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segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Armênia e o Império Otomano


Renata de Figueiredo Summa


A Armênia e o Império Otomano


“E, no sétimo mês, no vigésimo sétimo dia do mês, parou a arca de Noé sobre os montes da Armênia”. (Gen.8, 4)

Olho: Segundo a tradição, eles são filhos de Noé, o monte onde pousou a arca é o Ararat e a região é considerada o berço da humanidade.
Para o povo armênio, a história bíblica de Noé, que construiu uma arca a mando de Deus para salvar a raça humana, faz parte da criação da Armênia. Segundo a tradição, eles são filhos de Noé, o monte onde pousou a arca é o Ararat e a região é considerada o berço da humanidade.
Para os historiadores e arqueólogos, a história desse povo tem início antes do ano 552 a.C., primeira vez em que o nome “Armênia” aparece registrado em documentos históricos.4
Ela é uma síntese da história européia e das antigas civilizações orientais. Em três milênios de existência, sempre habitaram aos pés do monte Ararat, uma região localizada entre o Oriente e o Ocidente, cenário de muitas guerras, conquistas e disputas imperiais. Situada no planalto montanhoso entre a Anatólia (hoje Turquia oriental) e o Irã, a região já foi conquistada pelos persas, romanos e árabes, e sofreu influências dos hurritas, assírios, cimerianos, frígios, citas, medos e mesmo dos persas.O povo armênio é, portanto, oriundo da mistura de todos esses povos e dos autóctones uratianos.5
Coadjuvantes da história, os armênios sempre estiveram no meio de grandes acontecimentos que, quando estudados na escola, sempre são atribuídos a outros povos. Estabeleceram laços com a cultura helênica, e o contato com os persas e os árabes criou uma forte mistura entre a cultura ocidental e oriental, que até hoje é característica dos armênios. Conquistaram a Mesopotâmia, Síria, Palestina, Cilícia e Capadócia em 95 a.C. Foi preciso o envio de Pompeu, por parte dos romanos, para que estes conquistassem de volta os territórios perdidos. Participaram das cruzadas ao lado dos cristãos europeus.
Mas a maior conquista desse povo foi ter conseguido preservar sua cultura, língua e identidade mesmo em meio a tantas invasões e ocupações de seus territórios.

Religião e língua

O maior fator de agregação do povo armênio durante os séculos foi a Igreja Apostólica Armênia, que se manteve independente das outras igrejas cristãs, assegurando assim a manutenção da cultura do seu povo e do alfabeto armênio, criado no século IV d.C por Mesrop, posteriormente à conversão dos armênios ao cristianismo.
Já em 301, os armênios adotaram essa religião, tornando-se o primeiro reino oficialmente cristão do mundo. Os Patriarcas da Igreja Armênia eram quem, ao longo do tempo, faziam as negociações políticas com os Impérios que circundavam o território armênio. E, durante o período em que eles estavam submetidos às ordens do Império Otomano (ou Império Turco-Otomano), eram eles os chefes do millet armênio - comunidades criadas com critérios étnicos e religiosos, responsáveis pela gestão de seus assuntos internos – e possuíam um papel fundamental na garantia dos direitos da comunidade.
Foi essa organização e relativa independência que possibilitou a sobrevivência da cultura armênia e a manutenção do cristianismo, em uma região dominada sobretudo pelos muçulmanos.
Nem no período em que a Armênia se transformou em uma República Soviética conseguiram impedir que a Igreja funcionasse e continuasse a exercer esse papel de protetora da identidade do povo.
Dessa forma, a Igreja para os armênios não só representa o aspecto religioso. Ela representa também a sobrevivência política de toda uma nação. Ela não representa apenas a proteção espiritual, ela representa também a segurança física, efetiva. Ela representou, por séculos, o Estado que a nação armênia só formaria pela primeira vez em 1918.

