segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A Prostituição e o Contexto do Século XIX

Patricia Marinho Aranha
É interessante como o falar sobre assuntos relacionados ao sexo sempre gerou e ainda hoje gera muitas controvérsias; apesar da sexualidade se afirmar como um processo, que em si próprio possui uma história e não se afirma como uma realidade imutável. No século XIX podemos vislumbrar esta situação de forma bastante acentuada, nos países europeus e também nos Estados Unidos, devido a um contexto de queda brusca das taxas de natalidade - o que obviamente implicava a desvinculação do sexo do seu objetivo reprodutor -, a conflitos de classe, raça e sexo. Também é nesta época que a mulher ascende ao espaço público para falar de assuntos sexuais, porém, de forma limitada aos conceitos culturais já existentes.

A figura da prostituta também é muito polemizada neste século, a distribuição do mundo da prostituição é bastante abrangente, vai desde os bairros nobres até aqueles freqüentados por marinheiros e operários; em várias cidades era comum que, assim que chegasse, o homem adquirisse o ‘guia do cavalheiro’, onde constavam os preços, serviços e localização dos principais bordéis.

Um outro aspecto da prostituição é a ‘interação’ que esta possui com as demais profissões das classes média e baixa. Muitas prostitutas residiam em bairros onde, tradicionalmente, moravam os operários. Operárias e trabalhadoras em geral complementavam seus baixos salários prestando serviços sexuais na rua; ademais, a prostituição se estabelecia como um refúgio para as jovens mais pobres, que geralmente a abandonavam por volta dos trinta anos; nestes casos o papel do bordel é de de extrema importância já que, apesar das constantes brigas com a patroa, ele se constitui num sistema de amparo às mulheres.

A partir da segunda metade do século XIX, inicia-se uma tentativa de regulamentação da prostituição: por exemplo, no caso de Paris, a polícia tinha por objetivo ‘limpar’ as ruas da presença das prostitutas para que houvesse lugar para as ‘senhoras de bem’ circularem sem maiores constrangimentos. As leis regulavam o vestuário e a maquiagem das prostitutas, além de obrigá-las a se submeter a exames ginecológicos para verificar o seu estado de saúde com regularidade. Elas eram proibidas de aparecer de maneira que chamasse a atenção antes de as luzes estarem acesas e tinham de estar decentemente vestidas.

Estas legislações provocam um fenômeno muito particular na distribuição e nas associações para a prostituição, as prostitutas foram obrigadas a mudar sua área de atuação e arranjar alojamentos em outras zonas da cidade; iniciou-se uma distinção entre pobres respeitáveis e não respeitáveis como tentativa da destruição dos laços que uniam as prostitutas às camadas mais pobres da sociedade; havia até mesmo inspeções às residências dos operários. A intensificação da política repressora abriu uma brecha entre as prostitutas e a comunidade operária pobre, o que ligou as primeiras aos meios delinqüentes. Nos Estados Unidos há também o preconceito de cor, a prostituição branca é quase invisível, enquanto as mulheres negras, que se utilizavam da rua, estavam mais sujeitas a serem presas.

O bordel perde o prestígio anterior, tanto homens quanto mulheres pretendem ter mais liberdade e se esquivar do papel legislador das normas, aumenta a prostituição em cafés, no music-hall, nos teatros e em outros pontos de reunião das cidades.

Nesta mesma época e também em decorrência das medidas regulamentadoras, várias feministas se uniram a outras senhoras e religiosos; seu objetivo era o de revogar estas medidas, com a denúncia de que a prostituição era o resultado dos baixos salários, falta de oportunidades para emprego e restrições ao trabalho feminino na indústria. Para elas, era o sistema de regulamentação e não a prostituição em si, que condenava as mulheres a uma vida de ‘pecado’ impedindo-as de encontrar um emprego alternativo e respeitável, em suma, a legislação as estigmatizava.

Faz-se necessário ressaltar que a intenção das feministas não era o simples fim do controle da prostituição, mas o fim da mesma; baseavam-se no ideal da castidade feminina, criticavam o comportamento sexual compulsivo, agressivo e dominador masculino.

É neste contexto que a mulher da classe média constrói a sua identidade, em contraste com a ‘mulher perdida’. Uma, cheia de virtudes, boa filha, boa mãe, e possuia um comportamento sexual passivo. As mulheres da classe operária trabalhadora também acentuavam as suas diferenças das prostitutas, tanto através de sua apresentação visual quanto pela sua identidade privada, como esposas e mães. Estas mulheres também estavam preocupadas com as comparações perigosas que a riqueza relativa das prostitutas poderia exercer em seus filhos; várias são as cartas que estas enviaram às autoridades para que fechassem as casas de ‘má fama’.

Segundo Judith R. Walkowitz em A História das Mulheres no Ocidente, no capítulo: Sexualidades Perigosas, as prostitutas não estavam, de forma alguma, alheias às controvérsias que as cercavam, elas podiam expressar sua situação atavés de múltiplos discursos: “Ao apresentar-se diante de um juiz ou de um responsável por uma obra de caridade, as prostitutas contavam freqüentemente ‘a história de sua desgraça’, usando as mesmas convenções melodramáticas – sobre a sedução de vítimas femininas inocentes por libertinos maldosos das classes superiores – que as mulheres da classe média empregavam para explicar a prostituição.”

Logo, percebemos que, apesar de constituirem uma população relativamente grande e que se infiltrava em diversas camadas da sociedade do século XIX, as prostitutas eram, assim como hoje o são; discriminadas em diversos aspectos, ora com uma visão romântica de seu ofício, o que implicava a total ausência do desejo e do prazer sexual feminino ou, obrigadas a permanecer em uma vida de clandestinidade, como se nunca fossem dignas de respeito como as demais mulheres.

Cronologia:

1860: Aprovação de medidas regulamentadoras da prostituição em quase todos os países europeus. Estas legislações, em geral, obrigavam as prostitutas a se registrar na polícia de costumes e a submeter a exames médicos periódicos.
1869: Primeira oposição política à regulamentação das prostitutas, na Grã- Bretanha, uma coligação de reformadores morais da classe média, formada por vários setores da sociedade, exigiu a revogação da legislação.
1871: Relatório parlamentar britânico que dizia que: “não havia hipótese de comparação entre as prostitutas e os homens que tinham relações com elas, que elas eram tão assexuadas que mostravam um desejo sexual masculino.”
1874: Estabelecimento da legislação regulamentadora em St. Louis, onde foi rapidamente revogada graças a uma oposição religiosa e feminina maciça.
1883: Suspensão do sistema de regulamentação na Grã-Bretanha.
1885: Publicação na Pall Mall Gazette, de um artigo sensacionalista sobre a prostituição infantil: “O Tributo Virginal na Babilônia Moderna” pelo jornalista W. T. Stead, persuadido por Josephine Butler e suas aliadas.
1888: Funeral de Marie Jean Kelly, uma das vítimas de Jack, o estripador; o caixão da mesma estava coberto de coroas de flores de ‘amigos’ da assassinada, o que demonstra a camaradagem do pub.
Citações:

“Gostavam mais do trabalho na fábrica do que do trabalho nas ruas. Mas a diferença do que se ganhava era muito grande. Os tempos eram duros e os pobres não podiam escolher.” Duas raparigas da fábrica de compotas Crosse and Blackwell que trabalhavam nas ruas à noite, relatos coletados por W. T. Stead.

“Entrei na vida do prazer por questões de dinheiro e por nenhuma outra. Nesses tempos era a forma de uma mulher fazer dinheiro, e eu fi-lo.” Patroa de um bordel em Denver, relatado por W. T. Stead.

“Entre os pobres, as fronteiras entre a virtude e o vício esbateram-se gradual e imperceptivelmente, pelo que era impossível designar distintamente as prostitutas ou classificá-las infalivelmente numa categoria marginal” Comentário da feminista Josephine Butler sobre as relações entre os pobres e a prostituição.

Bibliografia:

BUTLER, Josephine. “The Garrison Towns of Kent” in: The Shield, Londres, 22 de Abril de 1870.
WALKOWITZ, Judith R. “Sexualidades Perigosas” in: História das Mulheres no Ocidente, séc. XIX, vol. 4. PERROT, Michelle. Editora EBRADIL, 1995.
SCHUMAHER, Schuma. Dicionário das Mulheres do Brasil. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000.
ARISTOFANES. A Greve do Sexo Trata a Revolução das Mulheres. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1997.
WALKER, Alice. De Amor e Desespero, Histórias de Mulheres Negras. Editora Rocco, 1998.
ROLKA, Gail Meyer. Cem Mulheres que Mudaram a História do Mundo. São Paulo, Ediouro, 2000.
Gravuras:

Prostitutas de um local do Oeste dos EUA, 1900. O baralho, a bebida e o próprio ato de posar para um fotógrafo sugere o tempo livre desfrutado pelas prostitutas que trabalhavam nos bordéis.

Prostitutas e clientes num bordel berlinês, 1900. Tudo era válido para estimular a fantasia dos clientes, desde fantasias de bailarina até o cancan.

Cena de bordel, 1895.A gravura abaixo sugere o estabelecimento de um bordel.

NEC-UFF

Joana d’Arc: da fogueira aos céus

Joana d’Arc: da fogueira aos céus
Cinco séculos após sua execução, a jovem guerreirafrancesa Joana d’Arc afirma que continua sendo mal interpretadae insiste na tese de que os santos realmente falavam com ela
por Lúcia Monteiro*
Ela era apenas uma camponesa do vilarejo francês de Domrémy. Mas, aos 13 anos, Joana d’Arc começou a escutar vozes. A jovem, nascida em 1412, dizia ouvir santos dando-lhe instruções sobre como vencer a Guerra dos Cem Anos (travada entre a França e a Inglaterra, de 1337 a 1475). Quatro anos depois, Joana lideraria milhares de soldados, motivados por sua fé. Aquelas vozes, entretanto, acabaram servindo de pretexto para que ela fosse queimada na fogueira em 1431, depois de um julgamento religioso comandado pelo reitor da Universidade de Paris. A Igreja Católica, que a condenara por bruxaria, acabou revertendo o veredicto e, no ano de 1920, a canonizou.

