domingo, 16 de janeiro de 2011

Da breve Perestroika à eterna era Putin


Análises traçam paralelos entre a União Soviética e a Rússia atual. Entre os pontos mais evidentes, estariam a burocracia, o sistema de partido único, o desrespeito aos preceitos democráticos e o renascimento de um “imperialismo russo”. No entanto, o período Putin está longe de se parecer com estagnação da era Brejnev.

por Vladislav Inozemtsev

Rússia de 2010 não é a União Soviética do fim dos anos 1970. Mas é verdade que as duas têm muito em comum: lá, onde reinava absoluto o Partido Comunista da União Soviética (PCUS), encontra-se desde então o Partido Rússia Unida, presidido por Vladimir Putin e constituído por 46% de funcionários de diversas hierarquias. O Soviete Supremo foi substituído pela Duma, a Assembleia Nacional, cujos deputados são eleitos a partir de listas de partidos formuladas pelo Kremlin – os partidos que estiverem fora de seu controle não são elegíveis. Toda manifestação de oposição é reprimida, a televisão é censurada e os tribunais costumam dar ganho de causa ao Estado. No âmbito da economia, tem-se agora o “neosovietismo”: na época de Leonid Brejnev, presidente de 1977 a 1982, os hidrocarbonetos e as matérias-primas constituíam 55% das exportações; hoje representam 80%. O número de funcionários públicos aumentou, assim como os efetivos das forças de segurança. As grandes empresas estão sob o controle do Estado e, em termos de política externa, o desaparecimento da União Soviética é percebido, segundo Putin1, como “a maior catástrofe geopolítica do século XX”.

Mas, ao mesmo tempo, a Rússia atual é radicalmente diferente do que foi a União Soviética. Monstruoso sob vários aspectos, o regime no poder governa uma nação paradoxalmente livre. Para uma classe de privilegiados, hoje é possível sair e entrar no país quando quiser. Assim, mais de cinco milhões de russos vivem no exterior, mas conservando sua cidadania original. A economia do país está aberta para o mundo: em 2009, o volume do comércio exterior representou 40,7% do seu PIB (Produto Interno Bruto), contra 18,3% nos Estados Unidos. Sua cultura e suas redes de informação são difundidas para fora dos limites territoriais. Encontram-se hoje no país jornais ocidentais e, nas grandes cidades, há retransmissoras de televisões estrangeiras. Ao contrário da China, a Rússia não censura a internet. Alguns veículos criticam abertamente o regime político, ainda que com um saldo de assassinatos escandalosos de vários jornalistas. O exercício da atividade comercial é livre – o país conta, hoje, com 1,5 milhão de pequenas e médias empresas – e os cidadãos podem se tornar proprietários de seus apartamentos ou casas, sem qualquer limitação prévia de área dos terrenos. Enquanto isso, brotam bancos privados e companhias industriais.

Esse sistema é único. Um misto de “quase soviético” e “pseudo-ocidental”, ele tem produzido uma situação tal que, segundo palavras do historiador russo, Aleksei Miller, “a pessoa chega a se sentir livre dentro de uma Rússia radicalmente diversa dos padrões democráticos”2. Ao menos em dois aspectos, o modelo de Putin é indiscutivelmente mais bem-sucedido que o de Brejnev.

No que diz respeito à política, na época soviética, o poder era exercido num vácuo, no interior de fronteiras impermeáveis e acompanhado por uma ideologia considerada brutal e simplista pelo Ocidente, ainda que apoiada por muitos russos. Era dentro desse contexto que o PCUS mantinha sua “verticalidade do poder” e lutava contra todo o pensamento alternativo e qualquer iniciativa que ameaçasse seu papel de “farol”. Essa ideologia entrou em colapso em favor de um capitalismo livre de qualquer princípio. As fronteiras estão abertas, os russos podem viajar para o exterior, criticar o poder, além de receber e difundir as informações que quiserem. Por isso, ainda que na última década vários princípios autoritários, característicos da era Brejnev, tenham reaparecido, eles não despertaram muita resistência dentro da população.

Propriedade privada


No aspecto socioeconômico, o sistema soviético dizia fundamentar-se pela distribuição de bens básicos para a sobrevivência. Com a Perestroika, política introduzida em 1985 para reestruturar a economia soviética, os reformistas russos e os ocidentais que aconselharam o primeiro governo democrático do país se convenceram de que o acesso à propriedade privada evitaria o retorno do autoritarismo e da dependência para com o Estado. Mas isso não ocorreu. O crescimento econômico dos anos 2000 provocou o enriquecimento de muitos cidadãos e, ao mesmo tempo, garantiu sua lealdade ao novo regime. Custe o que custar, as classes média e alta tentam assegurar a perenidade de seu status.

O ex-presidente e atual primeiro ministro, Vladimir Putin, ainda atrai aplausos daqueles que consideram que esse foi o principal serviço que ele prestou ao país. Para sustentar essa estabilidade econômica, o governo defende a produção nacional com medidas protecionistas e oferece a dezenas de milhares de companhias russas uma situação de quase monopólio sobre as mercadorias. O aumento bruto dos custos3 está elevando os preços no varejo, mesmo sobre a mercadoria europeia, mas isso é compensado destinando-se aos mais pobres parte dos dividendos obtidos com o petróleo.

Desta forma, os dirigentes russos foram muito bem-sucedidos ao utilizar um modelo de governo que seus antecessores comunistas nem mesmo ousaram sonhar. Eles melhoraram o nível de vida dos trabalhadores, ao mesmo tempo que adiaram as eleições livres e suprimiram o direito de greve e manifestações. Puseram a justiça a serviço da burocracia e isolaram-se do povo.

Espaço social


Como resultado, temos uma sociedade livre sob o controle de um poder autoritário, uma simbiose impossível segundo os critérios sociológicos ocidentais. Se a Rússia pode aceitar tudo em prol de sua liberdade, defendida apaixonadamente durante a Perestroika, é porque a noção de ação coletiva é amplamente desacreditada. O segredo da Rússia de Putin deve-se a um rápido crescimento do espaço social, onde o cidadão tem a sensação de poder resolver as contradições do sistema individualmente.

A magnitude e a força da Perestroika de 1985 se explicam pela origem social múltipla de seus adeptos, que apenas em circunstâncias especiais conseguiriam agir em conjunto. O sistema soviético não tolerava a emergência de grupos sociais muito numerosos; ele também censurava opiniões divergentes, sufocava culturas alternativas, reprimia a vida religiosa; os russos não tinham acesso à história autêntica de seu país e não deveriam manifestar nacionalismo. Um professor universitário ateu ou um camponês religioso ortodoxo tinha as mesmas razões de descontentamento com relação ao sistema. As “respostas individuais” aos desafios existentes eram impossíveis. A isso, juntou-se uma economia rudimentar, privilegiando a expansão da indústria militar antes de responder às necessidades básicas dos cidadãos, que já se encontravam esmagados por um sistema burocrático, por sua vez engessado pelo partido.

Desde que Mikhail Gorbatchev lançou a ideia de mudança, atraiu milhões de simpatizantes. Alguns queriam reformas e a modernização do sistema; outros, sua destruição total. Todos, de qualquer modo, sabiam que a resolução individual dos problemas passaria por profundas transformações. Daí a grande variedade de cidadãos convertidos à Perestroika: os mineradores (que hoje morrem dentro dos poços, porque seus dirigentes se recusam a investir em segurança) lutaram com o mesmo entusiasmo dos primeiros empresários privados pelas mudanças radicais, que apoiados pelos burocratas locais e não tendo outra opção, desistiram de suas carteirinhas do Partido Comunista e proclamaram a independência das repúblicas nacionais.

O sistema atual não reproduz os erros do anterior. Ele soube se livrar a tempo de milhões de cidadãos muito ativos – que saíram do país nos anos 1990 –, cujos posicionamentos políticos teriam, sem dúvida, criado um novo tipo de dissidência. Para a maioria dos cidadãos, o sistema também deu acesso a diversas formas de enriquecimento e autonomia graças ao desenvolvimento do comércio, às possibilidades de mobilidade social (por vezes vertical e horizontal) e ao direito de cruzar fronteiras. O sistema também soube encontrar um equilíbrio judiciário entre interesses e potencial: às pessoas talentosas e determinadas, ele ofereceu posições lucrativas nos negócios e, para as outras, postos dentro de uma burocracia gangrenada pela corrupção.

