domingo, 28 de novembro de 2010

A revolução nos cafés

Edouard Manet
Au Café (1878)
A revolução nos cafés
Ao sabor de doces e quentes goles de chá e café, conspirações viraram revoluções, conversas tornaram-se vanguardas artísticas e clientes assíduos, heróis políticos lembrados até hoje
por Lia Hama
Armado com duas pistolas, o revolucionário Camille Desmoulins dirige-se inflamado à multidão: “Às armas, cidadãos!”. O cenário é o Café de Foy, em Paris, um dos muitos locais onde os iluministas – os intelectuais que estabeleceram o racionalismo e os ideais democráticos da Europa do século 18 – se encontravam para articular a ação contra o regime monárquico francês. Dois dias depois, em 14 de julho de 1789, os parisienses tomaram a Bastilha, onde ficavam os prisioneiros políticos do Antigo Regime. E tem início a Revolução Francesa. Bastidores de acontecimentos históricos como esse, os cafés europeus se tornaram ao longo dos séculos 17 e 18 um ponto de encontro e troca de idéias entre políticos, escritores, cientistas e homens de negócios. Foi ao redor de suas mesas que Danton, líder da Revolução Francesa, ou Lênin, o maior líder comunista da Rússia, conheceram seus companheiros e tramaram ações. E onde freqüentadores comuns, ao preço de uma xícara de café, podiam se informar sobre as últimas fofocas da corte, ler notícias de outros países, assistir a palestras científicas, fechar negócios e discutir política e literatura. Os cafés eram, enfim, um inédito espaço público onde a informação circulava livremente.
Diferentemente das tabernas, onde se vendiam bebidas alcoólicas, os cafés eram ambientes de sobriedade, muitas vezes decorados com prateleiras de livros. “Em meados do século 17, não apenas o chá – o primeiro a ser popular – mas também o chocolate e o café se tornaram bebidas comuns pelo menos entre as camadas mais altas da população”, afirmou, no livro Mudança Estrutural da Esfera Pública, o filósofo alemão Jürgen Habermas, ele próprio um assíduo freqüentador das casas. Originário da Etiópia, o café foi rapidamente assimilado pelos europeus. Era, por excelência, a bebida do racionalismo, tão em voga naquela época. Sóbrias e tranqüilas, as casas de café propiciavam conversas e discussões polidas em contraste com a vulgaridade do ambiente das tabernas. Clérigos, escritores e empresários viram no consumo da bebida uma ótima forma de estimular a atividade mental.
Na primeira década do século 18, Londres já tinha cerca de 3 mil coffee houses, todas com seus círculos de freqüentadores, sempre homens. Cada estabelecimento atraía um tipo de clientela, geralmente de acordo com a localização. Os cafés em torno do Palácio de Westminster, a sede do Parlamento Britânico, eram freqüentados por políticos; os de perto da Catedral St. Paul, por clérigos e teólogos; os vizinhos da Bolsa de Valores, por homens de negócios. Em torno do Lloyd’s se reuniam donos de navios, capitães e mercadores, que iam ao local para saber das últimas novidades do comércio marítimo. Edward Lloyd, dono do estabelecimento, começou a reunir as informações numa espécie de jornalzinho distribuído para assinantes. Bem informado sobre as oportunidades do negócio, ele decidiu fundar, em 1688, uma seguradora que dava cobertura aos mercadores que perdiam seus navios no mar. Com mais de três séculos de existência, a Lloyd’s é hoje uma gigante do setor.
Além de ponto de encontro, muitos cafés funcionavam como endereço para correspondências dos leitores. Era o caso de Richard Steele, editor do jornal britânico Tatler. Steele usava o café Grecian como seu escritório e era lá onde recebia suas cartas. Quando a primeira edição do Tatler foi publicada, em 1709, os cafés na Europa eram tão numerosos e os círculos de seus freqüentadores tão amplos, que os contatos entre esses milhares de grupos só podiam ser feitos por meio de jornais. Foi a partir dessa necessidade que muitos deles surgiram. Rapidamente os artigos de jornais se tornaram objeto de discussão do público das casas. Ao mesmo tempo, refletiam os debates que aconteciam nesses locais. “No Tatler, no Spectator e no Guardian o público tinha um espelho de si mesmo”, afirmou Habermas, em Mudança Estrutural na Esfera Pública. Como bem definiu a revista britânica The Economist, essa rede de troca de informações entre os cafés europeus formava “a internet da era iluminista”.
Revolução e espionagem
Em Paris, esse ambiente de discussões acaloradas suscitou a desconfiança do poder. Para acompanhar o que se fazia e o que se falava nos cafés, o rei Luís XVI enviava espiões em busca de possíveis complôs contra ele. Qualquer um que exagerasse ao falar contra o Estado corria o risco de ser arrastado para a Bastilha, cujos arquivos reuniam centenas de conversas colhidas por informantes. A desconfiança não era sem fundamento. “O clube dos jacobinos [o maior e mais radical partido político da Revolução] tomava decisões nesses locais. Reunidos, eles escreviam textos que saíam publicados nos cadernos da Enciclopédia e lançavam verbetes críticos ao Antigo Regime”, afirma a historiadora Vera Lúcia Vieira, da PUC de São Paulo.
Mas Luís XVI deveria ter se preocupado mais com as conversas dos cafés parisienses. Se tivesse agido assim em 1789, poucos meses antes da queda da Bastilha, talvez não fosse guilhotinado, três anos depois, a mando de assíduos freqüentadores de cafés, como Danton, Marat e Robespierre. Quando eram advogados ou estudantes, esses líderes da Revolução Francesa, temidos por toda a Europa aristocrática, travaram seus ideais no Le Procope. Fundada em 1686 e tida como a mais antiga de Paris, essa casa tornou-se um quartel-general dos jacobinos. “Aqueles que se reuniam no Le Procope viram, com um brilho penetrante no fundo de sua bebida preta, a iluminação do ano da revolução”, afirmou o historiador francês Jules Michelet em História da Revolução Francesa.
No século 20, os cafés parisienses voltariam a abrigar revolucionários de calibre. Exilado pelo regime czarista antes da Revolução Russa, Lênin passou os anos de 1909 e 1910 na cidade, freqüentando a Biblioteca Nacional da França e os cafés da margem esquerda do rio Sena, como o Rotunda e o Dôme. Passava noites nessas casas, discutindo com Leon Trotsky, outro comunista exilado, os rumos da Rússia e as brechas do governo do czar Nicolau II. Suas idéias foram colocadas em prática a partir da Revolução de 1917.
Vanguardas
Com a ampliação das ruas de Paris e a construção das grandes avenidas e bulevares, os cafés cairiam de vez na moda, de onde não sairiam mais. Tantas pessoas ficavam nas mesas observando o movimento da rua que o fenômeno inspirou o comentário do escritor francês Émile Zola sobre “as grandes multidões silenciosas vendo a rua viver”. Esse novo impulso dos cafés acompanhou a ascensão das vanguardas artísticas, cujos representantes tinham tempo e dinheiro de sobra. Na década de 20, as atrações dos cafés passaram a ser surrealistas como Salvador Dalí e o poeta Jean Cocteau. Mas o principal quartel-general dos vanguardistas estava em Zurique, na Suíça: o Cabaré Voltaire, fundado em 1916 pelo poeta alemão Hugo Ball. O local foi o celeiro do dadaísmo, movimento artístico liderado pelo poeta romeno Tristan Tzara, que pregava uma arte livre das amarras do racionalismo. Como o revolucionário Camille Desmoulins, que dois séculos antes conclamou seus ouvintes a saírem às ruas, Tzara gritava manifestos contra o funcionalismo e pela liberdade da arte. Ao sabor de goles quentes de café.

Conversa de botequim
No Brasil, tabernas e cafés se uniram em um só lugar: os bares de esquina
Se os cafés são parte essencial da vida social na Europa, o que dizer dos botequins no Brasil? Boa parte da história e da cultura brasileira está ligada aos bares espalhados pelas ruas do país. “O bar sempre foi o local onde se realizam trocas sociais. É onde as pessoas falam sobre a vida privada e sobre a política local. Como o café, é o espaço da troca de informação, da vida pública e da sociabilidade por excelência”, diz a socióloga Lúcia Helena Gama, autora de Nos Bares da Vida. A diferença é que, no Brasil, o álcool não foi empecilho para discussões políticas como na Europa. Pelo contrário. Por aqui, os botecos de esquina uniram o ambiente despojado das tabernas com a importância social dos cafés europeus. É caso do Riviera, em São Paulo, o principal ponto de encontro de bêbados e futuros presidentes da década de 60. Estava instalado num ponto perfeito para a juventude da época: a esquina da avenida Paulista com a rua da Consolação, em frente ao Cine Belas Artes e perto da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, então no bairro de Higienópolis. Sentaram nas cadeiras do Riviera, hoje decadente, mandachuvas da política e músicos como Fernando Henrique Cardoso, José Dirceu, Caetano Veloso e Chico Buarque. O bar formou até personagens tradicionais. Baseado nos seus clientes, o cartunista Angeli criou a Rê Bordosa, a balzaquiana carente dos quadrinhos.
A ditadura também rendeu histórias em botecos cariocas, como o ...De Fora, no bairro do Jardim Botânico. Comportando apenas cinco pessoas em pé, era freqüentado por artistas e jornalistas de esqueda. O próprio nome foi dado por um dos clientes, a atriz Leila Diniz. Certo dia, com um copo de batida de maracujá na mão, ela se cansou da falta de espaço: “Porra, quando a gente bebe aqui, fica com a bunda para fora!” “A frase pegou tanto que o Brandão, o dono, mandou botar no letreiro. Acontece que os milicos – estávamos em plena ditadura militar – não gostaram. No dia seguinte, mandaram mudar o nome.
O português botou ‘B. de Fora’. Os milicos acharam pouco e finalmente ficou ‘... de Fora’”, afirma o cartunista Jaguar em Confesso que Bebi.Muito antes da ditadura, os bares cariocas abrigaram a invenção do principal estilo musical brasileiro: o samba. Neles, muitas das primeiras letras de samba foram escritas, como Conversa de Botequim, de Noel Rosa. Um dos principais compositores do estilo, Noel conheceu num bar da Lapa a dançarina Ceci, que inspirou canções como Pra que Mentir e Último Desejo. Ele só largou os bares cariocas em 1935, quando, tubercoloso, foi tratar-se em Belo Horizonte. Mas tornou-se um cliente assíduo dos bares mineiros.

Saiba mais
Livros
Mudança Estrutural da Esfera Pública, Jürgen Habermas, Tempo Brasileiro, 2003 - Descrição do espaço público como local de formação de opinião contra ou a favor dos governantes
História da Vida Privada – Da Renascença ao Século das Luzes, Philippe Ariés e Roger Charier, Companhia das Letras, 1991 - Compêndio revelador e preciso sobre a mudança dos costumes e seu significado histórico
Confesso que Bebi – Memórias de um Amnésico Alcoólico, Jaguar, Record, 2001 - Contando suas experiências nos bares, Jaguar mostra a importância deles na oposição à ditadura
Nos Bares da Vida – Produção Cultural e Sociabilidade em São Paulo – 1940-1950, Lúcia Helena Gama, Senac, São Paulo, 1998 - Estudo acadêmico sobre a importância dos bares como espaço público informal do Brasil

Revista Aventuras na História

Grécia antiga, a era do vinho

Grécia antiga, a era do vinho
Jornalista inglês propõe dividir a história conforme a bebida preferida de cada época. Os gregos eram movidos a vinho
Idade da Pedra, Idade do Bronze, Idade do Ferro. Essa divisão de períodos históricos foi criada por arqueólogos. Eles se basearam no impacto do uso de cada um desses materiais na vida dos seres humanos ao longo dos tempos. Mas uma outra divisão, um pouco mais fluida, também é possível – e muito mais saborosa.
Por exemplo: há aproximadamente 5500 anos, quando o Oriente Médio ainda estava entrando na Idade do Bronze, as populações daquela região estavam em plena era da... cerveja.
Dividir a história do mundo em períodos dominados por determinadas bebidas: é isso o que propõe o jornalista inglês Tom Standage, editor da respeitada revista britânica The Economist. No livro História do Mundo em Seis Copos, ele mostra como a cerveja foi decisiva para o desenvolvimento da agricultura e da escrita – ajudando, assim, o homem a sair da Pré-História.
Alguns milênios depois, o vinho esteve intimamente ligado ao desenvolvimento da filosofia grega.
“As bebidas tiveram uma conexão com o fluxo da história bem maior do que geralmente se reconhece”, afirma Standage no livro. “Elas sobrevivem em nossas casas como lembranças vivas de eras passadas, testamentos líquidos das forças que moldaram o mundo moderno.”

