sábado, 10 de julho de 2010

A batalha de Chicago

Panteras Negras

A batalha de Chicago

“Agosto de Chicago” teria sido o equivalente, nos EUA, ao Maio de 1968 em Paris

por Luiz Bernardo Pericás

Manifestações, marchas e protestos marcaram o ano de 1968 em todo o mundo. A ofensiva Tet e o massacre de My Lai, no Vietnã, os levantes de maio na França, a invasão de tropas soviéticas na Tchecoslováquia (que culminaram na Primavera de Praga) e a tragédia da Praça de Tlatelolco, no México, são apenas alguns exemplos da radicalização da luta entre as forças progressistas e os agentes do establishment conservador, que tentavam a todo custo conter a “maré vermelha” em vários cantos do planeta. Nos Estados Unidos não foi diferente. Uma sucessão de acontecimentos significativos levou ao ápice as contradições da sociedade norte-americana, desembocando melancolicamente na Convenção Democrática Nacional, em agosto, e na escolha, pouco tempo depois, do republicano Richard Nixon para ocupar a Casa Branca.

O governo do então presidente Lyndon B. Johnson, na época, tinha somente 30% de aprovação da população. Sua política em relação à guerra na Indochina alcançava índices ainda piores, em torno de 23% apenas. A oposição ao conflito crescia nitidamente a cada mês, o que levou Johnson a desistir de concorrer nas eleições gerais. O caminho estava aberto para outros candidatos, inclusive para o vice-presidente Hubert Humphrey, ligado aos sindicatos filiados à AFL (American Federation of Labor) e visto por muita gente como “progressista”, ainda que fosse bastante associado à imagem e às políticas belicistas de Lyndon Johnson. Também na disputa, nomes emblemáticos, como Eugene McCarthy e George McGovern. A decisão final se daria na Convenção Nacional do Partido Democrata, marcada para ocorrer no International Amphitheater, em Chicago, entre 26 e 29 de agosto.

Alguns dias antes, manifestantes começaram a chegar de todas as partes, em grande medida instigados pelo evento partidário. O que deveria ser um protesto pacífico se tornou uma guerra. Por oito dias, a cidade se transformaria, literalmente, num campo de batalha. O “agosto em Chicago” foi, com suas devidas proporções, o equivalente, na “América”, ao “maio de 1968” em Paris. Ainda que outras manifestações anteriores tenham sido bem maiores em número de participantes (algumas chegavam a cem mil pessoas), aquela em Illinois seria mais importante em termos simbólicos.

A “batalha de Chicago” coroou um processo que se arrastava havia meses. É fundamental, entretanto, acompanhar aqui a seqüência dos fatos. No dia 4 de abril, o mais conhecido líder negro dos Estados Unidos, Martin Luther King, é assassinado em Memphis, Tennessee. Revoltas populares eclodem de leste a oeste do país. No dia 7 do mesmo mês, Bobby Hutton, “ministro da Defesa” do Partido dos Panteras Negras (Black Panthers Party), é assassinado, enquanto Eldridge Cleaver, o “ministro da Informação”, era ferido num tiroteio com a polícia. Os Panteras Negras se radicalizam. Cleaver seria, naquele ano, candidato à presidente dos Estados Unidos, pelo Peace and Freedom Party. Enquanto isso, Huey Newton, um dos fundadores do partido, era julgado por homicídio. Jovens afro-americanos depredam lojas, queimam pneus, destroem automóveis e entram em confrontos violentos com forças policiais em diversas cidades. Ao mesmo tempo, estudantes de classe média tomam as ruas para apoiar a luta pelos direitos civis e em protesto contra a guerra do Vietnã (em abril, por exemplo, a Universidade de Columbia, em Nova York, uma das mais prestigiosas do país, foi ocupada e fechada pelos alunos). Em 3 de junho, o artista plástico Andy Warhol é crivado de balas… mas sobrevive. Dois dias mais tarde, contudo, o Senador Robert F. Kennedy, o favorito para a sucessão presidencial, sofre um atentado, depois de discursar no Ambassador Hotel, em Los Angeles. O tiro que recebe é gravíssimo e, no dia seguinte, ele perde a vida. O ano esquentava…

Protagonistas

Entre os protagonistas de 1968, destacavam-se o Partido Yippie (Youth International Party), liderado por Abbie Hoffman e Jerry Rubin, e o SDS (Students for a Democratic Society), encabeçado por Tom Hayden e Rennie Davies. Essas organizações já haviam realizado eventos importantes, como o Summer of Love e a manifestação do Pentágono. A experiência que ganharam com esses e outros meetings (como aqueles no Central Park e na Grand Central Station, em Nova York, ou as marchas no verão daquele ano, em São Francisco), lhes deu condições de preparar uma atividade muito maior e mais arriscada para Chicago. Só que haveria uma grande diferença. Os encontros dos yippies, por exemplo, normalmente (mas nem sempre) eram festivos, não-violentos e promoviam a desobediência civil. Neles, hippies assistiam a shows de rock e evitavam qualquer problema com a polícia, ainda que eventualmente ocorressem choques com as autoridades. Mas em Chicago, tudo seria bem diferente.

Hoffman, Rubin, Hayden, Davies, assim como David Dellinger (editor da revista Liberation) e Vernon Grizzard (líder do movimento de resistência ao alistamento compulsório), convocaram cem grupos distintos que vinham se opondo à guerra. Pediram permissão às autoridades de Chicago para realizar um “festival da juventude”, mas tiveram seu pedido recusado. O prefeito Richard Daley já ouvira algumas ameaças que circulavam antes da Convenção, entre elas, a de que ativistas invadiriam, à força, o International Amphitheater, ou de que bloqueariam as ruas de Chicago. Também havia receio de que os protestos incitassem os bairros negros e criassem um caos urbano, aumentando ainda mais a tensão racial desde o assassinato de Martin Luther King. Se já não bastasse tudo isso, havia o boato de que os manifestantes sabotariam o sistema de águas da cidade, contaminando o suprimento de toda a região com LSD, com o objetivo de fazer com que a população inteira fizesse uma “viagem” psicodélica coletiva. A situação também poderia se agravar por causa do assassinato, pela polícia, no dia 22 de agosto, do jovem Dean Johnson, de apenas 17 anos de idade. O caso, de acordo com os agentes da lei, poderia ser o estopim e servir como desculpa para manifestações violentas dos ativistas.

É claro que boa parte dos temores era absurda, mas os governantes locais não iriam arriscar. Proibiram o evento programado. Mesmo assim, sem dar ouvidos ao prefeito, milhares de jovens decidiram marchar para a cidade. Montaram acampamento no Parque Lincoln. Se lá chegaram inicialmente dois mil militantes, em pouco tempo esse número subia para dez mil pessoas, entre hippies, yippies, “anarquistas”, ativistas negros, estudantes e até gangues de motociclistas. A multidão carregava bandeiras dos vietcongs e estandartes vermelhos. Muitos cartazes e banners lembravam Che Guevara, que havia sido assassinado no ano anterior na Bolívia.

A situação se tornava tensa. As provocações entre os jovens e a polícia eram constantes. No dia 23, Rubin e outros yippies tentaram indicar um porco, “Pigasus, the Pig”, para presidente dos Estados Unidos, no Civic Center Plaza. A polícia não deixou que a performance continuasse e deteve todo mundo, Rubin, o porco “Pigasus” e mais seis yippies.

No dia seguinte, sessenta militantes feministas da Women Strike for Peace tentaram entrar no Conrad Hilton Hotel, onde a maioria dos delegados democratas se hospedava, mas foram barradas pela polícia. Depois, centenas de ativistas, pressionados pela polícia, saíram do parque e tomaram as ruas de Chicago, destruindo automóveis com pedras e fechando diversos cruzamentos. Um grupo de 300 homens se dirigiu para o Hilton, tentando invadir o local. Também foram impedidos pela força pública. Outros 500, tentando ocupar o Loop, tiveram o mesmo destino.

Muita gente foi ao Parque Grant, e mais tarde, retornou ao Lincoln Park. Lá estava programado o “Festival of Life”, com apresentações de diversos artistas. Mas a polícia, de forma truculenta, acabou com a festa. Encontravam-se ali também o poeta beatnik Allen Ginsberg, o escritor William Burroughs, e o dramaturgo francês Jean Genet. O show da banda MC5 e os discursos de Tom Hayden, Rennie Davies e Abbie Hoffman deveriam dar o tom dos protestos.

Os policiais, demonstrando enorme despreparo, agiam de maneira agressiva, atacando não só os manifestantes como também quaisquer pedestres que por lá passavam e até mesmo jornalistas. Para se ter uma idéia, dos 300 repórteres designados para cobrir os eventos nas ruas e no parque, mais de 60 estiveram envolvidos em incidentes que resultaram em ferimentos, danos no equipamento ou em prisão.

Os números mostram a disparidade de forças. Haviam sido enviados para “proteger” a cidade 11.900 policiais, 7.500 soldados do Exército, 7.500 membros da Guarda Nacional e mil agentes do Serviço Secreto. Os manifestantes eram em torno de dez mil, aproximadamente. No dia mais violento dos protestos, quando ocorreu a “batalha da Avenida Michigan”, houve 589 prisões, 119 policiais e 100 manifestantes feridos. Mas o provável é que a quantidade de ativistas feridos tenha sido bem maior, e que possa ter chegado a 500 ou mais.

