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sexta-feira, 21 de março de 2014

Escrevendo a história

Estudiosos concluem dicionário da língua mesopotâmica, que ficou 2 mil anos sem ser falada, e reavivam interesse pelos primórdios da escrita


Inscrição com trecho do poema épico Gilgamesh: escrita cuneiforme registrou as primeiras manifestações literárias da humanidade


Para quem achava que a Mesopotâmia estava restrita às aulas de história e aos enredos de escolas de samba, o antigo território ganhou destaque mês passado por uma razão linguística. Após noventa anos, acadêmicos da Universidade de Chicago (EUA) concluíram um dicionário de 21 volumes sobre a língua mesopotâmica e seus dialetos babilônicos e assírios.

Trata-se da língua usada por Sargão da Acádia, em 24 a.C., para comandar o primeiro império do mundo e empregada por Hamurabi, em 1700 a.C., para proclamar as primeiras leis conhecidas pela humanidade. Com ela foi composta Gilgamesh, a primeira obra da literatura, criada na metade do terceiro milênio a.C. (compilada em 7 a.C.). Narra a epopeia do rei semilendário da cidade de Uruk, em 12 tabuletas achadas na biblioteca do rei assírio Assurbanípal, em Nínive.

O dicionário abre perspectivas ao estudo da escrita cuneiforme, inventada pelos sumérios no 4º milênio a.C., entre os rios Tigre e Eufrates, onde hoje é o Iraque, estendendo-se a partes da Síria. É o primeiro sistema de escrita de que se tem notícia. A palavra "mesopotâmia", no entanto, vem do grego meso ("entre") e potamia ("rios").

Evolução
A obra conta com 28 mil palavras, que recobrem de 2500 a.C. a 100 d.C., seguindo as nuances de significado de cada termo. Por essa razão, assemelha-se mais a uma enciclopédia do que a um dicionário propriamente, pois suas definições trabalham com múltiplas acepções, abrangendo áreas tão diversas quanto a religião, o comércio e a literatura. Embora umu designe "dia", por exemplo, foram necessárias 17 páginas para explicá-la. Ardu (escravo) implica todo o universo relacionado ao trabalho da época, exigindo extensas considerações de ordem histórica e sociológica; e o versátil verbo kalu tem acepções que variam com o contexto, como "deter", "demorar", "manter em custódia", "interromper".

A notícia indica a união de forças da arqueologia e da linguística para entender-se o surgimento e a evolução da escrita, tema de encanto e curiosidade, como mostra Josué Machado, consultor e colunista de Língua, nas páginas que seguem.

A evolução da escrita

8000 - 4000 a.C.
Símbolos, sinais, pictogramas mesopotâmicos
3700 a.C. Sistema fonético sumério
3500 a.C. Hieróglifos egípcios e escrita cuneiforme
2200 a.C. Alfabeto consonantal
1200 a.C. Alfabeto fenício
1000 a.C. Alfabeto grego
600 a.C. Latim
700 d.C.
Alfabetos europeus ocidentais


Do desenho à escrita

Josué Machado

O homem encontra a mulher, longe da tribo. São jovens. Ele emite grunhidos. Ela grita e ameaça correr. Estamos há 29 mil anos, no atual Parque Nacional da Capivara, Piauí. É o início do paleolítico superior. Um bom dia para o bípede. Antes, tinha devorado um naco de carne crua de tatu. Não precisara comer apenas frutas, larvas e minhocas.

Saciados, rabiscam a rocha. Reproduzem cenas domésticas, bichos de que fugiam ou perseguiam, as delícias da carne. Nítidas, coloridas, são gravuras parietais (em paredes) - de cavernas, mais conservadas; ou rupestres (de rocha), ao ar livre, dadas a intempéries. As de Lascaux (França) têm 20 mil anos. As de Altamira (Espanha), "só" 11 mil. Bem mais novas do que as do Piauí. Conclui-se, sem originalidade, que a forma de expressão na infância da humanidade foi o desenho, como em geral ocorre na infância do homem. Foram os desenhos que precederam as primeiras formas de escrita, entre 5 e 6 milênios passados, na Idade do Bronze.