Alguns historiadores acreditam que a participação de Joana na guerra tenha sido mais folclórica do que efetiva. De qualquer modo, seu prestígio atual é inquestionável. Ela é venerada mesmo fora das igrejas – inclusive pela Frente Nacional, partido francês de extrema direita. O primeiro dos filmes sobre a guerreira, conhecida na França como La Pucelle (“a virgem”), foi feito ainda em 1899, nos primórdios do cinematógrafo. Confira abaixo a entrevista que Joana concedeu, depois de muita insistência, a História.

História – Por que você resistiu tanto até concordar em falar conosco?

Joana D·Arc – Olha, passei muitos meses de minha curta vida respondendo a questionamentos no Tribunal da Inquisição. No geral, as pessoas estavam muito pouco dispostas a escutar o que eu falava. Elas tinham muitos preconceitos. Mas resolvi me abrir, principalmente porque acho que fui muito mal interpretada e queria ter a oportunidade de dar a minha versão da história, que nunca foi ouvida de verdade e, pior, nunca foi compreendida.

Como você, que não tinha treinamento militar nem qualquer experiência no campo de batalha, conseguiu liderar tantos homens?

Minha fé em Deus e a proteção divina já explicam tudo. Mesmo assim, posso dizer que, entre os integrantes das tropas inglesas e francesas, muitos tinham preparo parecido com o meu, ou seja, praticamente nenhum. Havia muitos civis no combate. Claro que a principal diferença era o fato de eu ser mulher. Mas, durante as batalhas, ninguém se lembrava disso. Eu tinha os cabelos bem curtos e me vestia como os demais soldados.

Alguns pesquisadores acreditam que sua presença não alterou em nada os rumos da Guerra dos Cem Anos. Afinal, a paz só veio mais de 40 anos depois de sua captura...

Já me habituei a esse tipo de comentário maldoso e infrutífero. Acredito que a importância de uma menina numa guerra dominada por homens sempre será colocada em questão. É obvio que os autores dessas bobagens são homens também. Sei da importância do meu papel na libertação do cerco à cidade de Orléans, em 1429. É verdade que os ingleses estavam desmotivados e praticamente nos deixaram ganhar. Mas era Deus, através de mim, que dava ânimo e fé aos combatentes franceses.

Você vivia rodeada de homens nos campos de batalha, dormia ao lado deles, alguns chegaram a dizer que viram você nua... Nos dias de hoje, muitas pessoas acham estranho que você tenha mantido a castidade.

Eu prometi a Santa Catarina que me manteria virgem e jamais pensei em descumprir meu pacto. É verdade que eu vivia cercada por homens, mas eles sempre me respeitaram. A rainha da Sicília, sogra do meu estimado rei Carlos VII, chegou a me examinar durante o inquérito de Orléans e atestou minha virgindade.

Você sempre disse ouvir vozes e ver fadas. O que representam essas metáforas?

Metáforas?! Como assim? Olha, eu fui muito mal interpretada e por isso relutei em dar essa entrevista. Todos os meus depoimentos foram deturpados, as pessoas têm dificuldade de entender. Santa Catarina e São Miguel sempre falaram comigo. Foram eles que me mandaram procurar o rei Carlos VII, que me disseram para ir a Orléans... Agora, nessa história de fada não dá mesmo para acreditar. Até hoje não sei por que inventaram isso.

Mas você tem como provar que essas vozes eram mesmo de santos?

Eu já expliquei isso no tribunal diversas vezes. As pessoas parecem querer que eu faça mágicas para provar meu dom, minha sensibilidade. As vozes não surgem quando eu quero. Isso é coisa séria, é preciso ter fé. Mas tudo que eu previ de fato aconteceu. A guerra só não terminou antes porque fui capturada pelos ingleses e não pude mais ajudar meu amado rei.

E por que Deus defenderia a França na Guerra dos Cem Anos? Deus por acaso é francês? Ha quem acredite que Deus é brasileiro...

Não costumo fazer perguntas para Deus, apenas sigo suas instruções. Duvidar da palavra divina é coisa de quem não tem fé. As vozes me pediram que ajudasse o povo francês a superar aquela infelicidade toda, de guerras, saques, invasões. Foi o que eu fiz.

Aquela espada encontrada na igreja é a principal prova de que você realmente era predestinada?

Veja lá como você usa as palavras. Nunca disse que sou predestinada. Estou escolada com essas perguntas tendenciosas, já me dei muito mal com a Inquisição por causa delas. Mas a espada de Santa Catarina foi, sim, uma prova de que eu estava certa. Falei que ela estaria enterrada atrás da igreja de Fierbois e que ela teria o desenho de cinco cruzes. Eu estava em Tours quando as vozes me disseram isso, pedi que buscassem a espada por mim e, de fato, ela estava lá.

Você acompanha os filmes e livros que são feitos sobre você? O que achou da Milla Jovovich no filme de Luc Besson?

Sim, acompanho. Ela é uma mulher linda, fiquei lisonjeada por a terem escolhido para fazer meu papel. Mas o filme me ofendeu muito. E a toda minha família também. Imagina, lá eles dizem que minha irmã foi violentada. Isso não aconteceu!

* Lúcia monteiro é jornalista e faz mestrado em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais na Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris. Trabalhou seis anos na revista Veja São Paulo, onde se acostumou a falar com celebridades – o que a ajudou a entrevistar uma santa pela primeira vez.

Saiba mais
Livros


Joana d’Arc, Mark Twain, Record, 2001 - O célebre escritor americano publicou, em 1895, este romance dedicado à heroína. Twain inventou um amigo de Joana para ser o narrador da história.

Jeanne d’Arc: de Domrémy à Orléans et du bûcher à la legende, Roger Caratini, Archipel, 2002 - Discute como a jovem virou símbolo de patriotismo. Reproduz trechos do processo de inquisição, com depoimentos da própria Joana.

Filme

Joana d’Arc de Luc Besson, Luc Besson, 1999 - Aqui, Joana teria se tornado muito religiosa e passado a ter alucinações após o estupro da irmã.

Revista Aventuras na História

Afeganistão - Um inferno para as mulheres

Nascer no Afeganistão não é um bom começo de vida para ninguém. No país que é um dos cinco mais pobres do mundo e o segundo mais corrupto, 70% da população sofre de desnutrição e a expectativa de vida é a mesma de um adulto na Inglaterra da Idade Média: 43 anos. As arcaicidades de origem tribal, acrescidas de três décadas de guerra, deixaram o Afeganistão num tal estado de atraso que Cabul, a capital, só recentemente recebeu seu primeiro semáforo – que poucos viram funcionando, já que ele está quebrado dia sim e o outro também. Na tentativa de controlar o trânsito, policiais gesticulam inutilmente em meio às vias sem faixas, por onde carros velhos trazidos do Japão ziguezagueiam entre mendigos, mutilados e crianças, que vendem de frutas a galinhas.

Thaís Oyama, de Cabul
Fotos de Adam Dean, para VEJA


VIDAS ROUBADAS
Afegãs rezam diante de um túmulo em cemitério de Cabul: sete em cada dez ainda usam burca e mais da metade se casa com homens escolhidos pela família antes dos 16 anos de idade

No caminho do aeroporto para o centro da cidade, as barreiras de soldados armados com anacrônicos fuzis Kalashnikov e os muros de concreto erguidos diante das embaixadas lembram a todo instante que a desgraça está à espreita. Só nos dois primeiros meses do ano, a capital do Afeganistão foi alvo de duas séries de atentados cometidos por homens-bomba, nas quais 21 pessoas morreram. O país foi apontado, no último relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), como o lugar mais perigoso do mundo para gerar uma criança. Mas pior do que vir à luz é nascer mulher no Afeganistão.

Nove anos depois da queda do regime do Talibã, as afegãs continuam pagando a parte mais pesada da conta do fundamentalismo religioso. Nas ruas, a maioria ainda usa a burca, a roupa que cobre o corpo feminino dos pés à cabeça e que era uniforme compulsório no tempo da milícia talibã. Embora as escolas para mulheres não sejam mais proibidas, as estudantes representam uma porcentagem ínfima da população feminina e mais da metade das afegãs ainda se casa antes dos 16 anos de idade – salvo raríssimas exceções, com homens escolhidos por sua família. Sob o totalitarismo medieval do Talibã, as que saíam às ruas desacompanhadas do marido ou de um parente do sexo masculino eram castigadas a chibatadas. Hoje, a proibição não existe mais, mas as afegãs continuam ausentes da paisagem. Para elas, qualquer lugar onde haja aglomeração masculina é considerado impróprio, o que inclui mercados, feiras, cinemas e parques. A segregação sexista faz com que até nos saguões dos aeroportos e nas festas de casamento exista um "setor feminino" – só no primeiro caso não formalmente delimitado. Nas bodas em que as mulheres comparecem maquiadas e com belos vestidos, quase sempre há dois salões – um para eles e outro para elas. Poucas se arriscam a desafiar as proibições sociais. A aplicação de castigos físicos a mulheres de "mau comportamento" continua a ser vista como um dever e um direito da família. Uma pesquisa feita em 2008 com 4 700 afegãs mostrou que 87% já tinham sido vítimas de espancamentos ou abusos sexuais e psicológicos – em 82% dos casos, infligidos por parentes. O Afeganistão livrou-se do jugo do Talibã, mas não conseguiu varrer o obscurantismo religioso que ele ajudou a disseminar. A interpretação radical e misógina dos princípios do Islã é a principal causa da tragédia das mulheres afegãs.

A prática da autoimolação é um dos sinais mais cruéis de sua magnitude. Entre 2008 e 2009, ao menos oitenta afegãs tentaram o suicídio ateando fogo ao corpo. Na província de Herat, a oeste de Cabul, a incidência desse tipo de episódio é tão alta que o principal hospital da região montou uma unidade para atender exclusivamente a casos assim. Quando a reportagem de VEJA visitou o lugar, havia três mulheres internadas por queimaduras autoinfligidas. Todas tinham menos de 26 anos e eram analfabetas. No Afeganistão, apenas 15% das mulheres com mais de 15 anos sabem ler e escrever. Rahime, de 25 anos, deu entrada no hospital com 35% do corpo queimado. Ela disse que tentou se imolar porque "estava cansada de viver". Contou que se casou aos 10 anos de idade e, desde então, engravidou seis vezes (sofreu três abortos espontâneos). A mãe estava com ela no hospital. Indagada sobre as razões que a fizeram permitir que a filha se casasse tão cedo, explicou que, na verdade, não a deu em casamento, mas foi obrigada a vendê-la. O marido era lavrador em uma plantação de ópio e não conseguia sustentar a família, de oito filhos. "Ficávamos três ou quatro noites sem ter o que comer", afirmou ela. Rahime foi entregue a um comerciante da região em troca de 200 000 afeganes, o equivalente a 4 300 dólares, divididos em dez pagamentos. O comerciante, hoje seu marido, é "bem mais velho" do que ela, mas nem a jovem nem a mãe souberam precisar quanto.