Fim melancólico

Os eventos de Chicago terminaram de maneira melancólica. Hubert Humphrey, da Velha Guarda do partido, foi escolhido para ser o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos. Nas eleições gerais, contudo, o republicano Nixon seria o vitorioso. Uma lei federal, a “1968 Civil Rights Act”, foi promulgada, tornando crime cruzar as divisas dos estados para incitar rebelião. Por causa disso, os chamados “Oito de Chicago”, Dellinger, Davies, Hayden, Hoffman, Rubin, além de Lee Weiner (assistente de pesquisa da Northwestern University), John Froines (professor da Universidade do Oregon) e Bobby Seale (fundador dos Panteras Negras), foram acusados de ter promovido a confusão e duramente julgados. Seale seria afastado do grupo e julgado separadamente, tornando os outros conhecidos como “Chicago Seven”. O caso só iria ser encerrado em 1970, com Froine e Weiner sendo inocentados, e os outros recebendo uma multa de US$ 5 mil e cinco anos de prisão. Todas as sentenças seriam revogadas pouco tempo depois.

Os eventos de Chicago levaram ao ápice as contradições sociais, raciais e políticas dos Estados Unidos naquele ano. A partir daí, os setores conservadores conseguiriam conter e sufocar outras grandes manifestações políticas. Na década seguinte, os partidos “revolucionários” e os movimentos mais radicais já não teriam a mesma força para organizar e influenciar a juventude do país.

Luiz Bernardo Pericás é doutor em História Econômica pela USP e professor convidado da FLACSO (México) e da Universidade do Texas (EUA)

Revista CULT

Os bondes da história


Os bondes da história

Com a palavra, o historiador
por Carlos Guilherme Mota


A Guerra Fria colocou os países da América Latina numa mesma moldura política e econômica, na qual Cuba era a única exceção. Somos filhos da Guerra Fria. Os regimes militares eram pautados pelo Pentágono, em Washington, com seus dirigentes e quadros formados em academias militares norte-americanas, muitos oficiais tendo sido treinados em métodos antiguerrilhas no Panamá. Do ponto de vista dos costumes e das mentalidades, dominava o American way of life; na economia a Escola de Chicago (com os Chicago boys); e nas ciências sociais os brazilianists, e especialistas no Peru, na Argentina, os mexicanists e assim por diante. Curioso notar esse efeito da Revolução Cubana de 1959: a América Latina, até então um “quintal dos EUA”, passou a ser região digna de preocupações político-militares dos governos norte-americanos. E preocupações econômicas, pois começaram a entrar pesadamente capitais de outros países, como os da Alemanha (Volkswagen etc.). Paradoxal foi o fato de muitos brazilianists liberais terem vindo para cá, estudado o Brasil e sua sociedade paupérrima, posicionando-se depois mais à esquerda, como Peter Eisenberg, Warren Dean, Richard Graham, Michael Hall, Joseph Love. Pois as realidades pesquisadas eram piores do que haviam estudado nos Estados Unidos. De “quintal” passamos a “atrasado”, depois a “subdesenvolvido”, depois a “periférico”, depois “potência emergente” no período da ditadura civil-militar, depois a país em fase de “redemocratização” etc. Mas a condição periférica nunca foi superada, até hoje. E o Brasil continua muito atrasado.

Na Argentina, o processo todo foi marcado por ditadura, aliás, crescente, passando por 1968: processo que se abre com o governo militar dos generais Ongania (1966), Levingston e Lanusse (este em 1973), depois a eleição do peronista Campora. Perón assume em 1973 e de 1974 a 1976, período em que sua mulher Isabelita assumiu, logo após sua morte. Aí teve início o período mais duro da história argentina, com mortes, desaparecimento e toda a conhecida barbárie. Lá, sempre houve reação às ditaduras, e 1968 foi mero episódio nessa história trágica.

No México, o Partido Revolucionário Institucional (PRI), renovador no início, tornou-se o partido que sufocou as liberdades civis, culminando com o trágico episódio de massacre de estudantes em 1968. No Peru, a guerrilha marca todo o ano de 1968, com importantes líderes inspirados no modelo cubano; mas a formação de militares nacionalistas e bem preparados conduziria ao governo do general Alvarado, com certos traços de reformismo de esquerda e com lideranças como a de Carlos Delgado (Darcy Ribeiro, exilado, colaborou com esses militares reformistas).

Repressão às idéias na cultura e resistência

A universidade e a produção cultural sofreram muito nesse período, em toda a América Latina. Foi um período, entretanto, no qual se descobriu a verdadeira dimensão do conservadorismo e atraso da região. Mas surgiu uma cultura de resistência, com variados matizes. De Eduardo Galeano, com as Veias abertas da América Latina, a Ferreira Gullar, ao “Teatro do Oprimido”, com a revista Civilização Brasileira e tantas outras publicações e manifestações no cinema, no teatro e na universidade. Houve resistência forte. Em verdade, uma redefinição de paradigmas, uma profunda mudança de mentalidade estava em curso, e “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso, sinaliza essa viragem. Mas não apenas Caetano, como as produções dos tropicalistas, a politização dos bossanovistas, a ampliação dos movimentos e partidos de esquerda dão o significado dessa nova época. Os professores cassados radicalizaram sua percepção de mundo, como Cardoso, que se tornou liberal-socializante e Florestan Fernandes, que radicalizou, indo às raízes da problemática latino-americana e brasileira: descobriu o modelo autocrático-burguês, que ainda está em vigência no Brasil de Lula. Ocorreu uma mudança de costumes, quebra das hierarquias rançosas nas universidades como em quase todas as esferas da vida social, inclusive da imprensa. O Brasil viveu um novo descobrimento, tão profundo como aquele posterior à Revolução de 1930 e ao Estado Novo, em que surgiram novos modos de pensar e viver, de namorar, de existir. A repressão fez despertar muitas lideranças, inclusive na Igreja da Reforma e da Contra-Reforma, indicando a existência de um país e de uma cultura nada “cordiais”, sem democracia racial e outros mitos culturais e políticos. Desapareceram os partidos tradicionais, afirmaram-se as empreiteiras, que souberam cooptar militares mal-formados e ingênuos. Levariam muito tempo para acordar…

Ruptura das forças conservadoras

Houve uma profunda mudança de mentalidade. Uma verdadeira revolução no plano dos valores, que ajudou a pôr abaixo a hipocrisia burguesa, que, aliás, está voltando com toda força. Não se deve esquecer que, antes de 1964, houve intensas tentativas de reformas de base, quando se discutiu a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma universitária e outras. O capitalismo ainda cultivava, apesar de Brasília e de lideranças como a de Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e de outros estadistas e outras iniciativas, um capitalismo senzaleiro. As Ligas Camponesas, uma reação ao coronelismo primitivo, puseram a burguesia e os grandes latifundiários em polvorosa. A mudança de mentalidade ocorreu também no âmbito da família, com a pílula anticoncepcional, com discussões mais abertas sobre a questão da sexualidade, com a crise das profissões liberais, com a expansão da psicanálise, com a revolução educacional da metodologia de Paulo Freire (muito discutido e proibido, embora atual). O que se assistiu em 1964 e depois com o AI-5, em 1968, foi o rompimento das forças conservadoras da sociedade brasileira, que fizeram o que sempre fizeram: a contra-revolução preventiva, odiosa, anti-moderna, reacionária, falsamente moralista. Veja hoje o debate sobre as células-tronco ou sobre os índios. Cinco séculos depois, ainda não sabem as lideranças brancas o que fazer com os indígenas…

Lista de cassações e ideais de 1968

O episódio da Faculdade de Filosofia da USP foi mais do que um episódio: foi um acontecimento. Marcou o limite do pensamento radical de classe média, de que falava o professor Antonio Candido. Era uma escola progressista, de caráter interdisciplinar, onde nasceram quadros intelectuais de enorme expressão. E isso no coração de São Paulo, no cerne da USP; as outras Faculdades tradicionais não suportaram essa escola progressista (embora nem tanto, se olharmos com os olhos de hoje). Tanto é que a lista de cassações não veio de Brasília, mas de um trio de professores das três escolas tradicionais; a de Medicina, a de Direito e a Politécnica. O Livro Negro da USP detalha essa história triste. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras foi partilhada, aviltada, e com o reitor Helio Lourenço cassado, ela foi cortada, transferida para o campus do Butantã.

O fato é que nossa Faculdade propunha temas fortes, dentro de uma linha revisionista, contra a tradição e com aberturas teóricas e temas fortes: racismo, natureza do capitalismo, análise das heranças coloniais em nossas instituições, o lugar da mulher, do negro, do índio, do imperialismo. Era demais para o pensamento conservador. Mesmo amputada, continuou a produzir, e bem, com vigor, embora sem aquela flama dos anos 1960.

Em 1968 discutíamos temas universais, e não apenas locais. Havia uma preocupação com a questão nacional, com a Federação, com a dominação externa (sobretudo norte-americana), com a dependência (conceito elaborado naquela década), com o autoritarismo, com a descolonização, com a censura e com a renovação das religiões, com a urbanização etc. Note-se que se vivia em um contexto histórico e religioso posterior à renovação do papa João 23, com reflexos em outros ramos do cristianismo e do pensamento social. Do ponto de vista externo, a Guerra do Vietnã indicava qual o lado correto da História, e a luta armada aparecia como uma das poucas saídas para o combate à violência do sistema capitalista de então, tal como era concebido. Na periferia, sobretudo, tratava-se do capitalismo selvagem, que, aliás, está vitorioso em nosso país.

Os ideais de 1968 permanecem vivos enquanto houver tamanha opressão da classe burguesa tacanha (nem calçadas ela constrói, preferindo as da França ou de Miami) e do coronelato que agora usa gravatas Hermès compradas nos duty free (por vezes com dinheiro público). É o “pudêr” dos severinos, ainda. Do DEM (exceto três ou quatro exceções) e dos partidos de direita nem falo, pois não têm compromisso com o futuro do país. São a anti-nação. Veja só: Maluf é candidato à prefeitura de São Paulo! Como não evocarmos os valores éticos de 1968, que adquirem atualidade com esses jurássicos?