Muitos nascimentos

A escrita se desenvolveu da necessidade de o homem reter informação impossível de guardar na memória. E de comunicar-se a distâncias que ultrapassam o alcance da voz. Surgiu provavelmente em mais de um lugar mais ou menos ao mesmo tempo - entre dezenas ou centenas de anos. Prazo desprezível, considerando que a escrita hieroglífica egípcia e a cuneiforme suméria perduraram por 3 mil anos. E dessas são os primeiros vestígios encontrados, embora se reconheça que houve ao menos outros nascedouros da escrita: um entre os maias e outro no Vale do rio Indo, atual divisa entre Índia e Paquistão, que data, no mínimo de 2500 a.C. Trata-se de um sistema de escrita ainda não inteiramente decifrado: as pesquisas das inscrições em Mohenjo-Daro e Harapa são recentes.

O berço egípcio

Os hieróglifos (que significa "entalhes sagrados") surgiram há 5.250 anos, segundo os egiptólogos John Colleman Darnell, da Universidade de Yale (EUA), e sua mulher, Deborah. Eles encontraram o que supõem ser os mais antigos exemplares de escrita até o momento. São proto-hieróglifos gravados numa placa de argila descoberta em 1995 a oeste do rio Nilo. A placa registra a vitória de um poderoso monarca, provavelmente o lendário rei Escorpião, que teria desempenhado papel importante na unificação do Egito.

Contemporânea da cuneiforme, a escrita hieroglífica foi a que se manteve em uso por mais tempo. Há gravações de hieróglifos feitas em 394 a.C. Também formados por sinais pictográficos, aos poucos foram deixando de registrar diferentes tipos de textos para ser usados só para expressar sentimentos religiosos.

No entanto, é possível que tanto egípcios quanto sumérios tenham usado a escrita antes disso, mas em material perecível, como madeira, de que não ficaram vestígios. Rolos de papiro com inscrições, embora perecíveis, conservaram-se em tumbas por causa do clima seco do Egito.

A escrita cuneiforme

A escrita cuneiforme surgiu há mais de 5 milênios na Mesopotâmia, criada pelos culturalmente adiantados sumérios. Sua ideografia evoluiu para a escrita mais tarde usada pelos acádios, assírios, babilônios e outros povos.

"Cuneiforme" pois seus caracteres têm forma de cunha (latim cuneus). Eram gravados em placas de argila úmida com a extremidade de junco ou cabo de madeira e, depois, cozidas. Como os sumérios não haviam formado império, mas viviam em cidades-Estado em guerra entre si, eram fracos militarmente. Por isso, os agressivos babilônios os dominaram e lhes assimilaram a cultura.

Saltos evolutivos

Há autores que consideram a transição da escrita ideográfica para a escrita fonética uma das maiores realizações da humanidade. Basta lembrar que na escrita ideográfica os muitíssimos símbolos correspondem a objetos, a coisas, e na escrita fonética, a sons, com possibilidades infinitas; na escrita ideográfica, era preciso criar cada vez mais sinais para corresponder ao número crescente de novidades, enquanto a fonética atende com precisão e permanentemente às exigências do pensamento em evolução - um passo fundamental para o progresso do homem.

As pequenas tábuas de argila achadas nas ruínas de cidades sumérias de Ur e Uruk exibem os sinais pictográficos característicos: o sinal correspondente a um boi, por exemplo, assemelha-se à cabeça de um animal, e o que representa o dia é o desenho do nascer do sol. A maior parte delas se refere a registros econômicos.

Por isso, é quase certo que tais registros tenham sido criados pela necessidade de controlar a mercadoria que entrava no palácio real e no templo e deles saía. Eram as duas mais importantes instituições da época. Poder e religião. Mais ou menos como agora.

Mas a escrita evoluiu. Aos poucos, foi deixando de representar a realidade para se tornar mais e mais abstrata. As ideias passaram a ser expressas por traços, e não mais por desenhos e ideogramas.

O alfabeto fenício

Foi em torno dos séculos 12 ou 13 a.C. que os fenícios, comerciantes profissionais, criaram as bases do alfabeto. A Fenícia ocupava a margem oriental do Mediterrâneo oriental e as montanhas do atual Líbano. Seus habitantes haviam assimilado as culturas egípcia e mesopotâmica e se movimentavam com desenvoltura pelo Mediterrâneo.