DE ONDE “VINHO”?
Essa bebida tão apreciada até hoje teria surgido entre 9000 e 4000 a.C. na região de Zagros (atuais Armênia e Irã). Os antigos faziam suco de uva amassando os grãos. Depois guardavam o líquido em recipientes de cerâmica. Em pouco tempo, o suco fermentava e se transformava em vinho.
A filosofia, a política, a ciência e a poesia da Grécia antiga, que até hoje servem de base para o pensamento ocidental, provavelmente não teriam ido tão longe sem o vinho. Era ele que ditava o ritmo nos simpósios, festas em que os participantes partilhavam uma grande taça de vinho diluído. Durante os debates acalorados, os bebedores tentavam superar um ao outro em inteligência. O filósofo grego Platão dizia que o vinho era uma ótima maneira de testar o caráter de um homem, submetendo-o às paixões despertadas pela bebida – como a raiva, o amor e a ambição.
O vinho tornou-se um dos principais produtos de exportação da Grécia antiga. Quando a expansão da cultura grega chegou à Sicília e à “ponta da bota” da Itália, essas regiões foram chamadas, na época, de Oenotri, a terra dos vinhos.

RASPADINHA
No verão, para refrescar, o vinho era misturado à neve guardada do inverno. Para que ela não derretesse, era empacotada com palha e mantida em buracos no solo.
Os gregos e os romanos tomavam vinho misturado com água. Beber vinho puro era considerado primitivo. O hábito foi trazido ao Brasil por imigrantes italianos nas primeiras décadas do século passado, mas o “suco de vinho” não pegou por aqui.
Outra curiosidade: um jogo grego chamado kottabos consistia em arremessar os últimos goles de vinho de uma taça em direção a um alvo – que podia ser ou uma taça boiando numa tigela de água ou uma pessoa.
PORRE HOMÉRICO
Na Ilíada, Homero descreve com lirismo a colheita de uvas durante o outono. O escritor fala também sobre o vinho do sacerdote Maro: um vinho tinto com a doçura do mel e tão forte que era diluído em água na proporção de 1:20.
No livro, quando foi aprisionado na costa da Sicília pelo ciclope Polifemus (ciclope era um gigante com um olho só no meio da testa), o herói Odisseu ofereceu-lhe o vinho de Maro como digestivo. Como o ciclope estava acostumado com o fraco vinho da Sicília, depois de provar o poderoso Maro caiu em sono profundo, o que deu a Odisseu a chance de arrancar o olho do monstro.
Hoje muitos restaurantes arrancam os olhos da cara dos fregueses ao cobrar fortunas por uma garrafa de vinho – como os 6500 reais pelo Château Petrus safra 1999 em um dos restaurantes mais badalados de São Paulo.

Revista Aventuras na História

sábado, 27 de novembro de 2010

Os expurgos de Stalin

Após a morte de Lênin, em 1924, seu mais provável sucessor era Leon Trotsky, escritor e orador brilhante, presidente do Soviet de Petrogrado durante a Revolução de Outubro e organizador do Exército Vermelho. Mas uma aliança oculta entre os dirigentes comunistas Zinoviev, Kamenev e Stalin assegurou-lhes a maioria no Politburo. Esse colegiado, que na prática dirigia o Partido Comunista, era então integrado pelos três e também por Trotsky, Tomsky e Bukharin. Assim, no melhor dos casos, uma proposta de Trotsky poderia empatar com outra do "triunvirato", sem ser aprovada. Desse modo, Trotsky foi alijado do processo de tomada de decisões.

Naquele momento, a figura preeminente do bloco era Zinoviev, presidente da Internacional Comunista (Comintern) desde 1919. Mas Stalin logo consolidou posições, apoiando-se na massa de militantes que zombava de conceitos como o internacionalismo proletário. A essa massa nacionalista e não raro antissemita, Stalin e Bukharin apresentaram, em 1925, uma tese capaz de seduzi-la: a "construção do socialismo em um só país". O socialismo seria filho da "Mãe Rússia".

Preocupados com esse fortalecimento, Zinoviev e Kamenev tentaram aproximar-se de Trotsky em 1926. Mas era tarde demais. Nesse mesmo ano, Zinoviev foi substituído por Bukharin na direção do Comintern. Em 1927, Trotsky foi expulso do partido, exilado no Cazaquistão em 1928 e banido da União Soviética em 1929. Ainda em 1929, Bukharin e Tomsky foram afastados do poder, e Stalin emergiu como o principal líder soviético. Mas a própria trajetória de Trotsky revela que Stalin ainda não ousava assassinar seus companheiros de partido, por mais que a polícia agredisse e prendesse os oposicionistas.

Poetas russos

Óssip Mandelstam
Em seu malfadado poema sobre Stalin, Mandelstam chama o líder soviético de "Highlander do Kremlin" (referência à Geórgia, país situado nas montanhas do Cáucaso, onde nasceu Stalin) que "está forjando suas regras e decretos como ferraduras" e para quem "todo assassinato é um prazer". Mais tarde, tentando salvar a pele, Mandelstam compôs uma "Ode a Stalin". Mas não foi o suficiente: muitos outros bardos faziam a mesma coisa, e o estadista já estava acostumado a bajulações.

Vladimir Maiakovski
Vladimir Maiakovski e muitos outros poetas e artistas plásticos aderiram de corpo e alma à revolução, criando cartazes de propaganda para o regime bolchevique e suas campanhas. Maiakovski fundou em 1923 a revista LEF (Frente de Esquerda), reunindo os que pretendiam aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social.

O poeta suicidou-se em 1930. No texto "O suicídio de Maiakovski", publicado em maio de 1930 no Boletim da Oposição Russa (publicação clandestina), Trotsky observa que:

"O aviso oficial, colocado pelo Secretariado [Stalin] numa linguagem de protocolo jurídico, apressa-se a informar que esse suicídio 'não tem nenhuma relação com as atividades sociais e literárias do poeta'. O que vale dizer que a morte voluntária de Maiakovsky não se relaciona com a sua vida ou, ainda, que a sua vida nada tinha em comum com a sua criação revolucionária e poética. É transformar a sua morte num fato fortuito. Isso não é verdadeiro nem necessário nem... inteligente! 'A barca do amor partiu-se na vida corrente', escreveu Maiakovsky, nos seus últimos versos. Em outras palavras, 'suas atividades sociais e literárias' cessaram de elevá-lo acima das confusões da vida quotidiana, para colocá-lo ao abrigo de golpes insuportáveis que o atingiam".

Maiakovski desistiu da vida após sofrer muitas pressões para aderir à Associação Soviética dos Poetas Operários, que propunha uma estética mais rude, bem diferente daquela da LEF. Seja como for, sua morte assinalou o fim da aproximação entre literatura e revolução.

Alexander Blok
O poeta lírico Alexander Blok, morto em 1921, viu com simpatias a Revolução de Outubro. No poema "Os doze", de 1918, compara os 12 apóstolos a 12 soldados bolcheviques que avançam com seus fuzis pelas ruas de Petrogrado durante uma tempestade de neve. "À frente vai Jesus Cristo", escreve Blok no verso final.

Outro famoso poema de Blok, "Os citas", também de 1918, salienta as contradições da revolução entre o internacionalismo e o nacionalismo. O poeta clama que a Europa civilizada se junte aos russos – aos citas, "asiáticos de olhos rasgados" – em verdadeira fraternidade. Mas adverte: "Se vocês nos menosprezarem, não vamos nos lastimar. Nós também não vemos crime na perfídia. E incontáveis gerações ainda por nascer amaldiçoarão a sua memória até o fim dos tempos. Abandonaremos a Europa e seu charme e retomaremos as habilidades e a astúcia dos citas. Correremos rápido pelas matas e florestas, e então olharemos para trás, e sorriremos nosso sorriso de olhos rasgados".
Revista Sala de Aula

Os expurgos de Stalin

Após a morte de Lênin, em 1924, seu mais provável sucessor era Leon Trotsky, escritor e orador brilhante, presidente do Soviet de Petrogrado durante a Revolução de Outubro e organizador do Exército Vermelho. Mas uma aliança oculta entre os dirigentes comunistas Zinoviev, Kamenev e Stalin assegurou-lhes a maioria no Politburo. Esse colegiado, que na prática dirigia o Partido Comunista, era então integrado pelos três e também por Trotsky, Tomsky e Bukharin. Assim, no melhor dos casos, uma proposta de Trotsky poderia empatar com outra do "triunvirato", sem ser aprovada. Desse modo, Trotsky foi alijado do processo de tomada de decisões.

Naquele momento, a figura preeminente do bloco era Zinoviev, presidente da Internacional Comunista (Comintern) desde 1919. Mas Stalin logo consolidou posições, apoiando-se na massa de militantes que zombava de conceitos como o internacionalismo proletário. A essa massa nacionalista e não raro antissemita, Stalin e Bukharin apresentaram, em 1925, uma tese capaz de seduzi-la: a "construção do socialismo em um só país". O socialismo seria filho da "Mãe Rússia".

Preocupados com esse fortalecimento, Zinoviev e Kamenev tentaram aproximar-se de Trotsky em 1926. Mas era tarde demais. Nesse mesmo ano, Zinoviev foi substituído por Bukharin na direção do Comintern. Em 1927, Trotsky foi expulso do partido, exilado no Cazaquistão em 1928 e banido da União Soviética em 1929. Ainda em 1929, Bukharin e Tomsky foram afastados do poder, e Stalin emergiu como o principal líder soviético. Mas a própria trajetória de Trotsky revela que Stalin ainda não ousava assassinar seus companheiros de partido, por mais que a polícia agredisse e prendesse os oposicionistas.

Poetas russos

Óssip Mandelstam
Em seu malfadado poema sobre Stalin, Mandelstam chama o líder soviético de "Highlander do Kremlin" (referência à Geórgia, país situado nas montanhas do Cáucaso, onde nasceu Stalin) que "está forjando suas regras e decretos como ferraduras" e para quem "todo assassinato é um prazer". Mais tarde, tentando salvar a pele, Mandelstam compôs uma "Ode a Stalin". Mas não foi o suficiente: muitos outros bardos faziam a mesma coisa, e o estadista já estava acostumado a bajulações.

Vladimir Maiakovski
Vladimir Maiakovski e muitos outros poetas e artistas plásticos aderiram de corpo e alma à revolução, criando cartazes de propaganda para o regime bolchevique e suas campanhas. Maiakovski fundou em 1923 a revista LEF (Frente de Esquerda), reunindo os que pretendiam aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social.

O poeta suicidou-se em 1930. No texto "O suicídio de Maiakovski", publicado em maio de 1930 no Boletim da Oposição Russa (publicação clandestina), Trotsky observa que:

"O aviso oficial, colocado pelo Secretariado [Stalin] numa linguagem de protocolo jurídico, apressa-se a informar que esse suicídio 'não tem nenhuma relação com as atividades sociais e literárias do poeta'. O que vale dizer que a morte voluntária de Maiakovsky não se relaciona com a sua vida ou, ainda, que a sua vida nada tinha em comum com a sua criação revolucionária e poética. É transformar a sua morte num fato fortuito. Isso não é verdadeiro nem necessário nem... inteligente! 'A barca do amor partiu-se na vida corrente', escreveu Maiakovsky, nos seus últimos versos. Em outras palavras, 'suas atividades sociais e literárias' cessaram de elevá-lo acima das confusões da vida quotidiana, para colocá-lo ao abrigo de golpes insuportáveis que o atingiam".

Maiakovski desistiu da vida após sofrer muitas pressões para aderir à Associação Soviética dos Poetas Operários, que propunha uma estética mais rude, bem diferente daquela da LEF. Seja como for, sua morte assinalou o fim da aproximação entre literatura e revolução.