Os armênios no Império Otomano
No século XI, ocorreu a primeira invasão do território armênio pelos turcos seldjúcidas, o que levou o povo armênio, pouco a pouco, a se mudar para a província bizantina da Cilícia, onde já havia colônias armênias.
De 1080 a 1375, a região vive um período de independência, liberdade e prosperidade.
Nessa época, aquele território ficou conhecido como Nova Armênia, Pequena Armênia ou Armênia Ciliciana. Apesar do fim como nação independente, a população armênia dessa região lá permanecerá e viverá pelos séculos seguintes, cultivando a cultura e as tradições.
Será apenas no início do século XVI, mais de cinqüenta anos após a tomada de Constantinopla por Mehmed II em 1453, que a região conhecida como Armênia será invadida pelos turcos otomanos e integrada ao Império Otomano (ou Império Turco-Otomano).
Os armênios, tendo sido submetidos aos otomanos, tiveram que se adaptar a algumas novas regras. Como em toda teocracia islâmica, o Estado otomano estabelece entre os muçulmanos e não-muçulmanos uma discriminação sancionada pela lei e pelo imposto.
Aos integrantes das minorias não-muçulmanas era atribuído o status de zhimmis, que concordava em manter a ordem e pagar tributos em troca de proteção.6 Um zhimmi não possui a mesma representatividade que um muçulmano perante a lei. Além disso, os impostos cobrados dos zhimmis eram muito mais altos do que os cobrados dos muçulmanos. Essa é uma das razões pelas quais o censo oficial otomano e o censo do patriarcado armênio obtinham resultados bastante diferentes, como veremos mais à frente.
Não se pode ocultar o fato, porém, de que, em última análise, o regime reduzia todos os súditos não muçulmanos a cidadãos inferiorizados civil e juridicamente, visto que sujeitos a interdições legais e a obrigações fiscais decorrentes de sua condição de guiavur (infiel).7
Esse regime discriminatório foi, em certos períodos, relativamente leve e até inexistente. Nesses momentos, a comunidade armênia gozava de respeitável liberdade política. Em outros períodos, os zhimmis eram perseguidos. Foi assim durante o período em que Abdul-Hamid governou o Império, iniciado em 1876, quando os armênios começaram a ser massacrados.
Um pouco antes da chegada de Abdul-Hamid ao poder, o sultão Abdul-Medjiid havia feito reformas nacionais – conhecidas como tanzimat - em 1839, estabelecendo os mesmos direitos para todos, sem distinção de raça nem religião.
É preciso buscar nessa lei a origem da formação de movimentos nacionais emancipacionistas em todo o Império Otomano. Com os armênios não foi diferente. A elite intelectual armênia começou a se organizar, a partir do século XIX, com a certeza de que havia chegado a hora de se tornar um estado independente.
A formação de uma comunidade armênia na Rússia bastante independente, e o conseqüente renascimento cultural provocado por ela, ajudaram a despertar a consciência nacional armênia.
É esse o cenário encontrado por Abdul-Hamid quando da sua chegada ao poder.

Os massacres hamidianos
A sucessão de episódios que ficaram conhecidos como massacres hamidianos foi apenas uma amostra do que o Império Otomano podia fazer com as minorias. Durante o governo do sultão Abdul-Hamid, inúmeros massacres ocorreram, mas o apogeu dessa situação se deu em 1895, ano que ficou marcado pela morte de 300 mil armênios.
O governo atacava a população armênia sem motivo. Em todos esses casos ocorridos em 1895, com exceção de um, não houve uma ação violenta por parte dos armênios, que pudesse justificar uma represália do Império Otomano. A comunidade armênia não foi quem incitou a violência.
As causas dos massacres eram claras: Abdul-Hamid sabia que uma eventual tentativa de revolução por parte dos armênios do Império Otomano poderia significar a intervenção dos russos, que tinham interesses nos territórios ocupados pelos armênios.
Por isso, Hamid resolveu que ia acabar com a questão armênia, massacrando não só insurgentes como civis.
Para alguns pesquisadores do assunto, como Antônio Henrique Campolina Martins, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, esse foi o início do genocídio armênio. Em seu artigo “Armênia, um povo em luta pela liberdade: o mais longo genocídio da história”, Campolina argumenta que este foi o genocídio mais longo da história, pois começou em 1878, com o início da questão armênia, passou pelo grande massacre de 1895, foi prolongado pela traição dos Jovens Turcos entre 1905-1907, atingiu o seu ponto mais crítico em 1915, com as deportações e os massacres organizados pelos Jovens Turcos, e só terminou entre 1921-1923, quando não só os armênios como os gregos foram vítimas dos turcos.8 Vahakn Dadrian, um dos maiores especialistas em história do genocídio armênio, considera que eles foram vítimas de diversos genocídios: em 1895-1896, 1909, 1915, 1922 e mesmo 1920, quando as tropas kemalistas tentaram invadir a Armênia com a intenção de aniquilar a população.9
Para outros, como por exemplo, Yves Ternon, em seu livro “Les Arméniens”, na edição de 1996 (na primeira edição, de 1977, ele havia dito o contrário), os massacres hamidianos não podem ser considerados genocídio, pois não tinham como princípio a aniquilação do povo armênio. Para Ternon, o sultão quis punir os armênios e dissuadilos de tentar chamar a atenção das potências européias para intervir no Império. Ele temia que as potências pudessem ajudar os armênios a conseguir a independência, que começava a ser desejada por alguns movimentos revolucionários armênios ainda em gestação.
Por isso, qualificar de genocídio os acontecimentos de 1985 é enfraquecer o conceito, banalizá-lo. O melhor termo para classificar os massacres de 1895-1896, seria, então, “massacres genocídicos”.10
Mas uma coisa é unanimidade entre todos os autores: os massacres hamidianos revelam a vulnerabilidade da população armênia face a um programa governamental de destruição.

