terça-feira, 18 de outubro de 2011

A Idéia de República no Brasil


Eiiti Sato *

Ao longo do tempo o termo república assumiu vários significados designando de maneira genérica uma forma de relacionamento entre governantes e governados ou servindo para designar certos Estados tais como Roma, depois da queda da monarquia, e Siena, dos fins da Idade Média. No Brasil, o entendimento mais corrente está muito próximo daquele utilizado por Maquiavel, que inicia O Príncipe afirmando que “todos os Estados ... foram e são, ou repúblicas ou principados”, ou seja, uma forma de governo como alternativa à monarquia. Assim, recentemente, no dia 15 de novembro foi celebrado o dia em que a forma republicana de governo foi adotada no Brasil em substituição à monarquia. Com o passar dos anos a data passou a ter um caráter comemorativo tornando-se um costume fazer dela uma ocasião para discursos e outras manifestações laudatórias das virtudes e das vantagens da forma republicana de governo. Este breve ensaio, no entanto, pensando no que poderia haver de relevante para a compreensão da política brasileira, propõe uma reflexão em outra direção. A observação dos acontecimentos na esfera política leva a crer que o sentido mais precioso do termo República não é o de forma de governo que substitui a Monarquia, mas sim o de res publica, isto é o do entendimento das instituições do Estado como coisa pública. Com efeito, olhando-se o Brasil de hoje, conclui-se que o advento da república não significou, após cinco gerações, uma forma mais avançada ou mais eficaz de organizar as instituições políticas. Na verdade, o que se observa nas nações consideradas mais avançadas do mundo é que não há diferença entre regimes republicanos e monárquicos, ao menos no que se refere à idéia de democracia representativa e quanto à capacidade do Estado de cumprir seu papel como eixo da ordem política e econômica voltado para a promoção da prosperidade. Nesse sentido, a presente análise sugere que seria mais apropriado, a cada dia 15 de novembro, simplesmente examinar a trajetória das instituições políticas do País e, de forma sensata e ponderada, procurar identificar aquilo que poderia ou deveria ser feito para defender e aperfeiçoar a democracia e as instituições que governam o País para que sejam, efetivamente, republicanas.

República, Democracia E Prosperidade

Em primeiro lugar vale insistir no fato de que uma escolha entre a forma republicana ou monárquica de governo não corresponde, na realidade, a uma opção a respeito do que pode haver de mais essencial na relação entre governantes e governados: liberdade, respeito às leis e direito de escolha. Há muito tempo, a república deixou de ser uma alternativa à tirania de príncipes autocráticos. O sentido essencial da república como expressão da vontade dos governados pode estar perfeitamente presente tanto nas monarquias quanto nos regimes chamados de republicanos. Parafraseando Maquiavel, pode-se dizer que “as grandes e modernas democracias de hoje ou são repúblicas ou monarquias constitucionais ...”. Em outras palavras, não se pode dizer que o apreço pela democracia e o apego ao processo de legitimação do poder político pela vontade dos governados, esteja menos presente na Dinamarca, no Reino Unido ou nos Países Baixos, que permanecem monarquias, do que nos Estados Unidos ou na França, que adotaram a forma republicana de governo. Esse fato sugere também que um conceito como democracia, entendido como princípio orientador da organização do Estado, pode projetar-se em instituições muito variadas, não sendo possível, por exemplo, dizer que um sistema bicameral seja superior ou mais eficaz do que um parlamento unicameral, ou que o presidencialismo americano seja melhor do que o parlamentarismo britânico. As instituições resultam de processos históricos vividos de maneira individual e particular pelas nações refletindo a combinação de uma variada gama de aspectos peculiares aos países que, dessa forma, ao longo do tempo e à sua própria maneira, vão construindo individualmente as instituições políticas que melhor lhes convém.
Mesmo do ponto de vista econômico, onde os dados quantitativos são abundantes, chama a atenção o fato de que não é possível estabelecer correlação entre formas democráticas de governo e formas de interação entre Estado e economia capazes de tornar a nação mais próspera. Ao longo da história, nações prosperaram dentro de um ambiente democrático e republicano, mas também prosperaram sob regimes autoritários e, em tempos mais recentes, casos como o da China e de outros países da Ásia lembram uma espécie de versão contemporânea do conceito de “absolutismo esclarecido” que tanto entusiasmou muitos filósofos nos primórdios do Estado moderno. São governos bastante fortes que, de maneira autoritária, estabelecem padrões e normas de comportamento para os atores econômicos tornando-os competitivos e gerando riqueza e abundância para suas sociedades. Pode-se argumentar que, no longo prazo, regimes autoritários acabam por tornar-se incompatíveis com o dinamismo exigido pelos negócios e pela inovação tecnológica que sustentam o progresso econômico. Por ora, no entanto, não há dados para confirmar essa hipótese e o analista pode apenas procurar sinais de que regimes políticos autoritários tornam-se gradativamente menos centralizadores e menos propensos à interferência na economia à medida que a sociedade prospera e que, inevitavelmente, vai se tornando mais integrada à ordem econômica internacional.
Por outro lado, nas grandes democracias ocidentais, a interferência na economia se faz menos por meio de medidas políticas de governantes, que estão sujeitos a leis, e mais por meio das ações do Estado como ator econômico capaz de influenciar e mesmo regular o ambiente econômico. Todavia, nesse domínio, a participação do Estado na economia varia muito, havendo países como os Estados Unidos onde o Estado representa aproximadamente 1/3 do PIB e nações como a maioria dos países mais prósperos na Europa onde o Estado ultrapassa a metade do PIB sem que se possa dizer que tenham deixado de proteger e valorizar a livre iniciativa e a liberdade econômica de uma forma mais ampla e que as economias desses países tenham deixado de ser competitivas nos mercados internacionais. Do mesmo modo, não é possível identificar qualquer correlação entre os níveis de participação e interferência do Estado na economia com a forma republicana ou monárquica de suas instituições políticas. No Japão, que é uma monarquia, o Estado representa uma parcela da economia semelhante à dos Estados Unidos enquanto na França republicana o Estado é, proporcionalmente, tão grande quanto em outros países europeus, que são monarquias e igualmente prósperas. Nenhum analista e nenhum grande partido político na Europa ou nos Estados Unidos associa eventuais dificuldades econômicas enfrentadas por qualquer uma dessas economias às respectivas formas de governo, mas tão somente a ocasionais equívocos na política econômica ou simplesmente às variações cíclicas da economia.

O advento da república no Brasil

Possivelmente esses fatos ajudam a explicar porque o advento da forma republicana de governo no Brasil não ocorreu dentro de um ambiente político de intensos debates sobre idéias e de disputas dramáticas de poder entre monarquistas e republicanos. A abolição da escravidão, a questão militar, a ascensão de uma classe média e outros eventos considerados pelos historiadores como importantes para o advento da república eram questões que poderiam ter sido manejadas dentro do regime vigente uma vez que não há como afirmar que tivessem por origem qualquer incompatibilidade substantiva com o regime e, além disso, nações como o Reino Unido, os Países Baixos ou a Noruega, ao longo do tempo, realizaram seguidas mudanças nas suas instituições políticas adequando-as às seguidas transformações, por vezes dramáticas, vividas pelas respectivas sociedades no decurso do último século e meio. Em 1889 a monarquia brasileira já era um governo do tipo representativo perfeitamente compatível com os padrões vigentes no mundo em matéria de instituições que procuravam acomodar as principais forças políticas da nação. Além disso, D. Pedro II estava longe de ser um governante autoritário e centralizador. Alguns historiadores mencionam as disputas entre a Coroa e a Igreja Católica como um desses eventos importantes que teriam desencadeado a queda da monarquia por ter contribuído para solapar a base política do Imperador. Entre as novidades advindas com a proclamação da república uma delas foi a separação entre o Estado e a Igreja mas esse processo ocorreu de uma maneira ou de outra em todas as monarquias que se modernizaram. A questão federativa, que aparece em destaque no Manifesto Republicano de 1870, a abolição da escravidão, as dificuldades econômicas ou ainda as inquietações no exército, na realidade constituíam parte de um processo de transformação mais ampla e profunda da sociedade brasileira diante de um mundo que também se transformava. Na realidade, em toda parte, as instituições políticas sofriam mudanças e se acomodavam às novas circunstâncias sem, contudo, associar esse processo a escolhas entre republicanismo e monarquia. Em resumo, o regime monárquico não constituía empecilho real para as demandas sociais ou para uma eventual revisão nos padrões de participação política das forças econômicas emergentes da nação.
Talvez o melhor retrato da implantação da forma republicana de governo tenha sido dada por Raul Pompéia que, em crônica publicada anonimamente, relata a melancólica partida do Rio de Janeiro de D. Pedro II e da família imperial logo após o decreto de expulsão promulgado pelo Governo Provisório.(1) No meio da madrugada, diz a crônica, sem manifestações de qualquer tipo, a família imperial partiu para o exílio sem deixar no Brasil nem sentimentos de ódio e nem partidários dispostos a iniciar uma luta política para promover seu retorno. Aliomar Baleeiro logo na introdução de seu ensaio sobre a Constituição de 1891 também faz uma apreciação na mesma direção: “o povo brasileiro cansara-se da monarquia, cuja modéstia espartana não incutia nos espíritos a mística e o esplendor dos tronos europeus. O Imperador vestia trajes civis, pretos, como qualquer sujeito respeitável da época, sem fardas de dourados ... Conta-se que a Princesa Imperial trazia consigo, no decote, fósforos para acender, ela mesma, as velas à boca da noite.”(2)

