quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Um visitante inglês na Bahia de 1800


Um visitante inglês na Bahia de 1800

A British traveller in Bahia

Jean Marcel Carvalho França1


RESUMO

Apresentamos aqui, precedido de uma introdução explicativa, o fragmento de uma narrativa de viagem relativa ao Brasil, escrita pelo comerciante inglês John Turnbull em 1805, intitulada A Voyage round the world in the years 1800, 1801, 1802, 1803 and 1804. Turnbull aportou na Baía de Todos os Santos em agosto de 1800, permanecendo quatro ou cinco dias na cidade. Apesar da brevidade da visita, suas impressões sobre o Brasil trazem, entre outras coisas, curiosas notas sobre a situação de Portugal e de sua rica colônia dos trópicos no então conturbado cenário político europeu.


O historiador José Honório Rodrigues comentou certa vez que os relatos de visitantes estrangeiros sobre o Brasil, depois do desembarque de D. João VI, tornaram-se tão numerosos, que reuni-los e analisá-los sumariamente implicaria escrever um volume à parte do seu História da história do Brasil2. Rodrigues, um conhecedor de longa data do assunto, por certo não exagerava. Prova disto é a incorporação, de maneira variada, às vezes com mais, às vezes com menos prudência, de alguns desses relatos ao corpus documental de inúmeros trabalhos acadêmicos produzidos nas últimas décadas. Destarte, ainda que muitas dessas pesquisas lancem mão, num universo de possibilidades bastante variado, quase sempre de uns poucos e repetitivos nomes (Luccock, Debret, Rugendas, Maximiliano, Denis, Spix e Martius, Burton, Ina von Binzer...), não se pode dizer que se trate de um domínio pouco conhecido ou pouco explorado pelos pesquisadores locais. Ao contrário, no que se refere a narrativas xeno-brasileiras oitocentistas - para usarmos uma expressão de A. de E. Taunay3 -, a historiografia brasileira tem explorado razoavelmente o seu potencial informativo.

Há, no entanto, no tocante a visitantes estrangeiros, um punhado de anos do século XIX, nomeadamente o período compreendido entre o início do século e o desembarque de D. João VI (1808), que praticamente tem sido esquecido pelos historiadores. É verdade que não são anos pródigos em narrativas de viagens sobre o Brasil. É verdade, também, que as poucas narrativas existentes não primam pela mesma riqueza de informações das suas congêneres posteriores a 1808, quando o visitante, livre para transitar pelas cidades portuárias e mesmo pelo interior do País, esmerava-se em descrever detalhes e detalhes do até então misterioso Brasil. Antes de 1808 a situação era muitíssimo diferente. As autoridades locais, avessas à presença de navios estrangeiros em portos brasileiros, quando eram obrigadas a recebê-los, salvo raríssimas exceções, não somente tratavam de despachá-los o mais rápido possível, como, durante sua permanência, impunham severas restrições aos tripulantes - que podiam desembarcar somente durante o dia, em grupos pequenos e acompanhados por um oficial português.

Ainda que em menor número e mais pobres no que tange à variedade e ao colorido das descrições, esses relatos oitocentistas anteriores a 1808, porém, não deixam de oferecer muita matéria de interesse para o pesquisador. Recordemos, a título de exemplo, quão curiosas são as informações que o capitão Jean-François Landolphe legou-nos sobre a atividade da maçonaria no Rio de Janeiro de 18004, quão detalhadas são as descrições feitas pelo inglês Thomas Lindley da cidade de Salvador em 18015, ou quão argutas são as observações sobre a sutil transformação que se processava na sociedade carioca de 1803, deixadas pelo também inglês James Kingston Tuckey6. E haveria ainda que acrescentar a essa reduzida lista as breves mas instrutivas notas de George Mouat Keith sobre a Bahia em 18057, a descrição do russo Krusenstern8 da Santa Catarina de 1803, e as curiosas observações de James Hardy Vaux (1807) e Thomas ONeil (1808)9 sobre o Rio de Janeiro - as últimas, a propósito, muito citadas por Oliveira Lima no seu D. João VI no Brasil, são tanto mais interessantes por terem sido escritas por um tenente da marinha inglesa que viajava no London, um dos navios da frota britânica que escoltaram D. João VI de Lisboa para a capital da colônia.

A lista poderia ser ainda alongada um pouco mais com o relato do comerciante inglês John Turnbull, autor de um pequeno livro intitulado A Voyage round the world in the years 1800, 1801, 1802, 1803 and 180410, cujo fragmento relativo ao Brasil traduzimos abaixo. Turnbull aportou na Baía de Todos os Santos em agosto de 1800 e aí permaneceu, como era habitual, por pouco tempo: 4 ou 5 dias somente. Sua narrativa não é de todo inédita em língua portuguesa. Em 1816, três anos depois do lançamento da 2ª edição inglesa da obra, o incansável Hipólito José da Costa, no seu Correio Brazilliense, comentou longamente o relato, chegando inclusive a traduzir alguns trechos. Na ocasião, Costa, sempre empenhado em divulgar as notícias de além-mar que pudessem ser úteis à formação dos seus conterrâneos, assim justificou o interesse pelas nem sempre simpáticas mas liberais opiniões do visitante inglês:

Além da instrução geral que se adquire com a leitura de viajantes, esta tem um interesse particular para os leitores de nosso periódico pela grande parte que o Brasil ocupa nas observações do autor; porquanto, não pode ser indiferente aos habitantes do Brasil as reflexões que fazem as pessoas sensatas, que visitam o seu país, sobre os seus costumes, legislação, comércio, etc.; e tanto mais quanto um estrangeiro pode ver muitos objetos por diferentes faces e melhor do que os naturais, a quem os prejuízos e o hábito, muitas vezes, impedem ver seus próprios defeitos. É verdade que também os prejuízos ou ignorância desses viajantes podem induzi-los a perverter os fatos; mas sempre é bom ouvi-los e refletir sobre o que eles dizem11.

Infelizmente, pouco conseguimos apurar sobre esse visitante que, como menciona H. J. da Costa, tanto espaço concedeu ao Brasil nas suas observações - o que era relativamente raro na época. Em sua narrativa, Turnbull apresenta-se como um agente comercial inglês que, com autorização da Companhia das Índias Orientais, em maio de 1800, deixou o porto de Portsmouth a bordo de um navio de nome Margaret, com destino ao Oriente, e acabou por realizar uma viagem de circunavegação. Acerca das razões que o levaram a lançar-se em tão arriscada aventura, o inglês comenta:

Na qualidade de segundo oficial do Barwell durante a sua última viagem à Índia em 1799, tivemos, eu e o primeiro oficial do navio, depois de algumas observações, razões mais que suficientes para acreditar que os americanos retiram grandes lucros das relações comerciais que mantêm com a região nordeste desse vasto continente. Impressionados com tal constatação, logo que retornamos para casa, tratamos de expô-la a indivíduos entendidos em empresas comerciais. Tais indivíduos convenceram-se do que dizíamos e não perderam tempo em pôr o nosso plano em execução 12.

Foi em busca dessa lucrativa rota comercial com o nordeste da China que Turnbull, depois de uma rápida ancoragem na ilha da Madeira, passou pela Bahia de Todos os Santos. De tal passagem, como o leitor poderá constatar, para além de algumas observações gerais sobre a cidade e seus habitantes, o aventureiro, como bem destaca Louise Gunther num estudo recente13, procura sobretudo chamar a atenção para quão útil seria ao Império Britânico tomar o controle dessa próspera colônia lusa da América Austral; colônia extremamente rica, que os portugueses, povo pusilânime, segundo Turnbull, cedo perderiam para os inimigos da Inglaterra - como fazia antever a enorme influência francesa e espanhola sobre as autoridades locais.

Durante o decorrer da viagem, o vento sul castigou-nos de tal modo que nos vimos obrigados a aproximar-nos 2 graus e meio da costa do Brasil. A passagem pela zona tórrida deu-se de maneira assaz tediosa e o navio, embarcação nova e ainda não aclimatada, passou a vazar por todos os lados. Tais circunstâncias levaram-nos a buscar o porto de São Salvador, onde tencionávamos reparar devidamente a embarcação antes de alcançar as latitudes mais elevadas.

Ao entrarmos no porto, os habitantes começaram a cogitar inúmeras coisas acerca do navio inglês e dos objetivos da sua viagem. Tais cogitações, é bom que se diga, em muito deveram-se à semelhança entre a nossa embarcação e uma brigue cúter. Muitos consideraram que éramos espiões franceses em viagem de reconhecimento dos portos e costa do País; o mais empenhado em espalhar essa notícia era um irlandês mestiço, comandante de um paquete a serviço dos portugueses. A maioria, no entanto, estava certa de que viajávamos numa embarcação de guerra britânica disfarçada de navio mercante, e que tínhamos como propósito verificar quantas embarcações espanholas se encontravam no interior do porto e qual o seu poder de fogo.

