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domingo, 30 de setembro de 2018

Bonaparte na cabeça


O imperador ainda é referência na política e na cultura

Vivi Fernandes de Lima

Um louco encontra um colega nos corredores do hospício e fala: “Eu sou Napoleão!” O outro fica indignado: “O quê? Quem te disse isso?” A resposta é ainda mais ousada: “Deus”. O outro estranha: “Eu?” Esta é uma das piadas que circulam em conversas bem-humoradas que têm o imperador francês como personagem, tocando numa característica marcante dos relatos sobre sua personalidade: a mania de grandeza. Só mesmo Deus seria capaz de dizer algo superior ao general. Essa mesma megalomania pode ser o que associa a imagem de Napoleão à loucura. Em 2001, no longa-metragem de ficção “As novas roupas do imperador”, de Alan Taylor, o próprio general desiste de informar sua identidade quando descobre um manicômio onde todos os internos dizem ser Napoleão Bonaparte e ostentam, inclusive, o mesmo tipo de chapéu de sua farda.

No Brasil, não é só nas piadas que o personagem histórico está presente. A lista telefônica indica a existência de mais de dois mil Napoleões que vivem no Brasil. O consultor de informática e professor Napoleão Verardi, paulistano, 54 anos, é um deles. A escolha de seu nome foi uma homenagem ao avô materno, que era italiano. “Mas eu não botaria esse nome nos meus filhos. Ele carrega um peso muito grande. Não dá pra passar despercebido”, diz Verardi, habituado a ouvir brincadeiras como “qual a cor do seu cavalo branco?” ou “foi assim que Napoleão perdeu a guerra”. 

O administrador Napoleão Roque, baiano, 58 anos, também não acha mais graça nessas piadas. No trabalho, quando atende o telefone, já indica que não é muito chegado a seu primeiro nome. Ele atende: “Alô, Roque falando”, omitindo o Napoleão. “Eu não suporto meu nome. É muito forte, não combina comigo. Sou uma pessoa tranquila”, diz ele, que foi batizado em homenagem ao bisavô. Se ele odeia se chamar Napoleão, imagine se também fosse Bonaparte? A resposta vem sem hesitação, em bom baianês: “Ave Maria! Eu ia pedir pra morrer!”

Mas nem todos pensam assim. Napoleão Bonaparte Gomes é oficial da Marinha aposentado e adora seu nome. “Acho que talvez isso tenha me influenciado a seguir a carreira militar. É uma grande honra ser homônimo do imperador francês, porque ele é um exemplo a ser seguido”, diz Gomes, que alcançou o posto de vice-almirante da Armada. 

Já a fisioterapeuta carioca Daniela, 35 anos, tem o nome do imperador no sobrenome. Ela gosta tanto que o repetiu na certidão de suas duas filhas. “É um tipo de marketing. Quando apresentamos nosso nome, todo mundo lembra”, diz Daniela, orgulhosa. Aliás, segundo ela, a família inteira gosta muito do nome. “Eu tinha até um tio que se chamava Waterloo”, lembra, achando graça na referência à batalha que pôs fim à carreira vitoriosa do líder dos franceses.

Não é só nas certidões de nascimento que Napoleão está presente no Brasil. Volta e meia, programas de TV, grafiteiros e até escolas de samba relembram o imperador francês. A autora de telenovelas Janete Clair (1925-1983) chegou a criar em “Rosa Rebelde” (1969) uma trama em torno do exército do general. Em 2008, a escola de samba Imperatriz Leopoldinense desfilou na Marquês de Sapucaí cantando “Ou ficam todos/Ou todos se vão/Embarcar nessa aventura/E au revoir Napoleão”, uma referência à vinda da família real portuguesa para o Brasil. No ano passado, a TV Globo exibiu o especial infanto-juvenil “A princesa e o vagabundo”, cuja trama se baseava nas conquistas napoleônicas: o reino fictício da Landinóvia é invadido pelo exército de Napoleão e a princesa Lili é salva pelo vagabundo Didi, interpretado por Renato Aragão.

Fã do personagem histórico, o sociólogo e crítico literário Antonio Candido de Mello e Souza guarda uma coleção de postais com a imagem de Napoleão e suas batalhas. “Comecei minha coleção em 1929, numa viagem a Paris. Hoje tenho mais de 60 postais. Os italianos são mais raros”, diz ele, contando que alguns são em alto-relevo e mais coloridos, com a notoriedade de especialista no assunto. Quanto ao motivo do interesse por Napoleão, Antonio Candido é enfático: “Ele foi um grande general e dominava a arte militar. Transformou o seu tempo”.

O historiador Modesto Florenzano, da USP, reconhece que ainda há um fascínio pelo general, que já foi bem maior. Segundo ele, nenhum outro personagem histórico encheu tanto o imaginário da população quanto Napoleão no século XIX: “A fama vem de sua genialidade no plano político e militar e também do fato de ele ter saído do nada. Napoleão chegou ao poder pelos próprios méritos, não nasceu em berço de ouro. Isso é inédito. Ele teve uma projeção avassaladora, venceu batalhas espetaculares. Não houve em nenhum rincão da Europa alguém que não soubesse quem era Napoleão. Essa referência foi passada de pai para filho e chegou ao Brasil”. 

Para Florenzano, a popularidade de Napoleão pode ser comparada à de nomes como Carlos Magno. A força de sua imagem começou a diminuir na Revolução Russa: “Na Primeira Guerra Mundial, outros líderes começaram a aparecer, como Lênin, Stalin, Trotski e Mussolini”. Apesar de ter a atenção dividida com outras personalidades, a memória de Napoleão é bastante presente, sempre com imponência. Para se ter uma ideia, seus restos mortais, guardados no Hotel dos Inválidos, em Paris, foram colocados de modo que o visitante tenha que se abaixar para ver o túmulo, ficando obrigatoriamente em postura de reverência. “Eu duvido que alguém adepto da esquerda política vá visitar o túmulo de Mussolini, por exemplo. Mas o túmulo de Napoleão recebe visitantes de esquerda e de direita”, exemplifica Florenzano.

A mesma idolatria chegou a outros cantos do mundo. Na Eslovênia, há um monumento em homenagem ao general. Em Havana, Cuba, existe o Museu Napoleônico, que abriga objetos pessoais do imperador. Em Nova Orleans, nos Estados Unidos, a Napoleon House é uma das atrações turísticas do centro histórico da cidade. Conta a lenda que a casa iria abrigar o imperador depois de executado um plano de fuga na época em que ele estava exilado na ilha de Santa Helena. A história se encaixaria bem com o plano da passagem de Napoleão por Pernambuco em 1817, já que, depois de desembarcar no Recife, ele iria seguir para os EUA [ver artigo “A besta e o mito”, pág. 26]. Mas estudos comprovam que a casa foi construída depois da morte de Napoleão.

No cinema, a vida do general ou suas conquistas são retratadas em diversos filmes. O maior banco de dados de produção audiovisual da Internet, The Internet Movie Database, registra mais de 70 títulos de filmes com o nome Napoleão. Se forem somadas as séries de TV, esse total passa dos 100. Mesmo assim, as criações em torno do famoso general parecem não ter fim. Este ano, será lançado o filme “Betsy and the emperor” (ainda sem título em português) – baseado no livro infantil de Staton Rabin – com o ator Al Pacino interpretando o imperador no período do exílio.

Outro roteiro cinematográfico, desta vez brasileiro, pretende chegar às telas mostrando um ponto de vista diferente para o período em que Napoleão esteve preso. O cineasta Germano Coelho está trabalhando no projeto do filme “1817”, que irá tratar da Revolução Pernambucana, quando foi articulada a passagem de Napoleão pelo país. Para o pesquisador e jornalista Leonardo Dantas, o episódio é tão pouco conhecido quanto a própria Revolução de 1817. “Mas não tem nada de imaginário, é real”. O historiador Oldimar Cardoso, da USP, já foi ao Arquivo Estadual do Recife em busca das correspondências que comprovem a articulação deste plano, mas não as encontrou. Essas comunicações já foram descritas no livro Aventuras e aventureiros no Brasil (1929), de Alfredo de Carvalho. “O problema é que o arquivo é muito desorganizado. São pilhas de documentos que os pesquisadores não sabem nem por onde começar o trabalho. Dizem que as cartas estão lá. O difícil é achá-las”, conta Oldimar.

Enquanto pesquisadores procuram relatos que comprovem o plano de fuga, a população parece estar mais interessada na ficção, inventando e recriando piadas a cada dia em torno do imperador dos franceses. O imaginário é tamanho que a fama de loucos brasileiros que se apresentam como Napoleão, ao que parece, é um mito. O psiquiatra e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz Marco Aurélio Soares Jorge, esclarece: “Um esquizofrênico pode ter delírios a ponto de achar que é a reencarnação de uma pessoa famosa. Mas, normalmente, esse delírio está mais próximo da cultura dessa pessoa. Em 30 anos de profissão, nunca tive nenhum paciente que achasse que era Napoleão. O brasileiro delira que é o presidente da República, Jesus e até Xuxa”. Mas os piadistas não ligam para a realidade. Parece que com Napoleão as anedotas ficam melhores.

Saiba Mais - Internet

SILVA, Leonardo Dantas. “A fracassada fuga de Napoleão para o Brasil”.
Revista Algo Mais
Revista de História da Biblioteca Nacional

O imperador e o monstro


Mesmo retratado como anticristo, Napoleão conquistou D. Pedro e a população brasileira

Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves

Terra corrompida, mentira, impiedade, cauda de pavão, unha de tigre ensanguentada, coração de um corso e cabeça de raposa: estes são ingredientes da Receita especial para fabricar Napoleões, um soneto publicado em folheto que circulou no Rio de Janeiro em 1809. Os dois tercetos ensinam o preparo da “iguaria”:

“Tudo isto bem cozido em lento fogo
De exterior fagueiro, meigo e brando,
Atrevida ambição lhes lances rogo:

Deixa que se vá tudo incorporando,
E assim mui presto espera; porque logo
Sai um Napoleão dali voando”.

Folhetos como esse – impressos em Portugal ou aqui reimpressos – eram anunciados por livreiros na Gazeta do Rio de Janeiro. Títulos como Besta de Sete Cabeças e Dez Cornos ou Napoleão, Imperador dos franceses já indicavam a que se propunham as publicações: combater Bonaparte. Tanto pelo preço baixo como pelo pequeno número de páginas, os panfletos eram publicações mais acessíveis para a divulgação das ideias e tiveram maior circulação que os jornais. Incapazes de ler, as camadas mais humildes da sociedade podiam escutar a leitura em voz alta, assimilando as informações pelo filtro de sua imaginação.

Centenas de publicações – além de panfletos, havia páginas de pequenas histórias e anedotas – traduziram os momentos difíceis vividos pelo mundo luso-brasileiro. Portugal sofria com a ausência do soberano e a guerra de ocupação em seu território [Ver artigo “Anos de terror”, pág. 22]. Mesmo o Brasil, agora cenário da Corte portuguesa, do qual deviam emanar os novos atos administrativos do Império português, vivenciou momentos difíceis na ordem política e econômica. Os escritos chegaram a atingir o número de mais de três mil, em Portugal, entre 1808 e 1814. 

