terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O tempo passou, e elas se foram


  O Mappin e seus anúncios desenhados à mão: fazer compras ali era chique / Foto: Reprodução

  REGINA ABREU

Paredes eram implodidas, tijolos despencavam. Boquiaberta, a multidão assistia à demolição do velho e fantasmagórico prédio do Mappin, no centro da capital paulista. Na realidade, construído nos anos 1930, na Praça Ramos de Azevedo, o imponente edifício de muitos andares ainda está lá. Aquele era apenas um vídeo, projetado na fachada, durante a Virada Cultural de 2014. Mas resumia visualmente o fim da saudosa megaloja, do tempo em que ainda não havia shoppings em São Paulo e em que era chique fazer compras ali. Ironicamente, o conhecido jingle “Mappin, venha correndo! Mappin é a liquidação!” transformou-se, em 1999, ano de sua falência, em “Mappin, venha correndo! Mappin foi à liquidação!”. E não faltaram interessados em atender o convite e ficar com os despojos – como o grupo Pão de Açúcar, que ali instalou um supermercado Extra, de pouca duração.

Hoje, o prédio abriga a Casas Bahia, enquanto sua concorrente, a lojas Marabraz, detém a posse da marca Mappin – mas, por ora, não planeja reativar nem o nome comercial, nem a loja. Virando a esquina e entrando na Rua Conselheiro Crispiniano, encontra-se uma churrascaria onde antigamente funcionava outro gigante do varejo paulistano, a G. Aronson, que fechou as portas no mesmo ano do vizinho Mappin. Na realidade, por todo o centro da cidade, onde estava concentrado o comércio, grandes lojas desapareceram na virada do século. Quem já entrou na idade dos “enta” (quarenta, cinquenta, sessenta...), se lembra da Mesbla, da Buri, da Arapuã e da Pirani? Grandes empresas brasileiras, de saudosa memória, encerraram suas atividades aproximadamente na mesma época, por diferentes motivos e nas mais diversas áreas.

Na aviação, não é preciso ativar muito a memória para se lembrar, desapareceram nomes importantes como a Varig, a Vasp e a Transbrasil. Casas bancárias se interdevoraram, provocando uma contínua dança das cadeiras. O Banco da Lavoura de Minas Gerais, por exemplo, foi dividido em dois: o Banco Real – depois absorvido pelo espanhol Santander – e o Banco Bandeirantes, mais tarde fundido com o Unibanco, que por sua vez foi posteriormente adquirido pelo Itaú. E o Banco do Estado de São Paulo (Banespa), assumido pelo Santander. Centenas de indústrias também paralisaram suas atividades, como – para citar apenas seis casos – a Companhia Aeronáutica Paulista (CAP – monomotor “Paulistinha”), a Fábrica Nacional de Motores (montadora do caminhão FNM), Gurgel (carros e utilitários), Indústria Nacional de Armas (INA), Leonam (máquina de costura) e o outrora poderoso grupo Matarazzo, todos eles importantes em seu tempo para o desenvolvimento do país.

A grande pergunta é: por quê? O que teria motivado essa saída de cena? Como as pessoas, as empresas nascem, crescem e morrem. E assim como não é comum que o ser humano tenha uma vida muito longa, também é raro empresas viverem muito tempo, como observa o professor de Finanças da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), José Roberto Savoia. Organizações, como a Câmara dos Lordes, da Inglaterra, podem existir por centenas de anos, mas não é o que acontece com organizações privadas. Citando Michael E. Porter – na opinião de Savoia, o autor mais consagrado na gestão das organizações – “tudo se resume a gestão”.

Gestão terceirizada

Entre os fatores que ameaçam a existência das empresas estão alguns problemas corriqueiros, tais como, a troca de bastão, dos fundadores para os herdeiros, uma situação em que os segundos nem sempre se acham adequadamente preparados ou sequer interessados no trabalho que os espera; e as mudanças econômicas externas, aqui incluídas as interferências governamentais no mercado e as alterações do próprio mercado, em contínua evolução.

Não faltam exemplos de brigas sucessórias que colocaram ponto final na história de um sem-número de empresas. No entanto, de acordo com o professor Savoia, nos Estados Unidos as companhias familiares, mesmo em menor número, estão com visão mais avançada. É que, para prevenir desavenças na família, os fundadores confiaram a terceiros a gerência de muitas delas – profissionais qualificados que garantem a continuidade da empresa, mesmo no caso de não haver herdeiros. Caso houver, eles podem seguir sua própria vocação e ainda, se preferirem, apenas desfrutarem da fortuna que passarem a receber. Esta tem sido uma forma eficiente de driblar o velho, conhecido e inseparável trio: dinheiro, poder e brigas.

No Brasil, muitas empresas grandes e poderosas não conseguiram evitar seu próprio fim, vítimas exatamente da guerra sucessória. O caso do Grupo Matarazzo é emblemático. Após 40 anos de atividade à frente da holding, Francisco Matarazzo, o Conde Chiquinho, morreu, deixando o controle do maior conglomerado empresarial do país para a filha caçula Maria Pia, em detrimento dos filhos homens que trabalhavam com ele há muitos anos. A herdeira colocou em prática uma completa reforma administrativa, visando concentrar a atividade nos principais ramos da companhia: papel, químico e álcool. Ao mesmo tempo, desativou antigas unidades deficitárias e vendeu todo o setor têxtil. Enquanto isso, como a vida imita as novelas, Maria Pia passou a enfrentar acirrada disputa com os irmãos pelo controle da holding. Como se fosse pouco, a economia brasileira, na oportunidade, sofria as consequências de duas maxidesvalorizações cambiais, em 1981 e 1983. E assim, após duas concordatas – uma delas para 27 empresas –, Maria Pia abriu mão, em 1986, do controle das principais empresas do conglomerado: a Cerâmica Matarazzo, a Matarazzo Papéis e a Matarazzo Embalagens.

Quem viveu e conviveu de perto com o nascimento, vida e morte de muitas empresas – no caso específico das lojas de São Paulo – foi o economista Marcel Solimeo, superintendente da Associação Comercial de São Paulo (aquela que criou o impostômetro, ferramenta que contabiliza os tributos arrecadados no Brasil, pela União, Estados e Municípios, segundo a segundo). Há 52 anos na entidade, Solimeo conta que seu primeiro emprego foi na Casas Pirani, “a gigante do Brás”, como ela se vendia, na Avenida Celso Garcia. Era 1954, ano em que a capital comemorava 400 anos de fundação. Natural de Duartina, cidade perto de Bauru, e, então com 17 anos, o rapazinho passava para ir ao trabalho, obrigatoriamente, defronte as lojas Paschoal Bianco (móveis) e Eletroradiobraz (eletrodomésticos), entre a Rua Bresser e o Largo da Concórdia. Ele se recorda que a Pirani vendia de tudo, de móveis a eletrodomésticos e com filial na Avenida São João, a unidade destruída pelo incêndio que consumiu os 29 andares do Edifício Andraus, em 24 de fevereiro de 1972.

Solimeo até acha graça ao lembrar-se do modus operandi do varejo daquele tempo: já havia crediário, mas o cliente precisava fazer ficha cadastral e ainda levar seu fiador – que também tinha de cumprir a mesma exigência. Um informante checava as informações e finalmente, depois de uma semana, o cliente conseguia o crédito. Só que o problema de levar para casa o produto que havia adquirido era dele – ele que se virasse com o carreto. E ai dele se não pagasse as prestações; sem a menor cerimônia, funcionários da loja rumavam até a residência do cliente e levavam embora o bem comprado.

As pessoas iam “à cidade”, como era chamado o centro. O Mappin era referência e chegou a ser considerado o ponto comercial mais valioso da América Latina. Seu elegante salão de chá era frequentado por moças e senhoras de tailleur, assim como cavalheiros de ternos impecáveis (aliás, terno era obrigatório até para assistir a jogos de futebol nos estádios).

Havia também muitas outras lojas chiques: a Casas Eduardo, a Mesbla da Rua 24 de Maio, a Casa José Silva, a Ducal, a Camisaria Kosmos (que oferecia camisas semiprontas), a Marcel Modas, a loja Cisne...

Avenida dos camelôs

Para Solimeo, uma pessoa daqueles tempos que deixou muita saudade foi Girz Aronson, dono da G. Aronson. “Era uma figura”, ele destaca. “Começou vendendo perucas e depois eletrodomésticos. Chamava todo mundo de menino e abriu várias lojas. Fazia questão de atender ele mesmo os clientes, e tinha uma política de preços agressiva, que obrigava os concorrentes a dançarem miudinho para competir.” Solimeo acentua que outra lenda do comércio foi Samuel Klein, da Casas Bahia, varejo que atualmente faz parte do grupo Pão de Açúcar. “Seu diferencial era a flexibilidade para conceder crédito”, diz.

Tudo passa, infelizmente. A cidade cresceu e até a movimentada Avenida Celso Garcia, mudou: virou mão única, deixou de ser polo comercial e hoje só abriga camelôs. O número de consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), considerado um indicador das maiores lojas de varejo, retrata essas transformações. Lembra Solimeo que, da lista dos 25 maiores estabelecimentos citados em 1965, não existe mais nenhum. E que na lista de 1985 sobrevivem menos da metade, se tanto. “Uma das explicações para tantas falências e fechamentos encontra resposta em fatores externos, tais como inflação alta e choques econômicos; e internos, consubstanciados no envelhecimento dos donos e na falta de planejamento”, sugere Solimeo.