Como os fenícios precisavam de um sistema simples de escrita para suas atividades, transformaram os ideogramas egípcios e sumérios em símbolos simplificados. Era um alfabeto consonantal (sem a representação de vogais) que, aparentemente, originou as escritas aramaica e hebraica. E foi a fonte usada pelos gregos, em 750 a.C., para criar o alfabeto fonético ocidental, com sinais para consoantes e vogais. Em seguida, os romanos o adaptaram para o latim.

O marco maia

Enquanto os fenícios criavam as bases do alfabeto atual, no século 12 ou 13 a.C., a civilização maia florescia no México e na América Central, também com seus ideogramas como forma de expressão escrita. A cidade maia de Atlan, destruída por um terremoto em 666, guardava 2.156 tabuletas de ouro com suas leis, o chamado Código Maia de Desdre. Parte dessas tábuas foram descobertas nesta década por pesquisadores alemães, na Guatemala. São provavelmente as amostras mais antigas de escrita na América.

Revista Língua Portuguesa

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A história das letras

Descubra como surgiu o alfabeto, que permite escrever em todas as línguas do mundo!



Já imaginou um carteiro carregado de tabletes de barro, madeira e pedra, distribuindo essas encomendas pelas cidades? Há cerca de 5 mil anos talvez essa cena não seria tão estranha. Em vez de papel, as pessoas escreviam em pedaços de barro e outros materiais. A escrita também era bem diferente da atual, feita com desenhos. Para quem não sabia desenhar era um verdadeiro abacaxi.

A escrita foi inventada na Suméria, um país que existia onde hoje estão o Irã e o Iraque, numa região chamada Mesopotâmia, que significa “entre rios”. Os rios são o Tigre e o Eufrates. Naquela época, cerca de 5 mil anos atrás, a escrita começou a ser feita em pequenas almofadas de barro. Mais tarde, usou-se também madeira, metal e pedra para escrever. A idéia pegou e, assim, surgiram maneiras diferentes de escrever em vários pontos do mundo, de acordo com a língua falada em cada região.

No começo, a escrita era feita com o desenho das coisas. Por exemplo: se a palavra era “casa”, fazia-se o desenho de uma casa. Mas logo vieram as dificuldades. Como escrever o nome de uma pessoa? Não bastava fazer o desenho de um homem ou de uma mulher! Então começaram-se a combinar os símbolos. Desse modo, para escrever algo sobre alguém chamado Coelho, bastava desenhar um homem e um coelho. Mas isso também nem sempre funcionava bem. Como a gente poderia representar alguém chamado Henrique? Para resolver esse tipo de problema, passou-se a escrever os sons das palavras e não mais as idéias. Para escrever “irmão”, desenhavam-se as pernas andando (ir) e uma mão. Um soldado era representado por um sol junto com um dado.


Ainda assim as dificuldades apareciam. Surgiu, então, uma maneira de escrever na qual eram observados os sons da fala. Se a gente espichar a fala devagar, ao dizer cavalo, por exemplo, alguns sons chamados “vogais” ficam destacados: caaa + vaaa + looo. Se a gente presta atenção nos movimentos da boca, os sons chamados “consoantes” se sobressaem: ccca + vvva + lllo. Juntando os dois tipos de sons, temos umas unidades chamadas sílabas: ca + va + lo. Assim, os símbolos da escrita passaram a ser as sílabas ou as vogais e as consoantes separadamente, conforme a língua. Esse tipo de escrita que representa separadamente as vogais e as consoantes, ou seja, cada letra, é chamado alfabeto, que se mostrou tão interessante, útil e prático que hoje em dia todas as línguas do mundo podem ser escritas com esse sistema.
Revista Ciência Hoje para Crianças

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A História e a escrita


Por convenção a História inicia-se com o advento da escrita que surge, primeiramente, no Oriente Próximo a cerca de 3.000 a.C. (antes de Cristo).

Esse processo, porém, não ocorre de forma concomitante (ao mesmo tempo) em todo o mundo. Segundo os dados atuais, a escrita teria sido inventada de forma independente em três regiões. Ela surge pela primeira vez entre os sumérios, a cerca de 3.000 a.C. (5.000 ap.) na Mesopotâmia. Posteriormente, em torno de 1.500 a.C., há o surgimento da escrita na China e a cerca de 300 a.C. na Mesoamérica.
A escrita não surge, de repente, do nada. Ela é o resultado do conhecimento acumulado ao longo de milhares de anos pelas sociedades sendo exercitada através, de desenhos e sinais gravados ou pintados nas pedras. Estes símbolos, porém, ainda não se constituíam em um sistema de escrita.

