quarta-feira, 28 de abril de 2010

Martin Luther King: A agonia de um rei em depressão


Martin Luther King: A agonia de um rei em depressão
Um dos maiores heróis americanos, Martin Luther King enfrentou a injustiça de uma nação. Mas, por trás do poderoso líder, havia um homem infiel e deprimido, que vivia à sombra do suicídio
por Adriana Maximiliano
Quando foi avisado de que tinha ganhado o prêmio Nobel da Paz, em 14 de outubro de 1964, Martin Luther King Jr. estava sob o efeito de tranqüilizantes, sozinho num quarto de hospital em Atlanta. Sua mulher, Coretta Scott King, ligara para dar a notícia. Logo depois, o quarto foi inva­dido por fotógrafos. Os jornais do dia se­­­­­guin­te diriam que King tinha sido inter­nado três dias antes, sofrendo de febre e exaustão. Uma meia verdade. Aos 35 anos, ele estava lá por causa de um problema que o acompanhava desde criança: a depressão.

A imagem de King que se eternizou é a do pastor, líder político e pacifista que lutou pela igualdade entre negros e brancos nos Estados Unidos. Um homem corajoso e otimista. Mas ele também era frágil e vulnerável. “Durante entrevistas que fiz com amigos de Martin Luther King, seu comportamento deprimido foi citado inúmeras vezes. Ele chegou a questionar em alguns momentos se sua vida valia a pena. Mas essas histórias de desespero não ganharam os jornais na época porque a imprensa não costumava noticiar dramas desse tipo como faz hoje”, diz o escritor americano Taylor Branch, que passou um quarto de século estudando a vida de King e, no ano passado, lançou At Canaan’s Edge (“À beira de Canaã”, inédito no Brasil), o último volume de uma trilogia sobre o líder.

Entre 1965 e 1968, nos anos finais de sua vida, King estava numa encruzilhada. Depois da vitória contra as leis racistas dos Estados Unidos, o líder se envolveu com causas como a luta contra a Guerra do Vietnã. Ao fazer isso, perdeu o apoio de vários aliados, fossem eles negros ou brancos. Enquanto isso, seus constantes casos extraconjugais eram usados pelo FBI (a polícia federal americana) para desestabilizar seu casamento e aprofundar sua depressão. O objetivo era tirar King da vida pública – ou mesmo fazê-lo dar cabo da própria vida. Em meados dos anos 60, o homem que enfrentara todo o racismo de uma nação estava encurralado, ameaçando sucumbir ao próprio sofrimento.

No caminho, uma Rosa

Nascido em 15 de janeiro de 1929, em Atlanta, no estado da Geórgia, King vivia com os pais, os irmãos e a avó materna, Jennie Williams. Quando o menino tinha 5 anos, ela sofreu um desmaio em casa. King não suportou a idéia de que Jennie pudesse ter morrido. Subiu as escadas correndo e se jogou por uma janela do segundo andar. Sua mãe, Alberta, o encontrou no quintal, estatelado no chão – o pequeno King só abriu os olhos depois que disseram que Jennie estava bem. A cena se repetiria sete anos depois, em maio de 1941. Ao saber que sua avó tinha sofrido um ataque cardíaco, voltou correndo para casa e encontrou a família chorando. King se jogou pela mesma janela, sobrevivendo de novo. Mas, dessa vez, a avó estava morta. O menino passou diversas noites em claro, chorando sem parar.

O lado depressivo do garoto contrastava com as boas condições de sua família. Martin Luther King pai, pastor da Igreja Batista, era o negro mais bem pago de Atlanta. Nascido Michael, ele trocara o nome para Martin Luther em 1935, homenageando o fundador do protestantismo. A mudança se estendeu ao filho, que acabaria herdando também a vocação religiosa. Aos 19 anos, Martin Luther King Jr. se formou em Sociologia no Morehouse College, a melhor escola para negros de Atlanta. Em 1954, depois de se doutorar em Teologia pela Universidade de Boston, King se tornou pastor batista em Montgomery, no Alabama.

Nos anos 50, King já estava envolvido na luta pelos direitos dos negros: era do comitê executivo da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês). Nos estados americanos do Sul, como o Alabama, os negros eram cidadãos de segunda classe. Não podiam votar, eram proibidos de entrar em certos clubes, lojas e igrejas e, no transporte público, tinham que dar preferência aos brancos.

Em 1º de dezembro de 1955, toda essa discriminação foi posta em xeque por uma inofensiva costureira negra de 42 anos. Cansada e com dores nos pés depois de um dia de trabalho, Rosa ­Par­ks se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um homem branco. Foi presa. Ao saber da notícia, King e outros líderes da NAACP transformaram o caso de Rosa no estopim da luta contra a desigualdade racial que ficaria conhecida como o Movimento pelos Direitos Civis. No dia seguinte, os negros de Montgomery iniciaram um boicote aos ônibus, sob a liderança do quase desconhecido pastor de 26 anos. Foram necessários 382 dias até que, em 21 de dezembro de 1956, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarasse inconstitucional a segregação racial nos transportes públicos do país.

Durante o boicote em Montgomery, viajando cerca de 25 dias por mês, King se tornara respeitado em todo o Sul dos Estados Unidos. Em contrapartida, tinha sido preso, criticado por membros de sua igreja e acordado inúmeras vezes de madrugada por telefonemas com ameaças. Diante disso, King não escondia a importância do apoio da esposa. Ele e a musicista Coretta haviam se conhecido em Boston, em 1952. O casamento rendeu quatro filhos ao casal, mas não era um modelo a ser seguido. Desde o primeiro momento, o pastor foi infiel. Quando estava longe de casa, King se encontrava com várias amantes.

Um sonho de liberdade

Apesar do fim da segregação no transporte público, o racismo continuava em várias instituições dos Estados Unidos. Após o boicote de Montgomery, Martin Luther King continuou trabalhando por reformas. Seguidor declarado de Mahatma Gandhi, ele promovia manifestações pacíficas como boicotes, greves e passeatas, pontuadas por seus poderosos discursos. Em 1957, ele ajudou a fundar a Conferência da Liderança Cristã Sulista (SCLC, na sigla em inglês), instituição que presidiu até a morte.

Diversas organizações iam surgindo para engrossar o Movimento pelos Direitos Civis. O problema é que elas muitas vezes acabavam entrando em conflito entre si. Uma das principais polêmicas era a doutrina de não-violência de King. No início dos anos 60, ela ainda soava bem, mas já não convencia os que estavam cansados de apanhar da polícia. O líder muçulmano Malcolm X, por exemplo, não hesitava em dizer que os negros deviam responder com violência à brutalidade das autoridades. King, entretanto, tinha boas razões para preferir o pacifismo: ele fazia com que a violência vista no noticiário fosse protagonizada pela polícia. Assim, o público americano tendia a simpatizar cada vez mais com a causa da SCLC – e a doar dinheiro para a instituição.

Em abril de 1963, King lançou uma campanha para acabar com a segregação nos banheiros e lanchonetes de Birmingham, no Alabama, então considerado o mais racista dos municípios americanos. Durante uma passeata na cidade, o pastor acabou preso. A cadeia não era novidade para King – ao todo, foram mais de 20 prisões –, mas, daquela vez, o presidente John Kennedy interveio diretamente por sua libertação. O prestígio do pastor estava no auge. Em 28 de agosto, King liderou a Marcha sobre Washington, que reuniu mais de 200 mil pessoas na capital americana. Diante delas, disse estar feliz por fazer parte da “maior manifestação pela liberdade” da história dos Estados Unidos. Essas palavras foram o início de um dos mais pungentes discursos de todos os tempos, que ficaria conhecido como “Eu tenho um sonho”. Por 16 minutos, King hipnotizou a multidão enquanto dizia sonhar com o fim da discriminação racial, evocando desde a Bíblia até a Declaração de Independência americana. Foi ovacionado.

A eloqüência de King chamou a atenção de todo o país. Inclusive a do FBI. Em um documento secreto escrito após a Marcha, ele foi apontado pelo órgão como “um potencial messias, capaz de unificar e eletrificar o movimento nacionalista negro”. O relatório citava uma prova inequívoca do carisma de King: sua nomeação, pela revista Time, como o Homem do Ano de 1963 – honraria inédita para um negro. A conclusão do documento não deixava dúvidas: era preciso acabar de uma vez com a influência do pastor.

Vitória e angústia

O assassinato do presidente John Kennedy, em 22 de novembro de 1963, fez King ter um mau pressentimento sobre a morte. “É o que também vai acontecer comigo. Esta sociedade está doen­te”, disse ele a um amigo logo após o atentado, de acordo com Taylor Branch. Sem dúvida, King era um alvo potencial da ira alheia. Afinal, ele não era só um líder pacifista negro. Era o maior ativista de esquerda dos Estados Unidos.

Durante todo o ano de 1964, o excesso de trabalho, as ame­a­ças anônimas e as intrigas en­tre as organizações negras fizeram King sair de cena. Segundo Branch, o líder se tornou assíduo freqüentador do hospital St. Joseph – onde, inclusive, receberia a notícia do Nobel. “Ele pediu para ser internado lá pelo menos uma dezena de vezes, porque só assim podia ficar sozinho e descansar à base de pílulas para dormir”, afirma. Mas, em 2 de julho, King interrompeu o isolamento para viver outro mo­mento de glória em Washington: a cerimônia em que o presidente Lyndon Johnson assinou a Lei dos Direitos Civis, que tornou inconstitucional toda a legisl­a­­­ção segregacionista dos Estados Unidos.

A euforia pela conquista histórica não significou o fim do Movimento pelos Direitos Civis. Faltava ainda garantir que os negros do Sul pudessem votar sem restrições. Isso motivou King a promover mais uma grande marcha, partindo da cidade de Selma em direção a Montgomery, em março de 1965. A polícia tentou parar os manifestantes, que resistiram sem violência até conseguir che­gar ao destino final. Cinco meses depois, a Lei do Direito ao Voto foi aprova­da pelo Con­­gresso, a­ca­­­­­­­­­bando com os en­­traves legais para os negros nas eleições.

