sábado, 1 de maio de 2010

A verdadeira história sobre a descoberta das Américas

A verdadeira história sobre a descoberta das Américas
Alberto Cury Nassour
Engenheiro de Materiais

À quem se deve realmente a descoberta das Américas, à Cristovão Colombo, à Américo Vespúcio ou aos próprios índios nativos da região? Essa pergunta intrigante tem provocado muita controvérsia nas últimas décadas. Alguns historiadores creditam aos nativos que chegaram do estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, à 40.000 anos o verdadeiro descobrimento das Américas. Outros pesquisadores atribuem aos escandinavos por volta do ano 1.000 quando chegaram ao Canadá e retornaram sem desembarcarem devido aos imensos blocos de gelo, enquanto que outros estudiosos acreditam que fragmentos de cerâmicas encontrados no Equador em 1956, apresentam semelhanças marcantes com cerâmicas produzidas no Japão há mais de 5.000 anos. Alguns admitem que uma viagem do monge budista até o lado do “grande mar”, ou oceâno pacífico, teria chegado até o México no século V, conforme comprovam o uso de dragões alados como motivo de cerimônias mágicas encontrados em cerâmicas mexicanas, uma vez que este símbolo especificamente representava a dinastia do monge chinês. Daí a mera semelhança dos latinos, incluindo os índios brasileiros, com traços dos povos orientais.

Enfim, muitas são as teorias que tentam explicar os verdadeiros descobridores das Américas. Até pouco tempo, Cristovão Colombo era tido como um homem de larga visão e caráter obstinado, o sábio defensor da certeza de que a Terra era redonda, o homem que fez um ovo parar em pé e abriu as portas do Oceâno Atlântico, e de repente não é mais nada disso. O escritor e historiador americano Kirkpatrick Sale, em seu livro “The Conquest of Paradise” relata um homem vulgar, apreciador da ganância do ouro, obcecado pelos títulos de nobreza e extremamente confuso em suas observações de navegação. Apesar de realizar quatro viagens às Américas, nunca soube descrever fielmente onde realmente esteve. Além de demonstrar uma ferocidade bestial com os nativos, trazendo consigo e sua tripulação formada na maioria por ladrões e desocupados, doenças como a febre, tuberculose e a varíola, que dissiparam milhares de nativos logo nos primeiros contatos em terra. Sobre Colombo, dos seus primeiros vinte anos pouco se sabe. Há razões para acreditar que nasceu em Gênova no ano de 1451, mas muitos historiadores não estão de acordo. Há quem atribua o seu nascimento nas regiões da Córsega, Maiorca, Aragão, Galícia e até em Portugal. Sabe-se pelo menos que seu idioma favorito era o Castelhano, pois servia-se dele para suas correspondências. Em 1472, tem-se notícia que esteve no mar como corsário, que serviu de trampolim para ingressar na frota do grande corsário francês Coullon, o Velho. Numa investida frustante, viu-se náufrago na costa portuguesa, por onde viveu escondido por oito anos, dos 25 aos 33.

As primeiras rotas das grandes navegações


Era o tempo da Escola de Sagres, das grandes navegações pela Costa da África. Em 1488, o explorador português Bartolomeu Dias, (1455-1500), ultrapassou o cabo da Boa Esperança. Cogitava-se o verdadeiro caminho para as Índias. Colombo então, desenvolvia um plano inovador para chegar as Índias navegando para oeste, cruzando o Oceâno Atlântico. Baseando-se em dados do grande cosmógrafo e navegador árabe Alfraganus, (daí a origem dos termos latinos fragata e naufragar) demarcou as bases para suas viagens utilizando os cálculos em milhas árabes, que correspondem a 1.975,5 metros, diferente da milha italiana, 1.477,5 metros. Sem dúvida um erro marcante. Colombo, concluiu então que saindo das Ilhas Canárias e navegando 2.760 milhas (árabes) para o oeste, chegaria às ilhas japonesas. Um duplo erro, pois se revelasse a distância verdadeira, cerca de quatro vezes maior, nunca teria encontrado alguém que lhe financiasse a tentativa. Estava certo de que poderia alcançar o Oriente pelo Ocidente. Embora a teoria da Terra redonda já circulasse nos meios mais cultos, havia um certo ar confuso nos seus cálculos. Colombo não conseguiu fazer interessar o Rei de Portugal, Dom João II, nos seus projetos. Da sua estada em Portugal, sabe-se de seu casamento com Fillipa Moniz Perestrello, de família nobre, com quem teve um filho chamado Diego, futuro companheiro de viagens. Depois do falecimento de sua esposa, Colombo muda-se para a região de Andaluzia, na Espanha, onde cultivou amizades com os Medina-Celli e os Medina-Sidonia. Graças ao Duque de Medina-Celli, foi apresentado formalmente à rainha Isabel de Castella, e pouco depois apresentou seus planos à uma comissão de cientistas e navegadores espanhóis liderada pelo escriba de Talavera, braço direito da rainha.

Primeiro mapa das Américas

Em face da conclusão inteiramente negativa, a comissão recusou o projeto, considerando-o impossível frente aos cálculos apresentados. Colombo não desistiu. Tentou penetrar nas cortes da França e da Inglaterra em distintas situações frustantes. Volta então à Espanha e certas intervenções históricas acabaram ajudando-o. Em 1492, os espanhóis conseguiram readquirir suas terras após domínio dos mouros árabes por mais de setecentos anos, na rendição de Granada. Vem dessa época a grande influência árabe na cultura portuguesa e espanhola, desde o vocabulário, passando pela culinária, música e costumes. Ultrapassado a fase de reintegração de posse, os espanhóis começaram a se interessar por novos horizontes além-mar. A rainha Isabel de Castella nunca penhorou as jóias para financiar as expedições de Colombo, ao contrário do que se pregava nas escolas antigamente. Das três embarcações, Pinta e Nina eram caravelas e foram providenciadas pela cidade de Palos, a terceira, Santa Maria, era uma nau e foi financiada por um banqueiro independente que não entendia nada de navegação, mas era bastante ganancioso. Todas as embarcações levavam não mais que noventa homens, geralmente ladrões e devedores da corte espanhola e muita gente doente. No dia 06 de setembro de 1492 as embarcações saíram de Palos em direção às Ilhas Canárias e de lá em direção ao tão sonhado Oriente. Em 25 de setembro o comandante da nau capitânia Santa Maria, Martin Alonso Pizón, confundia uma porção quilométrica de algas boiando com um monte de terra e declarou “terra à vista”, o que provocou certo ar de descontentamento entre a tripulação, gerando até indícios de motim à bordo entre os mais revoltosos. Foi só então na manhã de 12 de outubro que a primeira ilha das Bahamas apareceu aos olhos do marinheiro-mor da caravela Pinta. Segundo o Calendário Juliano em vigor no século XV, era realmente 12 de outubro, porém pelo calendário Gregoriano, seria 21 de outubro. O calendário Gregoriano entrou em vigor alguns anos mais tarde corrigindo o período anual correto em função do Equinócio, marco muito utilizado por navegadores que representa o período em que o dia tem a mesma duração que a noite. O local exato onde Colombo aportou é outro ponto de controvérsias. Nada menos do que doze locais são declarados como sendo o primeiro, devido às suas anotações errôneas e ao fato de querer guardar segredo para não ser seguido caso encontrasse ouro ou especiarias. Teve seu mérito ao descobrir as Ilhas do Haiti e República Dominicana, aí fundou Isabella, em homenagem a rainha da Espanha e na expectativa de futuros financiamentos. Como os comandantes a serviço de Colombo acreditavam terem chegado às Índias, denominaram os nativos de “índios”, cujo continente estava à milhares de quilômetros de distância.

De volta à Espanha, Colombo foi recebido como herói, recebeu inúmeras honrarias e dezenas de banquetes, jamais compreendidos pelos grandes cientistas e navegadores da época que acreditavam impossível ter chegado às Índias com cálculos tão absurdos. Colombo retornou por três vezes às ilhas recém descobertas que ainda não se chamavam América, pois à luz da verdade, ele mesmo sabia que seus cálculos estavam equivocados. Isso gerou-lhe uma tremenda confusão interior. De lá saiu para a conquista de Guadalupe, Porto Rico, Jamaica e Cuba, cuja ilha imaginou ser o final do continente asiático. Só na terceira viagem, em 1498, Colombo realmente chegou ao continente americano atracando pelo norte da Venezuela. Na quarta e última viagem, em 1502, já atormentado pela crises de temperamento e alucinações constantes, não consegue descobrir mais nehuma ilha nova e então escreveu entre delírios, as obras “O livro dos privilégios” e “O livro das profecias”, nos quais se auto intitula “Dom Cristovão Colombo, Vice-Rei e Governador de todas as ilhas e terras firmes do Ocidente”. O que mais o prejudicou não foram suas teorias desatinadas, mas a prática do seu dia-a-dia como Governador das terras descobertas. Neste ponto, relata Sale em seu livro, “…Colombo foi simplesmente desastroso. Faltavam aos moradores das novas terras, comida, bebida, roupa e moradias decentes….” Os reis de Espanha perderam a paciência e mandaram o interventor Francisco de Bobadilla prender Colombo e enviá-lo de volta à Europa. Faleceu em 1506, ainda dono de uma fortuna considerável, porém, totalmente atormentado. Quem deixou bem anotadas todas as crueldades e façanhas de Colombo, foi o frade dominicano Bartolomeu de Las Casas, cuja obra publicada integralmente no século XIX, serve até hoje como fonte para os historiadores e revisionistas. Quem realmente descobriu as Índias, o continente no Oriente em 1497, foi o navegador português Vasco da Gama, (1460-1524), seguindo o caminho escolhido por Bartolomeu Dias, e conseguiu contornar o Cabo da Boa Esperança, navegando às margens do continente Africano e o Oceano Índico até chegar à Malabar.

O grande escritor francês Victor Hugo, (1802-1885), deixou registrado que “…Há homens sem sorte, e que Colombo não conseguira associar seu nome à descoberta da América…” e que “…a história do ovo em pé de Colombo não passa de uma lenda italiana, na qual Colombo querendo impressionar seus comandados, fez parar em pé um ovo cozido e levemente amassado na base, que logo em seguida ele mesmo amassa para não descobrirem sua façanha…”. É muito intrigante realmente, a América não se chamar Columbia. Américo Vespúcio, (1451-1512), nascido em Florença e navegador familiarizado com o mar, desenvolveu sistemas de cálculos de longitude imbatíveis para a época, “emprestou” seu nome para as novas terras, parecia ser melhor cotado nos meios pertinentes, pois ao contrário de Colombo descrevia e muito bem sobre suas viagens às novas terras. Afirmava ter chegado ao continente sul, próximo do Rio da Prata em 1497, antes de Pedro Alvares Cabral (1467-1520) ter descoberto o Brasil em 1500. Amigo fiel dos Medici, o “Magnífico”, Américo Vespúcio conseguia se infiltrar facilmente entre patronos e banqueiros da época. A Vila de Saint-Dié, na França, era o berço de reliogiosos cartográficos e o ilustrador Monsenhor Martin Waldseemüller ao preparar o mapa do Novo Mundo, seguindo cálculos de Vespúcio sugeriu o nome das novas terras de “Amerige”. Nasce assim o continente América. O autor Sale, da obra “The Conquest of Paradise” traça um quadro interessante da civilização no século XV, tanto na Espanha sob os olhares de novas descobertas e sob o terror da Inquisição, quanto no resto da Europa dilacerada pelas guerras constantes, assolada pela fome e pela peste. Porém, ressalta simultaneamente com brilhantismo uma época recheada de ilustres figuras como, Leonardo Da Vinci, (1452-1519), Maquiavel,(1469-1527), Michelângelo, (1475-1564), Nicolau Copérnico, (1473-1543), Lutero, (1483-1546) e Rafael, (1483-1520). As grandes navegações foram consequência natural de uma efervescência cultural da época do Renascimento, que estremeceram o conteúdo do conceito humano.

© Revista Eletrônica de Ciências - Número 19 - Maio / Junho de 2003.

As Guerras Justas e a escravidão indígena em Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX


As Guerras Justas e a escravidão indígena em Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX

Marcia Amantino
Prof. Dra. Em História Social Universidade Salgado de Oliveira e Faculdades Integradas de Cataguases Rua Carvalho Alvim, 476 - Tijuca - Rio de Janeiro - CEP: 20510-100 marciaamantino@terra.com.br

Os índios do Sertão Oeste Mineiro - área considerada pelas autoridades no século XVIII como sendo despovoada de elementos civilizados - foram em sua maioria, encarados como inimigos e acusados de dificultarem o povoamento e desenvolvimento da região. Daí, segundo os governantes, surgiu a necessidade de enviar expedições para atacar suas aldeias, a fim de conseguir a pacificação e conseqüente a aceitação dos ensinamentos religiosos e trabalhistas. Havia ainda, a possibilidade de extermínio dos grupos com o objetivo de liberar a área para novos ocupantes.