O que se sabe, hoje, é que entre os Sumérios a escrita vai surgir a partir da necessidade de se registrar os bens materiais e as transações comerciais dos templos administrados pelos sacerdotes. A escrita era essencial para a contabilidade do templo. Deveriam ser registrados, por exemplo, quantas ovelhas foram fornecidas a um pastor ou quantos jarros de sementes haviam sido entregues. Esta contabilidade era feita em tabuinhas de argila onde eram traçados caracteres (figuras ou sinais como um jarro, uma cabeça de touro, triângulos) e números.
No início, o desenho de um jarro significava um jarro, porém, estas figuras (ou pictogramas) vão sofrendo alterações ao longo do tempo e se transformam. Os sinais vão sendo simplificados e abreviados e já não podem mais ser reconhecidos como a imagem de um objeto específico. A figura que representa um jarro, por exemplo, já não tem mais semelhança com o desenho de um jarro. Os sinais vão adquirindo significados mais amplos, transformando-se em ideogramas e sendo usados para representar sons (fonogramas), idéias e coisas.
Essas tabuinhas com inscrições são encontradas em diferentes localidades como em Erech, na Suméria e em Jemdet Nasr, em Acade, reforçando a idéia de padronização dos sinais e sugerindo o intercâmbio de conhecimentos.
A escrita deixa de ser apenas uma convenção restrita a um grupo de sacerdotes ela tem que ser ensinada e aprendida, tornando-se um sistema aceito pela sociedade sumeriana como um todo. Surgem então pessoas que têm como função, fazer esse trabalho de anotação e que têm que conhecer o sistema de escrita, são conhecidos como escribas (podemos dizer que são os primeiros funcionários públicos, exercendo funções burocráticas).
Assim, a escrita pictográfica sumeriana do período Uruk, foi reduzida a formas angulares mais conveniente para imprimir nas tabuinhas de argila úmida com o auxílio de um pequeno junco. A escrita cuneiforme, como denominada, foi desenvolvida originariamente para escrever a língua suméria, sendo porém adotada por outros povos como os Acadianos, Eblaitas, Elamitas, Hititas, etc.
Há regiões em que a escrita é introduzida por outros povos e em períodos muito mais recentes como no Brasil em 1.500 A.D. (depois de Cristo) ou na Austrália por volta de 1.788 A.D. Este período em que povos com escrita escrevem sobre povos sem escrita é conhecido como proto-história. São os dominantes, contando a História dos dominados.
http://www.arqueologia.arq.br

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A história e a evolução do alfabeto na linguagem

Uma das maiores contribuições dos romanos para o mundo ocidental foi o alfabeto latino. Ainda que adaptado para as várias e diferentes línguas do mundo, o alfabeto latino conquistou um território nunca antes imaginado pelos romanos e hoje é utilizado até por idiomas que não possuem nenhuma ligação com o latim, como o turco e o chinês. Mas de onde ele veio? Como surgiu? Conheça um pouco mais sobre
Francisco Edmar Cialdine Arruda*


Uma das maiores contribuições dos romanos para o mundo ocidental foi o alfabeto latino. Ainda que adaptado para as várias e diferentes línguas do mundo, o alfabeto latino conquistou um território nunca antes imaginado pelos romanos e hoje é utilizado até por idiomas que não possuem nenhuma ligação com o latim, como o turco e o chinês. Mas de onde ele veio? Como surgiu? Conheça um pouco mais sobre
Francisco Edmar Cialdine Arruda*

O alfabeto é uma forma de registrar uma língua cujos caracteres (as letras) procuram corresponder a um respectivo fonema. Mas essa correspondência não é perfeita. Em português, por exemplo, temos letras que podem representar fonemas diferentes, como a letra "x" (exemplo, enxame, próximo); letras que representam mais de um fonema ao mesmo tempo: novamente o "x" (táxi - "táksi"); fonemas que são representados por várias letras: rosa ("z"), zebra ("z"), exame ("z"); isso sem falar dos dígrafos.
A escrita alfabética se opõe a outras formas de escrita, como a ideográfica (saiba mais no quadro Outras formas de escrita), usada em vários países do extremo oriente, e a outras formas menos comuns. Ademais, existem outros alfabetos além do alfabeto latino como, por exemplo, o alfabeto grego e o cirílico latino como, por exemplo, o alfabeto grego e o cirílico .

