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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ah! Se tivessem sido os holandeses...


Fritz Utzeri

Amaldiçoar a herança lusitana é lugar comum no Brasil. Quando se fala da passividade do povo, vêm logo à mente os antepassados portugueses, e se o "pensamento" é aprofundado, surge quem atribua nossos males ao cruzamento do português com índio e negro. "Boa coisa não podia dar", torcem o nariz há mais de século elites que trazem no sangue as origens dessas três raças, mas que suspiram na crença de que nosso destino teria sido bem diferente, muito melhor, se em lugar de lusitanos tivéssemos sido colonizados por holandeses ou ingleses.
Será? Os defensores da idéia referem-se a Maurício de Nassau como a um sábio, mecenas, protetor das artes e das ciências, descrição que não encontra paralelo, nos livros de História, com a de qualquer Vice-Rei que por aqui exerceu o seu mando. Outros apontam para os Estados Unidos como exemplo de colonização bem sucedida. Lá o colonizador falava inglês, matou praticamente todos os índios e não se miscigenou. Teria sido essa a vantagem norte americana?

Outros ainda atribuem à nossa desdita um problema adicional. Portugal mandava para cá todos os degredados, condenados por crimes variados na metrópole. "Um país que nasceu esvaziando as cadeias de Portugal só podia mesmo resultar numa terra de ladrões". Seremos mesmo o produto de uma colonização que juntou três raças "inferiores" num amálgama que nos condena ao atraso eterno? Parece coisa de Gobineau ou do conde Afonso Celso, que tiveram grande influência na monarquia, defendendo a primazia do europeu (de preferência não ibérico) e desprezando negros e índios. O que deu errado no Brasil?

A resposta é NADA! Levando em consideração o fato, a desgraça de termos sido colonizados, a resposta é: NADA deu errado, pelo menos do ponto de vista da composição racial dos nossos antepassados. Pelo contrário. Da mistura primordial índio, negro e português, mais tarde enriquecida com a agregação de outras etnias e culturas européias, semitas e orientais; resultou um povo maravilhoso, alegre (não necessariamente feliz), de grande inteligência instintiva, notável capacidade de adaptação e sobrevivência. Um grande povo para um grande país.

Examinemos o caso holandês. No auge da sua expansão o colonialismo holandês era bancado por duas grande companhias; a das Índias Ocidentais e a das Orientais. Nassau era um executivo da primeira e sua empreitada malogrou, batida por coalizão de brancos negros e índios. Vale lembrar que a Companhia das Índias Orientais prosperou e resultou num país chamado Indonésia. Já imaginaram? Não vai aqui qualquer desprezo por nossos irmãos indonésios, mas país por país... Além disso, bem ao norte, vemos o exemplo da ex-Guiana holandesa, hoje Suriname. O que temos a invejar? Colonização holandesa legítima. Melhores os lusos...

Os ingleses também não podem ser invocados. Voltando às Guianas, o que a ex-Guiana inglesa tem de diferente do Brasil? Mas há os Estados Unidos. Só que lá foi diferente. Aqui, a efetiva colonização (nossa desgraça histórica), começou depois que Francisco Pizarro destruiu o império Inca. Então havia ouro na nova terra! Pra cá vieram aventureiros para escravizar a enriquecer. Nossa organização: enormes latifúndios hereditários com monocultura açucareira, cartas régias e o monopólio de Portugal em tudo. Não podia existir aqui tipografia ou oficina de ferreiro. Quem quisesse prego teria que trazê-lo de além mar, ou esperar até 1808 quando D. João VI abrisse os portos.

Nos Estados Unidos houve uma migração religiosa. Foram os puritanos, ingleses religiosos e trabalhadores que não se sentindo à vontade na mãe pátria, pegaram o Mayflower e fundearam em Plymouth, o que deu origem a 13 colônias e mais tarde aos Estados Unidos. Lá o ouro só foi descoberto depois da independência e quem pagou o pato foram os mexicanos e índios. Lá era possível abrir oficinas de ferreiros, pequenos estaleiros, tipografias, estudar. Era mais um dissidência inglesa do que uma colônia.

Quanto aos degredados. Será que não podia dar certo? Há pouco mais de 200 anos, os ingleses esvaziaram suas cadeias mandando toda a ralé criminosa da Albion para o outro lado do mundo; a Austrália. Era uma passagem só de ida e em boa parte dos criminosos foram entregues à própria sorte. Abandonados, organizaram-se, sem volta fincaram raízes e é só olhar para a Austrália para ter certeza que ela só prosperou exatamente porque NÃO foi colonizada.

A desgraça não é a etnia de quem coloniza. A desgraça é o colonialismo e levará ainda muito tempo para que suas seqüelas possam desaparecer para sempre da história dos povos colonizados.


Fritz Utzeri é diretor de redação do JB

JB 500 anos

domingo, 24 de maio de 2009

Nação Pernambuco

Batalha dos Guararapes. (Detalhe). Óleo sobre tela, 1758. Acervo do MHN. Peça votiva conhecida como "Batalha dos Guararapes", que registra um pedido relacionado à origem da Ingreja de Nossa Senhora dos Prazeres do Monte dos Guararapes, em Recife, formulado durante uma das maiores batalhas ocorridas na época colonial, e que significou a perda pelos holandeses do controle do território pernambucano fora de Recife.
(Museu de Historia Nacional)



Sempre em luta contra o poder constituído, os herdeiros dos Guararapes se sentem diferentes do resto do país. Bem melhores, por sinal.
Lorenzo Aldé

No ponto onde os rios Capibaribe e Beberibe se encontram para formar o Oceano Atlântico, deu-se a guerra que fundou o Brasil. E se você duvida disso é porque, no fundo, deve ter inveja dos pernambucanos.