Novas forças sociais e Herdeiros de 1968

A esquerda mudou de paradigmas. Se os partidos tradicionais se esvaíram, outras forças sociais adquiriram expressão crescente. Veja a questão ambiental, ou a das células-tronco, ou do aborto e seus notáveis e bravos defensores. Há um novo direito em construção, com jovens advogados, promotores, juízes, jornalistas, professores em todos os graus, médicos, urbanistas. Um Fernando Gabeira, expressão de 1968, enfrentou o pior coronelismo na Câmara dos Deputados, enquanto ex-membros do velho MDB ou do PCB ficaram quietos ou até condenaram o iracundo deputado. Gente como Marina Silva, Chico Alencar e tanto outros permanecem fiéis a princípios e até renovados, indicando os caminhos novos para o país. País tão desorientado, em que a universidade está tardando demais em reassumir seu papel, como propunham Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Florestan, Paulo Freire e muitos outros mestres, nossos ídolos de 1968.

Os legítimos herdeiros de 1968 são todos aqueles que ainda cultivam a inconformidade com a situação de miséria física, econômica, social e mental do Brasil de hoje. O protesto deve continuar, sobretudo quando índices oficiais mostram que o abismo social entre ricos e pobres não se alterou desde o século 18 aos dias atuais. Que esperar, sem protesto veemente e permanente? Frei Caneca perguntava, às vésperas de seu fuzilamento: “Para quando se guardam os jovens deste país, que não se manifestam?” As lideranças de uma nova sociedade civil começam a despontar, bem diversa daquela do fim da Segunda Guerra e dos tempos do JK, e mesmo dos tempos da República de São Bernardo. O petismo parece ter perdido o ponto, a conexão com o lulismo, o que é grave; e o tucanato aguou, está virando geléia geral. O PMDB, com seu fisiologismo, lembra o centrão da República do Diretório (1795-1799) da Revolução Francesa, onde todos os compromissos espúrios e conciliações eram permitidos, massacrando movimentos populares e dos jacobinos de classe média, coonestando o que tem de pior na tradição política brasileira. E o PSOL ainda é uma promessa.

Por uma nova Assembléia Nacional Constituinte

Apesar de tudo, o Brasil melhorou nos últimos dois mandatos. Não muito, como deveria, pois o presidente Cardoso não foi tão fundo, não radicalizou nem fez o uso do poder que detinha para as reformas estruturais. E poderia fazê-lo, pois leu livros sobre Roosevelt e De Gaulle (já não digo obras de socialistas, que também leu, no famoso Grupo do Capital). E o presidente Lula faz o melhor que pôde, mas não parece ter lido Os donos do poder, de Raymundo Faoro, ao menos os últimos capítulos, apesar de ter convidado o jurista para vice em sua chapa eleitoral e de celebrá-lo em várias ocasiões… Aliás, a questão não é só ler, mas ler e aplicar, pois nossos problemas são enormes.

Em 1970 éramos 90 milhões de habitantes, população que dobrou em 25 anos. Providenciar habitação, comida, saúde e educação de qualidade para tanta gente é tarefa para grandes estadistas. Apesar de tudo, há uma generosidade na maior parte dessa população sofrida, que tem uma sabedoria que não se confunde com o noticiário da violência generalizada, sobretudo nas anticidades de São Paulo e Rio; trata-se de um tipo de resistência e, nesse sentido, pode ser que o Brasil venha a dar certo, embora a longuíssimo prazo. Mas… se houver desde já radicalização das forças vivas do país.

Ou seja, um novo novo sindicalismo, um acordar da imprensa que está praticamente amordaçada, uma revitalização da universidade e até das Forças Armadas. Pois a Questão Nacional está de volta à agenda do país: a nacionalidade está se afundando na cultura do marketing e na sociedade do espetáculo. Estamos andando de costas, na tradição curupira.

Penso que está chegando a hora de uma Assembléia Nacional Constituinte para valer, para tocarmos as reformas que estão paradas ou no meio do caminho, reformas de meia-confecção. Não de um Congresso Constituinte aguado, cheio de compromissos com tudo e com nada. Mas sim de uma Assembléia Constituinte de verdade, histórica. Socializante para valer, antes que percamos mais uma vez o bonde da História.

Carlos Guilherme Mota é historiador, professor da USP, da Universidade Mackenzie, e da Escola de Direito FGV-SP. É autor de História do Brasil, com Adriana Lopez (Ed. Senac), Ideologia da cultura brasileira (Ed. 34) e Idéia de revolução no Brasil e outras idéias (Ed. Globo)

Revista CULT

A persistência de Deus


A persistência de Deus

Deus é a personagem cuja morte mais foi proclamada na história da filosofia. O que explicaria, porém, sua persistência nessa mesma história?

Juvenal Savian Filho

“Nos últimos séculos, assistimos à ‘evaporação racionalista de Deus’. Mas era o Deus dos racionalistas. Soprai, e dissipai esse vapor. Isso não vai nos abalar. Nós respiraremos mais à vontade. O Deus verdadeiro, aquele que nós não cessamos de adorar, está alhures. Ele está em toda parte onde vós credes alcançá-lo; Ele está em toda parte onde vós não o alcançais.”
Henri de Lubac

Sabemos como a Modernidade, aos poucos, relegou Deus para o domínio do irracional, considerando a fé um ato exclusivo da vontade, sem nenhum motor ligado à inteligência. Mas é facilmente observável, nos últimos dez anos, da parte de muitos filósofos contemporâneos, uma verdadeira renovação da quaestio Dei (questão de Deus), e das questões conexas a ela, tais como a origem, a criação, a morte, o mal, as relações entre filosofia e fé/teologia, história e fé/teologia, arte e fé/teologia, ciência e fé/teologia etc. O que intriga não é uma “retomada” dessas questões (elas nunca desapareceram do horizonte filosófico), mas a renovação radical na forma como elas são postas atualmente. E duplamente intrigante é o fato de que essa renovação não vem de filósofos comprometidos ideologicamente com alguma instituição religiosa.

A França, nesse sentido, pode ser tomada como exemplo, pois, nela, efetivou-se, com intensidade ímpar, o confronto estéril entre o discurso racionalista que destronou Deus e erigiu um altar à ciência, de um lado, e o discurso religioso contrário à Modernidade, de outro. Todavia, há pelo menos dez ou quinze anos, a mesma França vê debruçar-se sobre a quaestio Dei personalidades das mais significativas para a reflexão filosófica contemporânea, tais como Jean-Yves Lacoste, Jean-Luc Marion, Jean-François Courtine, Marcel Gauchet, Régis Debray, Alain Badiou, Jean-Louis Chrétien, Bruno Latour, Jean-Luc Nancy, Guy Petitdemange, Gérard Baillache etc., para não mencionar os mais conhecidos, como Paul Ricoeur, Emmanuel Lévinas, Jacques Derrida, Michel de Certeau e Michel Henry. Na Alemanha, poder-se-iam evocar os pesquisadores reunidos em torno de Robert Spaemann; na América do Norte, de Charles Taylor; na Inglaterra, de Anthony Kenny, entre tantos outros. Tal elenco não é arbitrário, pois reproduz nomes de filósofos atuais que, de algum modo, consideram positivamente a quaestio Dei.

Qual Deus morreu?

Haveria, está claro, explicações sociológicas para essa renovação do interesse por Deus, as quais se fundamentam na clássica leitura das estruturas de poder desenvolvidas pelas religiões e dos valores morais por elas enraizados na vida social. Tal renovação seria, assim, apenas mais uma estratégia de dominação ou o resultado de uma tal estratégia. Porém, a caducidade desse tipo de explicação já foi demonstrada pela história.

O caso francês aqui também é representativo; afinal, se se sabe, por um lado, que a França racionalista nunca deixou de ser a menina dos olhos das religiões, também se sabe, por outro, que a França das Luzes, em 1793, cercada e agredida, viu seus jacobinos anticlericais queimar o ídolo do ateísmo e fazer procissão diante do Ser Supremo, “fantasma congregante”, nas palavras de Régis Debray. A pergunta que não se pode calar, então, é: poderia alguma crítica sociológico-política resistir eficazmente ao apelo religioso?

Mas talvez haja uma explicação mais propriamente antropológico-filosófica para essa renovação da quaestio Dei. Trata-se de observar, entre outras coisas, que a Modernidade, em seu intuito de romper com a filosofia aristotélico-escolástica, produziu uma imagem de Deus, especialmente do Deus cristão, que não corresponde ao Deus dos filósofos e teólogos da Antigüidade e da Idade Média.

Descartes, nesse sentido, apesar da forte religiosidade manifestada em alguns de seus textos, inicia uma abordagem na qual Deus vai, aos poucos, reduzindo-se a um mero conceito, importante para a construção de seu sistema filosófico, mas cada vez mais distanciado da experiência pessoal do indivíduo. A partir daí, abre-se um caminho para a separação entre o Deus da filosofia, peça importante de um quebra-cabeça conceitual, e o Deus da vida, reservado àqueles que têm fé. Os iluministas, de modo geral, combatendo o Deus da vida (produção clerical, no dizer de muitos), mantinham o Deus da filosofia, sem o qual não conseguiam falar, por exemplo, de ordenamento na natureza, origem do cosmo etc. Trata-se da postura tradicionalmente conhecida como deísmo.

Essa separação entre o Deus da filosofia e o da vida, embora lúcida e ardorosamente denunciada por Pascal, recebe de Espinosa um acabamento novo, pois o filósofo holandês explora as virtualidades da distinção cartesiana, dando-se conta de que era possível negar a transcendência de Deus sem que este deixasse de cumprir as funções metafísico-éticas do quebra-cabeça conceitual. Alguns historiadores chegam a dizer que Espinosa é o último acabamento, inultrapassável, do pensamento de estilo grego, sem divindade pessoal nem transcendência. Uma filosofia completa da Transcendência, porém, como é o caso da filosofia de Plotino, testemunharia do equívoco dessa opinião.