O sistema soviético gastou uma energia colossal para convencer os cidadãos de sua superioridade em todas as áreas. Agora, isso parece um desperdício. A sociedade russa é uma sociedade “sem cidadãos”: como ela pôde se transformar nessa estrutura leve e desagregada? A resposta, sem dúvida, deve ser buscada dentro das especificidades de sua elite e nos seus trampolins sociais. Na maioria das sociedades que se modernizam, existem vários tipos de elite – política, empresarial, intelectual, militar. No caso da Rússia, essas divisões foram apagadas durante o período de transição para o capitalismo. As elites universitárias e militares foram consideradas inúteis e seus trabalhos praticamente pararam de ser remunerados. Ao mesmo tempo, a esfera material absorveu o conjunto de valores sociais, e as elites políticas se viram tête-à-tête com o povo, que reclamava suas riquezas. O mundo dos negócios começou, então, a definir os valores sociais e a penetrar, de acordo com sua própria expansão, as estruturas do poder. Nesta primeira etapa – até o início dos anos 2000 –, o aparelho do Estado dependia em grande parte desta esfera econômica, e ainda estava longe de se ater a qualquer princípio ideológico.

A situação se deteriorou muito ao longo dos últimos dez anos. A chegada de Putin foi acompanhada por uma nova categoria de personalidades cada vez mais jovens, sem outro desejo além do enriquecimento pessoal e aceitando de bom grado as incríveis possibilidades que lhes oferecem os dirigentes políticos. Os homens de negócios que tenham tido algum poder no período anterior foram imediatamente declarados indesejáveis. O Estado se estruturou aos poucos como uma empresa em escala nacional (nos primeiros anos, um bom número de grandes empresas fora devolvido ao controle do poder), e os funcionários, em nível regional e federal, também entraram para o mundo dos negócios. Nos anos 1990, ninguém se surpreendia ao saber que um governador de uma região pudesse estar à frente de um grupo bancário ou industrial; em 2000, todos achavam normal que a indicação para o cargo de governador ou ministro passasse por amigos ou parentes de diretores de alguma empresa comercial da região.


A ascensão dos siloviki, representantes das forças públicas nos ministérios do Interior, da Defesa e da Segurança, deu-se no mesmo cenário, levando a um recorde de corrupção. A privatização dos bens da indústria militar, postos em liquidação, fez com que os funcionários do Ministério da Defesa ganhassem milhões – o preço dos equipamentos militares foi multiplicado por oito ou nove na última década. No final dos anos 2000, as bases da nova realidade russa foram estabelecidas: livre conversão do poder em moeda e em bens, e vice-versa. A elite consolidada considerava sua atividade não como um serviço prestado à nação, mas como uma forma particular de transação comercial. Paradoxalmente, ela é muito aberta: cooptação regular de novas normas e possibilidade de abandonar o navio para se dedicar exclusivamente aos negócios. Os ocidentais tendem a pensar que a burocracia russa é ineficaz, mas ela é realmente bem eficiente – há, simplesmente, outros critérios de eficiência e outra visão de deveres.

Modelo exclusivo


A Rússia, nessa situação inédita, funciona segundo leis e códigos próprios. O país não é uma pálida réplica da democracia europeia, não é uma ditadura oriental revista e corrigida graças às ligações que teve com a história da Europa. Tampouco é a União Soviética ressuscitada dentro de sua ideologia de toda poderosa, nem um modelo de “transição autoritária”, já que sua economia não está evoluindo da acumulação de bens para o pós-industrial, mas segundo o esquema inverso.

Hoje, a Rússia é um sistema resultante do rápido colapso de todas as orientações morais e de todos os ideais de uma sociedade, dentro de um mundo dominado por motivações materialistas. Ela traçou seu próprio caminho. Ela não existiria se os europeus se recusassem a comprar petróleo de empresas semicriminosas, se seus dirigentes não se alegrassem em fazer parte das atividades da Gazprom – a maior fornecedora de gás natural do mundo –, se os investidores não estivessem em busca de bolhas especulativas nos mercados de valores mobiliários e imobiliários russos. Ela não existiria sem as sociedades off-shore, através das quais os empresários possuem abertamente (e os funcionários russos também, mas secretamente) 70% das grandes indústrias do país. O modelo russo seguiu um desenvolvimento lógico, que ainda pode perdurar por muito tempo, já que o descontentamento social não é evidente. Os cidadãos que o contestam são livres para se expressar dentro de esferas que não seja a política. Até mesmo os que querem brincar de desordeiros não são impedidos: simplesmente não têm plateia, nem mobilizam ninguém.

A sociedade russa, portanto, integrou o cinismo que a preside sob uma forma mais discreta, funcionando como qualquer comunidade ocidental: primazia pelo dinheiro e consumo, nivelamento de normas culturais, docilidade das populações, difusão maciça de tecnologias alienantes. O único problema desse sistema é sua incapacidade em formar uma classe intelectual e, portanto, para produzir conhecimentos indispensáveis. Os intelectuais permanecem supérfluos num país dedicado à exploração de seus recursos naturais, mas poderiam ser muito úteis quando as rivalidades econômicas mundiais se revelarem duras. O presidente Dmitri Medvedev entendeu bem isso. Ele não tem nenhuma intenção de desmontar o regime existente, mas sabe que é incompatível com o progresso tecnológico. Será que ele irá lançar reformas verdadeiras? Se for o caso, será que poderia mudar o sistema sem provocar sua destruição? Seja qual for a orientação política, democratas ou liberais, as chances dessas reformas acontecerem são obviamente maiores na Rússia de hoje do que seriam na União Soviética do passado.

Vladislav Inozemtsev é diretor do Centro de Pesquisas sobre Sociedade Pós-industrial e redator-chefe da revista Svobodnaïa Mysl


1 Comunicado à Assembleia Nacional, 25 de abril de 2005, disponível em: http://archive.kremlin.ru/text/appears/2005/04/87049.html
2 Aleksei Miller, “Da democracia do século XIX à do século XXI, e o que vem depois?”, em Vladislav Inozemtsev, Démocratie et modernisation: Débats sur lês défis du XXIè siècle, Evropa, Moscou, 2010, p.101 (em russo).
3 Na Rússia, o preço dos metais e materiais de construção é um dos mais elevados do mundo. O quilômetro de estrada entre Moscou e São Petersburgo custou 23 milhões de euros, e o custo de extração de gás foi multiplicado por sete entre 2000 e 2009. Vedomosti, Moscou, 14 de agosto de 2009, 14 de abril, 31 de maio e 1º de junho de 2010.
Le Monde Diplomatique Brasil

domingo, 9 de janeiro de 2011

Ainda há lugar para o jeitinho brasileiro?


Roberto Sabato Moreira


O que há de comum entre a mamãe que estaciona em fila dupla para pegar o filhinho na porta da escola e o indivíduo que se vale de um cargo para mandar voltar um avião que ele perdeu? Em se tratando do Brasil, mais do que se poderia imaginar.

As duas situações têm em comum o que ficou consagrado, para o bem ou para o mal, como o jeitinho brasileiro, uma das marcas distintivas de nossa identidade, associada à idéia de malandragem.

A malandragem, assim como a preguiça, a cordialidade e o jeitinho foram ou têm sido alguns dos atributos aplicados para qualificar o modo de ser do brasileiro.

Do mesmo modo que a feijoada, o carnaval, a mulata, o samba, a cachaça e o futebol foram elementos da cultura popular apropriados pelas elites para forjar símbolos nacionais.

Na origem, está a estrutura escravista que domina quatro séculos da história brasileira e que torna longo o aparecimento de uma sociedade de classes onde antes só havia, a rigor, o proprietário de terras e o escravo.

No Império, o homem livre, nem senhor nem escravo, é o agregado, vivendo do favor, retratado pela literatura do século XIX. Nos primeiros anos do século XX, feitas a Abolição e a República, esse legado da escravidão se traduz no desprezo ao trabalho.

Mas nessa nova ordem, de passagem do mundo rural e agrário ao contexto urbano e de nascente industrialização, surge a necessidade de constrição da mão de obra, desafeita ao valor do trabalho.

Era preciso quebrar as resistências ao trabalho em meio a uma população que não via sua finalidade moral ou prática.

O ambiente aqui é o Rio de Janeiro, maior cidade e capital do país, passando por transformações urbanas que a tornariam uma cidade civilizada e o veículo da malandragem não é mais a literatura, mas a música popular.

No interstício entre o capital e o trabalho, surge o espaço do malandro. O compositor popular urbano – ele mesmo localizado nesse interstício – capta com intuição a pouca vantagem do trabalho e exalta a malandragem como possibilidade de liberdade e prazer.

Além de estar interessado em subordinar o proletariado à disciplina do trabalho, o governo se empenhava na construção de uma imagem ufanista do país. Outros grupos tinham interesse na valorização da nossa ginga e do nosso jeitinho.