O ego inflado do povo que hoje habita o cenário das Batalhas dos Guararapes já foi incorporado ao folclore local. É aquilo que os pesquisadores chamam de nativismo, o orgulho da gente do lugar, que se sente diferente (e bem melhor, por sinal) do resto do país e do mundo. Diz a lenda que certa vez, ao arrumar as malas para uma viagem à França, Gilberto Freyre recebeu um conselho de sua mãe:

— Meu filho, não vá alardear muito por lá o fato de ser pernambucano.
— Mas por que, maínha? Se tanto me orgulho disso...
— É para não acharem que você está querendo humilhar os franceses.

Pode ser apenas uma anedota que se vale do nome de um dos grandes intelectuais da terra. Mas o nativismo é fato comprovado por vários estudiosos, como um sentimento que perdurou fortemente até meados do século XIX, e não sem justos motivos. Há que se reconhecer que a história pernambucana é pródiga em singularidades. Por um quarto de século (1630-1654), a capitania foi ocupada por holandeses, em um modelo de colonização bastante diferente do português. A expulsão dos invasores deu-se ao preço de violentas batalhas. De volta ao domínio lusitano, mal se passou uma década e os locais se rebelaram também contra este poder: em 1666, o governador nomeado pela Corte, Jerônimo de Mendonça Furtado, foi posto para correr pelos senhores de engenho do pedaço. Se não dava para conviver com os holandeses, também não era fácil aturar as ordens de Lisboa.

“A expulsão dos holandeses teve causas religiosas e de descontentamento cultural. Mas sempre houve uma reserva dos grupos dominantes em relação a Portugal e ao Império”, resume o historiador Evaldo Cabral de Mello, a maior autoridade no assunto. No livro A outra independência, ele mostra como a vinda da Corte para o Brasil, em 1808, inflamou ainda mais esta insatisfação. O Rio de Janeiro se tornou a mais portuguesa das cidades e despertou ressentimento nas outras províncias. A diferença é que, enquanto o Sul e o Sudeste experimentaram os benefícios do desenvolvimento econômico puxado pela capital, aos habitantes do Norte restaram os altos impostos que não revertiam em benefícios para eles — iam todos custear a nobreza e a burocracia do governo central. Motivo suficiente para um povo se aperrear. E eles se aperrearam, levando a cabo duas grandes revoltas que, se vitoriosas, poderiam ter separado de vez os destinos de Pernambuco e do resto do Brasil: a Revolução Pernambucana (1817) e a Confederação do Equador (1824). De cunho federalista, elas defendiam o poder local e a autonomia das províncias.

Pernambuco não seria mais Brasil. Mas, e daí? “Se a unidade nacional teria sobrevivido a esta prova? Não sei. Hoje a unidade nacional se tornou um valor máximo, o único em que a esquerda e a direita não se desentendem. Mas as pessoas da época não pensavam assim. A decisão de D. Pedro I não estava preocupada com isso, só foi o mais conveniente para o esquema de poder deles”, alega Evaldo.

Além do moral da tropa, essas derrotas feriram o orgulho nativo no que ele tem de mais precioso: o território. Após 1817, perderam a área do atual estado de Alagoas. Após 1824, foi-se a comarca do São Francisco, hoje oeste baiano. O que atiçou também uma mágoa regional. “A Bahia sempre foi a favor do poder. Toda revolução pernambucana eles suprimiam”, queixa-se o historiador.

No século XX, já vivendo sob um ideário nacional, as disparidades regionais herdadas do Império não desapareceram. Pelo contrário, se aprofundaram com a industrialização e geraram, depois de intensos fluxos migratórios populares, o preconceito contra o nordestino que se verifica ainda hoje nos estados mais ricos. Se isso manteve vivo ou reforçou o nativismo contemporâneo, é pura especulação. Ainda não há estudos demonstrando esta relação de causa e efeito. Mas o forte egocentrismo manifestado por dez entre dez pernambucanos, ainda que recheado de bom humor, deixa margem para a hipótese. Até porque os habitantes de hoje recorrem naturalmente ao passado quando chamados a explicar o porquê de se acharem um povo tão especial.
“O fato histórico mais importante foi não termos nos rebaixado à Coroa. Por isso pegaram nossas terras. Nós, pernambucanos, não abríamos mão dos nossos direitos, das nossas lutas. Os baianos abriram, por isso ganharam um pedação de terra”, diz a cineasta Luci Alcântara, lembrando que não se registra em Recife nenhuma rua ou praça batizada em homenagem a D. Pedro I, grande vilão dessa expropriação de território. Luci está finalizando um filme em que investiga justamente a megalomania pernambucana. O título já está decidido: “O melhor documentário do mundo”. Em quase uma década de pesquisas, ela se divertiu coletando casos e curiosidades sobre a inigualável auto-estima de sua terra.

Você sabia que foram os pernambucanos que fundaram Nova York? Expulso após a Batalha dos Guararapes, um grupo de judeus (que havia criado em Recife a primeira sinagoga das Américas) rumou para a “Nova Amsterdã”, que estava sob controle da Companhia das Índias Ocidentais. Lá, eles criaram a primeira sinagoga dos Estados Unidos e deram início à construção daquela que hoje pode ser considerada a capital do mundo. Uma bela história para se gabar, desde que se releve o fato de que a localidade já existia, e cresceu depois graças a um diversificado conjunto de colonos. Evaldo Cabral de Mello ri desse exagero, mas não deixa de contribuir para o orgulho do seu povo: “Comparada a Recife, Nova York na época era uma aldeia”.