Alexander Blok
O poeta lírico Alexander Blok, morto em 1921, viu com simpatias a Revolução de Outubro. No poema "Os doze", de 1918, compara os 12 apóstolos a 12 soldados bolcheviques que avançam com seus fuzis pelas ruas de Petrogrado durante uma tempestade de neve. "À frente vai Jesus Cristo", escreve Blok no verso final.

Outro famoso poema de Blok, "Os citas", também de 1918, salienta as contradições da revolução entre o internacionalismo e o nacionalismo. O poeta clama que a Europa civilizada se junte aos russos – aos citas, "asiáticos de olhos rasgados" – em verdadeira fraternidade. Mas adverte: "Se vocês nos menosprezarem, não vamos nos lastimar. Nós também não vemos crime na perfídia. E incontáveis gerações ainda por nascer amaldiçoarão a sua memória até o fim dos tempos. Abandonaremos a Europa e seu charme e retomaremos as habilidades e a astúcia dos citas. Correremos rápido pelas matas e florestas, e então olharemos para trás, e sorriremos nosso sorriso de olhos rasgados".
Revista Sala de Aula

Segregação nos Estados Unidos

Segregação nos Estados Unidos

No século 19, a oposição dos estados nortistas à escravidão despertava furor entre os governantes sulistas. Repetidas vezes estes ameaçaram retirar seus estados da União se seu direito de possuir escravos fosse desrespeitado.

A secessão veio em 1860 e 1861, depois da eleição de Abraham Lincoln para a presidência da República. Os recém-formados Estados Confederados da América tinham 9 milhões de habitantes – dos quais 3,5 milhões eram escravos –, enquanto a União reunia 22 milhões de habitantes. Quando veio a guerra civil, o sul recusou-se a armar os negros para enfrentar os nortistas. Por sua vez, o norte, depois de superar os preconceitos da oficialidade, organizou batalhões de negros livres.

Derrotados no conflito, os sulistas decidiram impedir que os ex-escravos exercessem seus direitos civis e políticos. Organizações terroristas como a Ku Klux Klan, formada em 1866, semeavam o terror entre a população negra. Ao mesmo tempo, juízes, prefeitos, chefes de polícia e governadores atuavam em conjunto para impedir os negros de ter acesso ao voto e conservá-los como socialmente inferiores.

Esse quadro vigorou até meados da década de 1960. Naquele momento, porém, a repressiva sociedade sulista já havia recebido sérios golpes. Em 1954, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou inconstitucional a segregação racial nas escolas públicas. No ano seguinte, a ex-costureira Rosa Parks recusou-se a sentar no lugar reservado aos negros em um ônibus de Montgomery, no Alabama. Seu protesto desencadeou um movimento de boicote ao transporte coletivo na cidade, no qual se destacou o jovem pastor batista Martin Luther King. O movimento pelos direitos civis da população negra ganhava as ruas das cidades do sul, apoiado por centenas de militantes vindos dos estados nortistas.

Em 1962, o estudante negro James Meredith enfrentou as autoridades universitárias, a brutalidade policial e o rancor dos colegas brancos para afirmar seu direito de frequentar a Universidade do Mississipi. No ano seguinte, foi realizada a Marcha sobre Washington, que exigiu a plenitude de direitos civis para os afro-americanos. Os racistas reagiram ferozmente, espancando negros e assassinando três militantes dos direitos civis – crime apresentado no filme Mississipi em Chamas. Contudo, não conseguiram deter a mobilização crescente. Ainda em 1964 foi promulgada a Lei dos Direitos Civis, complementada no ano seguinte pela Lei dos Direitos de Voto: os negros dos Estados Unidos finalmente alcançaram a cidadania.

Revista veja Sala de Aula

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Czarismo: retrato do inferno


Camponeses vivendo na miséria, operários superexplorados e guerra contra o Japão criaram na Rússia o cenário perfeito para uma fogueira revolucionária
por Giovana Sanchez e Renato Machado
A Rússia do final do século 19, governada pelo czar Nicolau II, é um gigante em termos territoriais e populacionais. O império estende-se do Leste Europeu ao Oceano Pacífico – quase quatro vezes o tamanho do Brasil – e tem aproximadamente 140 milhões de habitantes – população oito vezes maior que brasileira na mesma época. Mas, apesar do gigantismo, aquele é um país extremamente atrasado. Enquanto nações como Alemanha, Inglaterra e EUA já se encontram em estágios avançados da Revolução Industrial, cerca de 85% dos súditos de Nicolau ainda estão no campo.
A pobreza é generalizada. Os lotes de terra à disposição dos camponeses mais humildes são pequenos demais e as rendas familiares, baixíssimas. Famílias inteiras vivem em pequenas choupanas. Nas ruas de terra dos vilarejos rurais, vacas e porcos misturam-se aos transeuntes. Esgoto a céu aberto e pilhas de lixo por toda parte ajudam a disseminar epidemias de cólera, que dizimam parcelas significativas da população a cada três anos em média. A desnutrição faz vítimas principalmente entre as crianças, e a maior parte dos jovens e adultos é analfabeta.
Enquanto isso, as classes dominantes vivem cercadas de luxo e privilégios nababescos. As residências da nobreza são enormes e bem cuidadas, com fachadas de arquitetura neoclássica. Carruagens tão pomposas quanto as que circulam em Londres ou Paris levam para lá e para cá a sofisticada aristocracia russa – senhoras em belos vestidos de renda e seus esposos de casacas impecáveis. Os mais ricos costumam promover bailes fulgurantes, como os organizados no bar do Iate Clube Imperial. Cerca de 105 mil famílias, proprietárias da maior parte das terras, ocupam o topo da pirâmide social.
Os nobres dominam também a burocracia estatal. Mais de 70% dos 500 mil cargos públicos do Império são ocupados pelos ricos. Isso lhes garante uma série de benefícios, entre eles, bons salários, impostos mais baixos e a possibilidade de colocar seus filhos em posições de destaque no Exército ou nas poucas universidades. Esse perverso contraste social, com ricos muito ricos de um lado e pobres muito pobres de outro, é mantido por taxas exorbitantes pagas justamente pelas fatias mais humildes da sociedade. Não demorará até que esse imenso contingente de miseráveis se rebele.
Capitalismo selvagem
Os Romanov, dinastia da qual Nicolau II faz parte, governam a Rússia há quase 200 anos e são o melhor exemplo do abismo que separa ricos e pobres. Eles vivem em meio a tesouros acumulados nesses dois séculos, controlam a Igreja Ortodoxa e não têm qualquer simpatia pelas muitas etnias que compõem a sociedade ao lado dos russos. Àquela altura, o czar já percebeu que, sem indústrias e sem progresso, seu império jamais conseguirá competir com os países desenvolvidos da Europa. Nicolau decide aplicar um plano de modernização da economia, baseado no incentivo à industrialização e na construção de um grande sistema de ferrovias – a principal delas é a Transiberiana, que liga a Rússia européia aos territórios mais longínquos da Ásia e foi quase concluída na década de 1890.
Para dar conta do recado, o regime czarista lança mão de duas estratégias: aumenta ainda mais os impostos e busca empréstimos com bancos estrangeiros. A dívida externa rapidamente atinge níveis alarmantes, com o capital internacional controlando mais de 70% dos investimentos aplicados na atividade industrial. Em pouco tempo, a Rússia estaria inteiramente nas mãos de banqueiros ingleses, franceses e americanos.
Com o desenvolvimento da indústria, as cidades também crescem. Em apenas dez anos, de 1890 a 1900, a população urbana simplesmente dobra de tamanho. Surge o proletariado russo, formado principalmente por agricultores que abandonaram o campo em busca de melhores condições de vida. Mas não é isso o que eles encontram ao migrar para centros como Petrogrado, Moscou, Minsk e Odessa. Segundo o historiador Daniel Aarão Reis Filho, professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), a jornada de trabalho chegava a 15 horas diárias e não havia garantia de assistência social. Os salários eram baixos, se comparados aos pagos na Europa, embora a produtividade dos operários russos fosse a mesma.
A situação é ainda mais grave para os não-russos, como poloneses, ucranianos, bielo-russos, georgianos e armênios – quase 60% da população do império. “Essas e muitas outras etnias não desfrutavam dos mesmos direitos dos russos”, escreve Reis Filho em A Revolução Russa: 1917 – 1921. “O Estado czarista desprezava a língua, as tradições, os valores e a cultura dessas nacionalidades.”
Enquanto camponeses e operários sofrem horrores com a combinação de formas capitalistas e pré-capitalistas de exploração, as idéias marxistas já fazem o caldeirão russo borbulhar. Os primeiros partidos de orientação esquerdista, criados justamente por vanguardas não-russas, organizaram-se clandestinamente ainda na década de 1890 – entre eles o Bund, fundado por intelectuais judeus, e o Partido Social-Democrata da Polônia Russa. Em Petrogrado, surge a União de Luta pela Classe Operária, uma entidade que reivindica melhores condições de trabalho. Em 1896, a cidade é chacoalhada por uma greve de 40 mil operários. A revolta dá resultados: eles conquistam um pequeno reajuste salarial e a redução da jornada para 12 horas.
Acuado, o czar Nicolau II começa a perseguir as organizações operárias. Mas já é tarde, a repressão não dará qualquer resultado. “A semente fora lançada e a repressão não conseguiria mais destruir o marxismo como tendência política”, afirma o professor da UFF. Em 1898, nasce o Partido Operário Social-Democrata Russo. Entre seus integrantes, estão marxistas que, mais tarde, entrarão para a história como os grandes líderes da Revolução Russa de outubro de 1917. Um deles é o futuro ditador Josef Stálin. O mais combativo de todos, no entanto, atende pelo nome de Vladimir Ilitch Ulianov – mais conhecido pelo pseudônimo Lenin.
No mesmo ano da sua fundação, o partido acaba sendo desarticulado, com a prisão de suas principais lideranças. Ao deixarem o cárcere, a maioria segue para o exílio em diferentes países. Lenin vai morar na Alemanha, mesmo destino de Georgi Plekhanov, outro importante teórico do comunismo. Juntos, eles passam a publicar o jornal Iskra (A Centelha). Esse nome não poderia ser mais apropriado: o periódico, enviado clandestinamente para a Rússia, foi criado para ser a fagulha inicial de uma imensa fogueira revolucionária.
Guerra e fome
Camponeses oprimidos, operários revoltados e oposição política engajada já seriam elementos mais que suficientes para desencadear uma revolução. Em fevereiro de 1904, contudo, outro ingrediente seria acrescentado ao caldeirão. O Império Russo entra em guerra com o Japão pelo controle de territórios no nordeste da China. Na principal batalha do conflito, a de Tsushima, uma esquadra russa é massacrada no Estreito da Coréia. Os navios da Marinha japonesa eram menores, mas seu poder de fogo era superior ao das antigas e pesadas embarcações inimigas. Resultado: dos 38 navios russos que entraram no estreito na manhã do dia 27 de maio de 1905, apenas nove saíram. Todos os outros foram a pique ou acabaram capturados. A armada de Nicolau II sofrera uma derrota humilhante, em que aproximadamente 4,3 mil marinheiros acabaram perdendo a vida.
Enquanto isso, em terra firme, cerca de 80 mil soldados russos mal equipados enfrentam mais de 270 mil japoneses bem treinados e motivados. Além das baixas em combate e das perdas materiais, a derrota significaria para a Rússia o aprofundamento da crise econômica, já que o Império vinha empregando boa parte de seus recursos na manutenção do conflito. Alimentar tropas no front significava desviar a comida que deveria abastecer as cidades. Os preços de gêneros alimentícios básicos disparam. E o povo, já descontente com o regime czarista, revolta-se ainda mais contra o tirano.
Em janeiro de 1905, a situação parece insustentável. A Rússia deixou de ser um mero caldeirão borbulhante para tornar-se uma panela de pressão prestes a explodir. Operários e camponeses, agora um pouco mais organizados e conscientes, preparam-se para tomar as ruas, reivindicando melhores condições de vida. A eles se juntarão soldados e marinheiros descontentes com a guerra. O ano será marcado por revoltas populares reprimidas pelo czar com extrema violência. Nas palavras de Lenin, aquele seria um “ensaio geral” para a grande revolução comunista de 1917. |
Revolucionários divididos
Em 1903, os líderes do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) reuniram-se em Bruxelas para traçar a estratégia que conduziria a uma revolução socialista na Rússia. Durante os debates, para lá de acalorados, os revolucionários acabaram divididos. De um lado, estava Lenin, defensor da idéia de um partido “fechado”, só para lideranças que pudessem guiar as revoltas populares. Do outro, Julius Martov, que propunha um partido aberto a todos os simpatizantes da revolução. “Como as agremiações políticas estavam proibidas na Rússia e o Império vivia sob forte repressão, Lenin achava que um partido aberto facilitaria sua desarticulação”, diz Angelo Segrillo, professor de História da Universidade de São Paulo (USP). Os que se opunham a essa tese, no entanto, argumentavam que esse seria o primeiro passo para a criação de partido sem vocação democrática, controlado por um pequeno grupo ou, até mesmo, por uma única pessoa. O desentendimento entre os dois grupos foi tamanho, que muitos participantes – sobretudo aliados de Martov – abandonaram a reunião em sinal de protesto. Na hora do voto, Lenin tinha a maioria e saiu vitorioso. A partir daí, sua corrente política passaria a ser chamada de bolchevique (“maioria” em russo), enquanto os adversários seriam chamados de mencheviques (“minoria”).