Os Jovens Turcos
O despotismo de Abdul-Hamid provocou descontentamento entre os próprios turcos.
Enquanto o sultão governava, jovens estudantes com formação européia comandavam, do exílio, uma organização secreta chamada Ittihad ve Terakki, ou Partido União e Progresso, cujos membros ficarão conhecidos como Jovens Turcos.
O partido pretendia modernizar o Império Otomano, criando uma nova estrutura política e institucional na qual, a exemplo do modelo suíço, as diferentes nacionalidades existentes no império vivessem em igualdade e harmonia.11
Em um conclave feito em Paris em 1902, os Jovens Turcos defenderam o "otomanismo", que para eles significava uma visão mais igualitária da sociedade. Com o tempo, os mesmos Jovens Turcos substituirão esse "otomanismo" por uma visão nacionalista e xenófoba.
Ahmed Riza, um dos idealizadores do movimento, já do início mostra esse caráter nacionalista do partido ao descrevê-lo como “liberal, sim; porém, antes, turco”.12
Em 1908, os Jovens Turcos fazem uma revolução e obrigam o sultão a restabelecer a Constituição de 1876, que havia dado aos armênios e às outras minorias religiosas existentes no Império Otomano igualdade política e jurídica. A ação, que contou com o apóio da comunidade armênia, é acolhida pelo povo –seja pelos turco-otomanos, seja pelas minorias religiosas - com grande aprovação e festa. Os armênios acreditam que é o fim dos maus tempos, que massacres como os promovidos pelo sultão Abdul-Hamid agora pertencem ao passado.
O governo era liderado por um triunvirato formado por Enver Paxá, ministro da Defesa, Talaat Paxá, ministro do Interior, e Djemal Paxá, ministro da Marinha. Os três seriam condenados, posteriormente, pelos atos que cometeram contra a minoria armênia.
Ao assumir o poder, porém, Niazi Bei, um dos membros da Ittihad, faz uma declaração que já desperta suspeita por parte de alguns. Ele diz que o novo regime se compromete a garantir as liberdades das nacionalidades e das religiões minoritárias, mas estas deverão renunciar de vez a todas as suas antigas aspirações –ou seja, à independência.13
Mas será somente em Adana, em 1909, que os armênios compreenderão que nada havia mudado.

Adana, 1909
Em alguns meses após a chega dos Jovens Turcos ao poder, o Império Otomano perdeu mais territórios do que o fez Abdul-Hamid em trinta anos. Em outubro de 1908, a Bulgária proclama sua independência. Ao mesmo tempo, Creta volta a pertencer à Grécia e a Áustria conquista a Bósnia-Herzegovina. O desespero dos Jovens Turcos face a um império que começa a desmoronar e o ódio contra as minorias cristãs adquirido pelos militares designados a lutarem nas fronteiras contra os separatistas dos Bálcãs são um dos principais motivos que farão a Ittihad a adotar medidas drásticas contra a população armênia. Esse ódio é compartilhado por milhares de turcos que se vêem obrigados a deixar suas casas na região balcânica, em 1912, após a derrota otomana na região, e migrar para a Anatólia –região tradicionalmente habitada por armênios.
Mas as hostilidades começam a aparecer já em 1909, quando um armênio se envolve em uma briga de rua em Adana e mata dois turcos. Foi o estopim para uma verdadeira retaliação por parte do governo: em dez dias, a violência toma conta de Adana e das cidades vizinhas, como Tarsus, Inyerlik, Misis, Hamidié, Abdul-Oglú e outras.Vinte e cinco mil armênios foram mortos, quase cinco mil casas foram queimadas e cerca de duzentas aldeias foram destruídas.
O episódio de Adana é um divisor de águas: a idéia de que o Império Otomano deve ser somente turco se espalha entre os governantes e parte da população otomana. O sentimento antiarmênio se intensifica.
Mas o Comitê União e Progresso vai esperar até a entrada do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial ao lado do Império Alemão e do Império Austro-Húngaro, formando a Tríplice Aliança, em 1914, para executar o plano de extermínio dos armênios que viviam em território otomano, com a certeza de que nenhuma potência