O maior, o melhor, o primeiro... A lista do narcisismo nativo, compilada por Luci Alcântara, não caberia inteira nestas páginas. Com perdão das omissões, eis alguns inquestionáveis motivos para o pernambucano amar a si mesmo sobre todas as coisas: o maior festival de cinema em número de espectadores, a mais antiga Orquestra Sinfônica do Brasil, a primeira emissora de rádio e o mais antigo jornal em circulação da América Latina, o primeiro provedor de Internet do Brasil, a mais antiga escola pública, a primeira escola de formação de professores, o primeiro curso de Direito, as primeiras mulheres bacharéis, a maior livraria em número de títulos, a mais antiga igreja do Brasil, o primeiro trem urbano da América Latina, o primeiro pouso do Zepelim no Brasil, o primeiro túnel, a maior ciclovia em linha reta, a maior avenida em linha reta, o primeiro observatório astronômico das Américas, o maior bloco carnavalesco do mundo. Até o “melhor paraíso da Terra”, Fernando de Noronha, pertence a eles.

E nem tente questionar alguma de suas verdades. “O carnaval em Recife não existe de tão bom”, empolga-se a cineasta. “Ele é do povo na rua, não é como o de Salvador ou o do Rio, onde as pessoas têm que comprar lugares para assistir de camarote”. Espera aí, pensa logo um carioca: mas faz tempo os blocos de rua no Rio vêm crescendo também. A resposta sai na lata: “Os blocos cariocas foi a gente que inventou. Eu sei porque morava no Rio na década de 80. Participei da fundação do Suvaco do Cristo, o primeiro deles, junto com o Lenine e o Lula Queiroga”, sacramenta. E acrescenta outro dado curioso mencionado por muitos conterrâneos: o hábito de ostentar a bandeira do estado em ocasiões festivas, como o Carnaval e jogos de futebol. Nenhum outro estado faz isso. E só outros dois também têm bandeiras revolucionárias até hoje: Minas (da Inconfidência) e Rio Grande do Sul (Farroupilha). A de Pernambuco foi concebida na Revolução de 1817.

Nesse espírito ufanista é encenada a cada dois anos a peça “Batalha dos Guararapes: Assim nasceu a pátria”, nos montes onde ocorreu a vitória sobre os holandeses. Não é uma peça qualquer, claro: trata-se de uma superprodução, com 50 atores e 230 figurantes (todos pernambucanos, a maioria moradores da comunidade), que atrai um público de 40 mil pessoas. As proporções rivalizam com a tradicional Paixão de Cristo encenada na Páscoa em Nova Jerusalém, a 180 quilômetros de Recife (“o maior teatro ao ar livre do mundo”). José Pimentel, roteirista e diretor da “Batalha dos Guararapes”, aliás, representava o papel de Cristo na outra encenação, antes que ela passasse a recorrer a atores da Rede Globo, nacionalmente conhecidos. Em resumo: Jesus desceu da cruz para expulsar os holandeses!

Brincadeiras à parte, a Batalha dos Guararapes é tida como o momento fundador da identidade nacional. E esta não é uma interpretação exclusiva do povo local. Em 1994, o general Zenildo Lucena decretou oficialmente o dia 19 de abril, data da primeira Batalha dos Guararapes, como Dia do Exército. Vá lá que o general seja pernambucano, mas o decreto vincula o nascimento de uma instituição nacional a um período em que a idéia de nação estava longe de existir. Por que, então, escolher Guararapes e não, por exemplo, a guarda que acompanhou a vinda de D. João, momento inaugural de instituições permanentes de defesa que depois se transformariam no Exército? Talvez porque a carga simbólica da batalha pernambucana seja muito mais sedutora para uma idéia de nação: o derramamento de sangue de três raças unidas para enfrentar o invasor. Termos que aparecem em Gilberto Freyre na década de 1940, mas já ecoavam no imaginário pernambucano e influenciaram a geração de intelectuais que no século XIX, após a independência, esforçou-se para conceber os símbolos do estado recém-criado. “É uma construção histórica daquele momento. É fruto da criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1838, e está na teoria de historiadores como Varnhagen e Capistrano de Abreu. Mas eu, como historiador, não posso negar que é uma tese falsa. A palavra pátria, no século XVII, é de caráter local, não nacional. O estado burguês é criado no XIX, a partir da Revolução Francesa”, argumenta o capitão Francisco José Corrêa Martins, chefe da Divisão de História do Arquivo Histórico do Exército.

O historiador militar faz, no entanto, uma ressalva que é válida: “A mitologia de formação do estado não é só coisa de brasileiro, é mundial. A questão do herói vem desde a Grécia Antiga; é um paradigma, um modelo a ser seguido. Quer pior exemplo que El Cid, herói da Espanha, que lutou do lado dos muçulmanos e cristãos? Todo e qualquer herói é ser humano, tem carne, osso e sentimentos”.

Humano era também João Fernandes Vieira, um dos líderes da expulsão dos holandeses. Antes de se engajar na luta contra os invasores, Vieira devia muito a eles. Literalmente. Das autoridades estrangeiras obteve a oportunidade de comprar dois engenhos a prazo. Havia muitas terras desocupadas, depois que seus proprietários fugiram para a Bahia por causa da invasão. Com a queda do preço do açúcar, pesadamente endividado, o luso-brasileiro (nascido na Ilha da Madeira) passou a ter interesse pessoal na expulsão dos holandeses, seus antigos aliados.