Desta maneira, durante o século XVIII, ocorreram inúmeras expedi- ções preparadas para estes fins. Em 1734, uma bandeira liderada por Matias Barbosa que contava com 70 homens e 50 escravos, atacou grupos de Botocudos e liberou a região do Sertão Leste até as Escadinhas da Natividade para os colonos. Nesta mesma região, foi fundado o Presídio do Abre Campo. Em 1748, o coronel Antonio Pires de Campos, criou vários aldeamentos de Bororos para controlar e atacar os Caiapós que circulavam na área; em 1769, Antonio Cardoso de Souza recebeu do Conde de Valadares ordens precisas para a conquista do gentio nas imediações do Cuieté. Em 1775, D. Antonio de Noronha, governador de Minas Gerais, decretou guerra aos Botocudos que atacavam o aldeamento do Pomba e atrapalhavam a conquista do Cuieté. Em 1782, João Pinto Caldeira liderou uma expedição que tinha por objetivo liquidar com os quilombolas e os Caiapós que fossem encontrados no Campo Grande.

As justificativas ideológicas para as expedições pautavam-se na importância de colonizar e povoar o sertão a fim de desenvolvê-lo. Para isso, tornava-se necessário eliminar, de uma forma ou de outra, a presença marcante dos grupos considerados hostis. Os índios mais "teimosos" em não aceitar os contatos deveriam ser exterminados em nome de uma ocupação mais efetiva.

Estes índios não pacíficos poderiam também, segundo uma legislação que mudava constantemente, ser escravizados, desde que fossem respeitadas algumas condições. As principais eram provar que os índios em questão eram bravios, não aceitavam a catequização, atacavam os colonos e eram antropófagos. A estes deveria ser decretada a Guerra Justa.

A Guerra Justa seria assim, o mecanismo mais utilizado para a obten ção desta mão de obra. Esta era, segundo Farage, "um conceito teol ógico e jurídico enraizado no direito de guerra medieval".1 As principais justificativas para a guerra seriam a propagação da fé cristã aos povos bárbaros, sua falta de moralidade, suas práticas canibais e os casos de ataques que faziam à sociedade estabelecida.

Em Minas Gerais, o uso de armas contra os índios estava autorizado caso estes atacassem ou interferissem na colonização. Os que sobrevivessem poderiam ser transformados em cativos e entregues aos que lutaram contra os "desmandos" do grupo. O documento a seguir é um bom exemplo desta prática, ainda que não seja o único:

Sua majestade, que Deus guarde atendendo as devassas e representações que se lhe mandaram sobre as mortes, roubos e insultos que tem feito os gentios Paiaguazes [Cataguases] e mais bárbaros que infestam essas Minas e o seu caminho foi servido mandar lhe dar guerra para a qual manda assistir com armas. pólvora e bala e os mais petrechos necessários declarando a todos os gentios que se aprisionarem por cativos e que estes sejam repartidos pelas pessoas que se empregarem na dita guerra.2

A questão da barbárie e da antropofagia é a tônica da maioria dos documentos que pregavam os ataques às tribos. Os Caiapós foram um dos grupos mais perseguidos e o relato do Capitão Antonio Pires de Campos em 1723 afirmava que os mesmos eram considerados perigosos não só pelas guerras constantes que moviam na região, mas também pelo uso de práticas culturais nada aceitáveis pela sociedade branca.

Este gentio[Caiapó] é de aldeias, e povoa muita terra por ser muita gente, cada aldeia com seu cacique, que é o mesmo que governador, a que no estado do Maranhão chamam principal, o qual os domina, estes vivem de suas lavouras, e no que mais se fundam são batatas, milho e outros legumes, mas os trajes destes bárbaros é viverem nus, tanto homens como mulheres, e o seu maior exercício é serem corsários de outros gentios de várias nações e prezarem-se muito entre eles a quem mais gente há de matar, sem mais interesse que de comerem os seus mortos, por gostarem muito da carne humana, e nos assaltos que dão aqui e presas que fazem reservam os pequenos que criam para seus cativos.3

Após terem sido sistematicamente guerreados em diferentes momentos e regiões os Caiapós foram praticamente extintos.

Nos documentos localizados sobre os indígenas de Minas Gerais que as autoridades identificavam como sendo antropófagos não foi identificada nenhuma informação sobre o motivo pelo qual supostamente comeriam carne humana, além do fato de serem associados às feras e apreciadores desta. Ou seja, o aspecto cultural destas sociedades não foi em nenhum momento levado em consideração pelos que tiveram contatos com eles. O documento seguinte é ilustrativo para a realidade mineira:

E só sim a conquistar o gentio bárbaro e disperso ou aldeado por aquele continente e reduzi-los ao grêmio cristão... e suave modo ou aterrá-los a força de ferro e fogos quando rebeldes os mesmos gentios não queiram abraçar o nosso amigável trato... a fim de que se consiga ou a redução dos gentios pelo meio de persuasão ou arruiná-los de todo para que vivam sossegados os moradores daquelas vizinhanças em quem eles tem feito repetidas hostilidades.4

Além das questões morais e de segurança, uma outra justificativa para o estabelecimento de Guerra Justa contra os indígenas da região da Capitania de Minas Gerais era de ordem econômica. Esta alegação estava sempre presente na documentação mineira enviada aos governadores ou mesmo ao rei:

O gentio silvestre que a longos anos se continha nos confins do Cuieté agora atravessando sem medo o Rio Doce tem cometido nos últimos habitantes do círculo deste termo os mais horríveis e funestos estragos por seus insultos feroz e antropofágico, por cujo motivo muitos dos mesmos habitantes fugindo a morte tem lastimosamente desamparado as suas fazendas que constam de terras minerais e de culturas não só em gravíssimo prejuízo aqueles, como do bem público, dos dízimos e reais quintos.5

Entretanto, estas preocupações e atitudes da sociedade colonial podem ser identificadas para períodos anteriores ao setecentos. Desde o século XVI o Império Português já discutia o que fazer com os nativos e em 1570, o rei de Portugal ordenava que,

daqui em diante se não use das ditas partes do Brasil, de modo que se até agora usou em fazer cativos os ditos gentios, nem se possam cativar por modo nem maneira alguma, salvo aqueles que forem tomados em Guerra Justa (...) aqueles que costumam saltear os portugueses ou a outros gentios para os comerem.6

Em 1702, pela Carta Régia de 21 de abril, o Rei determinava que o cativeiro indígena estava proibido, mas a administração dos índios por tempo determinado era admitida às pessoas que voluntariamente os trouxessem dos matos de maneira pacífica.7

Através da documentação produzida acerca dos nativos pode-se inferir que houve a manutenção de um corpo de idéias referentes a estes, sem que as mesmas sofressem alterações substanciais por um longo período de tempo e em espaços físicos bastante distintos. As justificativas para a Guerra Justa e a conseqüente possibilidade de aprisionamento dos indígenas permaneceram no tempo e em espaços geográficos diferentes. Ainda que a legislação portuguesa tenha, em diversos momentos, tentado impedir esta escravização, na realidade, pouco conseguiu efetivamente.

Havia um ponto positivo para a elite mineira no que se refere aos constantes ataques que os indígenas faziam à sociedade. O "barbarismo" destas tribos legitimava a Guerra Justa, o extermínio e mesmo a escravidão. Eram inferiores e teriam sido feitos por Deus para servirem aos superiores ou não atrapalharem. Os colonos viam as Guerras Justas como uma opção para adquirirem mão-de-obra e conseguirem assim, desenvolver suas atividades econômicas. Para os religiosos, o barbarismo justificava a necessidade da catequese e transformava o religioso em um mártir à serviço de Deus. Era preciso transformar "bestas humanas e feras" em cristãos.8

Em fins do século XVIII, o padre Manoel Vieira Nunes, escreveu uma carta muito interessante ao Conde de Valadares. Nela, descreve algumas tribos de índios com os quais a sociedade colonial conseguia travar algum tipo de relação. Conclui, afirmando que não se podia acreditar que os índios eram amigos dos portugueses. Estariam apenas usandoos segundo seus próprios interesses. Depois de ter concluído serem os índios Capochós e Aimorés, rebeldes, infiéis, dissimulados, vorazes devoradores de carne humana e possuidores de outros defeitos, declara que "enquanto seu orgulho não for prostrado como justamente pode e parece ser deve efetuar até os reduzir sendo necessário e conveniente a escravidão por ser a causa da nossa guerra agressiva e juntamente defensiva com título muito justo em direito fundado".

Continua a carta utilizando-se de elementos medievais para justificar a Guerra Justa "e os prisioneiros de justa guerra não sendo católicos tem por direito comum imperial a pena de servidão perpétua".

Para o padre, estes índios eram tão bárbaros que sua servidão estaria plenamente justificada. Chega a afirmar que nem mesmo alguns negros africanos eram tão bárbaros como estes e que "bem pode ser que da Costa da Guiné para cá tenham passado negros e servos com muito menos justificado do que estes bárbaros principalmente os aimorés".

Aos que defendiam a não escravização indígena, alega que suas posições poderiam parecer absurdas. Entretanto, é de opinião que estas posturas favoráveis aos indígenas haviam partido de "sujeitos nada zeladores do bem comum..." e com ..." simulada piedade estabelecida nesta América".9

Os religiosos tiveram um papel muito complexo no que se refere às atitudes com relações aos índios. Em vários momentos aproveitaram-se de uma situação não muito bem definida e obtiveram algum tipo de controle sobre uma mão-de-obra bastante grande. Muitos conseguiram autoriza ção e ajuda para entrar nos Sertões e catequizar os aborígenes. Todavia, na maioria dos casos, estes religiosos passavam a controlar - via doação de sesmaria para o aldeamento - uma enorme faixa de terra. Usavam os índios como mão-de-obra, compravam escravos africanos, recebiam ajuda do governo e acabavam por arrendar partes das terras que pertenciam aos índios para os colonos. Estes, além da terra, obtinham também os indígenas como trabalhadores mediante um aluguel pago diretamente ao religioso. A lei determinava que esta jornada de trabalho fosse apenas por um período determinado, devendo o indígena voltar ao aldeamento ao término do prazo. Entretanto, era comum o índio permanecer em poder do fazendeiro e aparecer anos depois em seus inventários como índios administrados.

Esta situação permaneceu até o século XIX. O Aldeamento do Etueto é um exemplo desta situação: O aldeamento da Imaculada Conceição do Etueto foi criado durante o ano de 1875, no Vale do Manhuaçú para abrigar os índios Puri, vistos como empecilhos ao desenvolvimento econômico da região, não só porque eram índios violentos e arredios ao contato com o branco, mas também por que viviam em violentas e intermin áveis guerras com os Botocudos, provocando, desta maneira, uma onda generalizada de insegurança local. A razão da inimizade entre os Puri e os Botocudos estava nas tentativas de controle das terras na região pelos dois grupos. Este problema ficou ainda mais acirrado a partir do momento em que os Puri começaram a penetrar cada vez mais para o interior de Minas Gerais fugindo do avanço provocado pela expansão do café e encontrando pelo caminho seus inimigos Botocudos.

O Aldeamento do Etueto traz em seu interior elementos que permitem a análise e a compreensão de uma estrutura maior: a do complexo mecanismo de acesso à terra e obtenção/controle da mão-de-obra no Brasil Imperial nas regiões que não eram inseridas na estrutura agrária exportadora, e que possuía teoricamente uma fronteira agrícola aberta, ou quase isto. Desta maneira, os índios do aldeamento passaram efetivamente a fazer parte da reserva de mão-de-obra da região.

Entretanto, no ano de 1878, o aldeamento estava sofrendo um processo de extinção causado entre outros fatores, pelo pouco ou nenhum sucesso com os índios. Além do que, seu administrador, um religioso capuchinho de nome Frei Miguel Maria Angelo de Troina, estava sendo acusado de roubo, de fraude e de permitir a entrada de fazendeiros nas terras pertencentes aos índios, provocando desta forma, a fuga de quase todos.

O aldeamento havia sido estabelecido numa região extremamente fértil, porém de difícil acesso e isolado das demais áreas. Isto facilitou o controle de doação de terras pelo religioso, que em pouco tempo tornou-se o principal recebedor de rendas provenientes dos arrendamentos. Havia inclusive, um documento impresso onde o religioso dava ao arrendador das terras o direito de ocupar determinada área. Bastava preencher os dados de quem estava recebendo o lote.