O plano de extermínio
É difícil saber quando exatamente os Jovens Turcos tomaram a decisão de acabar com o povo armênio. Alguns historiadores afirmam que a decisão de cometer o genocídio armênio foi adotada já em 1910, no Congresso de Salônica do Comitê União e Progresso dos Jovens Turcos, onde teria sido proposto ao Congresso o extermínio total dos armênios do Império Otomano.14
Para Yves Ternon, a existência de um plano de extermínio é comprovada por uma circular interna do Império que relata uma reunião secreta de dirigentes do Comitê União e Progresso. Este documento é intitulado “Documento relativo à organização de massacres dos armênios pelo Comitê União e Progresso – os dez mandamentos do Comitê União e Progresso”. Segundo o documento, esses são os dez mandamentos:
1. Proibir todas as associações armênias, prender aqueles armênios que tiverem, a qualquer momento que seja, trabalhado contra o governo, enviá-los às províncias, como Bagdá ou Mossoul, e eliminá-los no caminho ou chegando ao destino.
2. Confiscar as armas
3. Excitar a opinião muçulmana por meios apropriados e adaptados em distritos como Van, Erzeroum ou Adana, onde já é fato que os armênios adquiriram ódio dos muçulmanos, e provocar massacres organizados, como fizeram os Russos a Bakaou.
4. Para fazer isso, é preciso confiar na população de Erzeroum, Van, Mamouretul-Aziz e Bitlis, e somente usar as forças militares para manter a ordem de maneira ostensiva para por termo aos massacres, e, usar essas mesmas tropas para ajudar ativamente os muçulmanos nas regiões de Adana, Sivas, Brousse, Ismid e Esmírnia.
5. Tomar medidas para exterminar todos os homens com menos de cinqüenta anos, os padres e as professoras de escola. Permitir a conversão ao Islã das moças e crianças.
6. Deportar a família daqueles que tiverem conseguido escapar de maneira a cortar todos os seus laços com a cidade natal.
7. Alegando que os funcionários armênios poderiam ser espiões, excluí-los absolutamente de todos os cargos ou serviços relevantes para a administração do Estado.
8. Exterminar todos os armênios que se encontrem no exército da maneira que convenha. Esse serviço deve ser confiado aos militares.
9. Executar essas medidas em todos os lugares ao mesmo tempo para que eles não tenham tempo de tomar atitudes preventivas.
10. Respeitar a natureza estritamente confidencial dessas instruções, que não devem ser conhecidas por mais de duas ou três pessoas. 15
O motivo pelo qual os Jovens Turcos decidiram massacrar os armênios é bastante complexo. Para Carlos Bedrossian, mestre em história armênia, o Império Otomano adotou o princípio de guerra total, isto é, limpeza étnica, no qual é necessário acabar com os inimigos internos para conseguir enfrentar os inimigos externos. Os armênios ocupavam uma região estratégica no Império Otomano e formavam um grupo com uma identidade própria bastante forte. A possibilidade de eles poderem se rebelar e lutar pela independência era algo que assustava os dirigentes do império, especialmente após a derrota nos Bálcãs.
Além disso, Bedrossian ressalta o fato de que os armênios formavam uma espécie de elite econômica e intelectual no Império Otomano. Isso favorecia a incitação do ódio em parte da população civil otomana, que ajudou a saquear o comércio e casa dos armênios, instalando-se nelas após a partida forçada desse povo nas caravanas organizadas pelos soldados turcos.
O fato de serem cristãos também não despertava muita simpatia dentro de uma teocracia muçulmana. Além disso, o interesse que os armênios despertavam especialmente na Inglaterra e na Rússia era visto como uma constante ameaça à soberania do Império Otomano, que poderia ser invadido a qualquer momento a fim de garantir a segurança e até mesmo independência dos armênios.
Por fim, o início da desintegração do império acentuava ainda mais o nacionalismo do governo e a necessidade de acabar com as minorias do império –seja impondo-lhes a identidade turca, seja pondo fim a todos que pertenciam àquele grupo.



4 SAPSEZIAN, Aharon. História da Armênia: drama e esperança de uma nação, pp 22
5 MARTINS, A. H. Campolina. Armênia, um povo em luta pela liberdade: o mais longo genocídio da história. In:“Dossiê – Direitos Humanos, pp 143
6TERNON, Yves. Op. cit., pp 31
7 SAPSEZIAN, Aharon. Op.cit., pp 65
8 MARTINS, A. H. Campolina. Op.cit, pp 140
9 TERNON, Yves. Op.cit., pp 374 nota 59.
10 TERNON, Yves. Op.cit, pp 127
11 SAPSEZIAN, Aharon. Op.cit.,pp 111
12 SAPSEZIAN, Aharon. Op.cit,, pp 112
13 TERNON, Yves. Op.cit., pp 113
14 DIÁRIO ARMÊNIA. Especial 90ª Aniversario Genocídio Armênio 1915, pp 9
15 Esse documento é citado por Arthur Beylerian, Vahakn N. Dadrian, Yves Ternon, Richard Hovannisian e Cristopher J. Walker

Revista Ética e Filosofia Política – Volume 10 – Nº 1

sábado, 10 de julho de 2010

Cronologia do Genocídio Armênio

Há diversos registros de enforcamentos públicos de líderes armênios da época

Renata de Figueiredo Summa

“Não há dúvida de que esse crime foi preparado e realizado por motivos políticos. Era momento oportuno para fazer desaparecer do país uma raça que se havia rebelado contra os atos bárbaros cometidos pelos turcos e cujas aspirações de liberdade podiam ir em prejuízo da Turquia (...) Os partidários do panturquismo pensavam que embora caísse Constantinopla e a Turquia perdesse, a aniquilação dos armênios representaria uma vantagem permanente para o futuro da raça turca”.
Winston Churchill, em “The World Crises”, Tomo V, Londres, p. 405, 1929