Os sete capitães espanhóis que então se encontravam na cidade acreditaram piamente nessa última versão. O terror destituiu-os completamente do bom senso, levando-os a pensar que trazíamos 70 ou 80 homens escondidos sob a escotilha, e a evitar as proximidades do nosso navio. Estranha revolução na história das nações: os espanhóis, outrora conhecidos por sua proverbial coragem, agora são conhecidos por sua igualmente proverbial covardia. É, na verdade, o que geralmente ocorre quando uma circunstância qualquer na vida política de uma nação a condena a um longo período de inação. A preguiça consome as energias do caráter nacional e dos caracteres individuais. A coragem e a bravura militar têm necessidade de serem postas em prática, sem o que perdem o vigor e rapidamente deixam de existir.

As cogitações a nosso respeito cedo chegaram aos ouvidos do vice-rei, que imediatamente nos enviou uma mensagem convocando-nos a ir ao palácio na manhã seguinte. Nesse meio tempo, um oficial e uma forte guarda militar estacionaram a bordo e, como se isto não bastasse, colocaram um barco patrulha de cada lado do nosso navio. Ficamos, pois, impossibilitados de dar um passo sequer.

Foi-nos permitido, como demonstração de grande indulgência, receber a visita de um dos oficiais do Queen East Indiamen, por meio do qual tomamos conhecimento do triste fado desta embarcação, que pegou fogo próximo à costa, perdendo toda a sua carga e muitas vidas. O oficial ficara em São Salvador com a incumbência de tomar as providências necessárias caso algum dos bens porventura viesse a aparecer. Ao ver, porém, que nada seria recuperado, o oficial tratou de comprar uma passagem para casa numa presa pertencente a um baleeiro ancorado no porto. O único empecilho que ainda o detinha em São Salvador era o medo que tinha o mestre da presa de que, ao deixar o porto, os espanhóis cumprissem as ameaças de represálias que haviam feito. A nossa presença mostrou-se, pois, especialmente auspiciosa para esses dois cavalheiros. Estávamos agora mais do que em pé de igualdade com os espanhóis, os quais, por sua vez, tinham consciência disto e certamente não renovariam suas ameaças.

Em resposta às nossas perguntas acerca da captura da presa, o mestre explicou-nos que alinhou com a embarcação na costa do Brasil e começou a caçá-la; os tripulantes espanhóis logo abandonaram o navio e retiraram as riquezas que traziam (37 mil dólares) para uma lancha, que rapidamente seguiu em direção à terra. Atento a toda essa movimentação, o capitão do baleeiro deixou de lado o navio e passou a perseguir a lancha, alcançando-a e compelindo-a, quase sem nenhuma resistência, a render-se. Uma vez assegurado o saque, o capitão voltou ao navio abandonado e dele tomou posse tranqüilamente. Aí ainda encontrou mercadorias de grande valor, como couro e moedas de cobre. A embarcação espanhola rumava para Santa Helena, mas um problema no leme e outras complicações obrigaram-na a procurar o porto de São Salvador.

Os capitães espanhóis que se encontravam no porto, como se pode bem imaginar, demonstraram grande interesse pelo caso e começaram as suas ameaças; creio que tinham a intenção de unir forças e reaver a presa do baleeiro. O mestre da presa, sem perda de tempo, veio pedir a nossa proteção. Disse-nos ele que, como já deveríamos ter ouvido da boca do oficial do Queen Indiamen, havia uma estreita relação e cooperação entre portugueses e espanhóis, cooperação pouco compatível com a suposta neutralidade pretendida pelos portugueses. Disse ainda que os navios ingleses seriam facilmente trapaceados se ficassem à espera de justiça e equidade nos portos da costa do Brasil.

O mestre da presa estava agora pronto para deixar o porto. Quanto aos espanhóis, com o movimento para cima e para baixo das nossas lanchas, eles acabaram por nos cumprimentar com uma polidez, se não notável, ao menos contrastante com as ofensas mútuas que havíamos trocado.

Na manhã seguinte, estivemos ocupados nos preparando para a visita de cerimônia ao governador. Antes de partirmos, o barco foi minuciosamente revistado pelos oficiais da alfândega e do barco-patrulha. Um crioulo negro de São Tomé, capitão a serviço de Portugal, recebeu-nos em terra, ofereceu seus serviços de intérprete - melhor dizendo, de espião - e conduziu-nos ao palácio. O crioulo trazia uma espécie de medalha pendurada em uma das abotoaduras, medalha que, segundo nos contou, tinha sido presente do príncipe do Brasil - o ornamento parecia ser para ele motivo de não pouco orgulho. Dei-me conta de que sua intenção ao expô-lo solenemente era impressionar-nos com a sua importância.

Ao chegarmos ao palácio - assim é denominada a residência do vice-rei -, tivemos de aguardar um pouco para sermos honrados com uma audiência. Não sei dizer ao certo se a espera deveu-se às exigências do cerimonial português ou ao grande número de oficiais presentes na recepção matinal. Finalmente, conduziram-nos a uma sala de recepções onde se encontrava o governador. Dizem que Sua Excelência é um membro da família real e um típico português, tanto na aparência quanto nos hábitos. Ele vestia-se como um general em serviço e recebeu-nos com a tradicional cerimônia e fria arrogância da corte de Lisboa. Dirigindo-se a nós num excelente inglês, ele questionou-nos de uma maneira que indicava muita suspeição.

Nada pode ser mais cansativo do que o detalhado e zeloso interrogatório a que tivemos de nos submeter. Por mais de uma vez, Sua Excelência e seus oficiais examinaram e reexaminaram nossos mapas, diários, o diário de bordo e outros documentos. A decisão final veio confirmar os boatos que ouvíramos acerca da injusta preferência pelos nossos inimigos: enquanto os espanhóis carregavam e descarregavam mercadorias no porto tão deliberada e tranqüilamente como se estivessem no porto de Cadiz, nós, ingleses, segundo comunicou-nos Sua Excelência, tínhamos somente 4 dias para executar os reparos necessários no navio; expirado o prazo, deveríamos deixar o porto. Protestar era inútil, a ordem não admitia contestações.

Diversas ocorrências posteriores convenceram-me de que uma relação secreta, bastante prejudicial à Grã-Bretanha em tempos de guerra, era mantida entre portugueses e espanhóis. Tal relação é bastante contrária à posição de justa neutralidade, à qual, não tenho dúvidas, muitas embarcações do Brasil têm recorrido quando detidas pelos nossos cruzadores.

À tarde, recebemos a visita do nosso atirado lingüista crioulo, que vinha congratular-se conosco pela vitória obtida sobre os franceses14 por alguns navios ingleses que se encontravam na costa do Brasil. Ele insistiu muito para que fizéssemos um disparo de saudação, como era hábito entre os portugueses nessas ocasiões. A informação que nos trazia o crioulo, no entanto, era demasiado vaga e não a julgamos digna de um feu de joie.

A notícia, todavia, foi confirmada mais tarde. O Belliqueux e seu comboio tinham capturado duas fragatas francesas e dado caça a uma outra - todas pertencentes a uma esquadra que muito dano vinha causando ao comércio português.

Durante as visitas que fizemos à terra, tratamos de aproveitar da melhor maneira a estreita liberdade de que desfrutávamos e de manter os olhos bem atentos em busca daquilo que costuma atrair a atenção dos estrangeiros.

A cidade, que a natureza dividiu numa parte baixa e outra alta, é grande e populosa. A parte alta localiza-se no topo de uma elevação. Tem-se do lugar uma ampla vista da baía e do porto de Todos os Santos, vista arrematada, ao longe, pelo mar e pelas nuvens. Aí localizam-se as residências do governador, dos oficiais civis e religiosos e dos principais comerciantes, enquanto a cidade baixa abriga, na sua maioria, as casas dos habitantes de ordem inferior, dos retalhistas, dos aventureiros e das pessoas que se dedicam aos ofícios mecânicos.

São Salvador, ao lado do Rio de Janeiro, é a cidade, do ponto de vista comercial, mais dinâmica da costa do Brasil. O comércio com a metrópole, levando-se em conta a indolência característica dos portugueses, é bastante vigoroso; o mesmo ocorre com o comércio com a costa da África, pois as minas de diamantes requerem um suplemento constante de negros e dinamizam o tráfico de homens. A bem da verdade, é preciso dizer que o trabalho dos negros é indispensável nas minas de diamantes, mas que, talvez, nem mesmo os diamantes, por mais inestimáveis que possam ser, devam ser comprados por um preço tão elevado.