A balança que oscilava entre benesses holandesas ou portuguesas permanece viva na “pernambucanidade” atual. Pelo menos um holandês é visto com imenso carinho até hoje: Maurício de Nassau. E não há quem negue uma certa nostalgia no ar quando se fala sobre o período de dominação estrangeira. Como se, por trás da glória dos Guararapes, houvesse certo arrependimento. “Como estaríamos hoje se os holandeses não tivessem sido expulsos?” Segundo o jornalista Xico Sá, esta é uma pergunta que ronda as mesas de bar do Recife. Afinal, Nassau implementou na cidade “a primeira experiência de cultura urbana na América portuguesa”, nas palavras de Gilberto Freyre.

A Holanda era a maior economia do mundo, uma potência comercial e naval durante todo o século XVII. Não à toa, a colonização da Companhia das Índias Ocidentais trouxe benefícios inéditos para Recife e teve um caráter francamente cosmopolita: os estrangeiros que chegavam queriam habitar a cidade, a ponto de faltarem leitos para todos, enquanto a ocupação do campo nunca vingou a contento. Em contraste, Salvador, na mesma época, era uma cidade que vivia às moscas: os senhores de engenho cuidavam apenas de suas moradias rurais, verdadeiros feudos.

Ainda que a situação das ex-colônias holandesas não seja muito animadora hoje em dia (Suriname, Indonésia...), o passado cosmopolita precoce pode ter influenciado a formação de um élan, se não pernambucano, ao menos recifense. “Recife é uma coisa, o Nordeste é outra. Sempre foi assim: uma cidade liberal, republicana, inovadora, aventureira, em oposição à massa rural arcaica”, atesta Evaldo Cabral de Mello.

Uma curiosidade: o diplomata e historiador vive há décadas longe de sua terra natal. Se tem tanta aversão à “cidade portuguesa” que hospedou a Corte, por que vive no Rio de Janeiro? A resposta não poderia ser mais recifense: “Sou sempre contra a cidade em que estou morando. Foi assim nos vários países por onde passei. Me irritei com os portugueses, me irritei com os espanhóis, com os ingleses. Se voltar para o Recife, vou ficar antipernambucano. Prefiro ser anticarioca”.
Eita, povo amostrado!

Lorenzo Aldé é jornalista da Revista de História da Biblioteca Nacional

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

Batalha dos Guararapes - Ribanceira Abaixo


A sangrenta Batalha dos Guararapes marcou o declínio da ocupação holandesa no Brasil
Rômulo Luiz Xavier do Nascimento

No belo cenário dos montes Guararapes um dos mais sangrentos conflitos de que se tem notícia na história do Brasil colonial. Ali se enfrentaram duas vezes (1648 e 1649), em confrontos repletos de lances estratégicos, as tropas holandesas e luso-brasileiras.

Os embates aconteceram no período conhecido como Restauração Pernambucana (1645-1654), no qual exércitos e milícias, comandados por João Fernandes Vieira, André Vidal de Negreiros, Francisco Barreto de Meneses, Henrique Dias e Filipe Camarão, combateram as forças da Companhia das Índias Ocidentais, que desde 1624 controlava boa parte do Nordeste brasileiro, em especial a região do atual estado de Pernambuco.

Desde 1645, a reação, comandada principalmente por Fernandes Vieira, vinha imprimindo sucessivas derrotas aos holandeses. Entre 13 de junho e 17 de agosto daquele ano, a Insurreição Pernambucana foi vitoriosa na batalha dos Montes das Tabocas e no ataque de surpresa ao Engenho de Casa Forte. Quase um ano havia se passado desde o regresso de Maurício de Nassau à Holanda. Muito hábil em suas relações com os luso-brasileiros, Nassau não deixou sucessor à altura no governo local. O Alto Conselho que o substituiu não conquistou a simpatia nem a cooperação da população local.

Os problemas religiosos entre invasores (calvinistas) e invadidos (católicos) muitas vezes disfarçavam motivações mais claras e mundanas: os problemas econômicos entre credores e endividados. Senhores de engenho e lavradores sofriam pressão para quitar os empréstimos contraídos aos holandeses, o que desencadeou uma reação militar, em nome da “liberdade divina”, dos católicos luso-brasileiros contra os “hereges” holandeses.

Não que não houvesse motivações religiosas, uma vez que se tratava de uma luta entre católicos e protestantes. Cronista que testemunhou o conflito, Diogo Lopes Santiago revela em um de seus escritos a crença de que “o projeto do levante restaurador recebera confirmação do Alto, como se o madeirense (o comandante Fernandes Vieira) tivesse concluído um pacto com a divindade”. Em outro texto, comenta que, tendo Fernandes Vieira “feito a breve oração, parece que por impulso divino, ficava com tanto ânimo e alentado espírito que lhe parecia que o coração lhe estava dizendo que cometesse a desejada empresa da liberdade”. Para além das tensões econômicas, nas batalhas dos Montes Guararapes o esforço terreno parecia confirmar um plano divino.

Essa retórica religiosa de que ações terrenas são justificadas por desígnios divinos, tão comum na sociedade do século XVII, alimentou a expulsão dos holandeses do Nordeste e ajudou a consolidar o apoio popular ao rei D. João IV. Ele havia assumido o trono em 1640, com a restauração da independência portuguesa, acabando com um domínio espanhol de seis décadas e inaugurando a dinastia dos Bragança. A ação contra os holandeses no Brasil reforçava aquele momento positivo para a monarquia. Para o clero, era como se Deus estivesse olhando por Portugal.

Os combates travados em Pernambuco eram fundamentais para o destino de um posto estratégico do reino. E no mesmo ano da primeira batalha dos Guararapes (1648), do outro lado do Atlântico ocorria a retomada pelos luso-brasileiros de outra parte vital para o império português: Angola. Após sete anos de ocupação holandesa, retornariam às mãos de Portugal os maiores portos de embarque de escravos para o Novo Mundo.