A capacidade de se safar de situações difíceis é um modo de driblar uma estrutura onde ainda predominam o favor, o apadrinhamento e a relação pessoal sobre as normas universais de conduta.

Isso é valorizado, ganhando expressões emblemáticas no futebol e em outras áreas em que a habilidade tornou-se motivo de orgulho patriótico.

Consolidada a ordem social competitiva, não sobraria mais espaço ao elogio da malandragem, mas ela permanece como símbolo de identidade.

Mais tarde, a malandragem serviu de discurso cifrado para driblar a censura e a repressão.

Passado o estado autoritário, vem outro momento de sua negação, em que os apelos à ética e à cidadania se fazem mais fortes e o comportamento cotidiano do indivíduo é igualmente criticado.

Aqui, a mesma habilidade e jeitinho, antes valorizados, são vistos como burla da lei e da ordem cuja debilidade se lamenta.

Hoje, o brasileiro não parece muito inclinado a valorizar a malandragem, que remeteria à corrupção das elites e às fraudes na esfera pública ou à violência da empresa do narcotráfico.

Chico Buarque na Ópera do Malandro já falava do malandro oficial, com gravata e capital, que substitui o malandro que aposentou a navalha.

Enfim, o orgulho ou a vergonha quanto à esperteza no escapar de situações constrangedoras, o jeitinho que supre ou agrava a falta de exercício de uma cidadania plena, no fundo expressam o que se poderia chamar de um dilema brasileiro.

A ambigüidade que parece permanecer como substrato da nossa mentalidade. Em um momento, invejamos o modelo das sociedades centrais e negamos os elementos de nossa formação histórica.

Em outro, valorizamos talvez exageradamente algumas de nossas características, como algo absolutamente original que nos orgulha.

Isso tem nos enredado em contradições como, por exemplo, ao nos negarmos, cultivamos como que um complexo de inferioridade e quando, ao contrário, nos orgulhamos da nossa malandragem, alimentamos a impossibilidade de construir uma ordem social mais justa, equilibrada, orientada por valores universais.

O jeitinho pode ser simpático, gerando nossa fama de amáveis, gentis e criativos. Pode até ser estratégia de sobrevivência de uma população desassistida em suas necessidades básicas. Mas sempre será uma quebra da ordem, da norma, uma apropriação do público em benefício do privado.
(UnB Agência, 4/4)

Roberto Sabato Moreira é sociólogo e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UnB. Artigo publicado na “Agência UnB”:
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Devadasis as servas da deusa

Numa tradição que vem do século 9, meninas indianas são destinadas por suas famílias para servir à deusa Yellamma. Sua tarefa: atender aos desejos sexuais dos homens de suas comunidades.

Sentada na casa de sua família, na cidade indiana de Gokak, Kavita Kurbati, de 18 anos, aguarda um cliente numa tarde de quinta-feira. Suas filhas, Rakshita, de 3 anos, e Chaitra, de 1, dormem tranquilamente a seus pés. Quando Kavita chegou à puberdade, sua mãe, recorrendo a uma antiga tradição ligada à deusa hindu Yellamma, designou a filha para tornar- se uma devadasi, ou "serva da deusa". Isso significa que Kavita não pode desposar um mortal. Em vez disso, como uma forma de agradar Yellamma e trazer mais sorte para sua família, ela serve como uma "prostituta do templo", satisfazendo as necessidades sexuais dos homens de sua comunidade.

Embora sua posição como "prostituta do templo" tenha raízes numa complexa tradição religiosa praticada na Índia desde o século 9, Kavita, como uma moderna devadasi, é basicamente uma trabalhadora sexual comum. Com seus ganhos de cerca de 300 rúpias (pouco mais de US$ 6), ela sustenta a mãe, o pai, três irmãs, dois irmãos e as filhas.

Acima, Kavita Kurbati, com suas filhas, aguarda um cliente.

Seu ritual de consagração - realizado em sua própria casa e pouco parecido com os enfeitados ritos das devadasis do passado - foi uma espécie de cerimônia de casamento curta, durante a qual um muttu (colar de contas vermelhas e brancas) foi colocado ao redor de seu pescoço, simbolizando seu status de serva de Yellamma. O sacerdote que celebrou a cerimônia foi pago com presentes e dinheiro. Ele, por seu lado, usou parte do que recebeu para recompensar a intermediária que recrutou Kavita

O sacerdote teve seu pagamento, a intermediária também, a família de Kavita ganhou uma fonte de renda garantida e os homens da comunidade conseguiram acesso sexual a uma bela jovem. Mary Malappvgol, amiga de Kavita, também foi tornada devadasi e, conforme acerto com o sacerdote do templo, levada para Puna, uma cidade ao sul de Mumbai, onde ela trabalhou num bordel. A experiência de Mary é a mais recente encarnação do sistema devadasi, que agora canaliza garotas de famílias de castas mais baixas para a lucrativa indústria do sexo nas cidades indianas.

A prática de oferecer meninas a divindidades na esperança de conseguir fertilidade e prosperidade não é exclusiva da Índia. Na Itália, por exemplo, era costume oferecer uma "vestal virgem" durante a época da colheita de uvas, e as civilizações da Mesopotâmia, Babilônia, Egito, Síria e Grécia usavam moças para aplacar os deuses.

O poder da sexualidade e suas conexões com a fertilidade da terra são encontrados em muitos mitos pagãos e drávidas (o povo drávida foi um dos primeiros a habitar a Índia), e há relatos antigos sobre práticas parecidas com as das devadasis em templos budistas e jainistas. Além disso, sacerdotes de templos que se diziam representantes de divindades masculinas ocupavam lugar central no ritual de consagração das devadasis e, com freqüência, eram os primeiros a iniciar sexualmente as meninas, num rito que imitaria um "encontro sexual divino".


Acima, uma devadasi rende culto a Yellamma.

No passado, apenas as jovens mais bonitas eram escolhidas como devadasis e trabalhavam no templo, ajudando o sacerdote no culto à deusa. Assim como as gueixas japonesas, elas cantavam e dançavam, e eram sustentadas pelos homens mais ricos da comunidade, a quem serviam como parceiras sexuais. Elas frequentemente ganhavam lotes de terra de reis ou homens de castas superiores, e a elite as convidava para casamentos e outros eventos importantes. As devadasis eram reverenciadas e ocupavam uma posição de respeito na comunidade.

Quando chegaram à Índia, os britânicos, com seu olhar cristão, se horrorizaram com o sistema devadasi. Assim, durante seu domínio, a posição das devadasis foi depreciada. Embora seu simbolismo religioso e sua função sexual na sociedade permanecessem, elas não tinham mais o sustento econômico do passado.

No passado, as devadasis eram reverenciadas e ocupavam lugar de destaque na comunidade. Após a chegada dos britânicos, porém, sua posição se degradou até chegar à da prostituta sagrada

Acima, duas meninas fazem suas orações matinais na escola da Vimochana Sangha, para filhas de devadasis.

Com o tempo, sua posição se degradou até chegar à da prostituta sagrada cujos ganhos beneficiam o templo, os sacerdotes que nele trabalham e, de alguma forma, sua própria família. Uma nova versão do sistema devadasi começou a emergir, no qual a devadasi virou a engrenagem central na bemazeitada máquina econômica de Yellamma. Para esse sistema se perpetuar, suas crenças religiosas têm de ser reafirmadas sempre. Os devotos de vilas, pequenas cidades e até áreas distantes - em geral, gente pobre e inculta - têm sido encorajados a visitar o templo para cumprir os rituais de culto a Yellamma.

Os fiéis ouvem que um único dia sem novos seguidores no templo de Yellamma atrairia a ira da deusa e traria desgraças à terra. Dias auspiciosos (terças e sextas- feiras), épocas de lua cheia e festivais anuais atraem grandes levas de adeptos. Durante esses dias, as lendas ganham dramatizações que reforçam a necessidade constante de os fiéis cultuarem a deusa e lhe fazerem doações.

Uma garota pode virar devadasi por várias razões. Cabelo embaraçado (em geral consequência de má higiene), doença de pele e deficiências físicas como a cegueira são considerados cartões de visita de Yellamma. Famílias sem dinheiro para o dote da filha também tendem a fazer dela uma devadasi como meio de se livrar de seu sustento; outras, sem filhos homens, com frequência escolhem uma filha como devadasi, tornando-a o "filho" que vai sustentar a família.


Acima, jovem se banha numa área de banho comunitária durante o Yellamma Yatra, em Saundatti.