No Rio de Janeiro, os livreiros anunciavam “obras novas”, que reduziam Bonaparte a um usurpador e exterminador de envergadura medíocre, dono de um caráter feroz e sanguinário, cuja carreira fora mesclada de crimes sórdidos. Nessa literatura, a religião era usada para atingir um público mais amplo, divulgando as críticas ao regime francês por meio do antigo costume de parodiar formas religiosas. Um exemplo é Sinal da Cruz, de autor desconhecido, que circulou pelas ruas de Lisboa e do Rio de Janeiro: 

“Conheces o Jinó?
Eu nunca cheguei a ver.
Pois é bom de conhecer
Pelo sinal.
Da França é general,
É um impostor, usuário,
E, também adversário
Da Santa Cruz.
Santo nome de Jesus!
Não há quem dele dê cabo?
De semelhante diabo
Livre-nos Deus.”

Eram também comuns as cartas fictícias aos amigos ou da mãe do imperador, Letícia, dirigida ao filho. Era uma paródia em que Letícia se considerava a “mulher mais desgraçada”, por ter nutrido em suas entranhas um monstro a que todos maldiziam. Esses folhetos também exaltavam o heroísmo português e a virtude britânica.

Em todos esses escritos, há muitas informações forjadas. Monstros e demônios, conspirações e medos foram elaborados recuperando os símbolos e os valores que opunham o bem ao mal. Nesse caso, o mal era representado pelo “monstro do Universo” – Napoleão, o “herói que a Córsega vomitou sobre a face da Europa na força de seu furor”. O herói-deus, o bem, é o que consegue vencer Bonaparte, ainda que temporariamente. É quando aparece a imagem de D. João. Este era o “Príncipe virtuoso, amigo da Igreja e de seus Ministros”.
Esse imaginário escatológico tomava o próprio Bonaparte como símbolo atualizado do mal, considerando-o até o próprio anticristo. Assim, “o dragão e a besta do Apocalipse” consistiam “em Napoleão Bonaparte e no Império francês”. O imperador dos franceses encarnava a besta que saía do mar. Sobre seus cornos havia dez coroas, que simbolizavam o poder exercido por ele na Europa. 

Impregnada por essas imagens, a Corte portuguesa, no Rio de Janeiro, tomava atitudes práticas contra qualquer suspeita de adesão às ideias francesas. Ainda em 1º de maio de 1808, lançou o Manifesto ou exposição justificativa do procedimento da Corte de Portugal a respeito da França. O documento anunciava o rompimento de “toda a comunicação com a França”, autorizando os súditos portugueses “a fazer a guerra por terra e mar aos vassalos do Imperador dos Franceses”. Além disso, a Intendência da Polícia passou a acompanhar os estrangeiros. Vigiava também os súditos do Reino, como Domingos Borges de Barros, denunciado e preso como suspeito de vir da França, por via dos Estados Unidos, em companhia de um espanhol, que podia bem ser “um emissário de Bonaparte”.

Apesar de toda essa repressão, o fascínio que Napoleão Bonaparte exerceu em sua época contaminou os brasileiros. Um fato curioso ocorreu no Recife em 1817, quando o imperador dos franceses já estava preso na ilha de Santa Helena. Tratava-se de uma hipotética conspiração, que tinha como finalidade trazer Napoleão para o Brasil. Antigos oficiais do Exército francês teriam mantido contato com o comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, o “Cabugá”, enviado aos Estados Unidos como representante dos rebeldes pernambucanos de 1817 para obter o apoio da república do Norte. 

Previa-se o desembarque de alguns franceses no Nordeste brasileiro para contatar o governo revolucionário de Pernambuco e organizar uma expedição que, saindo de Fernando de Noronha, iria a Santa Helena. Apesar de “misteriosa e suspeita”, essa conspiração apresenta algumas pistas documentais, como a comprovação do desembarque de quatro franceses, em fins de 1817, no litoral do Nordeste. Um deles chegou a informar ao governador do Recife que seu objetivo era conseguir apoio do governo de Pernambuco para uma expedição que iria evadir o ex-imperador do exílio. Havia ainda uma série de proclamações anônimas, mencionadas pela historiografia francesa, que circularam principalmente na região parisiense, em 1817, entre as camadas populares. Esses escritos afirmavam que insurretos sul-americanos iriam resgatar Bonaparte. 

Outro documento, localizado junto ao Gabinete de D. João, faz ainda referência a uma petição de Luciano Bonaparte, em janeiro do mesmo ano, para ir aos Estados Unidos. O pedido de passaporte ao cardeal Secretário de Estado de Roma – onde Luciano residia – justificava-se por ter que transportar seu filho, que iria se casar com a filha de seu irmão José, já estabelecido na América. Houve toda uma preocupação das quatro potências – Inglaterra, Áustria, Rússia e Prússia – que derrotaram Napoleão em negar o visto. 

O representante português em Roma ficou preocupado por ser uma petição “muito suspeitosa”. Primeiro, pelo risco de pregação da independência e separação da metrópole na América ibérica; segundo, pela oportunidade de haver uma reunião de toda a família Bonaparte. Seriam rumores do Antigo Regime ou notícias com um fundo de verdade? Sem dúvida, é possível deduzir, pelo menos, que agentes bonapartistas estiveram no Brasil e que a ideia mais provável era a de levar Bonaparte para os Estados Unidos, onde seu irmão José já se encontrava. [Veja infográfico na página 30]

Outra presença napoleônica em terras brasileiras foi o conde Dirk van Hogendorp, general holandês que se alistou nas tropas francesas e foi ajudante de campo do imperador. Francês por adoção, emigrou para o Brasil em 1816. Sobre sua estada no Rio de Janeiro, há alguns registros de estrangeiros que iam procurá-lo atraídos pela fama de suas aventuras e de sua fidelidade ao soberano deposto. A arquiduquesa Leopoldina e o próprio D. Pedro também o visitavam. Este também tinha afeição por ele, chegando a conceder-lhe uma pensão. Quando soube de sua morte (sem receber a quantia de cem mil francos que Napoleão lhe deixara em testamento), ordenou o pagamento de seu funeral. Por trás dessa figura singular, talvez existisse o mito de Napoleão, que fascinara também o jovem imperador do Brasil.

Para muitos contemporâneos da coroação de D. Pedro, em 1º de dezembro de 1822, como o barão de Mareschal, a cerimônia fora copiada da coroação de Napoleão Bonaparte. Outra possível influência do general francês nas ações de D. Pedro foi a criação da Ordem Imperial do Cruzeiro, que conferia privilégios, tanto sociais como legais, e servia de expediente para “remunerar os serviços” dos cidadãos mais ilustres. Bonaparte, logo após ser proclamado cônsul vitalício em 1802, criou uma organização semelhante, a Legião de Honra, que simbolizava uma milícia do regime. Era uma ordem que poderia ser concedida a todos os cidadãos que se destacassem por seus serviços à nação – a maior condecoração nacional daquela época. Mas D. Pedro I ia além, pois fazia da Ordem Imperial um meio de distinção social, refazendo a nobreza.

Como se vê, no período das invasões francesas na Europa houve vários e diferentes relatos sobre Napoleão e a França Imperial, comuns nos períodos de crise política. Mesmo romanceadas pela posteridade, as representações “do herói do século XIX” apontam para o fascínio que Bonaparte exerceu em sua época.

Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves é professora titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora de Napoleão Bonaparte: imaginário e política em Portugal (c.1808-1810) (Alameda, 2008) e “Imagens de Napoleão Bonaparte na ótica dos impressos luso-brasileiros”. In: Eliana F. Dutra & Jean-Yves Mollier (orgs.). Política, Nação e Edição. O lugar dos impressos na construção da vida política. (AnnaBlume, 2006).


Saiba Mais - Bibliografia

GALLO, Max. Napoleão. Niterói: Casa Jorge Editorial, 2003.

GRIECO, Donatello. Napoleão e o Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1955.

LENTZ, Thierry. Napoleão. São Paulo: Editora Unesp, 2008.

TULARD, Jean. Napoleão. O mito do Salvador. Niterói: Casa Jorge Editorial, 1996.
Revista de História da Biblioteca Nacional

Mitos de além-túm


Entre acusações de manipulador e assassino do idealismo republicano, as controvérsias sobre o imperador francês perpassam sua morte

Raquel Stoiani


Caricatura alemã representando a carreira de Napoleão, da infância à derrota em Waterloo e ao exílio. Na "Lenda Napoleônica", ele foi transformado em um mártir que morreu solitário em Santa Helena.Uma preocupação constante de Napoleão Bonaparte foi a construção de sua imagem pública. Enquanto esteve no poder (1799-1815), ele estruturou uma complexa máquina de propaganda. Do homem da paz ao deus da guerra, do herói revolucionário à vítima dos contrarrevolucionários, comparando-se a Carlos Magno ou a Aníbal, modificava sua figura pública de acordo com as necessidades do momento. Seus opositores, por sua vez, buscaram desfigurá-lo com o mesmo empenho.

O famoso escritor romântico François René Auguste de Chateaubriand (1768-1848) foi um dos principais críticos da tirania imperial. A obra De Buonaparte et des Bourbons (1814), publicada logo após a primeira abdicação do imperador (1814), traz o retrato mais repulsivo de Napoleão: o destruidor, o estrangeiro de origem corsa indiferente à França, o devorador de gerações de jovens, o supressor de toda livre opinião, enfim, o tirano. Madame de Staël (1766-1817), escritora e dona de um famoso salão literário em Paris, também foi juíza severa do regime napoleônico. Nas Considérations sur la Révolution Française (1818), sua principal acusação a Bonaparte é a de assassino do idealismo republicano. Napoleão inicia um governo que se torna cada vez mais autocrático e abandona o ideal republicano em prol de uma monarquia, o império. É retratado como um egoísta manipulador dos homens, sem fé ou pátria, que não teria outro propósito além de sua própria grandeza.

Panfletos, charges e vários outros escritos, surgidos, em sua maioria, na Inglaterra – cabeça das coalizões contra a França –, fizeram circular pela Europa afora essas imagens negativas. Um exemplo é a caricatura “La Grande Procession de Couronnement de Napoléon Ier” (1805), do inglês Gillray, um de seus mais célebres trabalhos subvencionados pelo governo britânico. Trata-se de uma paródia do imenso quadro de David da teatral e suntuosa cerimônia de coroação de Napoleão em Notre-Dame. Nela, o cortejo imperial é representado de forma grotesca. O imperador aparece vestido como um rei de ópera bufa; Josefina, sua esposa, aparece obesa e deformada; o papa Pio VII, abatido e amedrontado, e os representantes das potências europeias, que ajudam a carregar o manto imperial, malvestidos e mal penteados, parecendo se curvar ao imperador mais por um problema de coluna do que por um respeito verdadeiro.

E além: com a vinda da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808, a má fama de Napoleão desembarcou nos trópicos. Afinal, D. João deixou Portugal escapando dos invasores franceses. Na Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822), primeiro periódico da América portuguesa, o príncipe regente fez circular o discurso e as imagens antinapoleônicas. Um levantamento estatístico das palavras mais utilizadas no jornal para se referir a Bonaparte indica os termos “tirano”, “usurpador” e “corso”. Recebia ainda outras caracterizações nada lisonjeiras, como louco, megalomaníaco ou o próprio anticristo. Enfim, era a soma de todos os males, uma ameaça que parecia estar à espreita e precisava ser combatida. O que se explica não apenas pelo trauma da invasão a Portugal: a intensa propaganda antinapoleônica atendia aos interesses do governo de D. João, justificando uma série de medidas de vigilância na nova sede do Império.