Rapidamente, estes fazendeiros tomaram definitivamente posse destas terras e expulsaram as famílias indígenas.

Em função de todos esses problemas a Diretoria Geral dos Índios oficiou ao Presidente de Província de Minas Gerais pedindo a extinção do aldeamento pelo fato dele ser um "inútil sorvedouro de partes das rendas públicas".10 O pedido foi prontamente aceito e enviaram ao aldeamento um funcionário encarregado de elaborar um inventário de todos os seus bens. Junto com este documento foram feitas as listagens dos indígenas e dos moradores que ali viviam.

Após a extinção do aldeamento seus poucos índios dispersaram-se ou mantiveram-se vivendo nas terras que faziam parte do mesmo, sem contudo, receber qualquer auxílio do governo. De acordo com o Decreto n.. 426 de 24 de julho de 1845, os índios que vivessem em um determinado aldeamento no momento de sua extinção deixariam de receber estes auxílios, mas ficariam de posse das terras que haviam sido demarcadas. Entretanto, isto só aconteceria se os índios tivessem "um bom comportamento e [se quisessem] ficar nas mesmas terras, apresentando um modo de vida industrial, e principalmente agrícola".11

Entretanto, não foi isto que aconteceu. Os nativos perderam seus sustentos e foram expulsos da região.

Apesar dos aldeamentos terem sido utilizados como um facilitador sobre o controle da mão de obra indígena, a maioria dos índios do Sertão não admitia esta realidade. Daí, as constantes expedições punitivas às suas aldeias.

Como visto anteriormente, os Caiapós sofreram perseguição implacável dos colonos. Segundo o bandeirante paulista Antonio Pires de Campos, eles seriam habitantes da área compreendida desde "a zona do Pardo e Camapuã, no Sudeste de Minas Gerais até a área (...) do Triângulo Mineiro; e para cima até a altura quase da embocadura do Araguaia".12

De acordo com Neme,13 a primeira entrada de paulista, que teve contato com eles em 1608, foi amistosa. Porém, em 1612 Garcia Roiz Velho aprisionou alguns índios que viviam próximos às vilas e em paz. O citado autor conclui que,

nos princípios do século XVII os Caiapó, também chamados Bilreiros, eram um povo pacífico e assentado, mantendo relações amigáveis com os brancos de São Paulo... É com a entrada de levas seguidas de mineradores, aventureiros e traficantes, soldados e colonos, nas terras de domínio dos Caiapó, a partir de 1726, que estes índios se tornam mais agressivos.14

Foi a partir desta "agressividade", ou seja, desta recusa em facilitar o domínio sobre suas terras, que os Caiapó se tornaram "inimigos do Estado". Segundo Karash, "em 1741 aproximadamente 8.000 Caiapós foram escravizados pelos paulistas e os sobreviventes se refugiaram no Sul de Goiás, perto de Vila Boa".15

Barbosa conta que o capitão Antonio Pires de Campos, tentando impedir os constantes ataques dos Caiapós, fundou três aldeias de Bororos no caminho para Goiás. "Sua finalidade era não só garantir os viandantes que se dirigiam àquela capitania, como também constituíram-se como bases para as investidas contra os terríveis inimigos dos brancos".16

As principais aldeias Caiapós localizavam-se em território goiano, mas estes indígenas usavam a região do Sertão do Oeste mineiro, também chamado de Campo Grande, para caça e movimentação. Nestes momentos atacavam fazendas e povoados, matando e roubando criações, roupas, enfim, o que pudessem levar. Em 1701, eles haviam atacado nas Lavras de Nossa Senhora dos Remédios, território atualmente pertencendo a Mato Grosso:

Deu o gentio Caiapó um assalto nas Lavras... aonde matou oitenta e cinco pessoas, quatro homens brancos e os demais pretos que andavam trabalhando em serviço de minerar. Deu nas fazendas do doutor Francisco Pereira dos Guimarães e na de Agostinho de Faria Castro por onde matou toda cousa viva que achou pôs fogo e roubou o que lhe fez conta. Passou para o distrito de Cocais onde matou três escravos de Salvador R. de Siqueira e pelos sítios circunvizinhos a mais de cinqüenta pessoas abrindo as crianças pelo meio fazendo em pedaços pondo fogo as casas roubando aquilo que lhe fazia mister.17

Os contínuos ataques foram a razão que as autoridades queriam para justificar a Guerra Justa, o aprisionamento de cativos e o controle da região. Assim, em 1736 foi autorizada a Guerra Justa contra os Payaguases e seus confederados, ou seja, os Guaycurus e os Caiapós.

Atendendo as muitas queixas que me tem feito os viandantes do caminho das Minas dos Guaiazes e a representação que me fizeram os roceiros e moradores do mesmo caminho das hostilidades e estragos que o gentio caiap ó tem feito assim nas roças como em algumas tropas e ao que S. Majestade pela sua real ordem de 5 de março de 1732 foi servido ordenar que se fizesse guerra aos Gentios Paiaguazes e todos os seus confederados e os mais que infestam o caminho das Minas, havendo precedido as devassas pelas quais foram culpados assim os referidos gentios Paiaguazes como esse mesmo gentio Caiapó que barbaramente continua nos seus insultos e quererem os Suplicantes a sua própria custa dar o castigo que merece este atros delito pela utilidade e que se segue a segurança dos quintos de Sua Majestade e aumento de sua real fazenda e bem público. Mando que pessoa alguma lhe não ponha impedimento antes lhe dêem toda ajuda e favor que lhe for pedido para com mais facilidade se conseguir o desejado efeito desta diligência cujo serviço haverá Sua Majestade por bem e poderá premiar como for servido.18

Ao que tudo indica, a situação não foi resolvida e, em 1740, D. Luis Mascarenhas, governador de Goiás, autorizou em decreto o cativeiro dos índios Caiapós e Paiaguás presos em Guerra Justa, tendo em vista seus constantes ataques.

Por quanto é conveniente evitar as contínuas mortes e repetidos insultos e grandes estragos que o gentio bárbaro da nação Caiapó ou Bororo proximamente tem cometido nas vizinhanças do Arraial do Ouro Fino termo desta Vila vindo insultar aos roceiros assistentes naquela paragem em suas próprias casas, matando-lhes suas mulheres, filhos e escravos, e também cavalos, porcos e mais criações, queimando lhe as casas em que habitam e aonde tem recolhido os seus frutos de que resulta grande prejuízo aos povos destas minas e a real fazenda de Sua Majestade. E sendo convocados em Junta os Ministros delas e outras pessoas mais, que todos uniformemente acertaram que era conveniente se praticasse com este gentio o que o dito Sr. Foi servido mandar observar com os Paiaguás e seus confederados Guaicurus e Caiapós: toda a pessoa que quiser ir explorar a campanha e dar nos próprios alojamentos daqueles inimigos para os fazer apartar destas povoações e livrar aos habitadores delas dos referidos insultos lhe prometo em virtude da dita Junta e em nome de sua Majestade de lhe dar por cativos todos os que apanharem e para que venha a notícia de todos se publicará este bando a som de caixas nesta vila e se registrará nos livros da Secretaria deste Governo e aonde mais tocar.19

Anos se passaram sem que as autoridades conseguissem efetivamente resolver o problema dos ataques indígenas e, em 1748, o coronel Antonio Pires de Campos conseguiu obter a autorização para estabelecer aldeias de índios Bororos na área hoje conhecida como o Triângulo Mineiro para servir de escudo contra os Caiapós. Os Bororos deveriam andar "sempre explorando as estradas fazendo sortidas de umas partes para outras, especialmente pelas paragens em que o gentio caiapó costuma insultar aos viandantes e roceiros afim de os intimidar e evitar com esta diligência as suas hostilidades". 20

Se no prazo de um ano os Caiapós ficassem sob controle, como recompensa por seus serviços o coronel receberia o hábito de Cristo e mais 50$ de tença. Se este prazo de tranqüilidade se estendesse por três anos ele receberia a mercê do proprietário de ofício de escrivão da Ouvidoria de Vila Boa. Entretanto, nada foi concluído como o esperado. Um mês depois, D. Luis Mascarenhas deixava o governo da Capitania e a mesma foi anexada à Capitania do Rio de Janeiro, e Gomes Freire Andrade nada fez para cumprir as promessas de Mascarenhas. Quando a capitania de Goiás foi novamente desmembrada, D. Marcos de Noronha que assumiu o governo, também não as cumpriu.

No ano de 1753 houve uma queixa conta o Capitão Antonio Lemos e Farias, por não exercer seu maior dever, que era o de manter as estradas e os caminhos livres dos Caiapós para que os viajantes, e os comerciantes pudessem se locomover com tranqüilidade. Sua situação complicou se ainda mais quando três índios Bororos fugiram da vila onde ele se encontrava e foram à presença do Conde de Noronha contar-lhe que queriam um novo capitão e que todos estavam descontentes com Antonio Lemos porque "a única vez que saiu com eles as sertão foi com tão grande equipagem que lhe servia mais de embaraço do que de utilidade a sua pessoa"...21 Os índios exigiam também que fosse escolhido um novo capitão e que este fosse paulista. Os indígenas conseguiram o que queriam. O capitão escolhido foi realmente um paulista e do agrado dos mesmos porque era "muito capaz de andar no sertão, do que há larga experiência", 22 era o capitão João Pinto de Godói. Este documento é importante porque além de demonstrar que em alguns casos, os índios conseguiam barganhar e obter o que desejavam, aponta também para a manutenção dada pelas autoridades de um costume indígena, ou seja, a inimizade entre tribos. Tal inimizade favorecia claramente aos colonos, uma vez destruído um grupo, diminuiria a quantidade de índios não amistosos para se preocuparem.

Em 1782, Ignácio Correia de Pamplona, líder de várias expedições enviadas ao Sertão, promoveu uma expedição que tinha por objetivo exterminar os Caiapós e limpar a área. Ao que tudo indica, não conseguiu realizar plenamente seu intento, uma vez que Cláudio Manoel da Costa em 1824, relatava que na área que dividia a Capitania de Minas Gerais com a de Goiás era grande o número de Caiapós, "que em contínuo giro anda acometendo aos viandantes, que por aqueles sertões transitam".23

Os índios do grupo Botocudo sofreram também uma perseguição implacável. Eram acusados de serem terríveis e de não aceitarem qualquer contato pacífico. Há que ressaltar, contudo, que eram denominados como Botocudos todos os índios que usavam botoques nos lábios e nas orelhas, não faziam parte do grupo Tupi e eram hostis ao contato com o branco.

O grupo Puri, confundido inúmeras vezes com estes, vivia no Sul de Minas Gerais, no Norte do Rio de Janeiro, no Sudoeste do Espírito Santo e no Nordeste de São Paulo e sofreu constantes guerras justas e os que restaram foram muitas vezes, transportados de um lado para outro a fim de liberar novas áreas de terras aos colonos. Desta forma, índios que viviam em Minas Gerais foram levados aldeados para o Espírito Santo, a fim de abastecer a região com uma mão-de-obra alternativa e mais barata que a escrava. Assim, ficava mais difícil a fuga dos índios porque eles perdiam seus referenciais geográficos e culturais.