"CANSADA DE VIVER"
Rahime, de 25 anos, ateou fogo ao corpo jogando querosene sobre a cabeça.
Ela foi dada em casamento aos 10 anos de idade

Para atear fogo em si próprias, as mulheres costumam recorrer a óleo de cozinha ou ao querosene usado para acender lampiões. Apenas 6% das casas na zona rural do país têm eletricidade. O óleo provoca queimaduras mais graves do que o querosene, porque gruda na pele, o que faz com que o calor permaneça por mais tempo em contato com o corpo. Tanto o óleo quanto o querosene superam a água fervente, já que a fumaça que produzem pode causar, além de intoxicação, queimaduras internas. A maior parte das mulheres que tentam imolar-se não morre na hora, mas depois de alguns dias, vítima de falência de múltiplos órgãos resultante da perda de água. Rahime tinha o rosto e o corpo enfaixados. Ela verteu querosene sobre a cabeça, e não sobre o peito, como ocorre com mais frequência. Enquanto falava, uma policial se aproximou da sua cama para interrogá-la sobre os motivos da tentativa de suicídio. A investigadora Zulaikha Qambari trabalha há três anos no Departamento para Solução de Conflitos Familiares da Delegacia de Herat. Rahime disse a ela que decidiu atear fogo ao corpo porque a sogra passou a maltratá-la desde que o seu marido foi trabalhar no Irã. As duas mulheres deitadas ao lado da jovem também culparam alguém da família pelo ato extremo: uma diz que decidiu se matar depois de apanhar do padrasto do marido e outra afirmou que tomou a decisão por causa de uma briga com a cunhada em torno de um cosmético que havia ganho de presente. A policial Zulaikha afirmou estar habituada a ouvir justificativas como essas. "Algumas mulheres demoram para contar a história inteira, que muitas vezes inclui estupros e espancamentos sistemáticos. Outras nem são capazes de explicar por que fizeram aquilo. Apenas dizem que não querem mais viver." Quando a reportagem se preparava para deixar o hospital, deparou com a chegada de uma quarta vítima. Ruquia, de 15 anos, proveniente da província vizinha de Badghis. Ela apresentava 45% do corpo queimado. A mãe disse aos médicos que a filha havia se acidentado fazendo chá. "Mentira", sussurrou o enfermeiro. "Sinta o cheiro de querosene que exala do corpo dela." A menina estava casada havia um ano.

A quantidade de mulheres que tentam imolar-se no Afeganistão atingiu o auge em 2004, quando só o hospital de Herat recebeu 350. Desde então, o número de vítimas tem-se mantido estável – e surpreendentemente mais alto do que o registrado no tempo em que o Talibã mandava no país. "Naquele período, quase não recebíamos casos como esses", afirma o diretor da unidade de queimados, Hamayoon Azizi, que há doze anos trabalha no hospital. Isso não quer dizer que as mulheres tinham menos motivos para sofrer no passado. Durante os cinco anos em que esteve no poder, o Talibã proibiu-as de trabalhar e de estudar. Instituiu a pena de apedrejamento para adúlteras e baniu qualquer tipo de entretenimento, incluindo cinema, televisão e até a brincadeira de empinar pipas, tradicional no país. A música também foi vetada, e quem fosse achado com uma fita cassete no carro era preso. Para o médico Azizi, o aumento no número de casos de autoimolação em relação àquele período é fruto do contato que muitas afegãs tiveram com o Irã, onde a prática está disseminada há mais tempo. O Irã faz fronteira com a província de Herat e, com o Paquistão, foi escolhido como refúgio por milhões de afegãos que deixaram o seu país no fim dos anos 90. Com a queda do Talibã, esses refugiados começaram a retornar ao Afeganistão – trazendo, na hipótese do médico, o "know-how" da autoimolação.

A engenheira civil Sabzina Hasanzada foi uma das muitas mulheres que abandonaram o Afeganistão para fugir do Talibã. Ela ficou viúva aos 31 anos e perdeu seu único irmão na guerra civil que antecedeu a vitória da milícia. Sem um homem para acompanhá-la na rua, como exigiam os radicais, ela tinha dificuldades até mesmo para abastecer a despensa da casa em que morava com as duas filhas. Resolveu mudar-se para o Paquistão e só voltou quando o regime caiu, em 2001. Hoje, está de volta ao seu trabalho no Ministério da Energia, onde ganha o equivalente a 400 dólares por mês. Mora na área antiga de Cabul, próxima ao mercado principal, aonde só vai de burca, embora deteste a roupa. "Evita que os vizinhos façam fofocas e que os homens cheguem perto", disse a VEJA. No mercado, a frequência é predominantemente masculina. É costume no país os homens fazerem as compras domésticas, orientados pelas mulheres, cujo lugar, supõem, é dentro de casa. Além disso, fica nesse mercado a maior feira de pássaros da capital, e criá-los para rinhas é um dos passatempos masculinos. Na verdade, qualquer briga é um passatempo para os afegãos. Há lutas organizadas de faisões, cães e camelos. Até as pipas brigam pela supremacia no céu, o que é compreensível num país que se vangloria da valentia de seus guerreiros e se orgulha de exibir na sua história a expulsão de duas potências invasoras, a britânica e a russa.

Sabzina, que se formou na Universidade de Cabul, faz questão de que as filhas, Frieshta, de 15 anos, e Silsila, de 12, frequentem a escola. Embora no ano passado 102 colégios para meninas do país tenham sido alvo de ataques atribuídos a membros do Talibã contrários à educação para mulheres, as escolas da capital eram consideradas seguras. Isso mudou no último dia 27, quando 22 meninas e três professoras foram hospitalizadas depois de ter sido expostas a um gás não identificado e caído inconscientes na sala de aula. Segundo a polícia, o ataque seguiu o padrão de três outros atribuídos ao Talibã, ocorridos pouco antes na província de Kunduz, no extremo norte do país. Os episódios reforçaram a sensação de que nuvens escuras continuam a pairar sobre o Afeganistão – mais precisamente, sobre a cabeça das mulheres do Afeganistão. Outros indícios recentes foram a aprovação de uma lei que obriga a esposa xiita a fazer sexo com seu marido sempre que ele exigir, sob pena de ser privada de sustento por ele, e a série de ataques a mulheres parlamentares. A ex-deputada Malalai Joya teve o mandato cassado ao defender
a secularização do estado afegão e Fawzia Koofi sofreu um atentado a tiros, em março, depois de ter recebido seguidas ameaças de morte por criticar a aprovação do chamado "estupro marital" para a minoria xiita.

Analistas da situação política afegã acreditam que a "talibanização" do país é fruto principalmente da aliança firmada pelo presidente Hamid Karzai com lideranças de partidos religiosos fundamentalistas nas eleições do ano passado – um apoio que ele agora precisa retribuir. O governo Karzai é fraco e corrupto. No ranking da Transparência Internacional dos países mais honestos do mundo, o Afeganistão era, até 2005, o 117º entre 180. Na última classificação, em 2009, caiu para o 179º posto. A corrupção lá chega a ser palpável. No bairro mais rico de Cabul, Sherpur, o conjunto de casas originalmente pertencentes aos "barões do ópio" (o Afeganistão produz 92% da substância usada no mundo para a fabricação de heroína) foi rebatizado de "Char-pur" – algo como "lugar de saqueadores". Isso porque, desde o início do governo Karzai, ele passou a abrigar também funcionários públicos cujo salário, estima-se, não seria suficiente para comprar nem um dos muitos lustres de cristal que pendem das varandas das casas – repletas de vidros verdes espelhados e outros itens de decoração compatíveis com a fineza atribuída aos seus moradores. Um dos poucos sinais de que os rumos do Afeganistão podem mudar um dia é um ainda incipiente, porém crescente, interesse dos jovens pela política, motivado em parte por uma campanha lançada por organizações não governamentais em 2009. A corredora Robina Jalali está entre esses jovens. Aos 25 anos, ela foi a primeira atleta afegã a participar de uma Olimpíada. De família rica (o pai, informou seu irmão, trabalha com exportação), ela ouve Shakira e Jennifer Lopez, veste roupas compradas em Dubai e conhece mais de vinte países. Cursa ciências políticas na Universidade de Karwan e já está em campanha para concorrer a uma vaga no Parlamento. "Quero que o Afeganistão se orgulhe de mim, mas também quero me orgulhar dele", diz.


CORRIDA CONTRA O ATRASO
A corredora Robina Jalali foi a primeira atleta afegã a participar de uma Olimpíada.
Ela se maquia, veste roupas compradas em Dubai e agora planeja concorrer a uma vaga no Parlamento. Diz que quer um dia sentir orgulho do seu país, o segundo mais corrupto do mundo e o mais perigoso para uma criança nascer, segundo o Unicef. Ao lado, menina diante da casa dos pais, no centro de Cabul

O presidente Hamid Karzai, segundo relatório do Pentágono divulgado no mês passado, conta com o apoio de apenas 29 das 121 áreas do país consideradas estratégicas para o seu governo – muitas delas sob comando de líderes tribais. As demais, conforme o relatório, ou não têm posição firmada ou apoiam os insurgentes do Talibã. Esse é um dos motivos pelos quais, em visita aos Estados Unidos na semana passada, Karzai reafirmou que, por ele, a "reconciliação nacional" do Afeganistão tem de passar por uma negociação com os chefões do Talibã. Os mesmos que foram apeados do poder em setembro de 2001 por sua cumplicidade com os terroristas da Al Qaeda. Trata-se de um pacto com o demônio. Caso ele vingue, mulheres como Robina, Rahime, Sabzina e suas filhas continuarão a arcar com uma conta não só pesada demais, como a perder de vista.