Antes do primeiro enfrentamento nos Montes Guararapes, os quatro anos de combate da Restauração Pernambucana deram resultados bastante positivos para os soldados da “liberdade divina”. Os colonos retomaram quase 130 léguas de terras, desde o Rio Grande do Norte até o Rio São Francisco, aproximadamente dez fortalezas e fortins e mais de 70 peças de artilharia. Também mataram ou fizeram reféns mais de 18 mil holandeses. Entre os luso-brasileiros lutavam brancos senhores de engenho ou pequenos lavradores, índios tupis e escravos com promessas de alforria.

Entretanto, ainda havia muito por fazer. O exército da Companhia das Índias Ocidentais era mais numeroso e dispunha de uma quantidade considerável de canhões. À medida que a guerra passava a ser mais frontal do que de emboscadas, crescia a importância da artilharia nos combates. Por conta disso, o plano dos holandeses no início de 1648 era reconquistar o Porto de Nazaré no Cabo de Santo Agostinho (sul do Recife), ponto fundamental para o abastecimento do Arraial Velho do Bom Jesus. Por ali entravam os arcabuzes, mosquetes e munições usados pela resistência luso-brasileira. Comandados por Sigismundo van Schkope, coronel que em 1635 já havia conquistado o ponto, os holandeses sabiam que era estrategicamente importante ocupar o povoado de Muribeca antes de tomar o porto de Nazaré. Além disso, em Muribeca havia grande quantidade de farinha de mandioca, capaz de abastecer um grande número de soldados.

Ao saber da intenção dos holandeses, os generais Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros se colocaram no meio do caminho. Vindos do Recife, os quase 7.400 soldados da Companhia das Índias Ocidentais teriam inevitavelmente que passar pelos Montes Guararapes para chegar à freguesia de Muribeca. Na língua indígena, “Guararapes” significa algo como “tambor” ou “atabaque”. Nas crônicas de Diogo Lopes Santiago, o significado soaria “como presságio dos muitos tambores e caixas, e instrumentos militares que neles se tocaram nestas batalhas, que quase quer dizer monte guerreiro e nós lhe podemos chamar vitorioso”. E foi o que aconteceu.

A primeira batalha dos Guararapes ocorreu nos dias 18 e 19 de abril, com esmagadora vitória luso-brasileira. Vale dizer que o efetivo luso-brasileiro não passava de 2.200 homens, contra 4.500 neerlandeses. O saldo da guerra: 1.200 holandeses mortos, entre eles 180 oficiais e sargentos. Do lado vitorioso, apenas 84 mortos. O combate intenso durou aproximadamente cinco horas, e no campo de batalha tombaram holandeses, ingleses, franceses, poloneses, luso-brasileiros, negros africanos e índios tupis e tapuias. Muitos soldados holandeses morreram afogados nos alagadiços próximos aos Montes Guararapes. Mal alimentado e sem moral para o combate, o exército da Companhia das Índias Ocidentais não resistiu ao entusiasmo dos luso-brasileiros, que conheciam cada palmo do terreno e se preparam bem para este combate. Num dos últimos momentos do confronto, os holandeses tentaram massacrar o flanco ocupado pelos negros de Henrique Dias. Vendo o que se passava, as tropas de Vieira e Vidal vieram em seu socorro. Os tiros de mosquetes e de arcabuzes foram tantos que o ar se tornou “coliginoso e escuro”, nas palavras de um cronista da época. A segunda batalha aconteceria dez meses depois, no mesmo local.

A primeira derrota holandesa em Guararapes parecia o prenúncio do que estava por vir. O próprio comandante Sigismundo van Schkope passou um longo tempo com um ferimento no tornozelo, e após meses de cama, podia ser visto andando de muletas pelas ruas do Recife, ainda não tomadas pelos luso-brasileiros. A situação da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil se tornava cada vez mais difícil. O Brasil holandês não era mais o mesmo.

No apogeu da ocupação holandesa, a Companhia atingira o domínio de uma área que ia desde a foz do Rio São Francisco (fronteira sul) até São Luís do Maranhão (fronteira norte). Na África centro-ocidental, os holandeses tomaram dos portugueses São Jorge da Mina e Angola, fechando aos navios ibéricos os dois lados do Atlântico Sul. Em 1648, quase todos esses domínios haviam sido retomados, e os holandeses ficavam cada vez mais restritos ao Recife.

Para se vingar da derrota na primeira batalha dos Guararapes, as tropas holandesas fizeram muitos estragos na Bahia, queimaram e destruíram mais de vinte engenhos e saquearam muitos moradores. Iates e lanchas ficavam a uma distância pequena da costa e às vezes entravam pelos cursos d’água, atemorizando os civis. Os saques na Bahia deram aos holandeses novo ânimo para voltar a enfrentar os inimigos, afastando o peso da derrota. A contra-ofensiva já era esperada pelos luso-brasileiros, que dispunham de informações secretas obtidas por espiões e prisioneiros. Estava próximo o derradeiro enfrentamento nos Montes Guararapes.

Seguindo ordens do oficial Francisco Barreto de Meneses, as tropas locais começaram a se movimentar. O objetivo era reunir toda a infantaria no Arraial Novo do Bom Jesus, na freguesia da Várzea. Ali foram se confessar todos os combatentes. Em todas as freguesias de Pernambuco que estavam em seu poder foram rezadas missas, ladainhas, e realizadas procissões por mais de dois dias. A resistência se preparava espiritualmente para o inferno da guerra contra os “hereges” holandeses.