Saiba mais
As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético, Daniel Aarão Reis Filho, Unesp, 2003
O historiador faz um apanhado geral da história da Rússia, desde antes da Revolução até a derrocada do socialismo no mundo.
A Revolução Russa, Maurício Tragtenberg, Unesp, 2007
O livro percorre os caminhos e descaminhos da sociedade russa, desde a gênese do czarismo até a formação e o desenvolvimento da URSS.

Revista Aventuras na História

Antecedentes da Revolução Russa: a era das contradições

Soldados bolcheviques nas ruas de Moscou, durante a Revolução Russa de 1917
Quanto mais os capitalistas ganhavam dinheiro, mais os trabalhadores eram explorados. Desse conflito nasceriam as insurreições operárias, o marxismo e as revoluções socialistas
por Giovana Sanchez
Em 1917, o povo russo, conduzido por uma vanguarda revolucionária, destronou seu czar, eliminou o caráter oficial de sua igreja e expropriou sua aristocracia. Com a revolução, a Rússia punha fim a sua Idade Média, colocando no lugar do imperador absolutista um governo de trabalhadores. As origens e influências de tal movimento vieram principalmente dos países europeus, que – já havia quase dois séculos – experimentavam as conseqüências do desenvolvimento do capitalismo.
A França foi um dos primeiros países a ter uma burguesia forte e endinheirada no poder. A Revolução de 1789 acabou com o Antigo Regime e deu lugar aos ideais do liberalismo clássico. As exigências dos burgueses foram delineadas na famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. E a propriedade privada passou a ser entendida como direito natural, sagrado, inviolável e inalienável. Três semanas após a Queda da Bastilha, em 14 de julho daquele ano, toda a estrutura social do feudalismo francês simplesmente ruiu, acompanhada da máquina estatal da realeza.
Embora tenha consolidado o capitalismo precocemente, a França não foi o primeiro país a destruir o Antigo Regime. Mais de um século antes, a poderosa Inglaterra já havia julgado e executado seu primeiro rei. Com burgueses ricos no comando do governo, o lucro privado e o desenvolvimento econômico haviam sido aceitos como supremo objetivo da política governamental. Na segunda metade do século 18, portanto, os britânicos estavam cheios de dinheiro e ávidos por novas experiências.
Foi então que os primeiros ricos aventureiros decidiram investir na indústria de algodão. O negócio era vantajoso, pois a matéria-prima vinha toda das colônias britânicas a um preço bem baixo. O país estava tão ansioso por um novo boom comercial que bastaram alguns inventos – como a máquina de fiar, em 1767 – para que a Inglaterra desse início a um surto industrial.
O algodão manufaturado passou a ser vendido pelos ingleses para o resto da Europa e para todas as colônias. Em 1833, essa indústria já empregava 1,5 milhão de pessoas diretamente. À invenção da máquina de fiar, seguiram-se outros aprimoramentos. A ferrovia e as máquinas a vapor proporcionariam um incrível impulso à industrialização, que se propagaria para outros setores da economia e outros países. Estava em curso uma revolução nas formas de trabalho.
Resistir ou resistir
A Revolução Industrial possibilitou aos capitalistas produzir mais e com menor custo, o que aumentava suas margens de lucro. E, quanto mais dinheiro os burgueses ganhavam, mais investiam em novas produções. A técnica mais comum e amplamente usada para multiplicar o ganho era reduzir ao máximo o valor dos salários pagos aos operários – o ideal era que eles recebessem o mínimo para a sobrevivência. Um erro nesses cálculos resultou, em 1795, na morte de 500 mil tecelões manuais em Bolton, na Inglaterra.
Aos trabalhadores, que não tinham propriedades nem capital para investir, sobrava a opção de vender a única coisa que lhes restava: sua força de trabalho. De acordo com Eric Hobsbawn, em seu livro A Era das Revoluções, eram três as possibilidades dos pobres na época: “eles podiam lutar para se tornarem burgueses, permitir que fossem oprimidos ou se rebelar”. Com a dificuldade de enriquecer e com o aumento sucessivo da exploração, a saída mais próxima era a temida revolução.
A revolta dos trabalhadores contra a exploração imposta pelo capitalismo tomou forma já no começo do século 20. As primeiras manifestações, contudo, foram ingenuamente organizadas contra as máquinas. Era o movimento luddista, que pregava o fim dos equipamentos por considerá-los os verdadeiros causadores do desemprego.
A condição deplorável do operariado era conhecida e estudada desde muito antes. Na Alemanha, o crescente empobrecimento da classe operária foi tema de pelo menos 14 publicações em 1830. Intelectuais como Robert Owen, Saint-Simon e Charles Fourier elaboraram as primeiras teorias socialistas. Mas, ao propor projetos ideais para a construção de uma sociedade futura, os estudos distanciaram-se da prática. E esses estudiosos acabariam ficando conhecidos como socialistas utópicos.
Com o passar do tempo, os trabalhadores começaram a amadurecer suas idéias e a fazer exigências concretas. Em 1838, o movimento operário cartista elaborou um documento em que a principal reivindicação era sufrágio universal e voto secreto. Seus integrantes acreditavam que, indo às urnas e podendo votar em quem quisessem, seriam capazes de introduzir as mudanças desejadas por meio da lei. Naquela época, os primeiros sindicatos foram formados e as possibilidades de revolta aumentavam.
Dez anos mais tarde, em 1848, as massas mostraram seu poder. Revoluções de cunho liberal tomaram a Europa. Conduzidas pela burguesia, elas tinham os trabalhadores em suas linhas de frente. Mas as classes operárias ainda careciam de liderança e alicerce político-ideológico. Mesmo os sindicatos estavam restritos a poucas centenas ou milhares de associados.
A solução marxista
Já naquela época, uma nova forma de pensamento surgiu na Europa. Mais maduro e concreto que a versão utópica de Robert Owen, o socialismo científico proposto por Karl Marx atraiu os trabalhadores. Marx propunha a destruição do capitalismo por uma revolução armada, que levaria à instauração de uma ditadura socialista. Nesta fase, a propriedade privada desapareceria e os meios de produção seriam coletivizados, criando o que Marx esperava que fosse uma sociedade sem classes. Quando a revolução se estendesse a todos os países, seria possível suprimir o Estado e estabelecer uma sociedade inteiramente igualitária: a sociedade comunista.
O Manifesto Comunista, publicado em 1848 por Marx e Friedrich Engels, pedia aos operários do mundo todo que se unissem contra a exploração. Assim, teve início a internacionalização do movimento, que permitiu uma intensa troca de idéias e experiências. Em 1864, uma reunião de comunistas de vários países culminou na criação da chamada Primeira Internacional Comunista. Liderada por Marx, a organização inspirou partidos e lideranças políticas mundo afora, que passaram a empreender suas próprias lutas nacionais. Esta foi, inclusive, uma data importante para o movimento na Rússia, que, naquela época, estava ainda criando raízes. De acordo com o pós-doutor em História e professor da Universidade de São Paulo Osvaldo Coggiola, “a criação da Internacional encorajou a criação do Partido Operário Social-Democrata Russo, em 1898”.
Já em 1871, os comunistas, aliados aos socialistas utópicos e a uma facção de esquerda ainda mais radical, os anarquistas, realizaram aquela que se tornou a maior insurreição proletária antes da Revolução Russa de 1917: a Comuna de Paris. Ao negar a derrota na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), os operários parisienses tomaram a cidade. Mas o poder durou pouco nas mãos dos revoltosos. Quase duas semanas após sua proclamação, em 18 de março, a Comuna já havia perdido a iniciativa. Ainda assim, disseminou pânico e histeria, graças, principalmente, à reação da imprensa internacional, que a acusava de expropriar os ricos e provocar massacres generalizados.
Corrida capitalista
Naquele final de século 19, uma forte depressão econômica abalava as potências da Europa – que procuravam urgentemente investimentos externos para assegurar o retorno de seu capital. Essa era a chance de que o Império Russo precisava para dar início a seu tardio processo de industrialização. “Havia uma espécie de corrida pela colonização econômica da Rússia, principalmente entre a França e a Alemanha”, explica Coggiola. Com o capital de investimentos europeus (principalmente franceses), injetados na década de 1870, a Rússia pôde montar suas primeiras indústrias. Sua burguesia finalmente entraria na era da Revolução Industrial – e assistiria ao nascimento de uma nova classe, o proletariado.
Boa parte dos operários de países como Inglaterra, França e Alemanha, àquela altura, já pareciam “anestesiados” pelos regimes liberais. Eles haviam sucumbido, por exemplo, ao sistema de representação parlamentar adotado nessas democracias. Na Rússia, onde não havia essa tradição e tampouco era possível introduzir reformas por procedimentos constitucionais, a situação radicalizou-se.
Os dirigentes do movimento operário russo sabiam que, para obter reformas, era preciso acabar com o regime existente. E isso não se daria sem violência. A revolução proposta por Marx e Engels no Manifesto Comunista poderia ser levada a cabo, quase na íntegra, pelos trabalhadores. Afinal, eles não teriam quase nada a perder. Correriam, no máximo, o risco de ir parar na cadeia. Em compensação, teriam um mundo inteiro a ganhar se saíssem vitoriosos da empreitada.