Atualmente, estima-se que haja cerca de 250 mil devadasis nas províncias de Karnataka e Maharashtra, no oeste da Índia. Assim como Kavita Kurbati, muitas sustentam famílias numerosas. Sheela Kallimani, de 18 anos, foi dedicada à deusa quando tinha 4 anos e, ao atingir a puberdade, começou a trabalhar com sexo, na casa de sua família. Jovem e bonita, ela ganha mais de US$ 20 por freguês - uma quantia obscena se comparada aos poucos dólares que a maioria das prostitutas cobra. Embora tenha chegado ao 7º ano do ensino básico e, diversamente da maioria das devadasis, seja alfabetizada, Sheela aceita sua situação. "Não quero fazer esse trabalho, mas minha família precisa de mim para isso", ela se resigna. "Eu sempre uso preservativo", avisa.

O principal evento ligado ao culto é o Yellamma Yatra, festival anual realizado em Saundatti (no norte de Karnataka) no qual meninas são ritualmente oferecidas à deusa. O Yatra começa na lua cheia no mês indiano de Magh (janeiro/fevereiro) e atrai cerca de 500 mil peregrinos.Segundo a lenda, após três meses de abstinência sexual, Yellamma tem de ser redespertada sexualmente. Mas seu marido, Yamadagni, é assassinado.

No alto, adeptos chegam para o festival. A maior parte dos fiéis da deusa tem origens sociais modestas.

Se não houver uma divindade masculina para despertá-la sexualmente, ela ficará infértil. De algum modo, porém, Yamadagni é ressuscitado e o despertar sexual de Yellamma acontece. Com seus poderes sexuais restaurados, sua capacidade de abençoar os adeptos fica mais potencializada e deve ser aprimorada.

As devadasis, suas contrapartes sexuais humanas, são dedicadas a ela em grande número e seu defloramento simboliza a reunificação de Yellamma com Yamadagni Durante o festival, os adeptos fazem promessas à deusa, que incluem doar renda, produtos agrícolas ou gado, desfilar nu, prostrar-se ou - o mais relevante - doar uma devadasi. Essa última doação implica uma complexa série de ações, tais como banho ritual, esfregar açafrão na testa da menina, pôr pulseiras verdes em seus pulsos e um muttu em seu pescoço.

Muitas devadasis de mais de 44 anos (quando são consideradas velhas para o trabalho sexual) assumem o papel de jogathi ("voluntárias"), figuras importantes na perpetuação do culto, em especial durante o festival. Elas em geral vivem no templo e ouvem as queixas e desejos dos fiéis, que depois descrevem à deusa. Também podem visitar lares de adeptos, ouvir suas necessidades e, em certos casos, agir como médiuns por meio das quais Yellamma se manifesta. Algumas devadasis mais idosas, porém, mendigam perto da entrada dos templos. Com frequência, os adeptos de Yellamma mais escolarizados tendem a achar as práticas e superstições de sua fé questionáveis. Mas romper com sua família e comunidade e converter-se a outra religião é difícil, pois, na cultura indiana, a coesão familiar é colocada acima de tudo.

Festivais anuais dedicados a Yellamma atraem grande número de adeptos, cada qual com sua promessa

Desde os anos 1940 têm sido feitas tentativas para romper o sistema devadasi, com poucos resultados positivos. Uma lei de 1982 do governo de Karnataka, que pune com multa e até cinco anos de cadeia o responsável pela conversão de uma mulher a devadasi, é de difícil aplicação, pois o processo exige evidência fotográfica do ritual de consagração. Essas cerimônias continuam a ser feitas sem problemas, à noite, nos festivais, ou nos lares das famílias das devadasis. Em 1985, o advogado B.L. Patil fundou uma organização, a Vimochana Sangha, dedicada a erradicar o sistema devadasi. Ele foi fortemente influenciado por um professor que preparava sua tese de doutorado sobre o sistema. "Visitamos o distrito de prostituição em Mumbai e lá havia uma alta porcentagem de devadasis de nossa área (norte de Karnataka), o que me causou uma profunda impressão", explica o advogado.

A Vimochana iniciou um programa de conscientização nas comunidades devadasis. Assistentes sociais visitaram esses locais e tentaram convencer as mulheres de que outros prosperavam à sua custa. Os adeptos da deusa, porém, não foram receptivos e proibiram a presença das devadasis nos encontros. Em 1990, a Vimochana fundou a primeira escola para filhos de mulheres devadasis. No primeiro ano, 50 alunos viveram e tiveram aulas na casa de Patil, na vila de Malabad.

No segundo ano, o número de crianças dobrou, e, no ano seguinte, a organização teve de alugar outras duas casas para alojar mais alunos. Por fim, graças a doações de parceiros e de um lote de terra cedido por sua esposa, Patil ergueu um edifício escolar com quartos para os alunos. As matrículas chegaram a 450, incluindo crianças de castas baixas cujas mães não eram devadasis. "Um dos impedimentos das crianças devadasis é que elas recebem apenas o sobrenome da mãe", explica o professor e conselheiro Girish Chandra. Com isso, podem ser discriminadas até mesmo ao pleitear empregos. A escola tem-se esforçado para incluir o nome do pai quando é possível identificá-lo.

Muitos dos formados na escola se tornaram enfermeiros por meio de uma escola de enfermagem fundada pela Vimochana. Outros seguiram carreira como professores, engenheiros e profissionais da computação, entre outras atividades. "O mais importante é que mais de 300 garotas estão casadas e vivendo no seio da sociedade", orgulha-se Patil. Apesar do êxito da escola, muitas famílias de alunos têm reservas sobre deixar suas filhas estudar além de certa idade. "Algumas garotas têm de se casar aos 12, 13 anos, mesmo sendo excelentes alunas", lamenta Chandra.

A Vimochana e outras organizações criaram programas para educar e reabilitar devadasis e outras trabalhadoras sexuais em Karnataka. Um dos objetivos centrais é prepará-las sobre temas de saúde, em especial a Aids. Os programas oferecem treinamento em profissões como editoração eletrônica, montagem e administração de salão de beleza, fabricação de incenso, conserto de TVs e celulares. Embora tenham relativo sucesso, esses programas enfrentam um obstáculo: em vários casos, as devadasis ganhariam mais fazendo sexo do que atuando na nova profissão.

Pesquisa: Equipe Planeta Fotos: Julia Cumes/Zuma Press/ Keystone

REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 437

A utilidade do conhecimento


A utilidade do conhecimento*

Carlos Vogt


Um dos grandes desafios do mundo contemporâneo é, ao lado do chamado desenvolvimento sustentável, a transformação do conhecimento em riqueza. Como estabelecer padrões de produção e de consumo que atendam às demandas das populações crescentes em todos os cantos da Terra, preservando a qualidade de vida e o equilíbrio do meio ambiente no planeta? Esta é, em resumo, a pergunta que nos põe o assim chamado desafio ecológico. Como transformar conhecimento em valor econômico e social, ou, num dos jargões comuns ao nosso tempo, como agregar valor ao conhecimento?

Responder a essa pergunta é aceitar o segundo desafio acima mencionado e que poderíamos chamar de desafio tecnológico. Para enfrentar essa tarefa, própria do que também se convencionou chamar economia ou sociedade do conhecimento, deveríamos estar preparados, entre outras coisas, para cumprir todo um ciclo de evoluções e de transformações do conhecimento. Ele vai da pesquisa básica, produzida nas universidades e nas instituições afins, passa pela pesquisa aplicada e resulta em inovação tecnológica capaz de agregar valor comercial, isto é, resulta em produto de mercado.

Os atores principais deste momento do processo do conhecimento já não são mais as universidades, mas as empresas. Entretanto, para que a atuação das empresas seja eficaz, é necessário que tenham no seu interior, como parte de sua política de desenvolvimento, centros de pesquisa próprios ou consorciados com outras empresas e com laboratórios de universidades. O importante é que a política de pesquisa e desenvolvimento seja da empresa e vise às finalidades comercialmente competitivas da empresa. Sem isso, não há o desafio do mercado, não há avanço tecnológico e não há, por fim, inovação no produto.

Um dos pressupostos essenciais da chamada sociedade ou economia do conhecimento é, pois, para muito além da capacidade de produção e de reprodução industriais, a capacidade de gerar conhecimento tecnológico e, por meio dele, inovar constantemente para um mercado ávido de novidades e nervoso nas exigências de consumo.

Na economia tipicamente industrial, a lógica de produção era multiplicar o mesmo produto, massificando-o para um número cada vez maior de consumidores. Costuma-se dizer que na sociedade do conhecimento essa lógica de produção tem o sinal invertido: multiplicar cada vez mais o produto, num processo de constante diferenciação, para o mesmo segmento e o mesmo número de consumidores. Daí, entre outras coisas, a importância para esse mercado, da pesquisa e da inovação tecnológicas.