Dez anos depois do início do boicote aos ônibus, o Movimento pelos Direitos Civis havia conseguido, ao menos em termos de legislação, igualar negros e brancos nos Estados Unidos. A vitória poderia ter garantido a King dias de felicidade. Mas sua vida privada estava em frangalhos. No início de 1965, quando ele ainda estava preparando a marcha de Selma, Coretta tinha recebido um pacote com uma fita e uma carta anônima. As gravações traziam conversas de King com amigos e mulheres, em que a infidelidade do pastor ficava clara – Coretta estava acostumada a denúncias e amea­ças, mas jamais tinha recebido uma fi­ta comprometedora com a voz do marido. Já o texto da carta que acompanhava a gravação dizia que King era “uma vergonha para todos nós negros”. No fim, o autor sugeria que ele cometesse o suicídio: “Você se acabou. King, só resta uma coisa a ser feita. Você sabe o que é. Só existe uma saída. É melhor você pegá-la antes que seu lado nojento, anormal e fraudulento seja revelado para a nação”.

A carta e a gravação não tinham sido obra de um membro do movimento negro. Elas eram um golpe baixo da campanha do FBI contra King. Diálogos sobre adultério haviam sido obtidos com gravadores colocados na casa e no escritório de King, além de grampos em telefones de quartos de hotel. Os agentes federais sabiam que, por causa da depressão crônica, King seria capaz de se matar num momento de crise. A fita era uma tentativa de fazer com que isso acontecesse – essa tenebrosa estratégia foi posteriormente admitida por William C. Sullivan, ex-diretor-assistente do FBI, num depoimento dado ao Senado americano em 1975.

A explosiva fita acabou chegando às mãos de políticos, religiosos e jornalistas. A idéia de suicídio não foi levada adiante, mas a depressão do líder se agravou. “King reclamou que suas pílulas para dormir não estavam fazendo mais efeito”, escreveu Taylor Branch em At Canaan’s Edge. Em público, se limitou a fazer um mea-culpa nas entrelinhas de seus sermões na igreja, dizendo coisas como: “Eu nunca me coloquei como um grande modelo, mas tenho que fazer o melhor possível para redimir a mim mesmo e a América.”

Memória americana

Depois da aprovação da Lei do Direito ao Voto, a vida política de King precisava de uma nova causa. Ainda em 1965, ele decidiu usar o Movimento pelos Direitos Civis para se opor à Guerra do Vietnã, em que os Estados Unidos haviam acabado de entrar. King foi atacado por todos os lados, incluindo amigos e inimigos. Ninguém queria que ele se metesse com o conflito – que ainda não tinha se torna­do um evidente beco sem saída. King mu­­dou o discurso e apostou na chamada Campanha dos Pobres.

A luta contra a pobreza nem de longe contava com a simpatia que King arrebanhara para a questão racial. Ativistas próximos do líder achavam que o melhor seria se preocupar em fortalecer as conquistas dos negros no Sul do país. A falta de resultados em suas novas lutas aumentou o desalento de King. Duas semanas depois de completar 39 anos, pressionado por Coretta, ele finalmente resolveu admitir um de seus casos extraconjugais. Ainda assim, a esposa foi capaz de seguir ao lado dele.

Em 4 de abril de 1968, King estava em Memphis, no Tennessee, para apoiar uma greve de lixeiros. Sua liderança estava desgastada, assim como sua capacidade de sonhar com um país mais justo. A desilusão dava o tom do sermão que ele começou a escrever naquela tarde, intitulado “Por que a América deve ir para o inferno”. O texto ficou inacabado. Às 18h01, enquanto conversava com amigos na sacada do Lorraine Motel, King levou um tiro no pescoço. Hospitalizado, morreu por volta das 19h. Cinco dias depois, o pastor foi enterrado em Atlanta, num funeral acompanhado por 300 mil pessoas. O suposto assassino foi capturado, mas o crime nunca foi esclarecido (veja quadro acima).

Após sua morte, Martin Luther King Jr. virou nome de ruas, escolas e bibliotecas e ganhou um feriado nacional nos Estados Unidos (a terceira segunda-feira do mês de janeiro). Em 2008, deverá ser inaugurado seu memorial no National Mall – a esplanada em Washington, próxima à Casa Branca, onde foi feito o discurso “Eu tenho um sonho”. Além do líder negro, apenas os ex-presidentes Thomas Jefferson e Abraham Lincoln conquistaram honraria semelhante.

O King eternizado no panteão dos heróis americanos, entretanto, não é o mesmo que foi morto em Memphis. Em tempos de invasão do Iraque, a história do King que protestou contra a guerra e a pobreza tem sido deixada de lado. O historiador americano David J. Garrow, autor de um premiado livro sobre o pastor – Bearing the Cross (“Carregando a cruz”, inédito no Brasil) –, não estranha esse esquecimento. “Os Estados Unidos preferiram a imagem romantizada de um homem doce e otimista. Principalmente porque o King dos anos finais ainda seria um estorvo até hoje, no governo de George W. Bush.



Os quase aliados
Quatro líderes e suas relações controversas com King
Ralph Abernathy

Amigo e braço direito de King, o reverendo sabia falar com os negros humildes – o pastor se dava melhor com os intelectuais. Mas Abernathy não era tão leal: quando King ganhou o Nobel, ele achou que merecia metade do dinheiro. Acabou faturando bastante ao lançar uma autobiografia cheia de fofocas sobre a vida sexual de King. Morreu em 1990.

John Kennedy

Graças ao apoio de King, o democrata conquistou os votos da comunidade negra e foi eleito presidente dos Estados Unidos em 1960, derrotando o rival Richard Nixon por uma diferença de menos de 1%. Em agradecimento, Kennedy apoiou o Movimento pelos Direitos Civis. Antes de ser assassinado, em 1963, teria convencido King a não fazer um discurso muito crítico ao governo na marcha de Washington.

Malcolm X

O objetivo de ambos era o mesmo: combater a discriminação. Mas, enquanto King optava pelo pacifismo, Malcom X defendia que os negros reagissem com violência. Essas diferenças impediam acordos entre os dois, que só se encontraram uma vez, em 1964. No ano seguinte, Malcolm X foi morto a tiros (King morreria da mesma forma, com a mesma idade: 39 anos).

Lyndon Johnson

Vice de Kennedy, assumiu a presidência em 1963 e a manteve nas eleições de 1964. Johnson negociou com King a elaboração das leis dos Direitos Civis e do Direito ao Voto, aprovadas em seu governo. Mas, quando o ativista se pronunciou contra a Guerra do Vietnã, o presidente parou de colaborar com ele – e chegou a chamá-lo de “pastor hipócrita”. Johnson deixou o cargo em 1969 e morreu em 1973


Saiba mais
Livros

At Canaan’s Edge: America in the King Years, 1965-68, Taylor Branch, Simon & Schuster, 2006

Terceiro e último livro da trilogia sobre King (os dois primeiros volumes são Parting the Waters e Pillar of Fire).

Stride Toward Freedom: The Montgomery Story, Martin Luther King Jr., Harpercollins, 1987

Um dos cinco livros de King, foi escrito quando ele tinha 29 anos. Aborda o boicote aos ônibus de Montgomery.

Site

www.stanford.edu/group/King

A Universidade de Stanford disponibiliza sermões, discursos e outros documentos relacionados a King (em inglês).


Crime ou conspiração?
O suposto assassino de King morreu dizendo que era inocente
Dias depois do assassinato de Martin Luther King, o traficante americano James Earl Ray foi apontado pelo FBI como principal suspeito. Capturado em junho de 1968, em Londres, Ray confessou o assassinato de King em 10 de março de 1969. Três dias depois, voltou atrás. Mas já era tarde. Foi condenado a 99 anos de prisão e passou a vida tentando provar sua inocência. Aparentemente, Ray foi orientado a confessar o crime por seu advogado, Percy Foreman, numa estratégia para evitar um julgamento (e o risco de pegar pena de morte). Quando se arrependeu da confissão, Ray disse que era apenas uma peça sem importância numa enorme conspiração – a família de King ficou convencida de sua inocência. Ray morreu em 1998, aos 70 anos, sem saber dizer quem seriam os verdadeiros culpados. Nas últimas décadas, mais de dez livros com teorias sobre o assassinato foram lançados nos Estados Unidos. Há quem acredite que não apenas o FBI, mas também a CIA (a agência de inteligência americana), a polícia de Memphis e até o presidente Lyndon Johnson estavam envolvidos numa conspiração para matar King.

Revista Aventuras na História

ARISTÓTELES: a melhor forma de governo


ARISTÓTELES: a melhor forma de governo

Itamar de Souza
Mestre em Sociologia pela USP, Bacharel em Filosofia e Professor de Filosofia Política da FARN.

Resumo
Este artigo analisa a melhor forma de governo, segundo a opinião de Aristóteles, e procura mostrar a sua atualidade para a estabilidade política contemporânea.
Palavras-chave: Aristóteles; formas de governo; classe média; estabilidade política.

1 INTRODUÇÃO
É escusado dizer que a Grécia Antiga foi o berço da Filosofia Ocidental. A reflexão filosófica desenvolvida entre os séculos VII a.C. até o VI d.C. foi admiravelmente rica, abrangente e pioneira. No que diz respeito à filosofia política, os primeiros passos foram dados pelos sofistas, especialmente Protágoras de Abdera, Górgias, Hípias e Trasimaco. Sem dúvida, o ponto mais alto desta reflexão foi alcançado por Platão e Aristóteles, cujas obras políticas continuam sendo lidas, relidas e reeditadas nos dias atuais.
É interessante observar que, desde a Grécia Antiga, a busca da melhor forma de governo tem sido uma preocupação ininterrupta dos filósofos até os dias atuais. É este aspecto do pensamento aristotélico - a melhor forma de governo - que nos interessa expor neste artigo. Veremos, no final, que este aspecto do seu pensamento continua atual para os nossos dias.
Fiel à sua vocação de pesquisador, Aristóteles estudou as Constituições das Cidades-Estado da Grécia e de outros países. Chegou a reunir 158 constituições.
E lamentável que todas se perderam, com exceção da de Atenas, que foi redescoberta em 1891. Ao contrário de Platão, cujo pensamento político era predominantemente dedutivo - daí as suas utopias políticas - Aristóteles desenvolveu o seu pensamento político de maneira realista, observando, analisando e avaliando o funcionamento prático das diversas formas de governo de seu tempo.