Todavia, comparada às formas de pensamento que consideram o Deus da vida, ou seja, que concebem a divindade como um ser pessoal, a filosofia da imanência de Espinosa é um ateísmo. Embora “embriagada de Deus” (Deus ou Natureza), essa filosofia rompe com todo tipo de concepção religiosa do divino. O deísmo, aliás, é muito próximo desse -ateísmo, pois restringe o papel de Deus a uma explicação filosófica, a uma mística sem mistério, facilmente substituível por outros conceitos. “É freqüentemente verdade: ‘um deista é um homem que não teve tempo de tornar-se ateu’” (Henri de Lubac, Sur les chemins de Dieu, Aubier, 1956).

Da perspectiva, portanto, da história da filosofia dos séculos 16 e 17, o Deus da vida já estava morto para muitos filósofos. Restavam, porém, elementos de um absoluto concei–tual, ao qual também se chamava “Deus”. No século 18, Kant, sem desejar comprometer-se com alguma forma de ateísmo (ele, que era pietista), mas também sem tomar o lado do Deus da vida, afastou da pesquisa filosófica o que sobrava do deísmo. Como se sabe, a filosofia kantiana construiu-se a partir do paradigma da mecânica newtoniana, considerando-o a única forma de conhecimento científico dos fenômenos. Estes, por sua vez, seriam a instância intransponível para a razão, impedindo o conhecimento do noúmenon ou a realidade inteligível em si. Assim, Deus e todos os temas metafísicos passavam a situar-se fora de qualquer pesquisa filosófico-científica, relegando o Deus da experiência espiritual ao âmbito exclusivo da fé, domínio da vontade, sem nada que ver com o entendimento.

Parece possível, hoje, perguntar se Kant era, de fato, um antimetafísico estrito (ele que, inclusive, necessitou do paralogismo da existência do céu e do inferno para fundamentar sua ética). Historicamente, porém, a partir dele, isolou-se a pesquisa filosófica do Deus da experiência espiritual. O resultado prático de um tal isolamento não é difícil de identificar: o Deus de Fichte e de Hegel, que se transforma facilmente no Homem de Feuerbach.

Deus e antropologia

É importante, porém, observar que, nessa trajetória filosófica, o Deus da vida foi desconsiderado não porque não pudesse, de fato, ser analisado filosoficamente, mas porque se produziu essa idéia, ou seja, a de que ele não podia ser objeto de pesquisa filosófica. O resultado foi a indiferença e mesmo o desprezo por toda uma região da experiência humana, que, entretanto, é incontornável e resiste à qualquer tentativa de negação: a sua dimensão transcendente; sua necessidade de realização pelo encontro pessoal com uma Realidade Transcendente a que se costuma chamar de Deus.

Revelando, assim, sua negligência voluntária por essa região da experiência humana (supra-racional, mas não irracional), o projeto filosófico moderno mostra que o alvo de sua crítica era o Deus da pesquisa filosófica, facilmente erradicável ou substituível por outro tipo de absoluto. “O Deus da ‘ontologia clássica’ está morto? É possível. Não me preocupo com isso; não me interessa defender as construções glaciais de um Wolff. Mas, se a ‘ontologia clássica’ desapareceu, é porque ela não era adequada ao ser. Menos ainda a sua idéia de Deus era adequada a Deus. O espírito, por sua vez, continua vivo, e, do mesmo modo, o Deus que se impõe a ele” (Henri de Lubac).

Deixado de lado o Deus da ontologia moderna, não se pode, entretanto, compreender filosoficamente a recusa deliberada em investigar a estrutura antropológica que permite ao homem a experiência do Transcendente. Talvez a absolutização da religião ou das hierarquias católicas e protestantes pós-tridentinas tenham horrorizado os filósofos?

Em todo caso, uma análise dessa estrutura antropológica certamente apontaria para uma dimensão transcendente do homem e do mundo, posto que a pergunta por essa dimensão já implica que ela exista. Como dissera Karl Rahner, se o homem pode interrogar-se sobre o ser, então o ser pode ser conhecido; do contrário, a pergunta sobre o ser seria impossível, quando, na realidade, conforme atesta a experiência humana, ela não somente não é impossível, como manifesta já alguma forma de conhecimento do ser, permitindo a este impor-se ao menos sob a forma da pergunta ou do desejo.

A recusa moderna de interessar-se pela dimensão transcendente da experiência humana acarretou, na prática, uma indiferença para com a quaestio Dei. Essa recusa e essa indiferença, por conseguinte, demonstram como a compreensão de Deus é imbricada com a compreensão da experiência humana. Em nossos dias, quando se observa o modo como as relações são pautadas apenas em termos político-práticos, com a correspondente concentração da filosofia nos temas políticos, ficam patentes os efeitos de uma visão parcial da experiência humana (com seu corolário da indiferença por Deus); a compreensão da vida empobrece-se, e, para muitos, não passa de uma incompletude dilacerante.

Ao contrário, a experiência da dimensão transcendente do humano leva, segundo o testemunho de muitas pessoas, à afirmação de uma Realidade Transcendente, fonte de sentido para o humano e o mundo. O desejo de encontrar essa Realidade inscrever-se-ia no coração de cada indivíduo, experiência que exige dos filósofos crentes, ciosos de unidade interior e autenticidade, o reconhecimento e a tematização de sua vivência pessoal, mística, sem restringir-se apenas ao Deus da “ontologia clássica”.

Nesse sentido, muitos filósofos contemporâneos não têm cedido à facilidade do desinteresse pela quaestio Dei. Ao contrário, têm visto como a reflexão sobre Deus pode ser ocasião para esclarecimento filosófico de questões metafísicas, ético-políticas, epistemológicas, hermenêuticas, estéticas etc. Não fazem nenhuma criptoteologia, mas alimentam-se da tradição religiosa para renovar questões filosóficas; procuram encontrar aberturas para melhor compreender a experiência humana. Nesse espírito, vê-se como falar de Deus é falar do homem. E falar do homem implica falar de Deus.

Deísmo = Teísmo?

Não! Os dois termos não são sinônimos!

Deísmo vem do latim deus e representa a postura de filósofos que rejeitam a existência de Deus, tal como apresentado pelas religiões monoteístas, mas admitem a existência de um Ser supremo, de caráter indeterminado. Pode-se falar também de religião natural. Voltaire é certamente o melhor exemplo de deísta.

Teísmo, por sua vez, vem do grego théos e representa aquelas maneiras de pensar, inclusive filosóficas, que afirmam a existência de um Deus pessoal. Em outros termos, para essas maneiras de pensar, Deus é um Ser que, apesar de diferente da pessoa humana, conhece perfeitamente a vida dos humanos, por ter sido seu criador e por dialogar com eles. Essa concepção funda-se na noção de pessoa, que foi especialmente desenvolvida por filósofos gregos convertidos ao cristianismo.

Juvenal Savian Filho é professor do Departamento de Filosofia da Unifesp

Revista CULT

As fontes literárias e arqueológicas para o estudo da mitologia grega


As fontes literárias e arqueológicas para o estudo da mitologia grega

Os gregos antigos não deixaram gravações de cânticos, poemas ou fábulas, mesmo assim muita coisa chegou até nós

Como podemos conhecer a mitologia grega? A resposta pode parecer óbvia: por meio de suas histórias, não é mesmo? Bem, mas essas histórias chegaram até nós por diversos meios. Para que se possa estudar o passado, sempre temos de recorrer às fontes, aos documentos. Os gregos antigos não nos deixaram gravações dos seus cânticos, poemas ou de suas fábulas, que se ouviam no dia-a-dia das cidades gregas antigas: claro, não havia gravadores de voz. Tanto tempo depois, o que chegou até nós?

Em primeiro lugar, temos a tradição textual, todas as reproduções copiadas, durante séculos, dos escritos antigos, em duas línguas: grego e latim. A maioria das histórias mitológicas aparece em poemas antigos, como na Ilíada e na Odisséia, de Homero, e nos chamados Hinos homéricos, mas temos também uma poesia como a Teogonia de Hesíodo, que viveu por volta de 700 a.C. Outros grandes mananciais são as obras teatrais, as tragédias que retratam muitos personagens históricos e míticos, como o famoso caso de Édipo, de Sófocles (431 a.C.). A prosa, igualmente, apresenta muitas referências mitológicas, mesmo em obras sarcásticas como o Diálogo dos deuses de Luciano, do século 2 d.C. Por outro lado, como os gregos foram educados em sua mitologia através da transmissão oral, apenas relativamente tarde encontramos um acervo de mitologia grega. O primeiro acervo sobrevivente, e o melhor, data do século 1 ou 2 d.C. A autoria é geralmente atribuída ao grande gramático Apolodoro de Atenas e o livro intitulado A biblioteca, para indicar sua abrangência. Apolodoro é de grande importância para nós, e como a mais útil fonte isolada de mitologia grega, é sempre citada em todos os trabalhos que versam sobre o tema. Na verdade, ele não relata todos os mitos gregos, nem inclui todos os detalhes, mas fornece uma narrativa da maioria dos mitos que passaram a ter importância para além dos limites da cidade-estado local. É, sobretudo, sua interpretação do que ele julga ter importância que moldou nossa noção atual e relativamente estável do que entendemos por “mitologia grega”. Há ainda referências importantes em autores latinos, como nas Metamorfoses, de Ovídio (43 a.C. – 18 d.C.).