O Comandante do Arraial do Cuieté em uma carta enviada ao Governador Valadares, reclamava destes mesmos grupos e afirmava que eles eram muito bravos e que várias regiões eram povoadas e posteriormente despovoadas por causa deles, pois é

sem dúvida que o gentio Botocudo e Poris são as nações mais brabas que há e os que tem infestado com distúrbios os moradores de Santa Rita, São José, Ribeirão do Macuco, Santa Anna do Abrecampo e o próprio Cuieté, despovoado três vezes por conta do mesmo, roubando e destruindo tudo de tal sorte que se acham muitos sítios desertos e povoações solitárias... a causarem os danos que se experimentam fazendo com o temor das suas crueldades que os moradores se não alarguem a explorarem os córregos que se acham na Barra do rio Cuieté até o Mainguassu.24

No ano seguinte, em uma outra carta, confirmava a natureza agressiva dos Botocudos e afirmava serem antropófagos, "sustentando-se de carne humana, tanto dos índios que matam como dos católicos". Em função de todos os problemas causados pelos Botocudos, sugere sua completa extinção.25 Entretanto, alguns dias antes, já havia sido dada uma ordem de ataque a estes indígenas em função de terem feito algumas mortes na região do Pegabem.26

Os Caitaguás ou Caitaguases, outro grupo indígena da região de Minas Gerais, habitavam o Centro, o Oeste e o Sul de Minas Gerais até o século XVIII e segundo Oillan Junior,27 foram os que "sofreram mais rudemente a ação escravizadora dos bandeirantes do ciclo paulista".28 Além do que, se encontravam "sem meios para se oporem aos avanços dos rudes e indomáveis homens das bandeiras, acabaram vencidos, exterminados no próprio solo que ocupavam ou, em hipótese mais feliz, levados como prisioneiros para a orla marítima".29

Em 1773, o rei português decretou que em função das constantes reclamações contra estes índios estava estabelecida a Guerra Justa:

Sua majestade, que Deus guarde atendendo as devassas e representações que se lhe mandarão sobre as mortes, roubos e insultos que tem feito os gentios Payaguazes [Cataguases]e mais bárbaros que infestam essas Minas e o seu caminho foi servido mandar lhe dar guerra para a qual manda assistir com armas. pólvora e bala e os mais petrechos necessários declarando a todos os gentios que se aprisionarem por cativos e que estes sejam repartidos pelas pessoas que se empregarem na dita guerra.30

Há uma grande diferença entre o que é pensado e o que é feito. O índio que precisava e merecia ser aldeado era aquele considerado manso, ou seja, o que aceitava pacificamente ser explorado economicamente pelos fazendeiros da região. Os que não aceitaram isto sofreram processos de extermínio, pois, "quando este gentio se mostre renitentes aos amigáveis persuasões que se lhe fizerem e sem atenção se queiram levantar e opor com violência neste caso, e justamente deve usar das armas para sua defesa",31 e "creia me v. Ex.a. propriamente as minhas suplicas que enquanto senão extinguir estes bárbaros gentios receio muito a povoação da terra".32

A questão da escravização destes grupos humanos foi um dos fatores responsáveis pelo processo de extermínio pela qual passaram e tamb ém por um paulatino esvaziamento demográfico da região. Isto não ocorria apenas em Minas Gerais. As regiões do Grão-Pará e Maranhão também passavam por um esvaziamento populacional causado pela diminuição dos grupos indígenas. Mendonça Furtado, Governador e capitão general do Estado do Grão-Pará e Maranhão, em uma de suas muitas cartas a seu irmão Pombal, afirmava que as tropas de resgates, tão em voga na região, eram na realidade, um grande problema porque além de enganarem os índios e os aprisionarem para vendê-los como escravos serviam também para "ser uma das principais causas de se despovoarem as terras dos domínios de S. Maj., e de, em conseqüência, fazer mais poderosos aos nossos confinantes".33

Em Goiás, durante o século XVIII, a escravização dos indígenas acarretou inúmeros problemas ao seu Governador, D. Marcos de Noronha. Em várias cartas ao Rei, afirmava não ter como controlar o fato. A situação se agravava por causa da Carta Régia de 21 de abril de 1702 que decretava a proibição do cativeiro, mas liberava a administração por tempo limitado dos índios que fossem atraídos pacificamente.34 O Governador afirmava que tal administração era, na realidade, um cativeiro disfarçado e eram

ainda mais rigorosos do que os dos negros, porque como os senhores compram estes por muito maior preço, tratam-os com muito mais cuidado: ordinariamente o índio administrado anda nu e sua sustentação não passa de um pouco de milho. Se ausenta da casa do administrador é preso e escoltado asperamente.35

Neste mesmo ano, o Governador referindo-se a uma Bandeira enviada ao Norte da Capitania com o objetivo de fazer guerra defensiva aos índios que estavam atacando a população, afirmou que a mesma era na realidade uma farsa porque atacariam índios com o único objetivo de os aprisionarem como cativos. Diz que não tinha condições de evitar estas atitudes porque se começasse a castigar as pessoas que se lançam a tais empreendimentos iria provocar "uma revolução nos ânimos dos moradores que se persuadem que matar índios está tão longe de ser homicídio que o julgam um ato de virtude".36

Além do que, continuava o Governador, eles não davam ouvidos nem as ordens dele e nem às do próprio rei.37

A escravização de índios e o seu uso sistemático durante o século XVIII nas áreas que estavam fora do eixo econômico destinado ao abastecimento externo tem proporcionado alguns debates calorosos. Há os que defendem que não era uma prática geral e que, mesmo nas regiões mais interiorizadas, já haveria neste momento uma predominância de mão-de-obra escrava de origem africana.

Contudo, as fontes têm demonstrado que estas afirmativas precisam, no mínimo, ser repensadas. A escravização de índios foi durante todo o século XVIII uma constante na vida de fazendeiros de Minas Gerais ainda que os religiosos ou os Diretores das Aldeias tentassem, em alguns poucos casos minimizar este uso ou mesmo impedi-lo. E as fontes têm demonstrado também que ainda no século XIX os índios eram utilizados como mão-de-obra cativa, ainda que sob diferentes disfarces.38

A escravização indígena, legítima ou não, mas disfarçada quase sempre, pode ser vista de diferentes maneiras e em locais e períodos distintos.

Em 1701, o Governador da Capitania do Rio de Janeiro, escreveu para o Rei dando conta de que algumas pessoas queriam acompanhar a Garcia Rodrigues em direção a nova povoação que se formaria às margens do Paraíba. Entretanto, estavam com medo de que os "carijós da sua administração (...) poderão fugir". O Rei respondeu a carta afirmando que "e não tendo os índios justa causa para fugirem para o que serão ouvidos e se examinará a que tiveram para este feito, os façais logo restituir a seus donos quando se averigúe que não houve razão lícita para se ausentarem".

Esta resposta é bastante interessante. Primeiro, o fato dos índios estarem sendo usados como uma mão-de-obra e afastados de sua vida tradicional, não seria motivo suficiente para que fugissem. A única causa aceita pelo Rei seriam os maus tratos. Entretanto, como seriam constatados no caso de que os índios realmente fugissem? Se a fuga fosse sem motivos justos, deveriam ser entregues novamente a seus "donos". É curioso que o próprio Rei não os tratasse como administradores, e sim como donos dos carijós. É oportuno salientar que "carijó" era todo índio escravo e o termo era usado para diferenciá-los dos escravos negros.

Em 1718, o Conde de Assumar, perdoava os amotinados da Vila de Pitangui com receio de que a mesma se esvaziasse novamente facilitando assim, a vida dos quilombolas e dos índios. No documento abaixo, percebe-se que além do perdão, os amotinados receberam grandes benefícios, dentre eles, a diminuição nos impostos sobre negros e carij ós, ou seja, escravos indígenas. Nos dizeres do governador:

Concedo a todos, tanto a uns como a outros [amotinados e pessoas que quisessem ir para Pitangui], uma cobrança de quintos com suavidade, sendo que os novos moradores da vila que tiveram mais de dez negros ou carijós, nos próximos dois anos, só pagarão metade dos quintos; serão dadas aos novos moradores que tiverem família, por sesmarias in perpetum a eles e seus descendentes, terras para suas lavouras.39

O Conde de Noronha, escrevendo em 1754 para João de Godói Pinto da Silveira, afirma que havia recebido a sua carta onde ele relatava sua entrada nos sertões mineiros. Nesta carta estava escrito também que durante a conquista ele havia sido perturbado pelos agrestes e de ter perdido seis Índios Bororos, por causa de uma doença, todos de muita serventia para ele porque eram treinados no uso das armas. Além do que reclamava também que em um ataque feito a uma aldeia indígena (não informa qual) havia conseguido aprisionar poucos índios. O Conde respondeu lhe de maneira ambígua dizendo que não poderia concordar com o fato, de que a expedição fosse dirigida a aprisionar índios dentro de suas aldeias, posto que o rei proibia. Mas que ficava satisfeito pelo fato da expedição ter sido bem coordenada e explicava que a mesma não havia sido mais lucrativa porque dias antes dois "caciques" haviam abandonado a aldeia,

que bem se podia esperar uma gloriosa vitória, se os alojamentos em que estavam os gentios fossem tão populosos (como seriam) se não tivessem saído antecedentemente os dois caciques com as suas Bandeiras uma para a parte do Mogy do Campo outra para estas partes de Goiás sendo este o motivo porque V.M. fez menos prezas do que queria.40

Continuava a carta reafirmando que o rei não queria violências contra os indígenas. Mas lembra que ele não a proibia quando os índios atacassem as expedições. Neste caso estaria liberada o uso de violência "iguais ou ainda muito maiores". E que o rei "só quer usar força da necessidade quando de outra maneira não pode rebater os insultos que o mesmo gentio ordinariamente está fazendo aos seus vassalos".41

Um outro exemplo do uso de índios como escravos pode ser apreendido na carta que Paulo Mendes Ferreira Campelo, Comandante do Arraial do Cuieté enviada ao Governador Valadares em novembro de 1769, dando-lhe várias notícias do estado em que se encontravam as entradas ao sertão. Dizia ele também, que seria muito útil, que as pessoas envolvidas na conquista da região e no aprisionamento de gentios, não pudessem reparti-los entre si, sem que antes todos fossem entregues ao Comandante para que ele os distribuíssem entre os que pudessem instruí-los na fé. O objetivo do Comandante era o de "evitar o pernicioso meio de cada um fazer seu o que apanha e distribuí-lo debaixo de algum interesse próprio como se tem visto".42

Em 1770, o capitão Pedro Bueno, paulista e fugitivo da Justiça em São Paulo, morador em uma ilha no Rio Doce, possuía escravos carijós que trabalhavam faiscando ouro nas proximidades da fazenda. Estes escravos, segundo o documento, não se afastavam muito das imediações da propriedade por temerem os "bugres" que ali viviam.43 Os "bugres" eram os indígenas que não haviam sido aculturados ou que eram
agressivos e ferozes.

Em seu testamento, Ignácio Correia de Pamplona,44 afirmava ter gastado uma considerável soma com as despesas feitas na expedição de 1769. Entre suas despesas havia o pagamento "dos que andavam com a corda", ou seja, eram índios prisioneiros de alguma tribo que foram comprados por Pamplona. De acordo com a lei, estes se tornavam assim, propriedades do comprador por um período de tempo estipulado.

Um inventário de Sete Lagoas, de 1832, nos informa que Manoel José Machado era proprietário de 36 escravos. Destes, 23 eram de descendência africana e 13 eram indígenas e aparecem identificados como sendo gentios no documento. Dos treze índios, 11 eram adultos e 2 eram idosos, todos eram do sexo masculino e seus valores equiparavam-se com os dos escravos de descendência africana.

Este inventário é um indício de que a escravidão indígena foi usada durante muito tempo em determinadas áreas. Infelizmente não há como sabermos a que grupo pertenceriam estes índios, mas é provável que sua aquisição tenha se dado através dos administradores que controlavam os diversos aldeamentos espalhados em Minas Gerais, conforme visto anteriormente. Era opinião corrente entre as autoridades leigas, que os administradores negociavam com fazendeiros a utilização de mão de obra indígena em troca de um aluguel que nunca ia para as mãos dos índios. O aluguel de indígenas era algo legal, mas deveria ser por um tempo determinado e com vencimentos. O que acontecia era que, na maioria das vezes, os indígenas eram alugados e quem recebia os vencimentos eram os administradores e os índios não eram devolvidos aos aldeamentos, acabando por entrar, com o passar dos anos, nas listas dos escravos do fazendeiro.

Em alguns momentos, esta situação mudava um pouco. Em 1772, o índio João, vindo da Capitania do Maranhão, que estava vivendo .debaixo das obrigações do mais rigoroso cativeiro. foi vendido pelo Cônego Francisco Ribeiro da Rocha como cativo, juntamente com alguns bois e outros escravos, a Cipriano Pereira de Azevedo. O Conde de Valadares, imediatamente ordenou que se soltasse o índio e lhe fosse restituída a liberdade.45 Em novembro, os Cônegos Francisco e José Botelho foram presos devido ao cativeiro ilegal do índio.46

Por tudo isto, fica evidente que a questão da escravização de indígenas durante o século XVIII precisa ser revista e pesquisada com maior profundidade. Mesmo que ela não tenha sido naquele momento, de car áter estrutural como a africana, ela existiu e foi pelo menos em determinadas regiões da Capitania, essencial aos projetos de colonização e povoamento.

Pode-se perceber, portanto, que os indígenas em Minas Gerais foram desde o século XVII vítimas de políticas que objetivavam transform á-los em uma reserva de mão de obra - quando pacíficos - ou exterminados em nome do sossego público e da segurança do povoamento da região.