REDUTO FEMININO
Os shoppings estão entre os poucos lugares que as afegãs podem frequentar. Nos demais, onde há aglomeração masculina, existem restrições. Até em saguões de aeroportos e festas de casamento elas têm de ficar em setores separados dos destinados aos homens

A CAPITAL
Rodeada por montanhas, Cabul tem vias sem faixas, poucas calçadas e menos mulheres ainda nas ruas

MANSÕES DO ÓPIO
As casas de Sherpur, onde vivem grandes traficantes e, agora, também funcionários do governo.
Ao lado, afegãos rezam no parque Qargha – como todo parque, "inapropriado" para mulheres.
Nos fins de semana, só homens são vistos divertindo-se na roda-gigante e nos pedalinhos

"MERCADO DO BUSH"
Assim os moradores de Cabul chamam a feira que vende produtos desviados da base militar americana de Bagram. À esquerda,, vendedor exibe suas aves no mercado de pássaros da capital

Um celeiro de homens-bomba

O PAQUISTANÊS Muhibullah, preso em Pul-e-Charkhi (à esq.) por planejar explodir-se num atentado

Se houvesse um ranking das penitenciárias mais explosivas do mundo, Pul-e-Charkhi estaria no topo. Entre os seus 4 622 detentos, estão 72 homens-bomba – afegãos e paquistaneses –, condenados em pelo menos uma instância judicial por planejar ou tentar cometer um atentado suicida. A prisão de Pul-e-Char-khi fica num descampado poeirento na periferia leste de Cabul. Ganhou notoriedade por ter sido palco da execução de milhares de prisioneiros políticos no tempo em que o Afeganistão esteve sob o regime comunista (1979-1989) e por abrigar, até dois anos atrás, quase setenta crianças e bebês. No Afeganistão, as presas podem manter os filhos pequenos junto a si. Até 2008, as crianças de Pul-e-Charkhi, além de ter de cumprir pena com as mães, eram obrigadas a conviver com milhares de homens condenados. A situação só mudou depois que o governo afegão criou a primeira penitenciária feminina de Cabul.

VEJA entrevistou seis presos de Pul-e-Charkhi acusados de planejar ou tentar levar a cabo um ataque suicida em território afegão. Diante da reportagem, todos alegaram inocência – mesmo os já condenados em segunda instância pelo crime, como o paquistanês Muhibullah, de 22 anos, ex-estudante de um madraçal em Peshawar, e os que foram pegos com a boca na botija, como o afegão Malin, 26 anos, pintor de paredes em Cabul, com quem a polícia encontrou um colete recheado de explosivos. O único a ser apresentado algemado à reportagem foi o afegão Abdul Jalil, preso há um ano e meio, depois de tentar explodir-se em Nangrahar, província na fronteira com o Paquistão. Jalil não se deixou fotografar nem quis relatar sua versão para a prisão. No entanto, a um carcereiro que lhe perguntou o que faria se fosse solto, respondeu imediatamente: "Morreria em nome de Alá".

Como é vestir uma burca


O MUNDO ATRÁS DA TELA
O visor da burca impede a visão lateral e torna difícil enxergar os pés

A primeira constatação é que ela permite enxergar melhor do que se imagina. À luz do dia, os olhos aprendem rapidamente a ignorar a interferência da trama quadriculada que serve de visor da roupa. Ao menos quando se olha para a frente, dá para ver tudo com clareza. Já a visão lateral desaparece de dentro de uma burca. Olhar para os lados requer virar completamente a cabeça, e o primeiro tropeção ensina que enxergar os pés – assim como os muitos buracos que surgem diante deles nas ruas sem calçada e sem asfalto de Cabul – é outra tarefa complicada para uma mulher nessa situação. É por isso que quase todas caminham com uma das mãos sobre o peito, pressionando o tecido contra o corpo. Só assim conseguem ver um pouco melhor onde pisam. A sensação ao usar a roupa é a de estar dentro de uma barraca de camping, de onde se pode espreitar o mundo sem ser visto, já que ninguém presta atenção numa mulher de burca – você é só mais um ponto azul movimentando-se na paisagem.

Até vinte anos atrás, as burcas eram feitas de algodão e plissadas a mão. Hoje, são de poliéster e fabricadas na China. Custam o equivalente a 20 dólares e, ao contrário das antigas, não amassam, não desbotam e não perdem as pregas jamais. Mas são abafadas como o inferno – e causam dor de cabeça, resultado da pressão do elástico interno que prende a peça em torno do crânio. Em compensação, as burcas protegem contra as moscas que sobrevoam os muitos esgotos a céu aberto de Cabul. Embora só as mãos fiquem visíveis, quem quiser perscrutar quem está sob uma burca pode começar prestando atenção na cor do tecido. Quanto mais claro o tom de azul (sempre azul, já que a ideia é não ser original), mais jovem é a mulher que está debaixo dela.

Conforme o dia escurece, a visão vai piorando. A quantidade de tropeções aumenta e a sensação de claustrofobia começa a dar comichão nas mãos. Puxo finalmente o véu e descubro o rosto. Burcas podem proteger contra a poeira, a gripe A e o "bad hair day", mas tirá-las – e sentir a lufada de ar fresco que adentra os pulmões – é a melhor parte da experiência de vesti-las.

O Jackie Chan afegão

SOCOS E LÁGRIMAS
Cartaz do filme O Fim, 103º produzido pelo ator e diretor Salim Shaheen (à esq.):
tragédias do Afeganistão para quem está longe dele

Roteirista, produtor, diretor e ator autodidata, Salim Shaheen acaba de terminar seu 103º longa-metragem. Como todos os anteriores, Farjam (O Fim) não custou mais do que 30 000 dólares e demorou menos de cinco meses para ficar pronto. Tem socos e pontapés em abundância – Shaheen é fã do diretor e ator chinês Jackie Chan, de quem empresta os golpes de kung fu e um certo humor, às vezes involuntário – e lágrimas suficientes para encher o Rio Helmand, o maior do Afeganistão. Só nos primeiros cinco minutos da fita, três parentes do personagem principal vão ao encontro de Alá: a irmãzinha, vítima da pobreza da família, que não pôde comprar-lhe remédios; o pai, atropelado quando tentava buscar socorro para a menina; e a mãe, fulminada por um ataque cardíaco ao receber a notícia do atropelamento do marido.

Ao falar dos sofrimentos impostos pela pobreza – e também das tragédias de amor decorrentes de casamentos forçados, das histórias de devoção filial, sacrifícios maternos e honra familiar –, Shaheen leva um pouco do Afeganistão para os que estão saudosos dele. Ao longo de trinta anos de guerras, estima-se que quase um terço da população tenha abandonado o país. Só no Paquistão e no Irã vivem até hoje 3 milhões de afegãos desterrados. Eles estão espalhados também pela Índia, Alemanha e Canadá e são o principal público dos DVDs de Shaheen, cujas personagens femininas quase sempre aparecem sem véu. As ousadias do cineasta já fizeram com que diversas de suas atrizes fossem agredidas na rua. Suspeita-se que uma delas, Mursal Negah, de 22 anos, tenha tido sorte pior. Recentemente, ela surgiu em uma fita de Shaheen dançando numa roda de homens com os cabelos descobertos. Pela cena, recebeu ameaças de parentes e decidiu mudar-se para o Canadá. Antes que isso ocorresse, no entanto, foi encontrada morta. Seus pais só comunicaram o fato ao diretor e aos amigos da atriz em março, um mês depois de ela ter sido enterrada, sem autópsia. Segundo a família, Mursal foi vítima de ataque cardíaco.

O livreiro de Cabul quer fazer as pazes


SHAH RAIS, que inspirou o best-seller da noruguesa Asne Seierstad, em sua livraria no centro de Cabul (à direita, a fachada que, como todas da capital afegã, implora por uma tinta)


Shah Muhammad Rais diz que cansou de brigar. Depois de seis anos percorrendo os tribunais noruegueses em busca de "reparação" pelos supostos danos decorrentes da publicação do best-seller O Livreiro de Cabul, inspirado nele e em sua família, Rais afirmou a VEJA que vai retirar o processo contra a autora, a jornalista norueguesa Asne Seierstad. "Ela já reconheceu o mal que fez", disse. Na obra, a jornalista descreve o livreiro, chamado na história de "Sultan", como um pai tirano e um marido insensível, que, entre outras coisas, fez a mulher chorar por vinte dias ao adotar uma segunda e adolescente esposa, para a qual reservava frutas e guloseimas negadas aos demais integrantes da família.

Para escrever o livro, Asne morou por três meses na casa de Rais – hoje, vazia. Ele agora vive no andar superior de sua livraria, no centro da capital afegã, com os dois filhos mais velhos. A primeira mulher mora no Canadá. A segunda, em Oslo. Rais chegou a declarar que foi obrigado a tirá-las do Afeganistão, juntamente com seis de seus oito filhos, porque trechos do livro de Asne poriam em risco a segurança delas e das crianças. Hoje, no entanto, admite que a família nunca recebeu nenhuma ameaça e que, no caso da primeira mulher, a mudança para o Canadá se deu "apenas por precaução". Quanto à segunda, que Rais nega ser a sua preferida, ele explica que o que ocorreu foi que ela, grávida de nove meses, o acompanhou numa viagem a Oslo para tratar do processo contra a jornalista e lá deu à luz o caçula do casal, que nasceu com graves problemas respiratórios. "Meu filho teria morrido se não fossem os médicos noruegueses", conta. Hoje, com 4 anos de idade, a criança ainda sofre de complicações respiratórias sérias que lhe valeram asilo humanitário e tratamento gratuito em Oslo. "A generosidade do povo norueguês é um dos motivos pelos quais quero acabar com esse processo", diz Rais. Há dois anos, ele esteve no Brasil. O que mais o impressionou na visita? A diversidade da população ("Negros, brancos, orientais, tudo misturado") e o restaurante Porcão. "Maravilhoso. Pretendo voltar lá um dia e levar a minha mulher. Quer dizer, as minhas mulheres."
19 de maio de 2010
Revista Veja

Donas de casa e chefes de família

Por razões diversas, a cada dia elas assumem novas funções e encargos

MIGUEL NÍTOLO

"La Scapigliata", de Leonardo da Vinci

Nada será como antes. Se, no passado, à mulher cabia a tarefa de pilotar o fogão, lavar e passar a roupa, cuidar das crianças, manter a casa limpa e preparar o almoço e o jantar para o marido, então o grande responsável pelo sustento do lar, agora ela está se tornando titular de ocupações que antes diziam respeito apenas aos homens. E assumindo a função de pai e mãe no ambiente doméstico, respondendo pela colocação da comida na mesa, pela escola dos filhos, pelo salário da empregada e pelo pagamento das contas. Essas novas mulheres estão em todos os quadrantes, na favela da Rocinha e no Leblon, no sertão e no litoral, na aristocrática e espaçosa Avenida Paulista e nas ruas apertadas de Olinda. Reflexos da emancipação feminina, dos costumes em constante mutação ou do divórcio? Ou, ainda, resultado da evolução natural do comportamento humano? Seja como for, uma coisa é certa: um número crescente de lares tem mulheres no comando, e isso independe da condição social e do tamanho da conta bancária. Tanto faz se elas são executivas, donas de empresas e secretárias bilíngues ou faxineiras, empregadas domésticas e operárias.