A ser verdade essa troca de sinais, a lógica de produção do mundo contemporâneo seria não só inversa, mas também perversa, já que resultaria num processo sistemático de exclusão social, tanto pelo lado da participação na riqueza produzida, dada a sua concentração – inevitável para uns e insuportável para muitos –, quanto pelo lado do acesso aos bens, serviços e facilidades por ela gerados, isto é, o acesso ao consumo dos produtos do conhecimento tecnológico e inovador.

Desse modo, aos desafios enunciados logo no início, é preciso acrescentar um outro, tão urgente de necessidade quanto os outros dois: o de que, no afã do utilitarismo prático de tudo converter em valor econômico, tal qual um Rei Midas que na lenda tudo transformava em ouro pelo simples toque, não percamos de vista os fundamentos éticos, estéticos e sociais sobre os quais se assenta a própria possibilidade do conhecimento e de seus avanços. Verdade, beleza e bondade, no mínimo, dão ao homem, como já se escreveu, a ilusão de que, por elas, ele escapa da própria escravidão humana.

II

Dividir a riqueza, fruto do conhecimento, e socializar o acesso aos seus benefícios, frutos da tecnologia e da inovação é, pois, o terceiro grande desafio que devemos enfrentar e a sua formulação poderia se dar, pois, dentro de uma perspectiva cuja tônica fosse a de um pragmatismo ético e social. Quem sabe, possa ele constituir a utopia indispensável ao tecido do sonho de solidariedade das sociedades contemporâneas.

Todo conhecimento é útil. Como o fundamento da moral é a utilidade, é possível afirmar que a utilidade do conhecimento é o que o torna ético, por definição. Nesse sentido, não há conhecimento inútil, já que a ação de conhecer está voltada para proporcionar felicidade, prazer e satisfação à sociedade. O conhecimento é útil porque, como outras ações éticas do ser humano, corresponde à necessidade de uma prática desejável, aquela que nos leva a buscar a felicidade de nossos semelhantes e nela sentir o prazer de sua realização no outro.

Uma das características fundamentais do conhecimento contemporâneo é o seu utilitarismo.

Em que sentido o conhecimento utilitário das economias globalizadas na sociedade do conhecimento difere da utilidade ética constitutiva de todo conhecimento?

Procurar responder a essa questão é também procurar entender, na lógica de funcionamento das tecnociências, como as grandes transformações tecnológicas influenciam a ciência e como a ciência, ela própria, propicia novas tecnologias e inovações que dinamizam os mercados e ativam o consumo das novidades dos produtos delas decorrentes.

Desse ponto de vista, o conhecimento é utilitário não porque tenha finalidade prática, mas por agregar valor aos produtos dele derivados e por ter objetivos fortemente comerciais.

A comercialização do produto do conhecimento visa também à felicidade do outro, pela satisfação e pelo prazer, agora, do consumidor a que ficou reduzido o seu papel social.

Por outro lado, a dinâmica do conhecimento pressupõe a liberdade de conhecer. Os limites dessa liberdade são dados pelo alcance de nossa capacidade de conhecimento, isto é, nos termos dos ensaios de Montaigne e da filosofia de Pascal, pela portée, pelo raio de ação, do alcance da vida, da vida dentro do alcance de nossa ação no mundo.

Em outras palavras e em termos baconianos, a liberdade do conhecimento tem os limites do conhecimento puro em oposição ao conhecimento orgulhoso, oposição que, de certa forma, sob diferentes expressões, caracteriza todo o iluminismo e a grande e a longa herança racionalista que nos legou e que viva permanece em nossas atitudes teóricas e metodológicas diante do mundo, de seu conhecimento e dentro do conhecimento do conhecimento do mundo, para introduzir aí uma pitada de idealismo kantiano.

III

A alegoria mais conhecida do elogio da humildade do conhecimento contra o orgulho e a arrogância da pretensão metafísica das perguntas essenciais e das respostas definitivas está contida no jardim que Cândido, na obra homônima de Voltaire, descobre e decide cultivar em oposição às inquietações sem limite, isto é, sem alcance, sem portée, sem raio de ação, de Pangloss.

Da mesma forma, Swift, no livro famoso das Viagens de Gulliver, descreve os laputanos plenos de predicados que os tornam ilimitados e inúteis de conhecimento. São dotados para conhecer, sendo matemáticos exímios, mas são ambiciosos, vivendo nas nuvens, daí terem “um dos olhos voltado para dentro e o outro apontando diretamente para o zênite”.

Quer dizer, são orgulhosos por que querem a verdade definitiva e por serem dotados dessa ambição de conhecimento vivem tropeçando em si mesmos sem se dar conta do jardim que está ao alcance da vida de cada um para se cultivar.

Para que se tenha medida da permanência desse tema, e num outro campo de produção intelectual, vale lembrar o episódio da resenha publicada, em 1915, no The Times Literary Supplement sobre o livro A servidão humana, de Somerset Maugham, lançado no mesmo ano, e na qual se afirmava que o herói do romance, Philip Carey, do princípio ao fim da narrativa, “estava tão ocupado com seus anseios pela lua que jamais conseguia ver os seis vinténs a seus pés”.

Quatro anos depois da publicação da saga de formação e de aprendizagem do torturado Philip Carey, Somerset Maugham publica um romance inspirado na história de vida do pintor Paul Gauguin, cria um personagem - Charles Strickland - que, de operador da bolsa de Londres, abandona tudo - vinténs e família - e se entrega, de corpo e alma, no Tahiti, à obsessão única e exclusiva de sua exuberante produção artística em pintura.

O livro, de 1919, teve seu título - The moon and six pence (Um gosto e seis vinténs, no Brasil) - tirado da resenha do The Times Literary Supplement, aceita quase como uma provocação a que responde o narrador autobiográfico do romance com uma forte simpatia pela saga do herói que despreza os apelos materiais e as obrigações sociais de seus compromissos e vai em busca da lua e da realização de seus sonhos. Solução em tudo contrária à do desfecho de romântico prosaísmo que caracteriza a paz e a tranqüilidade do jardim de amor-afeição (loving-kindness) que o casamento de Philip Carey e Sally Altheny constitui ao final da saga de formação e de amadurecimento do protagonista.

Esses dois romances de Somerset Maugham poderiam ser tomados como que representando as duas pontas da tensão por que se estende nossa existência no mundo e o conhecimento do mundo de nossa existência. É como se fossem tótens epistemológicos entre os quais ressoa a pergunta que o homem não deixará de fazer enquanto durar sua humanidade: “Qual o sentido da vida, se é que a vida tem algum sentido?”

Penso que o sentido da vida é o conhecimento que, desse modo, é ilimitado pela amplitude da pergunta, e é, ao mesmo tempo, limitado e útil pelo alcance de nossa capacidade de resposta.

Sociedade, democracia e linguagem


Sociedade, democracia e linguagem

Carlos Vogt

Com as grandes mudanças em todas as atividades do homem que o Renascimento foi imprimindo à geografia do mundo então conhecido, desenvolveu-se, consolidando-se, o mito do bom selvagem que o Iluminismo no século XVIII, através de Jean-Jacques Rousseau, viria depois consagrar.

A idéia de que o homem nasce naturalmente bom e que é a sociedade que o corrompe permitiu a construção de todo um ideário de combate à injustiça e à desigualdade sociais que até hoje alimenta o imaginário político-ideológico do mundo ocidental.

Um bom exercício de humor filosófico seria o de inverter os sinais desse ideário romântico e dizer que o homem nasce naturalmente mau e que cabe à sociedade ou perdê-lo de uma vez, confirmando seus instintos, ou redimi-lo do mal congênito pela ação prática, organizada e sistemática do aprimoramento das instituições sobre as quais se assentam as garantias de sua liberdade e dos plenos direitos e obrigações do indivíduo em sociedade.

Já se disse que o homem tem duas características que o diferem das demais espécies animais: a linguagem e viver em sociedade.

Entretanto, postas assim, essas duas características, na verdade, ele as compartilha com outras espécies, o que faz com que seja muito mais a forma que ambas tomam no ser humano, por predicados, é claro, que lhe são próprios, do que pelo fato de possuí-las.

Macacos, papagaios, abelhas e outros seres vivos possuem linguagens mais ou menos sofisticadas e entre eles e todos, em graus também diversos, a linguagem tem uma função fundamental no que diz respeito às suas formas de vida em sociedade. São, em geral, seres sociais, cuja existência se organiza, necessariamente, em sociedade.

Isso leva a pensar que linguagem e sociedade têm uma relação muito mais que ocasional e fortuita. Ao contrário, ao que tudo indica, onde há uma, há outra, de modo que a relação entre elas é de absoluta necessidade sendo uma também condição suficiente da outra. Quer dizer, há entre elas uma dupla implicação. E é essa complicação que faz com que para muitas teorias lingüísticas seja a comunicação a principal função da linguagem.