A res publica no Brasil de hoje


Em nossos dias, de tempos em tempos, a República tem sido abalada por escândalos e a ineficiência crônica do Estado aparece nos mais diferentes domínios das instituições encarregadas do provimento de bens como a justiça, a segurança e os inúmeros serviços públicos essenciais que os Estados modernos e organizados prestam hoje às suas populações. Convém refletir sobre o fato de que esses escândalos, assim como a crônica ineficiência do Estado brasileiro, não são produtos da forma de governo, mas da incapacidade de construir e manter instituições que tornem o Estado brasileiro tão eficaz quanto tem sido em muitos outros países republicanos ou monárquicos. Por exemplo, em países onde a justiça – talvez a componente mais essencial do Estado no que diz respeito à proteção dos direitos individuais e coletivos – se mostra razoavelmente operante, uma lei como a da chamada “ficha limpa” seria completamente inócua e desnecessária, uma vez que se a justiça funcionasse razoavelmente no Brasil os políticos indicados como passíveis de serem enquadrados nessa lei já teriam sido, há muito tempo, devidamente condenados ou absolvidos. Há políticos que tomam posse de cargos executivos ou legislativos apesar de condenados e procurados pela justiça por terem cometido crimes comuns, e cujo processo judicial tivera seu início bem antes da formalização até mesmo de sua candidatura. Há os tribunais eleitorais ou trabalhistas cuja existência é totalmente dispensável uma vez que qualquer ação julgada por essas instâncias pode ser levada ou contestada em outras instâncias judiciárias. A menos que o poder dessas instâncias seja efetivamente reconhecido nas matérias de que tratam, a manutenção dessas instâncias representa apenas um ônus para o Estado e, principalmente, um custo às vezes impagável para aqueles que buscam a justiça para proteger seus direitos.
A distância entre a noção de res publica e as instituições do Estado brasileiro – que parece aumentar continuamente – assume a feição de um patrimonialismo político cuja capacidade de adaptação se revela ilimitado. Falava-se de uma política “café com leite” referindo-se à República Velha quando o poder se alternava entre os produtores de café de São Paulo e os proprietários de terras de Minas Gerais. Hoje, após a eleição presidencial, Ministérios e agências da administração do Estado são disputados como se fossem espólios a serem conquistados. As manifestações a respeito de “direitos” a cargos e postos na administração pública ocorrem de forma aberta e sem qualquer pejo ou referência a qualquer propósito de servir à coletividade que justificaria a existência de um Ministério ou agência governamental. Nos fins da Idade Média, após a tomada de uma cidadela sitiada os vencedores disputavam entre si os espólios dos vencidos. Essa disputa se afigurava tão natural quanto o é no Brasil de hoje a disputa por cargos e indicações após uma vitória eleitoral. D. Quixote, personagem criada por Cervantes, com toda a sua ingênua pureza, prometia ao seu amigo e escudeiro Sancho Pança uma ilha que seria conquistada com o valor de seu braço. No caso do Brasil, trata-se de um espólio de proporções imensas. Conforme dados de 2009, disponíveis na página do Fundo Monetário Internacional, o Brasil é a oitava economia do mundo e o orçamento do Estado brasileiro, de quase US$ 600 bilhões, seria maior do que o PIB de países como Suíça (US$ 491 bilhões), Suécia (US$ 406 bilhões), Dinamarca ou Argentina (ambos com um PIB de cerca de US$ 310 bilhões). Na verdade, o Estado brasileiro equivalia, em 2009, à posição de 18ª. economia do mundo. Nesse quadro, a pergunta essencial é: para onde vai essa enorme soma de recursos? Além do sistema de arrecadação de taxas e impostos, existe alguma instituição do Estado que efetivamente funciona? Existe alguma instituição do Estado que possa ser qualificada como verdadeira res publica, isto é, serve ao interesse público? Por que as pessoas que possuem meios não procuram os hospitais públicos, não se utilizam dos transportes públicos, não confiam suas crianças à educação pública? Por que se demorou tanto tempo para realizar as operações recentes nas favelas do Rio de Janeiro e o que virá depois? Por que todas as organizações e indivíduos que possuem meios precisam contratar serviços privados de segurança? Enfim, a lista de perguntas seria interminável.
Esses fatos, mencionados a título de exemplo, apontam para o risco sempre presente de repetir o que se fez, em certa medida, nos fins do século XIX quando, ao invés de aperfeiçoar e adequar as instituições acompanhando as inevitáveis mudanças dos tempos, preferiu-se atacar as instituições. O ambiente que cercou as últimas eleições e seus desdobramentos em curso, na forma de partilha do espólio conquistado, revelam que a ineficiência do Estado em prover bens públicos essenciais deve continuar aumentando. Os recursos do orçamento público brasileiro são enormes, mas não são ilimitados. Pode haver focos de insatisfação na divisão do espólio que podem evoluir para defecções e crises. Corre-se o risco de comprometer até mesmo a democracia sem, contudo, atingir efetivamente os procedimentos e costumes viciados existentes nas várias instâncias do Estado que, assim, continuarão servindo de guarida à ganância dos políticos desonestos. Ernest Hambloch, em 1934, escreveu uma interpretação bastante crítica a respeito dos primeiros anos da república – a República Velha (1889-1930) – na qual lembra um curioso episódio: quando Rojas Paul, presidente da Venezuela, soube da queda da monarquia brasileira, teria exclamado triste e profeticamente: “Este é o fim da única república que jamais existiu na América.” (3) Obviamente, o presidente Rojas Paul empregava o termo república na sua acepção mais desejável: o do governo entendido como res publica.

NOTAS

(1)F. M. da Costa, Os Melhores Contos que a História Escreveu. Editora Nova Fronteira, R. De Janeiro, 2006 (pp. 461-7)
(2) A. Baleeiro, Constituições Brasileiras, volume II. 1891. Senado Federal, CEE/MCT, ESAF/MF. Brasília, 1999 (p. 13)
(3) E. Hambloch, Sua Majestade o Presidente do Brasil. Senado Federal, Brasília, 2000 (p. 34)

Eiiti Sato
Paulista de nascimento, diplomou-se em economia pela Fundação Alves Penteado- FAAP, tendo obtido o grau de Mestre em Relações Internacionais na Universidade de Cambridge (U.K.) e de Mestre e Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Foi consultor do Ministério das Relações Exteriores e Coordenador de Projetos do Centro de Estudos Estratégicos (2000/2004). Foi presidente da Associação Brasileira de Relações Internacionais na gestão 2005/2007. Atualmente é professor adjunto da Universidade de Brasília, onde exerce o cargo de diretor do Instituto de Relações Internacionais, com mandato até 2010.
Revista Liberdade e Cidadânia