O executivo da Associação Comercial de São Paulo afirma que o varejo evoluiu, modernizou-se. Tem competência em nível internacional e ficou extremamente complexo. O crédito deslanchou depois do Plano Real, mas o comércio, assim como todas as áreas, continua sofrendo intervenções econômicas de todo tipo. Por isso, empresas médias não sobrevivem – não têm a flexibilidade das pequenas, nem as possibilidades das grandes.

O fato é que as empresas, grandes ou pequenas, estão sujeitas às leis do mercado, cada vez mais dinâmico e exigente. Para ilustrar, pode ser citado o caso da indústria de chapéus, que, ou foi produzir outra coisa, ou fechou as portas para sempre por absoluta falta de demanda. Isso aconteceu também com as fábricas de fraldas de pano e as de máquinas de escrever. É que, na lei da oferta e da procura, quem manda é a procura. Por isso, mesmo que no começo os produtos inovadores tivessem um preço alto, logo demonstravam para o consumidor que a relação custo/benefício compensava. Assim, com a grande procura, a oferta aumentou e o preço baixou.

Fraldas descartáveis ilustram bem o que aconteceu: no início dos anos 1980 o preço era proibitivo e só as mães da classe média e alta podiam adquiri-las. Mesmo assim, eram usadas apenas para sair, ir ao médico, fazer uma visita. Em casa, os bebês usavam as fraldas de pano mesmo, que eram trabalhosamente lavadas, fervidas e passadas a ferro. Com o tempo, as descartáveis foram se popularizando e hoje nem a mais pobre das mães pensa em dispensá-las – a tal ponto que estão se transformando em problema ambiental.

Também as vantagens do computador logo demonstraram ser muito maiores que as da máquina de escrever, mesmo antes do advento da internet. Corrigir um texto escrito a máquina dava um trabalho danado: além de rabiscar, riscar e puxar setas com novas frases, muitas vezes o papel acabava no lixo. Tudo mudou: agora, o editor de texto do computador permite a economia de tempo, facilitando infinitas correções, tipos e tamanhos de letras e configurações.

Tudo faz parte da dinâmica dos mercados em que as empresas estão inseridas. Por isso, diz o professor Savoia, elas devem acompanhar as mudanças tecnológicas para não serem pegas de surpresa e despreparadas, serem engolidas pelas concorrentes habituadas a acompanhar o tempo. Ele aconselha aos gestores seguir de perto os fatores externos – dizendo que isto é mais importante do que se imagina. Como exemplo do que o despreparo pode provocar, ele lembra o que aconteceu quando o presidente Fernando Collor fez a abertura de mercado. O Brasil, até então um país fechado para o exterior, e acomodado à tranquilidade do mercado interno e leis de proteção ao produto local, viu-se de repente sujeito à acirrada concorrência internacional. Deu no que deu: muitas empresas brasileiras não conseguiram responder ao desafio e foram à falência. Outras, sacudidas pelo balde de água fria, correram atrás do prejuízo e trataram de se adequar às novas circunstâncias.

Barrinhas de cereal

Foi assim que entrou em ação a palavra mágica: inovação. “Inovação é fundamental na vida das empresas, na sua relação com o consumidor e no desenvolvimento de produtos e processos”, ensina o professor Savoia. É necessário ver o mundo, refletir sobre qual rumo a empresa deve tomar, e como se posicionar em relação aos concorrentes e às mudanças de mercado – que estão cada vez mais velozes. E decidir também qual sua estratégia: seu produto deve durar ou ser de consumo rápido? Por exemplo, resolver se sua linha de roupas deve ser a clássica, que nunca sai de moda, ou a fast-fashion, de giro rápido e descartável.

Por essas e outras, as histórias de algumas empresas tradicionais que ficaram pelo caminho merecem ser contadas. Decididamente, duas das maiores lojas de varejo que sobrevivem na memória dos brasileiros, especialmente dos habitantes do sudeste, atendiam pelos nomes Mappin e Mesbla. O Mappin havia sido inaugurado em São Paulo no começo do século 20. No início da década de 1950 foi adquirido pelo empresário cafeeiro Alberto Alves Filho, que fez dela uma empresa inovadora, aumentou o número de unidades, aperfeiçoou o sistema de crediário, montou financeira própria e depois o crédito automático. Com a sua morte, em 1982, a rede de magazines passou a ser comandada por Cosette Alves, que continuou a expansão da empresa, oferecendo uma grande variedade de produtos e abrindo várias lojas.

A situação, porém, começou a mudar quando, em 1995, a empresa comunicou ao mercado o maior prejuízo de sua história: R$ 19,46 milhões. Cosette não pretendia vender o Mappin, mas o empresário Ricardo Mansur insistiu. Depois de uma infinidade de conversas, em 1996, a primeira vendeu e o segundo adquiriu um dos mais charmosos varejos paulistanos por R$ 25 milhões. O projeto de Mansur para o Mappin era transformá-lo em uma rede de franquias. Mas nenhum plano deu certo e a empresa teve a sua falência decretada em 1999. É que a união de suas operações com a Mesbla prejudicou o Mappin, pois seu controlador apenas implantou crises sem conseguir resolvê-las (conta-se que as lojas eram esvaziadas para abastecer a Mesbla).

Pouco antes da falência, a situação da Mesbla-Mappin era desesperadora: faltava dinheiro no caixa e o atraso no pagamento de fornecedores era crônico. Por isso mesmo, surgiram inúmeros pedidos de falência, além de ameaças de despejo em todos os shoppings onde as lojas estavam estabelecidas.

Em 1980, a Mesbla ocupava o primeiro lugar entre as “Maiores e Melhores” da revista “Exame”, e detinha a liderança do comércio varejista de não alimentos do país. Nesta época, ela operava com quase 140 pontos de venda, empregava 28 mil pessoas, e raras eram suas unidades que ocupavam áreas comerciais inferiores a 3 mil metros quadrados. Em suas lojas compravam-se sapatos, perfumes, televisores, joias, lanchas e até automóveis pelo crediário.

A Mesbla atuou também no comércio internacional, com filial em Nova York. Dentre os vários negócios realizados pela Mesbla Comércio Internacional S.A., uma das integrantes do grupo, um se destacou: a venda de 60 mil caminhões à China, no valor de US$ 900 milhões. Na década de 1990, os problemas começaram. A empresa sofria de gigantismo, era lenta ao tomar decisões e não conseguia acompanhar as mudanças – como a vinda de grandes empresas estrangeiras para o Brasil intensificando a concorrência –, já acirrada pelos shoppings centers e hipermercados, situados nos bairros e mais próximos do consumidor. Em 1997, com dívidas superiores a R$ 1 bilhão, a Mesbla pediu concordata. No mesmo ano, seu controle acionário foi vendido ao empresário Ricardo Mansur, que nove meses antes havia comprado as lojas do Mappin.

A falência também rondou muitas outras áreas. A da aviação, por exemplo, foi uma delas, no caso provocada pelo represamento dos preços das passagens, aumento do custo do combustível, pela alta do dólar e desvalorização da moeda e, principalmente, pelo alto endividamento. Em 2002, a Transbrasil desapareceu logo seguida pela Vasp (2005) e pela Varig (2006). Todas deixaram saudade, especialmente a Varig.

Tanto isso é verdade que a nostalgia é a aposta de um musical que estreou no último mês de agosto, em São Paulo: Constellation – Uma Viagem Musical pelos Anos 50, que retrata a época em que a Varig adquiriu o Super Constellation G. A luxuosa aeronave reduziu o tempo de voo entre Rio de Janeiro e Nova York, de mais de 70 horas (com escalas) para cerca de 20 (direto). Fundada em 1927, a Viação Aérea Rio-grandense (era seu nome) tornou-se, entre as décadas de 1950 e 1970, uma das maiores e mais conhecidas companhias aéreas privadas do mundo, concorrendo até mesmo com a gigante americana Pan Am, hoje também desativada (saiu de cena em 1991).

A empresa era conhecida, entre outros diferenciais, pelo requintado serviço de bordo nas três classes, um luxo ante as barrinhas de cereal atuais. Entre outros agrados, eram servidos jantares preparados por chefs, regados a vinhos finíssimos. Naquela época, além de cobrir todo o Brasil, a Varig operava rotas internacionais para a América, Europa, África e Ásia. Mas, como dizem, era bom demais para durar. Em 2006, após ter entrado em processo de recuperação judicial, sua parte estrutural e financeiramente boa foi isolada e vendida para a Varig Logística S.A., que, no ano seguinte foi cedida para a Gol Linhas Aéreas.
Revista Problemas Brasileiros

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O iê-iê-iê faz 50 anos


  Fotos: Reprodução

HERBERT CARVALHO

A transformação da juventude em elemento propulsor do capitalismo por meio do consumo de discos e roupas direcionados a esse segmento do mercado, em expansão desde a década de 1950, assumiu ares de suprema ironia no Brasil quando, em 1965, o politizado publicitário Carlito Maia foi encarregado de batizar um programa de televisão. “A TV Record, de São Paulo, buscava uma alternativa para a transmissão ao vivo do futebol nas tardes de domingo, que os clubes decidiram proibir porque estava esvaziando os estádios. O proprietário da emissora, Paulinho Machado de Carvalho, mostrou o vídeo de um cantor do Rio de Janeiro, futuro apresentador do programa, que se chamaria Festa de Arromba. O cara era sensacional, mas o nome, horrível. Então veio a ideia, de uma frase de Vladimir Lênin: ‘O futuro do socialismo repousa nos ombros da Jovem Guarda’.” A troca do nome de um dos sucessos iniciais da dupla Roberto e Erasmo Carlos pela expressão cunhada, em contexto totalmente diverso, pelo revolucionário russo, representou, dessa forma, o marco inicial de um movimento que durou pouco, mas deixou marcas profundas na cultura e na música brasileira.