A ascensão das descendentes de Eva no mundo em que, outrora, somente os filhos de Adão tinham voz ativa está estampada com todas as letras na Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada meses atrás pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), onde se lê que os 25,9% de lares no Brasil chefiados por mulheres em 1998 pularam para 34,9% em 2008. Alguma novidade? Nenhuma, considerando que no mesmo período a participação delas no mercado de trabalho foi de 42% para 47,2%. E há outro dado que realça a salutar presença da mulher na vida econômica da nação: elas já estariam dando conta de 40% da demanda por automóveis, situação que vem motivando donos de oficinas antenados com as mudanças a reservar espaço e a oferecer um atendimento no mínimo diferenciado à nova classe de clientes.

A mulher já dirige os destinos da Argentina e do Chile, e não seria nenhuma surpresa se, nas próximas eleições para presidente da República, no Brasil, uma representante da ala feminina ganhasse o direito de despachar diretamente do Palácio do Planalto. Ou seja, o sexo que um dia foi ironicamente chamado de frágil está, hoje, presente em basicamente todos os segmentos e se saindo muito bem.

É na condição de cabeça da família, porém, que o avanço da mulher mais desperta atenção. De acordo com Maria Coleta Oliveira, do Núcleo de Estudos de População (Nepo), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é preciso, no entanto, distinguir antes o conceito de “chefe” e o de “pessoa responsável” da família ou do domicílio. “Esses termos levam a ambiguidades de interpretação dos dados. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), levada a efeito pelo IBGE, usa o termo ‘pessoa responsável’, mas não determina o que isso significa exatamente.” Assim, segundo ela, cada respondente pode usar o sentido que bem entender. “Há países que definem um critério claro e rígido, como, por exemplo: pessoa que ganha mais ou pessoa que toma decisões sobre o dinheiro, ou, ainda, pessoa que paga o aluguel da moradia etc. Em nosso caso, isso não está predefinido.” Feita essa ressalva, conforme diz a professora Maria Coleta, é evidente que as informações conduzem à interpretação de que as mulheres ou estão adquirindo posições de maior responsabilidade na própria família – já que se autodefinem ou são definidas pelo respondente como responsáveis por ela – ou reconhecendo esse papel.

Efeito em cadeia

Seja como for, entretanto, é notório que há um conjunto de fatores que estão contribuindo para o aumento dos lares monoparentais em que a mulher é a pessoa que dá as cartas. Julieta Romeiro, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), salienta que a crescente participação feminina no mercado de trabalho, o maior controle sobre a reprodução, o aumento da participação política e, mais recentemente, o advento de leis como a Maria da Penha, que criminaliza a violência contra a parceira, podem ser listadas como causas importantes da reestruturação da identidade de gênero e de uma maior autonomia e independência da mulher. “E, como num efeito em cadeia, essas mudanças trouxeram novos desenhos e configurações aos espaços privados, uma vez que a entrada da mulher na vida pública afetou a forma como as famílias se organizam e se estruturam.”

A socióloga Márcia dos Santos Macedo, doutora em ciências sociais e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), comenta que uma pluralidade de fatores econômicos, sociais, culturais e comportamentais está por trás da nova realidade, citando como exemplo a precariedade das condições de vida da população, articulada a fatores demográficos – tais como a ocorrência de novos fluxos migratórios, a redução da fecundidade, o aumento do número de separações, o crescimento relativo das uniões consensuais e as chamadas “produções independentes”. Pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim), da UFBA, ela afirma que “a complexa combinação desses elementos vem dando origem a arranjos familiares com chefia feminina, podendo desaguar em diferentes situações sob o mesmo rótulo, como a condição da mulher solteira, viúva ou separada com filhos, ou da casada que coabita com companheiro e filhos, ou ainda da que se encontra nas mesmas circunstâncias e vive também com parentes e outros agregados”.

Isso, porém, não é tudo, conforme observa Paola Gambarotto, bacharel em ciências sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em sociologia pela Unicamp, cuja dissertação discute a transformação da figura feminina a partir de famílias monoparentais de classe média. Segundo ela, a escolaridade da mulher tem trilhado uma rota francamente ascendente e contribuído para o incremento do voo solo como chefe da casa. Isso, na realidade, pode ser facilmente comprovado em qualquer sala de aula, especialmente do ensino técnico e superior, e no florescimento das escolas dedicadas ao treinamento e formação de mão de obra.

A Síntese de Indicadores Sociais detectou que a escolaridade das mulheres é superior à dos homens. A pesquisa do IBGE mostra que em 2008, na área urbana, a média entre as mulheres ocupadas era de 9,2 anos de estudo, enquanto, para os homens, era de 8,2. Na área rural, apesar dos patamares mais baixos, os números também eram favoráveis à mulher (5,2 anos, para 4,4 entre os homens). Além disso, segundo o levantamento, de cada cem pessoas com 12 anos ou mais de estudo, 56,7 eram mulheres. “Essa diferença se manifestou em todos os estados brasileiros, mas chamou a atenção no Maranhão, em Piauí, Sergipe, Pernambuco, Tocantins e Mato Grosso do Sul. Entre os maranhenses, 62,7 eram mulheres”, informa a SIS.

Há ainda o alongamento da expectativa de vida da mulher e a predominância da mortalidade masculina em praticamente todas as idades (os homens morrem mais cedo), que também concorrem para a construção da nova estrutura familiar. Quando a empresária Jussara Aranha perdeu o marido, morto há dois anos depois de um casamento feliz que já durava mais de duas décadas, parecia que o mundo tinha vindo abaixo. Dono de uma farmácia com dez funcionários, o casal sempre se entendeu em relação ao encaminhamento dos negócios, mas a responsabilidade pela administração repousava sobre os ombros do marido.

“Naquele momento, era eu ou eu. Não dava para esperar ajuda e sabia que não podia deixar a peteca cair porque, além de ter de cuidar de meus dois filhos, na oportunidade com 20 e 16 anos e ainda hoje estudantes, precisava manter em pé o projeto de nossas vidas.” Jussara conseguiu a duras penas superar as dificuldades e, assim, sentiu-se forte o bastante para dar as costas às propostas de concorrentes interessados na aquisição de sua firma. “Eles me viram sozinha e apostaram que me daria mal. Enganaram-se todos, redondamente”, diz. E aproveita para mandar um recado: “Minha empresa não está à venda”, confirma, contente com a expectativa de, no ano que vem, ver o filho mais velho diplomar-se em farmácia.

A partida do parceiro tem peculiaridades que tornam a ascensão da mulher à posição de mandante do lar um acontecimento mesclado de dor e sofrimento. “Crescem os exemplos de morte prematura entre jovens de 15 a 24 anos por meios violentos – homicídios e acidentes”, ressalta Maria Quinteiro, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (Nupri), da USP. Também coordenadora do Grupo de Estudos Mulheres e Temas Transnacionais (Gemttra), ela cita ainda o enorme contingente de presidiários, cuja situação acaba legando à mulher a incumbência da educação dos filhos. Segundo Maria Quinteiro, a vida das mulheres que chefiam famílias é caracterizada pela sobrecarga derivada do acúmulo de funções. “Ela é a provedora e a cuidadora principal ou exclusiva. Com o aumento do estresse, crescem a irritabilidade, a impaciência e a intolerância”, comenta a professora da USP.

Políticas públicas

A psicóloga Maria Tereza Maldonado explica que os encargos tendem a se tornar excessivos quando a mulher não dispõe de uma rede de apoio eficaz, formada por amigos, amigas e pessoas da família, enfim, gente a quem possa recorrer em caso de necessidade. Autora dos livros Casamento, Término e Reconstrução e Comunicação entre Pais e Filhos, ela esclarece que essa rede diz respeito não apenas a relacionamentos pessoais, mas também a políticas públicas. “Infelizmente, as leis, quando existem, nem sempre são cumpridas, e esse é o caso, por exemplo, da obrigatoriedade da instalação de creches nos locais de trabalho”, diz.

O fenômeno da chefia de domicílios por mulheres não é, propriamente, uma “nova realidade”, a despeito de só recentemente o assunto ter recebido maior divulgação. “O que podemos considerar como novo, nesse contexto?”, pergunta Márcia Macedo, da UFBA. “É sua expansão entre as chamadas camadas médias brasileiras, que, do ponto de vista ideológico, vem se chocar com o modelo dominante nesse universo, centrado na chefia masculina”, ela mesma responde. Segundo a cientista social, embora nas camadas populares esse fenômeno seja bastante recorrente, as últimas décadas testemunharam uma significativa reviravolta em todos os estratos sociais, contribuindo, consequentemente, para o crescimento de sua visibilidade.

Veja-se, por exemplo, o caso da costureira Diva Benatti. Ela não conseguia se imaginar interpretando o papel de chefe de casa até o dia em que, em 1991, seu companheiro morreu, depois de 22 anos de convivência, ficando sob sua responsabilidade a educação de quatro filhos, de 17, 15, 13 e 5 anos. Isso aconteceu num tempo em que a liberação feminina ainda não havia sido catapultada aos níveis de hoje e as pesquisas mostravam uma presença ainda incipiente da mulher como dirigente do lar. “Não quero para ninguém a vida que tive de enfrentar. Se não fossem os amigos, teria sucumbido”, ela diz. Especializada em alta costura, coseu aqui, remendou ali e até virou locutora de rádio no interior de São Paulo, antes de ter a sorte de dispor, a título de empréstimo, de um espaço cedido por conhecidos a fim de montar sua oficina. Diva conta que trabalhava até de madrugada para garantir o sustento da casa. Voltou a namorar e, em 2003, concretizou um segundo casamento, mas enviuvou em outubro último. A diferença é que, agora, depois de ter conseguido formar os filhos e “dado a volta por cima”, é dona de um pequeno ateliê nos fundos de casa. “Para quem achou que ia naufragar, até que me saí bem”, conclui.