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A CRIANÇA NO BRASIL





Ricardo Barros Sayeg
Dia 12 de outubro é comemorado o Dia das Crianças. Convido os leitores a conhecerem um pouco mais sobre a história das crianças no Brasil e no mundo. Na verdade, a preocupação com a história dos pequenos é antiga na historiografia brasileira. O sociólogo, antropólogo e escritor Gilberto Freire desejou escrever um livro chamado a História do Menino Brasileiro no qual o famoso autor pernambucano pretendia escrever sobre sua passagem da infância à vida adulta, sem ter adolescência. Isso está relatado em seu livro Em Tempo Morto, Outros Tempos.
Durante uma grande parte da história a criança foi negligenciada. Da Pré-História até a Idade Média “as pessoas morriam feito moscas”. A falta de cuidados e tecnologia fazia também com que os índices de natalidade fossem muito altos. A alta taxa de mortalidade, segundo a historiadora Mary Del Priori, em seu livro a História da Criança no Brasil, era associada à ideia de que uma criança morta era mais um anjo no céu. Para Gilberto Freire, em seu livro mais importante Casa Grande e Senzala, de 1933: “O anjo ia para o céu. Para junto de nosso Senhor, insaciável em cercar-se de anjos”, tal era o índice de mortandade entre os recém-nascidos. Em uma grande parte da história as crianças eram vistas como adultos em miniatura, sem status próprio, sem necessidades específicas. Além disso, até a Revolução Industrial, a infância era caracterizada no mundo pelo trabalho precoce e pela ilegitimidade de muitos.
No caso do Brasil, podemos falar das crianças desde as primeiras ocupações. Isso nos leva a conhecer um pouco sobre a infância indígena. Entre os nativos do Brasil a criança era chamada de curumim e desde cedo ajudava os pais na pesca, na caça, na agricultura e na coleta de frutos. Antes mesmo da chegada dos europeus ao Brasil, as crianças indígenas tinham o direito à diversão e eram tratadas com muito cuidado por suas mães. Elas davam diversos banhos durante o dia nos menores e tinham um cuidado todo especial com sua alimentação. Além disso, as crianças possuíam papel importante nas aldeias. Meninos e meninas, quando completavam quatro ou cinco anos de idade, aprendiam a andar pela floresta, a pescar, a caçar e a confeccionar seus próprios brinquedos. Aos meninos índios, cabiam as tarefas mais difíceis durante a infância. As meninas aprendiam a limpar as ocas, a tecer redes a fazer artesanato e também a plantar e a colher.
Já o “homem branco”, dividia suas crianças em membros da elite, formada por nobres, e famílias mais humildes. Quanto mais alta fosse a classe social dos pais, mais distante era a relação deles com seus filhos. A alimentação, por exemplo, era considerada uma tarefa exaustiva para as mães que contratavam amas de leite que, muitas vezes eram escravas negras. Existiam também babás, amas, criadas e aias.
Logo que chegavam à idade adulta, as crianças eram retiradas do seio familiar e enviadas à Europa para estudar. Nessa jornada perdiam contato com os amigos de infância que muitas vezes eram filhos dos escravos que trabalhavam nas suas fazendas.
Até a aprovação da lei do Ventre Livre, as crianças negras, a partir dos sete anos já poderiam ser separadas dos pais e também ser vendidas para outras famílias. Outro dado importante a ser mencionado é que boa parte da tripulação que vinha ao Brasil nos navios negreiros era formada por crianças, já que ocupavam menos espaço e comiam pouco.
Durante a Guerra do Paraguai (1856-1870), boa parte dos Voluntários da Pátria era formada por crianças, que eram arregimentadas nas ruas do país à força pelos soldados do Império. Durante o conflito elas eram utilizadas nas tarefas mais difíceis como carregar pólvora e municiar canhões.
É no século XX que a criança passa a ser mais valorizada. O Dia das Crianças foi criado por um político: o deputado federal Galdino do Valle Filho, na década de 1920. Em 1924, o então presidente da República, Arthur Bernardes, teria institucionalizado a data.
Naquela época, apesar da criação do dia dedicado às crianças, o mercado brasileiro não era tão dinâmico e o dia das crianças não era comemorado como nos tempos atuais, nos quais os menores recebem muitos presentes e mimos.

Foi na década de 1960 que a coisa mudou. Naquela época, observando que a data poderia ser explorada comercialmente, a fábrica de brinquedos Estrela e a indústria Johnson & Johnson se uniram para lançar a “Semana do Bebê Robusto”. Como o próprio nome dizia, durante essa semana se exaltava a saúde das crianças e sua aparência física, que poderia ser melhorada, é claro, com os produtos da Johnson & Johnson e com o acalento dos brinquedos da Estrela. A partir dessa campanha, outras empresas aderiram à data para aumentar suas vendas e, atualmente, o Dia das Crianças responde por uma considerável fatia das vendas das lojas, só perdendo para o Natal e para o dia das mães. O setor de brinquedos e vestuário espera ansiosamente por essa data, pois sabe de sua importância para as famílias de todo o país.

Hoje, a criança tem um papel relevante mas, como vimos, nem sempre foi assim. Até o início do século, a criança não tinha um status próprio. Ela era tratada como um mini adulto, obrigada a se comportar e até mesmo se vestir como tal. Nos dias atuais, a ela é soberana em casa. Isso ocorre devido à crescente participação da mulher no mercado de trabalho. A ausência dos pais em casa leva o casal a querer compensar a criança de alguma forma e, para suprir os desejos dos filhos, acabam recorrendo ao consumo, o que não resulta muitas vezes, em adultos com boa formação.
Ricardo Barros Sayeg é professor de História do Colégio Paulista, mestre em Educação pela Universidade de São Paulo, formado em História e Pedagogia pela mesma universidade.

sábado, 8 de outubro de 2011

A VIDA NA ROMA ANTIGA


Para se viver em Roma, no tempo de Augusto, era preciso ter coragem, muita coragem. Uma pessoa nervosa não resistiria aos abalos a que o cidadão romano estava sujeito. Os terremotos frequentemente sacudiam a cidade. O Tibre, periodicamente, subia, inundava, submergindo casas e arrastando homens e animais. Os incendios constantes destruiam quarteirões inteiros. E, para completar a lista das calamidades romanas, existia o permanente perigo dos desabamentos de casas.
Havia tambem outros riscos, e não menores, como, por exemplo, caminhar altas horas da noite pelas vielas escuras e desertas. Podia-se topar com os facinoras que agiam protegidos pelas trevas, ser roubado e sucumbir com um punhal atravessado à garganta. Podia-se, igualmente, encontrar um filho-de-papai rico, de regresso da orgia, ainda embriagado, com o seu bando de alegres rapazes, e precedido dos servos portadores de tochas e de lanternas. Aqui o perigo era ser vitima da brincadeira chamada sagatio, muito do gosto dos mocinhos grãfinos de então. Consistia o divertimento em agarrar o pacifico transeunte noturno, atirá-lo muitas vezes para o ar, aparando-o num manto seguro por todos. Os sustos e as emoções do pobre viandante, ora a subir como para o céu e ora a cair no manto, muito alegravam a rapaziada boemia de Roma, após as libações duma farra à maneira classica. Por essa desagradavel função de peteca passou Sancho Pança, como narra Cervantes no episodio da estalagem que D. Quixote tomou por um castelo. Cervantes não reproduz senão uma diversão já muito apreciada pelos moços afortunados da antiga Cidade Eterna. Outro perigo que o passante corria era receber o conteudo de vasos jogado de dentro das casas para as ruas, à noite.
A cidade de Roma pousava sobre barrancos e colinas. Formava-se, em geral, de ruas tortuosas e estreitas, atravancadas de quiosques. É certo que havia os belos palacios, monumentos magnificos, parques e bosques esplendidos, praças pontilhadas de estatuas de bronze, de marmore, templos e porticos ornados das mais raras obras de arte. Mas o panorama geral, a paisagem da cidade verdadeiramente do povo, mostrava um conjunto de vielas sinuosas escalando colinas, com o telhado das residencias fronteiras quase se tocando um no outro - espetaculo, em suma, nada empolgante.
As casas, altas, mal edificadas, não raro vinham abaixo, matando ou ferindo quem estivesse sob seu teto. Em toda casa se padecia do terror de morrer esmagado; as pessoas estavam sempre alertas, prontas para fugir ao menor estalo ou sinal de desmoronamento.
Os senhorios romanos eram homens de muita ganancia. Mandavam fazer casas, para alugar, com material de baixa qualidade e de pouco preço, não somente para obter maiores rendas, como tambem porque temiam empregar capital de vulto e perdê-lo inteiramente nos incendios, que ocorriam amiude. Manifestavam pouca estima pela vida dos inquilinos, porque as habitações, assim erguidas, não ofereciam nenhuma segurança.
Os pavimentos superiores das casas, bem como os telhados, eram de madeira, e as ruas estreitissimas. Isso tudo facilitava a propagação dos incendios, tão frequentes em Roma, alguns dos quais se tornaram celebres, como o que Nero mandou atear, carregando depois a culpa da hecatombe nos cristãos. E tanto foram os incendios que se acredita que o solo de Roma se ergueu com os escombros, sendo hoje mais alto.
Pelas ruas transitavam mascates, cargueiros e carros. Os mercadores gritavam os seus pregões, os almocreves berravam com os animais que conduziam. Nas oficinas rompiam as serras, batiam a bigorna nas numerosas ferrarias urbanas. Juntavam-se a isso o alarido duma multidão frenetica os gritos do poviléo disposto sempre aos tumultos, às algazarras. A cada passo o trafego se obstruia, dada a estreiteza das vias publicas; fugisse então quem tivesse ouvidos melindrosos, porque nas discussões que nasciam reboavam os palavrões mais asperos. Tal é o quadro duma rua populosa da Roma antiga.
Mas, o trafego de carroças somente era permitido à noite. Isso, acrescido das arruaças da soldadesca em folga e por vagabundos em grupos, prolongava o barulho pela noite a dentro, perturbando o sono dos pobres. Dizemos dos pobres, porque somente as casas pobres tinham quartos dando para as ruas. Nas residencias dos ricos, os dormitorios ficavam no interior dos edificios, ao abrigo do barulho noturno. Tambem aumentavam o desassossego noturno as serenatas que os apaixonados organizavam junto das casas de suas amadas. Diz-se que, tomados de paixão, não raro esses seresteiros, ajudados por amigos e parentes, ou unicamente por sua propria audacia, buscavam pela violencia penetrar nas casas e sequestrar as namoradas.
Escreve um autor que as ruas da Cidade Eterna, quando, afinal, o barulho esmorecia, assumiam um aspecto sinistro. Abundavam assaltantes; era mister que as portas fossem bem escoradas. Convinha, nessas horas lugubres, não sair de casa. Era o que faziam as pessoas prudentes.

Neste texto foi mantida a grafia original
Folha da Manhã, domingo, 26 de maio de 1946

ATLANTIDA, IMPERIO DA LUA, DOS ASTECAS OU DA ESPANHA?