Com a suspeita de que as tropas holandesas pretendiam conquistar a vila e freguesia de Muribeca, os luso-brasileiros trataram de pôr soldados ao longo do caminho, inclusive nos Montes Guararapes. Cuidou-se também para que levassem mantimentos aos futuros combatentes. Dessa vez, os holandeses não estavam mais sob o comando de Van Schkope, e sim do coronel Brink. Apesar de desestimulado pelo coronel ferido na primeira batalha, Brink decidiu atacar o Arraial Novo do Bom Jesus. Partiu para o combate saindo do Recife, à frente de cinco mil soldados, em 18 de fevereiro de 1649. Seu efetivo era reforçado também por 200 índios, duas companhias de negros e 300 marinheiros por mar. Por sua vez, a força de resistência contava com 2.600 homens, aos quais se juntaram todos os combatentes que se achavam nas fronteiras da freguesia de Muribeca, próximas aos Guararapes. Vale dizer que os holandeses contavam com o apoio de indígenas brasilianen (tupis) e tapuias.

Tendo à frente o oficial Francisco de Figueiroa, 300 soldados partiram na direção do exército holandês. Na retaguarda, João Fernandes Vieira vinha com mais 1.350. Foi ele quem propôs como estratégia que o ataque se desse pela retaguarda do inimigo, que ocupava o topo de um dos montes. Um duro combate ocorreu no espaço entre um e outro monte, num local chamado de boqueirão. Ali, os luso-brasileiros combateram também a cavalo. Na batalha do boqueirão foram atingidos Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros. Este último, que ocupava inicialmente o topo de um dos montes, logo se juntou com sua tropa aos homens de Vieira. Posicionados em outro monte, os holandeses disparavam do alto suas quatro peças de artilharia em cima dos oponentes que estavam no boqueirão.

Apesar do fogo cerrado, as tropas comandadas por Fernandes Vieira conseguiram subir o monte onde estava a artilharia holandesa e assassinar o coronel Brink. Também os destacamentos comandados por Vidal de Negreiros, Antonio Dias Cardoso e Francisco de Figueiroa encurralaram no alto vários holandeses, que despencaram de barrancos íngremes. A essa altura, a quantidade de cadáveres em campo já era altíssima, o que causou a deserção de muitos soldados da Companhia das Índias Ocidentais.

Os luso-brasileiros mataram quase 2.000 inimigos e perderam apenas 47 homens. A notícia da derrota holandesa na segunda batalha dos Guararapes provocou no coronel Sigismundo van Schkope, que ainda mancava, uma sensação de descrença no destino da ocupação holandesa no Brasil. Ele estava certo: era o início do fim.

Rômulo Luiz Xavier do Nascimento é doutorando em História pela UFF e autor da dissertação “Pelo lucro da companhia: aspectos da administração no Brasil holandês, 1630-1654” (UFPE, 2004).

Saiba Mais - Livros:

MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro Veio: o imaginário da restauração pernambucana. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.
MELLO, José Antônio Gonsalves de. João Fernandes Vieira: Mestre-de-Campo do Terço de Infantaria de Pernambuco. Lisboa, 2000.
SANTIAGO, Diogo Lopes. História da Guerra de Pernambuco. Recife: Cepe, 2004.
VARNHAGEN, F. A. de. História das Lutas com os Holandeses no Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 2002.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

sexta-feira, 20 de março de 2009

Um toque de além-mar


Na época em que a Holanda ensaiava dominar o mundo, era chique decorar as casas com mapas e objetos brasileiros
Mariana Françozo

Na tela ao lado, um estudioso mexe nos objetos de sua escrivaninha. Ele abre a caixa de escrita e tira uma pena, talvez também procure tinta. Ao mesmo tempo, olha para o livro aberto em cima da mesa, especialmente iluminado pela luz do dia que entra pela janela.

Este poderia ser apenas mais um quadro holandês antigo e passar despercebido para um observador brasileiro. Mas, reparando bem, há na pintura um elemento especial: no grande quadro pendurado na parede branca aparece a costa de Pernambuco, na altura de Recife e Olinda.

Não foi uma excentricidade ocasional do artista. No século XVII, o Brasil e outras conquistas holandesas no além-mar se tornaram inspiração para a decoração das casas e salas de estudo naquele país. Mapas, pinturas e objetos “exóticos” adquiridos nas possessões holandesas conferiam status ao dono da casa, num tempo em que a navegação e o comércio ditavam os rumos do governo e da economia.

O quadro em questão, “De Jonge Geleerde” (“O Jovem Erudito”), é de Cornelis de Man (1621-1706), natural da cidade de Delft, sudoeste da Holanda. Já o mapa retratado na parede é uma cópia muito bem executada do original produzido em 1648 por Cornelis Goliath (c.1610-1661), um dos cartógrafos mais importantes do seu tempo.

A produção cartográfica holandesa teve seu auge naquele século XVII, seguindo o impulso da produção de pinturas e de livros que veio a reboque do desenvolvimento de um extenso comércio ultramarino. Os mapas e pinturas tinham por objetivo representar o mundo real da maneira mais fiel e detalhada possível. Todos os capitães de navios holandeses que velejavam para a América, a África e a Ásia em busca de mercadorias eram obrigados a fazer anotações e desenhos sobre a viagem e sobre os lugares por onde passavam. Ao mesmo tempo, cartógrafos especializados eram mandados para as colônias e entrepostos comerciais holandeses para retratar a geografia da região. Outra forma de obter informações era o roubo de mapas e anotações de navios inimigos.

Uma vez de volta à pátria, todos estes papéis eram entregues aos cartógrafos oficiais das duas companhias holandesas de comércio ultramarino – a Companhia das Índias Ocidentais (West-Indische Compagnie, WIC) e a Companhia das Índias Orientais (Vereenigde Oost-Indische Compagnie, VOC). A partir do material recebido, eles desenvolviam mapas cada vez mais detalhados e precisos para serem usados nas próximas navegações.