Havia no estaleiro local um navio de 64 canhões em construção. O material utilizado era o pau-brasil, madeira bastante pesada para tal propósito, mas inquestionavelmente mais resistente do que qualquer carvalho europeu. O ferro, o alcatrão e o breu, pelo que entendi, vêm de Lisboa, pois a política da pátria mãe exige que quaisquer bens manufaturados sejam importados de lá.... Tal restrição tinha algum sentido enquanto o número de artesãos e a riqueza disponível eram muito reduzidos para a abertura de manufaturas. Todavia, a indústria da colônia vem crescendo muito e a modernização da agricultura tem permitido aumentar o fornecimento de matérias primas; daí a manutenção dessa política egoísta tornar-se incompreensível.

Domingo, quando se comemorava uma importante festividade do calendário português, o capitão e eu aproveitamos a oportunidade para conhecer as igrejas do lugar. Pelo que vimos, tais construções fazem justiça tanto ao caráter da religião dos colonos quanto à riqueza da sua colônia: as igrejas são ricamente adornadas e os ornamentos das imagens pareceram-nos de grande valor. Pelo que vimos, também, e com alguma satisfação, embora não passemos de homens do mar, não há nenhum país no mundo onde a religião esteja tão em moda; as igrejas estão sempre cheias e são freqüentadas por todo tipo de gente, do mais humilde escravo ao próprio governador. A verdadeira piedade sempre toca de modo agradável e verdadeiro o coração de um homem, mesmo que ele seja protestante e, conseqüentemente, pouco simpático à sua santidade o papa. Foi impossível ver a referida cena com indiferença; na verdade, de tudo o que vimos entre os habitantes, foi o que mais contribuiu para que tivéssemos deles uma boa opinião.

Com grande dificuldade, conseguimos um assento na igreja principal. Meus olhos e os do capitão, de quando em quando, desviavam-se do padre para uma Santa Virgem toda ornada de ouro e pedrarias, que trazia uma imagem do príncipe do Brasil, elegantemente vestido, na sua mão direita - talvez dando com isso a entender que o príncipe era um de seus mais destacados campeões e defensores - e ocupava um lugar de destaque na igreja. O pregador era o bispo da província, o segundo homem nesta parte do Brasil. O sermão, pelo que pude compreender através do meu intérprete, era eloqüente, tanto mais, quiçá, em virtude de o bispo ter consciência de sua alta posição social e das suas veneráveis funções. Ele dirigia-se sobretudo aos grandes, atacando com violência os seus vícios e as suas impiedades, num estilo vigoroso e livre, que um pregador mais humilde dificilmente adotaria.

Encerrada a cerimônia religiosa, a imagem da Santa Senhora, com seu assistente, o príncipe, foi levada em procissão pelas ruas da cidade, ao longo das quais era saudada por muitas senhoras que, adornadas com grinaldas e contas nas cabeças, encontravam-se nas janelas e balcões das casas. Um espetáculo teatral em nenhum sentido desagradável, se aceitarmos que o entusiasmo por uma religião equivocada serve de desculpa para tais erros.

Depois de cruzar a cidade em todas as direções, a Santa Senhora é depositada numa outra igreja de porte e aí permanece esperando ou por uma nova festa, ou por uma tempestade. Mesmo aparentando desatenção, o capitão não viu esta pantomima sagrada com bons olhos; tamanha irreverência mereceu de sua parte uma dura reprimenda. Em muitas ruas da cidade havia, em um ou outro ponto destacado, imagens de santos padroeiros. Ao entardecer, a multidão comprime-se em torno desses santos entoando preces e ações de graça no tom monótono característico do cântico católico romano.

Tudo o que vimos convenceu-nos de que, em caso de ruptura entre os dois países, esta colônia será de grande valor para o Império Britânico. Ao longo dos anos, tem se mostrado evidente que ou a França ou a Inglaterra deverão tomar o Brasil sob sua tutela, pois uma nação débil e tão carente de estima na Europa como Portugal não pode, durante muito tempo, ter o monopólio sobre um país tão extenso, país que os portugueses mal conseguem explorar e defender. A França, caso se antecipe a nós - o que certamente pode acontecer, tendo em vista que a conquista é o princípio fundamental de um governo militar -, terá ganho um espólio mais do que suficiente para compensar a perda de Malta e do Egito. Para nós, uma nação comercial, tal aquisição traria mais vantagens, vantagens reais, do que todas as conquistas da França. Se os acontecimentos permitirem que o Brasil caia em nossas mãos, creio que haverá a possibilidade de garantir uma paz honrosa.

No dia previsto para partirmos, um outro navio espanhol, pesadamente carregado com cerca de 100.000 dólares e outras mercadorias de elevado valor, entrou no porto. Creiam que lamentamos muito não termos deixado o porto no dia anterior, pois tivemos de saudar esse rico navio espanhol, navio que veio livrá-los da encrenca de ter de levar o seu dinheiro para casa em embarcações portuguesas - suspeitávamos que tal manobra seria posta em prática.

É evidente que tem, de fato, havido uma política de estreita colaboração entre as duas coroas. Julgo-me, todavia, incapaz de avaliar se isto se deve à situação de vizinhança geográfica tanto entre suas possessões americanas quanto entre suas metrópoles, ou ao fato de terem um par nobile fratum. Estou, no entanto, certo de que tais ligações existem e estão, não me equivocaria em dizer, em pleno vigor nos dias que correm.

Ao expirar o quarto dia de nossa permanência no porto, expirou do mesmo modo a polidez dos portugueses, ou melhor, a sua não hostilidade. Recebemos a bordo a visita do mestre do porto com uma ordem do vice-rei para que não retornasse enquanto não tivéssemos deixado o lugar - ordem que obedecemos um pouco de má vontade. Devo salientar que a acolhida que recebemos não foi nem melhor nem pior do que a recebida por outras embarcações inglesas que freqüentam esta costa.

Fiquei bastante confuso ao analisar as razões que levam os portugueses a agirem de maneira tão pouco adequada a uma nação civilizada, sobretudo em relação aos naturais de um país ao qual, no panorama atual da Europa, eles devem a conservação do seu império. Esmerei-me em vão por descobrir o porquê de tal conduta, até que fui apresentado a um major em serviço, um veterano, bem mais experiente que seus companheiros oficiais. Ele explicou-me que as relações políticas entre a Inglaterra e Portugal, não raro, têm sido motivo de tensões entre os portugueses e seus vizinhos espanhóis. Desse modo, tornou-se um princípio de política externa atenuar o ciúme espanhol tratando os ingleses de maneira aparentemente - aparência que acaba por ser bastante real - severa 15.



Notas

1 Departamento de História – FHDSS – UNESP – CEP 14403-351 – Franca – SP.
2 RODRIGUES, J. H. História da História do Brasil. Historiografia Colonial. 2ª ed. São Paulo: Editora Nacional, 1979, p. XIX.
3 TAUNAY, A. E. Visitantes do Brasil colonial. 2ª ed. São Paulo: Companhia editora Nacional, 1938, p. 11.
4 FRANÇA, J. M. C. Visões do Rio de Janeiro colonial. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2000, pp. 253-259.
5 LINDLEY, T. Narrativa de uma viagem ao Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.
6 FRANÇA, J. M. C. Outras visões do Rio de Janeiro colonial. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2001, pp. 258-286.
7 KEITH, G. M. A Voyage to South America. London: Richard Phillips, 1810, pp. 16-18.
8 HARO, M. A. P. de (Org.). Ilha de Santa Catarina. Relatos de viajantes estrangeiros nos séculos XVIII e XIX. Florianópolis: Editora da UFSC, Editora Lunardelli, 4ª ed., 1996, pp. 137-145.
9 FRANÇA, J. M. C. Outras visões..., pp. 297-309 e 311-320.
10 TURNBULL, J. Voyage round the world, in the years 1800, 1801, 1802, 1803, and 1804; in which the author visited the principal islands in the Pacific ocean, and the English settlements of Port Jackson and Norfolk Island. London: Printed for R. Phillips by T. Gillet, 1805.
11 COSTA, H. J. da. Correio Brazilliense, ou Armazém Literário. São Paulo: Imprensa Oficial; Brasília: Correio Brasiliense, 2002, v. XVI, p. 141.
12 TURNBULL, John, Op. cit., pp. 5-6.
13 GUNTHER, L. The British community of 19th century Bahia: public and private lives. Oxford: University of Oxford Centre for Brazilian Studies, 2002, pp. 5-8 (Working Paper Series).
14 Trata-se da esquadra francesa comandada pelo capitão Jean-François Landolphe. Acerca da passagem de Landolphe pelo Brasil, ver: FRANÇA, J. M. C. Visões..., pp. 253-259.
15 A passagem acima foi extraída da primeira edição da obra: TURNBULL, J. Op. cit., pp. 8-18.
Revista História - UNESP

RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM (final)


RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM*
Imagens e representações sobre o Novo Continente entre os séculos XVI e XVIII
Mary Lucy Murray Del Priore

Esta estranheza diante da distante diversidade, longe de favorecer o desabrochar de um olhar objetivo, revelou-se para a cristandade como o mais íntimo dos espelhos: aquele dos seus próprios desejos individuais e de seus sonhos coletivos.
Distante ou próximo, diz Nicole Pellegrin, o Outro é permanentemente aquele que está vestido de forma diversa. E isto em um tempo em que a veste, não contente de distinguir o animal do homem, torna-se também um costume e elemento fundamental de discriminação social e cultural. A representação da nudez dos americanos, ou a escolha de seus objetos vestimentares, reporta- se à influência da dupla herança, bíblica e mitificante, que estrutura, então, a cultura européia e cristã. Não é necessário lembraras quatro significações simbólicas que a teologia medieval emprestava à nudez (naturalis, temporalis, virtualis, criminalis) para explicar os julgamentos contraditórios sobre a nudez dos americanos estampada nas representações iconográficas dos mapas. A insistência e a ambivalência destes julgamentos são o fruto de uma obsessão onde coabitam tanto a idéia de uma nudez vergonhosa, devido ao impudor e à indigência, quanto aquela, motivada pelas descobertas greco-latinas no Renascimento, de uma nudez gloriosa, símbolo de inocência ou de humildade.
Entre o sonho da Idade de Ouro e o fantasma da besta brutal, a realidade dos costumes indígenas arriscava-se a fecundar o tema culturalmente valorizado na Europa, de corpos nus e
bem proporcionados, mas as escassas penas que cobriam as chamadas partes pudendas acabaram por introduzir uma irredutível deformidade e também uma uniformidade no despudor.
Numa época de releitura da Bíblia, devido às Reformas, poderiam seres marcados pelo pecado original andar nus sem infringir as leis de Deus? A quase nudez dos americanos não os aproximaria da seita herética adamita, condenada tanto por protestantes quanto por católicos?
As alegorias sobre a América e seus habitantes sublinhavam a parcimônia com que as informações chegavam à Europa. Ao visualizar sob formas sintéticas a aparência de sociedades
inteiras, elas colocam em evidência um sistema iconográfico que revela menos as diversas formas de viver dos vários grupos que povoavam o Novo Mundo do que os reduzidos estoques de imagens de que dispunham os ateliers de impressores entre os séculos XVI e XVII.
No imaginário ocidental o índio nu e emplumado reemerge no fim do século XVIII, depois de atravessar um purgatório de ballets à fantasia que pontilharam as suas aparições nas cortes européias no período anterior. Sua presença nas vinhetas e alegorias, todavia, não teve por finalidade fornecer, na sua totalidade, os materiais de um verdadeiro conhecimento do outro entre os séculos XVI e XVII. Evocando a bizarria humana, sua diferença trabalhava para a única Ciência digna deste nome, aquela que procurava encontrar, através das coisas, a vontade de Deus.
Uma vinheta num mapa de Josua Van Ende (1640) permite uma observação mais acurada do tipo de leitura que se fazia: gesticulando, uma fila de homens segue um índio que bate um tambor em direção a um pequeno santuário com uma abóbada arrendondada. Em seu interior, índios em transe oficiam diante de um ídolo que sustentava várias cabeças de animal.
Ao fundo, homens enterram um morto. A volta, mulheres acocoradas choram. A aldeia é constituída por palhoças arredondadas. Um guerreiro observa a cerimônia. Sentados sobre um banco rústico, selvagens conversam. Ao centro um homem está ajoelhado e de sua cabeça escorre matéria encefálica. O carrasco brande a borduna. Outro índio lança-se, arco em punho e
aljava nas costas, em direção a um grupo de selvagens. Estes estão avaliando a coragem de um prisioneiro que, embora amarrado pela cintura, atira uma pedra ao seu sacrificador. A golpes de
borduna e entre chuvas de flechas, selvagens guerreiam. Feridos agonizam pelo chão.
Ameríndios desmembram um morto e cada qual toma a sua parte. O escalpo desta vítima será retirado depois que um guerreiro enfiar-lhe uma flecha no ânus. Próximo à grelha, um homem agachado aviva o fogo, e todos à volta mastigam carne humana. A sombra de uma árvore, protegida por uma rede em dossel, América observa a cerimônia de canibalismo. Seus cabelos estão amarrados numa longa trança, colares de pérolas pendem de seu pescoço e tornozelos, nas costas uma capa curta de penas. Na mão direita segura o 'Iupã, maça cerimonial, reconhecível por pequenas penas fixadas na parte inferior do punho. A seus pés, o chão está juncado de diferentes capacetes e chapéus que representam as variadas nações que povoaram a América, somados a diversas armas e ornamentos de plumas e penas. Vê-se ainda um como através do qual os índios chamavam-se para a guerra e urna cabeça humana decapitada trespassada por duas flechas. Na mão esquerda, América traz seu arco. Seminua, está sentada sobre um gigantesco tatu.
A imagem permite a descoberta de um Outro absoluto. Aquele sobre cuja antropofagia Montaigne já tinha escrito. Nesta vinheta o ameríndio não é apenas aquele cuja aparência física, mores, vestes, vida social, religião não têm nenhum ponto comum com os cristãos da Europa.
Ele é definitivamente o Outro, cuja presença nem os antigos greco-latinos nem a Bíblia invocavam, diferentemente do africano e do asiático, velhos companheiros de comércio e de trocas. Nestes, o estranhamento ou a “barbárie”, a diferença e a “inferioridade” comportavam níveis conhecidos. O Outro americano, a despeito da bula Sublimis Deus de Paulo III, promulgada em 1537, conferindo-lhe o status de ser humano, estava na consciência comum e no imaginário coletivo europeu mais próximo da besta selvagem, por nutrir-se de carne humana. Contrariamente ao “bárbaro”, que a tradição humanista e a Antiguidade mediterrânica tinham de alguma maneira assimilado, conferindo-lhe um status no seio de uma dialética lingüística e sócio-cultural, o selvagem americano é o primitivo que vive no seio de uma natureza exuberante e virgem, ignorando as leis mais elementares da sociedade, sobretudo, da sociedade urbana, modelo europeu de sociedade e de sociabilidade. Ele não conhecia a comunidade familiar, era incapaz de falar ou empregar uma linguagem de comunicação, e, em resumo, melhor seria que constituísse um capítulo à parte, num livro de História Natural, de Mirabilias et Monstra ou de singularidades. O americano, do qual a alegoria da América é uma representação, faz jus ao texto simbólico e sintético do Atlas que Abraham Ortelius editou em 1568:


“Celle qui tout en bas sur la terre couchée
Toute nüe tu vois de plumettes coiffée
Ayant en l’une main le chef d'un homme mort
Et l'autre le baston, d'ont elle fait l'effort
Meurdrissant les humains d'une cruauté grande,
Les corps desquelz apres lui servent de viande;
Ayant dessus le front une pierre de pris,
Dont elle en a tout plein en sa terce et poupris,
Nous representons icy l’Amerique l'avare;
La gourmande par trop inhumaine et barbare
Les plumes sur son chef et gemmes sur son front,
Autour la greve encor des sonnettes en rond
Son tous les ornements dont elle se decore.
Ell’manie souvent l’arc et flesches encore,
Par lesquelles souloit les pouvres gens navrer,
Pour (comme je t’ay dit) desmembrer et manger
Puis, pleine de la chair des hommes, qu’en Ia chasse
Elle a prins et tuez, et de Ia chasse lasse'
S'en va dormir dessus un harnas estendu
A deuz arbres voisins, où elle 1’a pendu”