Segundo uma velha tradição egípcia, teria existido, há cerca de nove mil anos, uma velha ilha situada a oeste das colunas de Hercules. Ilha de extensão maior que a Asia e a Libia em conjunto, e cujos reis dominaram vastos territorios europeus e africanos. Logo que esses reis tentaram conquistar o resto da Europa, foram vencidos numa batalha pelo exercito grego, comandado por chefes atenienses. Derrota que marcou o declinio e o aniquilamento do imperio.
"Houve terremotos e inundações. No espaço de um espantoso dia e de uma espantosa noite, o solo engoliu toda a armada helenica, e a ilha Atlantida pereceu entre as vagas. O mar, nesta região, deixou de ser navegavel. O fundo baixo e lamacento, consequencia do afundamento da ilha, impedia toda e qualquer exploração..."
Assim se referia Platão, no "Kritias", à Atlantida. Essa, a unica e solitaria alusão à fantastica ilha, que chegou da literatura da antiguidade, até aos nossos dias.

Atlantida, país dos astecas?

Através dos tempos, a Atlantida foi sempre motivo de cogitações e explorações fantasticas. Não faltaram, mais recentemente, os escritores, jornalistas ou romancistas, e mesmo cineastas, que chegaram a reconstituir, por um esforço de imaginação, a arquitetura, o traçado e os materiais de construção da capital da Atlantida; o vestuario e o modo de vida da população; sua economia, suas classes sociais, sua religião, seus deuses e demonios; seus imperadores; as orgias dos imperadores, a beleza estranha da soberana a que alguns obrigaram a reinar sobre um reino submerso.
Especulações, e nada mais.
Platão tem sido submetido a uma das mais ferozes analises criticas, na tentativa de descobrir mais algum pormenor que conduza à localização da misteriosa Atlantida.
Quiseram alguns geografos e historiadores ver na narrativa do filosofo grego uma alusão poetica a um muito antigo conhecimento da America. O fato não é tão extraordinario como pode parecer à primeira vista, se considerarmos o arrojo marinheiro dos fenicios, e se a esse arrojo juntarmos as recentes provas de travessia do Atlantico por navegadores solitarios em frageis embarcações. Mas há mais: o historiador Pausanias diria mais tarde (150 antes de Cristo) que existia em pleno oceano, longe, e a oeste, um grupo de ilhas habitadas por homens de pele vermelha e cabelos como crinas de cavalo. Narrativa extraordinaria se a considerarmos pura imaginação. E mais tarde entre os anos 40 e 120 depois de Cristo. Plutarco escrevia que existe a oeste, no oceano, na mesma latitude da Grã-Bretanha, diversas ilhas atrás das quais se estende um vasto continente. Essas ilhas - e eis o maravilhoso! - caracterizam-se pelo fato de que o sol aí brilha ininterruptamente durante trinta dias. A noite, o astro recolher-se-ia cerca de uma hora, mas mesmo nessas alturas, a obscuridade não seria total, porque o horizonte, a ocidente, ficava sempre iluminado por um crepusculo. Plutarco descrevia, sem duvida, terras proximas do circulo polar. E o continente a que se referia, só poderia ser a America.
Juntem-se essas narrativas ao fato de que, muito antes de Cristo, já os Açores e a Madeira tinham sido explorados pelos fenicios, e não acharemos tão improvavel o fato de que o Novo Mundo fosse conhecido na antiguidade.
A Atlantida não seria então o continente que habitamos hoje? E o poderoso reino a que se referia Platão não seria o imperio dos astecas? Dois argumentos se levantaram contra a ambiciosa hipotese. Como poderiam os atlantes ter ocupado parte da Europa, e como poderiam ter sido derrotados pelo exercito grego? E como poderia a Atlantida ter desaparecido no espaço de um dia e uma noite, se fosse realmente o continente americano?

Atlantida, imperio da lua ou da Espanha?

Há cerca de 60 anos afirmava-se que o nosso simpatico satelite, a lua, há uns bons milhares de anos se destacara da Terra, passando a gravitar em torno de nosso planeta. Quiseram então alguns historiadores identificar a Lua com a Atlantida. Posteriormente afirmou-se que a Lua exercera uma tal atração sobre as massas oceanicas que um continente intermedio entre a Europa e a America fora submergido. Qualquer das hipoteses foi destruida pelas recentes investigações geologicas dos sedimentos oceanicos. Se realmente houve a submersão de um continente, isso não aconteceu há menos de 500 milhões de anos... E se realmente um pedaço de territorio atlantico, em virtude de fenomenos vulcanicos, se destacou de nosso planeta (hipotese rejeitada pelos geologos, por absurda) isso teria acontecido no período terciario, muito antes, portanto, do aparecimento do homem na face da Terra.
Limitaram então os historiadores suas incursões no fantastico, e procuraram algo de mais plausivel.
"Tartessos", a opulenta, a depravada", chama a Biblia a uma poderosa cidade, localizada algures entre Xeres de la Fronteira e a desembocadura do Guadalquivir, no sul da Espanha. Pouco se sabe acerca dessa cidade. Ignora-se a sua nacionalidade e a constituição racial de seus habitantes. Ignora-se ainda a data da sua fundação - provavelmente no final do terceiro milenio antes de Cristo - e a data da sua destruição. Porque houve uma destruição e certamente brutal, tragica, semelhante à catastrofe narrada por Platão, porque até hoje não foi possivel encontrar qualquer ruinas ou vestigios dessa cidade.
"Um dia virá em que a colera de Deus há de abater-se sobre todos os navios de Tartessos", profetizara Isaias 700 anos antes de Cristo.
E nem só a Biblia, mas textos de assirios e outros povos orientais se referem à misteriosa cidade cujo poderio era consequencia de suas fundições de bronze, essa sensacional amalgama de 10% de estanho de 90% de cobre que revolucionou as civilizações européias. Nas margens do rio Tinto, onde alguns historiadores localizam Tartessos, as minas de estanho e de cobre encontram-se lado a lado. Tartessos foi a grande produtora de bronze. Suas armas e braceletes eram vendidos, procurados e invejados por toda a Europa. Teriam os cartagineses destruido Tartessos, para eliminarem um concorrente que prejudicava a venda do estanho que eles traziam da Grã-Bretanha? Não se sabe. De qualquer forma, inclinam-se muitos historiadores modernos a identificar Tartessos com a Atlantida, a ilha Atlantida. Aliás, a propria Peninsula Iberica não é ela uma "quase" ilha?
Até que a verdade se descubra, podem os leitores continuar sonhando reinos submarinos e rainhas de estranha e languida beleza...
Folha da Noite, sexta-feira, 7 de junho de 1957

ATLANTIDA, IMPERIO DA LUA, DOS ASTECAS OU DA ESPANHA?


Segundo uma velha tradição egípcia, teria existido, há cerca de nove mil anos, uma velha ilha situada a oeste das colunas de Hercules. Ilha de extensão maior que a Asia e a Libia em conjunto, e cujos reis dominaram vastos territorios europeus e africanos. Logo que esses reis tentaram conquistar o resto da Europa, foram vencidos numa batalha pelo exercito grego, comandado por chefes atenienses. Derrota que marcou o declinio e o aniquilamento do imperio.
"Houve terremotos e inundações. No espaço de um espantoso dia e de uma espantosa noite, o solo engoliu toda a armada helenica, e a ilha Atlantida pereceu entre as vagas. O mar, nesta região, deixou de ser navegavel. O fundo baixo e lamacento, consequencia do afundamento da ilha, impedia toda e qualquer exploração..."
Assim se referia Platão, no "Kritias", à Atlantida. Essa, a unica e solitaria alusão à fantastica ilha, que chegou da literatura da antiguidade, até aos nossos dias.

Atlantida, país dos astecas?