2 DADOS BIOGRÁFICOS
Aristóteles era Jônio, nascido na colônia de Estagira, em 384 a.C, Por isso, na literatura filosófica, ele é cognominado "o estagirita". Nasceu em família rica. Seu pai - Nicômaco - foi médico do rei Amintas II, da Macedônia. Sua mãe chamava-se Féstis, Do seu pai herdou o gosto pela anatomia e pelas Ciências Naturais.
Aristóteles casou duas vezes, sendo a primeira com Pítias e, a segunda, com Herpilis. Do primeiro casamento, nasceu a filha Pítias e, do segundo, nasceu o filho Nicômaco, a quem ele dedicou a obra Ética a Nicômaco. Observa Boutroux, um dos seus biógrafos, que:

no seu testamento, ele fala em termos afetuosos da primeira e
da segunda esposas, dos dois irmãos e dos filhos, e testemunha
solicitude para com os amigos e para com os parentes
afastados (BOUTROUX. 2000, p.35).

Aos 17 anos, Aristóteles perdeu os pais e resolveu, então, ir morar em Atenas, onde dedicou-se aos estudos. Foi discípulo de Platão, na Academia, durante vinte anos. Após a morte do referido mestre, ele realizou diversas viagens.
Outro momento importante na sua vida foi quando ele exerceu a função de preceptor de Alexandre Magno, durante sete anos.
Em 335, com a ajuda financeira de Alexandre Magno, então rei da Macedônia, Aristóteles instalou, em Atenas, o seu Liceu. Permaneceu aí ensinando os seus discípulos ao longo de treze anos (CAUQUELIN, 1995, p. 16).
A curiosidade intelectual de Aristóteles era sem limite. Leu e pesquisou em todas as direções, desde a metafísica ao movimento dos animais, sem esquecer a retórica e a poética.
Não sabemos, ao certo, quantas obras ele escreveu, pois muitas se perderam ao longo dos séculos.
Os biógrafos de Aristóteles costumam classificar as suas obras em duas categorias: as exotéricas, que eram destinadas ao grande público; e as esotéricas, constituídas por notas didáticas escritas para o uso de seus discípulos. Foram estas obras esotéricas que chegaram, em grande parte, até nós.

Aristóteles faleceu em Caleis, no ano de 322 a.C, contando 62 anos de idade.

3 A OBRA POLÍTICA DE ARISTÓTELES
Das obras escritas por Aristóteles, duas contêm a quase totalidade da sua filosofia política: P O L Í T I C A e É T I C A A NICÔMACO.
Em P O L Í T I C A , obra de riquíssimo conteúdo, encontramos suas teorias sobre a justiça e a liberdade, as diversas formas de governo, a divisão dos poderes e as funções do Estado, entre outros assuntos palpitantes.
Por sua vez, na É T I C A A N I C Ô M A C O , entre outros assuntos, encontramos o princípio da medianidade (LIVRO II), que o Estagirita aplica à política e à estética, assim como a sua teoria sobre a justiça (LIVRO V).
Além destas fontes principais, nos lembra HÕFFE, que 'Aristóteles redigiu dois diálogos políticos: sobre a Justiça e "Politikos", dos quais nos foram transmitidos somente alguns fragmentos" (HÕFFE, in RENAUT, 1999, t. I, p. 131).

O homem, animal social
No livro P O L Í T I C A Aristóteles inicia a sua reflexão filosófica, mostrando que a cidade é uma comunidade política, é "uma criação natural, e que o homem é por natureza um animal social..." (ARISTÓTELES, 1997, cap. 1, p. 15).
Todavia, por ser dotado de inteligência e vontade, o homem necessita de normas que regulamentem a sua conduta dentro da comunidade. Assinala Aristóteles que

efetivamente, o homem, quando perfeito, é o melhor dos animais, mas é também o pior de todos quando afastado da lei e da justiça, pois a injustiça é mais perniciosa quando armada, e o homem nasce dotado de armas para serem usadas pela inteligência e pelo talento, mas podem sê-lo em sentido inteiramente oposto. (...), a justiça é a base da sociedade; sua aplicação assegura a ordem na comunidade social, por ser o meio de determinar o que é justo (ARISTÓTELES, 1997, p, 16).

Após criticar vários aspectos da filosofia política de Platão, o Estagirita analisa diversas constituições de Cidades-Estado (ARISTÓTELES, 1973), visando e encontrar elementos para a melhor forma de governo.

4 As DIVERSAS FORMAS DE GOVERNO
Analisar as diversas formas de governo para, em seguida, escolher a melhor, foi um tipo de reflexão trivial na Grécia Antiga. Heródoto e Platão precederam Aristóteles nesta tarefa.
Considerando que a POLIS (isto é, a Cidade-Estado) existe para promover o bem-comum, Aristóteles analisou as diversas formas de governo existentes em sua época. Assim diz ele:

(...) as constituições cujo objetivo é o bem-comum são corretamente estruturadas, de conformidade com os princípios essenciais da justiça, enquanto as que visam apenas ao bem dos próprios governantes são todas defeituosas e constituem desvios das constituições corretas: de fato, elas passam a ser despóticas, enquanto a cidade deve ser uma comunidade de homens livres (ARISTÓTELES, 1997, p. 90).

O Estagirita identificou quatro espécies de democracia. Ele rejeita a quarta espécie por ser a mais radical. Nela, as massas é que são soberanas e não a lei.
Diz ele:

(...) isto ocorre quando os decretos da assembléia popular se sobrepõem às leis. Tal situação é provocada pelos demagogos (ARISTÓTELES, 1997, p. 132).

Nesta passagem, o filósofo refere-se tacitamente à maneira como funcionou a democracia em Atenas, do séc. VI ao V a.C. Não obstante reconhecer como válidos os princípios básicos - igualdade e liberdade - da forma democrática de governo, ele criticou os excessos da democracia ateniense, onde as massas, induzidas pelos demagogos, se sobrepuseram ao império da lei.
De acordo com esse critério - bem comum - o citado filósofo classifica como corretas, normais, a Monarquia, a Aristocracia e o Governo Constitucional.
Acrescenta o citado autor:
Os desvios das constituições mencionadas são a tirania, correspondendo à monarquia, a oligarquia, à aristocracia e a democracia, ao governo constitucional; de fato, tirania é a monarquia governando no interesse do monarca; a oligarquia é o governo no interesse dos ricos; a democracia é o governo no interesse dos pobres; e nenhuma destas formas governa para o bem de tocla a comunidade (ARISTÓTELES, 1997, R 91).

5 A MELHOR FORMA DE GOVERNO
Ao definir a melhor forma de governo, Aristóteles aplica à política o princípio da medianidade, que ele expôs no livro Ética a Nicômaco.
Na sua individualidade, o homem, ao agir, busca conquistar a felicidade. Ora, a função precípua de todo governo é proporcionar a realização da felicidade coletiva, que ele chama de bem comum. Este só se realiza na forma de governo que se baseia no princípio do meio-termo.
No livro II, da Ética a Nicômaco, o Estagirita expõe o princípio do meiotermo da seguinte forma:


Em tudo que é contínuo e divisível, pode-se tomar mais, menos ou uma quantidade igual, e isso quer em termos da própria coisa, quer relativamente a nós; e o igual é um meiotermo entre o excesso e a falta. Por meio-termo no objeto entendo aquilo que é eqüidistante de ambos os extremos, e que é um só e o mesmo para todos os homens; e por meiotermo relativamente a nós, o que não é nem demasiado nem demasiadamente pouco - e este não é um só e o mesmo para todos (ARISTÓTELES, 1973, p.272).

Diz o citado autor que "a virtude é uma mediana". Por conseguinte, tanto na vida individual quanto na vida coletiva, in médio virtus, a virtude está na moderação, no equilíbrio, que mantém as coisas eqüidistantes dos extremos, ora de excesso, ora de carência. Se os extremos são prejudiciais aos indivíduos, da mesma forma serão nocivos à sociedade.
Ao aplicar o princípio da medianidade à política, o Estagirita encontrou a melhor forma de governo naquela constituição que mistura elementos democráticos com elementos oligárquicos. Desta forma, são evitados os extremos de riqueza e os extremos de pobreza.

Diz o mencionado autor:

Existem em todas as cidades três classes de cidadãos: os muio ricos, os muito pobres, e em terceiro lugar os que ficam no meio destes extremos (ARISTÓTELES, 1997, p, 143),

Penetrando na psicologia dos excessivamente ricos e dos excessivamente pobres, Aristóteles inferiu que ambas as classes resistem aos ditames da razão. Os super-ricos são insolentes, desobedientes às leis e não querem ser governados por ninguém. Por sua vez, os super-pobres são excessivamente humildes, dóceis, flexíveis e facilmente se submetem ao governo.
6 A APOLOGIA DA CLASSE MÉDIA
Sobre isto, vejamos o que afirma o Estagirita:
Mas certamente o ideal para uma cidade é ser composta na medida do possível de pessoas iguais e identificadas entre si, e isto acontece principalmente na classe média; conseqüentemente, uma cidade composta de pessoas de classe média será fatalmente melhor constituída quanto aos elementos dos quais dizemos que as cidades são naturalmente feitas (ARISTÓTELES, 1997, p. 144).