Nos textos escritos ou iconográficos observa-se o empobrecimento temporário que acompanhou os valores humanísticos no fim do Renascimento. A Igreja Católica, por seu turno, colocando as artes a serviço da moral e do dogma, ensejava que se lesse a nudez e a antropofagia americanas como mais uma razão para a catequese. A presença de tais representações na iconografia cartográfica era a prova lógica da existência de primitivismo nas terras do Novo Mundo, mas tais imagens sublinhavam também a energia retórica e o poder de legitimação conferido aos mapas na idade moderna. Figurado nas cartas geográficas, o ameríndio deixa de ser sujeito humano para constituir-se em objeto de saber europeu e cristão.
Sua nudez é aquela da fé e da lei. O olhar que lançam sobre ele é o de um colecionador de curiosidades. Na Wunderkammer que possuía Montaigne em seu Chateau, exibia-se uma invejável americana composta por redes, maças, bastões de ritmo e artefatos de penas.
A alegoria da América, o ameríndio e seus petrechos, depois de sofrerem a inevitável deformação dos quadros mentais europeus, saltam dos mapas para outras obras de arte.
Circulam na cultura do Velho Mundo associados à inferioridade técnica, à bestialização e, conseqüentemente, à escravidão. São sempre representados de acordo com os objetivos europeus de exploração e catequese. Michelangelo os insere no grupo do Juízo final pintado na Capela Sistina, próximo ao altar mor. É Fidelino Figueiredo quem descreve: “Um moço vigoroso levanta para os céus, isto é para o mundo da salvação, com toda a energia mas sem constrangimento no esforço dois homens etnicamente exóticos: um negro e um índio, este em hábito eclesiástico. Não lhes dá a mão diretamente, levanta-os pelo rosário a que eles se apegam, como náufragos se afincam no cabo que lhes estendem...”
Frans Francken, num quadro sobre a abdicação de Carlos V, retrata a alegoria da América de joelhos, entre tesouros e um tatu. Araras, papagaios e macacos freqüentam as “festas campestres” pintadas por Dirck Hals ou as gravuras de Jean de Mes. As faianças de Delft, ilustradas por autores anônimos, traziam africanos vestidos à americana. O luxo vestimentar aderiu às cores rutilantes, às plumas e aos rosários de pequenas conchas. Nume festa realizada por Luís XIV em junho de 1662, o Duque de Guise conduziu puma quadrilha de “americanos”, vestidos com peles e galhos de pau-brasil, trazendo às mãos pesadas e mortais bordunas. Israel Silvestre e François Chaveau, encarregados de transportar para gravuras coloridas com guache o famoso Carrousel que se formara, faz acompanhar os bizarros ameríndios por sátiros e um unicórnio, como se todos, indistintamente, pertencessem a uma terra imaginária.
Montaigne perguntava: “Ya-t-il rien de plus conforme a notre nature que d'aimer le changement et de se plaire à la diversité?”
A diversidade serviu para semear, nesta invisível paisagem de idéias que eram os mapas modernos, o retrato de uma América diferente, cuja diferença era sinônimo de perigo e estranhamento. Este “retrato da América quando jovem” foi pintado com traços e imagens que
procuravam convencer o leitor, cristalizando representações e ensinamentos polêmicos, discretos ou explícitos sobre o que seria o Novo Continente. Atrás de tais imagens, a cristandade européia projetava-se como superior, poderosa, remida pela fé e consagrada pelo avanço técnico. Longe da visão romântica que os pintou tio século XIX como se fossem feitos de “astros e éter”, os ameríndios são apreendidos, entre os séculos XVI e XV111, como inumanos, bárbaros, avaros e gulosos. A descoberta, a que se referia inicialmente um entusiástico La Popelinière, transformou-se através dos mapas e cartas geográficas num misto de espanto, desprezo e horror.


Bibliografia
ALBUQUERQUE, Luís. 1989. A náutica e a ciência em Portugal. Lisboa, Gradiva.
__________. 1987. As navegações e a sua projeção na ciência e na cultura. Lisboa, Gradiva.
BENASSAR, Bartolomé e BENASSAR, Lucile. 1991. 1492 - Un monde nouveau?. Paris, Perrin.
BROC, Numa. 1974. La géographie des philosophes - géographes et voyageurs français au XVllle siècle. Paris, Ophrys.
CEARD; Jean e MARGOLIN, Jean-Claude. 1987. Voyager à la Renaissance. Paris, Maisonneuve & Larose.
DIAS, J. S. da Silva. 1973. Os descobrimentos e a problemática cultural do século XVI. Lisboa, Editorial Presença
CHARTIER, Roger. 1990. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa, Difel.
ELLIOT, J. H. 1984. O Velho Mundo e o Novo 1492-1650. Lisboa, Editorial Querco.
FIGUEIREDO, Fidelino de. 1987.A épica portuguesa no século XVI. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
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siècles. Paris, Macula.
LESTRINGANT, Frank. 1990. Le huguenot et le sauvage. Paris, Klincksieck.
LESTRINGANT, Frank.1991. L'atelier du cosmographe ou l'image du monde à Ia Renaissance. Paris, Albin Michel.

PELLEGRIN, Nicole. 1987. “Vêtements de peau(x) et de plumes: la nudité des indiens” in Voyager à la Renaissance, org. Ceard e Margolin, Paris, Maisonneuve & Larose.
TAILLEMITE, Étienne. 1987. Sur des mers inconnues. Paris, Gallimard.


Mary Del Priore é professora do Departamento de História da USP


Revista Estudos Históricos - CPDOC-FGV

RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM* (parte 2)

RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM*
Imagens e representações sobre o Novo Continente entre os séculos XVI e XVIII
Mary Lucy Murray Del Priore


Nesta perspectiva, observa-se também que desde o Renascimento uma nova convenção pictural somara-se à já tão utilizada iconografia das alegorias presente na cartografia. A América, como os outros continentes, surge personificada como urna mulher vestida de atributos e acompanhada de animais característicos do Novo Mundo. Assim, com variantes de detalhes que se revezam desde o século XVI, ela emerge num “décor” de árvores tropicais, paramentada com uma coroa, um cinto e um bracelete de penas. A seus pés jaz um tesouro, guardado por um jacaré, uma tartaruga, um tatu e papagaios. Suas armas são um arco, aljava e flechas. A noção de exotismo domina a representação da América como o índio no motivo do selvagem bárbaro, cruel, antropófago, ou o seu contrário, o homem em estado natural, o “bom selvagem” das Luzes. Este índio de convenção se prestará a inúmeras metamorfoses e será freqüentemente utilizado nas vinhetas ou cartouches dos mapas.
Observe-se que a descoberta da América trouxe, na sua esteira, a proliferação de um certo gênero literário: atlas, relações de viagens, cosmografias e mesmo coleções agrupando diferentes relatos de diversos viajantes nos quais emergia a experiência européia nas novas terras, mas também a visão própria da cultura ocidental na permanência de seu laço com o Novo Mundo e suas transformações. No interior desta literatura, tanto a gravura sobre madeira quanto aquela realizada em talho doce foi largamente utilizada para permitir uma maior riqueza de modelos ou de detalhes sobre os habitantes e os mores americanos. As duas diferentes técnicas não tinham senão o alvo de aprimorar o texto com imagens singulares deste vasto e aparentemente estranho mundo novo.
Antes que a América fosse descoberta, existia, contudo, um outro tipo de imagem e estampa de tema alegórico que representava as quatro estações, os quatro humores, as quatro virtudes cardeais etc. Esta forma de decoração de vinhetas era herdeira de tradições medievais. Santo Isidoro expusera o significado escondido dos números num tratado intitulado Liber Numerorum, e este tipo de especulação estendeuse a outros autores do período moderno. O número quatro era o dos evangelistas, dos elementos (água, ar, fogo, terra), dos quatro rios do Paraíso, dos quatro ventos, das quatro idades do homem, das quatro letras do nome de Adão.
Sete eram os dias da semana, os pecados mortais, as idades do mundo. Nos mapas modernos, esta tradição mantém-se incorporando também os quatro continentes. Willem Janszoon Blaeu, em seu Nova Totius Orbis Terrarum, utilizou vinhetas com os sete deuses gregos, as sete maravilhas, os quatro elementos e as quatro estações. Ortelius, no seu já mencionado Theatrum..., apresenta 70 mapas detalhados dos países dos quatro continentes, alérnde mapas sobre os quatro continentes e um mapa-múndi, todos alegoricamente decorados. Em 1668, Frederick de Wit recorreu às ilustrações de Rorneyrr de Hooghe para encheras vinhetas sobre os quatro elementos que adornariam um de seus mapas, e este artista, por sua vez, utiliza seminuas e arrendondadas figuras femininas que se espalham em campos de trigo, no céu entre anjos e pássaros, entre monstros, barcos e sereias no mar, e em meio ao fogo da guerra.
Os mapas publicados a partir do século XVI já trazem consigo a marca de um olhar característico sobre a América. Ainda presente em Pacheco Pereira ou Fontenau, o caldo do maravilhoso medieval confrontado com as realidades vai desaparecendo, e uma teoria humanista da pintura faz a sua transferência para a cartografia. Nela, o pressuposto fundamental é a imitação ideal da natureza humana em ação. A arte deveria exprimir uma verdade geral em detrimento do específico ou do local e, inspirada na literatura greco-romana, almejaria deleitar e instruir simultaneamente. Nesta linhagem é que, em 1630, Blau incorpora a seu Atlas a iconografia de povos que habitavam as terras americanas. Eram os Mexicani, os Rex e Regina Floridae, os Peruviani, os Brasiliani militates, entre outros. Seus corpos são desenhados com todas as características do classicismo humanista: a musculatura belamente torneada, os troncos escassamente vestidos, as fisionomias européias, os cocares, cintos e alguns mantos de penas, as crianças com ar angelical. No Theatre de la Guerre en Amerique telle qu'elle esta present possedée par les espagnols, Pierre Morder, em 1705, inclui cenas de mineração de ouro é índios vestidos com penas, apontando para os cofres cheios de moedas, barras de ouro e jóias, ofertando ao espectador-sonhador um retrato da rotina e da rota dos tesouros americanos. Ao fundo, um dado real: barcos ingleses e holandeses disparam tiros de canhão contra os espanhóis e franceses.