Cronologia do Genocídio Armênio

1914
21/02: O Comitê União e Progresso (Ittihad) ordena o boicote ao comércio e indústria dos armênios no Império Otomano.
20/11: É publicada uma ordem de expulsão de todos os funcionários de origem armênia da administração pública otomana.
26/11: O Ministério da Guerra inicia a repartição de armas e munições entre os membros da “Teshkilat Mahsusa”, organização especial militarizada integrada por criminosos liberados ilegalmente das prisões turcas.
1915
12/02: Começam a desarmar os soldados armênios do Exército turco.
12/03: São feitas detenções em massa de armênios em Dortyol, sobre os quais dizia-se que iriam trabalhar na construção de estradas nas proximidades de Alepo. Nunca mais foram vistos.
20/04: A deportação dos 25.000 armênios de Zeitun foi concluída. No mesmo dia começam as detenções massivas em Diarbekir.
24/04: Na véspera da Páscoa, ao meio-dia, cumprindo ordens ilegais, com listas preparadas de forma detalhada, o governo dos Jovens Turcos prende e, no dia 25, deporta os líderes máximos religiosos, políticos e intelectuais da comunidade armênia em Istambul. Eles passam uma noite encarcerados em Mehder-Hané e depois são divididos em dois grupos. Cada um segue para cidades distintas, onde são esperados para ser assassinados depois de falsos julgamentos. Durante todo o mês de abril, as detenções continuam: 196 escritores, 168 pintores, 575 músicos, compositores, intérpretes e bailarinas, 336 médicos, farmacêuticos e odontologistas, 176 docentes e professores, 160 advogados, 62 arquitetos, 64 atores etc.
27/05: O Marechal alemão Otto Liman Von Sanders informa a Berlim que as deportações foram planejadas pelo governo, com a aprovação de todos os ministérios, e a execução fica a cargo dos governadores e da polícia.
28/07: Sabit, governador de Kharput, informa ao Ministério do Interior que as estradas estão cheias de cadáveres de mulheres e crianças e que não tem tempo para enterrá-los.
26/09: O ministro do Interior, Talaat, emite um regulamento com onze artigos, ratificado depois pelo Senado otomano, que legaliza o saque dos bens dos armênios organizado pelo Estado.
01/10: São “turquificados” 600 órfãos armênios em Herek.
07/10: Estima-se que tenham sobrevivido cerca de 360.000 armênios e que tenham sido assassinados 800.000. O resto da população Armênia está nas caravanas.
18/11: Talaat ordena que o governador de Alepo seja cuidadoso no envio dos armênios ao deserto. Ele recomenda que os massacres sejam realizados em lugares muito
ocultos.
11/12: Talaat ordena a prisão de jornalistas que preparavam informes sobre o genocídio e tiravam fotos dos acontecimentos.
10/03: O governo de Alepo envia um informe ao Ministério do Interior, em Constantinopla, dizendo que 75% dos armênios tinham sido assassinados.
17/03: Realizam-se grandes matanças nos campos de concentração de Rãs-iul-ain (50 mil) e Der-el-Zor (200 mil)
14/08: Informa-se que, por acumulação dos cadáveres de 200 mil armênios, houve um desvio do curso do rio Eufrates nas proximidades de Der-el-Zor.
04/10: O embaixador interino Radowitz informa ao chanceler Theobald Von Bethman Hollweg que dois milhões de armênios foram deportados e que somente 325 mil sobreviveram.
1918
28/05: A Armênia proclama sua independência após vencer as batalhas de Sardarabad, Bach-Abaran e Karakiliná contra os turcos.
11/10: Quatro dias depois da queda de Talaat Paxá, o governo turco autoriza o retorno dos armênios a suas cidades.
04/11: O Parlamento do Império Otomano decide submeter a julgamento marcial os responsáveis do Comitê União e Progresso pelo genocídio
1919
05/07: Em Constantinopla, o Tribunal Marcial condena à morte Talaat Paxá, que estava foragido na Alemanha.
1920
24/08: Firma-se, em Moscou, um tratado de amizade e cooperação bolcheviquekemalista que dá aos turcos liberdade de ação com respeito à Armênia. A Rússia não interviria a favor dos armênios.
10/09: Os turcos kemalistas ordenam novas deportações de armênios que haviam retornado às cidades de Keotahia, Tavshan, Cesárea, entre outras.
23/09: A Turquia ataca a República da Armênia sem declaração de guerra prévia.
1921
15/03: O estudante armênio Soghomón Tehlirian mata Tallat Paxá, que estava foragido em Berlim.
27/06: Os turcos iniciam uma ofensiva final contra Zeitun e matam todos os sobreviventes
1922
09/09: Os kemalistas invadem a cidade de Ismirna. Saqueiam e cometem assassinatos e incendeiam o bairro armênio (Hainotz).
1923
31/03: Pela Lei N° 319 da República Turca, todos os turcos que foram condenados como criminosos de guerra por algum Tribunal Militar foram declarados inocentes.

24/09: Publica-se uma Lei que proíbe para sempre o retorno dos armênios aos territórios da Turquia. O patrimônio cultural segue sendo saqueado.