Originado nos Estados Unidos em meados da década de 1950 e tocado por conjuntos formados por bateria, instrumentos elétricos e saxofone, com letras quase gritadas por Elvis Presley, Paul Anka, Neil Sedaka e Pat Boone, o rock and roll foi a música de consumo mercadologicamente concebida para a massa de adolescentes da classe média urbana. “Pode-se medir o poder do dinheiro jovem pelas vendas de discos em território estadunidense, que subiram de US$ 277 milhões em 1955, quando o rock apareceu, para US$ 600 milhões em 1959 e US$ 2 bilhões em 1973. O grupo etário até 19 anos gastava, em 1970, cinco vezes mais em discos do que em 1955”, contabiliza o historiador Eric Hobsbawm.

No Brasil o fenômeno se alastra a partir de versões em português de hits do gênero norte-americano, cantadas pelos irmãos interioranos Tony e Celly Campello, paulistas de Taubaté. Reciclado na Inglaterra pela linha melódica dançante introduzida pelo grupo The Beatles, o ritmo logo ficaria conhecido por aqui como iê-iê-iê, nome derivado dos gritos de “yeah yeah yeah”, berrados pelo quarteto de Liverpool na música She Loves You. Assim como as composições dos beatles John Lennon e Paul McCartney influenciaram toda a música pop internacional, entre nós os parceiros Roberto e Erasmo Carlos se encarregariam de “traduzir o estilo e degluti-lo”, por meio do “uso funcional e moderno da voz”, de acordo com a análise do poeta concreto Augusto de Campos, que ao contrário da maioria dos intelectuais da época assegurava que “o iê-iê-iê brasileiro não é, em seus melhores momentos, mera cópia do estrangeiro”.

O primeiro sucesso de Roberto Carlos, entretanto, não seria uma composição própria da dupla e sim a versão feita por Erasmo de Splish Splash, gravada em 1963 pelo futuro Rei do iê-iê-iê com o conjunto musical Renato e seus Blue Caps, que ao lado de outros grupos roqueiros que por aqui surgiram na esteira dos Beatles – como The Clevers, The Jet Blacks e The Fevers – logo estariam na famosa Festa de Arromba. “Eu gostava da música do Bobby Darin e fiz mais uma adaptação do que uma versão. Splish Splash é o barulho de algum objeto caindo na água, na linguagem das histórias em quadrinhos americanas. Não tem nada a ver com o ‘barulho do beijo’ ou do ‘tapa que eu levei’, que foram ideias minhas”, recorda Erasmo.

Segurem suas filhas!

De efetiva autoria brasileira na área do rock, Parei na Contramão foi o primeiro grande êxito da parceria dos compositores líderes da Jovem Guarda. Todo o espírito de rebeldia e o impulso dançante dos jovens estão presentes na gravação marcada pela guitarra, contrabaixo e a voz anasalada de Roberto, cantando a letra que exalta um símbolo de status da juventude, o automóvel. Nessa linha, que impulsionava a recém-instalada indústria automobilística brasileira, surge também, às vésperas do golpe de 1964, Rua Augusta, composição do maestro Hervé Cordovil para seu filho Ronnie Cord, outro ídolo jovem, que falava dos “rachas” na famosa via do centro de São Paulo.

No dia 22 de agosto de 1965, quando já havia guiado seu Calhambeque rumo às paradas de sucesso, Roberto Carlos, com cabelos compridos e terninho de cor clara – seu visual característico dali por diante –, sobe ao palco do auditório da TV Record, Canal 7, na capital paulista. Na plateia, jovens com menos de 20 anos, em completa excitação, aplaudem, gritam e assobiam. O cantor apanha uma flor no chão, olha para o público e a leva aos lábios. Diz frases cheias de gírias (como “broto”, “carango”, “legal”, “coroa”, “barra limpa”, “lelé da cuca”, “mancada”, “pão”, “papo firme” e o bordão “é uma brasa, mora”), curva-se até a altura dos joelhos, estica o braço e anuncia: “O meu amigo, Erasmo Carlos”. Estava no ar o programa que, pelos anos seguintes – quando a ditadura ainda era “envergonhada”, de acordo com a classificação do jornalista Elio Gaspari em sua obra sobre o ciclo militar – provocaria cisões e convulsões na até então pacífica e acomodada música popular brasileira. Apresentaram-se na estreia, além do triunvirato que incluía a figura feminina de Wanderléa, também Os Incríveis, Tony Campello, Rosemary, Ronnie Cord, The Jet Blacks e Prini Lorez, o cantor que gravara La Bamba.

Quarto e último filho do relojoeiro Robertino e da costureira Laura – que mais tarde ele promoveria a Lady Laura na música que compôs em sua homenagem, enquanto o pai seria contemplado na letra de Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo – Roberto Carlos Braga nasceu em Cachoeiro do Itapemirim (ES) em 19 de abril de 1939. Aos 6 anos de idade, no dia da Festa de São Pedro, padroeiro da cidade, sofre grave fratura na perna direita quando brincava na via férrea, o que o fará usar uma prótese para o resto da vida. Aprende a tocar piano e violão e aos 9 anos já canta, na rádio local, músicas do repertório de Bob Nelson, artista brasileiro que se vestia de caubói para cantar versões em português de músicas country.

Em 1955, Roberto Carlos vai morar com uma tia em Niterói, mas logo atravessa a baía de Guanabara para se juntar à família, agora instalada no subúrbio carioca de Lins de Vasconcelos. Em 1958, conhece no bairro da Tijuca a turma da Rua Matoso, liderada por Erasmo Esteves que, ao lado de Sebastião Rodrigues Maia – ninguém menos que o futuro Tim Maia –, integrava o conjunto de rock The Snakes, assim batizado em referência ao Bar Snake, frequentado pelos lambretistas em Copacabana.

Corriam então os “Anos Dourados”, marcados pelo desenvolvimentismo do governo Juscelino Kubitschek de Oliveira, quando a imprensa advertia em manchetes como estas: “Segurem suas filhas: aí vem o rock and roll!”, “Playboys infestam a Zona Sul carioca e a Rua Augusta em São Paulo!”. O grupo ao qual Roberto Carlos se incorpora logo muda seu nome para The Sputniks, apropriação americanizada do primeiro satélite artificial que a então União Soviética colocara em órbita da Terra. Sob essa designação, eles se apresentam em locais fechados e no programa Clube do Rock, liderado pelo produtor artístico Carlos Imperial.

Após uma breve e frustrada incursão como crooner da boate Plaza, onde cantava bossa-nova no estilo João Gilberto, acompanhando-se ao violão – e depois de um primeiro disco gravado com canções do gênero em que foi completamente ignorado pelo público –, Roberto Carlos assume a parceria com Erasmo. E, depois de diversos empregos típicos de um garoto de classe média (porteiro, recepcionista, vendedor e auxiliar de escritório), torna-se secretário de Carlos Imperial, artista multimídia (como hoje seria chamado) com excepcional faro para descobrir e lapidar novos talentos musicais. Por sugestão dele, Erasmo Esteves virou Erasmo Carlos, o que resumia a um segundo nome comum a dupla responsável por mudar, por meios de canções singelas e despretensiosas, o comportamento de uma juventude ansiosa por romper com o modo de vida de seus pais.

“E só tinha o ginásio”

Como a Jovem Guarda fora um projeto concebido pela agência de publicidade Magaldi, Maia e Prosperi, seguindo padrões norte-americanos para impulsionar, além da milionária venda de discos, todo um comércio paralelo de camisetas, calças, saias, blusas, bolsas, sapatos, botas e artigos escolares – sob a marca registrada Calhambeque –, era preciso uma cantora que tivesse os atributos físicos necessários para que nela se espelhasse o público jovem feminino. No momento em que Celly Campello abandonava a carreira para se casar, a escolha recaiu sobre Wanderléa Charlup Boere Salim, mineira de Governador Valadares e descendente de libaneses que tinham a mania de batizar seus filhos com nomes iniciados pela letra W.

Encarnando a mulher ativa, meiga, sensual e liberada das imposições familiares e da repressão sexual, ela desafiava a moral arcaica vigente com suas calças coladas ao corpo, shorts e minissaias que destacavam pernas perfeitas. Gravou seu primeiro LP antes de completar 18 anos e seus principais sucessos foram a melodramática Ternura e a patética e teatral Pare o Casamento. Com o Rei, a Ternurinha e o Tremendão – apelidos de Wanderléa e de Erasmo Carlos em razão de seu porte físico alto, pesado e pleno de energia – estava formada a trinca que em breve iria terçar armas com os compositores intelectualizados da era dos festivais.

“A gente não era universitário, não sabia falar de outras coisas. Eram os nossos problemas, garotas, carros... Eu só tinha o ginásio, a Wanderléa nem isso. E o grosso da nossa plateia era assim também, feito a gente, se identificava conosco.” Neste depoimento de Erasmo está a síntese de Quero que Vá tudo pro Inferno, a canção poética e musicalmente pobre que, entretanto, transformou Roberto Carlos da noite para o dia em líder de audiência na televisão e campeão absoluto na vendagem de discos.

O êxito da Jovem Guarda incomoda os tradicionalistas e provoca uma batalha que estala nos corredores da própria TV Record, cuja programação musical de qualidade era liderada pelo Fino da Bossa, comandado pela dupla Elis Regina e Jair Rodrigues, com atrações que iam dos veteranos Elisete Cardoso e Ciro Monteiro, contratados da emissora desde a década de 1950, aos novos talentos revelados pela bossa-nova e pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE). Dentre estes, destacavam-se Edu Lobo, Geraldo Vandré e Chico Buarque de Hollanda, vencedores dos primeiros Festivais de Música Popular Brasileira, em 1965 e 1966, respectivamente, com as antológicas canções de Arrastão, Disparada e A Banda, todas com mensagens politizadas sobre a vida sofrida do povo no interior do país e nos centros urbanos.