Notas

Revista Varia Hstória

Civilizados, Bárbaros, Europeus Três homens de letras em face do inimigo - 1914-1925


Civilizados, Bárbaros, Europeus Três homens de letras em face do inimigo - 1914-1925

Yaël Dagan
EHESS- CRN (Centre de Recherche Historique). Boulevard Raspail 105, 75 014 - Paris, France. yaeldagan@pobox.com



Em um discurso pronunciado em Paris, diante da Academia de Ciências Morais e Políticas, em 8 de agosto de 1914, o filósofo Henri Bérgson deu sua versão da guerra que se desencadeava: "a luta engajada contra a Alemanha é a própria luta da civilização contra a barbárie".2 Esta fórmula estabeleceu o eixo principal do discurso dominante sobre a Grande Guerra, na França. Se o ódio ao inimigo é constitutivo de uma situação de conflito, a representação do inimigo como bárbaro, ameaçando a civilização, leva à sua desumanização radical, e sublinha o car áter total que a Grande Guerra teria, desde o princípio.3

A história cultural, ao contrário da antiga história das idéias, se interessa pelos sentimentos, e tenta lhes restituir o justo lugar no conhecimento do passado.4 A história dos intelectuais, ao contrário da história intelectual, se interessa pela vida dos "profissionais da manipulação dos bens simbólicos",5 em todas as dimensões, partindo do princípio de que "as idéias não passeiam nuas pela rua".6 A Grande Guerra é um excelente laboratório para o estudo dos sentimentos dos escritores, um período que a posteridade muitas vezes ocultou, por considerá-lo apenas um parêntesis.

Proponho-me, aqui, a seguir três homens de letras, escritores e críticos literários - André Gide, Jean Schlumberger, e Jacques Rivière -, durante o período menos conhecido de suas vidas: o da Primeira Guerra Mundial, e o do imediato pós-guerra. Entre os três, somente André Gide é hoje reconhecido como um grande escritor, que marcou seu tempo. Schlumberger e Rivière se ligam a Gide por um projeto comum: La Nouvelle Revue française (La NRF), uma revista literária que atingiu, no entre- guerras, um status hegemônico no mundo literário francês.7 A revista foi fundada por Gide e cinco outros escritores, em 1908; Schlumberger foi um dos "pais-fundadores". Rivière, o mais novo, se juntou ao grupo, em 1909, começando sua carreira literária como crítico. A partir de 1912, ele foi secretário da redação da revista.8 A revista pára de ser publicada em 1914, e, quando ela reaparece, em 1919, Rivière se torna seu diretor. No entre-guerras, o espírito de Gide continua pairando sobre a revista, onde ele é um de seus escritores mais venerados, e um colaborador importante. Schlumberger continua, também, a fazer regularmente notas críticas e textos literários. Esses últimos são, ao mesmo tempo, acionistas da sociedade que edita a revista, da qual Gaston Gallimard é o gerente. Gide, Schlumberger e Rivière formam o núcleo duro da revista, e encarnam a continuidade entre o pré e o pós-guerra, a despeito da interrupção de 1914 a 1919.

A questão do ódio ao inimigo e de suas representações, no percurso desses três escritores, será examinada no período de 1914 a 1925. Esse decênio se distingue por duas comoções: a passagem da paz à guerra, em agosto de 1914, que foi brusca e dramática; e, com a vitória, a passagem da guerra à paz. Esta segunda comoção não foi menos profunda que a primeira. Nessa dupla passagem - da paz à guerra, e depois, da guerra à paz -, a representação do inimigo nacional foi o elemento central do sistema de representações do período. O estudo do modo com que essa construção coletiva se inscreveu concretamente na biografia desses três escritores pode esclarecer não somente a história de La NRF, a despeito da interrupção da guerra, mas, também, o mecanismo de mobilização e desmobilização culturais (que se encontram no coração da Primeira Guerra Mundial, e até de outros conflitos contemporâneos), no qual o ódio ao inimigo aparece como um elemento constitutivo.9

Mobilizações e brutalizações, 1914-1918

NA mobilização, em corpo e espírito, dos intelectuais para a guerra é um fenômeno bem conhecido pelos historiadores da Grande Guerra. Ela é conhecida, sobretudo, sob o ângulo da contribuição à propaganda e, na retaguarda, pela manutenção da moral.10 Menos conhecida é a mobilização silenciosa de numerosos escritores que apoiavam a guerra, seja como soldados, seja na retaguarda.11 Gide, Schlumberger e Rivière entram nessa categoria, pois, quando sua revista deixa de existir, eles são privados de tribuna. Contudo, seus escritos íntimos - diários, cadernos e correspondências - trazem o traço de sua mobilização patriótica.

Gide: a busca da ordem

Os leitores de André Gide, muitas vezes, se surpreendem quando ficam a par da maneira como ele recebeu a guerra. Autor libertário de L'immoraliste, inimigo da família e da ordem, Gide atravessa a guerra do modo mais conformista, e não resiste à agitação nacionalista. Tendo 45 anos, em 1914, ele não é mobilizável. Esta posição lhe é, moralmente, muito desconfortável: "sem dúvida, àqueles que estão mobilizados, o porte dos trajes militares autoriza uma enorme liberdade de pensamento. Em nós, que não podemos vestir o uniforme, é o espírito que se mobiliza";12 reconhece ele, em seu diário. Ele procura, portanto, se engajar civilmente, e, de outubro de 1914 a março de 1916, passa seus dias na co-direção do Foyer franco-belga, constituído, em Paris, para acolher os refugiados franceses e belgas, que fugiram das zonas ocupadas pelos alemães. "Eu compreendo pouco a pouco aqueles que, durante essa crise extraordinária, preocupam-se em desarrumar o menos possível a sua vida. Não duvido que os acontecimentos não os eliminem, como aos elementos não assimilados",13 escreveu Gide a Schlumberger, no início de 1915. Durante esse período, Gide confidencia, em seu diário, sua visão exaltada de uma guerra regeneradora, que ele cria estar vivendo. A guerra é descrita como uma "chance imensa, essa vantagem. que se é necessário agarrar "intrepidamente"; ela seria o "cataclisma" que, "no secreto de nossos corações, desejamos"; vinda "do profundo da humanidade, ela seria o grande golpe de vento que varreria a impureza".14

A "guerra regeneradora" deita suas raízes no tema da decadência, muito divulgado no fim do século XIX, e ao qual Gide retornou, às vésperas da guerra.15 Essa visão de uma decadência nacional, que somente a guerra poderia frear, é um dos fios condutores que ligam o pré-guerra à guerra, que explicam porquê a guerra foi amplamente aceita pelos escritores. Ela se inscreve em um movimento paradoxal de idéias e de sentimentos que caracterizariam os anos 1910, nos quais La NRF exerceu o papel tanto de reveladora, quanto de incitadora.16

Mas, essa visão sofre uma erosão, à medida que a guerra se prolonga. O que ocorre, sem dúvida, por ela contrastar com a experiência cotidiana de Gide, que consiste em levar auxílio aos infelizes que perderam tudo, em razão da invasão; um trabalho paciente e sem glória. O otimismo que o dominou, no início da guerra, não resiste à prova de uma guerra longa e mortífera. Assim, Gide começa a desenvolver, em seu diário, uma "teoria" da superioridade alemã. Com efeito, a guerra seria regeneradora para a França, na medida em que ela a forçaria a se rejuvenescer, a se modernizar. A ação, a juventude, a virilidade são os valores que a França deveria seguir, para se salvar. Indo ao mais fundo dos seus sentimentos, ao admitir viver uma guerra que dá a luz à "modernidade", Gide é forçado a reconhecer os méritos desta na Alemanha, e não na França. Pois, segundo ele, é justamente a Alemanha que dá, na guerra, a demonstração das forças da modernidade, da juventude, e da virilidade. Daí, a passagem à valorização do país inimigo é lógica: "Parece-me, também, que o massacre não tem a mesma significação para o povo que se rarefaz, que para um povo muito prolífico. A Alemanha que sangra uma aldeia sabe que pode repovoá-la; o excesso de população convida ao massacre; é necessário criar" um lugar "diante de si mesmo".17 A França, em compensação, devastada pelo alcoolismo, é um "país que não sabe mais se defender". Esta é a razão pela qual Gide pode se apresentar como favorável à "idéia germânica do golpe de charrua: supress ão dessa população corrompida, incurável, intratável - não resta mais que a suprimir. Chamamos de crueldade essa medida de ordem sanitária. (...) Nesse caso, vale mais se deixar invadir: ser salvo".18 Ainda que essa germanofilia se aproxime, ás vezes, do derrotismo, ela não é o fruto de um pacifismo, mas de uma admiração das virtudes dos alemães:

No passo em que vamos, se formará, dentre em pouco, um partido germanofilico na França, que de modo algum será recrutado entre os anarquistas e os internacionalistas, mas sim entre aqueles que se virão forçados a reconhecer a constante superioridade da Alemanha. Eles julgarão, com razão, que é bom, que é natural, que esta superioridade governe.19

Essas reflexões vão à contra-corrente do discurso dominante da guerra, que faz da Alemanha a encarnação do mal; uma equação várias vezes apresentada e repetida, na qual a França representa a civilização, e a Alemanha, a barbárie. São estas proposições que Gide confidencia apenas a seu diário, não aparecendo em nenhuma de suas cartas. Elas não passariam pelo crivo da censura, caso se tornassem públicas, durante a guerra. Evidentemente, elas são de uma natureza chocante, e podem parecer subversivas. Mas, ao se observar de perto, Gide não faz mais que inverter a equação, ao atribuir um valor positivo à Alemanha, e um negativo à França, inscrevendo-se diretamente nesta linha de representa ção binária. Em seu diário, encontramos, repetidas vezes, a reprodu ção desses lugares comuns mais banais sobre a França e a Alemanha. Da comparação entre as duas culturas nacionais, resulta que os alemães pecam pela "falta de contorno", o que explica ausência de uma pintura digna sobre o outro lado do Reno. Mas, essa falta de contorno é o que lhes dá uma extraordinária capacidade de expansão:

Ela é da família dos fícus, e comparável ao banian (figueira da índia), sem tronco principal, sem definição, sem eixo, mas na qual os raminhos menores (e até mesmo separados do tronco) brotam mais vivos, onde quer que seja, no alto dos braços, embaixo das raízes; e vivem, crescem, prosperam, se desenvolvem e se tornam, por sua vez, uma floresta.20

Sua admiração pela brutalidade e pelas técnicas inspiradas no darwinismo social, aliadas à idéia "germânica", encontra uma justificativa no seu contato com os infelizes do Foyer:

Confesse que, se você estiver tomado pela idéia fixa de uma melhoria possí- vel da raça humana, uma melhoria prática e quase imediata, você não procuraria insanamente prolongar a vida dos malformados, dos corrompidos, dos indesejáveis, etc., nem encorajaria, ou mesmo, simplesmente, permitiria sua reprodução! Para permitir aqui, e se sacrificar ali. Nada mais lógico. Uma vez mais, se procura saber quem merece triunfar.

Quantas vezes, no foyer, cuidando, consolando, protegendo estes pobres farrapos humanos, capazes somente de gemer, enfermos, sem sorrisos, sem ideal, sem beleza, senti se erguer em mim a angustiante dúvida: Merecem eles serem salvos? A idéia de os substituir por outros mais bem sucedidos faz, certamente, parte da filosofia germânica. Esta lógica é, portanto, monstruosa. 21

Este texto extremamente duro ilustra o processo de "brutalização", indicado por George Mosse; segundo este a brutalidade começa pela indiferença crescente com respeito à morte em massa.22 Esse processo de endurecimento, de desumanização, ao longo da guerra, é perceptível em nossa amostragem. No discurso de Gide, a "brutalização" se exprime na desumanização de si mesmo.

Levado por sua admiração pela ordem e pela brutalidade, desencorajado por uma guerra longa e que não traz a vitória, Gide se inquieta, pouco a pouco, com a ameaça da guerra civil e da desagregação interna: "Ai! Vê-se, à hora do perigo, que o edifício inteiro, de alto a baixo, está carunchado, que a sociedade inteira... Mas, para onde eles dirigem os olhos, para não terem que ver a seu redor? Não há um andar do edifício social em que não se constate a insubmissão de alguém",23 exclamou ele em novembro de 1915. Gide se consterna com Romain Rolland, e com a agitação anti-militarista que se forma em torno dele: "Tudo isso trabalha deploravelmente a favor da guerra civil".24 Mais tarde, assim que a Revolução Russa passa à sua fase bolchevique, é o socialismo quem ameaça suscitar a guerra civil.