A visão de mundo passada através destas imagens e de outras tantas fundamenta-se num elogio ao presente e ao seu valor civilizacional. Por isso mesmo, os gravadores europeus permitem-se a tentativa de compatibilizar mundos diferentes. No mapa mais prolífico, editado no final do século XVII, Frederick de Wit mistura na América imagens naturalistas e tropicais:
caravanas, camelos e autoridades trajadas com turbantes orientais freqüentam a mesma cena que europeus enchapelados, portando cruzes e bandeiras, e negros africanos vestidos à americana. O jogo antropológico, como diria Luiz Felipe Barreto, faz-se no interior do espelho religioso, através do qual só se vê o Outro como o anticristão. O cristianismo é o denominador cultural europeu e, fora dele, só existem indícios do que possa anular o idílio anunciado pela Igreja ou pelos Estados conquistadores.
A iconografia nos mapas modernos coloca-se, assim, a serviço da legitimação moral de assuntos profanos, bem como dos dogmas cristãos. O não-cristão apresenta-se seminu para ser catequizado; o muçulmano, com cimitarra e turbante, devia ser convertido. Todo um conjunto de imagens extraídas do caleidoscópio eurocêntrico justificava a presença ocidental em terra americana. E tudo se justificava ao ser pintado na América. Até animais africanos, como antílopes e elefantes, aparecem nas cartas sobre a América. O fato é que uma leitura específica se fazia destas cartas. Uma leitura encorajada em nome da conveniência, da semelhança e, quando muito, da erudição.

A América e os americanos: “jóias maravilhosas feitas de astros e éter”?
Como já afirmamos, a alegoria passa a ser muito utilizada nos mapas modernos, pois ela permite recuperar uma enorme riqueza de detalhes, inserindo-se nesta matriz aquela da América. Pela presença de objetos emblemáticos (cachos de uvas, trigo, cornucópias), um tema tornava-se alegórico. O cristianismo, por exemplo, representava-se sob a forma de um castelo que devia ser defendido; armas, castelo-forte, navios figuravam em sua alegoria. Depois da descoberta do Novo Mundo, a Europa, identificada com o cristianismo, representava-se como o continente detentor de um formidável poder geopolítico em face da Ásia, da África e da América. A questão mais contundente a ser observada nas vinhetas alegóricas é a de como a cristandade ocidental se projetava e se representava nas suas relações com os outros continentes. Ou ainda, de como esta mesma cristandade apreendeu e representou o Outro por intermédio de alegorias.
Há três pontos que devem ser observados na cartografia para se ter uma idéia de como um discurso específico sobre a América e seus habitantes foi construído: a postura (de pé, sentada, deitada), a roupa (nudez, drapeado, saia, vestido) e os instrumentos (cetro, turíbulo, ramos, maça, cabeça decapitada). Todos estes elementos traduzem uma ordem hierárquica social, cultural e religiosa entre as distintas alegorias sobre os continentes.
Sempre apresentada de pé ou sentada, a Europa porta coroa, vestido longo, às vezes chapéu, coroa de flores ou capacete. Seus instrumentos são o cetro, a cornucópia da abundância, a esfera e a cruz, um touro e anuas.
A Ásia mostra-se de pé, com vestido, chapéu/turbante, trazendo nas mãos ramos de canela ou pimenta, turíbulo com especiarias, e acompanhada por um camelo.
Seminua, vestida com um drapeado ou uma saia, aparece a África. Ora porta um guarda-sol, ora um ramo, e está sempre secundada por crocodilos, elefantes ou leões. Sua posição é sentada ou deitada.

Quase sempre deitada, com a cabeça ornada de penas, trazendo sobre o corpo nu apenas um saiote e carregando um arco, flechas, uma maça, tendo aos pés um tatu ou um jacaré, apresenta-se a América.
A posição espacial que ocupa a imagem, valorizando ou não uma postura diferenciada, é denotativa da mensagem que se quer passar sobre o continente. Alongada ou deitada encontra-se a cultura considerada primitiva, ou seja, a América. De pé, as civilizadas Ásia e África; espiritualizada e reinante, símbolo da hegemonia geopolítica, a Europa.
A transformação de fibras vegetais, animais ou minerais denota, para cada alegoria, um estado de evolução técnica e uma organização social concretizada na vestimenta. Esta constitui-se num elemento emblemático distintivo de uma hegemonia cultural entre os povos representados. Em contraste com os vestidos luxuosos da Europa, ou sofisticados da Ásia, a América veste-se com plumas ou penas que a remetem ao aspecto arcaico do indivíduo primitivo coberto com peles de animais. Até o guarda-sol portado muitas vezes pela África tem um caráter de vestimenta suplementar contra as agressões exteriores que o saiote de plumas não possui.
Mesmo quando aparecem ambas seminuas, África e América apresentam diferenças cuja leitura esconde distintos sentidos. A América é pintada com seios pontudos, cintura curvilínea e o ventre achatado de uma donzela púbere e, portanto, infecunda. A África possui os seios pesados e é desenhada como uma mulher madura cujo potencial está em plena fruição ou desfrute. Esta sucessão de significantes na alegoria sobre a América testemunha a lenta digestão intelectual do traumatismo que foi para os europeus a descoberta do Novo Mundo.
Revista Estudos Históricos - CPDOC-FGV

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM* (parte 1)


RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM*
Imagens e representações sobre o Novo Continente entre os séculos XVI e XVIII

Mary Lucy Murray Del Priore
“Voilà un monde qui ne peut estre remply que de toutes sortes de biens et choses tres excellentes; il ne faut que les decouvrir “. La Popelinière, Les trois Mondes, 1582

Desde o achamento da América, cada século exprimiu-se na percepção do Novo Continente através de uma visão de mundo que lhe era própria e específica. Sucedendo-se uma a outra, podemos, de início, identificar imagens da América como uma passagem para o Oriente-grande preocupação do século XVI - caminho, portanto, para a fonte de sonhadas riquezas referidas ao Eldorado. Esta imagem ligava-se a outra, igualmente cara ao Renascimento: aquela de uma Idade de Ouro onde vicejaria o estado natural que teria antecedido a Antiguidade. O século XVII é marcado por uma visão ao mesmo tempo missionária e colonial, fruto do desejo universal de conquista, mas também do poder absolutista de jovens Estados Modernos e da Igreja reformada. Na visão naturalista e científica do XVIII, os enciclopedistas associavam a relatividade religiosa com a noção de um homem originalmente puro, o “bom selvagem”, o que abriu as portas para o pré-romantismo. Já no início do XIX, a França, por exemplo, olhava a América através de uma visão de mundo que fez desabrochar uma sensibilidade romântica, na qual o exotismo teve um grande papel. Vejam-se os clássicos Atala, de Chateaubriand, ou Les Incas, de Marmontel, para ficar nos mais conhecidos.
Testemunha atenta destas variações na percepção do Novo Continente, o mapa e seus ornamentos apresenta-se como um alicerce cognitivo no qual se entrelaçam a imagem de positividade do próprio documento e a visão de mundo de que é portador e a partir da qual se funda a imagem do Outro. É importante o estudo do sentido das imagens nas vinhetas dos mapas para conhecer a representação dada pelo cartógrafo, somada àquela dada pelos indivíduos, grupos e sociedade que, ao contemplá-los, vêem aí uma paisagem real e outra, ideal.
* Sou grata a OEA e ao Governo da França pelo prêmio que me permitiu pesquisas na Bibliothèque Nationale de Paris, onde levantei o material cartográfico para este artigo.