Acrescenta o citado autor:
É igualmente claro que a comunidade política administrada pela classe média é a melhor, e que é possível governar bem as cidades nas quais a classe média é a mais numerosa, e de preferência mais forte que as duas outras classes juntas...(ARISTÓTELES, 1997, p. 144),

Por último, argumenta o filósofo:
Evidentemente a forma mediana de constituição é a melhor, pois somente ela é imune ao facciosismo, já que onde a classe média é numerosa é menos provável a formação de facções e partidos entre os cidadãos. (...), As democracias são também mais seguras e duradouras que as oligarquias devido à maior presença dos cidadãos da classe média (...), porque quando os pobres constituem a maioria sem que haja uma classe média surgem perturbações e a cidade é logo arruinada (ARISTÓTELES. 1997, p. 145).


Em todos estes textos, a palavra "cidade" deve ser entendida no sentido de Cidade-estado, e não no sentido sociológico atual, de cidade como aglomerado urbano.
Por conseguinte, a melhor forma de governo, defendida por Aristóteles, é o governo de classe média, resultante da mistura de elementos democráticos e de elementos oligárquicos. O governo de classe média é, na prática, a concretização do princípio da medianidade aplicado à política. Seria democrática, no sentido atual, esta forma de governo?
Na opinião de Otfried Hõffe, grande especialista em Aristóteles, e com o qual concordamos,

na medida em que a constituição mista está voltada para o bem comum, e na qual as decisões importantes são tomadas pela Ecclésia, assembléia do povo, ela pode ser considerada amplamente democrática. De resto, Aristóteles admite que "isto que nós chamamos hoje de política (ou república), chamava-se anteriormente democracia" (HÕFFE, 1999, p. 193).

Mesmo assim, não podemos olvidar que há diferenças acentuadas entre o governo de constituição mista e a democracia moderna. Faltam ao governo idealizado pelo Estagirita a representação político-partidária, os sindicatos, a imprensa e os direitos fundamentais.

7 LEI, JUSTIÇA E LIBERDADE
O governo constitucional, resultante da mistura de elementos democráticos e oligárquicos, se submete ao império da lei e tem, na justiça e na liberdade, os princípios basilares que devem reger as relações dos cidadãos entre si, e destes com o Estado. Além disso, reconhece como legítimo o direito à propriedade privada e à constituição da família,

8 CONCLUSÃO
Quem se der ao trabalho de analisar a vida política contemporânea, verificará que os países que desfrutam de mais estabilidade política são justamente aqueles que combateram os extremos de riqueza e de pobreza e, ao mesmo tempo, construíram uma ampla classe média. Estados Unidos, Canadá e a maior parte dos países da Europa Ocidental, após a Segunda Guerra Mundial, procuraram desenvolver políticas econômicas e sociais que resultaram na formação de uma ampla classe média. Nestes países, esta classe tem sido fator de estabilidade política nos últimos cinqüenta ou sessenta anos.
Ao contrário, nos países do 3 o Mundo - África, Ásia e América Latina onde se perpetuaram os extremos de riqueza e de pobreza, e onde a classe média é cada vez mais reduzida e judiada pelas elites dirigentes, a instabilidade política é uma constante. A título de ilustração, citamos o caso do Brasil, onde a violência interna, configurada no crime organizado ou atomizado, transformou a convivência social das grandes cidades num verdadeiro canibalismo social. Esta situação é o resultado mais cruel das políticas neoliberais, vigentes no 3o Mundo, que pioraram a distribuição de renda, sufocaram a classe média e jogaram na exclusão social milhões de trabalhadores. Embora de forma mais atenuada, estas políticas neoliberais afetaram também alguns países do Primeiro Mundo.
Os extremos de riqueza são combatidos nos países do Primeiro Mundo através da taxação das grandes fortunas. Ninguém é proibido de ser rico; mas, quanto mais rico, mais imposto paga a fim de que o Estado possa combater o outro extremo, o extremo da miséria. No Brasil, estamos muito longe destsa prática administrativa. As políticas fiscal e tributária são mecanismos geradores de ricos e miseráveis. Como exemplo, lembramos esta situação que é bem atual no nosso país: um cidadão de classe média, cujo salário é em torno de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) está enquadrado na alíquota de 27,5% (vinte e sete e meio por cento) de Imposto de Renda, tanto quanto aquele outro que ganha 200 ou 300 mil reais por mês. Além disso, a perversidade da política de salário-mínimo só serve para reproduzir a miséria de milhões de trabalhadores brasileiros.
Vejamos a contradição existente no Brasil: temos o maior PIB da América do Sul e, no entanto, pagamos os piores salários aos trabalhadores deste subcontinente.
Isto é o que os sociólogos chamam de violência estrutural. Esta gera a violência atomizada. Milhares de vítimas da violência estrutural se revoltam contra a sociedade que não lhes deu oportunidade de levar uma vida digna. É curioso que há 2400 anos o Estagirita já fizesse esta observação: "... a pobreza gera a revolta e o crime" (ARISTÓTELES, 1997, p. 48).
Por conseguinte, o ideal proposto pelo genial Aristóteles - aplicar o princípio da medianidade para combater os extremos de riqueza e de miséria - continua atualíssimo. Não há outro caminho para construirmos uma sociedade mais equilibrada, mais justa e mais racional.

REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. Política. Tradução de Mário da Gama Kury. 3 ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1997.
. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro; Gerd Bornheim. São Paulo: Editora Abril, 1973 (Coleção os Pensadores, v. IV).
BOUTROUX, Émile. Aristóteles: Tradução de Carlos Nougué. Rio de Janeiro: Record, 2000.
CAUQUELIN, Anne. Aristóteles. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. (Biblioteca de Filosofia).
HÕFFE, Otfried. Aristóteles. In: RENAUT, Alain (sous ladirection). Histoirede la philosophie politique. Paris: Claman-Levy, 1999.1.1.

Revista FARN

terça-feira, 27 de abril de 2010

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Parabéns

Por uma nova leitura da África

Escritores anseiam por difundir a cultura de seus países e desfazer o estereótipo de um "continente exótico"
por Luciana Lana


São 53 nações pobres, devastadas por décadas de guerra. Mas que apresentam um surpreendente "renascimento", traduzido em crescimento econômico, avanço em processos de democratização e maior inserção internacional. Considerada um "escândalo geológico" por guardar em seu subsolo a maioria absoluta dos recursos minerais globais, a África é alvo do interesse e da cobiça de um número crescente de potências econômicas. Só que ainda enfrenta o preconceito, a discriminação, não tendo se livrado da imagem de uma terra exótica, primitiva, miserável e incapaz de se reconstruir por conta própria.

África
A África tem 800 milhões de habitantes um sétimo da população do mundo mas, devido à extensão territorial, é pouco povoada: a densidade demográfica é equivalente a do Brasil.

Colônias portuguesas
A dominação política do continente africano pelos países europeus foi definida oficialmente na Conferência de Berlim (1885). O processo de descolonização, por sua vez, começou após as guerras mundiais.

Todo esse mar de contradições que circunda os 30 milhões de quilômetros quadrados do continente africano (22,5% das terras do globo) basta para indicar que é preciso conhecer melhor o que se passa por lá. As diferentes Áfricas, suas culturas, seus idiomas, as histórias de suas nações, suas potencialidades, os caminhos para o desenvolvimento de suas sociedades merecem atenção e pesquisa, para a qual a literatura originada no próprio continente tem farto material a oferecer.

A despeito da precariedade de vida, dos altos índices de analfabetismo, dos traumas ainda sofridos por anos de conflitos armados e demais adversidades, uma legião crescente de escritores de origem africana se revela, contando a história do continente em poesias, romances, contos, que, ainda hoje, reafirmam a diversidade e trazem a marca da resistência cultural. A literatura teve papel fundamental nos processos de independência política dos países africanos.

A considerar especificamente as colônias portuguesas foram intelectuais como Agostinho Neto (Angola), Jorge Barbosa (Cabo Verde), José Craveirinha (Moçambique), Marcelino dos Santos (Moçambique), José Luandino Vieira (Angola), entre outros, que se desviaram da chamada literatura colonial - alienada, feita por autores exógenos e transpassada de preconceitos - para lançar escritos carregados de sentimento nacional, consciência e indignação. "Os poetas foram os primeiros grandes líderes revolucionários na África.

Marcelino dos Santos
Poeta e político moçambicano, nascido em 1929. Foi fundador da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) e, após a independência do país, assumiu o cargo de Ministro da Planificação e Desenvolvimento.

Primeiro, nós escrevemos poemas com palavras de libertação, como o "É preciso plantar" (de 1953, finalizado com os versos "É preciso plantar / pelos caminhos da liberdade / a nova árvore / da Independência Nacional"); depois, muitos de nós partimos para a luta armada", conta Marcelino dos Santos , hoje com 79 anos.

À época, ele assinava seus escritos com os pseudônimos Kalungano e Lilinho Micaia. Foi fundador da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e, após a independência, em 1975, se tornou primeiro Ministro da Planificação e Desenvolvimento.

Uma boa explicação ele dá para o crescimento da língua portuguesa nas colônias e a adoção do idioma pelos escritores nos movimentos de libertação: "Nós queríamos integrar o continente. A nossa poesia dava conta de problemas que eram comuns a toda África. Adotar a língua portuguesa foi uma estratégia, já que a pluralidade de idiomas e o enorme analfabetismo dificultavam a difusão das nossas ideias libertárias."

O uso da língua portuguesa pela grande parte dos escritores nas ex-colônias de Portugal é motivo de polêmica até os dias atuais. É bem verdade que a expansão da língua se deu às custas de vários idiomas, que simplesmente desapareceram. Moçambique, por exemplo, contava com mais de 20 idiomas.

Em Angola, a língua portuguesa confrontou-se, em especial, com o quimbundo, que até os colonos portugueses eram obrigados a aprender. Mas houve uma "apropriação" e uma "nacionalização" da língua portuguesa por parte dos africanos. Para José Luandino Vieira, o português representou um "troféu de guerra". Após a independência de Angola, ele defendeu que esse fosse o idioma oficial do país.