A busca da "superioridade", da "força", acrescida ao receio de uma guerra civil, o conduz diretamente à Ação Francesa. Durante a guerra, Gide admira nos alemães, e em Maurras, a mesma coisa: a força. "Essa guerra inteira parece uma dar o exemplo disto: que mesmo com as mais belas virtudes do mundo, não se consegue nada sem método. É o que ensina Maurras; e o que a Alemanha põe em prática".25 E, 1917, ele adere ao jornal da liga de extrema direita, e troca elogios com Maurras.26 A adesão provisória de Gide à Ação Francesa ilustra o sucesso do movimento, durante a Grande Guerra, sendo um de seus apogeus.27

Schlumberger: do patriotismo ao nacionalismo

Sofrendo de insuficiência cardíaca, Schlumberger foi reformado, em 1914, aos 37 anos de idade. Levado pela onda solidária de agosto de 1914, ele chegou a se alistar como voluntário, passando os primeiros anos da guerra numa bateria pesada comandada por seu irmão. No início da guerra, seu discurso permanece moderado: confrontado com a realidade do campo de batalha (ele permanece em um posto de retaguarda, mas, não obstante, próximo da linha de frente), ele observa o absurdo da morte em massa e recusa a mistificação da guerra. Contudo, em 1916, ele muda seu sentimento, ao se tornar oficial no centro de informa ções de Réchésy, na fronteira franco-suíça. O contato com os nacionalistas causa o endurecimento de sua postura. Ele se dá conta, em uma carta a Gide, datada de 27 de janeiro de 1917: "Sob a uniformidade do trabalho de cada dia, a vida que levamos aqui continua a ser rica e comovente. No fundo, é a primeira vez que mantenho um contato prolongado com os espíritos nacionalistas (no sentido mais amplo)". Esse contato, admite ele, o comove:

Eu mentiria se quisesse negar que, no mais profundo de mim, se passa uma grande comoção. Meus amigos se aproveitam de meu estado de paixão, de minha ira, do meu desejo de causar dano, para atacar meu ponto de vista tucidiano! Talvez, a formação protestante torne particularmente difícil a ren úncia ao universal... Mas, em que embarco?Quero dizer, é teoricamente difícil, pois praticamente tudo isso foi varrido.28

A referência a "um ponto de vista tucidiano" remete a um ensaio que ele redigiu pouco antes da guerra, Enlisant Thucydide, no qual Schlumberger, sendo "totalmente inapto a reações patrióticas", segundo suas próprias palavras, veria a imparcialidade de Tucídides com uma admiração sem reservas. "A legitimidade desse assentimento total não tinha sido, até o agora, posto à prova", explica ele, em suas memórias. "No entanto, o que a guerra me trouxe de mais positivo foi a descoberta de uma certa fraternidade, nas emoções coletivas. Ela me revela o que se pode ter de salutar nas cóleras nacionais, e de estreito nos julgamentos" acima do conflito...29

Pode-se perceber o endurecimento de Schlumberger através do aumento de sua ira contra a Alemanha. Gide, que, no entanto, está convencido da pertinência dos caracteres nacionais, não chegaria a imaginar um pós-guerra sem a continuação das relações franco-alemãs. Em 1917, ele escreveu a Schlumberger que, depois da guerra, as relações intelectuais entre os dois países prosseguiriam "mais belas e com uma maior" consideração "por parte da Alemanha para conosco, reflexo de uma admiração que nós os constrangeremos a ter por nossas armas. Eles desde já se persuadem de que um povo que os resiste tão heroicamente não é simplesmente o povo superficial que eles gostariam crer".30 Mas, essa carta encontrou Schlumberger com uma disposição totalmente diferente:

Meu velho, (...) encontrei milhares de coisas belas para lhe dizer, em particular para combater esta idéia de que conquistar a Alemanha com nossa arte seja o mesmo que a conquistar. Não, nós a conquistaremos quando vendermos a ela couro e minério; nós a forçamos a passar em nosso caixa, mas, quando a fazemos participar de nossa arte, a convidamos à nossa mesa. É bem diferente. É um ato de polidez e cortesia. No entanto, estamos, atualmente, envolvidos numa vida em que não há outra salvação que uma luta a todo custo. É pouco provável que a paz nos coloque em uma situação assaz brilhante, para que possamos nos permitir a esta sorte de elegâncias. Certamente, importa que traduzamos as obras alemãs sobre metalurgia e química; pois podemos tirar proveito delas; mas, não faremos mais que dar satisfação ao orgulho teuto, quando fazemos conhecido um Dhmel ou um George. A cordialidade artística desempenhou um papel muito sinistro no pré-guerra. Ela foi uma bucha de clorofórmio, destinada a nos adormecer. Não nos exporemos uma segunda vez. Os alemães se aproveitam de nossa arte, como de nossas prostitutas. Mas, se, precisamente todos os nossos esforços tenderem a nos endurecer contra a invasão?.31

O antagonismo anti-alemão de Schlumberger traduz uma lógica defensiva, que está no coração do discurso da guerra de 14-18, na França. Os inimigos são compreendidos como uma ameaça contra os civis, os soldados e, até mesmo, a civilização.32 Assim, ele se opõe categoricamente a todo diálogo com a Alemanha, notadamente no domínio cultural. A luta a todo custo, na qual ele se empenha, implica na manutenção das hostilidades no plano cultural, mesmo após o fim da guerra. Nesse momento, em que Gide vê na guerra uma ocasião para se reabilitar a honra francesa, para, em seguida, se estabelecer um diálogo francoalemão, sobre bases favoráveis à França, Schlumbeger exclui toda possibilidade de reconciliação futura entre os povos.

Rivière: da humilhação ao ódio

Ao contrário de Gide e Schlumberger, Jacques Rivière, com 28 anos em 1914, se mobilizou desde os primeiros anos da guerra, e partiu para o fronte, como sargento de um regimento de reserva da infantaria. No momento da mobilização, ele é arrebatado por um espírito patriótico, e exprime seu consentimento para com o sacrifício. Em 25 de agosto, após apenas três dias de combate, ele é feito prisioneiro, e passa cerca de três anos em um campo de prisioneiros, na Alemanha. Este destino é, para ele, o cúmulo da humilhação, e suas cadernetas de cativeiro portam o traço dessa experiência humilhante, e de seu diálogo com Deus. Em 1° de julho de 1917, liberto, ele se encontra só, em Engelberg, na Suíça, sem sua mulher e sua filha; com as quais, em breve, viria a se reencontrar. Ao sair da missa de domingo, sua primeira enquanto homem livre, ele se comove:

Que Deus me preserve de semear o ódio! Que Deus me preserve de aumentar, o mínimo que seja, a soma do ódio, o capital do ódio! "Semeemos o ódio!", disse um jornal, que li com meus olhos.
Não; mas abafemos o ódio, ajudemos, com todas as nossas forças, a findá-lo. Se eu conhecer qualquer fato que possa contribuir a reinflamá-lo, o calarei cuidadosamente. Se eu tiver qualquer motivo para o sentir, eu o esquecerei. 33

Cristão, o ódio lhe é interdito. Mas, ele reconhece haver sido posto à prova: "Eu conheci o ódio, algumas raras vezes; e cedi a ele, porque acreditei que estaria bem assim, e que esse seria o preço de se ser um homem. Mas, hoje, sei que o ódio é mal, e que não se é homem senão ao preço de não o sentir".34 Pode-se acreditar que Rivière teria dito isto de boa fé, posto que, em 5 de julho, ele escreve a Jacques Copeau:

Pois então, J.[ean] Sch.[lumberger] me escreveu, essa manhã, uma carta que me deu muito prazer, mas onde há alguma coisa que me escandaliza, ou que, ao menos, me intriga fortemente. Ele fala do ódio. É possível possuí-lo ainda? Não sei por mim, e pergunto. Em todo caso, no que me concerne, não sinto mais nenhum. Pelo menos, acho. Ou ele terá dormido, como o resto?35

Mas, a guerra não terminara, e Rivière ainda não está curado de suas seqüelas. Durante o verão de 1917, ele escreve dois textos pacifistas, mas, no início de 1918, ele decide classificá-los como indignos, diante da paz de Brest-Litovsk, firmada entre a Alemanha e a Rússia.36 Como muitos de seus contemporâneos, ele passa, durante o ano de 1918, por uma "remobilização",37 e, retornando à França, em junho de 1918, termina seu livro L.Allemand, souvenirs et réflexions d'un prisonnierde guerre. Esse livro - inscrito na tradição da "psicologia das nacionalidades", muito em voga neste período"38 apresenta o conflito entre a França e a Alemanha como uma luta entre dois temperamentos antagônicos: o Francês, herdeiro de uma tradição clássica; e o alemão, definido por sua "ausência".

No início do livro, Rivière anuncia sua idéia principal. Os alemães são, com certeza, bárbaros, mas não "ao modo dos Hunos". O que os caracteriza não é a violência extrema, mas "a falta de topete: Tome-os bem no início de si mesmos, antes que sua formidável vontade tenha tido tempo de intervir: eles não são nada; eles não desejam, não esperam, não pretendem nada".39 Esta "falta de crista", que Rivière chama também de "indiferença" radical, não é o "fatalismo" eslavo ou oriental, o qual é resignação: "O alemão não curva seus desejos e sonhos diante de um incidente considerado insuperável. A verdade é que eles não têm, de início, nem desejos, nem sonhos; nem amor, nem ódio; nem prazer, nem desgosto; nem paixão de qualquer tipo".40

Deste defeito resulta a incapacidade alemã de distinguir entre o bem e o mal, o verdadeiro e o falso. Paradoxalmente, o alemão se distingue, contudo, por uma extraordinária força de "vontade", posto que o "dever" substitui, neles, a inteligência. Se a primeira parte do livro se apóia sobre anedotas tiradas da experiência de cativeiro de Rivière, na segunda parte, ele reafirma estas observações, e as confronta com uma série de artigos do ensaísta alemão Paul Natorp, acerca do destino nacional da Alemanha, publicados em 1915, na revista Deutscher Wille des Kunstwarts. A impotência analítica da Alemanha produz "o espírito de síntese universal" e "a incapacidade para a contemplação". Daí, Rivière chega à constante da "barbárie alemã":

Podemos ver, nisso tudo que precede, que não me agradam muito as injúrias. Eu tomei, especialmente, o cuidado evitar, pelo maior tempo possível, a grosseira palavra barbárie. Eu mesmo condenei o emprego que dela, correntemente, se tem feito, para estigmatizar certos defeitos dos alemães, que creio terem sido mostrados de uma forma totalmente diferente. Mas, enfim, chegou o momento no qual não posso mais me impedir de soltá-la. Sim, tudo bem refletido, mesmo se o triunfo da Alemanha, mesmo se a revolução do mundo pela Alemanha, viessem representar um progresso material positivo, eu afirmo que isso não poderia ser ao preço de um retorno à mais assustadora barbárie intelectual.41

Certamente, Rivière reconhece as virtudes dos alemães, e, notoriamente, seu talento para a inovação técnica, que se inscreve em sua aptidão para a revolução. Mas, Rivière recusa o vocábulo "civilização" para esse mundo à moda alemã; pois, "se haja, ali, civilização, é necessário, antes de tudo, que haja preferência e cortesia, e que elas sejam definitivas".42

Ao contrário, os franceses são, segundo Rivière, um povo conservador: "É inútil dissimularmos que somos um povo nenhum pouco progressista. (...) O passado nos tem, e nos comanda".43 Seu amor pela França é o amor pelo imobilismo e pelos valores "garantidos".44 Como para Gide, a Alemanha representa a modernidade e a juventude, mas, ao contrário de Gide, Rivière delata estes atributos. O alemão é um ser se formando, uma eterna juventude, e a juventude não é "interessante":

Mas, ninguém pode ser menos interessante. O que há, talvez, de mais terrível para se dizer sobre os alemães, é justamente que eles não são interessantes. E, como se ligar a esses seres em perpétua formação? 'Nós somos jovens', gritam eles. Vocês não percebem isso? Infelizes! Como se, assim, pudessem nos seduzir! E, o que têm eles de menos interessante que a juventude? É possível se comover acerca das possibilidades infinitas que ela guarda. Pode-se fazer lirismo disso. Mas, quem quer que seja que tenha gosto pela realidade psicológica, volta sua atenção para os seres acabados, completos. Em se falando de humanidade, eu conheço, eu amo, aquele que é, aquele que resiste, aquele que pensa, e sente, e vive como tal, e não de outra maneira. A deutsche Jüngling me aborrece. Se ao menos eu sentisse que eles envelheceriam! Mas, não. Eles serão jovens para sempre, er ist jung in Ewigkeit. Eles serão sempre em potencial. E eu, justamente, não me apaixono senão pelo que é de fato.45

Graças à sua paixão "insana para chegar ao ponto",46 dispomos de fontes suplementares que nos esclarecem sobre a gênese de L'Allemand. Os rascunhos indicam claramente que a redação desse livro foi, para Rivière, uma maneira de fazer face ao trauma:

Eu escrevi, então, o que será seguido apenas pelo vomitar a Alemanha e os alemães. Uma simples operação higiênica. Eu quero retomar meu fôlego; eu quero ser eu mesmo, de novo, todo inteiro. Eu não sei muito bem o que vou dizer. Mas, em todo caso, direi que os alemães não são eu, e que eu não sou os alemães; direi que eles são a coisa menos suportável que foi lançada ao mundo, para o meu temperamento; eu os sacudirei de mim (se eles, talvez, estiverem um pouco pendurados), como o objeto mais inoportuno, o mais ofensivo ao meu gosto e aos meus instintos, que senti pesar sobre meus ombros.47

Este livro violento é, portanto, uma resposta a uma experiência violenta. Um outro texto ligado a este livro esclarece mais sobre que tipo de traumatismo que o perturba. Retirado de seus rascunhos, este extrato foi publicado pela La NRF, por ocasião do terceiro aniversario de morte de Rivière, em fevereiro de 1928. Este texto descreve sua confusão, no momento em que ele se encontra só, em sua cela, onde foi castigado:

... Tão logo me vi só, bem recolhido em minha sepultura, sob o triplo segredo da fechadura, como uma garrafa que ainda não está em tempo de ser bebida - as noites são tão frias, a fome tão grande, que nos damos por satisfeitos com tão pouco que um certo desespero se apodera de mim. Penso em tudo o que me hão roubado; estou humilhado, envergonhado, horrivelmente despojado. Por mais que eu faça, eu conto os dias que restam para me libertar. E, ainda que toda minha vontade se tensione neste sentido, não fico mais tão certo de chegar até o fim. Esta lenta miséria se utiliza mais do que de grandes provações. Tenho o coração fechado e infeliz.