cirílico
O alfabeto cirílico foi criado no século IX por missionários cristãos (em especial São Cirilo), a partir da combinação de letras gregas e hebraicas, dentre outras. É utilizado principalmente nas línguas eslavas, como o russo. Originalmente, possuía 43 letras, mas muitas foram re- tiradas por serem consideradas supérfluas - o russo moderno, por exemplo, tem 32 letras. A Romênia, apesar de ser um país de língua neolatina, usou o alfabeto cirílico por muito tempo - apenas no século XVIII adotou o modelo latino.

ORIGENS DISTANTES
A história de nosso alfabeto remonta à metade do segundo milênio antes de Cristo e a um povo de origem semita, os fenícios. Esse povo se caracterizava por uma cultura comercial marítima muito forte e chegou a formar colônias por todo Mediterrâneo, inclusive na península Ibérica, o ponto mais ocidental da Europa. Com o objetivo de facilitar a comunicação e, consequentemente, o comércio, surgiram, na cidade fenícia de Biblos, as primeiras manifestações escritas que acabariam por formar o alfabeto fenício, que se espalhou Mediterrâneo afora. A língua fenícia era representada por 22 sinais gráficos - apenas consoantes, já que a língua era de origem semita e, portanto, as vogais eram inferidas pelo contexto. Seria como se escrevêssemos "Brsl" no lugar de "Brasil".
Com a divulgação desse alfabeto, os gregos se apropriaram dele e o adaptaram para sua língua. Tal processo foi lento. Acredita-se que, no final do século V a.C., a cidade de Atenas, grande centro cultural da civilização grega, oficializou a adoção da escrita alfabética. A grande mudança que os gregos fizeram foi a inserção das vogais. Para isso, eles excluíram alguns caracteres usados para sons guturais (produzidos no fundo da garganta), que não existiam na língua grega, e aproveitaram para representar os fonemas vocálicos. De igual modo, os gregos criaram símbolos para representarem os fonemas aspirados que não existiam na língua dos fenícios. Com isso, chegamos ao alfabeto grego tal o conhecemos ainda hoje - a única diferença de lá para cá é a pronúncia de algumas letras.
etruscos
A Etrúria era uma região que ficava ao norte do Lácio, onde hoje está localizada a Toscana. Pouco se sabe sobre o povo que viveu lá (os etruscos) e sua língua não foi decifrada, apesar de fazer uso de um alfabeto próximo do adotado nas colônias gregas ocidentais (que era um pouco diferente do grego clássico de Atenas). Durante a Monarquia (período que antecedeu a República), eles chegaram a dominar os romanos, os quais influenciaram em inúmeros aspectos.

DO GREGO AO LATINO (VIA ETRUSCOS?
Aqui é que os latinos entram na história. No entanto, a grande polêmica é: sabemos que o alfabeto latino se desenvolveu a partir do grego - aliás, o latim arcaico era muito parecido com o grego antigo -, porém não se sabe se esse desenvolvimento foi direto ou se foi intermediado pelos etruscos. De fato, os etruscos deixaram muitas marcas culturais nos latinos, principalmente durante os primeiros séculos da civilização romana, razão pela qual não seria de estranhar que os romanos usassem um alfabeto baseado no etrusco. Os primeiros escritos revelavam que os romanos, inicialmente, escreviam utilizando apenas letras maiúsculas (chamadas de "Capitalis quadrata", ou escrita monumental). Essa escrita era mais utilizada em documentos oficiais. Também era comum não haver espaço entre as palavras nem pontuação e não possuir uma ordem certa: podia-se escrever da esquerda para a direita e vice-versa ou, ainda, alternando escrever da esquerda para a direita e viceversa ou, ainda, alternando . Com o tempo, a literatura se desenvolveu e, consequentemente, a escrita foi ganhando o formato que conhecemos hoje nas aulas de latim. Surgiram a escrita cursiva (utilizada no dia a dia) e a escrita uncial.
No período clássico (século I a.C.), o alfabeto já estava em vias de consolidar-se com suas 21 letras originais (A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, V, X) e as letras gregas (Y, Z) usadas em palavras dessa origem. Esse alfabeto chegou até nossos dias com pouquíssimas alterações (algumas para se adequar às necessidades fonético-fonológicas de cada língua).
alternando
A chamada escrita "bustrofédon" (do grego "bous", boi; "strophé", virar) tinha esse nome porque sua forma de escrever, alternando a ordem a cada linha, lembrava o ato de arar a terra com um boi: seguiase, por exemplo, da esquerda à direita e, ao final, quando seguia para a próxima linha, mudava-se, da direita para a esquerda e assim sucessivamente em ziguezague. Muitas línguas arcaicas utilizavam essa ordem ao escrever.