O tempo não pára
Da máquina de fiar à Revolução Russa: o tortuoso caminho da classe operária rumo ao paraíso
1767 - MÁQUINA DE FIAR
A invenção do carpinteiro inglês James Hargreaves agilizou em 30 vezes o processo manual de produção têxtil. Simples e barata, permitiu que os industriais produzissem mais e com custos menores. Para obter lucro recorde, os capitalistas diminuíam ao máximo o salário dos operários – obrigados a trabalhar cerca de 14 horas diárias, sem descanso. Nas fábricas, mulheres e crianças também eram empregadas, com salários ainda menores.
1799 - SOCIALISMO UTÓPICO
O homem que criou a palavra “socialismo” era um visionário. Aos 40 anos, o britânico Robert Owen comprou uma fábrica de tecidos na Escócia. Sua intenção, ao contrário dos outros industriais, era mostrar como lucrar sem explorar os trabalhadores. Seus empregados trabalhavam apenas 10 horas por dia e tinham benefícios – boa moradia e escola para os filhos. Ele repetiu a experiência nos EUA, mas não teve o mesmo sucesso. Na volta ao Reino Unido, em 1828, seguiu com seus estudos sobre socialismo, criando os trade unions – primeiros sindicatos britânicos. Esse idealismo rendeu-lhe – assim como a outros pensadores, entre eles Saint-Simon e Charles Fourier – a alcunha de socialista utópico.
1811 - LUDISMO
Entre 1811 e 1816, um grupo de trabalhadores ingleses liderados por um homem de pseudônimo Ned Ludd rebelou-se contra o desemprego e decidiu destruir todas as máquinas têxteis. Os chamados ludistas acreditavam que os equipamentos eram os maiores responsáveis por todas as suas mazelas. Homens de negócios e fazendeiros acabaram simpatizando com a causa, já que não viam tantas vantagens na industrialização da economia. O ápice do movimento ocorreu em 1812, quando o industrial William Horsfall foi assassinado pelo grupo.
1838 - CARTISMO
Surgido na Inglaterra, foi o primeiro movimento político da história organizado por operários. A pressão dos cartistas, liderados por William Lovett, conseguiu transformar em lei várias reivindicações da classe trabalhadora – entre elas sufrágio universal e voto secreto. Em 1839, o movimento foi abalado com o esmagamento de uma revolta em Newport e o banimento de seus líderes.
1848 - MANIFESTO COMUNISTA
Em fevereiro, os pensadores alemães Karl Marx e Friedrich Engels publicam o Manifesto Comunista, obra na qual defendem a seguinte idéia: quanto mais o capitalismo se desenvolve, mais se aproxima uma inevitável revolução operária. Segundo os autores, a internacionalização desse movimento revolucionário conduziria ao comunismo – uma sociedade sem classes, com todos trabalhando e recebendo de acordo com suas habilidades e necessidades.
BARRICADAS EM PARIS
Cinco meses depois, em junho de 1848, os trabalhadores de Paris tomaram as ruas, decididos a acabar com o Antigo Regime. Bem organizados, eles armaram barricadas em pontos estratégicos da cidade. Mas acabaram sendo brutalmente esmagados pelo Exército. A rebelião terminou com um saldo de 10 mil mortos.
1857 - MASSACRE EM NOVA YORK
Pela redução da jornada de trabalho, 129 tecelãs da Fábrica de Tecidos Cotton, em Nova York, cruzaram os braços – a primeira greve nos EUA conduzida apenas por mulheres. Reprimidas pela polícia, as operárias refugiaram-se dentro da fábrica. Os patrões mandaram trancar as portas e os policiais ajudaram a atear fogo no prédio. Todas morreram carbonizadas. Mais tarde, a data dessa tragédia – 8 de março – seria transformada no Dia Internacional da Mulher.
1864 - PRIMEIRA INTERNACIONAL
Com a ajuda de Marx, é fundada em Londres a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), ou Primeira Internacional Socialista. A entidade reunia vários grupos de esquerda e sindicatos. O objetivo era guiar os operários, conferindo-lhes consciência de classe e afastando-os dos partidos burgueses. Disputas ideológicas – principalmente entre o comunista Marx e o anarquista Bakunin – acabam por arruiná-la. Em 1872, teve sua sede transferida para os EUA. E foi dissolvida quatro anos depois.
1867 - O CAPITAL
Neste ano, Marx publicou sua obra mais famosa. O livro é uma análise do sistema capitalista obtida por meio de uma abordagem filosófica incomum: a mistura de ciências economias, história e sociologia. Escrito em alemão, o livro foi rapidamente traduzido para diversos idiomas – o primeiro deles, russo.
1871 - COMUNA DE PARIS
No dia 18 de março, Paris acordou sob gritos de “Viva a Comuna!”. Ao negar a derrota na Guerra Franco-Prussiana, os operários tomaram a cidade e decretaram: dali em diante, o regime seria socialista. Seguiram-se dois meses de guerra com o Exército, que acabou por esmagar o movimento. Embora fracassada, a Comuna de Paris serviu de referência para muitos revolucionários que vieram mais tarde. Lenin, depois de liderar a Revolução Russa de outubro de 1917, contaria os dias até poder finalmente comemorar: “Já duramos mais do que a Comuna!”.
1886 - GREVE GERAL EM CHICAGO
No principal centro industrial dos EUA, cerca de 800 mil operários – de diferentes fábricas – resolveram parar em protesto contra as péssimas condições de trabalho. Bem organizados em sindicatos, eles faziam as reivindicações costumeiras, entre elas a redução da jornada diária para oito horas. A greve foi violentamente reprimida. E a data – 1º de maio – passou a ser considerada o Dia do Trabalho.
1889 - SEGUNDA INTERNACIONAL
A facção marxista da extinta AIT funda a Segunda Internacional, reunindo socialistas, sociais-democratas e trabalhistas. A organização envolveu-se profundamente nos assuntos de interesse dos trabalhadores em cada país. Adotou a luta pelas oito horas de jornada diária. E decidiu transformar o 1º de maio em Dia Internacional do Proletariado.
1917 - REVOLUÇÃO RUSSA
A revolução proletária prevista por Marx e Engels acontece na Rússia. Trata-se do primeiro levante operário vitorioso do mundo – um acontecimento que alterará o curso da história e determinará o destino de milhões de pessoas durante o século 20.

Saiba mais
A Era das Revoluções, Eric Hobsbawn, Paz e Terra, 2007
Escrito por um dos mais importantes historiadores do mundo, o livro descreve a vida européia entre 1789 e 1848, analisando causas e conseqüências das revoluções Francesa e Industrial.
Rumo à Estação Finlândia, Edmund Wilson, Companhia das Letras, 2006
A obra mais importante do historiador americano é um estudo das teorias revolucionárias européias, da Revolução Francesa até a revolução Russa, em 1917.

Revista Aventuras na História

As primeiras palavras de Deus

Há cinqüenta anos, dois beduínos encontravam centenas de pergaminhos enterrados no deserto. Hoje, setenta cientistas estão prestes a terminar a tradução dos Manuscritos do Mar Morto, os mais antigos textos bíblicos conhecidos.
por Ricardo Arnt
Como uma cabra mudou a História