Não foi diferente no período da ocupação holandesa no Nordeste do Brasil. Desde a invasão de Salvador, Bahia, em 1624-25, tanto os diretores da WIC quanto os sucessivos governos do Brasil Holandês se dedicaram a contratar pessoas que desenhassem planos, vistas e mapas das cidades e regiões conquistadas. Goliath foi um dos que receberam esta tarefa, depois que os holandeses, expulsos da Bahia em 1625, ocuparam Pernambuco em 1630. Ele esteve no Brasil no início daquela década e voltou em 1638 para prestar seus serviços ao conde Maurício de Nassau, governador dos domínios holandeses por aqui. Quando retornava à Europa, em 1641, foi capturado por piratas berberes e levado para a cidade de Argel, no norte da África. De lá, ainda conseguiu desenhar um plano daquela cidade e enviá-lo, junto com uma carta, para Nassau. Sua terceira viagem para a América do Sul ocorreu em 1644, mas logo no ano seguinte ele regressou à Europa. O mapa de Olinda e Recife foi produzido já na Holanda, a partir de suas anotações e das notícias que chegavam sobre as novas conquistas neerlandesas do outro lado do Atlântico.

Se o mapa de Goliath aparece na tela do pintor Cornelis de Man, não é por acaso. Ele tem uma função muito importante para as intenções do artista. O quadro apresenta a imagem de um sábio em seu trabalho. Não é um erudito conhecido, mas um homem sem nome, a representar a atividade do estudo. Na Holanda do período, ser um erudito significava estudar assuntos que hoje nos parecem tão diferentes, como latim, obras da antiguidade clássica, astronomia, cartografia e matemática. Por isso Cornelis de Man pintou o sábio cercado de objetos que remetem ao seu ofício. A caixa de escrita e o livro são os elementos mais evidentes. Acima da lareira, há outra indicação do alcance do conhecimento desse homem: a grande concha é uma menção aos gabinetes de curiosidades e de raridades – coleções de objetos exóticos encontrados pelos viajantes holandeses nas terras distantes que exploravam.

Conchas, animais empalhados, plantas, artefatos indígenas, porcelana chinesa e objetos em verniz faziam parte destes acervos, formados tanto por nobres quanto por médicos, professores das universidades e eruditos em geral. Ter uma coleção de raridades na Holanda do século XVII significava estar atento às novas descobertas científicas, bem como estar ligado às inúmeras viagens de exploração e comércio empreendidas no período. Era sinal de status, sabedoria e refinamento.

A presença do mapa tem o mesmo propósito. Ele evidencia a ligação do erudito com as conquistas holandesas no ultramar e até sugere uma ocupação específica para esse homem: ele poderia muito bem ser um cartógrafo. Ao comparar a proporção em que o mapa está pintado e suas reais medidas (cerca de 46cm x 56cm), percebemos que De Man exagerou nas dimensões, certamente uma estratégia para chamar a atenção do observador para o mapa do Brasil.

Não era incomum os artistas holandeses inserirem mapas em suas pinturas de interiores. Os mais famosos quadros neste estilo são de autoria de Johannes Vermeer (1632-1675), que, como De Man, nasceu e trabalhou em Delft. Em 1780, “O Jovem Erudito” chegou a ser vendido como sendo de autoria de Vermeer. As semelhanças entre os dois artistas ficam claras se compararmos o quadro de De Man com “O Geógrafo” (1668), de Vermeer. Nos dois, um estudioso está de pé, em frente a uma escrivaninha iluminada pela luz que entra pela janela, à esquerda. A escrivaninha está coberta por um tapete oriental estampado e o homem se debruça sobre ela. Na parede do fundo, um mapa decora o ambiente. Apesar das diferenças de cor – enquanto De Man abusa do vermelho, Vermeer escolhe o azul – e de alguns elementos presentes em apenas um dos quadros — a concha e a caixa de escrita na tela de De Man, o globo terrestre e o compasso na de Vermeer –, o tema da composição é o mesmo: um erudito durante seu trabalho.

Vermeer, contudo, nunca pintou um mapa do Brasil em seus quadros. Recorria mais a mapas das sete províncias do norte dos Países Baixos, que haviam declarado sua independência do Império Espanhol no final do século XVI. As províncias do sul, fiéis ao rei espanhol Felipe II (1527-1598), viriam a formar a atual Bélgica. No quadro “O Geógrafo”, o mapa que aparece é uma carta náutica das costas marítimas da Europa produzido por Williem J. Blaeu (1571-1638), dono de uma das maiores firmas de cartografia de Amsterdã no século XVII.

Mas outro holandês do período retratou um mapa do Brasil em sua pintura: Jacob Duck (c.1600 –1667), em “Herberginterieur” (‘Interior de Albergue”). No quadro, vê-se um enorme nieuwskaart, mistura de mapa com jornal, em que textos acompanham as imagens. Este tipo de publicação servia ao mesmo tempo como propaganda dos acontecimentos políticos da época e como decoração de parede. Em “Interior de Albergue”, o mapa dá a notícia da conquista de Pernambuco pelos holandeses em 1630.
Como mostram as obras de De Man e de Duck, os mapas eram também utilizados para decorar o interior das casas. A partir do final do século XVI e início do XVII, este é um fenômeno novo no mercado de arte dos Países Baixos: o destino da maioria das obras não era mais a Igreja ou uma instituição municipal ou corporativa (como uma prefeitura). Agora eram os regentes (diretores e administradores de instituições públicas), os mercadores e os artesãos especializados – ou seja, a população urbana de classe média – que encomendavam e compravam quadros. O mesmo acontecia com os mapas: eles eram usados cada vez mais como decoração de parede no interior de casas burguesas.