Os mapas medievais, Mappae Mundi, reconhecidos como “cartes moralisées”, eram mais portadores de valores ideológicos do que repositórios. de fatos geográficos e históricos. Um saltério anônimo do século XIII, por exemplo, revelava a localização da muralha atrás da qual Alexandre o Grande prendera as hordas de Gog e Magog, trazia um catálogo de humanidades consideradas monstruosas e derivadas dos escritos de Solinus, bem como apontava a situação de Jerusalém e do Paraíso. Neste período, desenhavam-se distâncias de forma esquemática, e sábios religiosos copiavam, segundo a tradição, manuscritos e cartas geográficas transmitidas por gerações passadas. Os homens se interessavam muito pouco pela forma verdadeira da terra, enquanto a Igreja Católica incentivava os cartógrafos a retratarem-na como expressão artística e contemplativa de suas próprias idéias. Esta imagem “fechada” do mundo não foi jamais modificada pelos relatórios de religiosos que fizeram viagens de missões nas regiões longínquas, em particular na Ásia. Outras viagens foram necessárias até que este mundo se abrisse.
O Renascimento da cartografia foi grandemente determinado pelas descobertas geográficas. Estas, por sua vez, não foram obra do acaso. Estão ligadas ao desenvolvimento do comércio da época e à evolução de conhecimentos técnicos, como a descoberta da bússola, da orientação de ventos e correntes, o aperfeiçoamento da navegação marítima e a introdução de novos tipos de barcos, nos quais os marinheiros tinham mais esperanças de voltar ao porto.
Neste mesmo período, inicialmente na Itália e depois no resto da Europa, a imprensa começa a se impor, e sem ela é impossível pensar no desenvolvimento da cartografia. A xilogravura pertencia às técnicas gráficas mais antigas e foi, até meados do século XVI, a técnica principal para a fabricação de mapas. Neste setor de artes gráficas os alemães tinham a primazia, por serem mais artistas do que artesãos. Albrecht Dürer era um destes expoentes e, entre outros, destacou-se por suas cartas impressas à mão, ou por xilogravuras produzidas a cores.
O pensamento na Europa à época dos descobrimentos inseria-se numa concepção de História dominada pela idéia de que o Mediterrâneo e as partes orientais eram o centro de difusão em torno do qual se agrupava o mundo habitado. A multiplicação de civilizações exóticas conhecidas incentivou, todavia, analogias, e nelas, o sentido de contrastes, às vezes críticos, sobre temas comparativos como as representações antropomórficas ou as correspondências estabelecidas entre os ciclos históricos do Velho e do Novo Mundo. Neste contexto, os mapas e seus ornamentos acabaram por constituir-se mais numa invisível paisagem de idéias do que na descrição de um terreno tangível sobre o qual se destribuíam formas e direções. O Theatrum Orbis Terrarum, de Abraham Ortelius (1527-1548), é um bom exemplo desta maneira de pensar, uma vez que coloca em causa a visão aristotélica e ptolomaica do mundo sem que as crenças populares nem a prática marítima tenham sido transformadas. Nele, a viagem real e aquela do espírito se misturam, permitindo a coexistência de lendas e fatos, de mitos vividos como realidades e de verdades descritas como fabulosas. Aí, por exemplo, a ilha de Próspero é reconhecível pelo seu público, capaz de descobrir o real através do imaginário. Esta geografia fantástica, patrimônio que desde a Antiguidade era transmitido aos diversos autores, irrigava outros trabalhos igualmente importantes. Duarte Pacheco, no seu Esmeraldo de Situ Orbis, indica na região da Serra Leoa a existência de “homens selvagens a que os antigos chamavam de sátiros, todos cobertos de cabelos e cerdas tão ásperos quanto porcos”. A cosmografia de Jean de Fontenau (1559) explicita, por sua vez:
“Et au dedans de Ia terre, (Angola), y a des gens gui n'ont point de teste et est Ia teste dedans Ia poitrine, et tout le reste forme d'homme.” Iesin Ulsius, numa carta feita em 1599 sobre a América do Sul, ilustra-a com homens sem cabeça, amazonas, animais insólitos e antropófagos.
Tal era a beleza e a riqueza dos mapas impressos ao longo do século XVI que estes não satisfaziam a demanda crescente de tiragens novas. Destinados a um largo público,
somavam-se a eles as cosmografias acompanhadas por mapas executados em xilogravura, cujo objetivo era familiarizar ao máximo o leitor com fenômenos e eventos ali descritos.

Diálogos silenciosos entre o real e o sonho
O estudo dos ornamentos cartográficos permite acompanhar a trajetória de um inventário de variantes que, modificando tal figura ou tal imagem, traz sentidos novos à interpretação dos mapas modernos. Atrás de cada vinheta dissimula-se uma intenção polêmica, mais ou menos explícita ou escondida, que visa justificar, convencer ou sublinhar. As imagens nos ornamentos e vinhetas das cartas geográficas propõem ao leitor a corneta compreensão do texto e sua justa significação. Neste papel, elas são um lugar de memória cristalizando uma única representação, uma história, uma propaganda, um ensinamento. Ou bem, como sugere Roger Chartier, são construídas como uma figura moral, simbólica e analógica, que salva o sentido global do texto cartográfico de sofrer uma leitura descontínua e errática. Neste uso, portanto, envolvem adesão, produzem persuasão e crença, exprimindo, finalmente, a teoria da intelecção pela imaginação.

Revista Estudos Históricos - CPDOC - FGV

UMA ENTREVISTA COM JACQUES LE GOFF.


UMA ENTREVISTA COM JACQUES LE GOFF

O medievista Jacques Le Goff é um dos principais expoentes da história das mentalidades. Nascido na França em 1924, formou-se em história e logo se integrou à escola dita das (a palavra é feminina) Annales, revista da qual é atualmente co-diretor.
Presidente, de 1972 a 1977, da VI Seção da École Pratique des Hautes Études, hoje École des Hautes Études en Sciences Sociales, é diretor de pesquisa no grupo de antropologia histórica do Ocidente medieval dessa mesma instituição. Entre outras altas distinções, Le Goff acaba de recebera medalha de ouro do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS),
pela primeira vez atribuída a um historiador.
Boa parte de sua obra está ao alcance do leitor brasileiro, traduzida para o português (ver lista bibliográfica no final da entrevista).
Nesta entrevista, concedida em Paris em janeiro de 1992 a Monique Aufiras, Le Goff sintetiza a sua concepção da história, descreve a sua formação, e dá um vibrante depoimento sobre a constituição da Europa e a tarefa do historiador.
- Ao receber a medalha de ouro do CNRS, o senhor definiu o historiador, em seu discurso, como um “especialista das mudanças das sociedades” e disse que a função da história é “introduzir alguma racionalidade na história vivida e na memória”. Mudanças, muitas vezes, significam crises. Como é possível introduzir alguma racionalidade no seio da tempestade?
- É possível, pela mediação daquilo que hoje tem o nome rebarbativo de problemática. Como sabe, pertenço à tradição das Annales, cujos fundadores, Lucien Febvre e Marc Bloch, definiram um tipo específico de história, a história-problema. Isso é fundamental para nós. Julgamos que o historiador tem o dever de colocar questões como eixo do seu trabalho. Em seguida, ele vê corno respondê-las, apoiando-se naquilo que, é claro, continua sendo o seu material específico, que são os documentos.
Logo, o próprio fato de partir de uma questão problemática já introduz alguma racionalidade. Depois, se o historiador pretende realizar uma obra científica - ainda que a história seja uma ciência muito peculiar, acredito que seja uma ciência - também deve levarem conta o movimento da história, a sua diversidade, sua irracionalidade, sua flexibilidade.
Pessoalmente, tenho grande interesse na história do imaginário e, no imaginário, há muita irracionalidade. Portanto, introduzira racionalidade na história não significa excluir o irracional, o impreciso, o flutuante, muito pelo contrário. Significa que a gente tenta explicar as mudanças históricas a partir da resposta a uma questão que, por sua vez, é racional.
- Não acha que a história, como as demais ciências sociais, tem como um dos seus problemas fundamentais o fato de sempre propor interpretações ex. post facto?
- De pleno acordo, isso é para mim essencial, eu diria até que é uma das bases científicas das ciências sociais e, particularmente, da história. Penso - e olhe que eu não estou sozinho nisso - que o historiador se sente pouco à vontade quando a gente chega ao imediatamente contemporâneo. Um dos motivos pelos quais é muito difícil estudar a história contemporânea é que não sabemos o que vai acontecer mais tarde. É preciso dizer isso claramente. Muitas vezes, os historiadores não querem assumir isso, colocam-se como se fossem os descobridores da evolução histórica. Nada disso! Eles devem partir daquilo que aconteceu para tentar compreender como e por que aconteceu.
Para mim, o fato de partir do ponto de chegada é o que garante a seriedade do trabalho do historiador. Além disso, há outras condições, outras qualidades, é claro, mas partir do ponto de chegada me parece essencial. É por isso que concordo com Marc Bloch, que denunciava “a idolatria das origens”. Muitas vezes, os historiadores das origens fazem o caminho inverso. Partem daquilo que começou, e descem o rio. Ora, penso que se a gente se satisfazem descer o rio, duas coisas podem acontecer: em vez de entender por que o rio corre, a gente acaba sendo levada por ele; ou então, corre o risco de perder o contato com o rio e ir para longe dele. O método, o trabalho do historiador, a meu ver, consistem necessariamente em uma constante ida-e-volta entre passado e presente. Sendo que o presente é obviamente o futuro. O futuro do passado.
Vou citar uma frase conhecida, que foi repetida por vários cientistas e, particularmente, pelo filósofo italiano Benedetto Croce: “Toda história é contemporânea.” O passado continua sendo interpretado, sempre é urna leitura contemporânea que se faz e, na compreensão do passado, temos de integrar essa leitura renovada, sempre recomeçada.
- Não se poderia aproximar essa observação da perspectiva antropológica, quando, ao descrever sociedades outras, estamos retratando também a nossa própria sociedade?
- Concordo inteiramente, mas, você sabe, há um número bastante grande de
historiadores que discordam. Para mim, é o ponto crítico que me permite distinguir os historiadores que pretendem renovara história daqueles que se satisfazem com a história tradicional. Acredito que, tanto na antropologia como na história, há esse movimento de ida-evolta.
É claro que as sociedades de que trata o historiador não são as mesmas sociedades que o antropólogo estuda, e mesmo quando eles acabam pesquisando as mesmas sociedades - o que
acontece cada vez mais - eles têm pontos de vista um tanto diferentes. O que os aproxima é sobretudo o fato de ambos considerarem as sociedades de modo global, sem fragmentá-las conforme os velhos escaninhos da história tradicional.