A luta se deu em várias frentes. Quem se apresentasse na Jovem Guarda, estava automaticamente riscado do Fino da Bossa e vice-versa. O apresentador Flávio Cavalcanti vociferava: “Não consigo entender como a mocidade de hoje prefere ouvir as Wanderléas que surgem por aí, sem nem mesmo lembrar de cantoras como Dolores Duran e Maysa. Estamos caminhando para o caos”. A Ordem dos Músicos falava em impedir de tocar grupos como Os Incríveis e o RC-7, que acompanhava Roberto Carlos, porque seus membros não sabiam ler partituras. O Rei ameaçou ir a Brasília apelar ao presidente da República, caso isso acontecesse.

A tensão culminou com uma passeata no centro de São Paulo que exibia faixas e cartazes contra as guitarras elétricas, organizada pela Frente Ampla da MPB contra o iê-iê-iê, da qual participaram os principais expoentes do Fino da Bossa e dos Festivais. Era um paralelo na área cultural do que ocorria na política: os partidos já haviam sido dissolvidos e a eleição direta para presidente banida, o que provocara a união de Carlos Lacerda, um dos chefes civis do golpe de 1964, com os outrora rivais Juscelino e Jango Goulart na chamada Frente Ampla, logo fustigada pelos militares.

“A cara do Brasil”

Acusados de ser um bando de alienados submissos à influência perversa do imperialismo norte-americano, os defensores do iê-iê-iê começavam a perder audiência, quando receberam o inesperado apoio dos baianos tropicalistas. No III Festival da Record, em 1967, Caetano se faz acompanhar pelos jovens guitarristas argentinos dos Beat Boys na defesa de Alegria, Alegria e Gilberto Gil incorpora Os Mutantes e suas guitarras na apresentação de Domingo no Parque. A música manifesto do movimento, Tropicália, junta o grito de guerra da Jovem Guarda à geleia cultural moderna brasileira: “Domingo é o fino da bossa, segunda-feira está na fossa, terça-feira vai à roça, porém, o monumento é bem moderno, não disse nada do modelo do meu terno, que tudo mais vá pro inferno, meu bem”.

No livro Verdade Tropical, sobre os acontecimentos da época, Caetano Veloso discorre sobre a força mitológica da figura de Roberto Carlos e sua significação como vislumbre do inconsciente nacional: “Ele era, comoventemente, a cara do Brasil de então”. Augusto de Campos também faz um balanço da contenda, simpático aos cabeludos: “Enquanto a música popular brasileira de raízes nacionalistas, apelando à teatralização e a técnicas derivadas do bel canto, descambava para o expressionismo interpretativo e voltava a incidir no gênero grandiloquente, épico-folclórico, de que a bossa-nova parecia ter-nos livrado para sempre, a Jovem Guarda de Roberto e Erasmo Carlos estava muito mais próxima, sob o aspecto da interpretação, da sobriedade de João Gilberto, e conquistava o público, descontraidamente, usando só a lâmina da voz, sem a arma do braço”.

A carreira de Roberto Carlos até se tornar, na década de 1990, o primeiro artista latino-americano a vender mais discos (70 milhões de cópias) do que os Beatles, deu plena razão ao poeta. Atento às oscilações do mercado, o primeiro ídolo fabricado pela televisão e pioneiro das celebridades a serem protegidas por guarda-costas e carros blindados desembarca da Jovem Guarda, em 1968, dedicando-se às baladas que o projetariam internacionalmente a partir de sua vitória, nesse mesmo ano, no Festival de San Remo, na Itália, interpretando Canzone per Te, de Sergio Endrigo. O cantor, que incluíra a música portuguesa Coimbra no LP Jovem Guarda e defendera Maria Carnaval e Cinzas, de Luiz Carlos Paraná, no Festival de 1967, logo daria lugar ao compositor de canções românticas, sua marca registrada a partir do sucesso de Detalhes (parceria com Erasmo, de 1971).

Sem Roberto Carlos – a figura mais emblemática, que abandonara a turma e a postura rebelde para casar-se na Bolívia com a divorciada Cleonice Rossi, tornando-se um pacato pai de família –, o programa Jovem Guarda acaba e se desdobra em outros do mesmo modelo: Ternurinha e Tremendão, sob o comando de Wanderléa e Erasmo; O Pequeno Mundo de Ronnie Von; Linha de Frente, com Os Vips, e O Bom, de Eduardo Araújo. Nenhum deles, porém, com a aura e a força do original que arrebatara corações e mentes em São Paulo e nas outras capitais (Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife) onde chegava por meio de videotape.

A partir de 13 de dezembro de 1968, quando, após a edição do AI-5, a ditadura assume-se como “escancarada”, não haveria mais lugar para ingenuidades ou contestações artísticas. Caetano e Gil são presos e vão para o exílio, destino idêntico ao de Chico Buarque. A censura, a tortura e o assassinato de opositores seriam as marcas do regime nos anos que se denominarão de chumbo.

Enquanto nos Estados Unidos se realiza o Festival de Woodstock, no Brasil, em 1969, não há mais resquícios da Jovem Guarda. Os ídolos se foram ou ficaram reduzidos a uma faixa restrita de consumo. Alguns mudaram de gênero, como Sérgio Reis, que fizera sucesso com a canção Coração de Papel: na década de 1970, de chapéu e berrante em punho, ele mergulhou no universo sertanejo. Wanderléa saiu do ar, atingida por um drama pessoal – seu noivo Zé Renato, filho de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, ficara paraplégico após sofrer um acidente. Em 1984, outra tragédia: o filho que teve com o guitarrista chileno Lalo Califórnia morre afogado na piscina de sua casa, aos 2 anos de idade. Erasmo, desencontrado e sem rumo, chega a incorrer pelo samba em Coqueiro Verde, mas é na melancolia de Sentado à Beira do Caminho que ele revela toda a dimensão da crise existencial de sua geração. Nos “caminhões e carros apressados a passar por mim” está a imagem de um tempo feliz que também passou, dos símbolos que se transformaram em “pobre resto de esperança à beira de uma estrada”. No final, a ruptura é nítida: “Preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo”.
Revista Problemas Brasileiros

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Em busca do Brasil ancestral

No sítio Lapa do Santo, situado dentro da Área de Proteção Ambiental de Lagoa Santa, em Minas Gerais – que revelou o crânio de Luzia, a primeira brasileira.
Rodrigo Cardoso

Galeria de Fotos
Em busca do Brasil ancestralO sítio arqueológico Lapa do Santo, perto de Belo Horizonte, está revelando a cultura da primeira povoação de brasileiros que se tem notícia. na foto, dentro da gruta, o bioarqueólogo 
Rodrigo Elias de Oliveira.
Alberto Barioni



Arqueólogos e antropólogos estão descobrindo as práticas da cultura pré-histórica mais antiga do país na Lapa do Santo.

Não há no continente americano, atualmente, um sítio arqueológico como a Lapa do Santo. A gruta de 1,3 mil metros quadrados, localizada dentro de uma fazenda em Matozinhos, a 35 quilômetros de Belo Horizonte, em Minas Gerais, tem revelado, em quantidades incomparáveis, esqueletos de grande antiguidade e muito bem preservados.

Debruçada sobre esse solo, uma equipe de 20 profissionais, liderada pelo jovem antropólogo e arqueólogo paulista André Strauss, 30 anos, avança, como nenhuma outra expedição arqueológica, na descoberta dos hábitos culturais dos primeiros habitantes das terras brasileiras. Sua missão vai muito além do estudo dos fósseis humanos extraídos ali, que, desde 2001, já revelaram 35 sepultamentos. 

Lapa do Santo é uma das várias grutas existentes na unidade de conservação federal Área de Proteção Ambiental (APA) Lagoa Santa. Berço da arqueologia, da paleontologia e da espeleologia brasileiras, os sítios da APA são objetos de pesquisas há pelo menos 170 anos. Foi em outra das suas grutas, a Lapa Vermelha, que, em 1975, a missão franco-brasileira coordenada por Annette Emperaire encontrou o crânio de Luzia, um dos mais antigos esqueletos humanos das Américas, datado de aproximadamente 11 mil anos atrás.

Dezenas de equipes brasileiras, dinamarquesas, norte-americanas, francesas e britânicas já realizaram escavações na área, focadas na morfologia craniana do povo de Luzia e na coexistência do homem com a megafauna – o conjunto de animais de grandes proporções como tigredente- de-sabre e preguiça-gigante, por exemplo.

Strauss resolveu focar a lupa no material arqueológico que essa turma revolveu, mas ao qual não deu muita atenção: os rituais funerários dos brasileiros do início do Holoceno, período que compreende aproximadamente os últimos dez milênios.

Foi por meio da análise das práticas mortuárias desse grupo de caçadores-coletores, anteriores aos adventos da cerâmica e da agricultura, que a equipe do pesquisador brasileiro está derrubando teorias, como a que apregoava ser exclusividade dos povos que viveram nos Andes (referência quando se fala de pré-história na América do Sul) a manipulação do corpo no ato do sepultamento. 