Há também o registro de que o escritor Luís Bernardo Honwana, natural de Maputo, militante da Frelimo e autor do livro de contos "Nós Matamos o Cão Tinhoso", tenha respondido "a língua portuguesa é nossa também", ao ser questionado, pela plateia de uma palestra que proferiu na Universidade de Minnesota, Estados Unidos, em 1979, "por que, após a independência, os escritores de Moçambique não abandonavam a língua do colonizador?". De fato, vencidas as lutas de independência, a literatura na África ganha um tom de orgulho e a "nacionalização" da língua portuguesa pode ser observada pelo uso que vários escritores fazem de neologismos e termos de idiomas locais misturados às palavras em português. A língua foi reinventada - e, diga-se, continua a ser assim na literatura contemporânea do continente.

"Nós queríamos integrar o continente. A nossa poesia dava conta de problemas que eram comuns a toda África. Adotar a língua portuguesa foi uma estratégia, já que a pluralidade de idiomas e o enorme analfabetismo dificultavam a difusão das nossas idéias libertárias"
Marcelino dos Santos

Com suas nações independentes, os escritores passaram a defender de forma muito intensa a cultura africana e afirmar a diversidade. Era importante definir posição nas sociedades pós-coloniais. E o fizeram com extrema criatividade e liberdade, rompendo com os padrões europeus e com as normas cultas, abusando de misturas que reafirmavam suas identidades.

O negro, antes sofredor, passava a protagonizar com heroísmo. É dessa fase, por exemplo, o romance "Mayombe", de Pepetela, pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, que foi militante do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e é hoje um dos maiores escritores angolanos, com 16 romances publicados desde 1973. "Mayombe" foi o terceiro. Escrito entre 1970 e 1971, foi lançado em 1980, contando a história de um grupo de guerrilheiros do MPLA , em ação numa floresta, na região de Cabinda, distante da capital Luanda. Os personagens são nomeados com alcunhas de guerra - Comandante Sem Medo e Comissário Político são os principais, os heróis na grande epopeia. A guerrilha é louvada já na dedicatória: "Aos guerrilheiros do "Mayombe", que ousaram desafiar os deuses."

"Mayombe" é considerado um romance épico. O próprio isolamento do grupo na floresta é condição favorável para o desenho de uma utopia. O romance, no entanto, embute também as primeiras críticas ao movimento, ao sistema e ao que já se previa para o país após a independência.

De modo geral, passado o efeito da vitória nas lutas de libertação, a literatura africana cai na dura realidade do pós-colonialismo. E é múltipla a produção literária nesse período, em que não há mais otimismo e o sonho da transformação dá lugar à consciência crítica. Alguns autores recorrem ao passado - em romances históricos - para explicar as mazelas do presente. Também é frequente a crítica irônica. Em Angola, Manoel Rui lançou, em 1982, a novela satírica "Quem me dera ser onda" , denunciando a burocracia e a corrupção, em paródias do cotidiano.

Pepetela, por sua vez, lançou "O cão e os caluandas" (1985), também usando de certa ironia ao abordar a desagregação cultural, social e política. Ele fez de Luanda o microcosmo, por onde passeia um cão, revelando, em fragmentos, as vivências dos moradores da capital angolana.

No mesmo ano (1985), Pepetela lançou também "Yaka" - dessa vez recorrendo a aspectos históricos e retratando Benguela, sua cidade natal. "Yaka" é a estátua que acompanha cem anos da colonização. Em 1989, publicou "Lueji: O Nascimento de Um Império", também pontuado pela história (são retratados dois momentos separados por 400 anos). Em 1992, Pepetela manifesta de forma mais direta sua indignação pelo que se sucedeu à independência com "Geração da Utopia" - em que o próprio título adianta a temática.

Quem me dera ser onda
De autoria do angolano, Manoel Rui, o livro tem como protagonista um porco que habita o apartamento de uma família, causando transtornos. É uma crítica irônica à estrutura social pós independência, ao mimetismo dos novos ricos e ao populismo político.

Ainda que com uma colonização bastante diferente, Cabo Verde apresenta essas mesmas fases em sua literatura. O aspecto épico fica evidente na poesia de João Varela (que também assinava como João Vário e Timótio Tio Tofe), autor de "O Primeiro Livro de Notcha", publicado em 1975.

A ironia aparece na obra de Germano de Almeida, que em 1989 publicou "O meu poeta", considerado o primeiro romance nacional. Com humor e sarcasmo, Germano satiriza a realidade de Moçambique após a independência.

Na Guiné-Bissau, a crítica vem em tom um pouco mais mordaz na obra de Abdulai Sila, que inaugurou a prosa no país, com "Eterna paixão" (1994). Nesse romance, é através de um personagem afro-americano que o autor mostra o decepcionante quadro do pós-colonialismo. Um ano depois, ele publicou "A Última Tragédia", com referência ao período colonial. E, em 97, lançou "Místida", uma metáfora em que os protagonistas perdem a memória, o dom da palavra, a visão, num quadro de decadência e aniquilação paralelo ao vivido à época. Nesse mesmo ano (1997), Filinto de Barros, que havia sido dirigente do PAI GC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e ministro na Guiné, publicou o romance "Kikia Macho", onde usa o aspecto mítico para falar da desesperança.

Maturidade e reconhecimento

O desenvolvimento da arte - e da produção - literária na África teve e tem características próprias em cada região e em cada país, sobretudo em função da colonização e da língua. Mas é fato que num período relativamente curto - desde a descolonização europeia, 1957, até os dias atuais - houve um grande amadurecimento em quase todo o continente. E o que surpreende é ter se dado num contexto de guerras civis e caos social - o pano de fundo da maior parte das obras literárias do continente ainda hoje.

Alguns dos primeiros autores são as estrelas da literatura contemporânea - o que permite, pelo conjunto de suas obras, uma análise da evolução do fazer literário. É o caso de Pepetela - cujo primeiro livro foi escrito em 1973 (antes até da independência de Angola) e o 16o romance - "O Quase Fim do Mundo" - foi lançado no ano passado. Nesse meio tempo, Pepetela se aventurou até no estilo policial, com "Jaime Bunda, Agente Secreto" (2001) e "Jaime Bunda e a Morte do Americano" (2002). O autor diz que o estilo foi apenas um pretexto para mais uma vez descrever - com humor e crítica - a sociedade angolana: "o policial (o anti-herói Jaime Bunda, paródia de James Bond) entra em todos os lados, em todos as classes e meios sociais".

Nestes dois livros, a crítica social e política já se refere ao neocolonialismo americano. Em 2005, com "Predadores", o autor denuncia as novas elites e o ambiente político que as favorece.


Ainda que não tenham começado lá no período colonial, outros tantos autores despontaram no final da década de 80, com obras de tal qualidade, que rapidamente mereceram o reconhecimento internacional. É o caso dos angolanos José Eduardo Agualusa e Ana Paula Tavares, e do moçambicano Mia Couto. O primeiro soma mais de vinte publicações desde 1989 - são romances, novelas, poesias, contos e guias, que renderam ao autor uma grande coleção de prêmios - o primeiro deles (Prêmio Revelação Sonangol) tendo sido concedido já para o seu primeiro romance, "A Conjura".


"As pessoas que têm vontade de ler não têm dinheiro para comprar os livros e as que têm dinheiro não se interessam pela literatura."
Pepetela, pseudônimo de Artur Pestana, escritor angolano.

A poetisa Ana Paula Tavares inaugura sua obra com "Ritos de Passagem". Depois passeia por contos e, em coautoria com Manoel Jorge Marmelo, publica o romance "Os Olhos do Homem Que Chorava no Rio" (2005). Seu último lançamento foi "Crônicas Para Amantes Desesperados" (2007).

Mia Couto estreou em 1983, com o livro de poemas "Raiz do Orvalho"; depois partiu para contos e, em 1992, lançou seu primeiro romance, "Terra Sonâmbula". Recebeu, entre outros, o prêmio Virgílio Ferreira - um dos mais importantes prêmios literários de Portugal - pelo conjunto de sua obra, em 1999.

Estes fazem parte de um grupo pequeno (mas crescente) de autores que têm suas obras publicadas fora de seus países - e, quase sempre, traduzidas para vários idiomas. Os prêmios literários que conquistam repercutem e fazem despontar novos talentos.

São muito poucas as editoras nos países africanos e o preço dos livros quase sempre inviáveis para a população local. "As pessoas que têm vontade de ler não têm dinheiro para comprar os livros e as que têm dinheiro não se interessam pela literatura", comenta Pepetela, contando que os escritores que publicam só em Angola vendem em torno de 2 mil exemplares, enquanto ele, publicando em Portugal, chega a vender mais de 20 mil.

Os livros também não circulam no próprio continente africano, nem mesmo entre os países da mesma língua. Escritores de diferentes nações pouco se conhecem - quase sempre são apresentados quando participam de eventos de literatura no exterior.

Foi assim, em novembro, na quarta edição da Fliporto (Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas), em Pernambuco, que teve a diáspora negra como tema e reuniu nomes importantes da literatura dos países lusófonos, além de acadêmicos e pesquisadores.

"Não há dinheiro que financie a arte literária na África. Não há condições de promovermos intercâmbio. Quase não são realizados eventos de literatura e, por isso, nós, escritores, pouco nos conhecemos. Não há recursos para que um escritor viaje a outro país africano para apresentar seu trabalho ou participar de um seminário. Em outras artes - na música, por exemplo - há mais incentivos; os artistas se movimentam mais e divulgam mais seus trabalhos", comentou Paulina Chiziane, considerada a primeira romancista de Moçambique e um dos grandes destaques na Fliporto.

Ao final do evento, emocionada, ela acrescentou: "É muito difícil o nosso acesso à literatura estrangeira. Os livros só nos chegam através do Brasil ou de Portugal e são muito caros. Então, a gente vem aprender como é a literatura do país que está ao nosso lado aqui, num encontro como esse, que às vezes acontece também na Europa. Mas aqui no Brasil é diferente. Aqui, hoje, eu aprendi que se pode fazer festa da literatura. Isso para mim é novo - esse conceito. Um ambiente onde se fala de cultura de forma cultural - é uma experiência nova para mim."

Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique - "Balada do Amor ao Vento" (1990), em que narra um amor proibido. Depois, em 1993, ela lançou "Ventos do Apocalipse", mostrando a situação da mulher durante a guerra.

"O Sétimo Juramento", seu terceiro livro, narra a história de um combatente que recorre à feitiçaria para resolver questões profissionais. "Em Niketche: uma história de poligamia" (2002), ela fala de uma prática tradicional em algumas regiões do país.

"Eu abordo assuntos polêmicos, como a poligamia, que, mesmo combatida pela Igreja e pelo sistema, agora, está a se restabelecer. Em Moçambique, há, praticamente, duas religiões: no sul e no interior, a cristã; no litoral e no Norte, a mulçumana. Os portugueses levaram a monogamia para o sul, enquanto os mulçumanos praticam a poligamia no norte. A religião define os costumes", diz Paulina.

Seu último romance - "O Alegre Canto da Perdiz" (2008) - aborda o racismo entre os próprios africanos - uma mãe negra tem filhos mestiços para "aliviar o negro de sua pele, como quem alivia as roupas de luto".

Com extrema modéstia, Paulina ainda não se acostumou com o título de romancista e diz que os livros surgiram do prazer de fazer breves anotações diárias. A modéstia é também característica da escritora Dina Salústio, autora de "A Louca de Serrano" (1998), primeiro romance de autoria feminina em Cabo Verde: "sou apenas uma mulher que escreve umas coisas".

Assim como Paulina, Dina - também em poesias e contos - retrata o universo feminino, "para mostrar o meu reconhecimento às mulheres caboverdianas que trabalham duro, que carregam água, que trabalham a terra, que têm obrigação de cuidar dos filhos, de acender o lume (...). Falo das mulheres intelectuais, daquelas que não são intelectuais, daquelas que não têm nenhum meio de vida escrito; falo da prostituta... Em Cabo Verde, quando nasce uma menina, ela já é uma mulher".

Outro aspecto em comum entre as duas escritoras é aproximarem seus textos do realismo mágico (a característica que ficou destacada na obra do colombiano Gabriel Garcia Márquez). Dina cria uma Serrano mítica - aldeia onde a vida cotidiana beira o absurdo, com seres de "estranhos costumes", animais que nunca se mexem, pedras com miolo mole e mulheres estéreis que engravidavam por milagre. A louca, assim como outras personagens femininas do livro, denuncia a violência e as privações a que são submetidas as mulheres em Serrano, como também na sociedade caboverdiana.

Para Paulina o seu "realismo mágico" nada mais é do que a própria realidade que vive, repleta de magias e mistérios. "O Sétimo Juramento" trata da feitiçaria. As pessoas da Europa não compreendem muito bem o que é isso. Me perguntavam se era um realismo mágico da América Latina. Eu não sei o que é o realismo mágico da América Latina. O que eu coloquei no livro foi a realidade da minha região", comentou, durante a Fliporto.

O evento contou ainda com outra grande revelação da literatura lusófona - o jovem Onjdaki, que, aos 31 anos, já tem 12 livros publicados, entre contos, poesias e romances.

O escritor - que também é sociólogo e roteirista - nasceu em Luanda e em sua obra, quase sempre traz a memória da infância. Ele justifica: "A experiência da infância é, em geral, muito forte." Através de uma lente de lirismo, Ondjaki vai mostrando a dura realidade de seu país na década de 80. "Eu não faço uma análise crítica do regime; até poderia, mas preferi o olhar das crianças, dizendo com inocência e imparcialidade, o que estava a se passar", explica o autor de "Bom Dia, Camaradas", romance lançado em 2001 e escrito quase que em apenas dois meses. "Um editor me perguntou se eu tinha algo sobre a independência e o período posterior. Eu respondi que sim e entreguei o livro dois meses depois."


Pindjiguiti
O pequeno cais do porto de Pindjiguiti, em Bissau, foi palco do massacre de 50 trabalhadores, em 1959, o que desencadeou a luta de libertação do país.

Ondjaki é frequentemente questionado sobre o caráter autobiográfico de seus escritos e ele responde que "todo autor passa sua experiência pessoal para o livro". Diz que Luanda é uma cidade que se presta muito à ficção - "todo dia tem uma boa história, um bom mundo para contar" - mas que também há muitas "cidades inventadas" em seus textos.

Representando a Guiné-Bissau, participou da Fliporto o poeta e jornalista Tony Tcheka , lançando "Guiné, Sabura Que Dói", onde, com extrema elegância, ele aponta a destruição sofrida em seu país. O poeta menciona a fome, a criança que não tem tempo para a infância, a guerra e, principalmente, a força da mulher guineense. Essa é também a temática de seu "Noites de Insônia na Terra Adormecida" (1987).

"Eu falo da Guiné. De suas esperanças e desesperanças. E dedico o livro à mulher guineense. A mulher é a pedra angular para manter a família na Guiné. Ela é chefe de família numa sociedade machista. E ela é quem trava a prostituição, o consumo de drogas; evita a desagregação familiar e social. A sua ação tem resultados imediatos. Ela produz, vende e leva alimento para casa. No livro eu mostro isso. Não só destaco a beleza física e espiritual da mulher, mas a luta que ela trava, porque é duplamente explorada - pela sociedade e pelos seus próprios homens, os maridos. Também falo sobre as crianças. Em "Noites de Insônia na Terra Adormecida", procurei tratar de valores universais".

Tony Tcheka
Poeta e jornalista guineense, nascido em 1951, António Soares Lopes, conhecido pelo pseudônimo Tony Tcheka, foi responsável pela organização das pirmeiras publicações de autores da Guiné.


Tony Tcheka foi coordenador das primeiras e maiores antologias poéticas da Guiné-Bissau "Mantenhas Para Quem Luta", "Momentos Primeiros da Construção", "Antologia da Poesia Moderna Guineense" e "Ecos do Pranto" - todas com poesias em crioulo.

"Mantenhas Para Quem Luta" foi editada, logo após a independência, pelo Conselho Nacional de Cultura, reunindo poesias de um grupo de 14 jovens identificados com o movimento de libertação nacional, que ficaram conhecidos como "os meninos da hora do Pindjiguiti. "Pindjiguiti é um porto de Bissau, onde foram reprimidos estivadores e marinheiros que estavam a protestar por menos horas de trabalho e melhores salários. Houve confronto e eles foram baleados por soldados portugueses", explica.

Segundo Tcheka, nas duas primeiras antologias buscou-se poemas que abordassem, basicamente, a luta pela libertação; já na Antologia da Poesia Moderna houve uma mistura de temas e já existia maior preocupação com o estilo literário - "era uma poesia mais adulta e menos engajada, do ponto de vista ideológico". "Ecos do Pranto", por sua vez, é uma reunião de poemas que tem a criança como tema.

Tcheka explica que a razão das antologias era não haver dinheiro para publicar as obras de cada autor em separado - "então nós fazíamos esses pactos de publicação conjunta. Depois, com financiamento da União Europeia, é que foram editadas sete ou oito obras individuais. Foi a primeira oportunidade para os autores da Guiné".

Ele comenta também uma das características mais presentes na literatura africana - a oralidade: "O hábito de escrever é natural. Nós costumamos dizer que escrevemos e publicamos todos os dias. Isso porque temos como costume os encontros em que se contam estórias tradicionais, fábulas, contos infantis, cada qual com sua própria linguagem e formas de expressão. E essa é uma forma de 'editar'. Na Guiné, esses encontros são chamados de Djumbai e sempre há um orador, um trovador. É uma tradição antiga que foi preservada e ajuda a manter as pessoas num espaço de convívio, de troca de experiências; ajuda a manter viva a criatividade artística. Esses encontros resistiram à modernidade.

É uma forma de editar adaptada às circunstâncias - já que quase não temos editoras. As pessoas perguntam aos autores se têm trabalhos publicados e, sem querer, nós respondemos 'tenho sim, publiquei esse poema no evento tal, esse outro naquele dia...'.

Ou seja, os djumbai são momentos editoriais. Nossas sociedades não perderam a sua identidade graças à oralidade."

"O hábito de escrever é natural. Nós escrevemos e publicamos todos os dias no djumbai, encontros em que se contam histórias tradicionais, fábulas, contos infantis. Essa é uma forma de editar"
Tony Tcheka

Tcheka comenta que na Guiné existem atualmente duas editoras pertencentes a dois escritores e elas publicam quase que exclusivamente os livros deles. "Não há política editorial e nenhum incentivo a autores e editores. Também faltam livrarias."

Entre 75 e 80, no entanto, ele comenta que houve maior apoio e muitos sarais culturais eram realizados nas casas de cultura e bibliotecas, "que, antes, só conheciam autores portugueses". Segundo o escritor, a Guiné-Bissau foi uma das colônias portuguesas que melhor se organizou na década de 60. Ele diz que a luta pela independência foi considerada um "ato de cultura" e que foi uma luta bem conduzida do ponto de vista político. "Depois, então, é que nós vivemos onze anos de guerra - uma epopeia que não encontra correspondência política ou econômica.

O país está em fase de estagnação com enormes prejuízos. Embora haja democracia, pluripartidarismo, a situação é catastrófica. As diferenças sociais são enormes, a educação fica em segundo plano, o país está na rota do narcotráfico. Nossa esperança é a criação de um programa para autodeterminação dos povos africanos. Vamos crer que a eleição do presidente americano possa contribuir para isso."


NA BERLINDA
Continente african o ocupa um novo lugar no cenário internacional

Um século de colonização europeia, seguido de algumas décadas de guerra. Essa é em resumo a história da África, fundamentalmente um continente enfraquecido, dominado e prostrado diante dos interesses internacionais, como costuma afirmar Carlos Moore, doutor em ciências humanas e um dos maiores especialistas em assuntos da América Latina e África.