A Arqueologia tem produzido uma quantidade imensa de testemunhos sobre a religião e a mitologia grega antiga, a começar pelas inscrições em santuários e em outros lugares de culto, que nos permitem ter uma noção da devoção na religião olímpica em seu cotidiano. Os restos dos templos gregos mostram-nos a onipresença da mitologia entre os gregos. O templo de Apolo em Delfos, em uma paisagem montanhosa fabulosa, ainda hoje impressiona o visitante. O omphalós, ou umbigo, de mármore decorado, cópia romana do original grego, encontra-se no Museu de Delfos, e nos dá uma sensação muito direta do “umbigo do mundo”. Há, ainda, belíssimas representações na estatuária antiga, assim como nas moedas, nos vasos gregos pintados e até mesmo nas paredes romanas que reproduziam quadros mitológicos gregos. Um simples sarcófago podia mostrar imagens vívidas, como no caso de Neoptólemo, filho de Aquiles, que apedreja Plixena, filha do rei de Tróia. Personagens mitológicos como os centauros ganham vida nos relevos e pinturas antigas reveladas pela Arqueologia.

As fontes arqueológicas fornecem muitas informações independentes das obras literárias. O famoso cavalo de Tróia, usado para esconder os guerreiros gregos como um falso presente para os troianos, não aparece na Ilíada, apenas na Odisséia é mencionado, mas aparece em muitas representações antigas, como em vasos arcaicos de cerâmica. O namoro de Marte (Ares) e Vênus (Afrodite), retratado em uma parede da cidade romana de Pompéia, reproduz um quadro grego que mostra bem o caráter antropomorfo dos deuses gregos, assim como a morte de Penteu é retratada com emoção, ou como o saque de Tróia aparece algo real (para os antigos, o mito era uma história verdadeira). Hermes, o deus de tantas facetas masculinas, é às vezes apresentado como um jovenzinho.

As fontes, literárias ou arqueológicas, não falam por si só, nem são tão claras quanto podem parecer. Por isso, para que possamos estudá-las é necessário lermos também obras que interpretem a mitologia antiga e estabeleçam certos princípios de interpretação. Convém, portanto, ler aqueles estudiosos da nossa época que procuraram entender como a mitologia grega funcionava e fazia sentido. Talvez o autor mais relevante, para isso, seja o helenista francês Jean-Pierre Vernant, autor de inúmeras obras sobre a mitologia grega. Para um contato inicial, o mais saboroso, até para se ler com crianças, é o seu O universo, os deuses e os homens. Todos os seus livros para adultos são grandes guias. Em uma palavra, pode-se dizer que Vernant interpreta toda a mitologia como uma oposição binária entre princípios, como masculino e feminino, bosque e lar, rua e casa. Várias de suas obras estão traduzidas para o português.

Tendo uma leitura metodológica como essa, a leitura direta das fontes constitui o passo seguinte. O que indicar, já que há tanta coisa publicada? Essa será sempre uma escolha muito pessoal, a depender do gosto e dos interesses de cada um. A Ilíada, de Homero, na tradução espetacular de Haroldo de Campos, seria uma leitura tanto prazerosa como instrutiva, uma introdução geral. Em seguida, na mesma linha de uma versão direta do original grego e com imensa fidelidade, seria recomendável um clássico como As bacantes, de Eurípides, vertida por Trajano Vieira. Em ambos os casos, as traduções dão bem o gosto, no leitor, da especificidade do original antigo, das nuances dos personagens, dos inúmeros e importantíssimos trocadilhos e jogos de palavras.

As fontes arqueológicas podem ser bem acessadas em uma obra como Grécia, de Peter Levi, mas talvez o mais sensível seja assistir a vídeos de produtoras com assessorias científicas, como a BBC, History Channel, Discovery e National Geographic, alguns deles também disponíveis em CDs à venda na internet. Uma visita às coleções de peças clássicas no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (www.mae.usp.br) e do Museu Nacional do Rio de Janeiro (www.mnrj.ufrj.br) seria também de grande proveito.

Pedro Paulo A. Funari
é professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Coordenador-Associado do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE-Unicamp), autor de Grécia e Roma (São Paulo, Editora Contexto), entre outros livros

Bibliografia sugerida:

CAMPOS, Haroldo. Ilíada de Homero. São Paulo: Mandarim, 2002.
VIEIRA,Trajano. As bacantes. São Paulo: Perspectiva, 2003.
LEVI, Peter. Grécia, 2 volumes. Madrid: Del Prado, 1996 (em português).
VERNANT, Jean Pierre. O universo, os deuses e os homens. São Paulo: Cia das Letras, 2002.
—–. Mito e pensamento entre os gregos. 2a. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
MENELAOS, Stephanídes. Coleção Mitologia helênica (8 volumes), 2ª. ed. São Paulo: Odysseus Editora, 2005.

Revista CULT

Meteorologia popular


Meteorologia popular

Alceu Maynard Araújo

1. Para chover é só colocar Santo Antônio de cabeça para baixo, no sol quente

2. Pisando em formigueiro, é chuva na certa

3. Vento sul traz chuva

4. Grito curto de rã é chuva na certa

5. Lua com circo (círculo), água traz no bico

6. Bugio ronca na serra, chuva na terra

7. Fazer uma cruz de cinza no quintal. É bom recolher-se logo, pois virá chuva mesmo.

8. Matar sapo e colocá-lo de barriga para cima, chama chuva.

9. Para parar de chover é bom colocar um ovo para Santa Clara

10. Pondo-se um São José na chuva, ela parará logo

11. Queimar palma benta é bom para fazer passar a tempestade, chuva de trovoada

12. Quando começa a chover na minguante, vai até o mês entrante

13. Pêlo de animal molhado chama raio

14. Espelho atrai raio; quando começa a chover, cobri-lo

15. Em mês de trovão e raio não presta para galinha chocar. Os raios goram os ovos.

16. Pescador não deve olhar à meia-noite para água do rio, pois arrisca-se a tomar uma chuva de pedra e morrer.

17. Para evitar raio, não ter objetos de metal principalmente de aço.

18. Mosquito voando muito é chuva que vem

19. Cantar desafinado traz chuva

20. Jogando-se farinha com açúcar em cima de um formigueiro, a chuva passará.


(Araújo, Alceu Maynard. "Meteorologia popular". Jornal do Folclore. São Paulo, ano 1, nº 2, fevereiro de 1960)
http://www.jangadabrasil.com.br/temas/outubro2007/te10510c.asp

Jangada Brasil

Medicina prodigiosa, interessante e popular


Medicina prodigiosa, interessante e popular

Assis Silva

Está cientificamente provado que a flora brasileira é riquíssima e varia pelas suas propriedades medicinais.

As virtudes terapêuticas das nossas plantas constituem, naturalmente, meio de cura certo para a maioria dos males que afligem a gente simples dos sertões.

Ninguém desconhece o valor que esses vegetais representam pelas suas essências aromáticas e utilíssimas, para a botica ou farmácia, na manipulação ou fabrico de diversos medicamentos. Uns, pelas suas raízes, outros, pela folhas, flores e frutos, são valiosos e insubstituíveis. Os remédios baseados no emprego das plantas medicinais hão conseguido verdadeiros milagres para muitos doentes.

Quem não conhece, ainda, pelas feiras do interior nordestino, o raizeiro, vendedor de saúde, médico ambulante, a oferecer a todos, os produtos de sua especialidade? Pega-pinto, jalapa, ipeca, sementes, cascas, urucu, pós de plantas, sendo, ao mesmo tempo, curandeiro e negociante?

A esse tipo popular, chamem-no Mané da Raiz, Chico da Raiz, Pedro, Tião, Joaquim da Raiz, quando o modesto negócio não lhe corre favorável, costuma o raizeiro, adicionar ao seu pequeno comércio, outros objetos de venda, como sejam: colher de pau, figas, rapé, corrimboque, rosário de catolé, etc. Nessas feiras, é muito comum observar o freguês aproximar-se do bazar do charlatão e deste solicitar: Bote ai um mercado de cabeça de negro...

Assim, usam inúmeras meizinhas, além de se utilizarem das plantas para outras aplicações. Por exemplo:

Raspa de juá: Lavar a cabeça, em virtude de seu alto teor de saponina. Elimina a caspa tonifica o bulbo capilar aumentando o crescimento do cabelo.

Quina do mato: anti-febril.

Seiva de jatobá: tônico, expectorante e estomacal.

Rescaldo de cinzas: decocto de olho de tamarindo, para bolso inflamado, dor de dentes.

Cataplasmos de farinha: para tumores.

Macela: para desarranjos gastrontestinais.

Angico: para catarro no peito.

Jurubeba: Males hepáticos e renais.

Eucalipto (chá de folhas): febre e gripe.

Sabugueiro: anti-febril.

Quebra-pedra: depurativo.

Casca de romã: doenças da garganta em gargarejos.

Raiz de vassourinha: refresco.

Chá de folha de laranjeira: calmante.

Borra de café: serve para estancar hemorragias. Não o recomendamos por anti-higiênico.

Leite de mamão: para impinges.

Para citar outras meizinhas, lembramos ainda, a carrapateira, o capim-santo, cidreira, cebola, alho, pimenta, chá de folhas de mamão, folhas de fumo (para emplastros), etc.

Agrião: digestivo, estimulante e anti-escroiuloso.

Alface: contra a insônia.

Limão: febrífugo. Café com limão corta os resfriados. Ele tem vários empregos.

Aproveito o ensejo para transcrever neste modesto trabalho, interessante notícia, a propósito das miraculosas virtudes terapêuticas do limão, publicada em O Comércio de Mossoró, de 07 de agosto de 1904, sob o título Só sofre de reumatismo quem quiser! - Diversas. "Em uma correspondência do Porto (Portugal), lemos que os limões curam radicalmente o reumatismo e a gota, e até muitas doenças do estômago, intestinos e fígado. O tratamento é simples e cômodo. Começa-se por beber o sumo de um limão; no segundo dia toma-se o sumo de dois limões, e assim sucessivamente, até 25 limões, no vigésimo quinto dia de tratamento. Depois, vai-se diminuindo a dose de um limão por dia. O tratamento não exige dietas nem cuidados e os limões bebem-se pelo dia adiante, sem horas, nem espaços marcados."