Através dos tempos, a Atlantida foi sempre motivo de cogitações e explorações fantasticas. Não faltaram, mais recentemente, os escritores, jornalistas ou romancistas, e mesmo cineastas, que chegaram a reconstituir, por um esforço de imaginação, a arquitetura, o traçado e os materiais de construção da capital da Atlantida; o vestuario e o modo de vida da população; sua economia, suas classes sociais, sua religião, seus deuses e demonios; seus imperadores; as orgias dos imperadores, a beleza estranha da soberana a que alguns obrigaram a reinar sobre um reino submerso.
Especulações, e nada mais.
Platão tem sido submetido a uma das mais ferozes analises criticas, na tentativa de descobrir mais algum pormenor que conduza à localização da misteriosa Atlantida.
Quiseram alguns geografos e historiadores ver na narrativa do filosofo grego uma alusão poetica a um muito antigo conhecimento da America. O fato não é tão extraordinario como pode parecer à primeira vista, se considerarmos o arrojo marinheiro dos fenicios, e se a esse arrojo juntarmos as recentes provas de travessia do Atlantico por navegadores solitarios em frageis embarcações. Mas há mais: o historiador Pausanias diria mais tarde (150 antes de Cristo) que existia em pleno oceano, longe, e a oeste, um grupo de ilhas habitadas por homens de pele vermelha e cabelos como crinas de cavalo. Narrativa extraordinaria se a considerarmos pura imaginação. E mais tarde entre os anos 40 e 120 depois de Cristo. Plutarco escrevia que existe a oeste, no oceano, na mesma latitude da Grã-Bretanha, diversas ilhas atrás das quais se estende um vasto continente. Essas ilhas - e eis o maravilhoso! - caracterizam-se pelo fato de que o sol aí brilha ininterruptamente durante trinta dias. A noite, o astro recolher-se-ia cerca de uma hora, mas mesmo nessas alturas, a obscuridade não seria total, porque o horizonte, a ocidente, ficava sempre iluminado por um crepusculo. Plutarco descrevia, sem duvida, terras proximas do circulo polar. E o continente a que se referia, só poderia ser a America.
Juntem-se essas narrativas ao fato de que, muito antes de Cristo, já os Açores e a Madeira tinham sido explorados pelos fenicios, e não acharemos tão improvavel o fato de que o Novo Mundo fosse conhecido na antiguidade.
A Atlantida não seria então o continente que habitamos hoje? E o poderoso reino a que se referia Platão não seria o imperio dos astecas? Dois argumentos se levantaram contra a ambiciosa hipotese. Como poderiam os atlantes ter ocupado parte da Europa, e como poderiam ter sido derrotados pelo exercito grego? E como poderia a Atlantida ter desaparecido no espaço de um dia e uma noite, se fosse realmente o continente americano?

Atlantida, imperio da lua ou da Espanha?

Há cerca de 60 anos afirmava-se que o nosso simpatico satelite, a lua, há uns bons milhares de anos se destacara da Terra, passando a gravitar em torno de nosso planeta. Quiseram então alguns historiadores identificar a Lua com a Atlantida. Posteriormente afirmou-se que a Lua exercera uma tal atração sobre as massas oceanicas que um continente intermedio entre a Europa e a America fora submergido. Qualquer das hipoteses foi destruida pelas recentes investigações geologicas dos sedimentos oceanicos. Se realmente houve a submersão de um continente, isso não aconteceu há menos de 500 milhões de anos... E se realmente um pedaço de territorio atlantico, em virtude de fenomenos vulcanicos, se destacou de nosso planeta (hipotese rejeitada pelos geologos, por absurda) isso teria acontecido no período terciario, muito antes, portanto, do aparecimento do homem na face da Terra.
Limitaram então os historiadores suas incursões no fantastico, e procuraram algo de mais plausivel.
"Tartessos", a opulenta, a depravada", chama a Biblia a uma poderosa cidade, localizada algures entre Xeres de la Fronteira e a desembocadura do Guadalquivir, no sul da Espanha. Pouco se sabe acerca dessa cidade. Ignora-se a sua nacionalidade e a constituição racial de seus habitantes. Ignora-se ainda a data da sua fundação - provavelmente no final do terceiro milenio antes de Cristo - e a data da sua destruição. Porque houve uma destruição e certamente brutal, tragica, semelhante à catastrofe narrada por Platão, porque até hoje não foi possivel encontrar qualquer ruinas ou vestigios dessa cidade.
"Um dia virá em que a colera de Deus há de abater-se sobre todos os navios de Tartessos", profetizara Isaias 700 anos antes de Cristo.
E nem só a Biblia, mas textos de assirios e outros povos orientais se referem à misteriosa cidade cujo poderio era consequencia de suas fundições de bronze, essa sensacional amalgama de 10% de estanho de 90% de cobre que revolucionou as civilizações européias. Nas margens do rio Tinto, onde alguns historiadores localizam Tartessos, as minas de estanho e de cobre encontram-se lado a lado. Tartessos foi a grande produtora de bronze. Suas armas e braceletes eram vendidos, procurados e invejados por toda a Europa. Teriam os cartagineses destruido Tartessos, para eliminarem um concorrente que prejudicava a venda do estanho que eles traziam da Grã-Bretanha? Não se sabe. De qualquer forma, inclinam-se muitos historiadores modernos a identificar Tartessos com a Atlantida, a ilha Atlantida. Aliás, a propria Peninsula Iberica não é ela uma "quase" ilha?
Até que a verdade se descubra, podem os leitores continuar sonhando reinos submarinos e rainhas de estranha e languida beleza...
Folha da Noite, sexta-feira, 7 de junho de 1957

CANUDOS: REPORTERES E ESCRITORES


Conselheiristas presos no dia 2 de outubro de 1897

A revolta de Canudos, nos ultimos anos do seculo XIX, atraiu ao local dos acontecimentos varios jornalistas: entre outros Manuel Benicio, do Rio; Favila Nunes, Cisneiros Cavalcanti, Manuel de Figueiredo e Euclides da Cunha, de São Paulo.
Esses enviados especiais guardavam entre si uma característica comum: Euclides da Cunha era tenente reformado, Favila Nunes era coronel, Manuel Benicio, capitão, e Manuel de Figueiredo, major.
Em reportagens assinadas, Euclides escreveu de 7 de agosto a 1 de outubro de 1897. Suas reportagens foram publicadas duas vezes em forma de livro: "Canudos - Diário de uma Expedição", edição organizada por Antonio Simões dos Reis, José Olympio, Rio, 1939; "Canudos e Inéditos", organizada por Olímpio de Souza Andrade, São Paulo, 1967.
Tanto as reportagens como o livro que publicou cinco anos mais tarde - "Os Sertões" - estão profundamente marcados por suas posições que, refletem as posições filosóficas predominantes no momento: o positivismo, a geopolítica, a antropogeografia. Da mesma maneira que os outros enviados especiais, Euclides oscila entre as opiniões preconcebidas e a realidade presenciada. Da mesma maneira que os outros, Euclides se cala, enquanto reporta quanto à praticas como a de degolar prisioneiros, cuja existencia não era desconhecida nem causava escandalo. "Os Sertões" - como tambem Manuel Benicio em "O Rei dos Jagunços", publicado em 1899 - Euclides faz uma denuncia apaixonada. No Diário de Notícias, da Bahia, de 16 de agosto de 1897, aparece uma notícia sobre o relatorio que o coronel Serra Martins fizera ao presidente Prudente de Morais, na qual surge, entre várias informações a seguinte: "Disse que quando deixou Canudos, não havia prisioneiros no acampamento um só jagunço, porque os que são apanhados são logo mortos".

O jornalismo de então: o que era e o que não era

"Espantoso.
Por pessoas, recentemente chegadas de Canudos, ouvimos o seguinte:
Que no último ataque, um grupo de valentes soldados, depois de ter esgotado a munição, lembraram-se de correr a pontapés os conselheiristas, confiados na resistência do calçado que foi comprado na popular casa O Monumento.
Que feliz idéia!..."
Anúncios como esse, publicados na primeira página do Diário de Notícias, da Bahia, a 12 de agosto de 1897, era bastante comuns. A publicidade atual também utiliza fatos e pessoas como as vitórias de Fittipaldi ou de Pelé. O que mudou foram os fatos.
O jornal era o mais eficiente veículo de comunicação no Brasil, no final do século XIX: ele acolhe em suas páginas um material variadissimo, que hoje - sobretudo com a televisão - que se encontra disperso. Tudo se passava em suas páginas; e também se criava: incidentes, intrigas e conspirações.
Anúncios classificados sobre cabras 'com abundância de leite", sobre roubo de "besta de sela, arreada, cor de pinhão, com sinal no quarto, ainda nova e pequena" ou oferecendo à venda lenha em achas; uma crônica literária em francês ao lado de uma lista de livros "só para homens"; anúncios que divulgam elixires e "poderosos reconstituintes" que curam tudo, como por exemplo "Embriaguês habitual ou crônica - cura-se em poucos dias com o Específico Giffoni". É um tempo em que se anuncia o Cinematógrafo Edson à rua do Ouvidor, como "a maior novidade do dia" e se acrescentava "Entrada com cadeira 1$000".
É o tempo da popularidade cênica de Pepa Ruiz e do êxito da peça "A Capital Federal" de Artur de Azevedo.
Talvez tenha sido "A Notícia", do Rio de Janeiro, um dos primeiros jornais a realizar alguma coisa com propaganda subliminar. No meio das notícias curtas, de primeira página, aparece frequentemente impresso em tipo muito menor, o seguinte: "Thé de Lipton. Rien de mieux".
Publicações a pedido, provocações para brigas, cartas abertas, bilhetes amorosos, mensagens de lojas maçônicas, prestações de contas do "Comitê de Solidariedade" à guerra de libertação nacional cubana, tudo isso dá uma idéia bastante clara da vida que se levava na época.
Declarações assinadas e cartas anônimas, contendo acusações de maior ou menor gravidade sobre a vida particular das pessoas provocaram não poucos atentados a jornalistas profissionais e crimes de morte. Apenas a derrota da Expedição Moreira Cesar, na campanha de Canudos, provocou o empastelamento de três jornais, no Rio de Janeiro - Apóstolo, Liberdade e Gazeta da Tarde - e um em São Paulo - O Comercio de São Paulo - além do assassinato de Gentil de Castro.
A localização da maior parte dos jornais cariocas - à rua do Ouvidor, então a mais importante do País - não era casual; todas as pessoas passavam por lá para saber das novidades. As frequentes agitações começavam ou terminavam quase sempre na rua do Ouvidor.
Ao lado da riqueza do conteúdo, entretanto, esses jornais eram visualmente monótonos. Muito diferentes dos jornais de hoje - visualmente atraentes - eles eram muito semelhantes entre si, quer fossem editados na capital do País, para um público presumivelmente mais refindado, ou nas cidades do interior. Ausência de fotos, raras ilustrações: geralmente mapas de batalhas, mortos ilustres, anúncios de remédios, moda feminina. O tamanho grande da página, os tipos miúdos, as colunas estreitas obrigavam o leitor a iniciar a leitura lá de cima, logo abaixo do cabeçalho, percorrer quase um metro de página e procurar continuação do artigo na coluna do lado, novamente lá em cima.
Em proporção à população, havia no Brasil mais jornais do que hoje. Apenas no Estado da Bahia, circularam entre 1811 e 1899, 700 jornais diferentes. Mesmo se levarmos em conta que muitos desapareciam por falta de autonomia financeira ou por motivos políticos, ou que alguns eram criados apenas para comemorar uma data ou prestigiar uma personalidade e depois eram fechados - ainda assim era excessivo o número de jornais existentes na época.
Sensacionalismo, ironia, bom senso, tudo isso temperou a intensa movimentação jornalística provocada pela Guerra de Canudos. Correspondentes especiais foram enviados exclusivamente para informar sobre o que se passava, notícias desencontradas chegavam, as casas comerciais faziam anúncios baseados na campanha e nos principais acontecimentos, a sátira política fervia.