Num final de tarde em abril de 1947, Juma Muhammed espreguiçou-se e decidiu que era hora de recolher o rebanho. Subiu em um rochedo, atrás de uma cabra, e aí algo chamou sua atenção: duas aberturas nas rochas. Eram cavernas, bem pequenas. Um homem teria que se espremer para entrar. Atirou uma pedra pelo buraco e ouviu o barulho de um vaso se quebrando. Desde Ali Babá, o que mais poderia haver numa caverna do deserto senão um tesouro? Juma chamou o primo que estava embaixo, Muhammed Ahmed (também conhecido como “Lobo”), e os dois examinaram a entrada. Como já estava escurecendo, resolveram voltar para o acampamento – as tendas dos beduínos nômades taamireh, na margem do Mar Morto, perto de Qumran – e retornar depois.
No dia seguinte, Lobo deu o golpe. Acordou de madrugada e correu à caverna sozinho. Esgueirou-se lá dentro e descobriu, contra o fundo, uma fila de jarros esguios e tampados. Havia entulho e cacos no chão. Penosamente, arrastou-se pelo chão e enfiou a mão em um deles. Nada. Vasculhou nove jarros freneticamente. Nada. No décimo, agarrou algo enrolado em tecido. Achou três rolos de pergaminho, envoltos em linho e couro. Abatidíssimo, foi acordar os primos sonolentos.
É claro que era um tesouro. Arqueológico. Naquela manhã, Lobo descobriu o mais antigo original existente do Livro de Isaías, da Bíblia, o Comentário de Habacuc (outro profeta judaico) e o Manual de Disciplina dos essênios – a seita de eremitas judeus que enterrou seus textos para protegê-los de um ataque romano no ano 68 d.C. Preservaram os escritos, mas o seu convento foi arrasado. Restam, hoje, as ruínas de Qumran.
Cinqüenta dólares
Os taamireh voltaram à caverna, tiraram os jarros de dentro, abandonaram-os na estrada e levaram os pergaminhos que acharam para Belém, mal dobrados nas bolsas. O Manual de Disciplina chegou partido em dois. A cidade estava sob Lei Marcial. Eram os últimos dias do domínio inglês, os judeus queriam a independência de Israel, havia combates e atentados. Em meio ao tumulto, ofereceram os rolos a mercadores, mas ninguém se interessou. Um sapateiro concordou em vendê-los em troca de comissão.
Em maio, um dos pergaminhos foi oferecido ao bispo Athanasius Samuel, da igreja cristã ortodoxa síria de Jerusalém, o primero a intrigar-se. De saída, percebeu que, se o manuscrito não fosse uma falsificação e tivesse vindo do Mar Morto, deveria ser antigo, pois aquela região era desabitada desde o começo do cristianismo. Um mês depois, o sapateiro lhe vendeu cinco rolos por um preço jamais revelado. Diz a lenda que custou 50 dólares.
Recuando a História
Em março de 1948, os exames paleográficos confirmaram: o Livro de Isaías era do ano 100 a.C. Imagine-se o nervosismo. O mais antigo original existente do Velho Testamento era da Idade Média. A destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70, não poupou documentos. A mais velha Bíblia judaica, encontrada em Alepo, na Síria, era do século X. O mais remoto documento judeu existente era uma Mishná, o código dos rabinos, do ano 200. Quanto ao Novo Testamento (cristão), o original mais antigo era o Papiro John Ryland, um fragmento do Evangelho de São João, do ano 125, em grego, da Biblioteca John Ryland, da Universidade de Manchester, Inglaterra.
Os manuscritos, portanto, eram provas materiais de uma história passada 2 000 anos antes. Tão logo a notícia se espalhou, beduínos e arqueólogos vasculharam 267 cavernas na região de Qumran. De 1951 a 1956, o padre Roland de Vaux, da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém, escavou as ruínas, então desconhecidas, e descobriu o convento dos essênios (leia na página 54).
No total, cerca de 900 manuscritos, escritos em hebraico, aramaico e grego, foram achados em mais dez cavernas, numeradas, então, de 1 a 11. Outros sítios arqueológicos associados a Qumran, também com pergaminhos, foram descobertos, como a fortaleza judaica de Massada, no sul do Mar Morto. Muitos rolos estavam em bom estado, mas a maioria não resistiu aos séculos e despedaçou-se. A caverna 4 enlouqueceu os paleógrafos: continha 575 dos 900 manuscritos, mas em 15 000 pedaços, alguns do tamanho de uma unha. Antes da tradução, um quebra-cabeças infernal, faltando peças, devia ser montado.
“Os manuscritos são a maior descoberta arqueológica do século”, disse à SUPER o padre católico e filólogo Emile Puech, da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa, um dos tradutores. “Basta considerar sua idade, diversidade e conteúdo.” Outro tradutor, o teólogo Eugene Ulrich, da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, especifica: “É a mais importante descoberta da história religiosa do Ocidente.”
O arquivo dos essênios revelou pergaminhos do ano 225 a.C. ao ano 65 d.C., contemporâneos, portanto, de Jesus Cristo (que morreu no ano 33, aproximadamente). Possuía originais de 22 dos 23 Livros do Antigo Testamento (a exceção é o Livro de Esther) e vasta literatura não bíblica. Tem, assim, a mais antiga palavra registrada do Deus judaico-cristão: um fragmento do Livro de Samuel, do ano 225 a.C., achado na caverna 4.
Graças à descoberta, as cópias do Antigo Testamento feitas por gregos, latinos, sírios, etíopes e bizantinos, durante séculos, podem ser conferidas. Os manuscritos iluminaram a história do judaísmo e as raízes do cristianismo.
O cofre dos donos da verdade
Essênios e cristãos habitaram os mesmos lugares na mesma época. Essa vizinhança transformou o estudo dos manuscritos numa tarefa nervosa. Cada pergaminho desenrolado prometia revelações espetaculares. Só que não houve nenhuma. Não há menção ou alusão a Jesus Cristo nos 900 manuscritos, quase todos já traduzidos. Nenhumazinha. E as supostas identidades entre os textos de Qumran e os evangelhos cristãos foram rejeitadas pela maioria dos estudiosos. Isso significa que os essênios eram uma seita à parte, distinta daquela que os cristãos formavam.
Na época, o que não faltava eram seitas. Havia fariseus, saduceus, hassidim, zelotas, sicários, betusianos e cristãos. Os essênios eram poucos, mas sua conduta exótica atraiu a atenção de historiadores como Flávio Josefo (37-100), Plínio, o Velho (23-79) e Fílon, o Judeu (20 a.C.-50 d.C). Estavam espalhados por toda a Judéia, porém a comunidade que morava às margens do Mar Morto (veja o mapa na página 53) era especial. Lá viviam como cenobitas (monges que levam vida retirada mas em comum com outros), sob disciplina ultra-severa.
Filhos de Zadoque
Como as outras seitas, os essênios se consideravam os únicos filhos de Israel, os legítimos herdeiros das tradições autênticas de Moisés, e rejeitavam a aristocracia sacerdotal do Templo de Jerusalém. Tanto que seus sacerdotes se intitulavam “filhos de Zadoque”, o sumo sacerdote do rei Davi, de quem se achavam descendentes diretos. Os demais membros eram divididos em doze tribos – como as doze tribos de Judá que aparecem na Bíblia.
Roland de Vaux desenterrou as fundações de um edifício de pedra, construído por volta de 150 a.C., que tinha entre vinte e trinta aposentos e treze cisternas. Achou um cemitério com 1 200 sepulturas. Abriu 26 ao acaso e encontrou corpos de homens adultos, sem adornos ou objetos. Não havia mulheres. A comunidade renovava-se com ondas de refugiados que buscavam salvação. Na época, acreditava-se piamente na vinda próxima do Messias e no fim do mundo, o apocalipse.
A irmandade não devia ultrapassar 200 indivíduos. Moravam em cavernas, cabanas e tendas e iam ao mosteiro para rezar, comer ou freqüentar assembléias. Foram achados restos de lâmpadas, picaretas, agulhas, pentes, botões, colheres, tigelas e pratos de madeira, pregos, fechaduras, chaves, cinzéis, foices, vasos, tinteiros e manuscritos. Também havia paredes derrubadas, marcas de incêndio e flechas de ferro romanas. Espalhadas pelos edifício, encontraram-se 400 moedas, mas nenhuma nas cavernas. A mais velha era do ano 136 a.C. e a mais nova do ano 79 – já com a inscrição Judaea capta (Judéia capturada), indicando que os romanos ocuparam o convento depois da sua destruição.
Silêncio piedoso
Era uma existência de renúncia ao conforto e ao prazer. Os membros entregavam seus bens e davam o que ganhavam à “ordem”. Em troca, recebiam tudo de que necessitavam. Um administrador fazia as compras e administrava o dinheiro. Cultivavam a terra, produziam cerâmica, curtiam peles, eram pastores e apicultores. Boa parte do tempo era gasto na produção dos manuscritos da doutrina.
Vestiam-se sempre de branco. A comida era sujeita a rígidas regras de purificação. Davam extrema atenção ao asseio e se banhavam muito. Obedeciam a todas as leis de Moisés e dos profetas. Não tinham escravos nem amos. A disciplina estabelecia hierarquias de acordo com graus de “pureza espiritual” dos irmãos, com os sacerdotes no topo. O silêncio era muito importante. Era proibido conversar antes do nascer do sol e as refeições deviam ser realizadas sem ruído. Ninguém deveria falar fora de vez. O guardião da seita, chamado “Mestre da Justiça”, presidia as assembléias, dava a palavra aos que queriam falar e avaliava o progresso espiritual de todos.
Calúnias contra a congregação ou rebeldia contra a disciplina recebiam expulsão imediata. Quem quebrasse a lei por descuido merecia dois anos de penitência. Quem escondesse posses era excluído do convívio e tinha sua cota de alimentos reduzida. Mentir, enganar, vingar-se, falar mal de um companheiro injustamente, “andar nu ante seus companheiros sem ter sido obrigado a isso” – curiosa cláusula do Manual de Disciplina – implicavam seis meses de penitência. Falar tolamente, três meses. Rir tolamente, trinta dias. Interromper a fala de alguém, dez dias.
As proibições do Sabbath (o dia de descanso) eram minuciosas. Era proibido trabalhar, cozinhar, comer frutas do campo, carregar água, varrer a casa e andar (por qualquer razão) mais do que mil côvados (457 metros). Não era permitido ajudar animais que caíssem numa cova. Faltas eram punidas com sete anos de prisão.
Tanta severidade acabou enfraquecendo os essênios, explicou à SUPER o professor Geza Vermes, do Centro de Estudos Judaicos da Universidade de Oxford, na Inglaterra: “A frágil estrutura da sua organização inflexível e restrita não foi capaz de resistir à catástrofe nacional do ano 70” (a destruição de Jerusalém pelos romanos). Sistemas dogmáticos não têm flexibilidade. Ou resistem ou desabam. Para Vermes, “comparada ao conservadorismo e à rigidez da lei essênica, o judaísmo ortodoxo é progressista e flexível”.
O triunfo da ciência sobre a vaidade
Nunca houve uma tradução igual. Em janeiro passado saiu o volume 22 e, agora, em abril, foi publicado o volume 15 das Descobertas do Deserto da Judéia, pela Oxford University Press – a edição oficial dos Manuscritos. Sai um volume a cada três meses, fora de ordem porque os tradutores trabalham autonomamente. Setenta paleógrafos, filólogos, lingüistas e teólogos em Israel, na Europa e nos Estados Unidos contribuem para a obra, prevista para 39 volumes. Até dezembro, todos os textos referentes à Bíblia serão publicados. A edição dos demais será concluída só no ano 2000.
O que falta? Falta publicar a tradução, já feita, de pergaminhos da caverna 11 e montar os fragmentos da caverna 4, ainda não decifrados. “São textos desconhecidos cujo entendimento apresenta surpresas e problemas”, diz Eugene Ulrich. Emile Puech confirma: “Demoraremos mais alguns anos para terminar com a caverna 4.”
Como muitos pergaminhos estavam despedaçados em partes minúsculas, a primeira tarefa dos pesquisadores foi enfrentar o quebra-cabeças. Para montá-lo, os paleógrafos analisam a pele do pergaminho, a escritura (a tinta, a pena usada), o estilo literário e a caligrafia do escriba. Até o “padrão de estrago” ajuda a agrupar fragmentos de rolos atacados por roedores, insetos ou umidade que geram danos similares. A Genética identifica as peles de um mesmo animal. Sua origem e idade pode ser precisada comparando os dados com genes de fósseis do Mar Morto. A análise do DNA permite encaixar fragmentos na ordem certa.
A tradução avançou, mas não acabou. Mas pelo menos acabou o mistério: os textos que ainda faltam da caverna 4 referem-se à organização dos essênios. “Não há nenhuma bomba teológica”, diz Geza Vermes. Ou seja, não haverá revelações estrondosas.
Complô policial
A novela científico-policial da tradução começou em 1951, quando o governo da Jordânia – que controlava a margem ocidental do Rio Jordão, onde está Qumran, e a parte oriental de Jerusalém, ambas anexadas por Israel em 1967 – montou a primeira equipe de tradutores. Foram escolhidos se-te eruditos, a maioria padres católicos, filólogos da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa. Por motivos políticos, pesquisadores judeus foram excluídos. A equipe embarcou numa missão impossível. Os sete simplesmente dividiram 500 textos entre si. Houve excesso de autoconfiança e vaidade intelectual nessa empreitada que, afinal, prometia revirar o cristianismo.
Resultado: somente um tradutor, o inglês John Allegro, conseguiu publicar o que devia. Mas seu trabalho ficou tão ruim que o artigo com correções é mais longo que o original. De 1960 a 1990 – trinta longos anos –, a equipe publicou apenas 100 dos 500 textos encomendados. E impediu o acesso dos outros pesquisadores. As solicitações dos estudiosos “de fora” para examinar os pergaminhos foram recusadas. E quando membros da equipe faleceram, seus textos foram “legados” a colegas de confiança, como se fossem herança.
Três décadas de sigilo alimentaram teorias conspiratórias. Muitos acreditavam que o Vaticano, por meio da influência sobre os padres tradutores, estaria impedindo revelações dos pergaminhos que abalariam a religião cristã. “Inventou-se um complô – diz o padre Puech – digno de um romance policial.” Em 1977, o professor Geza Vermes, de Oxford, chegou a chamar a tradução oficial de “o maior escândalo acadêmico do século XX”.
Pressão pela transparência
Em 1985, a Biblical Archaeology Review, dos Estados Unidos, começou uma campanha pela “liberação dos manuscritos”. Mas a abertura foi gradual. Primeiro, o governo de Israel, que assumira o controle dos documentos desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, decidiu em 1991 criar uma nova comissão de editores-chefes, formada por Emanuel Tov, da Universidade Hebraica de Jerusalém, Eugene Ulrich e Emile Puech. Finalmente, em novembro do mesmo ano, a Biblioteca Huntington, da Califórnia, acabou com as especulações, tornando públicas fotocópias de todos os fragmentos. Com isso, a exclusividade sobre o material trancafiado em Jerusalém perdeu o sentido. Venceu a transparência.
O sensacionalismo também perdeu. O que os manuscritos afinal revelaram foi a diversidade de um judaísmo em transição, antes da catástrofe provocada pelos romanos. Depois do ano 70, as seitas desapareceram, com exceção dos cristãos e dos fariseus, os fundadores do judaísmo rabínico. A literatura de Qumran e a cristã derivam, portanto, de uma tradição judaica comum, da qual importaram rituais de batismo, refeições comunitárias, ascetismo e até modelos de organização: os essênios se dividiam em doze tribos, tal como a igreja cristã, estruturada em doze apóstolos. “Os manuscritos não mudaram minha visão de cristão”, diz Puech. “Revelaram o ambiente judeu, as crenças e práticas da época. Neles, os textos evangélicos encontram um fundo histórico, um país, um território.”

Para saber mais
Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto, Hershel Shanks, Imago, São Paulo, 1993.
Os Manuscritos do Mar Morto, Geza Vermes, Mercuryo, São Paulo, 1991.
Os Manuscritos do Mar Morto, Edmund Wilson, Companhia das Letras, São Paulo, 1994.
Na Internet:
The Dead Sea Scrolls Foundation: http://www.hum.huji.ac.il
Um tesouro no deserto da Judéia
A entrada da caverna 1, em Qumran, onde os primeiros manuscritos foram encontrados
Os pastores Juma e Muhamed fizeram a “descoberta arqueológica do século”
O bispo Athanasius Samuel foi o primeiro a perceber a importância dos pergaminhos
Orando de frente para o Mar Morto
Ruínas de Qumran. Os eremitas essênios moravam nas cavernas e rezavam no mosteiro
Um esconderijo bem seguro
Os manuscritos eram pergaminhos de pele de cabra e de ovelha, enrolados e amarrados com uma tira. Estavam envoltos em panos de linho ou em couro. Eram depositados em jarros estreitos de barro, com 50 centímetros de altura, tapados e escondidos no fundo das cavernas.
Uma crise entre gente muito erudita
Vermes denunciou a edição dos manuscritos como “o escândalo acadêmico do século XX”

Para o padre Emile Puech, “ inventou-se um complô digno de um romance policial”.
Trecho de uma oração essênia do ano 100 a.C.
“É da fonte de Sua retidão que advém minha absolvição, e de Seus maravilhosos mistérios advém a luz do meu coração. Meus olhos fitaram, esgazeados, o que é eterno, a sabedoria ocultada aos homens, um manancial de poder, uma nascente de glória escondida do conjunto feito de carne.”

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Abóbora do dia das bruxas já foi nabo

Qual o significado da abóbora no Dia das Bruxas, nos Estados Unidos?

O costume surgiu com os irlandeses. Dizia a lenda que um homem chamado Jack, após a morte, foi proibido de entrar no paraíso porque enquanto esteve na terra foi pão-duro. Já as portas do inferno foram fechadas porque fez o diabo de bobo, escavando, no interior do tronco de uma árvore, uma cruz. O demônio ficou aprisionado lá dentro até jurar que nunca mais iria provocá-lo com tentações.
Sem ter para onde ir Jack foi condenado a andar na escuridão até o juízo final. Então, ele implorou a Satã que acendesse brasas para iluminar seu caminho. O diabo deu-lhe um pequeno pedaço de carvão incandescente. Para proteger a luz, o irlandês colocou o carvão dentro do buraco de um nabo. Surgiu assim o jack o’lantern (Jack da Lanterna) como é conhecida. A idéia de usar um nabo surgiu com os Celtas, povo que se espalhou pela Europa entre 2 000 e 100 a.C. Um dos símbolos do seu folclore era um grande nabo com uma vela espetada. Quando os irlandeses chegaram aos Estados Unidos, encontraram pouquíssimos nabos nos campos. Mas havia abóboras em abundância. Os imigrantes fizeram a substituição

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Até o século IV escrita era uma bagunça

Página de uma Bíblia escrita em aramaico, livro sagrado que contém os ensinamentos de Jesus.

Como surgiram os principais sinais de pontuação?