A conclusão que se pode tirar dessa verdadeira limonada é a seguinte: ou o individuo ficaria completamente "azedo" ou se tornaria um "eunuco", segundo alguém, pelo abuso do suco do limão. Tratamento que só dá certo para quem pode dispor de um limoeiro carregado.

Mastruço: Para contusões interna e externa, fraqueza pulmonar.

Vejamos agora a importância do cajueiro (anacardium occidentale), segundo a Revista da Flora Medicinal (nº 1-6, Rio de Janeiro, janeiro-junho de 1941).

Resina: goma de cajueiro, é empregada como expectorante, depurativa e hemostática.

Raízes: Nas Antilhas são utilizadas, principalmente como purgativas, em clisteres.

Cascas: São usadas sob a forma de gargarejo e bochechos contra o escorbuto, feridas da boca, anginas e certas afecções da garganta.

Folhas: o decocto das folhas novas, mesmo em doses mínimas passa por ser um embriagante.

Flores: sob a forma de infusão são usadas como adstringente e tônico, devido ao tanino que encerram; excitante e afrodisíaco devido à sua base anacárdica.

Cardol: o óleo fixo, cardol, fornecido pela matéria esponjosa e celular da castanha, é aplicado externamente como cáustico e vesicante contra a lepra, lupus, acne, verrugas, eczemas e outras moléstias cutâneas, podendo produzir, entretanto erisipelas mui perigosas e de difícil tratamento e cura.

Castanha - A sua amêndoa é nutritiva, dotada de propriedades afrodisíacas, atribuindo-lhes, alguns, a propriedade de exaltar as faculdades intelectuais e desenvolver a memória, sendo empregada como tônico excitante e útil no tratamento da impotência e da debilidade.

Planta nativa da América, existem em abundância por estas terras.

Formas farmacêuticas

Limonadas: do pedúnculo ou hipocarpo, chamadas "cajuadas". Infusos de flores, cascas e raízes.

Decoctos: de cascas e folhas novas.

Xaropes: de suco.

Vinhos: de suco, com variegadas composições.

Vinagre: de suco fermentado.

Poções: com gumoresina de caju.

Gargarejos: de cascas.

Banhos: de cascas.

Clisteres: de raízes.

Tinturas: de castanha de caju ao quinto e de cardol ao meio e ao décimo.

Aguardente: de suco fermentado, chamada cajuína.

Extratos fluídos: de cascas.

As verduras e as frutas são ricas em vitaminas. A couve tem muito enxofre e beneficia os pulmões. A cebola é diurético. O alho é diurético e faz baixar a tensão arterial. O limão alcaliniza as urinas. O mamão faz bem ao estômago e aos intestinos. A laranja corrige a prisão de ventre, faz bem a quem tiver vertigens, dor de cabeça, insônia, nevralgia.

Mais xaropadas:

Erva-cidreira: aroma agradável, estimula os rins, elimina os catarros dos brônquios e da garganta, o resfriado.

Quebra-pedra ou erva pombinha, poderoso diurético.

Imburana: excitante, aromático e peitoral.

Ipecacuanha: vomitiva. Para disenteria e bronquite aguda.

Melão de São Caetano: nas febres palustres, nas cólicas do ventre e na influenza.

Velame: anti-sifilítico.

Cabacinha: Nas doenças infecciosas, inflamatórias, sinusites, e até, dizem, na apendicite (chamada doença de rico).

Sal amargo: É o purgativo mais generalizado. A sua eficácia é balutal. O óleo de rícino também é muito usado como purgante.

Para erupções na pele recomendam banhos de cozimento de folhas de veleme, mussambê, mufumbo, malvariso, etc., além de uma garrafada, para limpar o sangue. Para dor de dentes, prescrevem-se, ainda, reza forte, dente de cravo e sarro de cachimbo.

Para "puxado", fazem um chá em segredo. A vítima não tem o direito de saber qual a beberagem que toma, sob pena do remédio não dar bom resultado. Há poucos dias ouvi de um asmático que lhe aconselharam tomar uma "droga" infalível na cura do terrível mal. Revoltou-se porém, com o "amigo da onça", ao descobrir que havia tomado chá de areia do cemitério. Apesar do chá de pó de defuntos, não ficou bom. Uma velhinha, não sei para que, procurou de certo padre uma meia suja para nela coar um chá. O sacerdote mandou às favas a supersticiosa velhota.

Rezas, feitas com fé, curam: engasgo, mau-olhado, ramo, inchações, trilhadura de nervos (vapor de panela com água a ferver também serve para trilhaduras), espinhela caída, etc.

Teia de aranha, para estancar o sangue. É perigoso pelo pó que encerra. Pode dar tétano.

Terçol (pequeno tumor no bordo das pálpebras), para evitá-lo, primeiramente, esfrega-se o indicador na palma da mão até esquentá-lo, Depois, toca-se com a ponta do mesmo dedo o terçol, por três vezes, ao sol nato. Diz a tradição oral que ele aparece, geralmente na vista da pessoa que negou algo a uma mulher em estado interessante. Querendo livrar-se do incômodo, dizem, ainda, bota-se o terçol para uma viúva.

Impingem: o remédio é saliva recitando: "Jesus, Maria e José, cuspo de manhã em jejum, meizinha é".

Para mordida de raposa doida, banhos de água salgada.

Para picada de cobra venenosa onde há o "curador", este cospe dentro da boca da vítima, pois, a sua saliva tem a propriedade de destruir a ação do veneno. É seboso mas pode salvar uma vida. Nos sertões existe quem cure bicheira de animais na porteira do curral e quem os castre pelo rastro.

Crupe: À falta do médico, o sertanejo lança mão de extravagante processo para debelar o espantoso mal. Quando a vítima está no auge da sufocação, arranjam um sapo, atam-lhes os pés, e esfregam o couro da barriga do asqueroso batráquio, de encontro ao pescoço do doente, à altura da garganta (como fizeram com certa criança acometida de garrotilho).

A reação é imediata. Vem forte acesso de tosse. A pessoa, num esforço supremo, expele, bruscamente, a gosma endurecida que obstrui a garganta, com grande sensação de alívio. A criatura fica boa, porém, o cururu, solto no pátio, com a barriga avermelhada, esmorece e trata de morrer.

Rapé inalado pelo nariz "afrouxa" o catarro da cabeça, provocando o espirro, alivia a dor de cabeça.

Para não me tornar apático aos modernos esculápios, rendo, minha homenagem de admiração e de reconhecimento, também, à penicilina, às sulfas, à estreptomicina e à aureomicina que, ultimamente, vêm revolucionando o mundo médico norte americano.

(Silva, Assis. "Medicina prodigiosa, interessante e popular". O Bando. Natal, 10/11 de fevereiro de 1950)
http://www.jangadabrasil.com.br/revista/outubro129/pn12910.asp

Jangada Brasil

quinta-feira, 8 de julho de 2010

MUITOS AFRICANOS AINDA SONHAM COM A CIDADE COLONIAL

Jean-Pierre Elong-Mbassi
22/01/2010

Geógrafo e urbanista, nascido na República dos Camarões. Secretário Geral da CGLUA – Cités et Gouvernements Locaux Unis d'Afrique – e Consultor Especial da UVA – Union des Villes Africaines. Ex-Secretário Executivo da PDM – Partenariat pour le Développement Municipal –, agência africana de assistência técnica e institucional a governos locais, fundada pelo Banco Mundial e com sede em Cotonou, Benin. Ex-Secretário Geral da CAMVAL – Coordination des Associations de Villes et Autorités Locales –, sediada em Genebra.

Publicado originalmente em Le Monde, edição de 21 de setembro de 2009, sob o título "Trop d'africains ont comme ideal la ville coloniale". Acessível em www.lemonde.fr e reproduzido online em www.habitants.org/news/local_autorithies.

Tradução: Letícia Ligneul Cotrim

Revisão técnica: Mauro Almada

* * *

O processo de urbanização mais violento do mundo se desenrola, hoje, na África. Sob os efeitos do êxodo rural, e de uma taxa de natalidade muito elevada, suas cidades saltarão de 350 milhões de habitantes em 2005, para 1,2 bilhões em 2050: uma explosão urbana que se propaga sem planejamento, sem recursos e sem regras. Apenas na África Subsaariana, 165 milhões de cidadãos já vivem em favelas.

África: entre a vida tribal e a cidade informal.
Crédito: webcarta.net.

Alinhar ao centro
Como explicar que o desenvolvimento urbano na África se realize de modo tão anárquico ?

O fato é que ninguém sabe como gerir cidades que dobram sua população a cada dez anos. Sobretudo, quando tal desafio foi agravado por um pensamento antiurbano, segundo o qual as pessoas deveriam retornar a seu torrão natal, isto é, à vida rural [a leurs campagnes d'origine]. E esta corrente de pensamento foi encorajada, na África, pelo Banco Mundial – mas também pela França –, com duas consequências:

De um lado, não nos demos conta da dimensão [on n'a pas pris la mesure] desse crescimento das cidades, que os Estados nacionais tendem hoje a minorar, entre outras razões, para agradar seus financiadores [bailleurs de fonds] que insistem em dizer-lhes que os africanos não podem assumir e sustentar [assumer de] tais metrópoles.

Em seguida, impusemos limites [frontières] muito estritos às cidades, na esperança vã de impedir seu crescimento, ainda que daí resultassem [et donc créé de] ilegalidades e assentamentos informais. Ressalte-se que, na África, menos de um quinto da população urbana vive na cidade 'formal [officielle]' !