Revista Ética e Filosofia Política - UFJF

O paradoxo armênio

Renata de Figueiredo Summa

O paradoxo armênio
Quem caminha pelas ruas de Erevan, capital do país, impressiona-se com a beleza do Monte Ararat e seu vizinho pequeno Ararat. A neve eterna do seu cume contrapõe-se aos verdes prados e ao céu de azul intenso em um dia de verão.
O Monte Ararat é o símbolo máximo da Armênia. O povo armênio viveu sob essa montanha durante mais de três mil anos. Do alto de seus 5.137 metros, o Monte Ararat é a paisagem que melhor representa a palavra “lar” para os armênios, sejam eles nascidos no país ou filhos da diáspora.
Mas esse símbolo maior não mais pertence à Armênia. Pior: ele está localizado em território turco. Ele pertence ao mesmo povo que um dia tentou exterminar toda a população armênia que vivia em seu território. Povo esse que continua negando o episódio que matou 1,5 milhão de armênios e que mais tarde seria reconhecido como genocídio pela ONU, União Européia e 22 países.
E o Monte Ararat está lá, encarnando o paradoxo armênio. Ele está lá, na fronteira fechada entre Turquia e Armênia, como para lembrar os três milhões habitantes desse pequeno país de que um dia eles já foram mais livres. Está lá, e quando os armênios o olham, lembram do que foi arrancado deles. Muito mais do que uma montanha, mas também ela faz falta. E, embora em território turco, ela é ainda a montanha deles. E ela está lá, a cada vez que alguém olha de algum canto da Armênia, e não os deixa esquecer.