O território africano foi dividido entre países da Europa ocidental na Conferência de Berlim, em 1885, sem que quaisquer questões étnicas e culturais tivessem sido consideradas. O Egito foi o primeiro país a conquistar sua independência em 1922; depois, África do Sul e Etiópia, nos anos 1940. A descolonização foi favorecida pela Segunda Guerra Mundial e se intensificou a partir dos anos 1960.

A independência, no entanto, não trouxe a liberdade e autonomia almejadas pelos povos africanos - "O processo de independência foi minado por relações neocolonialistas: a maioria esmagadora de líderes que chegaram ao poder já estava corrompida e entregue aos interesses hegemônicos mundiais. Tratava-se de elites coniventes com os interesses imperialistas e hegemônicos da Europa Ocidental, dos Estados Unidos e do Japão", aponta Moore.

Vencedores nos movimentos de libertação, vários líderes nacionalistas assumiram o poder em seus países logo após a independência e proclamaram uma África federativa, com um governo central. Entre esses líderes estavam os presidentes de Gana, Kwame Nkrumah; da Guiné, Sekou Touré; do Mali, Modibo Keita; do Congo Brazzaville, Alphonse Massamba Débat; da Tanzânia, Julius Nyerere; seguidos por Amílcar Cabral, na GuinéBissau; Nelson Mandela, na África do Sul; e Tomas Sankara, em Burkina Faso. "Esses líderes foram derrubados com sangrentos golpes de Estado. Em menos de trinta anos, 38 dirigentes africanos foram assassinados em circunstâncias ainda não elucidadas." Segundo Moore, em lugar destes dirigentes nacionalistas e pan-africanos é que ocuparam o poder os atuais governos, "colocados pelos países do Ocidente".

Sob esse ponto de vista, as elites e o poder dominante são os grandes fatores de atraso no desenvolvimento social das nações africanas, pois trabalham para manter o sistema desigual, exploratório, que os favorece. A opinião de Moore é compartilhada por outros estudiosos da evolução do continente que, no entanto, apontam um momento de transição e um avanço gradual nos processos de democratização dos regimes políticos, sem destacar o risco de que "novos arranjos entre elites locais e internacionais não tragam a autonomia decisória nem o desenvolvimento sustentável ao continente", como destaca José Flavio Sombra Saraiva, diretor geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI). "As economias no continente cresceram em tono de 5,6% por ano, desde o início da década. Apesar das crises políticas - na Guiné, Zimbábue, Darfur - há um processo positivo de democratização. O número de países africanos com conflitos armados caiu de 13 para 5, nos últimos seis anos", aponta Saraiva em pesquisa que desenvolve desde 1982.

No subsolo africano estão concentrados os principais minerais estratégicos para a indústria de alta tecnologia. Os 53 países são basicamente exportadores de petróleo, ouro, diamante, tungstênio, urânio e cobre. Mas só participam de 2% do comércio mundial e têm 1% da produção industrial do mundo.

Dona de 66% do diamante, 58% do ouro, 45% do cobalto, 17% do manganês, 15% da bauxita, 15% do zinco e 15% do petróleo - segundo as pesquisas do IBRI -, não é à toa que a África despertou a cobiça de outras potências emergentes, como a China, que lá desembarcou desde 1990, e também a Coreia do Sul, Índia, Turquia, Irã. "A África está no centro de uma concorrência fortíssima de interesses de todas as partes do globo; na berlinda da cena internacional contemporânea", afirma Saraiva.

Mas a imagem estereotipada de um continente exótico e primitivo é ainda prevalecente em todo o mundo - e favorece a exploração. A desinformação e o desprezo das sociedades de diferentes países em relação aos povos africanos contribuem para o enfraquecimento político das suas nações e é motivo de indignação entre os que têm consciência dessa realidade.

"A cooperação internacional virou uma indústria, tal como a indústria armamentista. É revoltante o cinismo da política internacional assim como a ignorância das sociedades no mundo inteiro. Projetos injustificáveis são feitos e só aumentam o déficit dos países africanos. Há forte entrave a produtos africanos pela política protecionista dos países do Ocidente, que pegam a matéria-prima da África, transformam e vão vender seus produtos para o mercado africano. Vamos crer que, finalmente, esse estrondo que sofreu o neoliberalismo traga uma reflexão e novas premissas - as do FMI estão em questão. O mercado não pode ser um altar inquestionável", defende Tony Tcheka.

Brasil - parceiro ou explorador

Em seus quatro primeiros anos de governo, o presidente Lula visitou mais de quinze países em sete viagens à África, o que resultou em acordos bilaterais e projetos de cooperação. A política do Brasil para África, no entanto, ainda tem muito a avançar. "O silêncio sobre o que acontece na África no debate político, nas universidades e na imprensa é indício do desinteresse generalizado pelo outro lado do Atlântico", reclama Flávio Saraiva. Ele defende a colocação do Brasil, com uma política externa voltada para a África, em posição de liderança num projeto cooperativo do Sul, reorientando o eixo diplomático e retomando um modelo de inserção internacional voltado para o desenvolvimento sustentável - mais produtivista e menos financista.

Carlos Moore, por sua vez, faz uma avaliação bastante objetiva da relação BrasilÁfrica: para ele está claro que há no Brasil um setor de ponta na economia, interessado em ter acesso às matérias-primas e ao mercado africano - crescente e excelente para escoamento de produtos manufaturados. Há também, segundo Moore, as elites eurocêntricas e europeizadas, admiradoras dos métodos norte-americanos, que não consideram a África como parceira a se respeitar, mas como continente provedor de escravos, digno de ser explorado e humilhado.

Essas elites têm, em suas mãos, os meios de comunicação e forjam imagens distorcidas que podem permitir que a opinião pública e a sociedade civil se mostrem omissas e coniventes com a exploração na África. "São forças conservadoras, tradicionalmente negrofóbicas, que herdaram um desprezo para com o continente africano que as cega ao ponto de se oporem ao desenvolvimento de relações econômicas entre suas empresas e os países africanos, embora essas relações favoreçam às suas próprias economias", disse o professor em entrevista ao Jornal Ìrohìn, em 2007.

A política africana que o Governo Lula pretende estabelecer junto a um conjunto de empresas brasileiras, para Moore, representa os interesses de grupos com uma visão bem mais ampla do que essas elites retrógradas que desprezam o continente. Entretanto, há uma forte tendência de o país repetir na África a relação neocolonial que outras potências já estão adotando. "Os chineses não estão nem um pouco preocupados se os trabalhadores empregados estão protegidos sindicalmente ou não. Eles estão simplesmente interessados em dispor de uma força de trabalho mais barata e se apropriar dos recursos do continente, pagando o menos possível."

A pressão da sociedade civil é, na opinião de Moore, a única forma de garantir que as empresas brasileiras atuantes no continente africano cumpram um código de conduta ética e evitem relações neoimperialistas.

Mas, para isso, a sociedade civil precisa de informação sobre a África e - conforme escreveu Flávio Saraiva - "as escolas continuam afônicas de estórias da África; as tragédias e genocídios ganham a cor espetacular das telas televisivas, enquanto as experiências de estabilização e crescimento econômico assim como as iniciativas políticas de redução da pobreza e das doenças endêmicas na África são silenciadas".

"Penso, muitas vezes, em Angola e no Brasil como dois irmãos separados durante a infância. Quando um dia se reencontram, o irmão rico ignora o pobre; o pobre, pelo contrário, conhece tudo sobre o rico, as suas vitórias e os seus dramas, e incomoda-o a ignorância do irmão."
José Eduardo Agualusa


BEM ALÉM DA ORTOGRAFIA
Artistas e intelectuais defendem projetos de integração mais amplos entre os países de língua portuguesa, sobretudo entre o Brasil e África lusófona


O Brasil precisa conhecer a África. Essa é uma reclamação feita em coro nos países da África lusófona. "Nós compartilhamos alguma identidade. A língua é uma ponte que pode nos ajudar a consolidar essas nossas identidades. Pode haver uma articulação oficial entre os países, mas eu acredito que a integração deveria ser motivada através da cultura", defende Tony Tcheka.

A mesma opinião é do escritor Ondjaki, que, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, há dois anos, sugeriu que fossem realizados "encontros regulares, diálogos culturais, ao menos um encontro anual, reunindo os oito países que falam português como língua oficial, com a participação de escritores, pintores, músicos..."

Ondjaki identifica o surgimento de uma geração nova de artistas trabalhando, em diferentes áreas, o conceito de uma África moderna. "Nós recusamos a compaixão para com o continente africano; recusamos a visão exótica, idiótica, que fazem, às vezes, da nossa literatura. E apostamos em uma modernidade africana, que tenha uma expressão livre."

José Eduardo Agualusa, sócio no Brasil da editora Língua Geral, que só publica autores dos países lusófonos, é outro a reforçar essa ideia e sugerir, de forma direta, medidas que podem facilitar o intercâmbio cultural entre o Brasil e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop): "eliminação de taxas alfandegárias sobre livros, discos, filmes e outros produtos culturais; apoio à edição de livros de autores brasileiros nos Palop e de africanos no Brasil; oferta de bolsas de criação artística para escritores residentes e prêmios, em diferentes áreas, para trabalhos de aproximação entre os povos; criação de um "passaporte lusófono"; apoio à criação de meios de comunicação que se proponham a estabelecer pontes culturais entre os países de língua portuguesa". Essas foram algumas das ideias que o escritor apresentou no Fórum Brasil África - Política, Cooperação e Comércio, realizado em Fortaleza, há cinco anos.

Na ocasião, Agualusa emocionou o público, ao discursar: "Penso, muitas vezes, em Angola e no Brasil como dois irmãos separados durante a infância. Um partiu para terras distantes e prosperou. O outro ficou na aldeia natal, mas foi seguindo sempre, através dos jornais, através das televisões, o destino do irmão. Quando um dia se reencontram, o irmão rico ignora o pobre; o pobre, pelo contrário, conhece tudo sobre o rico, as suas vitórias e os seus dramas, e incomoda-o a ignorância do irmão."