Kibera, em Nairobi, Quênia, é a maior favela da África, com cerca de um milhão de pessoas.
Crédito:
http://formaementis.wordpress.com.

Alinhar ao centro
Será que essas cidades dispõem de competências e recursos para administrar [gérer] seu próprio desenvolvimento ?

Nelas, as comunidades [collectivités] locais se constituiriam [se sont mises em place] nos anos 90, em plena crise econômica e política, num momento em que os Estados nacionais ainda não haviam cumprido as promessas de modernidade oriundas do processo de descolonização, senão em uma ou duas cidades apenas. Os políticos eleitos a nível local foram então desafiados a encontrar soluções, mas sem dispor dos meios para o fornecimento de [les moyens de mettre de] luz, água corrente, e estradas asfaltadas para todos.

Não existe descentralização efetiva no continente africano. Tanto os administradores eleitos quanto o pessoal local carecem de capacitação [formation]. E ainda há um problema de repartição dos recursos públicos, sobretudo os fiscais, já que os governos nacionais capturam a maior parte dessas verbas. Na Europa, 40% da despesa pública são controlados pelas municipalidades [collectivités]; na África, apenas 5%. E isto estimula as relações clientelistas com os Chefes de Estado.

Alguns observadores temem [craignent] que a descentralização multiplique a corrupção...

Ao contrário, a experiência prova que o controle da corrupção é bem mais fácil no nível local do que no plano nacional. A descentralização, sobretudo, permite aos cidadãos ter opiniões próprias [leur mot à dire] sobre os assuntos locais, o que lhes motiva, inclusive, a pagar os impostos. Afinal, por que razão os africanos pagariam hoje esses tributos, se quando uma escola é construída lhes informam tratar-se de um 'presente' [cadeau] do Presidente...

Favela em Angola.
Crédito: macharla in
http://picasaweb.google.com.

E por que as cidades africanas não conseguem captar seus próprios recursos ?

O principal desafio, para elas, é conseguir criar um mercado fundiário, produtor de mais-valia, de onde se possa extrair renda fundiária, a única capaz de [seuls à même] financiar o desenvolvimento urbano. Apenas 5% do território das cidades são medianamente bem servidos de infraestrutura urbana. E para melhorar tais serviços e acompanhar o ritmo do crescimento urbano, seria necessário investir 10.000 francos CFA¹/ano por habitante, não mais que míseros € 15. O problema é que estes 15 euros não existem.

O único país do continente onde as cidades se autofinanciam é o Marrocos. Em todas as demais nações, as municipalidades não possuem qualquer autoridade sobre o uso do solo nem dele auferem qualquer rendimento. Ou o Estado nacional mantém todo o controle ou, como ocorre com frequência, são os próprios governantes que detêm o poder [ont la maîtrise] sobre as terras, impedindo a criação de um mercado fundiário e precipitando a formação de assentamentos informais.

Agadir, no Marrocos.
Crédito:
http://www.morocco-trekking.com/morocco.htm.

Será que ainda poderemos ver emergir um modelo de cidade africana que não seja um assentamento informal [bidonville] ?

A grande questão é saber que tipo de cidade desejam [veulent] os africanos, conscientizando-se previamente que são eles mesmos que deverão custeá-la. E com que qualidade de serviços urbanos, em que prazos, e com que formas de financiamento ? Geralmente, só começamos a pensar de maneira realista quando nos damos conta que somos nós mesmos que devemos pagar a conta. Infelizmente, na África, este importante debate democrático nunca encontrou espaço e os cidadãos ainda não estão preparados para as verdades deste discurso. É mais fácil, para os políticos, prometer a todos um pedaço de Paris. Por isso, muitos africanos ainda têm como ideal a cidade colonial, a cidade herdada.

Favela em Cotonou, Benin.
Crédito:
http://fellowsblog.kiva.org.

NOTAS ADICIONAIS SOBRE O PROCESSO DE URBANIZAÇÃO NA ÁFRICA
1. Crescimento: Em 2050, metade dos africanos viverá em cidades, contra 38% hoje. Uma única cidade africana, o Cairo, ultrapassou os 10 milhões de habitantes em 2007. Em 2025, Kinshasa e Lagos se reunirão ao clube das megalópoles com, respectivamente, 17 e 16 milhões de habitantes.

2. Favelas: 62% dos cidadãos da África Subsaariana vivem em favelas, contra 15% na África do Norte e 36%, em média, nos países em desenvolvimento. A população urbana que vive em barracos [taudis], na Etiópia e no Chade, ultrapassa os 99%. A favela de Kibera, em Nairobi, abriga 1 milhão de habitantes.

3. Clima: As cidades africanas estão entre as mais expostas ao aquecimento global. Em Alexandria, uma elevação de 50 cm no nível do mar desalojará mais de 2 milhões de pessoas. Em Lagos, 10 milhões de habitantes vivem a menos de 2 m acima do nível do mar; e em Abdijan, os centros de atividade econômica estão menos de 1 m acima d'água.

Revista Vivercidades

Em busca do Eldorado africano

No século XIX, os relatos sobre Timbuktu, cidade repleta de riquezas às portas do deserto do Saara, fascinaram os europeus. A procura pela vila perdida abriu caminho para a conquista do interior do continente
por Françoise Labalette

Biblioteca Nacional da França, Paris / (C) The Art Archive / Other Images

A cidade retratada no caderno de viagem de Caillié

No início do século XIX, o interior da África ainda era um universo desconhecido para os europeus. Instalados havia séculos no litoral, eles não tinham se aventurado por aquelas terras, e as informações que tinham daquela parte do continente se resumiam aos relatos dos gregos antigos e dos viajantes árabes que exploraram a região a partir da Idade Média.

Entre esses relatos destacava-se a Descrição da África, obra de um viajante muçulmano chamado Hasan al-Wazzan (1488-1548). Nascido na Espanha e radicado no Marrocos, ele ficou conhecido como Leão, o Africano. Em seu texto, Hasan descreve a visita que fez a Timbuktu, principal entreposto das caravanas comerciais que cruzavam o deserto do Saara no século XVI. O relato, que fala de uma cidade maravilhosa, próspera, misteriosa e atraente, fascinou os europeus.

A única pista para esse eldorado africano era o curso do rio Níger, mas o seu traçado ainda era um enigma para os europeus nas primeiras décadas do século XIX. Não é à toa que a busca pelas fontes do Níger mobilizava exploradores desde 1795, quando a sociedade científica inglesa African Association financiou uma expedição liderada pelo médico escocês Mungo Park.


Reprodução

O francês René Caillié, que encontrou em 1828 a cidade lendária

Partindo da Gâmbia, em julho de 1796, Park chegou ao Níger na altura da cidade de Ségou, no atual Mali, constatou que o rio corria para o leste. Em uma segunda expedição, organizada em 1805, ele percebeu que o curso do rio, depois de se dirigir ao norte, fazia uma curva e rumava para o golfo da Guiné. Mungo Park e seus companheiros, porém, morreram naquele mesmo ano nas corredeiras de Boussa, na atual Nigéria. O mistério da foz do Níger só seria desvendado em 1830, quando os irmãos Richard e John Lander finalmente chegaram ao delta do rio.

Enquanto isso, os franceses preparavam sua própria expedição pela região. No dia 3 de dezembro de 1824, a Sociedade de Geografia do país lançou o “Estímulo a uma viagem a Timbuktu e ao interior da África”, oferecendo um prêmio ao primeiro viajante que chegasse à cidade do deserto. A convocação atraiu a atenção de um jovem chamado René Caillié, então com 25 anos. Fascinado pelas aventuras de Robinson Crusoé, Caillié já havia viajado duas vezes para a África e vivido por oito meses entre os mouros braknas no norte do Senegal, onde aprendera árabe e entrara em contato com os costumes muçulmanos.

Munido dessa bagagem cultural, René Caillié aceitou o desafio de partir em busca de Timbuktu. Começou sua viagem pelo norte da atual República da Guiné, onde desembarcou em março de 1827. Em 19 de abril, iniciou a marcha rumo ao interior acompanhando o curso do rio Nunez a partir da vila de Kakondy, próxima à cidade de Boké. Levava trezentos francos em ouro e prata, remédios, pólvora, papel, fumo, vidrilhos, âmbar, coral, lenços de seda, tesouras, facas, espelhos, cravo-da-índia, três peças de tecido de algodão azul e um guarda-chuva para se proteger do sol. E ia acompanhado de um pequeno grupo de africanos da etnia dos mandingos.


Biblioteca Nacional da França, Paris

Além da paisagem, o viajante retratou a população local, como essa mulher e seu filho em Timbuktu

Não levava consigo nenhum instrumento de astronomia nem relógio, apenas duas bússolas. Apresentava-se como muçulmano para não arriscar ser expulso ou mesmo assassinado como europeu infiel. Vestia o coussabe, uma blusa sem mangas de pano azul, e sandálias. Adotou o nome de Abdala, “escravo de deus”, e se fazia passar por pobre para não despertar a cobiça dos locais.

Embrenhou-se na floresta tropical de Fouta-Djalon, ainda na atual Guiné. Em terras mandingas, conheceu a fome, contraiu febres, e machucou seriamente os pés. Ao chegar a Tiemé, no extremo norte da atual Costa do Marfim, foi obrigado a parar, pois adoeceu de escorbuto. Durante cinco meses, de agosto de 1827 a janeiro de 1828, uma “boa negra velha”, segundo suas palavras, tratou dele, o que lhe possibilitou seguir viagem. Em março, chegou a Djenné, grande cidade localizada no atual Mali, com um florescente comércio. A partir de então, continuou seu périplo pelo rio Níger.