Revista Ética e Filosofia Política – UFJF

O genocídio da Primeira Nação Inteiramente Cristã






Prof. Dr. Antônio Henrique Campolina Martins

O Genocídio Armênio de 1915 é, sem dúvida alguma, um dos maiores escândalos do século XX. Um Povo, portador de uma cultura milenar, documentada por monumentos preciosíssimos, de uma religião tradicional, de língua própria, de uma literatura mundialmente reconhecida, em suma de uma tradição riquíssima, um Povo cuja identidade é atestada em Documentos de autoridade indiscutida, um Povo bíblico, foi cruelmente massacrado; as cidades da Armênia Ocidental foram todas saqueadas; os lares destruídos pela espada impiedosa de usurpadores. A ordem era o aniquilamento total, amplo e irrestrito dos infiéis através de deportações e de chacinas sucessivas a partir de 1895, com o Grande Massacre, passando pela Carnificina Selvagem de Adana, comandada pelos Jovens Turcos traidores (1909), culminando no Genocídio Sistemático de 1915, que provocou a indignação do mundo inteiro, e nas chacinas da região de Esmirna, sofridas também pelos Gregos (1921-1923). A partir de então, um grupo político-intelectual com base na Turquia e internacionalmente representado vem sistematicamente negando a existência destes fatos, através de uma propaganda mordaz e irreal, propaganda esta que não só minimiza a barbárie cometida contra os Armênios, mas manipula, através da distorção dos acontecimentos, a verdade sobre um dos maiores conflitos do século XX. Para este grupo, os documentos que atestam o Genocídio não passam de um mito, criado pelos Armênios, com o fim de reivindicar territórios e indenizações. A tese do grupo é claríssima: não houve Genocídio e, portanto, não há lugar para reivindicações, nem mesmo morais. Tudo não passa de propaganda Armênia, de pressão psicossociológica junto aos governos inimigos da República Turca.
Ora, os historiadores são unânimes no que se refere ao número das perdas e dos prejuízos ocorridos entre 1915 e 1920. Só durante esta época podemos afirmar que 1.500.000 Armênios forma mortos. Dentre eles encontram-se intelectuais, escritores, poetas, redatores, professores, diretores de escolas; 2500 cidades foram cruelmente saqueadas, 4000 igrejas e capelas foram destruídas ou danificadas e destinadas a outras finalidades. 203 mosteiros foram secularizados assim como cerca de 30.000 manuscritos perdidos ou queimados. A Igreja Apostólica Armênia perdeu 3.000 presbíteros e 50 bispos e arcebispos. Os Dignitários, depois de torturados, foram submersos em petróleo e queimados vivos. Vê-se, pois, de modo patente, que durante estes cinco anos, durante o Genocídio, as perdas foram enormes e os números aqui mencionados são com segurança internacionalmente reconhecidos. O que se poderia acrescentar em termos de perdas humanas e de prejuízos, de danos materiais e morais quando se sabe que desde 1890 até 1923 a repressão, os massacres, as deportações foram efetuadas de modo quase contínuo e, em períodos determinados, com a ênfase total de uma vontade de extermínio brutal. A pouca importância que este grupo outorga ao Tratado de Paz de Sèvres, firmado em 10 de agosto de 1920 entre as principais Potências Aliadas, contendo seis artigos relativos à Armênia (secção VI, artigos 88 a 93), onde as potências aliadas declaram reconhecer a Armênia como Estado livre e independente, e a relevância com que o mesmo grupo divulga, pormenorizadamente, a Conferência de Lausanne, onde no início, os representantes Armênios não foram admitidos e onde não houve sequer satisfações para as suas reivindicações, mostram a continuidade desta posição se inserindo na tradição de intransigência prepotente do Império Otomano.
Fossem os Governantes mais liberais e menos manipuladores utilizando sempre de sua posição estratégica para fazer com que potências internacionais interferissem na vigência dos Tratados ( o próprio Tratado de Sèvres foi trocado pelo de Lausanne por pressão da Turquia junto às Potências Aliadas); fossem os Governantes realmente sinceros, conferindo de fato a segurança física aos Armênios, assim como garantindo a segurança de seus bens materiais e culturais; viessem aqueles realmente ao encontro de seus justos anseios pela, pelo menos, autonomia federativa dentro do Império, provavelmente teriam sido prevenidos os tristes fatos que aconteceram. Mas a posição Turca foi sempre outra, marcada pela arrogância e pela prepotência, impondo sempre as suas decisões, sob a ameaça de armas. Os Armênios foram obrigados a renunciar ao Tratado de Sèvres no dia 3 de dezembro de 1920.
No que concerne à Documentação Histórica Antiga sobre os Armênios, um número enorme de historiadores, filósofos e homens de letras gregos e romanos, autores como Xenofonte, Estrabão, Plutarco, Políbio, Arrímio, Flávio Josefo, João de Antioquia, Libânio, Luciano, Marcelino, Cícero Eutrópio, Cláudio Laudiano, Justino Pompeu, Lactãncio, Plínio Moço, Rufino Flávio, Suetônio, Patérculo, todos falam sobre a Armênia, atestando, reportando acontecimentos aí sucedidos em períodos precisos de sua História. Por outro lado, o nome Urartu é uma versão de Ararat e na inscrição trilingüe cuneiforme de Behistun, de Dário I dos Persas (515 aC), os nomes Urartu e Armênia são recíprocos.
No que tange à Documentação do Genocídio de 1915 uma série de telegramas do então Ministro do Interior Talaat Pashá, ordenando exterminar inteiramente os Armênios e prometendo castigar os funcionários da Administração que não cumprissem cegamente esta ordem, telegramas estes cifrados e reconhecidos em todo o mundo como Documentos importantíssimos sobre o Genocídio, atestam a barbárie das deportações e dos massacres.
Uma questão inadequadamente colocada é a do assim chamado "Terrorismo Armênio". Não se pode negar que tenham existido Grupos Armados de jovens Armênios, mas quem são estes jovens e o que visam ? Antes de tudo, deve-se dizer que este Movimento Armado é uma reação, é efeito, é conseqüência. São Movimentos que surgem depois do Genocídio.
Não se pode, pois, confundir e muito menos reduzir a História. Começa-se, sim, pelo início, não pelo fim como se fosse a causa de tudo. Insinuar que consequências possam ser a causa é no mínimo distorcer, manipular.
Terror foi, sim, a crueldade institucionalizada de modo amplo e irrestrito a partir de 1880, colocada em prática sob a égide do próprio Estado. O terror institucionalizado, assumido, financiado por um Império que ordena "o extermínio dos Armênios sem escutar os sentimentos da consciência" ( Telegrama do Ministro do Interior Talaat Pashá à Prefeitura de Alepo).