No caso do homem, a função simbólica da linguagem chega, pelas características de sua mente, a níveis de abstração tão elevados que foi possível conhecer sistemas inteiros de representação em que a referência dos símbolos que os integram são eles próprios símbolos de outros símbolos e, assim, infinitamente, em encaixes chineses, cuja estética é garantida pela consistência lógica de sua arquitetura.

Já a própria função semântica da linguagem, isto é, sua função referencial é reveladora desse complexo mecanismo de abstração. De fato, a linguagem humana tem sua antologia, se se puder dizer assim, na negação de si própria, num belo paradoxo da afirmação de sua plenitude. O momento pleno da realização de sua função comunicativa é aquele em que ela se realiza pelo que não é, pela referência ao que não está nela, está fora dela, estranho à sua própria natureza física e, no entanto, integrando-a, sem motivação material, mas completando-a pela forma da substância que adquire o seu significado e o sentido das relações que estabelece entre os interlocutores, seus usuários.

Sendo, pois, de natureza eminentemente simbólica, o jogo de representações acionado pela atividade lingüística põe a linguagem na cena de um espetáculo maior e mais complexo: o da história, da cultura e das máscaras sociais que, embora coladas ao nosso rosto, nem sempre sabemos o que significam e nem porque as portamos.

Como escreve Octávio Paz:

“Todas as histórias de todos os povos são simbólicas; isto é: a história e seus acontecimentos e protagonistas aludem a outra história oculta, são a manifestação visível de uma realidade escondida. Por isso nos perguntamos: o que significaram realmente as cruzadas, o descobrimento da América, o saqueio de Bagdá, o Terror Jacobino, a Guerra de Secessão norte-americana? Vivemos a história como se fosse uma representação de mascarados que traçam sobre o tablado figuras enigmáticas; apesar de sabermos que nossos atos significam, dizem, não sabemos o que é que dizem e assim nos escapa o significado da peça que representamos.”

A noção de sentido de um enunciado lingüístico deve ser compreendida, de um lado, como função das combinações possíveis deste enunciado com outros enunciados da língua em que ele foi proferido. Como função do futuro discursivo que ele abre no momento mesmo em que é dito. De outro lado, o sentido de um enunciado, que é parte constitutiva e definidora de seu significado, é também função das relações que ele estabelece com outros enunciados pertencentes ao mesmo paradigma argumentativo, isto é, que apontam para a mesma direção argumentativa no discurso. Relações, portanto, que dizem respeito àquela parte da teoria lingüística conhecida sob o nome de pragmática.

Na dinâmica das relações entre a pragmática, a sintaxe e a semântica do enunciado e do discurso é que se dá o paradoxo, acima referido, que constitui o centro vazio e substantivo da gravitação da linguagem: tendo materialidade e forma próprias, ela só existe plenamente na negação de si mesma; é o que ela não é, ainda que esta negação se faça através de si mesma. É sempre o outro que constitui o horizonte da significação da linguagem humana.

Além disso, a linguagem é um instrumento. E como todo instrumento, não tem utilidade imanente. Tem utilizações históricas. Como um martelo, deixa e recebe as cicatrizes dos golpes desfechados sobre um prego; traz em seu cabo a inscrição do suor das mãos que o utilizaram; nas mãos conforma a lembrança de sua forma. Assim também a linguagem é memória de si mesma nos diferentes usos sociais que possibilita e que dela se fazem através da história.

À capacidade simbólica do ser humano junta-se a sua capacidade para viver em sociedade criando, assim, as condições para as diversas apresentações de suas representações no mundo.

Aqui também uma diferença importante é preciso anotar relativamente a outras espécies animais que vivem em sociedade.

Como está dito, essas espécies vivem em sociedade, tal como o homem, mas este, além do mais, precisa da sociedade para viver.

É esta necessidade que torna tão próximas a linguagem e as formas de organização social que o homem constrói para viver.

A democracia é também a construção de uma forma dessa necessidade. É um bem, um fim e um objetivo a ser buscado e preservado pelo aperfeiçoamento constante da capacidade simbólica de representação das instituições com que ela, cultural, política e socialmente se apresenta e nela nos apresenta ao longo da história.

A eficácia política, social e civil das democracias depende de muitos fatores e de condições históricas específicas para o seu bom desempenho. Há, contudo, um fator que funciona como uma regra constitutiva para a possibilidade de seu êxito: que os homens e as sociedades que elas organizam tenham entendimento pleno de suas formas de organização e que, desse modo, possam avaliar e contribuir criticamente, de modo sistemático, para o aprimoramento de sua capacidade de representação simbólica e de satisfação real de seus sonhos e necessidades.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Encanto por Contos Universais

"Sempre acreditei que na infância, se aprende brincando e que os adultos não precisam ficar com o dedo em riste para impor"

Por Tatiana Belinky / Sucena Shkrada Resk

A roteirista e contista Tatiana Belinky relembra o trabalho na adaptação das obras de Monteiro Lobato para a TV.

"Em 1948, eu e o meu marido, Julio Gouveia, iniciamos um envolvimento profundo com as artes. Fundamos naquele ano, o grupo teatral Teatro Escola de São Paulo (TESP), em função de um pedido da Secretaria Municipal de Cultura, que queria promover peças infantis na cidade. Todo fim de semana, nosso grupo apresentava uma peça, principalmente no Theatro Municipal. Entre elas, adaptações de clássicos de La Fontaine e Esopo. Tudo era feito ao vivo e dificilmente os atores erravam. Eu ficava responsável pela redação e roteiro, e Júlio, pela direção e apresentação. Ele tinha talento para esse trabalho e levava um pouco de sua formação como psiquiatra, para conduzir as obras.

No meu caso, o gosto pela literatura infantil mundial vem desde a infância, em São Petersburgo, na Rússia, onde nasci em 1919. Aos quatro anos, já comecei a escrever. Meu pai e minha mãe, que eram da Letônia, me incentivavam a ler e a aprender vários idiomas, tanto que, aos dez anos, quando viemos para o Brasil, sabia o letão, o russo e o iídiche, e logo, já falava português e inglês, pois eu e meus irmãos fomos estudar no Mackenzie.

Meu pai me chamava de trança-rimas porque eu adorava brincar com as palavras, o que faço até hoje. Por isso, em toda minha vida me senti à vontade a traduzir os contos mundiais.

Os anos passaram e na fase adulta, um autor brasileiro, em especial, chamava a minha atenção e a de Júlio. Era Monteiro Lobato. Cerca de cinco anos antes de morrer em 1948, tivemos o prazer de sermos procurados por ele. Recebemos uma ligação e quando falou quem era, ao telefone, achamos que era um trote. Lobato disse que gostaria de conhecer meu marido devido ao trabalho dele com fábulas. Então marcamos e fomos à casa do escritor.

Meu marido e ele tinham sobrancelhas grossas muito parecidas, o que era interessante de se ver, enquanto mantinham o diálogo. Acho que a conversa durou mais ou menos uma hora e meia. Eu escutava as palavras de Lobato, boquiaberta. O que mais me atraia nessa visita é que, no fundo, eu queria ser a Emília, do Sítio do Picapau Amarelo, por ser um pouco malcriada, contestadora e engraçada como ela. Outro motivo é que as primeiras palavras em português, que havia aprendido aos 11 anos, eram por meio do conto Jeca Tatu, descrito pelo autor, em um folheto do Laboratório Fontoura, que era entregue de porta em porta.

Prática dos Sonhos
De certa forma, a oportunidade de colocar em prática os meus sonhos aconteceu em 1952, quando começamos a fazer teleteatro para o público infantil, na então recente TV Tupi (PRF-3), inaugurada por Assis Chateubriand, em 1950. O programa era semanal e se chama- va Fábulas Animadas. Júlio era o apresentador e fingia que lia um livro, para dar entrada à encenação, que era curta e feita também ao vivo, por meia hora, com a participação, de no máximo, três atores do grupo. Durante dois meses, tivemos essa experiência.

Daí, a Tupi nos pediu que adaptássemos fá- bulas brasileiras para a TV. Nessa fase, o dire- tor artístico era Cassiano Gabus Mendes. Olhei para o Júlio, ele para mim, e então disse: 'Tem de ser Monteiro Lobato'. Não queríamos algo chato. Lobato era completamente diferente de tudo. Então, entramos em contato com dona Purezinha (sua viúva) e ela nos autorizou a apresentar as histórias.