Após a morte de Napoleão, o livro Mémorial de Sainte-Helène (1823), de Emmanuel de Las Cases (1766-1842), teve imensa influência na França. O autor reúne uma série de anotações de conversas com o imperador, a quem acompanhara em seu último exílio. Começava a surgir a chamada “Lenda Napoleônica”, enriquecida ao longo do século XIX por poetas e novelistas comovidos com o trágico destino de Bonaparte. Ele passou a ser visto por muitos como um mártir mantido preso pelos vingativos reis europeus na distante ilha de Santa Helena, próxima à costa ocidental da África, onde morrera solitário. Las Cases descreve um Napoleão que passa a limpo sua carreira e se defende das acusações dos inimigos. Ali ele aparece como o filho da Revolução Francesa, o homem que consolidou a posse da igualdade de direitos, que tornou possível a saída da França do feudalismo, glorificando-a com suas vitórias; que arrancou à força a paz dos monarcas que odiavam a nação revolucionária e que se viu forçado a conquistar a Europa em legítima defesa.

Bom exemplo da influência da Lenda Napoleônica na historiografia é a Histoire du Consulat et de l’Empire (1845-1862), em que Adolphe Thiers (1797-1877) [ver box] demonstra admiração e afeição pelo imperador, aplaudido como o inimigo implacável do imperialismo inglês, o consolidador da Revolução em casa e seu promotor no exterior. Aquele que amou a França e primou pela honra, pelo poder e pelos interesses da nação.

Por volta de 1860, os ataques à Lenda Napoleônica ganharam força no campo da oposição ao governo de Napoleão III (1852-1870), que tinha como um dos seus pilares justamente a veneração ao falecido tio. Em Les Origines de la France Contemporaine (1890), o historiador Hippolyte Taine (1828-1893) exemplifica bem essa ofensiva contra a Lenda Napoleônica. Seu retrato do general-imperador causou sensação ao revelá-lo como uma criatura destituída de humanidade, brutal, cruel, sedenta de conquistas, um malfazejo demônio de origem estrangeira deixado solto na França e na Europa. Para Taine, as paixões violentas o levaram a cometer erros graves e a jamais considerar os interesses da França, que ele arrastou pouco a pouco para o abismo, como faria seu sobrinho. Mas nem esse perfil arrasador impediu o historiador de reconhecer méritos no período napoleônico. Segundo ele, a França devia a Napoleão a restauração da ordem institucional, uma modelar máquina burocrática e o estímulo do princípio da oportunidade para todos (a carreira aberta ao mérito e não condicionada ao nascimento), embora essas condições tenham sido impostas com mão de ferro e pelo silenciamento da opinião pública.

No início do século XX, Napoleão começa a ser apreciado de forma mais contida, ainda que as paixões continuem após a virada do século que viu o auge e a decadência do imperador. Georges Lefèbvre (1874-1959), em seu Napoléon (1935), enfatiza as realizações positivas do imperador e aprecia a grandeza de sua figura, mas não toma partido e evita julgamentos morais. Seu trabalho passou a ser referência nos estudos sobre Napoleão, ao destacar o imperador como um típico homem racionalista do século XVIII, que detestava o feudalismo, a desigualdade civil e a intolerância religiosa. A proteção dada por Napoleão ao nascente capitalismo francês levou ao progresso desse capitalismo e, consequentemente, ao desenvolvimento da burguesia. Por outro lado, seu estilo autoritário afastava-o dos mesmos ideais revolucionários. Era capaz de consultar os demais, mas nunca de debater ou discutir suas decisões. Em resumo: para Lefèbvre, Napoleão foi o último representante do despotismo esclarecido, ao combinar autoridade e reforma política e social.

No Brasil, os estudos sobre o tema tiveram como marco pioneiro o artigo “Napoleão I no Brasil”, de Ferreira da Costa, na Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, em 1903. O autor revela uma trama em que se entrecruzam os acontecimentos revolucionários de 1817 em Pernambuco e planos de fuga de Bonaparte da ilha de Santa Helena. De lá para cá, interpretações brasileiras em torno do personagem foram incipientes, mas é interessante observar o retorno do fascínio por Napoleão em análises mais recentes. Exemplo é Napoleão Bonaparte, em que a historiadora Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves reconstrói a luta política e ideológica do período por meio de jornais e panfletos políticos.

Tudo indica que o confronto entre as várias interpretações continuará indefinidamente. Diversos Napoleões permanecem flutuando entre a “antiga ordem” e a “nova ordem” – ou entre os valores de antes e depois da Revolução Francesa. Assim como sabia se vender sob variadas facetas, ele se tornou um personagem fluido, cujo esboço não permite contornos definitivos.

A divergência de opiniões sobre Napoleão, que impede que sua figura seja traçada de modo conclusivo, parece ter sido pressagiada no quadro de Jacques-Louis David (1748-1825). Grande nome da pintura neoclássica francesa, David foi um dos principais artistas a auxiliar o imperador em sua política de autoglorificação. O primeiro retrato que o artista fez de Napoleão, enquanto este ainda era general, permaneceu inacabado.

Raquel Stoiani é autora da tese “Napoleão visto pela Luneta d’El Rei: construção e usos políticos do imaginário francês e napoleônico na América portuguesa (ca. 1808-1821)” (USP, 2009).


Saiba Mais - Bibliografia

BERTRAND, Jean-Paul; Forrest, Alan & Jourdan, Annie. Napoléon, le Monde et les Anglais. Guerre de Mots et des Images. Paris: Éditions Autrement, 2004.

GEYL, Pieter. Napoleon For and Against. New Haven/London: Yale University, 1963.
HOLTMAN, Robert. Napoleonic Propaganda. Bâton Rouge: Louisiana State University Press, 1950.
KAFKER, Frank A. & Laux, James M. (ed.). Napoleon and His Times: selected interpretations. Malabar, Flórida: Krieger Publishing Company, 1991.

Saiba Mais - Filmes

“Guerra e Paz”, de King Vidor (1956).
“Monsieur N”, de Antoine de Caunes (2003).
“As Novas Roupas do Imperador”, de Alan Taylor (2001).
“Napoleão”, de Abel Gance (1927).
Revista de História da Biblioteca Nacional

domingo, 4 de novembro de 2012

O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte

Sueli do Rocio de Lara
Mestre em Filosofia pela Universidade Gama Filho

MARX, Karl. O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte. São Paulo: Centauro, 20061.

Escrito entre dezembro de 1851 e março de 1852, publicado originalmente na revista Die Revolution, a obra em questão parte da análise concreta dos acontecimentos revolucionários na França, entre 1848 e 1851, acontecimentos esses que levaram ao golpe de estado em que Napoleão III se nomeou imperador, à semelhança de seu tio Napoleão I. Brumário é a data que corresponde ao calendário estabelecido pela Revolução Francesa e equivale a 9 de novembro do calendário gregoriano; é o mês do calendário republicano francês.

O livro é uma das obras mais importantes do marxismo, no qual se abordam teses fundamentais do materialismo histórico: teoria da luta de classes e a da revolução proletária, a doutrina do Estado e da ditadura do proletariado. É de suma importância a conclusão de Marx sobre a atitude do proletariado em relação ao Estado burguês. Também nesta obra foi desenvolvida a questão do campesinato como aliado da classe operária na revolução iminente. Explica, ainda, o papel dos partidos políticos na vida social e formula uma caracterização profunda da essência do bonapartismo.

Marx demonstra, nesse texto, o enfoque conjuntural acerca do Estado francês, assim como entrevê algumas contribuições desta importante obra para a análise do político. Observa-se que Marx aponta nela uma das características do Estado centralizado moderno: a constituição de um aparelho militar e civil (exército, burocracia). Além disso, discute como a república parlamentar se constitui como um espaço político - uma forma pura de dominação ou forma pela qual a burguesia exercia seu poder sem mediações - do qual a burguesia teve que se desfazer, tendo em vista que se constituía num momento em que as maiorias poderiam usurpar este poder. 

O método adotado por Marx ao se propor entender o Estado francês na época do 18 Brumário de Luís Bonapartese faz a partir da análise histórico-sociológica do momento vivido. Se, por um lado, o Estado pode ser visto enquanto categoria abstrata, ou seja, pela análise de uma ou de algumas determinações do fenômeno, por outro a maior quantidade de determinações se aproxima de uma construção mais concreta do mesmo Estado.

No prefácio da terceira edição, de 1885, Engels afirma:


... a grande lei da marcha da história, lei segundo a qual todas as lutas históricas que se desenvolvem quer no domínio político, religioso, filosófico, quer em outro qualquer campo ideológico são, na realidade, apenas a expressão mais ou menos clara de lutas entre classes sociais, e que a existência e, portanto, também os conflitos entre essas classes são, por sua vez, condicionados pelo grau de desenvolvimento de sua situação econômica, pelo seu modo de produção e de troca, que é determinado pelo precedente (MARX, 2006, p. 13).

Uma análise que coloca no centro da discussão o conflito de classes é operada pelo autor. Há de se observar a descrição de como a burguesia exerce poder sobre o proletariado e o campesinato:


A fração republicano-burguesa, que há muito se considerava a herdeira legítima da Monarquia de Julho, viu assim excedidas suas mais caras esperanças; alcançou o poder, não, porém, como sonhara, sob o governo de Louis Philippe, através de uma revolta liberal da burguesia contra o trono, e sim através de um levante do proletariado contra o capital, levante esse que foi sufocado a tiros de canhão (MARX, 2006).

Podemos dizer que temos dois segmentos dentro de uma mesma sociedade exercendo poder através de relações que servem para sustentar a dominação: o Estado, na figura de Luís Bonaparte, que faz suas artimanhas e, prevalecendo-se do seu parentesco com Napoleão Bonaparte, dá o golpe e conquista o poder sobre o povo, e a burguesia que mantém poder sobre as demais classes.

Enquanto o proletariado de Paris deleitava-se ainda ante a visão das amplas perspectivas que se abriam diante de si e se entregava a discussões sérias sobre os problemas sociais, as velhas forças da sociedade se haviam agrupado, reunido e encontrado o apoio inesperado da massa da nação: os camponeses e a pequena burguesia. As reivindicações do proletariado de Paris são consideradas devaneios utópicos, a que se deve por um paradeiro. A essa declaração da Assembléia Nacional Constituinte o proletariado de Paris respondeu com a Insurreição de junho, segundo o autor o acontecimento de maior envergadura na história das guerras civis da Europa. A república burguesa triunfou. A seu lado alinhavam-se a aristocracia financeira, a burguesia industrial, a classe média, a pequena burguesia, o exército, o lúmpen proletariado organizado em Guarda Móvel, os intelectuais de prestígio, o clero e a população rural. Do lado do proletariado de Paris não havia senão ele próprio. Mais de três mil insurretos foram massacrados depois da vitória e quinze mil foram deportados sem julgamento. Com essa derrota o proletariado passa para o fundo da cena revolucionária.

A história da Assembléia Nacional Constituinte a partir das jornadas de junho é a história do domínio e da desagregação da fração republicana da burguesia, da fração conhecida pelos nomes de republicanos tricolores, republicanos puros, republicanos políticos, republicanos formalistas etc.

A derrota dos insurretos de junho preparara e aplainara, indubitavelmente, o terreno sobre a qual a república burguesa podia ser fundada e edificada, mas demonstrara, ao mesmo tempo, que na Europa as questões em foco não eram apenas de "república ou monarquia". Revelara que aqui república burguesa significava o despotismo ilimitado de uma classe sobre as outras.