PARTICULARIDADES
Houve duas modificações no alfabeto dignas de nota. A primeira ocorreu no período do imperador Cláudio (41 a 54 d.C.). Conhecido por sua erudição, ele propôs o acréscimo de três letras: ╛ (para representar o som "u" consoante),├ (para representar o som "ps") e (para representar um som intermediário entre "i" e "u"). Porém, após a morte do imperador, tais letras foram abolidas.
A outra reforma, datada da Renascença, veio do erudito Petrus Ramus e acrescentou as letras J e V. Vamos às explicações: os romanos não conheciam os fonemas "j" (de jato) nem "v" (de vida). Como consequência essas letras não existiam. Por outro lado, a letra I representava tanto uma vogal quando uma consoante, ambas pronunciadas da mesma forma, sendo que o I consoante equivale ao nosso "i" semivogal. De igual modo, a letra V, escrita cursivamente como u, representava tanto a vogal quanto a consoante (também equivalente ao nosso "u" semivogal). A partir de Ramus, o "u" vogal passou a ser representado por U/ u e o "u" consoante, V/v; assim como o "i" vogal, I/i e o "i" consoante, J/j. Apenas com o tempo foi que surgiram os fonemas "v" e "j".
Outras particularidades que podemos ressaltar: a letra K, usada sempre antes de A, e a letra Q, usada antes de O e U, foram caindo em desuso, sendo substituídas por C na maioria das palavras. Essa letra servia tanto para o fonema "c" (de carro) quanto para "g" (de gato). Com o tempo acrescentou-se um traço na parte inferior da letra para diferenciar os dois fonemas e assim surgiu a letra G. Já a letra S surgiu para representar um fonema surdo (o "s" de sapo), mas que, no século IV a. C., sonorizou-se entre vogais (tal qual o "s" de rosa), porém, posteriormente voltou a ser apenas surdo. No período pré-clássico, a letra F era escrita sempre FH, mas com tempo simplificou-se; Além disso, as letras gregas usadas para fonemas aspirados foram, por um tempo, usadas como números (saiba mais no quadro "Os números latinos"), já que esses fonemas não existiam em latim.

POR FIM (FIM)
É claro que muito há que ser dito ainda sobre o tema. Nada mencionamos sobre a polêmica existente entre as várias pronúncias latinas; também mereciam algumas linhas as adaptações como o surgimento do Ç, Ñ, dentre outras letras. Mas deixaremos essas questões a cargo da curiosidade do leitor em pesquisar sobre o tema. Recomendamos a leitura de História concisa da escrita, de Charles Higounet (editora Parábola), como pontapé inicial , bem como História da escrita de Steven Roger Fischer (editora da Unesp) - e, claro, sempre estaremos disponíveis a ajudar os curiosos a descobrir respostas...

ALFABETOS ANTIGOS
A título de ilustração, abaixo um quadro comparativo entre alguns alfabetos antigos. Na sequência temos hieróglifos egípcios, fenício antigo, hebraico antigo, moabita, grego antigo, grego oriental, grego ocidental, grego clássico, etrusco antigo, etrusco clássico, latim antigo, latim antigo monumental e latim clássico.
OUTRAS FORMAS DE ESCRITA
É interessante saber que o homem sempre possuiu formas diferentes para registrar uma língua - algumas desapareceram com tempo, outras per- manecem. Não é adequado dizer que a escrita "evoluiu", sob pena de afirmar que as formas de escrita hoje são melhores que as antigas. As línguas do Oriente Médio, por exemplo, possuem a forma de escrever muito mais antiga que o alfabeto latino - e nem por isso são inferiores (ou superiores). O fato é que a forma de escrita de um povo sempre será suficiente para suas ne- cessidades linguísticas; caso contrário, o próprio povo, às vezes consciente, outras inconscientemente, adapta a escrita para as necessidades existentes. Dentre as outras formas de escrita podemos destacar:


ABJAD: um tipo de alfabeto só de consoantes. Nessa forma de escrita, as vogais são inferidas pelo contexto ou sinais diacríticos. As línguas semíticas (do Oriente Médio), como o hebrai- co, o árabe e o próprio fenício, são exemplos de línguas que usam abjad. Acima exemplos de letras do alfabeto hebraico.