Mas qual seria a verdade sobre a reação dos Grupos Armados de jovens Armênios?
Para os responsáveis pelo Genocídio dos Armênios não houve um Julgamento de Nürenberg, ou de Tóquio. Na década de 20, o Povo Armênio estava saindo da grande tragédia. Dizimado, disperso, desamparado, os Armênios não conseguiam senão sofrer e suportar. Mas o limite chegou e o Povo decidiu fazer a sua Justiça, a Justiça que nunca foi feita pelos Organismos Internacionais por causa dos interesses estratégicos e econômicos e as mil conveniências diplomáticas. Meia dúzia de jovens recrutados, jovens que viveram, existencializaram os horrores dos massacres, todos estudantes, foram à procura dos esconderijos dos principais responsáveis pelo Genocídio, na época, todos foragidos. Nos anos 1921-1922, foram localizados e mortos a tiros sete deles. No dia 15 de março de 1921, foi morta em Berlim a figura número 1, Talaat Pashá por Solomon Tehliriam, preso pela Polícia Alemã e julgado. Apesar de seu ato premeditado, Tehlirian foi absolvido. Este Processo, todo documentado, foi o julgamento do século.
O que se deseja é o reconhecimento pela comunidade internacional do Genocídio cometido em 1915 contra todo o Povo Armênio. O Tratado de Sèvres (agosto de 1920) atesta de modo eminentemente claro os grandes danos físicos e morais sofridos pelos Armênios nesta época. A atitude pacífica do Povo Armênio (de 1878, do Tratado de San Stefano que oficializava a Causa Armênia, a 1975, quase 100 anos, portanto) para ver solucionada a sua Causa através de Diálogo e de outras tentativas parlamentares malogradas pela intransigência de certos grupos e pela inércia da O.N.U. não deixou outra alternativa a não ser a da luta, como meio de apelar à solidariedade dos Povos civilizados pela solução da Causa Armênia. Pois estes jovens Armênios saíram à cata dos porta-vozes do terror, difundindo mentiras, falsificando fatos, confundindo a opinião pública mundial, minando, através de chantagens nos meios diplomáticos, os procedimentos pela solução da Causa Armênia. Isto para forçar o Governo Turco a abrir diálogo direto com os Armênios ou através de Terceiros.
A subcomissão de Prevenção das Discriminações e proteção às minorias da O.N.U. estabeleceu o reconhecimento daquilo que ninguém pode negar. Mediante votação, foi aprovado, por maioria, um relatório sobre o Genocídio, em que se inclui o caso Armênio de 1915 como Genocídio. A aprovação do dito relatório é uma vitória da justiça e da humanidade. Este Documento ratifica os fatos históricos realizados pelo Governo Otomano contra os Armênios, não se pode absolutamente querer negar o que é evidente, patente. A mesma posição foi assumida pelo Parlamento Europeu em junho de 1987 quando reconheceu, por votação da maioria de seus membros, o Genocídio dos Armênios. O Genocídio foi ainda reconhecido pela Assembléia nacional da França.
A verdade tão óbvia, tão evidente, expressada tão bem por Arnold TOYNBEE, se encontra em sua obra "An Anthology of Historical Writings on the Armenian Massacres of 1915", 1971, p. 32 e 33: "Não há dúvida alguma sobre o que aconteceu em 1915. Os Armênios, habitantes do Império Otomano, foram expulsos de suas casas e deportados para os distritos mais longínquos e insalubres, escolhidos pelo Governo para aprisioná-los. Enquanto uns foram assassinados no local, outros pereceram pelo caminho e outros, ainda, morreram depois de chegar ao destino. A lista dos mortos está acima de seiscentos mil; talvez outros seiscentos mil estejam ainda vivos no Exílio e mais seiscentos mil foram ou forçados a se converter ao Islã, ou se esconderam nas montanhas, ou conseguiram fugir, atravessando a fronteira Otomana. O Governo Otomano não pode nem negar estes fatos nem justificá-los. Nenhuma infração ou falta individual por parte dos Armênios pode justificar um tal crime contra uma raça inteira".
Mas, apesar do horror do Genocídio, a Armênia não morreu. A Armenidade foi mais forte do que a morte. A Armênia está viva, hoje, no cáucaso, nos 29.800 Km² da atual, livre e independente República da Armênia, com os seus 3.500.000 habitantes. Sua bandeira tremula nos Organismos da Comunidade Internacional, simbolizando o País democrática e juridicamente organizado, sujeito de direito público internacional. Nesta situação legal, podemos todos, o mundo inteiro, usufruir desta cultura milenar riquíssima e única sob muitos aspectos.
A Armênia se encontra viva também através de sua Diáspora. Os expatriados não desapareceram - como queria o Império Otomano - mas cresceram e se multiplicaram na Terra do Exílio. Sustentados pelo sangue das 2.000.000 de vitimas e pelos 2000 anos de História, a Diáspora nunca se esqueceu da mãe Pátria, nem poderia ser diferente. O amor ilimitado pela Armênia foi sempre o sentimento, a realidade humana que uniu os Armênios de todo o mundo; a chama ardente, o critério límpido, a medida transparente e transcendente que fundiu a Diáspora na Terra e a Terra na Diáspora. Um só coração, uma só alma, um só espírito, nas horas de alegria, como a celebração histórica da Independência e nas horas de tristeza, como aqueles minutos intermináveis que sacudiram o solo Armênio durante o terremoto de 88.
Desta forma, a Armênia una e única, a que sofreu o Genocídio e a República nova, livre e próspera, reflete, hoje, com muito orgulho, sobre a sua identidade. E o faz com muita esperança. Aquela mesma esperança representada por um de seus símbolos maiores e mais incisivos: O Khatchkar, quase sempre a cruz da ressurreição, a árvore da vida e da glória. Que esta esperança, artisticamente inscrita na mais profunda tradição cultural Armênia seja também a nossa, aqui e agora. Esperança de vida, de liberdade e de paz.
Vivemos um inicio de milênio conturbado, um começo de século, onde a prática genocida se repete. Os canais de televisão nos colocam de novo diante do horror, tal como os filmes Mayrig e Ararat dos grandes cineastas, respectivamente, Henri Vermeuíl (Achod Malakian) e Atom Egoyan, que tão bem o representaram, de modo trágico e lírico. Diante do horror genocida, não podemos ter outra atitude a não ser a de assumir o legado moral que os Armênios nos deixaram, com o seu sangue e com o seu testemunho.
Sim, o primeiro Genocídio do Século XX, o Genocídio da primeira nação inteiramente cristã, neste sentido, primeiro, singular e paradigmático, nos ensinou uma lição de vida e de esperança, fundada nos seus 1700 anos de cristianismo. Esta lição quero resumi-la numa frase, também singular, única e paradigmática : O amor é mais forte do que a morte.

Revista Ética e Filosofia Política – Volume 10 – Nº 1