Contra a burguesia coligada fora formada uma coalizão de pequenos burgueses e operários, o chamado partido social democrata. A pequena burguesia percebeu que tinha sido mal recompensada depois da jornada de junho de 1848. A Montanha, posta à margem durante a ditadura dos republicanos burgueses, reconquistara, na segunda metade do período da Assembléia Constituinte, sua popularidade perdida com a luta contra Bonaparte e os ministros monarquistas.

Em meados de outubro de 1849 a Assembléia Nacional reuniu-se uma vez mais. Em primeiro de novembro Bonaparte surpreendeu-a com uma mensagem em que anunciava a demissão do ministério Barrot-Falloux e a formação de um novo ministério. Jamais alguém demitiu lacaios com tanta sem-cerimônia como Bonaparte a seus ministros, afirmou Marx.

A burguesia francesa rebelou-se contra o domínio do proletariado trabalhador; levou ao poder o lúmpen proletariado tendo à frente o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro. A burguesia conservava a França resfolegando de pavor ante os futuros terrores da anarquia vermelha; Bonaparte descontou para ela esse futuro quando, a 4 de dezembro, fez com que o exército da ordem, inspirado pela aguardente, fuzilasse em suas janelas os eminentes burgueses do Bulevar Montmartre e do Bulevar des Italiens.

Revendo a história, percebe-se que o povo não aceitava a condição de dominado, ele lutou com suas possíveis armas pelos seus direitos de cidadão, no entanto foi vencido pela astúcia de Luís Bonaparte. Por outro lado, o isolamento dos proletários deveu-se às ações de cooptação do campesinato pelos interesses da burguesia. "A dinastia de Bonaparte representa não o camponês revolucionário, mas o conservador" (MARX, 2006, p. 133). A cooptação deu-se não pelos camponeses que queriam consolidar sua propriedade e luta para escapar às condições de sua existência social, a pequena propriedade; ou queriam derrubar a velha ordem de coisas por meio de seus próprios esforços. Antes, foram aqueles que queriam ver a si próprios e suas propriedades salvos e beneficiados pelo fantasma do Império. "Bonaparte representa não o esclarecimento, mas a superstição do camponês; não o seu bom-senso, mas o seu preconceito; não o seu futuro, mas o seu passado" (MARX, 2006, p. 134). Os camponeses mostraram-se presos por uma velha ordem, em um isolamento embrutecedor e, devido a tal, aliaram-se ao discurso de Bonaparte.

Este livro, que completa 133 anos, mostra o esforço teórico dos revolucionários em identificar os interesses de classes em disputa no âmbito político. Tenta compreender disputas entre partidos, tendências, personalidades políticas burguesas e pequeno-burguesas e o proletariado. Disputas que se expressam no jogo das aparências e cumprem o papel de esconder, diluir, os reais interesses de grupos sociais. Esses interesses fazem parte e interferem na conjuntura, no desenvolvimento do poder e se põe a serviço dos objetivos de grupos dominantes.

O fluxo dos acontecimentos teve um grau de determinação importante na tradição, no fato de Louis Bonaparte conseguir apresentar-se aos camponeses envolto no manto do passado, mobilizando sentidos pelos quais "a tradição histórica originou nos camponeses a crença no milagre de que um homem chamado Napoleão restituiria a eles toda a glória passada" (MARX, 2006, p. 133).

Um interesse específico que apontamos na obra é sobre a importância do plano simbólico para o desenrolar de fenômenos sociais e em específico para os processos de dominação. A meta-análise das proposições sobre o conceito de ideologia na obra de Marx e em específico nesse texto, realizada por Thompson (2002), aponta como no livro observa-se uma "concepção latente de ideologia" (2002, p. 58) que se refere a um conjunto de fenômenos apresentados não como meros epifenômenos das condições econômicas e das relações de classe, mas como "construções simbólicas que têm certo grau de autonomia e eficácia. Eles se constituem em símbolos e 'slogans', costumes e tradições que mobilizam as pessoas" (THOMPSON, 2002, p. 58) ou as prendem, empurrando-as "para frente ou constrangem-nas, de tal modo que não podemos pensar estas construções simbólicas unicamente como determinadas, ou totalmente explicadas, em termos de condições econômicas de produção". Tais fenômenos como "concepção latente de ideologia demonstram a persistência de símbolos e valores tradicionais, deste séquito de crenças e opiniões tornadas veneráveis pelo tempo". Na concepção latente, Ideologia é um sistema de representações que serve para sustentar relações existentes de dominação de classes através da orientação das pessoas para o passado ao invés de para o futuro, ou para imagens e ideais que escondem as relações de classe e desviam da busca coletiva de mudança social (THOMPSON, 2002, p. 58). Tal definição traz que as relações sociais podem ser sustentadas e, assim, impedir as mudanças sociais pela difusão de construções simbólicas. Thompson chama a atenção para o que poderia ser descrito como um "processo de conservação social" dentro da sociedade de O Dezoito Brumário que pode também ser transferido para outras épocas e outras sociedades, sendo suficiente ler nas entrelinhas para entender que o discurso não é só reprodutor de desigualdades sociais, mas também produtor das mesmas.

O golpe de estado de Luís Bonaparte em dezembro de 1851 é descrito por Marx como condicionado pelo desenvolvimento das forças e relações de produção durante a monarquia burguesa. Marx não só retrata os acontecimentos como resultado de processos derivados da economia, mas também como acontecimentos ligados a imagens do passado, presos a tradições que persistem apesar da transformação contínua das condições materiais de vida. A análise de Marx, do evento de 1848 a 51, mostra o papel central das formas simbólicas que incluem a tradição, o que levou o povo de volta ao passado e impediu que eles agissem para transformar a ordem que os oprimia.

Uma tradição pode aparecer e aprisionar um povo, pode levá-lo a acreditar que o passado é seu futuro, e que o senhor é seu servo, e pode, por isso, manter uma ordem social em que a vasta maioria da população estaria sujeita às condições de exploração e dominação (THOMPSON, 2002, p. 61).

REFERÊNCIAS

MARX, Karl. O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte. São Paulo: Centauro, 2006.

THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis - Rio de Janeiro: Vozes, 2002.
Educar em Revista

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A fracassada fuga de Napoleão para o Brasil


A fracassada fuga de Napoleão para o Brasil
Por: Leonardo Dantas Silva*

Napoleão Bonaparte (1769-1821), general e estadista, imperador dos franceses, por pouco não se tornou um dos destaques da História do Brasil, com repercussões na América Espanhola e nos Estados Unidos, caso tivesse sucesso o seu plano de fuga da ilha de Santa Helena, onde se encontrava prisioneiro dos ingleses, para Pernambuco por ocasião da proclamação da Revolução Republicana de 1817.
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Na época, era propósito da maçonaria internacional e de um grupo abastado de refugiados franceses, libertar Napoleão da ilha de Santa Helena e conduzi-lo ao Recife, no caso viesse a se confirmar o sucesso da República de Pernambuco, proclamada em 6 de março de 1817.A ser confirmada esta última hipótese, que imagens seriam geradas para a história, com a figura carismática do Corso levando a chama republicana às plagas da América do Sul?
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No ano de 1817 transpirava-se em Pernambuco um notório descontentamento com a sua situação de uma capitania tão rica reduzida à condição de colônia de Portugal, o que fez ressurgir sentimentos separatistas acalentados desde a expulsão do governo holandês em 1654.

Jovens bacharéis egressos de Coimbra e de outras universidades européias, padres e seminaristas do Seminário de Olinda, discutiam ardorosamente nos cenáculos das cinco lojas maçônicas e nos púlpitos das igrejas, o ideário liberal proclamado pela Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e pelos princípios da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (1776).

Em 6 de março de 1817 um movimento armado contra o governo português tomou conta das ruas do Recife, com o apoio do clero, das classes militares e do comércio, visando transformar Pernambuco e as demais províncias, que hoje integram o Nordeste brasileiro, numa República independente de Portugal. Para isso fora enviado preso para o Rio de Janeiro o governador português, Caetano Pinto de Miranda Montenegro; promulgado um projeto de Constituição – que tinha por princípios básicos a interdependência dos três poderes, as liberdades de crença e opinião e as garantias individuais –; criada uma nova bandeira e outros símbolos da pátria; constituído um conselho de notáveis e eleitos os representantes das classes governantes.

Para a manutenção da nova república, movimentaram-se as lojas maçônicas no sentido de conseguir apoio e recursos junto às suas congêneres de Londres e, em particular, dos Estados Unidos. Para tal missão foi enviado como embaixador da nova República o comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, conhecido pelo apelido de Cabugá. Levando em sua bagagem o desenho aquarelado da Bandeira Republicana, o texto do projeto de constituição, a Lei Orgânica, e “uma carta para o irmão presidente”, Cabugá iniciou sua delicada missão pelos Estados Unidos da América. Muito embora sem conseguir o prometido encontro com o presidente Madison, vem ele ser recebido em audiência particular pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, para o qual relatou os propósitos e necessidades da mais nova república sul-americana.

Não foi feliz o Cabugá nos seus primeiros contatos, mas, não se sabendo o porquê, talvez até pelo seu relacionamento com a maçonaria internacional, ele vem despertar simpatias entre os maçons norte-americanos e um grupo de emigrados franceses, simpatizantes da causa bonapartista. Com tal apoio, conseguiu os recursos necessários a contratação de embarcações e marinheiros, para o transporte de armas e munições para a nova república. O movimento contou também com as simpatias de José Bonaparte, que viu nos novos acontecimentos a possibilidade de por em execução o plano de fuga de seu irmão, Napoleão Bonaparte, então prisioneiro dos ingleses em Longwood, capital de Santa Helena, uma ilha do Atlântico Sul, situada a 1.850 km da costa ocidental da África.

Para Alfredo de Carvalho, que disserta sobre o episódio em seu livro, Aventuras e Aventureiros no Brasil (Rio de Janeiro: Pongetti & Cia., 1929), firmara-se assim entre o embaixador da nova República de Pernambuco, Antônio Gonçalves da Cruz, e os emigrados franceses “uma espécie de contrato de auxílios mútuos: os bonapartistas deveriam ajudar os revolucionários na luta pela independência e, conseguida esta, os republicanos prestariam seu apoio à tentativa de evasão de Napoleão da prisão onde se encontrava, na ilha de Santa Helena”.

Para isso contavam os bonapartistas com as simpatias de dez mil “emigrados franceses sempre prontos a sacrificarem-se pelo seu imperador”. Para as despesas com a formação de uma frota de guerra, devidamente armada e bem municiada, bem como a contratação de soldados e marinheiros necessários, dispunham eles de quantia superior a 1 milhão de dólares.

NAPOLEÃO EM PERNAMBUCO

Com a conciliação de propósitos, inicia-se assim a execução do plano de fuga de Napoleão Bonaparte, tendo como base de operações a nova República de Pernambuco.

Primeiramente, atendendo pedido de Cabugá, o governo dos Estados Unidos nomeia como cônsul daquela república no Recife o diplomata M. Joseph Ray, notório simpatizante da causa dos bonapartistas, que deveria dar acolhida a todos os envolvidos que viesse aportar nas costas de Pernambuco.