As pessoas que penduravam mapas ou quadros do Brasil em suas casas eram, na maioria das vezes, altos funcionários das Companhias de Comércio ou então mercadores de alguma maneira ligados aos produtos que vinham desta porção da América. Matias van Ceulen (1595-1644), que foi diretor da WIC e membro do Alto e Secreto Conselho do Brasil Holandês, tinha em casa seis obras relativas à sua experiência. Na ante-sala, pendurou um mapa do Brasil, um mapa do Recife, dois retratos de Maurício de Nassau e uma natureza-morta com frutas ocidentais. No escritório, tinha um mapa do Rio Grande – província que ele ajudara a conquistar em 1634. Cornelis Nason (1593-1648), tintureiro em Amsterdã, usava o pó raspado da madeira pau-brasil para fazer pigmento vermelho. Ele decorou sua sala principal com uma representação da luta pela Bahia de Todos os Santos, ocorrida em 1624.

As ante-salas eram o espaço preferido para a exibição dos mapas do Brasil e de outras regiões do mundo. Numa típica casa burguesa holandesa do século XVII, era naquele ambiente que se trabalhava, que se faziam negócios, que se vendiam produtos. Ela era o cômodo mais público da casa e, por isso mesmo, o melhor lugar para ostentar a posição social de quem ali vivia e trabalhava. Pendurar mapas na ante-sala era uma forma de simbolizar o envolvimento de seu dono com a administração das colônias ou com a principal atividade econômica do período: o comércio ultramarino.
No quadro “O Jovem Erudito”, o mapa de Recife e Olinda revela como a economia, a ciência e a arte andavam de mãos dadas. Esta bela imagem condensa, num espaço pequeno e colorido, os vários sentidos e as conseqüências da expansão marítima neerlandesa. E nos lembra que, em mais de um sentido, durante todo o século XVII os holandeses puseram o Brasil no mapa.

Mariana Françozo é doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp com a tese “De Olinda a Olanda: a circulação de pessoas, objetos e saberes no Brasil Holandês”.

Saiba Mais - Livros:

ALPERS, Svetlana. A Arte de Descrever: a arte holandesa no século XVII. Edusp, 1999.

LOUGHMAN, John & MONTIAS, John Michael. Public and Private Spaces: Works of Art in Seventeenth-Century Dutch Houses. Zwolle: Waanders, 2000.

MELLO, José Antônio Gonsalves de. A Cartografia Holandesa do Recife. Iphan/MEC, 1976.

SCHAMA, Simon. O Desconforto da Riqueza. A Cultura Holandesa na Época de Ouro. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

Saiba Mais - Filme:

“Moça com Brinco de Pérola”, de Pieter Webber (2003), sobre a vida do pintor Johannes Vermeer.

Saiba Mais - Site:

Gabinete Real de Pintura dos Países Baixos: www.mauritshuis.nl

Post: arte repatriada

As mais exóticas e ricas paisagens retratando o “Novo Mundo” vistas na Europa do século XVII foram retidas pelos olhos e pelo pincel do holandês Frans Post. Considerado o primeiro e mais importante pintor da América, Post (1612-1680) era originário de Haarlem – na época, o segundo maior centro cultural holandês – e iniciou sua carreira ainda jovem, na comitiva de Maurício de Nassau. Este foi o responsável pela contratação de Post na condição de documentarista da expedição da Companhia das Índias Ocidentais e pela sua vinda ao Brasil, em 1637. Sua tarefa era documentar com precisão a paisagem e os aspectos topográficos nas novas terras. Foi o que ele fez durante quase oito anos. No seu retorno à Holanda, dedicou-se a recriar quadros que reproduziam com relativa fidelidade – e invariável sucesso – as paisagens vistas no Brasil.

Um dos primeiros quadros de Frans Post “recuperados” pelo Brasil é uma paisagem com ruínas de Olinda. Adquirido pelo visconde de Cavalcanti no final do século XIX, foi doado por sua família, no início do século seguinte, ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), no Rio de Janeiro. A iniciativa foi o primeiro sinal de interesse dos brasileiros pela volta das obras do artista para o país. Outra aquisição importante foi “Mocambos”, um dos quadros da coleção de paisagens de Post. Repatriado pelo Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) em 1942, por mérito de seu primeiro diretor, Oswaldo Teixeira, tem as qualidades estéticas da fase em que o pintor retornou à Holanda. O que distingue esta pintura de excepcional qualidade (óleo sobre madeira de carvalho) é a representação de habitações indígenas com seu feitio diferente – o que acabou atraindo o pintor para a arte de construir, seduzido também por seu irmão Pieter, arquiteto dos mais afamados de seu tempo.
Além de revelar aspectos dos primórdios da colonização do Brasil, a obra de Frans Post ajuda a compreender como o gênero da paisagem foi processado na Holanda durante o século XVII.

A título de curiosidade, vale lembrar a exposição itinerante “Paisagens brasileiras pelos artistas estrangeiros”, produzida pelo Arte Sesc – DN (Departamento Nacional) em 1993, que contribuiu para a divulgação da obra de Frans Post em todo o país. Com reproduções de alta qualidade, as obras de Frans Post e de outros artistas foram vistas ao longo de três anos por milhares de brasileiros. Após a última apresentação, na cidade de Palmas, a carga foi perdida nos confins do estado de Tocantins. Talvez na expectativa de que fossem valiosos originais...

Zuzana Paternostro é doutora em História da Arte e membro do Codart (Associação Internacional de Curadores de Arte Holandesa e Flamenga)

Revista Nossa Historia