Nestas condições, o cúmulo da humilhação reside, de fato, no sentimento de uma perda total de identidade:

pouco a pouco a febre me ganha: parece-me que eles irão voltar, que escuto seus passos. Dos quatro pontos cardinais, tenho a impressão de que podem marchar sobre mim, entrarem em minha casa, em mim, a todo instante, arrancarem- me o que ainda resta, e me deixarem ali, uma vez mais, como uma coisa da qual não se precisa, roubado, violado. Não conheço nada mais desmoralizante que a espera do mal que podem lhe fazer, somada à perfeita impossibilidade de lhes escapar.48

Rivière admite, aqui, ter passado ele próprio por um processo de "desumanização", resultante, ao mesmo tempo, da "penetração" do inimigo até em seu corpo, e de sua redução ao estatuto de um simples objeto. Este ponto revela uma verdade essencial da guerra 14-18 (e, sem dúvida, uma generalidade das experiências da violência extrema): o ódio ao inimigo aparece como um mecanismo psíquico que visa ao reencontro da própria identidade, em um contexto onde todos as referências se embaralham. Em se desumanizando o inimigo, pode-se esperar re-humanizar a si mesmo, e se redesenhar os contornos da própria identidade.

Desmobilização e re-humanização: 1919-1925

O texto precedente mostra como três experiências diferentes da guerra levaram a formas diferentes de se relacionar com o inimigo. A violência que caracteriza as representações do inimigo junto a cada um de nossos protagonistas é um produto da situação de guerra: ela é construída historicamente, e está intimamente mesclada às questões de identidade, que se encontram perturbadas em tempos de guerra. Mas, podese prever, como disse John Horne, que uma tal divisão identitária e "uma formulação tão cruel do Outro nacional dificilmente sobrevivem nas condi ções ambíguas da paz, se desagregando, em seguida".49

Rivière: da culpabilidade à desmobilização

Em Rivière, esta passagem foi mais rápida. Assim que o livro é impresso, ele já sente remorsos, e exprime a defasagem entre o conteúdo do livro e seus sentimentos. Em 30 de outubro de 1918, algumas semanas antes da impressão, ele escreve à sua mulher:

É meu pobre livro [...]. Eu o detesto, eu o execro, se eu tivesse apenas um pouquinho de coragem, pararia a impressão, pois sei que, assim que ele for publicado, o lamentarei, e que este será um remorso para toda minha vida. Os escrúpulos que confesso em meu prefácio eram legítimos, eu deveria tê-los escutado.
Mas, te poupo dos meus remorsos antecipados, pois bem sei que serei covarde o bastante para deixar que o assunto chegue ao fim. É necessário, ao menos, que eu aceite francamente minha própria infâmia.50

Motivado por sua culpa, ele anuncia, a partir 1919, um giro em seu pensamento, como se pode ler em sua carta a Jules Romains, na qual responde suas críticas contra L'Allemand:

Meu destino é totalmente desfavorável. Estou mais consciente que você de nossos imensos defeitos, e de que os alemães podem ter qualidades. Esforçarei-me, agora, para lhe dizer isto. Minha única covardia é, talvez, ter que começar por isto que, em meu pensamento, poderia ser o mais lisonjeiro para a opinião mediana entre nós.51

Sendo o diretor da La NRF, de 1919 a 1925, ano de sua morte súbita, aos 39 anos de idade, Rivière publicou na revista inúmeros artigos políticos que exprimem este "destino". Em maio de 1921, nas Notes sur un événement politique, ele se propõe a ler o fracasso das negociações de Londres52 à luz do abismo psicológico que se abre entre os diplomatas franceses e alemães; os quais representam, precisamente, as mentalidades de seus respectivos povos. Neste ensaio, Rivière mantém a oposição irredutível entre o caráter francês e a sua "falta" nos alemães, tal como havia desenvolvido em seu L'Allemand; mas, desta vez, mostrando todos os defeitos que a rigidez francesa comporta, e as virtudes da plasticidade e da flexibilidade alemãs. Ao passo que os franceses estão presos ao passado, os alemães não querem mais que esquecê-lo. No entanto, para se construir a paz, sustenta Rivière, a memória se torna um obstáculo: "Nós somos iguais a estes doentes a quem falta de sono os torna incapazes; nós precisamos, antes de tudo, de um pouco de esquecimento".53 A mania dos franceses de querer sempre "ter razão" é contra-produtiva, segundo Rivière: "Passando por cima de algumas avers ões, e da amargura de nossas lembranças, não poderíamos tirar proveito, desta vez, daquele "vir a ser", do qual a Alemanha superabunda, e que a sorte nos pôs à disposição?". 54

Um ano mais tarde, ele torna a atacar, esta vez acerca do fracasso da Conferencia de Gênova.55 Em Les dangers d'une politique conseqüente, ele culpa Poincaré, com o título indica, pelo desfecho e pela "conseqüência" restritos de sua política: "Estamos bem satisfeitos com as injustiças que podemos provar que somos vítimas. Ao passo que seria preciso refletir e trabalhar".56 Enfim, em plena crise de Ruhr,57 Rivière se torna a expressão mais nítida do fracasso do projeto de paz. É agora a mentalidade francêsa que se torna o obstáculo:

Nossa concepção de paz, se não é muito jurídica, permanece militar. Nós nos preparamos para ver a paz nascer miraculosamente de nossa constância. Nós não nos ocupamos da vontade do adversário, nem em descobrir seu significado, e se ela pode se unir à nossa: nós não sonhamos com nada mais que quebrantá-la.58

É, agora, o esquecimento que Rivière exalta:

Quatro anos se passaram, após a guerra. Os culpados são culpados: é facultado a cada um nomeá-los, e os detestar, em seu coração. Busca-se, hoje, a paz. A paz que falta. É preciso retomá-la. É preciso concebê-la como um organismo, e não decretá-la, mas, sim, dar-lhe vida. [...] é preciso instituir o esquecimento.59

A paz será construída graças a um acordo comercial com a Alemanha, mais importante e mais provável, segundo ele, que um acordo intelectual ou cultural. A prosperidade produzirá a paz:

Não posso deixar de crer que a Alemanha, no fundo, pode facilmente se desinteressar pela guerra. Estou convencido que ela não tem um gosto profundo pela guerra, e que uma prosperidade bem regulada, na qual eles teriam uma boa chance de cumprir com as condições fundamentais, os dissuadir á, por um longo tempo, de recorrer.60

Quando se pensa no "milagre alemão", que se seguiu ao pré-guerra, e na pacificação da Alemanha antes do nazismo, esta idéia parece muito correta, embora avançada para sua época.

A insistência de Rivière acerca do esquecimento parece ir à contracorrente da tendência atual de transformar a memória no novo imperativo categórico das sociedades ocidentais.61 Contudo, no contexto de uma situação pós-conflito, e quando se pretende que a memória de um povo seja, ao mesmo tempo, vencedora e penetrada por um sentimento de vítima, mais que memória, arrisca-se a produzir uma fixação narcisista coletiva, impedindo a sociedade de olhar para o futuro.62 A política do esquecimento, ou ao menos aquela que não cultiva uma memória vitimista obsessiva, não seria uma condição necessária para se virar a página?

Se Rivière continua convencido da pertinência dos "caracteres nacionais", a transformação no uso que ele faz desta teoria é, contudo, espetacular. Ela não deixa de intrigar seus contemporâneos. Um leitor, escrevendo-lhe após seu artigo sobre L'entente économique, se espanta: "Acabo de ler seu artigo, publicado na NRF de maio. E, me pergunto se é você o autor de L'Allemand, quem o escreveu".63 A este propósito, Alfred Fabre-Luce, crítico e escritor (ao qual, retornaremos), disse, em uma homenagem a Rivière: "Em pouco tempo, Rivière se viu censurado pelos alemães, por conta da antiguidade de seus preconceitos; pelos franceses, pela novidade de suas idéias conciliadoras".64

Gide: a continuação do diálogo

A reação de Gide aos artigos políticos de Rivière é entusiástica. A propósito dos "perigos de uma política conseqüente", Gide escreveu a Rivière:

No fundo, não lhe escrevi para lhe contar do prazer, do contentamento, do encantamento que tive, ao reler seu artigo. Meu velho, ele é excelente - excelente. E quanto me apraz a linha sutil, exata e torsa da frase! Eu gostaria de lhe fazer alguma crítica, para reafirmar meu elogio - mas não encontro nenhuma. Excellentíssima, murmura Madame Théo, perto de mim.65

Em Gide, também, a desmobilização se deu muito rapidamente, mas de uma outra maneira. Ao fim da guerra, depois de um breve momento de remobilização, no qual se diz a favor da punição da Alemanha, Gide se afasta da visão essencialista das duas identidades nacionais, a francesa e a alemã.

Os partidos nacionais, de um e do outro lado da fronteira, exageram na porfia das diferenças de temperamento e de espírito que, segundo eles, tornariam impossível qualquer acordo entre franceses e alemães. Estas diferenças, é certo, existem (...). Acredito, no entanto, que elas são menos essenciais e nativas, que exaltados com cobiça pela educação familiar, pelo ensino nas escolas, depois, pela imprensa. (...) No terreno da cultura, tanto no das ciências, quanto no das letras e das artes, os defeitos e as qualidades de uma parte e da outra são a tal ponto complementares, que não se poderia tirar mais proveito deles em um acordo, que prejuízo, em um conflito.
Eu não posso esquecer, ai!, que o problema atual não concerne simplesmente às relações diretas entre indivíduos. Um escritor não tem, certamente, compet ência para estabelecer as condições precisas de um acordo político entre Estados, mas ele tem o direito e o dever de afirmar o quanto este acordo lhe parece desejável; digamos mais: indispensável, na situação atual da Europa. Não há, atualmente, um erro mais funesto para os povos e para os indivíduos, que crer que se possa passar uns sem os outros. Tudo o que se oponha aos interesses da França e da Alemanha é nefasto para os dois países, simultaneamente; benéfico é tudo aquilo que leva à satisfação dos interesses mais solidários.66

Esta rápida desmobilização se explica, no caso de Gide, pelo fato de que seu antagonismo anti-alemão, durante a guerra, foi, em parte, superficial; e, de outra, incoerente. Para um homem que deu sua aprovação à guerra, sob a perspectiva da ameaça existencial, a suspensão da ameaça leva, naturalmente, ao caminho de volta aos princípios da paz. Mas, publicamente, ele permanece reticente quanto a expressar posições muito conciliadoras frente à Alemanha, e trata desse tema com muita prudência. Em 1921, sente, por exemplo, que os alemães não têm tato, e decide não responder a um convite para ir à Alemanha, feito por Franz Blei, seu tradutor alemão, com quem manteve "relações literárias muito boas, antes da guerra". Esta foi a primeira carta do outro lado do Reno que ele recebeu, depois da guerra; e a qual ele cita em seu diário:

Porque você não vem à Munique? - me perguntou ele. Você será recebido com braços abertos; e experimentaria, seguramente, ao deixar a França por um instante, o mesmo alívio que nós, alemães, experimentamos quando, na Suíça, por exemplo, escapamos à terrível opressão que pesa sobre nossa pátria.... O que responder a isto?, [acrescenta Gide]. Nada, não é? Eu não respondi.67

Estas hesitações terão fim em novembro de 1921, em um breve artigo, intitulado Les rapports intellectuels entre la France et l'Alemagne. Ele denuncia "este isolamento no qual se pretende, às vezes, manter a Alemanha, que poderia, ao fim das contas, se virar contra nós".68 Seus encontros com Walter Rathenau e Ernst Robert Curtis, em 1921, o convenceram da importância desta retomada de relações; com Curtis, Gide manterá uma amizade que durará mais de trinta anos.69 No caso de Gide, pode-se constatar que um ódio menor, em tempos de guerra, permite uma desmobilização rápida.