Vínculos débeis

Definitivamente, o mundo não é mais o mesmo. “O casamento até que ‘a morte os separe’ vem perdendo força, e as mulheres esposadas já não se mostram dispostas a levar uma vida insatisfatória ao lado do parceiro”, observa a professora Maria Coleta, da Unicamp. “As estatísticas do Registro Civil revelam que a maioria dos processos de separação judicial e de divórcio acontece por iniciativa da mulher, e o fato de boa parcela delas terem a própria renda derivada do trabalho ou de outras fontes certamente contribui para a tendência de debilidade do vínculo conjugal”, ressalta. Maria Juracy Filgueiras Toneli, do grupo de pesquisa Margens: Modos de Vida, Família e Relações de Gênero, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina, vai na mesma direção. Ela argumenta que “as mulheres vão, aos poucos, ganhando confiança em si mesmas e tomando consciência de que podem prescindir dos homens”.

Infelizmente, o avanço da mulher no mercado de trabalho não rendeu até agora a buscada equiparação salarial com o homem. “Mesmo escolarizadas, as brasileiras continuam ganhando menos, o que faz com que a renda masculina ainda desempenhe um papel importante no orçamento familiar”, afirma a socióloga Julieta Romeiro. É o caso de Renata Descotti, mãe de uma menina de 9 anos e de um menino de 7, que trabalha fora e recebe pensão do ex-marido para poder arcar com as obrigações. Por outro lado, a chegada ao mercado de trabalho permitiu à mulher maior autonomia.

Em 2008, de acordo com o IBGE, de cada cem mulheres no Brasil, 52 estavam ocupadas ou procurando trabalho. A pesquisa levantou que 42,5% das brasileiras com idade entre 15 e 19 anos se encontravam naquela situação, uma taxa superior à de países latino-americanos e europeus, e equiparada à dos Estados Unidos. Da mesma maneira, a taxa de atividade das mulheres idosas brasileiras é bem elevada quando confrontada aos índices dos países da Europa. Brasil, México e Argentina se destacam no cenário internacional. Explica-se: nas nações europeias, os sistemas de proteção social são mais eficientes, garantindo maior bem-estar à população idosa. Outra informação reveladora destaca que entre 1998 e 2008 caminhou de 2,4% para 9,1% a proporção de mulheres que são referência no lar, apesar da presença do cônjuge em casa. Decididamente, pelo menos no tocante à chefia do lar, nada será como antes.

Revista Problemas Brasileiros

O papel da mulher no islamismo

Elas ainda sofrem, mas a culpa não é apenas da religião

POR TRÁS DOS VÉUS: garota olha entre mulheres afegãs com burcas

A lista de horrores já soa, a esta altura, familiar. Meninas proibidas de ir à escola e condenadas ao analfabetismo. Mulheres impedidas de trabalhar e de andar pelas ruas sozinhas. Milhares de viúvas que, sem poder ganhar seu sustento, dependem de esmolas ou simplesmente passam fome. Mulheres com os dedos decepados por pintar as unhas. Casadas, solteiras, velhas ou moças que sejam suspeitas de transgressões - e tudo o que compõe a vida normal é visto como transgressão - são espancadas ou executadas. E por toda parte aquelas imagens que já se tornaram um símbolo: grupos de figuras idênticas, sem forma e sem rosto, cobertas da cabeça aos pés nas suas túnicas - as burqas. Quando o Afeganistão entrou no noticiário por aninhar os terroristas que bombardearam o World Trade Center e o Pentágono, essas cenas de mulheres tratadas como animais voltaram a espantar o Ocidente. Elas viviam em regime de submissão absoluta havia muito tempo, mas a situação ficou ainda pior desde que a milícia Talibã tomou o poder no país, em 1996.

O cenário de Idade Média não era uma prerrogativa afegã. Trata-se de uma avenida permanentemente aberta aos regimes islâmicos que desejem interpretar os ensinamentos do Corão a ferro e fogo. A isso se dá o nome de fundamentalismo. Há países de islamismo mais flexível, como o Egito, e outros de um rigor extremo, como a Arábia Saudita. Para o pensamento ortodoxo muçulmano, a mulher vale menos do que o homem, explica Leila Ahmed, especialista em estudos da mulher e do Oriente Próximo da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. "Um 'infiel' pode se converter e se livrar da inferioridade que o separa dos 'fiéis'. Já a inferioridade da mulher é imutável", escreveu Leila num ensaio sobre o tema, em 1992.

Por trás dessa situação há uma ironia trágica. A exclusão feminina não está presente nas fundações do islamismo, mas apenas no edifício que se erigiu sobre elas. O Corão, livro sagrado dos muçulmanos, contém versículos dedicados a deixar claro que, aos olhos de Alá, homens e mulheres são iguais. O mais importante deles é o que está reproduzido nesta página. Ele mostra que Deus espera a mesma fidelidade de ambos os sexos, e que a premiará de forma idêntica. O Corão é o mandamento divino, e não uma interpretação qualquer da vontade de Deus. Como se explica, então, que idéias tão avançadas tenham se perdido, para dar lugar a Estados religiosos em que as mulheres têm de viver trancafiadas e cobertas por véus, em pleno século XXI? As respostas têm de ser buscadas muito longe, no próprio nascimento do Islã.

Casamento aos 9 - Quando tinha 25 anos, Maomé se casou com Khadidja, uma viúva rica que o empregara para supervisionar sua caravana de comércio entre a cidade de Meca, na atual Arábia Saudita, e a Síria. A própria Khadidja, de 40 anos, propôs as núpcias, num arranjo que não era assim tão incomum. Naquela época, a Arábia era uma das poucas regiões do Oriente Médio em que o casamento comandado pelo marido ainda convivia com outros tipos de união. Acredita-se que havia até mulheres que tinham vários maridos - e muitas viviam com considerável autonomia pessoal e financeira. Era o caso de Khadidja, uma negociante experiente. Alguns anos depois de seu casamento, Maomé começou a receber o que seriam revelações de Deus. Julgando-se louco, procurou o conselho da esposa. Ela dispersou suas dúvidas e, para provar sua confiança no marido, converteu-se à nova religião. O primeiro muçulmano foi, assim, uma mulher. Quando Khadidja morreu, Maomé entrou em vários casamentos simultâneos. A mais célebre de suas esposas é Aisha, que tinha 9 anos na ocasião das bodas. Segundo alguns relatos, ela brincava no quintal quando foi chamada para dentro de casa. Lá, encontrou o noivo e foi posta sobre seus joelhos. Os pais da menina se retiraram, e o casamento teria se consumado ali, na casa paterna.

Aisha é uma figura central nesses primeiros anos do Islã (cujo calendário começa a ser contado no ano 622 da era cristã). Inteligente, articulada e dona de uma memória prodigiosa, ela foi a mais querida e respeitada das mulheres do profeta - embora todas partilhassem de seus ensinamentos e apoiassem ativamente sua causa. Eram, aliás, tão assediadas por pessoas em busca de favores e influência que talvez por isso tenham sido as primeiras muçulmanas (e, por algum tempo, as únicas) a usar véu e ficar recolhidas em casa - e, ainda assim, só nos últimos anos da vida de Maomé. Aisha tinha 18 anos quando Maomé morreu. Nas quase cinco décadas seguintes de sua vida, ela foi inúmeras vezes consultada em pontos importantes da religião, da política e também da conduta do profeta. Isso porque Maomé legou aos muçulmanos o Corão, que é quase um tratado ético, mas não teve tempo de regulamentar todos os princípios que deveriam reger o cotidiano dos convertidos. Quando vivo, podia ser consultado a qualquer momento. Depois de sua morte, tornou-se tarefa de seus seguidores próximos transferir da memória para a escrita as palavras e ações do profeta. A intenção era que o conjunto servisse de guia aos fiéis. Esses "ditados" são os Hadith. Juntos, eles compõem a tradição maior, a Sunna. Com as complicações surgidas por causa da sucessão de Maomé, os Hadith tornaram-se uma ferramenta crucial. Não era difícil que alguém sacasse um deles para resolver um impasse. E, é claro, não demorou para que muitos fossem forjados. Cerca de 200 anos depois da morte do profeta, um respeitado historiador do islamismo, al-Bukhari, contou 7 275 Hadith genuínos, contra quase 600.000 inventados. Mesmo os tidos como verdadeiros merecem algum escrutínio, argumentam estudiosos como a marroquina Fatima Mernissi.

Fatima investigou a origem dos Hadith que são as pedras angulares para justificar a inferioridade feminina no Islã. Um deles é o que compara as mulheres aos cães e jumentos na sua capacidade de perturbar a oração. Fatima concluiu que o narrador desse Hadith, Abu Hurayra, era um homem com sérios problemas de identidade sexual e um feroz opositor de Aisha, que amiúde o repreendia em público por sua mania de inventar Hadith. Nessa ocasião, ela corrigiu Hurayra, dizendo que o profeta costumava rezar perto de suas mulheres sem nenhum medo de que elas o atrapalhassem. Mas sua versão não passou à história. Outro Hadith que todo muçulmano sabe de cor é o que diz que "aqueles que confiam seus negócios a uma mulher nunca conhecerão a prosperidade". Segundo Fatima Mernissi, o surgimento desse Hadith é ainda mais misterioso. Abu Bakra, seu narrador, lembrou dessa frase do profeta (e pela primeira vez) mais de vinte anos depois de supostamente ela ter sido dita. Curiosamente, veio-lhe à memória (assim ele afirmou) no momento em que Aisha sofreu sua grande derrocada. A viúva do profeta virou o centro de uma crise quando, ao suspeitar de um golpe, pegou em armas para intervir numa das etapas da sucessão de Maomé. Na batalha que se seguiu, perdeu 13.000 de seus soldados e saiu derrotada, em vários sentidos. Foi, primeiro, criticada por ter se exposto de uma maneira inconveniente a uma mulher. E, com a perda de prestígio, teve muitos de seus comentários e correções sobre importantes Hadith suprimidos ou ignorados - como no caso daquele que fala dos cães e jumentos. Esses são só alguns exemplos de como a voz feminina, tão valorizada nos primórdios do Islã, começou a se silenciar.