“A Lapa do Santo tem revelado que aquele grupo pré-histórico tido como simples e homogêneo, na verdade, era sofisticado”, diz Strauss, cujo projeto “As Práticas Funerárias dos Primeiros Americanos”, coordenado por ele, é uma parceira entre o Instituto Max Planck de Antropologia, em Leipzig, na Alemanha, e a Universidade de São Paulo (USP). Considerando o caráter nômade dos caçadores-coletores do Holoceno, a antropologia convencionou acreditar que esse povo não despenderia tempo nem energia para enterrar os mortos. Na Lapa do Santo, porém, entre cerca de 10.500 e 8.000 anos atrás, observa-se uma perfeita sequência de diferentes práticas funerárias. 

É desenterrando sepulturas e analisando o material recolhido – virtualizado in loco dentro da gruta por meio de um moderno aparato tecnológico – que a equipe de Strauss vem entendendo melhor como viviam os primeiros brasileiros. 

Cultura funerária 

A manipulação do corpo é um dos traços marcantes do povo ancestral da Lapa do Santo. Os sepultamentos que emergiram do solo da gruta (leia na próxima página) revelaram que, na ausência de oferendas funerárias ou tumbas sofisticadas, a elaboração dos rituais mortuários estava representada no uso do próprio corpo do falecido como um símbolo. Foram encontrados corpos articulados reduzidos por meio de mutilações. Tíbias e fíbulas, só para citar dois ossos, são algumas das partes anatômicas removidas logo após a morte, enquanto os tecidos moles ainda estavam presentes.

Em outro sepultamento, ossos desarticulados, desmembrados de várias pessoas, estavam enterrados em uma mesma pequena cova. “Em um primeiro momento, aquele povo pré-histórico cortava os ossos dos falecidos logo após a morte e ficava com eles por vários anos”, diz Strauss. “A prática ia se repetindo com outros membros que morriam até que, em um dado momento, chegava a hora de enterrar o material acumulado, quase como se fossem relíquias”, sugere o arqueólogo brasileiro.

Para esse ritual, porém, havia certas regras. O crânio de um adulto era enterrado com o que restou de um esqueleto cortado de uma criança, e crânios infantis, com ossos de pessoas maduras. Um dos sepultamentos mais impressionantes trouxe à superfície a calota, a parte de cima do crânio, de uma criança utilizada como urna, dentro da qual foram encontrados mais de 80 dentes representando pelo menos cinco pessoas diferentes. Mais interessante: ao examinarem os dentes – Rodrigo Elias de Oliveira, odontólogo com doutorado em biologia genética, é cocoordenador do projeto –, verificou-se que uma dessas pessoas havia sido enterrada em uma tumba no mesmo sítio. Ainda não é certo, mas a expressão dessas técnicas pode indicar a existência de indivíduos especializados nesse processo dentro do grupo. 

Coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da USP, o arqueólogo e antropólogo Walter Neves escavou na região de Lagoa Santa, em 2009. Para esse pesquisador, uma das maiores autoridades no assunto, as pesquisas realizadas pela missão brasileira na Lapa do Santo avançam na direção de conferir maior entendimento sobre a mente do povo de Luzia. 

“Eu centrei o foco na parte física daquelas pessoas. Já o André e sua equipe estão entrando na mente delas. Na arqueologia dos caçadores-coletores daquela época, isso só é possível por meio de pinturas rupestres e rituais funerários”, afirma ele.

Neves é considerado o “pai” de Luzia. Apesar de não ter participado das escavações que desenterraram o crânio dessa primeira habitante do continente americano, foi ele quem a batizou ao estudar o material escavado e formular, há mais de duas décadas, uma nova teoria sobre o povoamento das Américas.

Segundo o cientista, houve duas e não uma onda migratória asiática para a América pelo Estreito de Bering, há 11 mil anos. Uma de Homo sapiens com morfologia mongoloide, da qual deriva a maioria dos
povos indígenas sul-americanos (a hipótese “Clóvis”), e outra com morfologia semelhante à dos africanos e aborígenes australianos, parecidos com Luzia. 

Pescaria arcaica

Strauss e Oliveira têm lançado mão dos mais avançados recursos tecnológicos para lapidar outra joia desenterrada da Lapa do Santo: o caso de decapitação mais antigo das Américas, há 10 mil anos. 

Em 2007, eles encontraram um indivíduo com a cabeça decapitada, que tinha sobre o rosto as mãos também cortadas. O crânio foi submetido a uma tomografia computadorizada. “Ela permite que estruturas internas até então invisíveis sejam observadas”, explica Strauss. A partir do modelo tridimensional, deformações sofridas em decorrência do sobrepeso da terra durante milhares de anos foram corrigidas por meio de modelos matemáticos de simetria. O resultado final permitirá a reconstrução facial desse habitante pré-histórico. 

Um especialista forense que respondeu pela reconstrução da face do rei britânico Henrique III realizou trabalho semelhante a partir do protótipo em 3D do crânio retificado. “A tecnologia de virtualização aplicada nas escavações e o registro do material encontrado na Lapa do Santo não encontram paralelo em nenhum outro sítio brasileiro antigo e de grande porte”, garante Strauss. 

De fato. Os pesquisadores carregam com eles um modelo virtual do sítio que é visitado a distância e, virtualmente, permite observar os sepultamentos. Em vez de desenhar ou fotografar como normalmente ocorre nas missões, eles geram, em campo, modelos 3D do material a ser analisado. Cópia fidedigna em escala de uma cova pesquisada, um modelo gerado a partir dessa tecnologia chega a ser impresso dentro da gruta por meio de uma impressora 3D.

Na Lapa do Santo, todo o fluxograma é informatizado e associado a um banco de dados. Na caverna mineira, foram encontrados também os anzóis de pesca mais antigos do continente americano.
Datados de aproximadamente 10 mil anos atrás, eles foram feitos de ossos de algum mamífero.

O gerenciamento digital permite, por exemplo, o registro eficiente de quantos litros havia em cada balde escavado e até a impressão de códigos de barra individuais para a identificação do material desenterrado. Em muitas escavações, esse pro cesso ainda é feito por meio de anotações a lápis em papéis.

A expertise tecnológica aplicada na Lapa do Santo despertou a atenção do Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que firmou uma parceria com a equipe brasileira que escava na gruta. A partir de 6 de dezembro, todo o acervo esquelético humano da instituição será virtualizado pela equipe de Strauss. Com a colaboração do laboratório Hermes Pardini, de Belo Horizonte, serão feitas to- Há 35 sepultamentos na gruta. Anzóis feitos de osso, os mais antigos do Brasil. mografias médicas de alta resolução.

No museu da UFMG estão esqueletos de mais de 9 mil anos atrás, desenterrados de sítios importantes, como Santana do Riacho e Lagoa Santa. “Nessa primeira etapa, vamos focar nos crânios, que devem 
somar cerca de 25”, explica Strauss. O jovem antropólogo que se deparou com um sítio arqueológico virgem vai mergulhar profundamente na história dos brasileiros ancestrais. A Lapa do Santo ainda tem muitas histórias para revelar.

Revista Planeta

Insanas e Normais: CONCUBINAS, LIBERTINAS, MESSALINAS, MERETRIZES, PR...

Insanas e Normais: CONCUBINAS, LIBERTINAS, MESSALINAS, MERETRIZES, PR...: RESUMO: O presente ensaio apresenta como tema o estereótipo desviante das prostitutas durante o período medieval, tendo como recorte, o...

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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A lei fora da lei


Ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, pelas UPPs impôs aos moradores um estado de exceção

Vinicius Esperança


As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), política desegurança pública implantada no Rio de Janeiro desde 2008, representam uma nova forma de ocupação do território por agentes do Estado. Trazem em seu conceito a ideia de presença policial permanente, associada a algumas práticas de policiamento comunitário. Seu objetivo principal seria a retirada das armas e a repressão ao tráfico de drogas. Mas o que se observa é que essa política de ocupação inclui o controle moral da vida e do cotidiano dos moradores.

No processo de ocupação do Complexo do Alemão pelo Exército (2010 a 2012), e posterior implantação de seis UPPs na região (quatro dentro deste conjunto de favelas), duas situações simbolizam as tensões provocadas por essa estratégia: a negociação para liberação de eventos culturais e as abordagens policiais àqueles que têm “atitudes suspeitas”.

Produtores culturais locais tiveram que negociar com policiais militares a liberação ou a recusa de eventos envolvendo bebida e música, em especial os bailes funk. A polícia se utiliza deste dispositivo para controlar os espaços e as relações sociais da comunidade. Ao atribuir qualidades morais a eventos, comportamentos e tipos de festa ou música, a polícia torna-se gestora moral da vida social da favela. Quando esta situação é questionada, surge o argumento de que há situações que podem ser permitidas em outros lugares, mas não lá – o que caracteriza a aplicação da lei em estados de emergência ou exceção.

O controle dos eventos passou a ser usado pela PM como moeda de troca. “Caso se comportem e sigam as regras, permito; se não, proíbo tudo”, afirmou um comandante da UPP Nova Brasília, em abril de 2013. Fica evidente que o comando da UPP se apresenta como um regulador de questões que vão muito além do policiamento. Não existem, nos regulamentos internos, normas para dar um mesmo padrão aos procedimentos policiais. Cabe ao comandante – que a esta altura é um gestor da favela – decidir aquilo que é permitido ou não. As decisões passam a depender de seu gosto pessoal por determinado tipo de evento. Na fala dos comandantes e policiais, o baile é visto como local da desordem, da prostituição e das drogas – onde o tráfico mantém consagrado o seu domínio.


Ao negociar politicamente a permissão ou a proibição dos eventos, a polícia exerce uma nova ordem jurídica, segundo a qual certos indivíduos são submetidos a leis próprias daquele território, e uma forma particular de regulação do cotidiano é exercida através do comando da UPP. O comandante se torna o soberano, a incorporação da própria lei: ele a cria, executa e pune o seu descumprimento.