Finalmente, no dia 20 de abril de 1828, entrou em Timbuktu. Ao avistar a cidade, ficou simultaneamente feliz e decepcionado. Estava contente por ter atingido seu objetivo, mas terrivelmente frustrado por se ver diante de um local muito menos fastuoso, populoso e próspero do que aquele descrito pelos viajantes medievais. De lá saiu em 4 de maio de 1828, ansioso em anunciar na França que chegara à misteriosa cidade. Seu retorno pelo Saara foi uma provação terrível. Caillié se uniu a uma caravana formada por 600 dromedários e caminhou por 1.200 quilômetros ao longo do deserto.


Biblioteca Naiconal da França, Paris

No caderno de Caillié, a mesquita da cidade é representada com um detalhado plano de sua localização.

No dia 9 de maio, chegou ao lugar onde morrera o major inglês Gordon Laing, primeiro europeu a entrar em Timbuktu, em 1826. A “longa marcha” de René Caillié terminou em Tanger em agosto de 1828. No dia 27 de setembro, finalmente embarcou para a França. “O vencedor de Timbuktu”, o primeiro homem a abrir caminho pelo Saara, desembarcou em Toulon em 8 de outubro de 1828 e foi internado em quarentena no lazareto de Saint-Mandrier. Lá escreveu duas cartas a membros da Sociedade de Geografia, uma a Edmé François Jomard e outra a Georges Cuvier.

O explorador teve de dar provas de suas descobertas e responder às perguntas dos membros da Sociedade. Convencidos, estes decidiram, no dia 27 de novembro, que ele merecia o prêmio pelo descobrimento mais importante do ano em geografia. No dia 5 de dezembro de 1830, diante de toda a Paris erudita, o ministro da Marinha da França entregou a René Caillié o prêmio de cerca de 9 mil francos e a Legião de Honra.

Apesar da glória, o resto da vida do explorador não foi fácil. A deposição de Carlos X e a ascensão de Luís Felipe ao trono da França, em 1830, mudaram a situação política do país, e Caillié precisou lutar para obter a prometida pensão anual de 7 mil francos. Atormentado pela doença e pelo desânimo, deixou Paris e voltou para sua terra natal, onde foi prefeito de um pequeno município. O desejo de retornar à África, no entanto, o dominava. Ele tentou conseguir patrocínio para uma nova expedição, mas não teve sucesso. Debilitado, morreu no dia 17 de maio de 1838, após cinco dias de febre e agonia.


(C)Oversnap / Istockphoto

A grande mesquita de Djenné, cidade que impressionou o explorador francês pela prosperidade de seu comércio

René Caillié entrou para a história por duas proezas: foi o primeiro europeu a chegar a Timbuktu e voltar vivo para casa, e o primeiro a atravessar o deserto do Saara. Para o antropólogo francês Marcel Griaule, ele foi um exemplo de explorador pacífico. No entanto, contra sua vontade, os detalhes oferecidos por Caillié contribuíram para a conquista militar do oeste da África.

Ao se instalarem na Argélia, em 1830, os franceses começaram a organizar expedições pelo Saara a partir do extremo sul da nova colônia. A partir de 1854, essa expansão passou a ser acompanhada por operações armadas lideradas pelo general Louis Faidherbe, incumbido de estabelecer o domínio francês na região do Níger. Os territórios conquistados foram agrupados, em 1904, em uma grande colônia batizada de África Ocidental Francesa, que incluía os atuais Senegal, Mauritânia, Mali, Guiné, Costa do Marfim, Burkina Fasso, Benin e Níger.

Em 1893, a bandeira francesa tremulava em Timbuktu, mas a cidade já não era nem sombra do que fora no passado. Reduzida a mera guarnição, caiu no esquecimento, assim como o nome de René Caillié. Ele que suportou tanto sofrimento para provar a magia de Timbuktu foi, paradoxalmente, o primeiro a desfazer sua mitologia.

O CADERNO DE VIAGEM DE RENÉ CAILLIÉ
O manuscrito original do seu diário, parcialmente conservado, é a prova tangível da aventura vivida por René Caillié. Essas páginas amareladas, encardidas, manchadas de suor, às vezes rasgadas ou amassadas, com linhas espremidas escritas a lápis e repassadas a tinta, apresentam um roteiro, mais que um relato metódico. Além das notas de Caillié, o caderno reúne desenhos feitos in loco pelo autor, que incluem alguns raros esboços de localização, particularmente de Djenné e do lago Débo, e uma cena etnográfica única representando uma mulher e o filho em Timbuktu.

A versão definitiva do manuscrito foi redigida no ano de 1829, em colaboração com Jomard. Seu título é Diário de uma viagem a Timbuktu e a Djenné, na África Central, precedido de observações colhidas entre os mouros braknas, os nalus e outros povos, durante os anos de 1824, 1825, 1826, 1827, 1828, com uma carta itinerária e observações geográficas do sr. Jomard, membro do Instituto.

Publicada em 1830, a obra começa com uma introdução de 20 páginas e a primeira parte do relato (capítulos I a IV) trata da estada de Caillié entre os mouros braknas. A segunda parte, que tem como ponto de partida 19 de abril de 1827, traz a descrição da expedição desde a costa oeste até Tânger. O mapa publicado junto com as notas foi desenhado e comentado por Jomard.

Ao longo das páginas, é possível identificar uma preocupação antropológica do autor, evidenciada pelas observações minuciosas dos povos encontrados: fulas, mandingos, bambaras, tuaregues e mouros. Caillié manifestava respeito tanto pelo Islã quanto pelo animismo, e pesquisou de maneira metódica os costumes, crenças e práticas dessas populações.

Em seu diário, o explorador francês trata do comércio e da economia locais, mostra quais eram os circuitos de circulação das moedas europeias e dos cauris (conchas que serviam de moeda de troca na região), e analisa a organização sociopolítica dos povos da região, além de fazer um grande levantamento da flora africana.

Françoise Labalette é jornalista e historiadora

Revista História Viva

quarta-feira, 7 de julho de 2010

FOTOS DO RIO

29/05/2009

Veja essas fotos, pouco divulgadas, de aspectos da cidade do Rio de Janeiro:

A igrejinha de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, em 1865, muito antes da abertura da Avenida Beira-Mar, ainda com uma prainha no sopé do morro.

A Avenida Central em 1906, com o Palácio Monroe à esquerda – em primeiro plano –, o Teatro Municipal – ao fundo –, e ainda o Convento da Ajuda, posteriormente demolido para dar lugar à Cinelândia. A foto, tomada bem no eixo da Avenida, parece ter sido obtida do topo do Obelisco onde Vargas amarrou seus cavalos, em 1930.

Copacabana em 1923. Será foto ou pintura ?

A Rua Barata Ribeiro, em 1928: uma Copacabana ainda de casas térreas e assobradadas.

A Igreja de São Francisco de Paula, no Largo de São Francisco; anos 30.

Em 1956, os antigos postos salva-vidas da Praia de Copacabana, que deram origem às denominações 'Posto 4','Posto 6'... que hoje nomeiam trechos da praia e do bairro.

Nesta outra imagem, dos anos 60, um flagrante da Valda III, ferryboat que cruzava a Baía de Guanabara, transportando automóveis, até a inauguração da Ponte Rio-Niterói, nos anos 70. E olha que as filas eram imensas, demandando horas de espera. De tal forma, que viajar de carro para a Região dos Lagos, se tornava um verdadeiro tormento !

A antiga sede náutica (demolida) do Botafogo F. R., também conhecida por 'Mourisco', em 1970. O apelido se explica porque no mesmo local existiu o famoso Pavilhão Mourisco – em estilo neopersa –, um café-concerto construído na gestão Pereira Passos e demolido nos anos 50 para a abertura do Túnel do Pasmado.

O famoso Píer do Barato, nas Dunas da Gal, Praia de Ipanema, 1972. O píer e as dunas foram resultantes das obras de construção do Emissário Submarino de Ipanema, tubulações de grande diâmetro que, após assentadas, passaram a lançar os esgotos do bairro em alto-mar.

Créditos: Internet.

Revista Vivercidades

POSTAIS DO RIO ANTIGO

12/06/2009
Vejam que belas imagens da cidade do Rio de Janeiro, obtidas em 1931, apenas um ano após os revolucionários gaúchos terem amarrado seus cavalos no Obelisco da Avenida Central. Fonte: Power Point produzido por Arnaldo Temporal, a partir do acervo de postais de Irajá de Oliveira Bastos.
Neste primeiro postal, pode-se apreciar o bairro de Botafogo, visto do alto do Morro da Urca. Ao fundo, a Pedra da Gávea e o Corcovado e, em primeiro plano, a orla urbanizada da antiga Praia Formosa (Avenida Pasteur), mais tarde aterrada para a construção do Iate Clube do Rio de Janeiro.

Aqui, o Monumento ao Cristo Redentor, em construção no topo do Morro do Corcovado, e a Enseada de Botafogo, vistos do Morro da Viúva.

Nesta foto, podemos apreciar o Morro da Viúva, em primeiro plano, e o Aterro da Urca, ao fundo, ainda vazio de construções.


Uma belíssima vista aérea de Copacabana, com o Hotel Copacabana Palace em primeiro plano.

Nesta tomada, Botafogo, Urca e Praia Vermelha – ainda com o prédio da Escola Militar –, vistos do alto do Corcovado. Do outro lado da entrada da Baía de Guanabara, pode-se avistar Niterói e as lagoas de Piratininga e Itaipu.

Inauguração da Praça Paris, com palanque e tudo. Ao fundo, o Outeiro da Glória e o Hotel com o mesmo nome.

Aqui, outra vista de Copacabana, ainda bem pouco ocupada, mas já com alguns edifícios de apartamentos.

Créditos: Power Point produzido por Arnaldo Temporal, a partir do acervo de postais de Irajá de Oliveira Bastos.

Revista Vivercidades