O primeiro conto que roteirizei foi A Pílula Falante, que foi seguida por muitas outras his- tórias. Atores, como Lúcia Lambertini (Emília), que faleceu em 1976, David José (Pedrinho), Edy Cerri (Narizinho), Rubens Molino (Visconde de Sabugosa), Sydnéia Rossi (Dona Benta) e Bene- dita Rodrigues (Tia Nastácia), entre outros, inte- gravam o elenco e marcaram época. A primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo, sob nossa produção, ficou no ar por praticamente 12 anos ininterruptos, resultando em 360 capítulos.

Escrevia os roteiros em minha máquina Con- tinental portátil e gostava de assistir em casa os resultados das interpretações na TV, em vez de ficar nos bastidores da emissora. Assim, cada episódio era sempre uma surpresa para mim. Na verdade, o nosso principal objetivo era pro- mover a leituras dos autores originais, através do teleteatro.

Sempre acreditei que na infância, se aprende brincando e que os adultos não precisam ficar com o dedo em riste para impor. Acho muito cha- to querer tratar da 'moral da história'. O próprio leitor ou telespectador tem de tirar a conclusão. Uma vez uma professora me perguntou, porque hoje em dia os alunos não querem estudar. En- tão, respondi: 'Querem aprender a aprender'. Por isso, o papel do adulto é deixar a criança confortável nessa realização, expondo a ela, o universo dos livros, além de levá-la a livrarias e às bibliotecas. Meu pai Aron, por exemplo, lia poesias para mim quando eu ia dormir, por isso peguei gosto de fazer versinhos".

TATIANA BELINKY nasceu na Rússia e está desde 1929 em São Paulo, cidade à qual se declara 'cidadã honorária'. Além de sua carreira como tradutora, adaptadora, roteirista e contista, que resultou em mais de 120 obras, teve a experiência de trabalhar como jornalista profissional colaboradora. Chegou a manter colunas sobre teatro e literatura nos jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo. Hoje mais uma obra sua para o público infantil está no prelo, prestes a ser publicada.

Neoliberalismo


Neoliberalismo é um termo ao qual se referem políticas liberais adotadas por governos nacionais desde fins do século XX, inspiradas no liberalismo clássico.

Índice

1 A doutrina neoliberal

2 Governos neoliberais

3 As origens

4 A crise do liberalismo e o Estado de Bem-Estar Social

5 Liberalismo com nova roupagem: o neoliberalismo

6 Movimentos antineoliberalismo

A doutrina neoliberal

O neoliberalismo nada mais é que uma retomada, a partir dos anos 1970, do liberalismo clássico que havia sido deixado de lado no mundo ]] e outras formas de intervencionismo econômico. Muitos defensores de tal doutrina rejeitam o termo neoliberal, sendo o termo mais usado pelos críticos e principalmente pela Esquerda. Os neoliberais preferem simplesmente o termo liberal, pois seguem o liberalismo clássico.

Constatando as falhas inerentes à atividade governamental, que em última instância poderia levar a governos autocráticos, tal corrente de pensamento político que defende a instituição de um sistema de governo em que o indivíduo tenha mais importância do que o Estado (minarquia), sob o argumento de que quanto menor a participação do Estado na economia, maior é o poder dos indivíduos e mais rapidamente a sociedade pode se desenvolver e progredir, para o bem dos cidadãos. Essa assertiva é corroborada pelo fato de os países de maior desenvolvimento econômico serem aqueles em que há menor ingerência estatal na vida privada.

Tal concepção se caracteriza pela valorização da competição entre as pessoas, a permissão de todos para venderem o que produzem, num mercado mais amplo possível; a sociedade que decide o seu nível de consumo ou quanto poupa para a sua velhice; da família que se preocupa com sua a saúde escolhendo os seus próprios médicos ou os professores do seus filhos; além da competição econômica em escala mundial como elementos reguladores e promotores de eficiência.

A filosofia neoliberal acredita que a desigualdade é uma consequência da falta de liberdade que o Estado impõe, ao retirar uma percentagem considerável do vencimento sob a forma de impostos para custear o Estado. Isso acontece, por exemplo, no caso de um jovem que precisa contribuir desde o início de sua carreira para a Segurança Social. Segundo a doutrina liberal, a opção de decidir se poupa ou não para a aposentadoria futura caberia ao próprio indivíduo.

A doutrina Neoliberal prega ainda o estímulo da economia por meio da criação de empresas privadas, apoiando também a redução da tributação sobre a renda, além da respectiva carga fiscal.

Governos neoliberais

Exemplos de governos neoliberais são difíceis de serem apontados, devido ao fato de o termo ser usado de maneira pejorativa. Casos de governos amplamente classificados como neoliberais no mundo são o de Margaret Thatcher (Inglaterra) e Ronald Reagan (EUA). O governo de Fernando Henrique Cardoso, no Brasil, (de 1994 a 2002), foi acusado erroneamente por uma parcela da esquerda de ter ideais neoliberais. Os liberais refutam esta afirmação, pois tal governo aumentou a carga tributária do país, tomou atitudes intervencionistas na economia, além de instituir programas assistencialistas de caráter social-democrata (tais programas foram mantidos e ampliados pelo sucessor Lula) entre outras atitudes claramente não-liberais.

O fato de Fernando Henrique Cardoso ser membro de um partido social-democrata (PSDB) e já ter declarado várias vezes que não é liberal (ou, mais explicitamente, ter se declarado um "socialista") fortalece tal posição. Por outro lado, é certo que Fernando Henrique Cardoso e as forças que o apoiaram (incluindo o conservador PFL, parte do PMDB e outros) implementaram uma política econômica com características do liberalismo econômico, como o programa de privatizações - tendo sido classificado, por este motivo, como sendo um governo "neoliberal". De qualquer modo, tais políticas pouco diferem daquelas recentemente adotadas por partidos de esquerda e centro-esquerda europeus como o Partido Trabalhista britânico (com Tony Blair e a "Terceira Via") ou o Partido Socialista francês (com Lionel Jospin).

As origens

Quando se afirma a existência de 'neoliberais', a utilização do prefixo 'neo' refere-se menos a uma nova corrente do Liberalismo e mais à aplicação, simplificada, dos preceitos liberais consagrados num contexto histórico diverso daquele no qual foram formulados (qual seja, na contemporaneidade). A denominação 'neoliberal' assemelha-se, pois, ao termo 'neoclássico' na História da Arte.

As origens do que hoje muitos chamam de neoliberalismo remetem à Escola austríaca, nos finais do século XIX com Friedrich von Hayek, considerado o propositor da sua base filosófica e econômica e Ludwig von Mises. A Escola austríaca opõe-se à política Keynesiana e ao estado de bem-estar social.

Mais recentemente, o liberalismo surgiu em 1947 com o célebre encontro entre um grupo de intelectuais liberais e conservadores em Monte Pèlerin, na Suíça, onde formaram uma sociedade de ativistas em oposição às políticas do estado de bem-estar social, por eles consideradas "coletivistas" e, em última análise, cerceadoras das liberdades individuais (ver abaixo). Essas políticas tiveram início em 1942 com a publicação na Inglaterra do Relatório Benveridge, segundo o qual, depois de vencida a guerra, a política inglesa deveria se inclinar doravante a uma programação aberta de distribuição de renda, baseada no tripé da Lei da Educação, a lei do Seguro Nacional e a Lei do Serviço Nacional de Saúde (associadas aos nomes de Butler, Beveridge e Bevan). A defesa desse programa tornou-se a bandeira com a qual o Partido Trabalhista inglês venceu as eleições de 1945, colocando em prática os princípios do estado de bem-estar social.

Para Friedrich von Hayek esse programa levaria a civilização ao colapso. Escreveu então um livro que foi considerado como o Manifesto do Neoliberalismo - "O Caminho da Servidão" (1944). Nele expôs os princípios mais gerais da doutrina (embora tenha defendido a intervenção estatal em alguns casos), assegurando que o crescente controle do estado levaria fatalmente à completa perda da liberdade, afirmando que os trabalhistas conduziriam a Grã-Bretanha pelo mesmo caminho dirigista que os nazistas haviam imposto à Alemanha. Isso serviu de mote à campanha de Winston Churchill, pelo Partido Conservador, que chegou ao ponto de dizer que os trabalhistas eram iguais aos nazistas.

A outra vertente do liberalismo surgiu nos Estados Unidos da América e concentrou-se na chamada Escola de Chicago do prof. Milton Friedman. Combatia a política de New Deal do Presidente Franklin Delano Roosevelt por ser intervencionista e pró-sindicatos. Friedman era contra qualquer regulamentação que inibisse as empresas e condenava até o salário-minimo na medida em que alterava artificialmente o valor da mão-de-obra pouco qualificada. Também opunha-se a qualquer piso salarial fixado pelas categorias sindicais, pois segundo ele terminavam por adulterar os custos produtivos, gerando alta de preços e inflação.