A expressão “atitude suspeita” se aplica principalmente a homens reunidos em grupo, em bares ou esquinas (“de vagabundagem”, nas palavras de um soldado), ou a homens que se assustam ou baixam o olhar quando veem a aproximação de um grupo de policiais. Incontáveis abordagens policiais a indivíduos em “atitude suspeita” reforçam o ambiente de tensão. Nas patrulhas pelos becos e pelas vielas de comunidades como Nova Brasília, Alemão, Coqueiros e Alvorada, as abordagens são feitas de forma rápida, seca e objetiva. Poucas vezes acompanhadas de qualquer saudação ou de um “obrigado” após o procedimento. Todas têm como alvo homens, a maioria entre 15 e 35 anos, de pele parda ou negra. Boné e mochila são um bom motivo para revista. Os “suspeitos” são colocados contra a parede, tiram seus bonés, abrem suas mochilas. Muitos são “conduzidos” à delegacia para o SARC (procedimento para verificar se o indivíduo possui ficha criminal ou tem mandado de prisão em aberto).

Qualquer evento ou atendimento deve ser registrado e assinado pelos policiais envolvidos: o Termo de Registro de Ocorrência (TRO) é arquivado em cada unidade, inacessível ao público. Pelo menos duas centenas de TRO analisados no Complexo do Alemão terminaram com o suspeito liberado por não constar nada contra ele.

É nesta situação em que melhor se percebe a violação da lei perpetrada pelo agente da lei, em nome da lei, de forma violenta, abusiva e extrajudicial. Confirma-se dramaticamente a hipótese de uma nova ordem jurídica, na qual leis especiais são aplicadas a determinados indivíduos, num território sob estado de exceção. A ação do agente policial se dá ao mesmo tempo dentro e fora da lei. Fora da lei quando conduz sob custódia o indivíduo sem flagrante ou mandado de prisão, mas dentro da “lei” que se aplica àquele território. O procedimento é tão naturalizado que o policial ignora o conhecimento que tem da lei, ou desconsidera a lei, e os abordados reagem com irritação ou medo, mas também não questionam a legalidade da ação. A polícia e os indivíduos, mesmo debaixo dos protestos de alguns – especialmente ligados a ONGs, entidades defensoras dos Direitos Humanos ou intelectuais – convivem numa prática em que se espera que a regulação do cotidiano seja executada através de uma ordem jurídica própria.


Enquanto nas abordagens o agente do Estado suspende a lei em nome da “lei” e da segurança, nas negociações para a liberação de eventos, a atuação policial é paternalista e pretensamente civilizadora, imbuída da missão de gerir a moral e os costumes das populações faveladas.

Desde 2013, o projeto das UPPs, inicialmente aclamado como a grande solução para o problema da segurança pública em território nacional, entrou numa profunda crise interna e externa. Aumentaram os confrontos armados entre policiais e traficantes nas favelas com UPPs, onde arrefeceu o tráfico de drogas – que, de fato, nunca deixou de existir nessas localidades. A violenta ação policial ao longo das manifestações populares acontecidas a partir de junho, assim como na greve dos professores municipais no mesmo ano, maculou ainda mais a imagem da Polícia Militar. Por fim, ganhou importância simbólica o “caso Amarildo”, ocorrido na UPP da Rocinha: um auxiliar de pedreiro, Amarildo Dias de Souza, desaparece e depois se descobre que ele foi torturado e morto dentro da sede da UPP, e que entre os assassinos estava o próprio comandante da Unidade, um dos mais “respeitados” da instituição.

Em março de 2014, noticiou-se a ocupação militar do Complexo da Maré, também na zona norte. A Justiça expediu um mandado coletivo autorizando os policiais civis a revistarem a casa de todos os moradores destas favelas. A medida confirma a tendência do governo de decretar para uma coletividade o “estado de exceção”, que anula os direitos individuais e vê os moradores como potencialmente suspeitos de serem criminosos. A fim de evitar os “saques” ocorridos no Complexo do Alemão, somente os delegados poderão fazer esta revista.

Ao que tudo indica, a chegada das UPPs ao Complexo da Maré parece repetir, quatro anos depois, as arbitrariedades ocorridas na ocupação do Complexo do Alemão.

Vinicius Esperança é professor da Universidade Candido Mendes e autor da dissertação “‘O foco de todo mal’: estado, mídia e religião no Complexo do Alemão” (UFRRJ, 2014).

Saiba mais:
AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. Tradução de Iraci D. Poleti. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2004.
AMORIM,Carlos.ComandoVermelho:Ahistóriasecretadocrimeorganizado.RiodeJaneiro:Record,1993.
CABANES, Robert et al. (orgs.). Saídas de emergência: ganhar/perder a vida na periferia de São Paulo. Tradução de Fernando Ferrone e Cibele Saliba Rizek. São Paulo: Boitempo, 2011.
LIMA, Carlos Alberto de. Força de Pacificação: Os 583 Dias da Pacificação dos Complexos da Penha e do Alemão. Rio de Janeiro: Agência 2ª Comunicação, 2012.
Revista de História da Biblioteca Nacional

Inventos da Antiguidade - Medicina Primitiva



Saiba como a sanguessuga era usada antigamente como elemento de cura e veja seus efeitos em um paciente vivo. Investigue os campos de batalha romanos e suas técnicas e instrumentos cirúrgicos. Veja também como o veneno de uma serpente era usado como remédio no mundo antigo, uma técnica que os médicos atuais estão aprendendo a utilizar novamente.

domingo, 9 de novembro de 2014

Populismo: os itinerários de uma palavra errante


UMA MESMA ETIQUETA PARA TODOS OS OPOSITORES DA AUSTERIDADE

As eleições europeias de maio testemunharam a ascensão dos partidos hostis às políticas adotadas na União Europeia. Mas, além dessa oposição, nada une essas formações: umas atualizam a ideologia nacional conservadora da extrema direita, enquanto as outras se reivindicam como esquerda radical – uma distinção negligencia
por Gerard Mauger

As vésperas da eleição europeia de 25 de maio de 2014, durante seu último encontro de campanha em Villeurbanne, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, lançava solenemente um chamado à “insurreição democrática contra os populismos”. “Populismo”: quem não ouviu cem vezes estalar na boca dos pesquisadores de opinião, dos jornalistas ou dos sociólogos essa palavra-baú na qual jogamos de qualquer jeito a oposição – de direita ou de esquerda, votantes ou abstencionistas – às políticas colocadas em andamento pelas instituições europeias?

A inconsistência do substantivo “populismo” deriva em parte da diversidade de suas utilizações. No mundo político, a história do rótulo revela a extensão do espectro que ele recobre: da visão encantada dos camponeses que parodia o populismo russo (narodniki) à revolta dos fazendeiros do People’s Party nos Estados Unidos no fim do século XIX; dos populismos latino-americanos (Getúlio Vargas no Brasil, Juan Perón na Argentina) ao macarthismo; do pujadismo ao lepenismo no século XX; de Vladimir Putin a Hugo Chávez na era da globalização; do United Kingdom Independence Party (Ukip) à Aurora Dourada na Europa do século XXI; ou de Marine Le Pen a Jean-Luc Mélenchon na França de hoje. Essa última confusão, hoje banalizada, foi ilustrada (em sentido literal) pelo desenhista Plantu na revista semanal L’Express (19 jan. 2011), quando ele representou a dirigente do Front National (FN) e o copresidente do Front de Gauche [Frente de Esquerda] (FG) com o braço levantado, ambos portando ostensivamente uma braçadeira vermelha e lendo o mesmo discurso: “Todos podres!”.

No campo literário, a palavra “populismo” apareceu em francês em 1929: “postura assumida de escrita” insurgida contra o romance burguês, mas apolítico, oposta aos escritores comunistas e a suas imagens ingênuas do proletariado, esse movimento literário propunha-se a “descrever simplesmente a vida das ‘pessoas simples’”.1

No universo das ciências sociais, levada por uma intenção política de reabilitação do popular, ela aplica o relativismo cultural ao estudo das culturas dominadas (VolkskundeouProletkult). Ignorando ou diminuindo a importância das relações objetivas de dominação, ela credita às culturas populares uma forma de autonomia e celebra sua resistência, até inverter os valores dominantes e proclamar a “excelência do vulgar”. Mas ela também se opõe a uma forma corrente de desprezo que relaciona as classes dominadas à falta de cultura, à natureza e até mesmo à barbárie. Característica da burguesia e da pequena burguesia culta, esse racismo social baseia-se na “certeza própria a uma classe de monopolizar a definição cultural do ser humano, e então dos homens que merecem ser plenamente reconhecidos como tais”.2

Duas visões de povo

Ao circular assim de um campo ao outro, de um século ao outro, de um continente ao outro, o rótulo parece ter perdido qualquer consistência. Dessa forma, aqueles que se dedicam a explicar seu sentido cometem, segundo as palavras do filósofo Ludwig Wittgenstein, um erro clássico: “tentar, por trás do substantivo, encontrar substância”.3Pretender, pois, definir o populismo, como propõe o cientista político Pierre-André Taguieff,4 como uma nomenclatura relacionada diretamente ao povo não exclui evidentemente ninguém no seio das sociedades ocidentais: tal procedimento é inerente à democracia, “governo do povo, pelo povo e para o povo”. E, mesmo se reservarmos o rótulo populista a um estilo de denominação que privilegie a proximidade e cultive o carisma do chefe fortemente reforçado pela propaganda televisiva, não podemos enxergar com nitidez qual dirigente atual poderia escapar a ele.5 Além do mais, definir o populismo como um encorajamento à revolta contra as “elites” (econômicas, políticas, midiáticas) levaria a incluir ao número de suspeitos François Hollande, quando, na tribuna do Bourget, em 22 de abril de 2012, ele denunciou seu “verdadeiro adversário: o mundo das finanças, que não tem nome, não tem rosto”, e Nicolas Sarkozy atacando vigorosamente em Toulon um “capitalismo financeiro que se tornou louco por não estar submetido a nenhuma regra” (25 set. 2008).