Sem qualquer notícia recente dos acontecimentos envolvendo os simpatizantes da República Pernambucana, bem como da reação tirânica da coroa portuguesa contra os insurretos, partiu da Filadélfia o navio americano Parangon em direção às costas do Rio Grande do Norte, o qual veio aportar em baía Formosa, a 50 quilômetros de Natal, em 29 de agosto de 1817, transportando um carregamento de breu. Depois de despachar sua carga e se abastecer de víveres, o barco seguiu viagem com destino à Paraíba, não sem antes deixar em terra quatro franceses.

O pequeno grupo era chefiado pelo coronel Paul-Albert-Marie de Latapie, militante da infantaria dos exércitos napoleônicos, que gravemente ferido na batalha de Waterloo (1815), ocorrida a 15 km. de Bruxelas, fora buscar refúgio nos Estados Unidos. O experiente militar se fazia acompanhar dos também oficiais bonapartistas Artong e Roulet, apresentando-se como quarto personagem, um jovem cientista, Louis Adolpho Le Doulcet (1794-1882), que vem alcançar destaque nos estudos da Botânica e na produção musical. Seu nome é registrado pela Enciclopédia Larousse (que trata de sua aventura no Brasil), que informa ser ele filho do Conde de Pontécoulant (1769-1840), senador do Império francês ao tempo de Napoleão I.

Este último, que também era dado ao exercício da medicina, logo fez amizade com José Ignácio Borges, secretário do governador do Rio Grande do Norte, que facilitou para todo grupo os passaportes necessários para viagens por todo território brasileiro.

De posse dos papéis os aventureiros rumaram para o Recife, onde os aguardava o cônsul dos Estados Unidos M. Joseph Hay, que lhe fora indicado por Cabugá. O cônsul tinha como secretário o dinamarquês Georges Fleming Holdt, que havia servido na marinha de Napoleão, e que mais tarde vem a ser preso pelo governo, ocasião em que confessa a existência do plano de fuga do imperador da Ilha de Santa Helena.

Só ao chegar ao Brasil é que os franceses se dão conta do fracasso da Revolução Republicana de Pernambuco, cujos principais líderes se encontravam presos no Recife e Salvador, já tendo alguns deles dado suas vidas à causa da liberdade.

No Recife foram os franceses Latapie, Artong, Roulet e Louis Le Doulcet recolhidos ao forte do Brum, por ordem do capitão-general Luiz do Rego Barreto, responsável pela repressão da coroa portuguesa ao movimento republicano de seis de março de 1817.

Por interveniência do cônsul M. Joseph Hay foram eles libertados, não sem antes confessar que “estavam na Filadélfia quando tomaram conhecimento das notícias da revolução de Pernambuco”. Tal acontecimento fez com que José Bonaparte desse continuidade a um ardiloso plano visando resgatar o seu irmão, Napoleão, de sua prisão na ilha de Santa Helena.

Louis Adolfo regressa ao Rio Grande do Norte, enquanto os três outros ficaram no Recife, na casa do cônsul dos Estados Unidos. Logo depois Latapie e Artong seguem viagem para o Rio de Janeiro na tentativa de avistar-se com outros bonapartistas, inclusive com o general Theodoro van Hogendorp (1761-1822), militar holandês que depois de galgar os mais altos cargos no exército de Napoleão vivia anonimamente numa chácara, na Estrada da Tijuca, aonde por vezes recebera a visita do príncipe D. Pedro.

Nesse ínterim chega às costas da Paraíba, na baía da Traição, um barco com oito marinheiros do navio Pingüim, que presos e levados ao Recife, vieram confessar estar a serviço de Cabugá que fretara aquele navio nos Estados Unidos e o mandara para Pernambuco, carregado de armas e munições para uso dos revoltosos. Diante dos novos fatos, o Pingüim seguiu viagem rumo à Bahia, deixando oito tripulantes na praia; o fato vem a ser comunicado pelo governador da Paraíba, Bernardo Teixeira, ao ministro Villa Nova Portugal, em data de 1º de março de 1818.

No Recife foi de pronto requerida à prisão de Roulet e de três outros franceses que se encontravam na casa do cônsul. Feita a busca no local foram presos o secretário do consulado Georges Fleming Holdt, Roulet e três outros suspeitos, além do livro de correspondência oficial. Na prisão o dinamarquês Holdt veio confessar mais detalhes do plano traçado para a fuga de Napoleão, que lhe fora descrito em minúcias pelo coronel Latapie, quando de jantar na casa do cônsul norte-americano.

Do plano ali narrado já tinha conhecimento o próprio Napoleão, que autenticara com a sua assinatura às cartas geográficas enviadas sob sigilo de Santa Helena para José Bonaparte, nos Estados Unidos, confirmando a existência da quantia de mais de 1 milhão de dólares para fazer face às despesas com a pequena frota.

Depois de alguns meses na prisão, onde eram visitados constantemente pelo cônsul americano, afirmando Alfredo de Carvalho que “a sua enérgica conduta pesou nas determinações do governo de Pernambuco e do Rio e precipitou o desfecho do processo”.

Para o diplomata M. Joseph Hay, as autoridades portuguesas estavam cientes que “nem Roulet, nem Latapie, nem Louis Adolfo, nem Artong, tinham vindo ao Brasil com intuito de fazer agitação e de pregação em favor da proclamação de uma república”, mas tão somente sondar o ambiente a fim de estudar a possibilidade de por em prática o plano de fuga de seu imperador, então prisioneiro dos ingleses na ilha de Santa Helena.

Acatando tal argumentação o Tribunal de Alçada de Pernambuco, julgando-se incompetente em razão dos fatos alegados, enviou os franceses para o Rio de Janeiro de onde foram, no mais curto espaço de tempo, embarcados para Portugal, que logo os expulsou do seu território através da fronteira com Espanha.

O plano de fuga de Napoleão, orquestrado por José Bonaparte, porém, só muito depois vem a ser conhecido com detalhes, quando em 1853 vem a ser publicada, em Londres, a correspondência diplomática, trocada Charles Bagot, de Washington, com o Lord Castlereagh. Segundo Alfredo de Carvalho, que faz referência à documentação no seu livro Aventuras e Aventureiros no Brasil (1929), em relatório datado de 29 de julho de 1817, ficara escolhido como ponto de encontro da expedição “a ilha de Fernando de Noronha, situada a 62 léguas da costa do Brasil”, para onde iriam os barcos de guerra especialmente fretados para aquela operação, destacando o documento: “Ali devem reunir-se oficiais franceses de Bonaparte, em número de aproximadamente oitenta, setecentos oficiais americanos, duas escunas e um navio armado pelo Lord Cochrane, tendo a bordo oitocentos marinheiros e duzentos oficiais”.

Terminava assim o malogrado plano daqueles aventureiros de resgatar Napoleão Bonaparte de sua prisão na pequenina ilha rochosa de Santa Helena e transformá-lo no grande comandante dos exércitos republicanos da América do Sul.

Findaram-se assim, sem maiores conseqüências, os sonhos daqueles bonapartistas que, como os nossos patriotas, também acreditaram no arrebol da República de Pernambuco de 1817.

A República de 1817
e sua repercussão no noticiário da imprensa internacional


Ainda está por se escrever sobre as repercussões em outros continentes da Revolução Republicana em 1817 em Pernambuco, particularmente na Europa e nos Estados Unidos. Muito embora o diplomata Gonçalo Mello Mourão já tenha estudado às implicações do movimento em vários países, quando da publicação do seu livro, A Revolução de 1817 e a História do Brasil (Ed. Itatiaia, 1996) [1], fatos menores, porém, estão a despertar a curiosidade dos que se interessam pela importância de nossa primeira república.

A chamada República de Pernambuco, pela segunda vez Restaurado, alusão ao episódio da primeira Restauração Pernambucana (1654), teve curta duração, pouco mais de 45 dias, mas os seus efeitos repercutiram em várias partes do mundo. Ao contrário da ótica da maioria dos estudiosos do período, o movimento republicano de 6 de março de 1817 “criou o Brasil a nível internacional como entidade independente e com ela começa a História Diplomática do Brasil. [...] É com a Revolução de 1817 e sua repercussão, nacional e internacional, que o Brasil e sua história diplomática própria nascem, entendidos aí tanto os fatos que ele próprio criou com a configuração de sua imagem externa” (Mourão, p. 48/1996).

Apesar de acontecer numa época de difíceis meios de comunicação, a Revolução Republicana de 1817, em Pernambuco, alcançou repercussão invulgar na correspondência diplomática da época, hoje conservada em arquivos de Lisboa, Londres, Paris, Madri, Viena, São Petersburgo e Washington. Os acontecimentos do Recife ganharam às páginas dos jornais londrinos de língua portuguesa – Português, Investigador Português e Correio Brasiliense –, tendo o Time (Londres) lhe dedicado o editorial de sua edição de 27 de maio de 1817, cujo noticiário transcrevia a correspondência trazida pelo navio Tigris, abrindo a sua edição com a manchete de primeira página: General Insurretion in the Brasilis (Insurreição Geral no Brasil).

De 27 de maio a 16 de junho daquele ano, o Time mantém os seus leitores informados acerca da República de Pernambuco, estendendo-se o noticiário até 1º de agosto, quando narra os acontecimentos de sua derrocada. Nesse período nada menos de 21 editoriais foram dedicados à Revolução de 1817, sendo o seu noticiário transcrito em 58 edições daquele jornal londrino.

Nos Estados Unidos, a chegada do enviado dos revolucionários pernambucanos, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, aparece na imprensa de Boston, tendo sua fracassada missão se estendido por dois meses.

*Leonardo Dantas Silva é jornalista e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil
1] MELLO-MOURÃO, Gonçalo de B.C. e. A Revolução de 1817 e a História do Brasil – Um estudo de história diplomática,. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia,1996.
revista algomais

sábado, 26 de junho de 2010

Napoeão - A besta e o mito


A besta e o mito
Centenas de publicações retratavam Napoleão Bonaparte como um monstro. Ainda assim, o imperador francês fascinou D. Pedro
Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves

Terra corrompida, mentira, impiedade, cauda de pavão, unha de tigre ensanguentada, coração de um corso e cabeça de raposa: estes são ingredientes da Receita especial para fabricar Napoleões, um soneto publicado em folheto que circulou no Rio de Janeiro em 1809. Os dois tercetos ensinam o preparo da “iguaria”:

“Tudo isto bem cozido em lento fogo
De exterior fagueiro, meigo e brando,
Atrevida ambição lhes lances rogo:

Deixa que se vá tudo incorporando,
E assim mui presto espera; porque logo
Sai um Napoleão dali voando”.

Folhetos como esse – impressos em Portugal ou aqui reimpressos – eram anunciados por livreiros na Gazeta do Rio de Janeiro. Títulos como Besta de Sete Cabeças e Dez Cornos ou Napoleão, Imperador dos franceses já indicavam a que se propunham as publicações: combater Bonaparte. Tanto pelo preço baixo como pelo pequeno número de páginas, os panfletos eram publicações mais acessíveis para a divulgação das ideias e tiveram maior circulação que os jornais. Incapazes de ler, as camadas mais humildes da sociedade podiam escutar a leitura em voz alta, assimilando as informações pelo filtro de sua imaginação.