Schlumberger: o retorno de 1923

O intercâmbio cultural e universitário foi o carro chefe do novo projeto. Foram concedidas bolsas de estudo e auxílios de viagem para estudantes e profissionais hispanomericanos que desejavam ir para a Espanha. Houve custeio de missões culturais espanholas na América e estimulo à vinda de conferencistas daqueles países. Muitos Congressos foram organizados com o mesmo fim de aproximação com os hispanoamericanos.

A desmobilização de Schlumberger foi mais lenta e mais dolorosa que a de Rivière e Gide. Enquanto Rivière é posto fora de combate, no início da guerra, havendo retomado a vida civil, desde 1917; enquanto Gide está muito longe da guerra, na retaguarda; Schlumberger não estar á desmobilizado (militarmente) antes de fevereiro de 1919. Neste momento, ele não considera a guerra terminada.70 Assim que reaparece La NRF, ele se insurge contra a orientação que Rivière declara querer lhe dar. Em seu artigo-programa, publicado no início do primeiro número da revista, no pós-guerra, Rivière denuncia os males da guerra, notadamente sua violência moral sobre os espíritos, e conclama o retorno aos princípios da revista do pré-guerra: uma literatura "pura", contra todas as formas de literatura "mobilizada".71 Em resposta, Schlumberger contesta: "a guerra terminou, eu gostaria de acreditar nisso, pois me vejo desmobilizado; mas, ela nos deixou à face de perigos tais que, tão mal armados, tanto dentro quanto fora, apreciamos a felicidade da trégua, sem ousarmos nos deixar levar à despreocupação da paz".72 Esta ameaça do recomeço imediato da guerra deve, segundo ele, ditar uma postura de resguardo:

Para chegarmos a nos pôr totalmente a serviço do país, tivemos que sacrificar tanto os gostos, as preferências, os hábitos intelectuais, no esforço de sermos tão rudes que, se for necessário, em breve, recomeçar, se exigirá de nós que não percamos nosso treinamento. Em nossa idade, não somos tão flexíveis para combater e se recuperar inúmeras vezes. Durante cinco anos, nós não raciocinamos, julgamos e esperamos senão em função da França. Às vezes, nos convinha odiar, lá onde poderíamos, talvez, experimentar naturalmente a simpatia; nos convinha atar amizades às quais nosso instinto, talvez, não nos levaria. Uma vez que nos concedemos algum descanso, corrigimos aquilo que a necessidade nos impôs de muito contrário à disposição natural de nosso espírito; mas, não iremos, ao modo dos políticos, mudar de alianças, como de camisa. Nossa atitude, durante a guerra, não tem nada em comum com um gesto político; não estamos mais prontos para nos dar; não é a mesma coisa.73

Quatro anos se passaram, durante os quais Schlumberger conseguiu, não sem dano, retomar seu trabalho de escritor, e reencontrar sua rotina. Sua reviravolta ideológica aparece no momento da crise do Ruhr. Em 19 de fevereiro de 1923, ele escreveu a Gide:

É inadmissível que se pretenda nos fazer marchar por uma guerra econômica, por um apelo à dedicação que nós estávamos prontos a ter, no momento da invasão. Nossas crenças não eram nada sacras; com um pouco mais de coragem fiscal, nos abster; em todo caso, não é (ao menos por agora), uma luta de vida e morte, mas uma guerra de oportunidade, à qual nós nos recusamos, se ela não é vantajosa. No entanto, todo mundo concorda que nossas finanças sucumbiram; mas se espera dar à Alemanha um golpe ainda mais grave. É a velha política de aniquilamento.74

Em sua resposta, Gide se alegra com a reviravolta de seu amigo:

Sua carta me deu a alegria, totalmente amistosa, de ter tais pensamentos, que são igualmente meus, expressos claramente, fortemente, eloqüentemente. E isso me deixa ainda mais sensível por não termos pensado sempre assim; durante a guerra, ou, ao menos, no momento de ressurgimento da revista.75

A virada de Schlumberger aparece no seu artigo Le sommeil de l'esprit critique,76 publicado em março de 1923, no qual culpa a opinião pública francesa de haver deixado o campo livre para o governo do Bloco Nacional, abdicando-se de todo espírito crítico. O artigo clama a uma nova política, que permitiria uma reconciliação com a Alemanha. Para compreender o esforço interior, que exigiu sua mudança de atitude, basta ler o extrato abaixo, retirado de suas memórias:

Não é que eu não domine, em mim mesmo, as mais vivas repugnâncias sentimentais. Nossas catedrais bombardeadas, nossas vilas destruídas (...): estas imagens tornam-me dificilmente tolerável a idéia de uma Alemanha inviolada, duramente golpeada, mas que não traz, em sua carne, as cicatrizes de algumas réplicas a seus insultos. Apesar disto, é evidente que, na realidade, que a aspereza de nossa política (...) expressaria (...) a velha xenofobia, na qual a opinião francesa se reinstalou com satisfação (...). A parvoíce deste chauvinismo me faz tomar, rapidamente, consciência de minhas afinidades com a cultura germânica, e com tudo aquilo que lhes devo, sem falar das amizades pessoais que não irão tardar a se reatarem.77

Alsaciano, conhecendo perfeitamente a língua alemã, em 1923, no novo contexto de agressão francesa contra a Alemanha, Schlumberger consegue retomar suas raízes germânicas. A desmobilização de Schlumberger, em torno de 1923 e 1924, parece se inscrever numa atitude ideol ógica nova, ainda que ela não atinja forçosamente toda a opinião pública francesa. Compreende-se melhor que esta evolução tenha dado lugar à publicação, na La NRF de abril de 1924, à conclusão do livro de Alfred Fabre-Luce, La Victoire.78 É Jean Schlumberger quem redige a crítica do livro, na La NRF de setembro de 1924: "Livro cruel, que não se lê sem rubor nem humilhação, mas um livro salutar, pois nos arranca do pesadelo de ilusões, onde nos sentimos agitados, fazendo-nos repor os pés em terra firme".

Esse livro provocou um escândalo, pois, ao analisar as causas da Primeira Guerra Mundial, ele desmente a tese oficial, consagrada pelo Tratado de Versalhes, acerca da responsabilidade "exclusiva" da Alemanha, na explosão do conflito. Graças à sua leitura, Schlumberger reconhece, agora, a ilusão na qual acreditou, de boa fé: a da "perfeita justiça de nossa causa". Mas, esse reconhecimento, explica Schlumberger, não poderia ter ocorrido mais cedo:

Há somente um ano, o livro de Alfred Fabre-Luce se chocou contra muitas ilusões, para alcançar o brilho que dele esperamos. Ele veio a seu tempo, nesse momento em que a França começa a se enjoar das carnes escarificadas, com as quais engordou seu amor-próprio. (...) Se já não há mais tempo para a França pronunciar as grandes palavras de pacificação, que delas esperamos, logo após a guerra, as quais criariam uma situação única entre as nações, ainda não é tão tarde para se tomar a iniciativa de um movimento sincero de colaboração européia. 79

O engajamento de Schlumberger em uma perspectiva de reconciliação franco-alemã é, doravante, tão apaixonado, que ele parece levá-lo com o mesmo zelo que teve, ao sair da guerra, pelo objetivo contrário. De sorte que, em julho de 1925, Jean Palhan, o sucessor de Rivière na La NRF, recusa um artigo de Pierre Viénot,80 cuja publicação Schlumberger apoiava; uma recusa que Pullan justifica pela medíocre qualidade literária do texto. Mas, ele reconhece que sua prudência o aceita em razão da inclinação "pró-alemã" do ensaio:

Ignore, pois, as ameaças que nos fizeram, mesmo da parte de nossos assinantes mais fiéis, o artigo de Jacques [Rivière] sobre as relações francoalemãs, a campanha da Mauclair, nos acusam, em dez jornais provinciais, de tocar no dinheiro alemão? Quantas suspensões de assinaturas nos chegam, quantos amigos de província, que se ocupavam, neste momento, a organizar as conferências da La NRF, nos escreveram que não podem mais se interessar por nós? 81

E, termina esta carta com uma nota ligeiramente irônica:

Eu pergunto uma coisa: não seria você um novo converso, um neófito desse tipo de internacionalismo que representa, por exemplo,o príncipe Rohan? Você não teria voltado da guerra com um pendor totalmente diferente? Perdoe minha indiscrição. Mas, enfim, eu procuro me esclarecer, e não posso me esclarecer quanto à sua indiferença, sobre esse único ponto, pela qualidade. 82

La NRF dos anos 20 é conhecida por ser um dos escalões de uma política cultural com pretensões européias. Seus autores mais importantes participam, nas primeiras décadas do pós-guerra, do Pontigny, um "pequeno núcleo da futura Europa", segundo a expressão de seu animador, Paul Desjardins;83 como, também, do círculo do castelo de Colpach, em Luxemburgo, propriedade de Aline e Emile Mayrisch, que constituiu uma rede intelectual e industrial européia.84 As relações franco-alemãs estão no centro desta nova consciência européia. Depois da "guerra fria" de 1919-1924,85 eles buscam o mais belo na segunda metade dos anos de 1920; e é apenas em torno de 1933, que o que o sonho de uma "Europa do espírito" se parte novamente. 86

Em novembro de 1933, Albert Thibaudet, crítico literário de La Nouvelle Revue Française, propõe um balanço dos últimos vinte anos, os resumindo assim:

Os historiadores das idéias reconhecerão que, durante os quinze anos que se passaram, a partir do pós-guerra, a doutrina canônica, geradora de lugares comuns sobre o destino da civilização européia, se transformou três vezes, e que duas idéias já se tornaram ultrapassadas. Chamam-se a idéia de hegemonia européia, e a idéia de cooperação. A primeira durou até em torno de 1924. Durante a guerra, a propaganda, o mito, fizeram, do grande conflito, o conflito entre duas formas de civilização, entre duas direções do espírito, entre dois princípios contrários. (...) Quando o sistema da hegemonia, permanecendo alhures bastante teórico, teve fim (digamos em 11 de maio de 1924), seguiu-lhe a parte, ou o partido, da cooperação. A idéia de cooperação foi a conseqüência, e foi o mito, do período político no qual se tentou organizar a paz. Ela se liga ao espírito de Genebra. (...) A reintegração de valores alemães fazia par com a reintegração política da Alemanha, nos acordos da Europa e nas Assembléias de Genebra. O mito da cooperação reinou cerca de dez anos. A grosso, a bem grosso modo, pode-se dizer que as eleições hitlerianas, de 1933, marcariam seu fim, como as eleições cartelistas87 francesas, de 1924, marcaram, para nós, o fim daquela primeira idéia.88

Meu estudo parece confirmar a cronologia proposta por Thibadet: a desmobilização tomou seu caminho, na França, em torno de 1923-1924. O novo revés, de 1933, que se seguiu à tomada do poder por Hitler, na Alemanha, não fará que se esqueçam os dez anos precedentes, durante os quais uma reconciliação com o inimigo, via uma desmobilização da guerra, tomou lugar; como se vem a constatar entre a elite intelectual da França, na qual La NRF constitui o componente majoritário.

O ódio ao inimigo aparece, durante o percurso que tracei aqui, como um sentimento bem real, interiorizado pelos indivíduos que viveram a guerra como uma experiência brutal, na qual a experiência identitária determinou o olhar sobre o outro. Contudo, sendo um produto histórico, o ódio ao inimigo não é eterno; estes mesmos exemplos ilustram que, através da culpa, do distanciamento, e da revisão do exame crítico, este ódio é superável, e pode se tornar, ainda, o ponto de partida para um novo engajamento cívico.

Notas

Revista Varia História