ABUGIDA: uma forma de escrita em que o caractere representa uma consoante e uma vogal previamen- te unida a ela, de modo que as de- mais vogais são representadas por sinais diacríticos. A língua hindu e seu alfabeto devanagári, acima, é um exemplo:

IDEOGRAMA: é um tipo de escrita antiga e que existe ainda hoje. Os hieróglifos egípcios, os kanji do japonês e chinês são exemplos desse tipo de escrita. Abaixo alguns hieróglifos:


PICTOGRAMAS: os pictogramas foram as primeiras tentativas de manifestação escrita do homem. Na verdade, os pictogramas estão entre a escrita e o desenho. As primeiras inscrições nas cavernas foram pictográficas:

NÚMEROS LATINOS
Existe uma crença sobre os números latinos serem derivados da inicial do nome do número (C para centum, "cem"; M para mille, "mil"). No entanto, como explicar V (5), X (10), L (50) e D (500)?
O fato era que os antigos pastores marcavam com um traço para contar cada cabeça do rebanho. Mas, como a percepção humana não ultrapassa quatro unidades diferentes, a quinta marca foi concebida de forma diferente (V) e a décima, seu dobro (X não passaria de dois V, um sobre o outro). Já L, C, D, M são originados a partir de letras gre- gas que foram se modificando com o uso: psi (Ψ) para L, teta (Θ) para C e phi (Φ) para M. Acredita-se que D seria, na verdade, a metade direita de phi (Φ). É importante dizer que os romanos não conheciam o numeral zero e que os números, inicialmente, se faziam repetindo as letras. Com o tempo passou-se a utilizar um sistema de subtração que tornou a numeração mais prática, isto é, em vez de LXXXX para 90, usa-se XC (100-10). Ainda hoje é possível ver essa numeração romana utilizada em inscrições de monumentos, principalmente religiosos.

*Professor da Universidade Regional do Cariri, mestre em Linguística aplicada pela Universidade Estadual do Ceará e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Lexicografia, Terminologia e Ensino (LETENS), atuando principalmente com os temas Terminologia, Lexicografia, Surdez, Multimodalidade e Estudos clássicos. Contato: ed0904@gmail.com

Revista Língua Portuguesa

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Até o século IV escrita era uma bagunça

Página de uma Bíblia escrita em aramaico, livro sagrado que contém os ensinamentos de Jesus.

Como surgiram os principais sinais de pontuação?

Foi um alívio. Até o século IV os textos eram escritos sem pontuação. “Tinham que ser interpretados”, conta o lingüista Flávio Di Giorgi, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Não era fácil. No Oráculo de Delfos (século VII a.C.), um dos lugares da Antigüidade em que se faziam profecias consideradas divinas, ainda está escrito (em grego): “Ides voltarás não morrerás na guerra.” Quem lê entende que irá para a guerra e voltará a salvo. Era o contrário. Na verdade, queria dizer, se as vírgulas existissem: “ides, voltarás não (o “não” vem depois do verbo), morrerás na guerra.” Ou seja, vais morrer.
Os primeiros sinais de pontuação surgiram no início do Império Bizantino (330 a 1453). Mas sua função era diferente das atuais. O que hoje é o ponto final servia para separar uma palavra da outra. Os espaço brancos entre palavras só apareceram no século VII, na Europa. Foi quando o ponto passou a finalizar a frase. O ponto de interrogação é uma invenção italiana, do século XIV. O de exclamação surgiu no século XIV. Os gráficos italianos também inventaram a vírgula e o ponto e vírgula no século XV (este último era usado pelos antigos gregos, muito antes disso, como sinal de interrogação). Os dois pontos surgiram no século XVI. O mais tardio foi a aspa, que surgiu no século XVII. Tudo foi ficando mais claro com o aumento da importância da escrita.

Revista Superinteressante