Foi um alívio. Até o século IV os textos eram escritos sem pontuação. “Tinham que ser interpretados”, conta o lingüista Flávio Di Giorgi, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Não era fácil. No Oráculo de Delfos (século VII a.C.), um dos lugares da Antigüidade em que se faziam profecias consideradas divinas, ainda está escrito (em grego): “Ides voltarás não morrerás na guerra.” Quem lê entende que irá para a guerra e voltará a salvo. Era o contrário. Na verdade, queria dizer, se as vírgulas existissem: “ides, voltarás não (o “não” vem depois do verbo), morrerás na guerra.” Ou seja, vais morrer.
Os primeiros sinais de pontuação surgiram no início do Império Bizantino (330 a 1453). Mas sua função era diferente das atuais. O que hoje é o ponto final servia para separar uma palavra da outra. Os espaço brancos entre palavras só apareceram no século VII, na Europa. Foi quando o ponto passou a finalizar a frase. O ponto de interrogação é uma invenção italiana, do século XIV. O de exclamação surgiu no século XIV. Os gráficos italianos também inventaram a vírgula e o ponto e vírgula no século XV (este último era usado pelos antigos gregos, muito antes disso, como sinal de interrogação). Os dois pontos surgiram no século XVI. O mais tardio foi a aspa, que surgiu no século XVII. Tudo foi ficando mais claro com o aumento da importância da escrita.

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Cangaceiro idolatrado


Lampião, o “rei do cangaço”. Esse “rei” assaltou, seqüestrou, torturou, assassinou. E foi assim, como um sádico fora-da-lei, que ele se tornou um ídolo popular.
por Wanda Nestlehner

Olê mulher rendeira / Olê mulher rendá / Tu me ensina a fazer renda / Que eu te ensino a namorar.” Esses versos, quando soavam no sertão nordestino dos anos 20 e 30, podiam ser prenúncio de muito sangue – ou de muita festa. Lampião e seu bando entravam nas vilas cantando. Se a população negasse o que queriam – dinheiro, comida, apoio –, eles revidavam. Seqüestravam crianças, incendiavam fazendas, matavam rebanhos, estupravam, assassinavam e torturavam. Se fossem atendidos, organizavam bailes e davam esmolas. Por isso, quando ouvia Mulher Rendeira, que aliás é de autoria de Lampião, a gente sertaneja oscilava entre o pavor e a curiosidade. Ou fugia ou ia espiar pelas frestas, para ver aquele cuja fama já fascinava o país.
Mais mito que verdade
No interior do Pernambuco, o culto já exige monumentos. No dia 7 de julho, quando, segundo o Registro Civil, se comemoram 100 anos do nascimento de Lampião, o município de Triunfo lançará a pedra fundamental de uma estátua de 32 metros de altura para homenageá-lo. Com o apoio do povo. Triunfo segue o exemplo da vizinha Serra Talhada, ex-Vila Bela, terra natal do cangaceiro, que, em 1991, organizou um plebiscito para saber se ele merecia uma honraria dessas. O resultado foi sim e a estátua só não existe ainda por falta de verbas.
Bem antes de morrer, Lampião já inspirava poemas, músicas e livros. Uma propaganda de remédio chegou a comparar os males que ele causava à sociedade com os distúrbios provocados pela prisão de ventre. Mas a referência ao cangaceiro como figura nociva era exceção. Em geral, ele era tratado como herói, um nobre salteador, que tomava dos ricos para dar aos pobres. Em 1931, o mais importante jornal americano, The New York Times, divulgou essa versão caridosa do criminoso.
Com o tempo, o mito só cresceu. Este ano serão lançados mais três filmes (Corisco e Dadá, O Cangaceiro e O Baile Perfumado) e uma novela (Mandacaru, na Rede Manchete) sobre Lampião. Isso sem falar nos livros. E muitas dessas obras continuam mistificando o bandido, como se houvesse algum glamour em sua biografia.
Crueldades varrem o Sertão
Não dá para enumerar as atrocidades cometidas por Lampião. Sob o escudo da vingança, ele tornou-se um “expert” em “sangrar” pessoas, enfiando-lhes longos punhais corpo adentro entre a clavícula e o pescoço. E consentiu que marcassem rostos de mulheres com ferro quente. Arrancou olhos, cortou orelhas e línguas. Castrou um homem dizendo que ele precisava engordar.
Não há nada que justifique práticas assim. Mas muitos pesquisadores tentam explicá-las. “Lampião é um produto do seu meio”, arrisca Paulo Medeiros Gastão, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, com sede em Mossoró (RN). “Ele foi levado por fatores ligados à vida no sertão, como ignorância, secas, ausência de governo e de Justiça”, diz Gastão. Mas argumentos assim, alegados por muitos estudiosos, não são suficientes para entender Lampião. É o que garante o historiador americano Billy Jaynes Chandler, especialista do assunto: “Sua história, com todas as suas excentricidades, é toda dele”.
O ambiente em que o bandido cresceu, porém, tem seu peso. De acordo com Vera Lúcia F. C. Rocha, da Universidade Estadual do Ceará, “o código de honra do sertão não culpabiliza os homens que matam por vingança, mas enaltece sua coragem”. Vera, que acaba de lançar o livro Cangaço: Um Certo Modo de Ver, lembra que aquela sociedade repete para os meninos: “Seja homem”. Será que era a essa expectativa que Virgulino Ferreira tentava atender?
Nada a ver com Robin Hood
Não são poucos os que vêem em Lampião um Robin Hood nordestino. “Ele foi bandido, mas também teve atitudes de distribuir o que tomava”, diz o pesquisador Antônio Amaury C. de Araújo, de São Paulo, que escreveu seis livros sobre o cangaço. É, houve passagens assim. Em 1927, o bando entrou em Limoeiro do Norte (CE) jogando moedas para as crianças. Cena semelhante acontecera em Juazeiro, quando, num dos mais absurdos episódios da história brasileira, o bandido foi convocado para combater a Coluna Prestes (veja o infográfico).
“Mas Lampião nunca escolheu aliados em função da classe social”, diz o antropólogo Villela. “Pobres e ricos, oprimidos e opressores, todos eram bons desde que satisfizessem suas exigências. Todos eram inimigos desde que se opusessem a seus propósitos.”
O historiador inglês Eric Hobsbawn chegou a classificá-lo como um “bandido social” – não exatamente um Robin Hood, mas um tipo vingador. “Sua justiça social consiste na destruição”, disse Hobsbawn, que foi criticado pela avaliação. Billy Chandler, por exemplo, acha que Lampião só poderia ser considerado um bandido social por ter raízes em um ambiente injusto, nunca por se preocupar com a justiça social.
Villela concorda. Para ele, Lampião resistiu a um tipo de migração vergonhosa, a migração do medo, que empurrava para longe gente ameaçada por inimigos ou pela polícia. Para não passar por covarde, assumiu o nomadismo e a violência. As boas ações seriam um “escudo ético”, na opinião de Frederico Pernambucano de Mello, superintendente de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco, de Recife. Lampião, apesar de perverso, queria ser visto como um homem bom.
Apoio logístico de primeira
A formação que Lampião teve em casa valeu muito para sua brilhante atuação no cangaço. Com uma tropa de burros, sua família fazia frete de mercadorias. Virgulino aprendeu bastante sobre caminhos e viagens longas no trabalho com o pai. Além disso, conheceu muita gente do sertão. E tantos contatos acabariam sendo preciosos mais tarde.
A rede de apoio que ele tinha era fantástica, embora não fosse formada só de amigos. O historiador cearense Abelardo Montenegro definiu três tipos de coiteiros, como eram chamados aqueles que davam proteção ao bandido: o involuntário, que tinha medo, o vingador, que queria usar seus serviços, e o comerciante, que visava lucro. De acordo com a também cearense Vera Rocha, para a polícia havia só dois tipos: os ricos, que queriam proteger suas propriedades, o que era considerado compreensível, e os pobres, que o admiravam, o que era inadmissível.
Na verdade, ninguém tinha coragem de negar ajuda ao cangaceiro. E todo mundo também morria de medo da polícia. Em 1932, quando a repressão acirrou, as volantes, tropas andarilhas, transformaram-se num terror. “Quem tivesse 16, 17 ou 18 anos tinha que se alistar no cangaço ou na volante, senão ficava à mercê dos dois”, costuma dizer Criança, ex-cangaceiro que mora hoje no litoral paulista.
Os coronéis não tinham esse problema. Lampião chegou a ser amigo do capitão Eronides Carvalho, médico do Exército que se tornaria governador de Sergipe em 1934. O próprio confessou, anos depois, ter arranjado, mais de uma vez, munição para o bando.
Em paz, somente com Deus
Em meio ao sangue, Lampião achava lugar para a religião. Nos acampamentos, rezava o ofício, espécie de missa. Carregava livros de orações e pregava fotos do Padre Cícero na roupa. Em várias das cidades que invadiu chegou a ir à igreja, onde deixava donativos fartos, exceto para São Benedito. “Onde já se viu negro ser santo?”, dizia, demonstrando seu racismo. Supersticioso, andava com amuletos espalhados pela roupa. Levou sete tiros e perdeu o olho direito, mas acreditava-se que tinha o corpo fechado.
Em tempos de calmaria, os cangaceiros dividiam o tempo entre a fé e o prazer. Jogavam cartas, bebiam, promoviam lutas de homens e de cachorros, faziam versos, cantavam, tocavam e organizavam bailes. Para essas ocasiões se perfumavam muito. Mello informa que Lampião tinha preferência pelo perfume francês Fleur d’Amour. Balão, que viveu os últimos anos do cangaço, contou antes de morrer que eles usavam mesmo era Madeira do Oriente, bem mais popular. Há relatos de que os bandoleiros perfumavam até os cavalos quando andavam montados.
Jeito estranho de constituir família
Muito se fala que Lampião respeitava as mulheres. Mas parece que não era bem assim. Consta que em 1923, num lugar chamado Bonito de Santa Fé (PB), ele deu início ao estupro coletivo da mulher de um delegado. Eram 25 homens. “Tirei muita mocinha das mãos de companheiros”, conta Ilda Ribeiro de Souza, a Sila, 73 anos, a viúva do cangaceiro José Sereno, que vive em São Paulo.
O líder também mandava marcar a ferro moças que usassem cabelos ou vestidos curtos. É possível que Maria Déa, a Maria Bonita, não soubesse dessas histórias quando se apaixonou por ele. Ela o conheceu em 1929 e, em 1930, deixou o marido, o sapateiro José Neném, para segui-lo. Assim, abriu as portas para a entrada de mulheres no bando. Segundo Frederico de Mello, era uma época de “mais idade, menos guerra e mais limpeza”. Alguns estudiosos acreditam que as mulheres rivalizaram com as armas, desviando os homens da concentração militar. Teriam sido responsáveis pelo fim do cangaço.
De fato, alguns problemas surgiram, como o nascimento de crianças. A solução foi dá-las para padres ou fazendeiros. Quando morria um companheiro, a viúva tinha de arranjar novo par. Por duas vezes isso não deu certo e a saída foi executar as mulheres. Rosinha e Cristina foram assassinadas para não ameaçar o grupo. Outro drama era o adultério. Lídia e Lili morreram por trair seus companheiros.
É curioso notar como, apesar de atitudes extremamente conservadoras com as mulheres, Lampião chegava a ser moderno em outros aspectos. Mandava cartas com papéis que tinham seu nome datilografado, tremenda novidade na região. De acordo com Mello, preocupado com falsificação de correspondência – houve quem tentasse se passar por ele para levantar um dinheirinho – mandou fazer cartões de visita com sua foto. E tinha até garrafa térmica. De um certo ponto de vista, pode-se dizer que levava uma vida sofisticada.
Muita bala e cabeça de guerrilheiro
O bando de Lampião chegou a passar sede e fome, mas munição nunca faltou. Nem os “cabras” de maior confiança sabiam de onde vinha tanta bala. Direta ou indiretamente, a principal fonte foi a própria polícia. Pesam fortes suspeitas até sobre o capitão João Bezerra, o mesmo que acabou matando Lampião em Sergipe, em 1938.
Com suprimento suficiente e a cabeça de guerrilheiro de Lampião, o bando ganhava todas. Não se sabe quantos combates foram travados. O ex-comandante de volantes pernambucano Optato Gueiros contou 75. O cangaceiro, já em 1926, falava em 200. Também não há números sobre as baixas. “Alguns afirmam que morreram, em ambos os lados, cerca de 1 000 homens”, diz o historiador Jovenildo Pinheiro, da Universidade Federal de Pernambuco.
Para conseguir bons resultados, Lampião evitava ao máximo os confrontos e abusava de uma tática conhecida como dueto. Ao ataque da polícia, simulava uma fuga, esperando o inimigo em outro local, de surpresa. Havia quem dissesse que isso era covardia. Ele preferia chamar de esperteza.
Virgulino gostava das armas. Foi delas, aliás, que ganhou seu apelido. Diz-se que certa vez ele iluminou o ambiente com tiros, como um lampião, para que um colega encontrasse um cigarro caído no escuro. Outra versão conta que ele fez uma modificação num fuzil, tornando-o mais rápido, de modo que o cano estava sempre aceso. Como um lampião.
Encurralado no esconderijo
No ano passado, o fotógrafo mineiro José Geraldo Aguiar causou considerável estardalhaço quando anunciou que Lampião não morreu em 1938, aos 41 anos, como está escrito nos livros de História. Ele teria morrido apenas em 1993, em Minas, com o nome de Antônio Maria da Conceição. Aguiar pediu a exumação do corpo de Conceição mas a Justiça negou. Agora aguarda julgamento de um novo processo que apresentou. “Eu vou provar que estou falando a verdade”, garantiu ele à SUPER.
Enquanto isso, fica valendo a história antiga. Lampião foi traído por um coiteiro e surpreendido pelos “macacos”, como ele chamava os policiais, comandados por João Bezerra. O chefe do cangaço estava em um de seus coitos (esconderijos), na Fazenda Angico, em Porto da Folha, Sergipe. Isso aconteceu na madrugada de 28 de julho de 1938. Os trinta homens e cinco mulheres começavam a se levantar e os 48 policiais traziam uma metralhadora Hotchkiss, um dos sonhos de Lampião. Além dele e de Maria Bonita, foram mortos mais nove cangaceiros. A selvageria policial foi equivalente à dos bandidos. As cabeças dos mortos saíram em uma turnê macabra, e foram expostas em várias cidades. As de Lampião e de Maria, que foi degolada viva, seguiram para o Instituto Nina Rodrigues, em Salvador. Só foram enterradas em 1969.
Mas a história também pode não ter sido bem assim. Naquela época, Lampião negociava sua saída do cangaço com a polícia de três Estados. Por isso, há a suspeita de que o episódio de Angico foi uma farsa e de que a cabeça atribuída ao rei do cangaço era de um outro qualquer. Diz-se que ele carregava 1 000 contos de réis (um carro custava 8 contos) e uns 5 quilos de ouro. Isso sem falar no dinheiro que agiotava e que, claro, deixou de receber. Enfim, poderia ter subornado seus perseguidores e se mandado, como garante José Geraldo Aguiar.
Cinco dias depois do combate, Corisco, o diabo loiro, que não estava presente, matou um coiteiro, que imaginou ser responsável pela denúncia do amigo, e mais cinco pessoas de sua família. Cortou as cabeças e mandou para Bezerra. Em 1940, Corisco foi morto. Com ele, morreu o cangaço.
Eles também são idolatrados
Na década de 60, o historiador inglês Eric Hobsbawn incluiu Lampião entre um grupo de criminosos “sociais”. Para chegar a tal conclusão, Hobsbawn se baseou mais nas lendas do que nos fatos, como ele mesmo admitiu. A maioria dos estudiosos vê em Lampião apenas um bandido sanguinário, sem qualquer objetivo nobre. Estimulado, talvez, pelo ambiente, ele caiu num tipo de vida da qual não tinha muito jeito de sair. O fato de ter sido transformado em herói não é novidade. Outros criminosos sofreram o mesmo processo. É o caso do americano Jesse James, dos filmes de faroeste. No Brasil, nunca houve um que se comparasse ao cangaceiro, mas muitos foram bastante exaltados.