O grande desventurado, truanesco e pavoroso

Uma página de Euclides da Cunha, sobre Antonio Conselheiro:
"A sua entrada nos povoados, seguido pela multidão contrita, em silencio, alevantando imagens, cruzes e bandeiras do Divino, era solene e impressionadora. Paralisavam-se as ocupações normais. Ermanavam-se as oficinas e as culturas. A população convergia para a vila onde, em compensação, avultava o movimento das feiras; e durante alguns dias, eclipsando as autoridades locais, o penitente errante e humilde monopolizava o mando, fazia-se autoridade unica.
"Erguiam-se na praça, revestidas de folhagens, as latadas, onde à tarde entoavam, os devotos, terços e ladainhas; e quando era grande a concorrencia, improvisava-se um palanque ao lado do barracão da feira, no centro do largo, para que a palavra do profeta pudesse irradiar para todos os pontos e edificar todos os crentes.
"Ele ali subia e pregava. Era assombroso, afirmam testemunhas existentes. Uma oratoria barbara e arrepiadora, feita de excertos truncados das Horas Marianas, desconexa, abstrusa, agravada, às vezes, pela ousadia extrema das citações latinas; transcorrendo em frases sacudidas; misto inextricavel e confuso de conselhos dogmaticos, preceitos vulgares da moral cristã e de profecias esdruxulas...
"Era truanesco e era pavoroso.
"Imagina-se um bufão arrebatado numa visão do Apocalipse...
"Parco de gestos, falava largo tempo, olhos em terra, sem encarar a multidão abatida sob a algaravia, que derivava demoradamente, ao arrepio do bom senso, em melopéia fatigante.
"Tinha, entretanto, ao que parece, a preocupação do efeito produzido por uma ou outra frase mais decisiva. Enunciava-se e emudecia: alevantava a cabeça, descerrava de golpe as palpebras; viam-se-lhe então os olhos extremamente negros e vivos, e o olhar - uma cintilação ofuscante... Ninguem ousava contemplá-lo. A multidão sucumbida abaixava, por sua vez, as vistas, fascinada, sob o estranho hipnotismo daquela insania formidavel.
"E o grande desventurado realizava, nesta ocasião, o seu unico milagre: conseguia não se tornar ridiculo..."

"Os sertões", atual setenta anos depois

Emir M. Nogueira

São José do Rio Pardo, Tatuí e Taubaté são algumas das poucas cidades paulistanas - e brasileiras - que procuram conservar vivo o culto a personalidades nelas nascidas, ou com elas de alguma forma relacionadas. Tatuí e Taubaté realizam, anualmente, as "semanas" de Paulo Setubal e Monteiro Lobato, respectivamente, em homenagem a esses escritores, naturais dessa cidade. A mais antiga de tais "semanas", entretanto, é a euclidiana, que hoje, 15 de agosto, se encerra em São José do Rio Pardo, e que se vem repetindo desde 1912.
A ata se justifica por assinalar o dia da morte de Euclides da Cunha (1909). O mais expressivo, no culto à sua memoria, em São José do Rio Pardo, é que o escritor não é filho dessa cidade, tendo aí vivido apenas alguns anos, de 1898 a 1901, na sua condição de engenheiro, responsavel pela construção de uma ponte pensil sobre o rio que dá nome à localidade.
Foi no entanto em São José do Rio Pardo que Euclides escreveu a sua obra máxima - "Os Sertões" - nos intervalos de sua atividade profissional. Francisco Escobar, amigo íntimo do autor, como qual manteve correspondencia durante longos anos, foi um dos que mais contribuiram para criar na cidade a tradição da "Semana Euclidiana", que abrange cerimonias culturais, cívicas e esportivas, de que participam representantes de quase todo o Estado. Alguns dos melhores ensaios sobre a obra de Euclides foram apresentados como conferencias, durante as "semanas".


Uma vida tragica

Durante muitos anos, após o desaparecimento do escritor, os estudos sobre o que produziu foram obscurecidos pelo impacto de sua morte tragica. Depois, como numa especie de consenso sobre o respeito devido à familia, relativo silencio passou a ser observado sobre o assunto. Por volta de 1945, quando um dos principais personagens do drama - o homem que matou Euclides - decidiu dar sua versão dos fatos, as discussões se reacenderam.
Sem entrar em pormenores penosos, e irrelevantes a esta altura, o que se pode recordar é que a tragedia euclidiana teve dois atos principais: no primeiro, a vitima foi o escritor, que tombou morto num duelo a tiros com o homem que supunha ter-lhe manchado o lar; o segundo, alguns anos mais tarde, morreu o filho de Euclides, que quis vingá-lo, sendo igualmente atingido, mortalmente, pelos tiros daquele que lhe matara o pai. Nas duas vezes, levado a julgamento, o autor das mortes de pai e filho foi absolvido, reconhecendo a Justiça que agira em legítima defesa.

Uma obra extraordinária

"Os Sertões" é, para muita gente, um daqueles livros de que todo mundo fala mas poucos, realmente, lêm. Trata-se de alentado volume, de mais de 600 páginas, cujo tema imediato é a chamada campanha de Canudos, ou seja, o episodio, ocorrido em fins do seculo passado, de que Antonio Conselheiro é a figura principal.
O livro é dividido em três partes: "A Terra", "O Homem" e "a Luta". A primeira é uma espécie de descrição do cenario - o Nordeste brasileiro - onde se desenrolariam os choques entre as forças legais e os seguidores do Conselheiro. Corresponde a cerca de 1/10 do livro, isto é, mais ou menos 60 páginas comuns; é a parte de mais difícil leitura, pois Euclides, engenheiro com vocação de antropologo e sociologo, desce a minuncias técnicas na descrição e na analise do meio fisico que gerou os jagunços.
Em "O Homem", descreve-se o personagem da tragedia: o sertanejo, o nordestino, quase esmagado por um ambiente hostil, mas que de uma forma ou de outra ainda encontra forças para reagir contra ele. Uma das mais conhecidas paginas dessa parte é aquela que se inicia pela frase - "O sertanejo é antes de tudo um forte" - presente em numerosas antologias. Para muitos é a melhor parte do livro, embora menos longa que a ultima, "A Luta".
Na terceira parte, Euclides descreve por assim dizer duas especies de luta: a das forças legais contra os jagunços (quatro expedições foram mandadas contra eles; Euclides acompanhou a quarta) e, a mais importante, a luta do homem contra a terra, para poder dominá-la e sobreviver.
O importante, em "Os Sertões", não é propriamente o relato dos embates entre soldados e jagunços. É a colocação do drama nordestino. Pela primeira vez, no Brasil, apresentava-se à nossa consciencia o problema do subdesenvolvimento de uma vasta area do país, até então praticamente abandonada à propria sorte. A obra de Euclides inspirará, em boa parte, o moderno romance brasileiro (surgido por volta de 1930 no nordeste, com tematica semelhante à de "Os Sertões").
Enviado ao cenario dos acontecimentos por um jornal, Euclides da Cunha não se limitou a fazer reportagem. Dotado de excepcional sensibilidade, colheu elementos para uma obra que, ao ser lançada, em 1902, logo foi reconhecida como a mais profunda tentativa de interpretação da realidade brasileira até então feita em nosso país.
É claro que, setenta anos mais tarde, muita coisa, em "Os Sertões" está superada. Permanece, entretanto, como uma das coisas mais serias já escritas no Brasil. O interesse pela obra vem sendo revigorado em nossos dias, com novas edições criticas, analises e ensaios que procuram mostrar o que ela tem de atual.