A crise do liberalismo e o Estado de Bem-Estar Social

O declínio do liberalismo clássico remonta ao final do século XIX quando começou a declinar lentamente. Com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, e a subsequente Grande Depressão, a queda foi vertiginosa. A partir daí, caiu em descrédito, ao passo que ganharam força teorias de intervenção do Estado na economia, notadamente as idéias de Keynes, implementadas no New Deal do presidente norte-americano Franklin Roosevelt.

Em 1944, os países ricos criaram os acordos de Bretton Woods e estabeleceram regras intervencionistas para a economia mundial. Entre outras medidas, surgiu o FMI. Com a adoção das metas dos acordos de Bretton Woods e a adoção de políticas keynesianas, os 30 anos seguintes foram de rápido crescimento nos países europeus e no Japão, que viveram sua Era de Ouro. A Europa renascia, devido ao financiamento conseguido por meio do Plano Marshall, e o Japão teve o período de maior progresso de sua história.

Liberalismo com nova roupagem: o neoliberalismo

Mas a partir da crise do petróleo de 1973, seguida pela onda inflacionária que surpreendeu os Estados de Bem-Estar Social e o fim da padrão dólar-ouro, o liberalismo gradativamente voltou à cena, com a alcunha de neoliberalismo.

Denunciou-se a inflação como resultado do aumento da oferta de moeda pelos bancos centrais. Responsabilizaram os impostos elevados e os tributos excessivos, juntamente com a regulamentação das atividades econômicas, como os culpados pela queda da produção.

A solução seria a redução gradativa do poder do Estado, com a diminuição dos tributos, a privatização das empresas estatais e redução do poder do Estado de impor ou "autorizar" preços. Diminuindo ou neutralizando a força dos sindicatos, haveria novas perspectivas de emprego e investimento, atraindo novamente os capitalistas de volta ao mercado e reduzindo o desemprego.

O primeiro governo ocidental democrático a se inspirar em tais princípios foi o de Margaret Thatcher na Inglaterra, a partir de 1980. Persuadindo o Parlamento da eficácia dos ideais neoliberais, aprovou leis que revogavam muitos privilégios até então concedidos aos sindicatos, privatizou empresas estatais, deu prioridade à tributação regressiva, além de estabilizar a moeda. O governo de Thatcher, conservador, serviu de modelo para muitos dos governos neoliberais do período pós-anos 1980.

Movimentos antineoliberalismo

Como contraponto ao ressurgimento do liberalismo, tanto em países ricos quanto em desenvolvimento, surgiram movimentos antiliberalismo, que por vezes se confundem com movimentos antiglobalização. Na América Latina, a emergência ao poder de políticos populistas como Hugo Chávez (Venezuela), Néstor Kirchner (Argentina) e Evo Morales (Bolívia), que retomam o discurso nacional-desenvolvimentista de meados do século XX, é vista por alguns analistas como indicativo de um esgotamento do modelo neoliberal.

Leonardo da Vinci: A Lição de Anatomia


Desde 1487, Leonardo começou a dissecar corpos na implementação proposta de um grande tratado sobre a anatomia, ele quer muito ilustrado. Não só está interessado no aspecto dos músculos e órgãos, égement tentando entender o funcionamento e fez algumas descobertas importantes. O pintor, ele está examinando em especial os músculos ea circulação. mestre anatômicas Muitos sobreviveram.

" Nas escolas de médicos anatomia, ele dissecou os cadáveres de criminosos, indiferente ao e repugnante aspectos desumanos do presente estudo, apenas ansiosa para saber como ele poderia representar o mais adequado em sua pintura os músculos diferentes e Juntas, a sua extensão e flexão .
Paolo Giovio, Vida de Leonardo da Vinci (circa 1527)

Como a maioria dos artistas do Renascimento italiano, Leonardo da Vinci considera a representação da figura humana como um dos objetos essenciais do art. No entanto, para descrever completamente um corpo humano, ele deve indicar em sua aparência externa, mas também compreender o seu funcionamento interno. Para atingir esse objetivo, assim como Masaccio (1401-1428), Donatello (1386-1466), Antonio Pollaiuolo (1432-1498) e Michelangelo (1475-1564), Leonard observa atentamente esculturas antigas e contemporâneas e esqueletos. Ele também se dedica a dissecção. Segundo uma nota que datam dos últimos anos de sua vida, ele dissecou mais de vinte mortos. As dissecações primeiro são realizadas em Milão, de cerca de 1487, com a idéia de escrever um tratado geral sobre a anatomia, organizado pelo crescimento progressivo do corpo humano, desde a sua infância no útero com a idade adultos.

2Etude d'embryons, Windsor
Estudo anatômico do feto no útero, por volta de 1510, caneta, lave
giz marrom e vermelho, 30,4 x 22 cm, Windsor Castle, Royal Library
(RL19102r)

Entre 1510 e 1511, da Universidade de Pavia, Leonard continua este negócio, incentivado por Marcantonio della Torre, que o introduziu em A utilidade das partes do corpo a partir do grego Galeno (2 º século dC), os escritos de "iraniano Avicena (10 º -11 ºséculos) e curto medieval manual dissecção Anothomia , o italiano Mondino de 'Liuzzi (1316). Finalmente, em Roma, entre 1513 e 1516, o professor participa do hospital Santo Spirito in Sassia, onde dirigiu várias autópsias. O Tratado de anatomia nunca surgiu, centenas de autógrafos, desenhos, muitas vezes anotadas as explicações e lendas no entanto ter sobrevivido. Para a maioria deles são preservados em três manuscritos da coleção real Inglês na Windsor.

1Etudes anatomiques de l'épaule, Windsor
Estudos anatômicos da musculatura do pescoço, ombros e
peito, por volta de 1509-1510, caneta e lavagem marrom sobre giz preto, 28,9 x 19,8
cm, o Castelo de Windsor, Royal Library (RL19001v)

Algumas dessas folhas refletem grandes descobertas : Leonard reconhece o papel do coração na circulação sanguínea (" uma invenção ", devido a William Harvey a 17 º século), identifica também a existência de quatro câmaras do coração como Vesalius e Descartes haverá sempre apenas dois. No entanto, não é por causa desses resultados, ainda que por vezes espectaculares, o trabalho de Leonardo no campo da anatomia é agora considerado como um precursor. Em primeiro lugar, a importância que atribui à ilustração dos fenômenos observados é inédita: a imagem foi previamente raramente ocupou muito espaço para que na ciência da anatomia, uma abordagem que tem crescido continuamente desde . Além disso, a ambição dos florentinos é ir mais além do que seus contemporâneos, especialmente na representação do movimento. Isto é provavelmente porque os estudos anatômicos de Leonardo são todos topográficos e fisiológicos : o mestre registra o aparecimento de diferentes partes do corpo, mas pede também, e sobretudo, para compreender o funcionamento dos músculos e órgãos.

3Etudes de jambes d'homme et de cheval, Windsor
Estudos anatômicos da musculatura da perna e comparação
este músculo em humanos e cavalos, cerca de 1507, caneta, lave marrom
e giz vermelho, 28,2 x 20,4 centímetros Windsor Castle, Royal Library (RL12625r)

Por exemplo, o estudo do músculo é sempre em relação às condições de movimento ea força de caráter. por vários desenhos, mas também notas Illustrated, como aquela em que ele diz : " Você quer dizer que o bom funcionamento dos membros, ou seja, no ato de levantar-se depois de deitado, em movimento, correndo e pulando atitudes diversas, levantar e carregar pesos pesados, jogar objetos fora e natação. E assim, para cada movimento, você mostra o que os membros e determinar quais músculos, incluindo o jogo de braços . " Todos os elementos são considerados separadamente, em seguida, reconstruir o corpo inteiro, às vezes, por analogia, a substituição de órgãos de animais para os órgãos humanos não pode ser conhecido diretamente : o estudo do feto humano é enriquecido por que do útero de bovinos, as pernas do homem confrontado com as do cavalo. Em estudos anatômicos de Leonardo, no entanto, tão inovador, os erros são muitos, especialmente porque os desenhos não são feitas diretamente durante a dissecação, mas no final do workshop, a partir de observações gravadas em um caso específico. Em suma, também neste domínio, como na maioria das áreas de investigação que Leonardo estava interessado, a arte é " coisa mental ", é sempre carregado de uma reconstrução da mente.

Fagnart Laure é FNRS pesquisador na Hhistoire Departamento de Arte e Tecnologia da Arte (Modern Times). Ela lançou recentemente Da Vinci, na França. Coleções e colecionadores, XV e XVII- th séculos

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