Para os escritores, o acordo ortográfico foi importante, mas de muito pouco alcance para a integração almejada. "O que inviabiliza a leitura dos livros são os preços, quase sempre muito altos por conta dos impostos praticados entre os países", pondera Ondjaki.

Fora os artistas e intelectuais, alguns empresários também já atentam para a importância da integração entre o Brasil e a África lusófona, sobretudo no que diz respeito à educação e à transferência de conhecimentos. Há um ano, o economista Nei Cardim, Vice-Presidente do Conselho Federal de Economia, coordenou a participação brasileira no VII Encontro de Economistas de Língua Portuguesa, realizado em Maputo, Moçambique. De volta ao Brasil, após o evento, ele defendeu: "O grande avanço conseguido pelo Brasil nos diversos campos do conhecimento deve ser colocado à disposição dos africanos".

Revista de Literatura

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Por uma reflexão sobre o nascimento da filosofia da arte

Qual é o sentido da filosofia da arte? Poetas, escritores e pensadores tentaram dar cabo a essa questão que, para o bem dos estetas, permanece sem resposta.
por Ulisses Razzante Vaccari*

grego aesthésis
Em um dos melhores programas da série "Diálogos Impertinentes", os pensadores Celso Favaretto e Décio Pignatari discorrem sobre a natureza do Belo nas artes, mais especificamente na literatura, na música e na pintura. A certa altura, os debatedores, sob a mediação do jornalista Caio Tulio Costa, concordam que o repertório intelectual é o ponto principal em uma discussão deste nível.


publicou reflexões sobre a essência da obra de arte
Goethe é autor de "Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister", recentemente publicado pela editora 34, talvez o mais significativo romance de formação da história da literatura ocidental. Mais do que este significado singular, a obra traz uma relevante reflexão sobre o valor e a concepção da obra de arte.

Ao abrirmos um manual de filosofia, muitas vezes, nos deparamos com o termo filosofia da arte e nem sempre sabemos exatamente a que se refere essa linha de pensamento que, de uma forma ou de outra, pertence à filosofia. Então, pergunta-se: o que significa, afinal, filosofia da arte? Como ela surgiu? E, mais importante, como é possível pensar a arte filosoficamente?

O termo "filosofia da arte" é muitas vezes confundido com o termo "estética". Muito embora alguns autores insistam em separar uma coisa da outra, no fim, um termo e outro não deixam de designar uma e mesma coisa: a relação do pensamento filosófico com a criação artística. Se formos investigar na história da filosofia como surgem ambos os termos, veremos que o termo "estética", por exemplo, foi criado por Alexander Baumgarten (1714-1762) apenas no século XVII, seguindo as exigências iluministas daquele século de definir e delimitar todas as áreas do saber humano. Pela primeira vez na história da filosofia, o pensamento filosófico sobre a arte adquire, se não um terreno sólido, ao menos uma denominação mais específica em meio às demais disciplinas que desde sempre fizeram parte dos principais troncos da filosofia: a ontologia, a moral e a política. Segundo Baumgarten, se essa experiência provocada pela obra de arte e pela criação artística em geral deveria conquistar para si um lugar ao sol em meio às demais disciplinas filosóficas, esse lugar deveria ser aquele da sensação.

De fato, como a obra de arte exige sempre um contato mínimo com um dos sentidos (por exemplo, a música com o ouvido, a pintura com a visão), o ramo da filosofia dedicado a essa experiência deveria invariavelmente chamar-se estética, na esteira do termo grego aesthésis, que designa a sensação sensível. Em completa oposição à lógica, conhecida como a ciência das regras do pensamento, a estética, ao contrário, deveria ser aquela linha de pensamento dentro da filosofia cujo objetivo era determinar as regras, não do pensamento, mas da sensação sensível, a partir das quais se poderia definir uma experiência estética. E muito embora seja possível dizer que desde sempre os filósofos se ocuparam com o problema da criação artística - por exemplo, Platão no livro X da "República" e Aristóteles na sua "Arte Poética" - apenas no século XVII com Baumgarten essa preocupação passou a ser sistematizada, vindo a receber essa nomeação.

Preferência pela poesia

No que se refere à filosofia da arte, a sua definição e datação é um pouco mais complexa, e isso por vários motivos. Entre eles, está o de que não se tem registro de um determinado autor que tenha criado esse termo e o tenha definido, tal como Baumgarten o fez com a estética. De fato, embora se precise mais ou menos o mesmo século XVIII como o século de nascimento da chamada filosofia da arte, atribui-se a esse nascimento antes todo um movimento filosófico do que um ou outro autor. É comum dizer que a filosofia da arte teve seu início no círculo de filósofos do chamado idealismo alemão, que, dependendo de como o enxergue, se inicia com o grande seguidor da filosofia kantiana, J. Gottlieb Fichte (1762- 1814), passa por Friedrich Schiller (1759- 1805), Friedrich W. J. Schelling (1775-1854), por Friedrich Hölderlin (1770-1843) e termina no grande sistema do idealismo alemão de G.W. Friedrich Hegel (1770-1831). Como se pode ver pelos temas tratados por todos esses pensadores, a arte constituiria, senão o mais importante, ao menos um dos mais relevantes temas do pensamento de cada um deles e de todo esse movimento. E, embora não seja costume chamá-lo filósofo, não se pode esquecer o fato de que todos esses pensadores possuíam uma ligação visceral com a obra e a pessoa do chamado pai da língua alemã, o poeta Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Essa ligação, não apenas com Goethe, mas de todos esses nomes entre si e em torno de um mesmo ideal, definiu essa nova postura do pensamento filosófico, a qual hoje se dá o nome de filosofia da arte. Esse ideal, como se poderia ver já pelos escritos de todos eles, referia-se ao interesse preponderante pela criação e pela obra de arte em geral e, dentro desta, pela poesia.

Se existe, assim, um elemento que permita diferenciar a estética tal como havia sido formulada por Baumgarten da chamada filosofia da arte, ela repousa principalmente nessa preferência pela poesia. Como se pode ver já pela principal característica desse seleto grupo de pensadores, a poesia é o ponto forte de quase todos eles. Não apenas Schiller, cuja obra filosófica mais conhecida intitula-se "Cartas sobre a educação estética do homem", mas também Hölderlin são conhecidos muitas vezes antes por sua obra poética do que pela produção filosófica.

Além disso, Goethe, o mais reconhecido poeta alemão, muito embora não tivesse escrito obras propriamente filosóficas, publicou reflexões sobre a essência da obra de arte, em sintonia com os desenvolvimentos propriamente filosóficos em torno da criação artística e, principalmente, poética. Surge, então, a pergunta: por que a poesia havia sido eleita, entre todas as demais artes, a suprema? O que havia nessa linguagem em especial que permitisse caracterizar toda uma nova linha de pensamento dentro da filosofia?

Ora, uma resposta para isso poderia ser simplesmente o fato de que a poesia, muito mais do que todas as outras linguagens, afastava-se o mais possível daquela sensibilidade sensível que, para Baumgarten, caracterizava a experiência estética em geral. Acompanhando de perto as linhas gerais da filosofia idealista que apenas nascia, o pensamento sobre a arte encontrou nesta a forma mais legítima de sua própria expressão. A poesia, como definiria posteriormente Hegel em suas reflexões sobre a arte, seria a linguagem artística mais próxima da própria reflexão filosófica e, nesse sentido, a que mais se oporia à representação sensível, como ocorreria de forma mais patente com todas as outras linguagens da arte: a música, a pintura e a escultura. Posicionando-se, assim, em relação à tradição estética, essas reflexões sobre a arte do final do século XVII e início do século XIX responderiam a uma disputa milenar entre poesia e artes plásticas, que remonta a Platão e Aristóteles, passa por Horácio e chega ao renascimento italiano e ao classicismo francês e alemão. Representando um tipo de síntese entre Platão e Aristóteles, que disputaram em torno do valor da poesia, Horácio (65 a.C. - 8 a.C.), já na era romana, é o responsável pelo famoso mote do ut picturas poesis, que significa "a pintura é a poesia". Para o autor da "Arte Poética", ambas as linguagens se confundiriam na representação do gênero humano, motivo pelo qual estariam ambas no mesmo patamar.



Já na era do renascimento, a obra e o mote horacianos são redescobertos ou, mais especificamente, são duramente criticados por Leonardo da Vinci (1452-1519) em seu "Tratado da pintura". Pintor por excelência, Leonardo propõe, nessa obra, evidenciar, não apenas por meio de argumentos filosóficos, mas também por meio de ilustrações feitas a próprio punho, porque a pintura é uma linguagem superior à poesia. Conhecida como Paragone (que em português significa comparação), tal teoria deu ensejo, ao longo dos séculos, a uma intensa discussão filosófica, na qual tomaram parte os mais variados pensadores das mais variadas nacionalidades. Para nos restringirmos aqui ao tema proposto, tal discussão atingiu naturalmente a Alemanha, que, na figura de Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781), encontrou a maior e mais acabada expressão para a disputa. Na avaliação do autor do "Laocoonte - ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia", a supremacia da linguagem poética é flagrante em comparação com a limitação da pintura na expressão do pensamento. Exemplo disso seria, nas palavras do filósofo, a facilidade com que a poesia - e então o autor toma as epopéias de Homero como exemplo - pode representar o movimento e a ação dos seus personagens, coisa que é naturalmente impossível na pintura.

A partir de então, parecia estar inaugurada na Alemanha toda uma linha de pensamento em prol da poesia, que, de uma maneira ou de outra, estava em sintonia com a produção de grandes poetas cara a essa nação e a esse período. De todo modo, ainda cabe a pergunta: teria a filosofia da arte surgido para dar conta da grande produção poética (e musical) daquele período ou essa epifania poética da Alemanha dos séculos XVII e XIX teria surgido como efeito do pensamento filosófico sobre a poesia? A antiga questão permanece saudavelmente sem resposta.

Revista Filosofia