PARA SABER MAIS
Lampião – O Rei dos Cangaceiros, Billy Jaynes Chandler, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1986.
Lampião: As Mulheres e o Cangaço, Antonio Amaury Corrêa de Araújo, Traço Editora, São Paulo, 1984.
Quem Foi Lampião, Frederico Pernambucano de Mello, Stahli, Zurique, 1993.
O Espinho do Quipá, Vera Ferreira e Antonio Amaury, Oficina Cultural Mônica Buonfiglio, São Paulo, 1997.

NA INTERNET
Exame da Cabeça de Lampião http://bbs.elogica.com.br/users
Lampião e Maria Bonita http://www.bahamer.g12.br/turma
O domínio do medo
De 1922 a 1938, Lampião assaltou, saqueou e matou em sete Estados do Nordeste. Veja como ele se movimentou ao longo do tempo.

Invencibilidade nômade

1922 e 1923
Logo que assume pela primeira vez a chefia de um bando, Lampião já atua em vários Estados.
1923 e 1924
A conquista de apoio em Princesa (PE) e em Sousa (PB) leva o bando mais para o norte.
1924
Um ataque a Sousa resulta na perda da preciosa proteção do coronel José Pereira e de parte da área dominada.
1925 a 1928
O vandalismo se espalha de novo.
1927
Em Mossoró (RN), a quadrilha, com 120 homens, é rechaçada por moradores e não volta mais ao Estado.
A partir de 1928
O bando é pulverizado em vários grupos menores, que passam a atacar também na Bahia e em Sergipe.
O começo de uma carreira de horrores
Lampião inspirou muita literatura, mas não foi a origem da palavra cangaço. No século XIX, ela já designava bandoleiros nordestinos que carregavam o rifle deitado sobre os ombros, lembrando a canga, arreio de madeira que vai sobre o pescoço dos bois, e o nome pegou. Canga, cangaço, cangaceiro.
O pernambucano Cabeleira, nascido em 1751, foi o primeiro a virar mito. Acabou enforcado. Lucas da Feira, de 1807, também foi executado, mas antes viajou ao Rio para estar com D. Pedro II, que desejava conhecê-lo. Depois vieram Jesuíno Brilhante, Meia Noite, Antonio Silvino e Sinhô Pereira. Foi no bando deste último que Virgulino Ferreira da Silva ingressou, aos 24 anos.
Filho de um pequeno proprietário rural, o rapaz sabia ler e era hábil artesão em couro. Mas entortou sua biografia em 1915, quando acusou um empregado do vizinho José Saturnino de roubar uns bodes.
A rixa entre as famílias durou anos. Em 1919, Virgulino e dois irmãos, Livino e Antônio, caíram no crime. Matavam gado do inimigo e assaltavam.
No encalço dos três irmãos, a polícia prendeu um quarto, o inocente João. O pai, José Ferreira, fugiu. No caminho, hospedou-se na casa de um amigo, onde foi morto pela polícia. Virgulino, diz a lenda, jurou: “De hoje em diante vou matar até morrer.”

Como o país armou Lampião
Para combater a Coluna Prestes, marcha de militares revoltosos comandados pelo capitão Luís Carlos Prestes, que depois tornou-se líder comunista, o governo se aliou ao cangaceiro em 1926.
Janeiro: o bandido é convocado

Com a coluna se aproximando do Ceará, Floro Bartolomeu, deputado federal do Estado, recruta uma força de defesa, os Batalhões Patrióticos, e vai com ela para Campos Sales (CE). Prepara uma carta convocando Lampião e a manda para o Padre Cícero endossar. Um mensageiro vai atrás de Lampião. Enquanto isso, Bartolomeu, adoentado, segue para o Rio.

Fevereiro: confusão entre inimigos
Aparentemente sem ter recebido a carta de Bartolomeu, Lampião cuida de seus interesses pessoais em Pernambuco. Invade a fazenda de um antigo inimigo, mata dois, fere dois e incendeia a casa. Saindo desse ataque, no mesmo dia, tem um combate com a coluna, mas pensa que está lutando com a polícia.

Março: defensor público por pouco tempo
Lampião recebe a carta e segue para Juazeiro. Acampa com 49 homens perto da cidade e mais de 4 000 curiosos vão vê-lo. No dia 5, se encontra com o Padre Cícero e recebe uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada, acredite, por um funcionário do Ministério da Agricultura. Mais tarde esse homem diria que, naquelas circunstâncias, assinaria até a exoneração do presidente. Todos os cangaceiros recebem uniformes e fuzis automáticos. No dia 8, Floro morre. Lampião parte decidido a cumprir o combinado, mas é perseguido em Pernambuco, o que o desaponta. Volta para falar com o Padre Cícero. Como este não o recebe, interrompe sua carreira de defensor público e retoma a rotina de crimes.

Figurino eficiente e de estilo
Como se vestiam as mulheres e os homens do cangaço.
Em 1929, na cidade de Capela, Sergipe, Lampião pesou seu equipamento. Sem as armas e com os depósitos de água vazios, deu 29 quilos. E isso também não incluía a roupa, grossa o suficiente para protegê-lo dos espinhos da caatinga. O figurino inteiro era de grande valia. Ao lado, ele é mostrado por Corisco, um dos homens de confiança de Lampião, que tinha seu próprio bando, e sua mulher Dadá. Não é à toa que quando começaram a construir estradas no Sertão, Lampião ficou furioso, a ponto de matar muitos trabalhadores inocentes. Ele não precisava de estradas e sabia que elas seriam o seu fim.

Truques que davam certo
O conhecimento do ambiente e o uso de algumas táticas davam vantagem ao cangaceiro.

Rastros
Uma forma de escondê-los era andar em fila indiana, todos pisando na mesma pegada. O último ia de costas, apagando-a com plantas. Mandavam também fazer alpercatas com o salto na frente e não atrás, como é normal. A pegada parecia apontar para o outro lado.

Comunicações
Quando entrava numa cidade, o bando cortava o fio do telégrafo e tomava o posto telefônico, impedindo pedidos de socorro.

Estradas
Eram evitadas. Os bandoleiros iam por dentro da caatinga. Quando não tinham outra opção, seqüestravam todas as pessoas que encontravam e levavam os reféns ao menos por um tempo.

Psicologia
Não deixavam a polícia avaliar o resultado dos combates. Levavam os mortos e, quando não dava, cortavam-lhes as cabeças, dificultando a identificação.

Apelidos
Quando um integrante do grupo morria, seu apelido era adotado por um novato. Essa é uma das razões que faziam os cangaceiros parecer invencíveis, pois os nomes eram imortais.

Alarmes
Sempre havia cães acompanhando o bando. Eles funcionavam como sentinelas. Havia também um sistema banal de alarme. Consistia em cercar o acampamento com fios ligados a sinos.

Amleto Meneghetti (1878-1976)
“A propriedade é um roubo; portanto, não sou ladrão”, costumava dizer o assaltante italiano que chegou em 1913 a São Paulo e logo tornou-se conhecido. Em geral, andava desarmado. Sua agilidade, tanto para entrar em mansões como para escapar da cadeia, impressionava. É o mais famoso bandido urbano brasileiro.

Bandido da Luz Vermelha (1942- )
João Acácio Pereira da Costa foi roubar uma lanterna para usar nos assaltos em São Paulo e só encontrou uma de luz vermelha. Daí o apelido. Foi condenado a 351 anos de prisão por quatro assassinatos e outros crimes, mas deve ser solto este ano. Em O Bandido da Luz Vermelha, de 1968, um dos melhores filmes brasileiros, aparece como um sedutor carismático.

Lúcio Flávio Vilar Lírio (1944-1975)
Filho da classe média alta carioca, Lúcio Flavio dizia que era assaltante porque gostava. Ficou com fama de herói por dezoito fugas incríveis e pelas denúncias que ajudaram a desmascarar o Esquadrão da Morte, grupo de policiais que assassinava sumariamente aqueles considerados suspeitos. Em 1977, virou filme: Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia.

Leonardo Pareja (1974-1996)
A carreira de Pareja foi curta. Aos 15 anos, ele começou a roubar carros. Com 16, usava revólver. Ganhou fama em 1995, quando seqüestrou uma menina de 13 anos e depois passou quarenta dias brincando de esconde-esconde com a polícia. Na prisão, liderou um motim e foi aplaudido por cuidar bem dos reféns. Acabou assassinado numa penitenciária de Goiás aos 22 anos.

Revista Superinteressante