A cientista política Nonna Mayer estima que a característica mais bem partilhada pelos movimentos europeus qualificados como populistas nas análises pós-eleitorais seria a xenofobia:6 no “mosaico eurofóbico” composto pelo jornal Le Monde (28 maio 2014), catorze dos dezesseis partidos mencionados são anti-imigrantes. Todavia, editorialistas, assimilando a contestação das instituições europeias a uma forma de hostilidade aos estrangeiros, colam também a etiqueta de populista nas esquerdas radicais grega, espanhola e francesa (Syriza, Podemos, FG), que, no entanto, são pouco suspeitas de racismo. É preciso então se perguntar sobre suas representações do povo e questionar a substituição de um rótulo por outro.

Esquematicamente, podemos distinguir três figuras do “povo”.7 “Populismo” deriva do latim populus, e “democracia” se forma sobre a raiz grega dêmos, as duas palavras significando “povo”. O povo ao qual faz referência a democracia é o corpo cívico em seu conjunto, o povo-nação, de onde surge um desvio sempre possível para o nacionalismo – do qual uma forma contemporânea, menos fustigada que a outra, exalta a “competitividade da França num mundo globalizado”. Já o povo ao qual se dirigem os populistas corresponde a duas definições distintas.

Na versão de direita, ele é mais ethnosque dêmos: povo invadido ou ameaçado de invasão, ele se opõe ao estrangeiro e ao imigrante. Mais ou menos abertamente xenófobo e, na França contemporânea, antiárabe ou islamofóbico, ele defende a identidade do povo-ethnos, suposta e culturalmente intacta e homogênea, contra as populações oriundas da imigração e tidas como inassimiláveis. Ele se apresenta como nacional. Dessa forma, mesmo que opostas quanto à Europa e à globalização, as estratégias eleitorais da União por um Movimento Popular (UMP) e do FN são idênticas. Para selar uma aliança a prioriimprovável, mas eleitoralmente necessária, com as classes populares, trata-se, nesta versão de direita, de substituir sua visão do mundo – “eles (os de cima)”/“nós (os de baixo)” – por uma abordagem opondo um “nós (os de baixo)” àqueles “que não trabalham e não querem trabalhar” (desempregados, imigrantes, beneficiados por ajudas sociais); em suma, a um “eles” abaixo de “nós”.8 Reativamos assim o conflito latente entre estabelecidos e marginais9 ao jogarmos com o medo do rebaixamento de classe.

A afiliação reivindicada dos meios populares às classes médias, a ostentação da honestidade e a estigmatização moral dos delinquentes e dos “preguiçosos” permitem se distinguir da representação dominante que assimila classes trabalhadoras e classes perigosas. É por isso que a direita propõe medidas como a limitação da imigração dita “de trabalho” e manifesta sua vontade de estabelecer um teto à renda dos beneficiários dos auxílios sociais e de obrigá-los a realizar trabalhos de interesse geral. Ela preserva assim a especificidade daquele que “trabalha duro” e favorece a aliança entre uma fração declinante das classes dominantes (o pequeno patronato) e a fração estabelecida das classes populares.

Na versão de esquerda, ao contrário, o povo designa o povo operário, o povo simples celebrado por Jules Michelet, o povo-plebe, “os de baixo” e, num plano político, o povo mobilizado, oposto aos de cima, à burguesia, às classes dominantes, ao establishment, aos privilegiados, aos detentores dos poderes econômico, político, midiático etc.

Quanto aos contornos de “povo popular”, se a classe operária foi por muito tempo o centro, a vanguarda (o populismo tornando-se então “operariarismo”), eles incluem também os empregados – mulheres, em sua esmagadora maioria – e, para além disso, uma fração mais ou menos extensa dos camponeses e da pequena burguesia (professores, funcionários da área de saúde, técnicos, engenheiros etc.). Em outras palavras, no caso francês, mais de três quartos dos ativos, dos quais apenas os operários e os empregados representam a metade. “Somos o partido do povo”, dizia o dirigente comunista Maurice Thorez em 15 de maio de 1936 (antes que esse partido se tornasse, muitas décadas depois, o das “pessoas”, segundo Robert Hue). Com inspiração mais ou menos marxista, esse tipo de “populismo”, defensor das classes populares enquanto exploradas, oprimidas, em luta contra as classes dominantes, apresenta-se frequentemente como socialista. As representações que servem de base para as denominações do povo-ethnos(populismo nacional) e aquelas que invocam ao contrário o “povo popular” (populismo socialista) se opõem como a direita se opõe à esquerda. Mas os advogados de um populismo popular cultivam com boa vontade – tanto por convicção quanto por necessidade – uma visão encantada, por vezes estetizante, de um povo idealizado. Eles dão ao “homem comum”, trabalhador explorado e dominado, uma reivindicação espontânea de igualdade. Eles postulam um conjunto de virtudes indissociáveis do ethospopular tradicional: solidariedade, autenticidade, naturalidade, simplicidade, honestidade, bom senso, lucidez, até mesmo sabedoria. Essas qualidades estão cristalizadas na noção de “decência comum” (common decency) cara ao escritor britânico George Orwell: “Os trabalhadores manuais, em uma civilização industrial, possuem certo número de traços que lhes são impostos por suas condições de existência: a lealdade, a ausência de calculismo, a generosidade, o ódio aos privilégios. É com base nessas disposições que eles desenvolvem sua visão da sociedade futura, o que explica por que a ideia da igualdade está no coração do socialismo dos proletários”.10

Assim, não seria possível pretender que os discursos securitários e xenófobos do FN não tenham eco junto às classes populares. Nas últimas eleições europeias, mesmo que 65% dos operários tenham se abstido (como 68% dos funcionários públicos e 69% dos desempregados), mais de 40% daqueles que votaram teriam escolhido esse partido, ou seja, cerca de 15% desse grupo em sua totalidade (segundo o instituto Ipsos). É ao mesmo tempo pouco e muito: se é verdade que o maior partido das classes populares ainda é o da abstenção,11 uma parte delas vota à extrema direita, convencida de que “ninguém faz nada por elas e que ‘aqueles’ de cima e ‘aqueles’ de baixo prosperam à sua custa”.12 Nesse caso, o sucesso da oferta do FN ilustra a capacidade do partido em manter a confusão entre o povo ethnos e o povo dêmos, e em formar entre as frações de classes médias e de classes populares uma aliança dirigida ao mesmo tempo contra os muito pobres e os muito ricos – uma estratégia também usada na Rússia por Putin.

Um povo que vota mal entregue às suas pulsões

Esse tipo de projeto político aproveita-se do “racismo de classe” que manifestam até mesmo sem se dar conta aqueles que o comentam. Sob suas plumas, esse povo que vota mal, implicitamente reduzido ao estado de populacho, patinaria em uma propensão inata ao fechamento, ao ensimesmamento, em um ressentimento adquirido de mau aluno diante das elites (o que seria atestado por seu nível baixo de diploma) e de uma incultura política: suas pulsões, sua credulidade, sua irracionalidade supostas o levariam em direção às propostas simplistas e fariam dele uma presa fácil para os demagogos. Ao contrário, esse discurso reserva às ditas elites as virtudes de abertura, inteligência, sutileza e superioridade moral. A denúncia do povo popular, encarnado pela figura do “beauf”,13 machista, homofóbico, racista, islamofóbico etc., renova assim a filosofia conservadora do fim do século XIX e sua desconfiança das multidões e da democracia – as de Hippolyte Tainte e de Gustave Le Bon. Ela deduz essas torpezas pela simples inversão das virtudes que credita às “elites”, as quais, por construção, são suposta e rigorosamente impermeáveis a esse tipo de desvio.

Desse modo, hoje como ontem, duas representações diametralmente opostas do populismo se enfrentam: o racismo de classes de uns serve para denunciar o populismo dos outros. 