Centenas de publicações – além de panfletos, havia páginas de pequenas histórias e anedotas – traduziram os momentos difíceis vividos pelo mundo luso-brasileiro. Portugal sofria com a ausência do soberano e a guerra de ocupação em seu território [Ver artigo “Anos de terror”, pág. 22]. Mesmo o Brasil, agora cenário da Corte portuguesa, do qual deviam emanar os novos atos administrativos do Império português, vivenciou momentos difíceis na ordem política e econômica. Os escritos chegaram a atingir o número de mais de três mil, em Portugal, entre 1808 e 1814. (...)

Revista de História da Biblioteca Nacional

Napoleão - Retrato inacabado

Retrato inacabado
Figura polêmica, Napoleão Bonaparte foi alvo de intermináveis controvérsias antes e depois de sua morte
Raquel Stoiani

Uma preocupação constante de Napoleão Bonaparte foi a construção de sua imagem pública. Enquanto esteve no poder (1799-1815), ele estruturou uma complexa máquina de propaganda. Do homem da paz ao deus da guerra, do herói revolucionário à vítima dos contrarrevolucionários, comparando-se a Carlos Magno ou a Aníbal, modificava sua figura pública de acordo com as necessidades do momento. Seus opositores, por sua vez, buscaram desfigurá-lo com o mesmo empenho.

O famoso escritor romântico François René Auguste de Chateaubriand (1768-1848) foi um dos principais críticos da tirania imperial. A obra De Buonaparte et des Bourbons (1814), publicada logo após a primeira abdicação do imperador (1814), traz o retrato mais repulsivo de Napoleão: o destruidor, o estrangeiro de origem corsa indiferente à França, o devorador de gerações de jovens, o supressor de toda livre opinião, enfim, o tirano. Madame de Staël (1766-1817), escritora e dona de um famoso salão literário em Paris, também foi juíza severa do regime napoleônico. Nas Considérations sur la Révolution Française (1818), sua principal acusação a Bonaparte é a de assassino do idealismo republicano. Napoleão inicia um governo que se torna cada vez autocrático e abandona o ideal republicano em prol de uma monarquia, o império. É retratado como um egoísta manipulador dos homens, sem fé ou pátria, que não teria outro propósito além de sua própria grandeza.

Panfletos, charges e vários outros escritos surgidos em sua maioria na Inglaterra – cabeça das coalizões contra a França –, fizeram circular pela Europa afora essas imagens negativas. Um exemplo é a caricatura "La Grande Procession de Couronnement de Napoléon Ier" (1805) do inglês Gillray, um de seus mais célebres trabalhos subvencionados pelo governo britânico. Trata-se de uma paródia do imenso quadro de David da teatral e suntuosa cerimônia de coroação de Napoleão em Notre-Dame. Nela, o cortejo imperial é representado de forma grotesca. O imperador aparece vestido como um rei de ópera bufa; Josefina, sua esposa, aparece obesa e deformada; o papa Pio VII, abatido e amedrontado; e os representantes das potências européias, que ajudam a carregar o manto imperial, mal vestidos e mal penteados, parecendo se curvar ao imperador mais por um problema de coluna do que por um respeito verdadeiro.

E além: com a vinda da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, a má fama de Napoleão desembarcou nos trópicos. Afinal, D. João deixou Portugal escapando dos invasores franceses. Na Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822), primeiro periódico da América portuguesa, o Príncipe Regente fez circular o discurso antinapoleônico. Um levantamento estatístico das palavras mais utilizadas no jornal para se referir a Bonaparte indica os termos “tirano”, “usurpador” e “corso”. Recebia ainda outras caracterizações nada lisonjeiras, como louco, megalomaníaco ou o próprio anticristo. Enfim, era a soma de todos os males, uma ameaça que parecia estar à espreita e precisava ser combatida. O que se explica não apenas pelo trauma da invasão a Portugal: a intensa propaganda antinapoleônica atendia aos interesses do governo de D. João, justificando uma série de medidas de vigilância na nova sede do Império. (...)

Revista de História da Biblioteca Nacional

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Os amores de Napoleão


Os amores de Napoleão
Na marcha sobre o coração da Europa, o último grande imperador do Ocidente conquistou mais do que terra e glória: fez do poder uma arma de sedução. Descubra o general que só suas amantes conheceram

por Lira Neto
A bela e jovem Caroline, de 16 anos, filha de madame Grégoire Colombier, logo notou que aquele soldado baixinho, magricela e de uniforme amarrotado estava caído de amores por ela. Mas, por ser tímido, envergonhado do sotaque estrangeiro e de seu mau francês, ele não tinha coragem de declarar-se abertamente. Resumia-se a acalentar em segredo uma paixão platônica, enquanto os dois colhiam cerejas no pomar da casa de campo da família dela, em Basseaux. Caroline não podia saber, mas o rapaz ousava confessar seus sentimentos apenas para o diário, que mantinha trancado em uma gaveta no quartinho que alugara em Valence, a primeira cidade para onde fora mandado a serviço do exército francês. “Sempre solitário entre os homens, volto para casa, para sonhar na solidão e entregar-me à força de minha melancolia”, escreveu ele. “Na verdade, o que faço neste mundo? Já que terei de morrer, não é mais lógico me matar?”, indagava-se, aos 17 anos, o tenente Napoleão Bonaparte.

Até então, o moço jamais experimentara o calor dos braços de uma mulher. Do primeiro flerte, ainda nos tempos de escola, não guardava boas lembranças. Os colegas de classe não lhe perdoavam as roupas desde sempre desleixadas e, muito menos, os olhares que lançava para a pequena Giacominetta, então sua companhia predileta nos intervalos do colégio. “Napoleone di mezza calceta, fa l’amore a Giacominetta” (numa livre tradução, “Napoleão de meias caídas, é amante de Giacominetta”), tripudiavam os meninos, atiçando a ira do garoto, que respondia atirando-lhes pedras e os palavrões mais cabeludos do idioma corso.

O gato de botas

Napoleão nasceu em Ajácio, na Córsega, em 1769, exatamente quando aquela ilha, situada a oeste da Itália e antes pertencente ao estado genovês, acabara de passar ao domínio francês, após malograda tentativa de independência. “Nasci quando minha pátria estava morrendo”, diria ele mais tarde. Aos 10 anos, o pai o enviou para estudar na França. Lá, teve que aprender a falar o novo idioma e viu-se obrigado a conviver com o povo que passara a dominar sua terra natal. A pele morena e mediterrânea causava estranheza entre os novos colegas. E seu nome, “Napoleone”, soaria para os ouvidos franceses como um irresistível trocadilho, “la-paille-au-nez”, ou seja, “nariz de palha” – o que, é claro, provocava inevitáveis gargalhadas na sala de aula.

Aos 15 anos, o jovem franzino foi admitido como cadete na Escola Militar de Paris, onde se formaria artilheiro em tempo recorde – dez meses, quando o normal seriam três anos. Isso se deveu ao fato de o rapaz ter renunciado às tentações mundanas da cidade e mergulhado com afinco nos estudos do Tratado de Matemática, do professor Bezout, um cartapácio de quatro volumes, cujo conteúdo era a base do exame final para os aspirantes a oficial da artilharia. Resultado: aos 16 anos, Napoleão já envergava o garboso uniforme de tenente do exército francês.

Um tenente de maus modos, sempre com a gravata amarfanhada e cabelos gordurosos, notariam as moçoilas casadoiras de Paris. Além disso, as botas negras e sujas pareciam grandes demais para aquele par de pernas finas e curtas, o que lhe valeria o apelido de “Gato de Botas”, dado por uma jovem amiga, a futura escritora Laure Permon. “Sua pele era amarelada e parecia insalubre, os traços de seu rosto eram angulosos e marcados”, descreveria Permon em suas Memórias. Com tal estampa, não era de se admirar que o jovem oficial ainda não conhecesse os prazeres do amor.

Pelo menos até certa noite de novembro de 1787, quando uma das muitas prostitutas que borboleteavam nas imediações do famoso Palais Royal foi abordada por ele. O rapaz tinha 18 anos, mãos trêmulas e, a muito custo, depois de uma verdadeira sabatina – onde ela nascera, de onde viera, como perdera a virgindade – convidou-a para deitar-se com ele. Para uma profissional do ramo, ficou óbvio que aquele primeiro cliente da noite, tão conversador quando desajeitado, tratava-se de um homem inexperiente. “Eu a aborreci depois, com minha insistência para que não fosse embora”, confessaria o próprio Napoleão, em tom acabrunhado, nas páginas de seu diário.

Gigante em combate

Em pouco tempo, nos salões parisienses, um dos assuntos prediletos era o de como aquele rapazote corso conseguira galgar posições tão rapidamente na hierarquia do exército francês. Em 1789, aos 20 anos, enquanto as massas tomavam as ruas de Paris durante a Revolução Francesa, ele pedira licença da corporação e voltara para sua terra natal. Lá, aproveitara-se da atmosfera libertária que varria todo o país e liderara um movimento que elevou a Córsega, de simples região conquistada, à parte integrante daquela nova França que surgia sob novas cores, o vermelho, azul e branco da bandeira revolucionária. “Foi ali que ele teve, pela primeira vez, a sensação de provocar acontecimentos, de fazer a História. Sensação totalmente nova, que o embriagou”, observa o historiador Max Gallo, autor da mais consagrada biografia de Napoleão.

De volta a Paris, foi promovido a capitão com apenas 23 anos de idade. Um ano depois, após comandar um ataque bem-sucedido às forças britânicas que dominavam o porto de Toulon, no sul da França, ganhou o posto de general-de-brigada. Foi a partir daquele combate que a soldadesca começou a reverenciar-lhe a audácia e a coragem. Contavam, com entusiasmo, sobre como ele ia à frente da tropa, exposto ao fogo inimigo. Mesmo após ter seu cavalo morto em batalha e ser ferido com um golpe de baioneta na coxa, havia continuado a lutar e, com a farda banhada em sangue, incitado seus soldados a seguir adiante.

Hábil estrategista, guerreiro arrojado, aquele homenzinho de cerca de 1,60 m parecia transformar-se, no ardor do combate, em um gigante de mais de três metros de altura. Mesmo assim, diante dos olhares femininos, continuava a sentir-se um anãozinho raquítico. Em um período de dois anos, propôs casamento a pelo menos meia dúzia de mulheres. Todas o rejeitaram. De nada adiantaram as aulas de dança, as lições de postura e os cursos de etiqueta que fez para tentar melhorar seu desempenho social na sofisticada Paris.

Faltava-lhe tato para abordar as eleitas, mesmo as muitos feias ou as muito velhas. A sexagenária madame Montausier, dona de um teatro e de um bordel em Paris, foi uma das que o rechaçou. Outra, a quarentona madame Permon, mãe da jovem Laure Permon, não conseguiu evitar uma gargalhada ao receber a proposta de ser conduzida ao altar pelas mãos de Napoleão, que além da deselegância habitual passara a sofrer também com a sarna, doença adquirida nos campos de batalha de Toulon. “Meu querido, falemos sério. Além do mais, tenho idade suficiente para ser sua mãe”, teria respondido a senhora.

Porém, naquela época, pelo menos uma donzela se apaixonou de verdade pelo general: Bernardine Eugénie Désirée, uma moça de 16 anos, “dona dos mais belos dentes que se pode imaginar”, segundo a descrição do próprio Napoleão. Para a jovem enamorada, talvez ele parecesse tão atraente quanto sua figura apareceria nos cartazes do filme Désirée, o amor de Napoleão, produção norte-americana de 1954, com Marlon Brando no papel de um Bonaparte devidamente fabricado pelas lentes de Hollywood.

