assimiladas” pelos índigenas, o jesuítas Fernão Cardim escreveu em 1583, em seu Tratado da Terra e da Gente do Brasil: “A mais alegre é a das fogueiras de São João, porque suas aldeias ardem em fogo e, para saltarem as fogueiras, não os estorva a roupa, ainda que algumas vezes chamusquem o couro”.

Com a chegada da família real portuguesa, que se transferiu para o Brasil fugindo de Napoleão, na Europa, as festas juninas tomaram novo rumo. Junto com os 15 000 aristocratas que desembarcaram no Rio, em 1808, veio a contradança (originada nas country-dances, bailes camponeses da Normandia e da Inglaterra) que animava as festas da realeza. Era uma dança de casais que trocavam de pares. Não demorou muito, as contradanças saíram dos salões nobres para as festas populares. Casamomentos, batizados, festas juninas, festas de padroeira e muitas outras passaram a ser comemoradas com a dança francesa.

No final do século XIX surgiram formas mais modernas e urbanas de dançar, como a polca, o maxime e lundu, e as quadrilhas foram desbancadas. Entretanto, permaneceram na zona rural, onde a população é mais conservadora. A partir de 1930, quando o nacionalismo de Vargas estimulou a busca de uma identidade cultural brasileira, a vida rural foi revalorizada. Segundo o antropólogo Renato da Silva Queiroz, da USP, “junto com a temática do homem do campo surgiu a dança caipira que nada mais é do que a quadrilha de origem aristocrática com andaptações”.

Hoje, a evolução segue a direção do espetáculo. Segundo o antropólogo Ricardo Lima, da Funarte (Fundação Nacional da Arte), no Rio de Janeiro, há mais de 750 “quadrilhas monumentais “no estado. São grupos de encenação que vestem roupas caríssimas, imitam os trajes das contradanças franceses do século XVIII e aproveitam as quadras de escola de samba para ensaios”, conta Lima. As novas quadrilhas usam, cada vez mais, temas como enredos de carnaval, adotam alegorias e dançam ao som de música sertaneja e música funk. Dentro em pouco, teremos a techno-quadrilha.

Fogos espantam maus espíritos

Bombinha, rojão, morteiro, estalinho, cabeça-de-negro, estrelinha, puff e buscapé - vale tudo. O fósforo de cor é um palito de 10 cm de comprimento revestido com massa de pólvora, óxido de ferro, terra refratária e corantes que depois de aceso, provoca faíscas prateadas ou coloridas.



A trança do pau-de-fitas

Dança em que os pares procuram trançar as fitas presas no alto de um mastro de 4 metros de altura. Homens e mulheres ziguezagueiam em volta do mastro, segurando a fita com a mão direita (eles) e com a esquerda (elas), ao som animado do sanfoneiro.



Jogo de argolas

A idéia é levar para casa os objetos “encestados” pelas argolas. Com o fim da troca direta entre os agricultores surgiram jogos e passatempos nas festas — como a pescaria e o tiro ao alvo — para o entretenimento. E para arrecadar fundos para a Igreja Católica.



Comilança e bebedeira na roça

Milho cozido, pamonha, canjica, cocada, bolo de fubá, pipoca, amendoim torrado e pé-de-moleque fazem a festa. O popular quentão, uma infusão quente e conservada no fogo, de cachaça e água, temperada com gengibre e canela, faz a cabeça. Sai debaixo: a ressaca é braba.



A alma da festa

Para pagãos, a fogueira espanta os maus espíritos; para os cristãos, é um bom presságio. Uma fogueira com 22 metros de altura é feita todo ano em Osasco (SP), com 150 toras de eucalipto, e queima de cima para baixo. Pode durar uma semana, mas os bombeiros apagam antes.



O casório

O casamento é o maior evento social da vida rural brasileira. Reúne as famílias, os amigos, os compadres e os noivos, sob as bençãoes do padre e da igreja. O escritor carioca Martins Pena dedicou-lhe duas peças clássicas: O Casamento na Roça (1840) e Festa de São João (1845).



O balão ia subindo

O Balão surgiu para levar pedidos de graça dos homens para São João. Mas virou crime, em todo o Brasil, em 1965, segundo o artigo 26 do Código Florestal e o artigo 28 da Lei das Contravenções Penais de 1941. Dá cadeia. Eles provocam graves incêndios.



Pau-de-sebo

Tronco de árvore, de 3 a 6 metros de altura, lixado e untado com sebo animal. No topo, são colocadas prendas. Quem conseguir escalar o mastro escorregadio, leva. Na escalada, o principal fator de sucesso é a força das mãos, que desgasta o sebo.



O santos padroeiros

Três padroeiros inspiram a tradições portuguesa e brasileira



São João Batista

Nascido em 24 de junho, primo de Cristo e precursou do Messias.

O catolicismo associou sua tradição à festa pagã da fogueira. Assim, segundo a lenda, Isabel, a mãe de São João, teria anunciado o nascimento do filho à irmã, Maria, mãe de Jesus, acendendo uma fogueira em clima de um morro. A fogueira virou bom presságio. São João foi degolado por ter denunciado o adultério de herodes com a cunhada, Salomé.



São Pedro

Morto em 29 de junho. O primeiro dos apóstolos , segundo o Evangelho. Era considerado um homem de temperamento impulsivo, mas leal, expansivo e generoso. Morreu crucificado sete anos depois de Cristo. Acredita-se que seu corpo foi enterrado exatamente onde hoje se segue a basílica do Vaticano, em Roma. Foi o primeiro papa. É objeto de devoção em Portugal.



Santo Antônio de Pádua

Morreu em 13 de junho, em Pádua, Itália, aos 36 anos. Nasceu em Lisboa, Portugal, em 1195. A tradição popular lhe atribui caráter brincalhão e a fama de ser um milagroso casamenteiro, venerado pelas moças solteiras. É o santo a quem se recorre para achar objetos perdidos. Como santo português, no século XIII foi incorporado às comemorações juninas em Portugal e trazido pelos colonos para o Brasil.

Revista Superinteressante