Ideais de pureza - A pesquisadora Leila Ahmed tem mais explicações para a opressão das mulheres no Islã. Os muçulmanos, diz ela, costumavam manter os hábitos das regiões onde se firmavam, desde que esses estivessem em sintonia com seu pensamento. O restante era descartado. Na Arábia, por exemplo, eliminaram as outras formas de casamento para que prevalecesse apenas o patriarcal. Quando conquistaram a região que hoje abarca o Irã e o Iraque, assimilaram a prática de formar haréns, o uso disseminado do véu para as mulheres e, principalmente, os mecanismos de repressão feminina que eram uma característica marcante dos povos locais. Foi nesse ambiente altamente misógino que, nos séculos seguintes, o direito islâmico foi elaborado. Separado em escolas que diferem em vários pontos, mas se apresentam como sendo timbres diversos de uma só voz, esse direito é dado como absoluto e imutável. Seus princípios não podem ser questionados nem relativizados à luz de traços culturais. Por isso são, até hoje, um instrumento útil para calar as mulheres em países nos quais vigora o regime teocrático. Um dado complicador é que as muçulmanas têm até hoje um conhecimento muito vago da lei divina. Aderem ao fundamentalismo atraídas pelos ideais de pureza da religião e, quando ele é instaurado, são surpreendidas por seus rigores - a exemplo do que ocorreu no Irã dos aiatolás.

Não é pequena a importância de estudos históricos como os de Leila Ahmed e Fatima Mernissi. Eles ajudam a demonstrar que a liberdade feminina não equivale à ocidentalização e à aculturação - ou, em outras palavras, à traição do Islã. Pelo contrário: é possível ser, ao mesmo tempo, uma muçulmana livre e uma muçulmana fiel. Se a democracia chegou para as mulheres que vivem sob a égide da civilização judaico-cristã, que também não é lá muito célebre por sua visão feminista do mundo, não há por que ela não possa ser almejada pelas muçulmanas que se orgulham de sua religião. Em tempo: um dia, um seguidor de Maomé lhe indagou qual a pessoa que ele mais amava no mundo. "Aisha, minha mulher", respondeu o profeta. Irritado com uma resposta assim, no feminino, o curioso insistiu: "E qual o homem que o senhor mais ama?". Maomé não hesitou. "Abu Bakr. Porque ele é o pai de Aisha."

Revista Veja

Brasileiras - Mais trabalho, menos filhos

Panorama feminino
Brasileiras empreendem, conquistam empregos inclusive na velhice, adiantam vida sexual e gravidez; e ainda carecem de informação, comida e assistência médica
por RODRIGO GALLO


É possível estimar que o Brasil atingirá, ao menos em um aspecto, característica social já observada em países como França, Alemanha e Dinamarca: uma pirâmide demográfica invertida. Ou seja, mais velhos e menos jovens. Entre os motivos desse fenômeno, estudos apontam uma mudança de atitude em relação ao sexo. No início dos anos 1960, o Ministério da Saúde registrava uma taxa de fertilidade superior a 6%. Em 1996, esse indicador era de 2,5% e, em 2006, de 1,8%. Cresce o número de mulheres que exigem preservativo nas relações sexuais e o número das que usam métodos contraceptivos em geral. Esses são alguns dos resultados da Pesquisa Nacional de Demografia em Saúde (PNDS), divulgada recentemente pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). O fato de as mulheres terem menos filhos possui relação com a inserção no mercado de trabalho, segundo José Pastore, sociólogo especialista em sociologia do trabalho e Ph.D. pela Universidade de Wisconsin (EUA). Ele informa que a participação feminina no mercado cresce em média 15 pontos percentuais a cada dez anos. Estudos recentes também apontam que as brasileiras estão ficando cada vez mais empreendedoras.


Atualmente, 38% das micro e pequenas empresas nacionais são comandadas por mulheres. Considerando que o Brasil é um país em crescimento, esse número é surpreendente. Afinal, a média mundial estimada pela London School of Economics, da Inglaterra, é de 30%.
Parte desses empreendimentos femininos no País, entretanto, ainda está na informalidade. De qualquer forma, houve mudanças positivas nas últimas décadas. "A mulher vem conquistando mais espaço no mercado de trabalho, o que acabou contribuindo para o desenvolvimento da economia do País", diz Pastore. Mas a redução do número de filhos por mulher também se relaciona ao envelhecimento da população. A socióloga Andréia Vargas, mestre pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pondera: "A pirâmide etária brasileira tem sido modificada, pois, em alguns estados, a população tem envelhecido nos últimos anos. Considerando isso, é natural que a taxa de fecundidade diminua, pois mulheres mais velhas tendem a ter menos filhos". "Porém, esse envelhecimento não ocorre no País como um todo, mas sim em algumas localidades, pois ainda há regiões onde a população jovem é maioria. Então, a redução da taxa média de fecundidade representa um avanço importante para o desenvolvimento do Brasil", ressalta. Além disso, o fenômeno tem suas causas financeiras. Segundo José Pastore, cresce anualmente o número de aposentados que voltam ao mercado de trabalho, muitos por necessidade.

NOS ÚLTIMOS ANOS, o maior aumento da taxa de emprego formal no País se dá na faixa de 50 a 64 anos, segundo dados do Ministério do Trabalho. De acordo com o último Anuário dos Trabalhadores, de 2007, há 16.079.018 pessoas com mais de 60 anos trabalhando no País. O número é muito próximo ao de jovens entre 15 e 24 anos que estão empregados: 18.462.544. E o sexo feminino tem sua participação nesse processo. Pastore exemplifica que, na década de 1970, apenas 7,9% das mulheres com mais de 60 anos trabalhavam fora. Hoje, já são 19,7%, com tendência de crescimento.

A tendência de alta na contratação de mulheres mais velhas também decorre, ao menos em parte, da redução da taxa de fecundidade das brasileiras. Em países desenvolvidos, como França, Estados Unidos e Japão, por exemplo, os índices de fertilidade também são baixos (inferiores a 2%). Além disso, no exterior é comum encontrar jovens que optam por retardar o início da vida profissional até concluir a pós-graduação. Sendo assim, o mercado de trabalho, sem poder contar com essa mão-de-obra mais jovem, volta tas atenções para os mais velhos. Futuramente, explica Pastore, o Brasil também poderá registrar um cenário cada vez mais parecido com o europeu. Segundo ele, é possível imaginar que, caso a situação econômica brasileira continue em crescimento, em pouco tempo a contratação de idosos ganhará mais força por aqui. Isso reforça a possibilidade de inversão da pirâmide etária, mesmo que a médio ou longo prazo.

Segundo o sociólogo José Pastore (foto acima), é possível imaginar que, caso a situação econômica brasileira continue em crescimento, em pouco tempo a contratação de idosos ganhará mais força por aqui


O PROBLEMA, nestes casos, é que o número de trabalhadores que se aposentam anualmente não é reposto na mesma proporção, pois a taxa de natalidade é baixa: se as mulheres optam por não ter filhos, conseqüentemente há um menor volume de candidatos ao mercado de trabalho no futuro próximo, tornando a base da pirâmide etária cada vez menor.
Daí a tendência da Europa de voltar as atenções para funcionários na terceira idade. Para solucionar esse impasse, alguns países estão recorrendo a planos de incentivo à imigração responsável. A idéia é estimular jovens saudáveis e com qualificação (ou cursando universidade) a se mudar para o país, onde poderão trabalhar e constituir família. No entanto, deve-se fazer uma ressalva. Ter uma estrutura demográfica parecida com a dos países ricos pode não trazer apenas benefícios para o Brasil.
Algumas nações européias, como Suíça e Áustria, por exemplo, enfrentam sérios problemas de escassez de mão-de-obra jovem e de aumento de gastos da Previdência Social. No caso brasileiro, como o Ministério da Previdência Social já tem graves dificuldades para controlar as contas, a saída de trabalhadores do mercado sem a reposição de jovens recém-ingressos - que passariam a pagar as contribuições mensais - pode ser um sinal de alerta. Para pagar as aposentadorias e pensões, o governo depende justamente dessas contribuições e, caso o volume de aposentados aumente de forma desigual ao de ingressos no mercado formal nos próximos anos, os custos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) podem aumentar ainda mais.
Por causa da baixa natalidade, número de trabalhadores aposentados anualmente
não será reposto em um futuro próximo

Nesse contexto, a volta dos aposentados ao mercado de trabalho não é má notícia do ponto de vista dos cofres públicos, ainda que insuficiente para sanar o problema. Futuramente, é provável que o contingente de jovens funcionários de empresas de call center ou redes de fast-food seja gradativamente substituído por idosos aposentados. Grandes empresas, como Pizza Hut e Pão de Açúcar, já possuem programas de contratação de mão-de-obra na terceira idade.
No outro extremo da pirâmide etária, as brasileiras têm a primeira relação cada vez mais cedo em praticamente todo o País - 32,6% das entrevistadas, antes de completar 15 anos, contra 11% das garotas nessa faixa etária há dez anos, segundo a Pesquisa Nacional de Demografia em Saúde. Além disso, o trabalho do Cebrap também mostra que as mulheres estão tendo o primeiro filho cada vez mais cedo. A idade média em que as brasileiras deram à luz o primeiro bebê em 2006 era 21 anos. Em 1996, porém, elas esperavam até os 22 anos e meio. Outro dado a ser considerado é que 53% das crianças nasceram, em 2006, de mães com idade entre 19 e 24 anos. Um dos problemas que a maternidade precoce pode causar é um divórcio igualmente ligeiro.