Gerard Mauger
Diretor de pesquisa emérito do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS − Centre Nationalde la Recherche Scientifique). Recentemente, publicou La sociologie de la délinquance juvénile[A sociologia da delinquência juvenil], Paris, La Découverte, Col. Repères, 2009.
Ilustração: Dahmer
1 Philippe Roger, “Le roman du populisme” [O romance do populismo], Critique (especial “Populismes”), n.776-777, Paris, jan.-fev. 2012.
2 Claude Grignon e Jean-Claude Passeron, Le savant et le populaire [O sábio e o popular], Seuil, Paris, 1989.
3 Ludwig Wittgenstein, Le Cahier Bleu et le Cahier Brun [O Livro Azul e o Livro Marrom], Gallimard, Paris, 2004.
4 Pierre-André Taguieff, L’illusion populiste. De l’archaïque au médiatique [A ilusão populista. Do arcaico ao midiático], Berg International, Paris, 2002.
5 Ler Serge Halimi, “Le populisme, voilà l’ennemi!” [O populismo, eis o inimigo!], Le Monde Diplomatique, abr. 1996.
6 Nonna Mayer, “Le populisme est-il fatal?” [O populismo é fatal?], Critique, op. cit.
7 É o que propõe Jacques Rancière com “L’introuvable populisme” [O populismo impossível de ser encontrado]. In: Alain Badiou et al., Qu’est-ce qu’un peuple? [O que é um povo?], La Fabrique, Paris, 2013. Quanto às “Vinte e quatro notas sobre a utilização da palavra povo”, propostas na mesma obra por Alain Badiou, podemos sem dificuldade reduzi-las a três: “nacional”, “operário” e “racial”.
8 Cf. Robert Castel, “Pourquoi la classe ouvrière a perdu la partie” [Por que a classe operária perdeu o jogo]. In: La montée des incertitudes. Travail, protections, statut de l’individu [O crescimento das incertezas. Trabalho, proteções, estatuto do indivíduo], Seuil, 2009.
9 Sobre essa distinção entre established e outsiders, cf. Norbert Elias e John L. Scotson,Logiques de l’exclusion. Enquête sociologique au cœur des problèmes d’une communauté[Lógicas da exclusão. Pesquisa sociológica no coração dos problemas de uma comunidade], Fayard, Paris, 1997 (1. ed.: 1965).
10 New English Weekly, Londres, 16 jun. 1938. Citado por Jean-Claude Michéa, Orwell, anarchiste tory [Orwell, anarquista conservador], Climats, Castelnau, 2000.
11 Ler Céline Braconnier e Jean-Yves Dormagen, “Ce que s’abstenir veut dire” [O que se abster quer dizer], Le Monde Diplomatique, maio 2014.
12 Robert Castel, op. cit.


13 O “beauf” é um personagem de história em quadrinhos inventado por Cabu nos anos 1970. Ele encarna um tipo ideal de racista, sexista e homofóbico. Na mesma época, Les Bidochon, HQ desenhado por Binet, apresentava personagens do mesmo tipo.
Le Monde Diplomatique Brasil

O atentado de Sarajevo, pretexto para reescrever a história

Segundo uma análise cada vez mais difundida, o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro provocou a Primeira Guerra Mundial. Ao conferir um lugar central à política sérvia no início do conflito, essa leitura ajuda a criar a imagem sóbria dos Bálcãs e oculta as causas reais da carnificina de 18 milhões de mortos
por Jean-Arnault Dérens


sorte da Europa foi lançada em Sarajevo no dia 28 de junho de 1914? Nessa data, um jovem nacionalista “iugoslavo”, Gavrilo Princip, membro da organização secreta Jovem Bósnia, manipulada por certas facções do serviço secreto do reino da Sérvia, assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro da coroa do Império Austro-Húngaro, e sua esposa, a condessa Sofia Chotek.

A memória desse gesto mortal se manteve viva durante todo o século XX em diversas interpretações contraditórias. Em 1941, quando acabavam de penetrar em Sarajevo, oficiais nazistas arrancaram a placa comemorativa que havia no local do drama e a ofereceram a Hitler na ocasião de seu aniversário. Após a Libertação, sob a Iugoslávia socialista, uma nova placa foi instalada no mesmo lugar, com a pegada de Gavrilo Princip gravada no concreto. A Iugoslávia socialista considerava o jovem revolucionário – morto de tuberculose na prisão em 1918 – um “herói” e um “libertador”. No próximo dia 28 de junho, a prefeitura de Sarajevo planeja erigir um novo monumento à memória do arquiduque assassinado e inaugurar um busto de Gavrilo Princip em Belgrado, no Parque Kalemegdan.

Qual importância é conveniente conferir a seu gesto mortal? Em seu best-seller internacional, Les somnambules,1 o historiador britânico Christopher Clark propõe uma releitura das causas da guerra que, segundo ele, não era inevitável. O atentado de Sarajevo não teria servido apenas de pretexto para o Império Austro-Húngaro declarar, em 28 de julho, guerra contra a Sérvia – cujo jogo de alianças teria culminado no primeiro conflito mundial; teria desempenhado também o papel de disparador da guerra.

Reavaliar dessa forma a importância do atentado de Sarajevo conduziu o historiador a conferir uma responsabilidade central à política sérvia nos acontecimentos que precipitaram a Europa para a guerra. A questão de uma eventual unificação dos povos eslavos do sul – “iugo” significa sul – agitava os Bálcãs naquele momento, assim como as possessões territoriais austro-húngaras. A tutela (1878) e, principalmente, a anexação (1908) da Bósnia-Herzegovina haviam deteriorado seriamente as relações entre Viena e Belgrado.

Vingança ideológica do Ocidente

A abordagem escolhida pelo historiador, contudo, leva-o a relativizar a importância dos interesses imperialistas das “grandes potências” nos Bálcãs, que não queriam dividir os restos do Império Otomano que agonizava. Em vez disso, Clark retoma longamente as circunstâncias trágicas do golpe de Estado de 1903, com a deposição da dinastia sérvia dos Obrenovic e a ascensão da dinastia dos Karadjordjevic. O massacre dos membros da família real deposta provaria uma verdadeira “barbárie” sérvia, além de uma tendência ao regicídio, que o atentado de Sarajevo viria a confirmar.

Os historiadores sérvios se defenderam ao denunciar o que qualificaram como “revisionismo histórico”. Alguns nacionalistas entenderam o recado como “vingança ideológica” do Ocidente, que ainda desejaria punir os sérvios pelas guerras dos anos 1990. Mas as críticas abundam amplamente nos setores nacionalistas. O escritor e jornalista bósnio Muharem Bazdulj também estigmatiza essas reescrituras da história ao denunciar a confusão voluntária que essa leitura histórica faz dos conceitos de “nacionalismo sérvio” e “aspiração iugoslava”.2 Segundo ele, a “reabilitação” do Império Austro-Húngaro teria como objetivo, por consequência, negar qualquer legitimidade à experiência iugoslava. No momento de comemoração de seu centenário, no dia 28 de junho próximo, o projeto “Sarajevo, coração da Europa”, financiado pela União Europeia, exalta o “modelo” da reconciliação franco-austríaca, silenciando a ambição iugoslava de vida comum.

A retirada de “pequenos detalhes”

Amplamente repercutida nos meios de comunicação, a visão de Clark conforta uma imagem “negra” dos Bálcãs. No início dos anos 1990, o jornalista Robert D. Kaplan havia publicado Balkan ghosts,3 que exerceu uma profunda influência sobre a percepção dos Bálcãs por parte dos norte-americanos. Aí já estava a sugestão de que as verdadeiras raízes da Primeira Guerra Mundial deveriam ser buscadas nessa região. A Segunda Guerra Mundial, por sua vez, teria sido apenas uma consequência da primeira, e aí residiria a causa de todos os problemas da Europa no século XX. Nessa linha de pensamento, a “matriz ideológica” tanto do fascismo como do comunismo poderia estar no nacionalismo sérvio e croata...

De acordo com a historiadora búlgara Maria Todorova, esse imaginário ocidental dos “Bálcãs selvagens”4 permite definir, por contraste, a “verdadeira” Europa: ocidental, moderna, civilizada. Contudo, foi nas trincheiras da guerra de 1914 que, pela primeira vez na história, os jovens croatas e os jovens sérvios receberam ordens de matarem-se entre si: os primeiros vestiam o uniforme austro-húngaro, enquanto o governo dos segundos era aliado da França e da Grã-Bretanha.

A inversão de valores é explícita em um texto do jornalista italiano Domenico Quirico: “Sarajevo é o coração das trevas, e há cem anos a consciência europeia agoniza nos escombros de seu universo. É preciso vir aqui, aos Bálcãs, para compreender os egoísmos irracionais que a assassinaram”.5 Se essas palavras possuem algum sentido, é preciso compreender que são as “trevas” de Sarajevo que obscurecem há um século a “consciência europeia”, e os “egoísmos irracionais” dos Bálcãs que “assassinaram” essa Europa. Retiram-se da leitura histórica, assim, “detalhes” pouco importantes como os choques imperialistas, o colonialismo, o fascismo, o nazismo. A fonte primeira de todos os males do século XX foi finalmente encontrada: é essa terra “ensopada de sangue” que constitui os Bálcãs. 

Jean-Arnault Dérens redator-chefe do Courrier des Balkans.

1 Christopher Clark, Les somnambules. Été 1914: comment l’Europe a marché vers la guerre[Os sonâmbulos. Verão de 1914: como a Europa caminhou em direção à guerra], Paris, Flammarion, 2013.
2 Ler Muharem Bazdulj, “Attentat de Sarajevo: Gavrilo Princip, Hitler et l’idée yougoslave. Entretien avec Vuk Mijatović” [Atentado de Sarajevo: Gavrilo Princip, Hitler e a ideia iugoslava. Entrevista com Vuk Mijatović], Le Courrier des Balkans, 25 nov. 2013.
3 Robert D. Kaplan, Balkan ghosts: a journey through history [Fantasmas dos Bálcãs: uma jornada pela história], Picador, Nova York, 2005.
4 Maria Todorova, Imaginaire des Balkans [Imaginário dos Bálcãs], Paris, Éditions de l’Ehess, 2011.
5 Domenico Quirico, “À Sarajevo, la conscience de l’Europe râle sous les décombres” [Em Sarajevo, a consciência europeia agoniza em seus escombros], La Stampa/Le Monde, suplemento Europa, 16 jan. 2014.
Le Monde Diplomatique Brasil

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A Peste Negra



Tudo começa quase como um resfriado comum. Dentro de um dia aparecem a febre, as manchas pretas do tamanho de bolas de bilhar no pescoço, e então a tosse com sangue. Poucos viveram mais de dois dias após o início da infecção, e muito rapidamente o destino dos corpos tornou-se um problema.

Guia Politicamente Incorreto do Brasil - Leandro Narloch