O escritor

Numa frase celebre, Joaquim Nabuco disse que Euclides parecia escrever "com um cipó". É uma referencia, aliás pouco feliz, ao estilo nervoso, por vezes agreste, mas quase sempre vigoroso do autor. Vocabulario riquissimo (como aliás era de praxe na epoca), Euclides convida a lê-los como dicionario à mão. Perde-se às vezes em preciosismos - palavras e expressões raras - desenterra arcaismos ou construções classicas.
Muitas de suas paginas são, no entanto, antologicas, no sentido mais exigente do termo. Tal é a descrição dos ultimos dias e a morte do Conselheiro (paginas de fecho de "Os Sertões'), pelas quais perpassa um sopro epico pouco comum em nossa literatura, o mesmo acontece em numerosas outras passagens do livro.
Além de "Os Sertões", deixou Euclides, ainda, "A Margem da Historia", "Contrastes e Confrontos", "Peru vx. Bolivia", além de artigos de jornal e farta correspondencia - tudo fruto de suas andanças pelo país e de sua capacidade de observação e estudo dos diversos aspectos da nossa realidade.

Folha de S.Paulo, terça-feira, 15 de agosto de 1972

domingo, 2 de outubro de 2011

Quem são os persas?


Roberto Navarro

São os descendentes de tribos que ocupam uma região na Ásia Central há cerca de 3 mil anos. Em sua maior expansão, o território persa estendeu-se por uma área hoje ocupada por nações como Usbequistão, Turcomenistão, Afeganistão, Turquia, Paquistão, Iraque e Irã. Os iranianos, aliás, são descendentes diretos dos persas. Tanto que o país se chamou Pérsia até o século passado - o nome Irã, que na língua parse significa "terra dos arianos" (uma referência à etnia de seus ancestrais), só foi adotado oficialmente em 1935. Ao longo de três milênios, o povo persa trilhou uma trajetória de conflitos com quase todos os seus vizinhos. Atualmente, a briga mais explosiva não é com a galera da região, mas com a "civilização ocidental" e com os Estados Unidos em particular. A raiz da briga é, em grande medida, cultural. Durante boa parte do século 20, os governantes do Irã tentaram modernizar o país apoiados na economia de mercado capitalista. Setores mais religiosos não viam esse processo com bons olhos: em 1979, o aiatolá Khomeini liderou um golpe que depôs o presidente e transformou o Irã em uma república islâmica, com leis conservadoras baseadas no islamismo. Desde então, os americanos e o estilo de vida capitalista têm sido o inimigo preferencial, tanto nos discursos quanto nas ações. Você já deve ter ouvido falar que o atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad, tem provocado calafrios em Bush e cia. com sua insistência em desenvolver um programa nuclear - possivelmente, para construir armas... Nos mapas abaixo, você acompanha a saga dos três milênios de conquistas e derrotas dos persas.Regime forçado A Pérsia chegou a ter 5 milhões de km². O herdeiro Irã manteve um terço disso1. A história do povo persa começa por volta do ano 1 000 a.C., quando um povo nômade chamado parse migra da Ásia Central para uma região no sul do atual Irã - hoje conhecida como Fars e considerada o berço da Pérsia
2. No século 6 a.C., o território persa cresce significativamente. Em 559 a.C., o rei Ciro II unifica dois reinos locais em torno do reino persa. Conquistador, Ciro II expande seu domínio pela Ásia Menor, Ásia Central e parte da África
3. O Império Persa atinge sua máxima extensão territorial durante o governo do rei Dario I (c. 549 a.C. - c. 485 a.C.). Ele avança em direção ao Paquistão e depois à Europa, mas é barrado pelos gregos e não consegue penetrar no continente

4. No século 4 a.C., a Pérsia cai sob o domínio do império de Alexandre, o Grande. Sua vitória mais marcante contra os persas aconteceu em 339 a.C., quando suas tropas derrotaram o exército do rei Dario III e tomaram o poder na região

5. Após a morte de Alexandre, em 323 a.C., a Pérsia é dividida entre seus generais. O fracionamento dura quase 600 anos, até 224, quando a família real dos sassânidas consegue dominar toda a região da Pérsia, partes da Ásia e do Oriente Médio

6. Os sassânidas são considerados os últimos governantes do "grande império persa". A partir do século 7, seu território começa a diminuir. A primeira derrota rola no ano 627, quando tropas do Império Bizantino conquistam terras no atual Iraque

7. A dinastia sassânida cai de vez com a invasão islâmica pelos povos árabes do território da Pérsia. A maior parte do território é conquistada pelos árabes entre os anos de 643 e 650, deixando profundas marcas nos costumes religiosos

8. A conquista árabe altera a vida da Pérsia, influenciando a cultura, a sociedade e a economia. Por quase 400 anos, o ambiente torna-se altamente turbulento. Até que, no século 11, uma dinastia turca invade o Império Persa e o controla entre 1037 e 1219

9. O Império Persa continua sujeito a invasões de todos os lados, que vão pouco a pouco abocanhando o imenso território alcançado na Antiguidade. Do século 12 em diante, a maior ameaça eram os grupos vindos da Mongólia e do Azerbaijão

10. A perda territorial começa a ser contida no ano 1736, quando o conquistador Nadir Shah assume o poder. Para garantir um mínimo de integridade territorial ao país, Shah "arruma a casa" protegendo as fronteiras próximas e se retirando de áreas remotas

11. Nos séculos 18 e 19, a Pérsia volta a perder terras - desta vez no norte do país, em guerras com a Rússia. No início do século 20, o país cai sob a influência da Grã-Bretanha e tem o norte de seu território ocupado pelos britânicos, em 1919

12. Com um golpe de Estado, o xá Reza Pahlevi derrota a ocupação britânica em 1925. Em 1935, ele muda o nome do país para Irã, mas acaba deposto em 1941: EUA e Grã-Bretanha o forçam a abdicar, temendo que ele se alie aos nazistas

13. Quem assume o poder é o filho do xá, Mohammad. Com um governo modernizador e ocidentalizante, ele desperta a ira dos setores mais conservadores e é deposto em 1979, em um golpe religioso liderado pelo aiatolá Khomeini

14. A última grande disputa territorial do Irã aconteceu em 1980, quando o Iraque de Saddam Hussein invadiu o país. O saldo foi uma sangrenta guerra de nove anos, 1,5 milhão de mortos - e nenhuma mudança nas fronteiras dos dois países...

REVISTA MUNDO ESTRANHO

Pesquisa revela uso de armas químicas contra romanos


Um pesquisador da Universidade de Leicester, na Inglaterra, diz ter identificado o que parece ser a mais antiga evidência arqueológica do uso de armas químicas.
Segundo o pesquisador Simon James, cerca de 20 soldados romanos, encontrados em um sítio na antiga cidade de Dura-Europos, localizada no atual território da Síria, foram mortos não devido a ferimentos de espada ou lança, mas sim por asfixia.

Os corpos de soldados romanos foram encontrados em escavações realizadas na década de 1930. Eles estavam em uma galeria estreita, com menos de 2 metros de altura e de largura e cerca de 11 metros de comprimento, e ainda portavam suas armas.

Ao realizar novas pesquisas no local, James buscou descobrir a maneira exata como esses soldados haviam morrido e seus corpos haviam sido dispostos da maneira em que foram encontrados.

James disse que pesquisas na galeria em que os corpos foram encontrados revelaram que os persas, em combate com os romanos, teriam usado betume e cristais de enxofre para incendiar o túnel.

De acordo com o cientista, quando incendiados esses materiais formam densas nuvens de gases sufocantes, o que teria provocado a morte dos soldados.

James apresentou suas descobertas em um encontro do Archaeological Institute of America (Instituto Arqueológico da América)

Cerco

Situada nas margens do rio Eufrates, Dura-Europos foi conquistada pelos romanos, que instalaram ali uma grande guarnição militar.

Por volta do ano 256, a cidade sofreu um cerco feroz do Exército do poderoso império Sassânida (dinastia que governava a Pérsia).

De acordo com pesquisadores, os sassânidas usaram todas as técnicas disponíveis para conquistar a cidade. Os cientistas dizem que foi usada inclusive a construção de minas para abrir brechas nas muralhas e que os romanos se defenderam com contraminas.

"Uma análise cuidadosa da disposição dos corpos mostra que eles foram amontoados na entrada da contramina pelos persas, que usaram suas vítimas para criar uma parede de corpos e escudos", disse James.

"(Os persas) deixaram o contra-ataque romano encurralado enquanto incendiavam a mina, fazendo com que desmoronasse, o que permitiu que continuassem tentando derrubar as muralhas", afirmou.

Segundo James, "isso explica por que os corpos estavam no local em que foram encontrados".

Estratégia

De acordo com o pesquisador, para conseguir matar 20 homens em um espaço como aquele, os persas precisariam de "poderes de combate super-humanos, ou algo mais insidioso".

"Os persas ouviram os romanos construindo seu túnel", disse James. "E prepararam uma terrível surpresa para eles."