Contudo, para desgosto da jovem e enamorada Désirée, o romance não foi além. O pai dela, François Clary, um negociante de sabão, já havia concedido a mão da primeira filha, Julie, a José Bonaparte, irmão mais velho de Napoleão. É verdade que o novo candidato a genro oferecia as credenciais de uma carreira militar em plena ascensão. Mas isso era muito pouco para o pai da garota, que almejava algo mais promissor do que ver outra de suas filhas casada com mais um imigrante. “Já basta um Bonaparte em nossa família”, sentenciou François Clary, insensível ás lágrimas copiosas de Désirée.

No altar com Josefina

Elegante, bem-vestida e com uma aura de voluptuosidade explícita, Josefina de Beauharnais era a viúva de um visconde, morto na guilhotina durante o período mais sangrento da Revolução Francesa. Ao que consta, também já fizera muitos outros homens perderem a cabeça por ela. Entre eles, logo estaria também Napoleão. Para o general corso, casar-se com aquela dama, uma nobre representante do Antigo Regime, significaria um passo a mais na sua gradual inserção na sociedade parisiense. Aliás, já havia evoluído bastante nesse propósito: em 1795, ao ordenar que seus soldados disparassem contra uma multidão durante um levante, caíra nas graças do homem forte do regime, o conde de Barras. Não demorou muito e, com 26 anos, Napoleão foi promovido a comandante geral do Exército do Interior. Em breve, suprimiria o “u” do sobrenome original, Buonaparte, com o objetivo de afrancesar-lhe a pronúncia.

Para a balzaquiana Josefina, pouco importava se o general era seis anos mais novo que ela. Calculou que um casamento com o prestigiado comandante geral poderia significar a garantia de bem-estar para seus dois filhos, Eugène, de 14 anos, e Hortense, de 12. Principalmente naquele instante em que Josefina afundava em dívidas e seu amante declarado, o poderoso conde de Barras, havia trocado-a por outra beldade, Thérésia Tallien, que se tornou célebre por seus relacionamentos amorosos com alguns dos homens mais influentes da França.

Para agrado de Josefina, o antes desleixado Napoleão passara a cuidar da própria aparência, mantendo os cabelos limpos e penteados, as roupas generosamente salpicadas com água de colônia. Em março de 1796, os dois se casaram, tendo o próprio conde de Barras como padrinho. Na certidão, a noiva aproveitou e suprimiu dois anos à própria idade. Napoleão tratou de acrescentar dois à sua. Entretanto, o casal mal teve tempo de aproveitar a lua-de-mel: dois dias depois da cerimônia, Barras enviou o general para uma missão de guerra, à frente do comando de um exército despreparado, para dar combate aos austríacos, no norte da Itália.

Enquanto Josefina permanecia em Paris, esbanjando fortunas em festas e recepções luxuosas, o marido enviava-lhe, diretamente do front, uma carta febril atrás da outra: “Beijo seus seios e mais embaixo, muito mais embaixo”, escrevia Napoleão, enquanto os canhões trovejavam ali perto. A esposa lia as declarações de amor e de desejo, guardava-as no criado mudo e quase nunca as respondia. “Meu marido não me ama. Ele me idolatra. Creio que acabará maluco”, confidenciava ela às amigas e ao novo amante, o capitão Hippolyte Charles, um homem sedutor, de cabelos negros, olhos azuis e que, segundo Josefina, além de experiente nas artes do amor, tinha outra qualidade especial, que também faltaria a Napoleão: ele a fazia sorrir.

A enxaqueca do general

Josefina viu Napoleão regressar à França, em outubro de 1797, na condição de herói nacional. Após um ano de batalhas na campanha da Itália, o estrategista genial fizera os austríacos dobrarem os joelhos em derrotas humilhantes e sucessivas. Em pouco tempo, Napoleão foi encarregado de comandar uma nova e ambiciosa expedição militar, desta vez para o Egito. De lá, pretendia alcançar a Índia, então uma colônia sob o domínio da Inglaterra, a nação mais poderosa entre os históricos inimigos da França.

Mas, para Napoleão, no íntimo, toda a honra conquistada a ferro e fogo na Itália esvaeceu-se bem antes, quando em um dos intervalos da campanha ele constatou que a esposa, Josefina, não o aguardava em Milão, conforme havia combinado. “Depois de quase desmaiar de consternação, o homem que conquistou o norte da Itália caiu doente, com enxaqueca”, conta outro de seus biógrafos, o norte-americano Steven Englund.

Conquistador de exércitos – e de mulheres

No Egito, já consciente das traições de Josefina, Napoleão decidiu que era hora de dar-lhe o troco. Impressionou-se de imediato com a belíssima Pauline Fourès, 20 anos, que se disfarçara de homem para poder acompanhar o marido, um tenente da cavalaria, na campanha do Egito. Sem pudores, Bonaparte simplesmente despachou o tenente para uma outra missão militar e alojou a encantadora Pauline em uma casa bem ao lado do quartel-general. A jovem senhora não resistiu aos assédios do comandante-em-chefe das tropas. “Foi a primeira mulher com quem ele se comportou como dono e senhor”, atesta Max Gallo

O general não fazia nenhuma questão de esconder o romance. Os próprios soldados passaram a tratar Pauline como “a soberana do Oriente”, a “Cleópatra loura do general”. Ela, por sua vez, sabia que nunca teria direito à exclusividade sobre seu amante. Ao mesmo tempo, Napoleão manteve um caso com a filha de um xeique, a egípcia Zenab, que logo depois, quando os franceses deixaram o país após uma série de escarnecidas batalhas, teve a cabeça cortada como represália por sua união com o general inimigo.

A campanha do Egito não repetiu os mesmos êxitos obtidos na Itália. Encabeçando a lista dos maiores revezes, a frota de navios com bandeira francesa foi completamente destruída pelos ataques do almirante inglês Horatio Nelson. Mas, para Napoleão, o pior golpe estava por vir. Repetindo a desfeita anterior, Josefina não cuidou de estar em casa para receber o guerreiro no retorno do campo de batalha. Bonaparte decidiu que o divórcio era a única saída honrosa que lhe cabia.

Desta feita, foi a vez de Josefina cair desmaiada. De joelhos, pediu perdão ao marido, que enfurecido trancou-se no quarto sozinho. Depois de muitas horas de súplica, Napoleão girou a chave na fechadura e deixou-a entrar. Abraçou Josefina e a perdoou. O general implacável, que comandava com pulso firme dezenas de milhares de homens durante os rigores da guerra, capitulou diante das lágrimas de uma mulher.

O harém do imperador

“Minha única paixão, minha única amante, é a França. É com ela que me deito”, proclamava Napoleão. Em breve, isso seria mais do que uma frase de efeito. Com o apoio do povo que o saudava como herói nas ruas, planejou e executou um golpe de estado que o levou ao poder, em 1799. Instituiu o Consulado, triunvirato exercido por ele e mais dois outros aliados de ocasião. Não demorou muito e se impôs no lugar de primeiro cônsul. Estabeleceu uma nova constituição, amordaçou jornais, eliminou potenciais adversários. Para completar, determinou que seu poder passaria a ser vitalício. Em 1804, oficializou o que já era uma realidade: restaurou a monarquia e, aos 35 anos, tornou-se imperador da França. Josefina foi coroada imperatriz.

O todo-poderoso Napoleão passara a ter um verdadeiro harém a seus pés. Ao lado de seu escritório, mandara construir uma alcova em que recebia as mais belas mulheres que seus assessores conseguiam encontrar nos salões da corte. Estas eram introduzidas no recinto com a recomendação de que o esperassem já sob os lençóis, completamente despidas. Além das amantes fortuitas, houve também uma longa lista de casos bem mais intensos. Entre eles, o que manteve com uma famosa atriz de teatro, mademoiselle Georges, a quem apelidou de Georgina. A essa altura, Napoleão não era mais apenas um homem. Transformara-se em um mito. Tanto que, quando o criado do palácio abordou Georgina pela primeira vez, ela ficou chocada, mas logo depois sentiu-se honrada com a proposta de visitar os aposentos íntimos do senhor mais poderoso da Europa, e, por conseqüência, de todo o mundo. “Mas continue a fazer cara de assustada, ele gostará disso”, sugeriu-lhe o criado.

Josefina sabia dos adultérios do marido, mas suportava em silêncio. Permaneceu assim, mesmo quando Napoleão mostrou-se sinceramente apaixonado por uma condessa polonesa de 32 anos, Maria Waleska, que foi encorajada pelos compatriotas – e pelo próprio marido – a seduzir o imperador francês. O objetivo era claro: convencer Napoleão a restituir a independência da Polônia em relação aos russos, austríacos e prussianos, que então dividiam entre si as sobras do antigo reino que havia desaparecido desde 1795. Maria Waleska, em nome da “causa polonesa”, aceitou. Entregou-se a um arrebatado Napoleão, que praticamente a violentou na primeira noite em que dormiram juntos. Nem assim ela reclamou. Pelo contrário, apaixonou-se por ele. Entregou-lhe o corpo. Depois, a alma. Chegaria a dar-lhe um filho. O que a imperatriz Josefina nunca conseguira fazer.

Um divórcio na corte

Até então Napoleão imaginava que a ausência de um herdeiro era decorrente de uma possível esterilidade da parte dele. Com o nascimento do filho bastardo, convenceu-se que poderia, sim, gerar um herdeiro legítimo para seu império. O divórcio, a partir de então, era mesmo inevitável. “Continuo a amá-la. Mas a política não tem coração, só cabeça”, teria dito à esposa durante o último jantar, segundo registraria o barão de Bausset, autor de um livro de memórias sobre o tempo em que foi um bisbilhoteiro administrador do palácio real. “A imperatriz, naquela noite, era a imagem da tristeza e do desespero”, escreveria Bausset, que diz ter testemunhado os gritos lancinantes de Josefina, prostrada em um tapete diante do marido, chorando e gemendo, inconsolável.

Com base em documentos da época, a historiadora francesa Evangeline Bruce, autora de Napoleão e Josefina, espécie de “biografia” da relação amorosa do casal, reconstituiu a última cerimônia pública em que os dois apareceram juntos, na sala do trono. “Com toda a disciplina de ferro da qual era capaz, Josefina estava determinada a ser lembrada para sempre como a mais encantadora, a mais cativante de todas as imperatrizes”, diz Bruce. Diante dos súditos, Napoleão anunciou publicamente a separação.

“Só Deus sabe o que esta resolução custou ao meu coração. Encontrei coragem para isto apenas na convicção de que minha decisão serve aos melhores interesses da França”, explicou ele, solenemente. Josefina, por sua vez, esforçou-se para permanecer firme, mesmo na condição de esposa rejeitada: “Com a permissão de meu querido e augusto marido, ao acatar tal decisão, orgulhosamente ofereço a ele a maior prova de afeto e devoção jamais dada a um homem nessa terra por uma mulher”, disse ela, comovida, antes de entregar o resto de seu discurso de despedidas para que um ajudante-de-ordens terminasse de lê-lo.

O início do fim

Antes mesmo de divorciar-se de Josefina, Napoleão passara a procurar uma noiva de sangue real para dar-lhe um príncipe herdeiro. Encontrou-a na figura da arquiduquesa Maria Luísa, a pouco formosa filha do imperador austríaco, dona de um par de olhos protuberantes, andar desengonçado e lábio proeminente. Napoleão não se importou. “Não é preciso que uma esposa seja uma mulher bonita. Já em relação a uma amante, é o contrário. Uma amante feia é uma monstruosidade. Faltaria a ela seu principal, ou melhor, seu único dever”, havia escrito, anos antes, em uma carta ao irmão José.