Gravidez desinformada

Mesmo com a criação de políticas públicas destinadas a fortalecer o conceito de planejamento familiar e orientar as mulheres grávidas de forma mais incisiva, ainda há muitas falhas que precisam ser corrigidas. A última Pesquisa Nacional de Demografia em Saúde (PNDS) aponta que 40% das gestantes não são informadas sobre aonde devem ir na hora do parto e, devido a isso, 90% dos bebês acabam nascendo no primeiro hospital procurado - que muitas vezes não tem nem sequer maternidade. Esse problema pode ser atribuído a uma falha na realização do atendimento pré-natal.
Por causa disso, muitas mulheres, sem saber aonde podem ir para dar à luz, acabam se dirigindo para os centros hospitalares mais próximos de casa e, pela falta de tempo hábil para remoção, têm seus filhos ali mesmo, em condições inadequadas. Por outro lado, a PNDS também aponta um dado positivo. A velha tradição de ter filhos em casa, com as mães sendo auxiliadas por parteiras, está praticamente extinta no Brasil. Segundo a pesquisa, 98% dos partos em 2006 ocorreram em hospitais, mesmo em casos de gestantes que moravam na zona rural. O levantamento aponta, por fim, que 61% das gestantes fazem mais de sete consultas médicas durante a gravidez. Já a rotina de vacinação antitetânica como procedimento de atenção pré-natal continua um problema. Aproximadamente 30% das mães não receberam nenhuma dose da vacina, percentual pouco inferior aos 36% de 1996.

Pesquisa revelou o aumento no total de mulheres que pratica sexo com o uso de camisinha masculina. Porém, ainda há grande número de homens que confia à mulher o papel de se proteger tomando pílula, pois é uma espécie de convenção social preestabelecida

SEGUNDO O jornalista e escritor Gilberto Amendola, autor do livro Meninos grávidos: o drama de ser pai adolescente, cerca de 40% das garotas atendidas pela Casa do Adolescente em 2006, órgão ligado ao governo de São Paulo para orientar jovens gestantes, separaram-se dos parceiros antes mesmo do nascimento do bebê. Já o sociólogo Floriano Pesaro, ex-secretário de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo, acredita que a gravidez cada vez mais cedo e o início precoce na vida sexual decorrem de outro problema social, muito comum principalmente nas periferias: a falta de opções de lazer para os jovens, como clubes, atividades de recreação e mesmo cursos básicos de informática, por exemplo.

Para o sociólogo Floriano Pesaro, é comum jovens menos favorecidos pularem etapas no processo de amadurecimento e iniciarem suas relações muito cedo, antes mesmo de terem consciência dos riscos e das responsabilidades
Pesquisa mostra que mulheres estão
tendo o primeiro filho mais cedo, com
idade média de 21 anos

Pesaro acredita que, como o jovem não tem à disposição outras opções para se divertir, acaba pulando etapas no processo de amadurecimento e tem relações muito cedo - às vezes isso ocorre muito antes de o adolescente ter consciência e conhecimento dos riscos e das responsabilidades. A socióloga Nancy das Graças Cardia, doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Londres (Inglaterra) e coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo, afirma que a falta de aparelhos de lazer é responsável por outro problema na adolescência.
Como muitos pais são obrigados a trabalhar fora, os jovens tendem a ficar na rua, caso não haja outra pessoa para tomar conta deles.
Porém, como não há espaços públicos suficientes para acolher todos esses garotos e garotas, muitos acabam encontrando o caminho das drogas e, em alguns casos, o da violência também. Mesmo com essas dificuldades, os dados da PNDS sugerem que, aos poucos, as pessoas estão ficando mais prevenidas por disporem de mais acesso a informações.

TAMBÉM CRESCEU a oferta de anticoncepcionais e preservativos na rede pública de saúde. E o percentual de mulheres que recorreram a esse sistema triplicou. De acordo com os dados referentes a 2006, 21,3% das entrevistadas na pesquisa afirmaram ter buscado pílulas contraceptivas no Sistema Único de Saúde (SUS). No meio da última década, esse número era de somente 7,8%. Outro dado revelado na última edição da PNDS, do Cebrap, é que tem aumentado o total de mulheres que pratica sexo com parceiros com o uso de camisinha masculina. E mais: diminuiu o número de brasileiras esterilizadas, ao passo que aumentaram as cirurgias em homens, as vasectomias. Esses dados apontam para mudanças bastante definidas no comportamento sexual do povo brasileiro.
"Hoje, as jovens já podem conversar mais abertamente sobre sexo com os pais, embora haja alguns tabus a serem quebrados. No futuro, a tendência é de que cada vez mais as adolescentes recebam orientações sobre métodos contraceptivos em casa e na escola", defende Andréia Vargas. A questão mais importante é que, com o tempo, a responsabilidade pelo sexo seguro, antes considerada uma obrigação exclusiva das mulheres, transfere-se para os homens também. É justamente por isso que eles estão se submetendo mais a vasectomias e usando mais preservativos.

A ÚLTIMA PNDS também aponta que 87,2% das entrevistadas usam algum método contraceptivo para se prevenir de gravidez indesejada, contra 73,1% em 1996 - ao mesmo tempo que a taxa de fecundidade no Brasil caiu sete pontos percentuais nesses dez anos. "Essa é outra mudança interessante, pois pode indicar que as brasileiras estão mais responsáveis e, além disso, a timidez de buscar uma camisinha em um posto é substituída aos poucos pela consciência dos riscos. É um bom indicador de que o País passa mesmo por um processo de desenvolvimento econômico, educacional e social", reflete a socióloga Andréia Vargas.
O sociólogo holandês Evert Ketting também defende essa mesma tese, embora acredite que a mudança deve ser mais acentuada para atingir um nível maior de progresso social. Segundo ele, boa parte dos homens confia à mulher o papel de se proteger durante a relação sexual, tomando pílula, pois é uma espécie de convenção social preestabelecida. Contudo, ele argumenta que isso deve mudar - o que já pode estar ocorrendo, conforme apontam os resultados da pesquisa divulgada em julho.
Segundo Ketting, o poder público deve encontrar formas de projetar e construir centros de orientação sexual exclusivamente voltados para atender os garotos. A idéia é ensiná-los a dividir as responsabilidades com as mulheres, afinal, o filho, em caso de gravidez, também é deles. A questão da falta de escolaridade é outro problema grave que, segundo a pesquisa do Cebrap, leva muitas mulheres a ter uma saúde deficiente, principalmente durante a gravidez. Segundo o levantamento, 10% das 15 mil entrevistadas têm dificuldades de cuidar de si mesmas ou dos filhos por causa da baixa instrução escolar. Segundo o jornalista e escritor Gilberto Amendola, cerca de 40% das garotas atendidas pela Casa do Adolescente em 2006, separaram-se dos parceiros antes mesmo do nascimento do bebê

À direita. Na ocasião da divulgação da PNDS, o ministro José Gomes Temporão retratou indicadores e disse que ocorreu queda em alguns índices problemáticos nos últimos dez anos

Sem estudo, essas mães enfrentam dificuldades para ingressar no mercado de trabalho, e a baixa renda atrapalha na hora de comprar remédios e comida, por exemplo. Na ocasião da divulgação da PNDS, em julho deste ano, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, no entanto, amenizou o problema, afirmando que, em 1996, esse número era de 28%; e caiu para 10%. Essa retração no indicador ocorreu em dez anos. "Estudos relacionam o aumento da escolaridade e o conseqüente aumento da renda com um impacto direto nas condições de saúde. Está havendo uma ampliação da escolaridade, e isso tem impacto direto na saúde", disse em seu discurso, em Brasília.
Porém, até que esse contingente de mulheres com baixa escolaridade seja definitivamente equacionado, muitas brasileiras e, em conseqüência disso, seus filhos continuam com problemas de saúde associados à falta de instrução formal no Brasil. Um dos principais agravantes diretos disso é que a falta de qualificação profissional interfere na busca por melhores empregos, ou mesmo na hora de conseguir uma promoção no trabalho. Segundo os dados do Cebrap, em 46% dos lares onde as mães não têm estudo há grande insegurança alimentar. No caso de mulheres com 12 anos ou mais de escolaridade, esse tipo de problema cai para 6,2%.
Outra forma de comprovar isso é checando os dados comparativos da pesquisa. O levantamento revelou que 16,6% das crianças com mães sem instrução passavam por problemas crônicos de desnutrição na ocasião das entrevistas. Esse problema não mata o jovem, mas acaba interferindo no desenvolvimento da criança e pode prejudicar a capacidade de aprendizado, concentração e até mesmo a capacidade do organismo de reagir a outras doenças. A baixa saúde financeira leva a uma situação de cuidados médicos e alimentação muitas vezes inadequada. Afinal, nem todas as trabalhadoras ganham cesta básica ou possuem plano de saúde realmente bom. Ainda faltam cuidados apropriados durante a gravidez, como vacinas antitetânicas essenciais ao parto

Mais um paralelo que pode ser considerado alarmante: 53,1% das crianças com problemas de excesso de peso têm mães sem instrução, ao passo que o percentual no caso de mulheres com estudo cai para 37,8%. Aliás, o problema de peso entre as próprias mulheres foi apontado pelo estudo como um dos pontos mais alarmantes, que pode ter conseqüências para o sistema de saúde a médio e longo prazo. Outra informação que contraria recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS) se refere à amamentação. De acordo com a última PNDS, somente 40% das mães amamentam os filhos até os 6 meses, como é indicado. A média de tempo de alimentação exclusivamente por leite materno subiu de um mês, em 1996, para 2,2 meses, em 2006 - um avanço, mas ainda abaixo do ideal. De todo modo, a pesquisa do Cebrap não traz apenas notícias ruins, do ponto de vista alimentar.

REFERÊNCIAS
AMENDOLA, Gilberto. Meninos grávidos: o drama de ser pai adolescente. 1ª ed. São Paulo: Terceiro Tempo, 2006. FREITAS, Luiz Alberto Pinheiro de. Adolescência, família e drogas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.
O LEVANTAMENTO concluiu ainda que a desnutrição infantil está em apenas 1,6%, índice abaixo dos limites estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso contribui também para a queda de 44% da mortalidade infantil, de 39 para 22 a cada mil bebês nascidos vivos. É preciso lembrar, contudo, que a diminuição da taxa de natalidade também se reflete nesse indicador. Além disso, a distribuição do índice por regiões no Brasil é notadamente desigual: em estados do Nordeste, chega a 35 óbitos a cada mil nascidos; no Sul, 17. Uma das Metas do Milênio, estipulada pela OMS, é diminuir para 15 mortes por mil até 2015. O Brasil tem chances de conseguir. Mesmo assim, ainda seria mais do que o triplo do índice atual da Dinamarca, que reduziu essa taxa de 4,9 em 2003 para 4,4 este ano - de acordo com dados do Livro dos fatos do mundo (The World Factbook), da Agência de Inteligência Central (Central Intelligence Agency) norte-americana.

Revista Sociologia