"Acho que os sassânidas colocaram braseiros e foles na galeria, e quando os romanos entraram, (os sassânidas) colocaram os produtos químicos e lançaram as nuvens de gases para dentro do túnel dos romanos", afirmou o pesquisador.

"Os romanos ficaram inconscientes em segundos, e estavam mortos em poucos minutos."

Conforme James, o uso desse tipo de geradores de fumaça dentro de túneis é mencionado em alguns textos clássicos.

"Fica claro, com as evidências arqueológicas em Dura-Europos, que os persas sassânidas tinha tanto conhecimento de técnicas de guerra quanto os romanos. Eles certamente conheciam essa tática", disse.

Ironicamente, as minas persas não foram suficientes para derrubar as muralhas, mas os sassânidas acabaram entrando na cidade.

Os habitantes foram massacrados ou deportados para a Pérsia, e a cidade abandonada.
BBC BRASIL

Notícias História Viva

Vaticano anuncia descoberta da imagem mais antiga de São Paulo
Assimina Vlahou
De Roma para a BBC Brasil

A imagem foi descoberta durante a restauração de uma catacumba

O Vaticano anunciou a descoberta de um afresco do século 4 que retrata São Paulo e afirmou que se trata da mais antiga imagem que se conhece do santo.

A pintura foi descoberta em Roma durante as obras de restauração de uma catacumba romana.

O afresco estava debaixo de uma camada de argila endurecida na catacumba de Santa Tecla, em Roma, a poucos metros da Basílica de São Paulo Fora dos Muros – dedicada ao apóstolo que se converteu ao Cristianismo após ter perseguido os cristãos.

A pintura foi descoberto no dia 19 de junho, mas o anúncio foi feito apenas neste final de semana, na edição de domingo do jornal L'Osservatore Romano, órgão oficial da Santa Sé.

Segundo o Vaticano, trata-se da mais antiga imagem conhecida do santo, considerado o “príncipe dos apóstolos”.

A notícia sobre a descoberta do afresco de São Paulo foi anunciada no final do ano dedicado ao santo, encerrado pelo papa Bento 16 no último domingo. O ano paulino celebrou os 2 mil anos do nascimento de São Paulo.

Durante a cerimônia de encerramento, o papa anunciou que os restos guardados na basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma, pertencem de fato ao apóstolo, uma das principais figuras do cristianismo.

Os resultados das análises feitas usando o teste com carbono 14, teriam confirmado que os ossos sepultados na Basílica dedicada ao santo pertenceriam de fato ao apóstolo.

Detalhes

As pinturas foram encontradas num antigo cemitério cristão, no teto de uma pequena parte da catacumba que tinha ficado enterrada durante séculos.

No afresco, o apóstolo aparece com os traços característicos de sua figura, já conhecidos por meio de outras pinturas.


Os restauradores usaram técnica a laser para descobrir a pintura

A imagem é rodeada de um círculo vermelho de tonalidade forte, como os afrescos típicos da antiga Pompeia, emoldurado por uma faixa amarela. A pintura retrata um rosto magro e comprido, com barba escura e fina na ponta, cabeça calva, nariz grande e olhos expressivos, com ar pensativo.

A pintura veio à tona após mais de um ano de obras de restauração, coordenadas pela Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra, que definiu a descoberta como ”sensacional”.

Os restauradores afirmam que o tradicional sistema de limpeza mecânico não foi suficiente para retirar as camadas de argila e garantir a conservação dos afrescos, considerados de alta qualidade pelo grupo. Eles tiveram que usar instrumentos de raio laser.

“O arqueólogos que trabalham ali há mais de um ano ficaram impressionados. O laser iluminou o rosto bem reconhecível de São Paulo. Por suas características, pode ser considerado o ícone mais antigo do apóstolo de que se tem notícia”, descreve o jornal do Vaticano.

Segundo os arqueólogos, a pintura representa uma figura que foi escolhida para proteger os mortos da família cujos túmulos estavam localizados na catacumba.

Além de São Paulo, os afrescos retratam outros personagens, entre eles São Pedro, mas em pior estado de conservação.

São Paulo foi decapitado em Roma em torno do ano de 65 depois de Cristo, após o incêndio que destruiu a cidade. Ele é festejado, com São Pedro, no dia 29 de junho.
BBC BRASIL

Notícias História Viva

Pinturas pré-históricas em caverna são de crianças de '3 a 7 anos'

Desenhos podem ser parte de ritual de iniciação ou apenas uma simples brincadeira infantil


Sulcos foram feitos por dedos de crianças de três a sete anos

Pinturas pré-históricas encontradas em uma caverna na França foram feitas por crianças pequenas, com idades entre três e sete anos, apontam pesquisas recentes.
São sulcos feitos com os dedos, que resultam em desenhos de mamutes e outros animais. Eles foram descobertos na chamada Caverna dos Cem Mamutes, em Rouffignac, e datam de cerca de 13 mil anos atrás.

Os sulcos parecem ter sido feitos por dedos pequenos, de crianças, que passavam as mãos na superfície macia das paredes da caverna.
Pesquisadores da Universidade de Cambridge agora afirmam terem conseguido identificar a idade e o sexo dos jovens artistas das cavernas.
"Os sulcos feitos por crianças aparecem em todas as partes da caverna", diz a arqueóloga Jess Cooney, da Universidade de Cambridge, que comandou as pesquisas ao lado de Leslie Van Gelder, da Universidade Walden (EUA).
"Encontramos marcas de crianças de três a sete anos – e conseguimos identificar (os desenhos de) quatro crianças específicas ao comparar suas marcas."
Segundo ela, a criança mais prolífica no desenho de gravuras tinha ao redor de cinco anos. "E temos quase certeza de que essa criança era uma menina."
'Lugar especial'

Desenhos podem ser parte de ritual de iniciação ou apenas uma simples brincadeira infantil
A cada ano, milhares de pessoas visitam a caverna, na região de Dordogne (oeste da França), para admirar os desenhos de mamutes, cavalos e rinocerontes, nas paredes dos 8 km de caverna que foram descobertas no século 16.
Mas só em 1956 é que os especialistas perceberam que alguns dos desenhos eram pré-históricos. Depois, em 2006, notaram que as pinturas haviam sido feitas por crianças, com seus dedos.
Diferentemente de rabiscos também encontrados na caverna, as pinturas não continham pigmentos de tinta.
"Uma caverna é tão rica em sulcos feitos com (dedos de) crianças que parece ter sido um lugar especial para elas. Mas é impossível saber se (a prática) era para brincar ou parte de um ritual", diz Cooney.
Pinturas feitas com sulcos de dedos também já foram encontradas em cavernas na Espanha, na Nova Guiné e na Austrália.
"Não sabemos porque as pessoas as faziam", agrega Cooney, admitindo que os desenhos podem ser parte de "rituais de iniciação" ou "simplesmente algo pra ocupar o tempo durante um dia chuvoso".
BBC BRASIL

Notícias História Viva

Catedral de São Basílio completa 450 anos
Catedral de São Basílio completa 450 anos com restauração

A catedral de São Basílio, um dos prédios mais famosos de Moscou, completa nesta terça-feira 450 anos de idade.
Para marcar o aniversário, a catedral passou por uma grande restauração.
Com suas cúpulas coloridas, a catedral foi construída sob o reinado de Ivan, o Terrível. Segundo a lenda, o czar Ivan mandou que os olhos dos arquitetos da São Basílio fossem arrancados depois da construção terminada, para que eles nunca criassem algo mais bonito do que a catedral.

Apesar de ser uma construção símbolo da Rússia, a catedral tem sorte por estar de pé. No século 19, Napoleão tentou explodir o prédio, mas a chuva forte apagou o pavio.
No século 20, os comunistas tinham planos para demolir São Basílio. Mas a catedral sobreviveu, e, da Praça Vermelha, assistiu de tudo: desde o funeral de Lênin aos desfiles patrióticos. De uma tentativa fracassada de golpe de Estado, em 1991, até uma visita da rainha Elizabeth 2ª.
A restauração custou US$ 14 milhões de dólares e foram necessários dez anos para cobrir as rachaduras e trazer de volta a beleza original do prédio.
"Usamos a última tecnologia para fazer São Basílio parecer nova. Afinal, a Rússia não é a Rússia sem esta catedral", disse a arquiteta responsável pela restauração, Tatiana Nikitina.
BBC BRASIL

Notícias História Viva

Antiga civilização do Peru praticava sacrifícios humanos, dizem arqueólogos
Os corpos foram encontrados no norte do país
Múmias encontradas no Peru trazem indícios de sacrifícios humanos e de animais praticados pelo antigo povo chimu, uma civilização que viveu antes dos incas.
Os corpos de 40 crianças e 74 lhamas foram encontrados na localidade de Huanchaquito, no norte do país.


Segundo os arqueólogos, há indícios que as crianças tiveram o coração arrancado, em um ritual ocorrido há cerca de 800 anos.
Até agora, não havia maiores indícios de sacrifícios humanos em civilizações andinas. A descoberta também sugere uma possível ligação entre o povo chimu e os astecas mexicanos, que também praticavam sacrifícios.
BBC BRASIL