A união de Napoleão e Maria Luísa, celebrada em 1810, selaria um armistício entre adversários ferrenhos, Áustria e a França. Um ano depois, nascia François Charles Joseph Bonaparte, a quem por direito deveria caber o título de Napoleão II. A chegada do menino fez Maria Luísa passar a reinar também sobre o coração do marido. “Tenho um filho. Sou um homem feliz”, escreveu Napoleão. Em carta aos parentes da Áustria, ela se mostrava igualmente contente: “Meu amor cresce a cada dia. Quando lembro da ternura que este homem me dedica, mal posso conter as lágrimas”.

Tudo parecia correr bem até que, em 1812, após um desastre militar sem precedentes frente aos russos, Napoleão viu seu idílio – e seu império – começar a ruir. Obrigado a bater em retirada na guerra que empreendera contra as tropas do czar e acossado pelo rigoroso inverno da Rússia, abriu o flanco para que seus inimigos aproveitassem a situação adversa. Em 1813, Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria uniram-se e puseram por terra a hegemonia francesa na Europa. Na Paris sitiada, Maria Luíza foi obrigada a abandonar a cidade. “Impediram-me de encontrá-lo. Disseram que, se preciso, usarão a força para deter-me”, escreveu ela, desesperada, ao marido.

Enfim chegara o dia do guerreiro, até então invencível, provar o sabor amargo da derrota. Para ele, melhor pôr fim à própria vida do que suportar o estigma do fracasso. “A morte não é nada. Mas viver vencido e sem glória é morrer todos os dias”, sempre dissera. Tomou da pena e escreveu uma carta de despedida, antes de ingerir uma dose letal de veneno: “Você é quem eu mais amo no mundo. Minhas desgraças só me pesam pelo mal que fazem a você. Um beijo para nosso reizinho. Adeus, minha querida Luísa”.

O último desejo

Um acesso involuntário de vômito o manteve vivo. Assim, um alquebrado Napoleão foi obrigado a partir para o exílio na ilha de Elba, próxima a sua terra natal, a Córsega. Mais uma vez, não foi permitido que Maria Luísa o acompanhasse. Um ano depois, ele tentou retomar o trono e seus antigos domínios. Durante cerca de 100 dias, ainda conseguiu manter seu objetivo. Chegou a invadir a Bélgica, mas foi derrotado por uma aliança anglo-prussiana na célebre batalha de Waterloo, em 1815. Forçado a abdicar pela segunda vez, amargou novo e definitivo exílio em Santa Helena, uma ilhota inóspita, quase perdida no meio do Atlântico.

Napoleão, que nascera em uma ilha, morreria naquela outra, em 5 de maio de 1821. Aos 52 anos, o velho general estava doente, obeso e deprimido. Como um de seus últimos pedidos, solicitou que, antes de lhe descerem à sepultura, durante a autópsia, arrancassem-lhe o coração e o enviassem a Maria Luísa. No entanto, o administrador de Santa Helena, sir Hudson Lowe, não permitiu que o desejo do moribundo fosse cumprido. As ordens eram as de que Napoleão Bonaparte – vivo ou morto, o corpo inteiro ou qualquer parte dele – jamais deixasse a ilha.

Maria Luísa não recebeu o coração do marido. Em vez disso, tratou de preencher o próprio. Ao saber da morte de Napoleão, casou-se em segredo com o ajudante-de-ordens Adam Albert Graf von Neipperg, seu amante austríaco.

Vidas paralelas
Acompanhe, ao longo dos anos, a trajetória de Napoleão
Privado

1769

Nascimento filho de Maria Letizia Ramolino Buonaparte

1786

Apaixona-se por Caroline Colombier

1789

Perde virgindade com uma prostituta

1794

O pai de Bernardine Desirée proibe a filha de casar com Napoleão

1795

Durante o período de um ano fez 6 propostas de casamento todas recusadas

1796

Casamento com Josefina

1798

Seduz Pauline Fourés, esposa de um tenente, e Zenab filha de um xeique egípcio

1800

Romance com a soprano Giusseppina Grassini

1803

Casos com Mademoiselle Duchesnois sei lá quem é ela é com Mademoiselle George

1806

Nasce León, suposto filho com Eleonore D.

1807

Conhece Maria Waleska

1809

Divorcia-se de Josefina

1810

Casa com Maria Luísa da Áustria

1810

Nasce Alexander Walewski

1811

Nasce o herdeiro François Charles Bonaparte

1818

Envolvimento com Albine Helene

1818

Nasce a filha legítima Josephine

1821

Morte Câncer é a causa mais provável

Público

1784

Escola Militar forma-se na artilharia em tempo recorde

1789

Revolução Francesa torna-se herói na Córsega

1793

Cerco de Toulon derrota ingleses e vira general

1795

Rebelião de Vendéia sufoca revolta na França

1796

Campanha da Itália lidera a vitória sobre a Áustria

1798

Campanha do Egito derrota diante dos ingleses

1799

Gope de Estado em que se torna cônsul frânces

1800

Batalha de Marengo (ver página 32)

1802

É nomeado cônsul vitalício

1804

Proclama-se Imperador da França

1805

Batalhas de Trafalgar e Austerlitz

1806

Bloqueio Continental tentar isolar a Grã-Bretanha

1807

Batalha de Eylan na Polônia

1809

Guerra na Áustria derrota os rivais outra vez

1812

Guerra na Rússia, trágica retirada sob a neve

1813

Batalha das Nações tropas franceses são derrotadas

1814

Emilio em Elba o general prepara a volta

1815

Exílio em Santa Helena

1815

Batalha de Waterloo


Saiba mais
Livros

Uma História dos Povos Árabes, Albert Hourani, Companhia das Letras, 1994

Vasto e elegante panorama sobre o mundo árabe, de antes de Maomé até os conflitos mais recentes.

O Islã, Karen Armstrong, Objetiva, 2001

Resumo da história do islamismo, revela como os movimentos extremistas surgiram em reação ao domínio colonial do Ocidente.

O Que Deu Errado no Oriente Médio?, Bernard Lewis, Jorge Zahar, 2002

O polêmico historiador vai em busca das causas da decadência do poder do mundo islâmico diante da emergência das potências européias.


Rebentos napoleônicos
O imperador teve um bocado de filhos - nem todos assumidos
Oficialmente, o pequeno François Charles Joseph Bonaparte foi o único filho de Napoleão. Herdeiro do trono francês, ele tinha apenas 4 anos quando, em 1815, o pai foi forçado a abdicar definitivamente. O garoto foi criado na corte de Viena, onde receberia o título de duque de Reichstadt. Morreu tuberculoso, aos 21 anos. Mas a descendência do imperador não se extinguiria com ele. Napoleão reconheceu a paternidade de três filhos bastardos. O mais célebre, Alexander Walewski, filho da polonesa Maria Waleska, nasceu em 1810 – na França, tornaria-se diplomata, ministro e senador. Quatro anos antes, Eléonore Denuelle, dama de companhia de uma das irmãs de Napoleão, dera à luz um menino que era a cara do general. Eléonore chegou a pedir permissão para dar à criança o nome do pai (“Napoleón”, na versão francesa). Para disfarçar, a criança foi batizada apenas de León. Já no exílio em Santa Helena, Napoleão envolveu-se com Albine Hélêne, esposa de um dos poucos serviçais que teve direito de levar para a ilha. Em 1819, em meio a uma crise de depressão, Albine deixou Santa Helena levando uma menina de 1 ano chamada Josephine, que Napoleão admitiria como sua filha. Além dos três bastardos assumidos, haveria pelo menos mais meia dúzia de filhos não reconhecidos por Napoleão. Em 1922, foram publicadas as memórias de Emilie de Pellapra, que se dizia filha do lendário general. Não é algo assim tão improvável: a mãe de Emilie era listada pelo próprio Napoleão como parte de seu rol de amantes.

1º de Uma Coleção de 4 Histórias - Batalhas Napoleônicas
Virada em Marengo
Fabiano Onça
Travada em 14 de junho de 1800, enquanto França e Áustria disputavam o norte da atual Itália, a batalha de Marengo tinha tudo para ser uma fragorosa derrota para Napoleão. O general havia espalhado seu exército, esperando que o inimigo recuasse. Mas Michael von Melas, comandante austríaco, partiu para o ataque: foi com as suas tropas de encontro aos franceses, pegando-os de surpresa pela manhã. Quando Napoleão percebeu que tinha todo o exército inimigo diante de si, despachou mensageiros para o general Desaix, que havia sido mandado no dia anterior com duas divisões para tentar flanquear os austríacos.

Por volta de 14h, prevendo uma vitória fácil, Melas entregou o comando ao major-general Zach e partiu para Viena – ia receber as congratulações pela conquista. O inexperiente Zach, entretanto, posicionou seus batalhões numa grande fileira. Napoleão juntou sua artilharia e varreu os austríacos. O golpe decisivo veio com Desaix. Ele não tinha recebido mensagem alguma, mas, de manhã, ordenara meia-volta ao ouvir o som de canhões ao longe. Com os austríacos fragilizados pelo bombardeio, Desaix liderou o contra-ataque. O general Kellerman e sua cavalaria pesada terminaram o serviço. No dia seguinte, o general Melas assinou a Convenção de Alexandria, em que a Áustria aceitou se retirar do território italiano.

1. Quando as divisões francesas, quase sem munição, iniciam a retirada, as tropas de Desaix reforçam o centro, interrompendo a investida austríaca.

2. Especialista em artilharia, Napoleão dá ordens para alinhar os canhões e atacar as colunas austríacas, que marchavam todas juntas. Enquanto isso, Desaix comanda o contra-ataque pelo centro.

3. A cavalaria pesada de Kellerman investe de surpresa pela ala esquerda dos austríacos, desbarata a formação inimiga e liquida a batalha.

Reforços
Para ir além da batalha
Lâmina milionária

Em 10 de junho, o sabre utilizado por Napoleão em Marengo foi arrebatado num leilão na França. Custou nada menos que 4,8 milhões de euros – preço recorde para uma arma. O proprietário, cujo nome não foi divulgado, é um membro da família de Napoleão. Decorado com símbolos da Roma imperial, o sabre tem lâmina curva, inspirada nas eficientes armas orientais.

A morte do salvador

Aos 32 anos, Louis Charles Antoine Desaix era um homem de confiança de Napoleão. Havia se distinguido como líder militar durante a campanha do Egito, em 1798. Em Marengo, sua decisão de voltar para ajudar Napoleão mesmo sem ter recebido ordens o transformou em herói. O preço que pagou, entretanto, foi alto: enquanto atacava os austríacos, Desaix foi atingido por um tiro e morreu. No segundo aniversário da batalha, Napoleão inaugurou uma fonte em homenagem a Desaix na Place Dauphine, em Paris.

Homens-tanque

A cavalaria pesada do general Kellerman, que agiu no fim da batalha, era composta pela nata dos cavaleiros franceses. Protegidos por uma placa de metal em volta do torso e um capacete, os “couraceiros” eram capazes de quebrar as mais vigorosas linhas inimigas. Seu armamento principal era uma longa espada. O secundário eram pistolas e, às vezes, uma carabina.

Revista Aventuras na História