Clique no endereço para ler a entrevsta completahttp://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/89.pdf


CPDOC - Fundação Getúlio Vargas

Um estádio não é um campo de batalha, escreve Jacques Le Goff

28/11/2009
Jacques Le Goff

A polêmica que não para de crescer desde a partida entre a França e a Irlanda em 18 de novembro me parece ser a oportunidade para abrir um debate sobre o lugar do futebol, e, mais amplamente, do esporte dentro da sociedade francesa, assim como em nosso mundo contemporâneo.

O atacante Thierry Henry domina a bola com a mão no lance do empate da seleção da França com a seleção da Irlanda por 1 a 1 no Stade de France, em Saint-Denis, na França, em partida válida pela repescagem das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010. Com o resultado, construído a partir do gol irregular, a seleção da França se classificou para a Copa de 2010

Comecemos pela partida em si. Está sendo vista como um ultraje, pois seu resultado, cuja importância é considerável de um ponto de vista esportivo - a qualificação para a fase final da Copa do Mundo de futebol a partir de 11 de junho de 2010 na África do Sul - , se deve ao erro de uma pessoa, o árbitro. Mas este só é entendido dentro de uma reconsideração da direção da equipe da França e da organização internacional do futebol mundial.

Mas também mais amplamente pela revisão minuciosa das relações entre o esporte a sociedade. O esporte existe desde a Antiguidade. Ainda que alguns digam que ele morreu, assim como outras instituições antigas, durante a Idade Média. Ele foi substituído ou por atividades guerreiras reais, ou por práticas lúdicas sob forma de torneios ou de jogos rurais, que eram condenados pela Igreja, pois o desaparecimento do esporte na Idade Média se deve à hostilidade do clero em relação a certas práticas do corpo.

Como mostrei, a Igreja fazia jogo duplo em relação ao corpo. Por um lado, ela o condenava como algo de diabólico - ele era, segundo o papa Gregório Magno, "a abominável vestimenta da alma" - ; por outro, ela o exaltava e glorificava, em especial através da ressurreição do corpo. Dentro dessa tensão que é bem ilustrada pelo quadro de Pieter Bruegel, "O Combate entre o Carnaval e a Quaresma" (1559), o esporte está do lado errado, e não há nem circo, nem estádio na Idade Média.

O esporte renasceu a partir do fim do século 18, e se reconstituiu a partir do século 19 sob formas que lembravam o esporte antigo, sendo que a mais espetacular foi a renovação dos Jogos Olímpicos em 1896. Mas ele também reapareceu sob formas que a Antiguidade havia ignorado. Ainda que alguns esportes tenham conservado o caráter individual que o carregava na Antiguidade, foram criados jogos coletivos cujo nascimento é contemporâneo da difusão da democracia no Ocidente.

Em seu período moderno e contemporâneo, o esporte se tornou um fenômeno planetário. Se na Antiguidade o esporte tinha um aspecto público e de espetáculo, este se tornou predominante e essencial.

Então um incidente como este que ocorreu durante a partida França-Irlanda se tornou um fenômeno quase global que questiona indivíduos, mas também as instituições e os valores que sustentam nossas sociedades. Lembremos que o futebol se tornou o esporte mais popular na Europa, em parte da África, na América do Sul, com o Brasil e a Argentina à frente. Ele já conquistou o México e se expande nos Estados Unidos. Muito praticado na Turquia, em Israel e nos Emirados Árabes, ele se insinua principalmente na Coreia e no Japão.

Em um domínio que adquiriu tamanha importância no plano esportivo, mas também social e político, este incidente vai muito além de uma simples notícia. Parece-me que deve ser a ocasião para importantes reformas. As primeiras são de ordem esportiva. A mão de Thierry Henry me parece ter uma importância secundária, se deixarmos de lado as consequências que ela causou.

O primeiro problema a ser resolvido é o da qualidade da arbitragem. O árbitro se tornou central na arte do futebol. Muitas vezes ele é questionado. E, segundo minha experiência de espectador, na maioria das vezes ele o é com razão.

Não podemos criticar o árbitro da partida França-Irlanda por não ter visto a mão de Thierry Henry. Mas ele deveria ter perguntado a seu juiz de linha e ao capitão dos Azuis. Ele não fez nem uma coisa, nem outra.

Então é preciso exigir mais rigor na formação dos árbitros e fortalecer suas capacidades de julgamento, seja recorrendo a um árbitro situado atrás do gol, seja através do vídeo, ou ainda por outros meios que os especialistas encontrarem. Mas não se pode ficar como está.

Faço uma observação indiretamente ligada ao problema levantado aqui, mas devo assinalar que, ainda que seja delicado julgar a natureza de uma mão voluntária, involuntária ou, o que me parece ser o caso da mão de Thierry Henry, um simples reflexo (pessoalmente, eu não puniria estes dois últimos casos), a apreciação deve ser deixada ao árbitro.

As reações na França e no mundo inteiro são compreensíveis porque o resultado ia contra o curso do jogo. A França não jogou bem, e sua vitória foi vista como ultrajante. Para além da possibilidade de disputar novamente a partida, ao que sou favorável - , conviria reforçar o critério de seleção do seletor das equipes nacionais, de forma que a consequência de um incidente como esse não possa ser agravada pela mediocridade do jogo da equipe que se beneficie com ele.

Também acredito que esse incidente deva ser a ocasião para tentar deter os excessos nas relações que os públicos mundiais mantêm com o esporte, particularmente com o futebol. A repressão policial de pequenos grupos de encrenqueiros é evidente, mas é essencial que as instâncias que pesam sobre o público - escolas, famílias, governos e especialmente as mídias - insistam sobre o fato de que o esporte não é uma guerra, e que uma partida não é uma batalha. É um divertimento que não deve ser poluído pela injustiça ou por um erro evitável.

Dizem que o esporte pode unir os povos. Eu acredito nisso. Mas constato que, com exceção de algumas modestas declarações, ele não está sujeito à formação necessária. O esporte se tornou uma instituição. Ele deve obedecer a valores de justiça e de competição pacífica. O que se vê muitas vezes é o contrário.

Sobre o autor
Jacques Le Goff é historiador, autor de "Uma breve história da Europa", "Uma longa Idade Média" e "A bolsa e a vida", entre outros

É hora de cada um de nós reagirmos contra essa deplorável evolução que está transformando um esporte nascido com a democracia, capaz de alimentar um patriotismo pacífico, em uma explosão de nacionalismo desonroso e de comportamentos deprimentes.

Se a reflexão sobre essa partida estimular reformas profundas e o restabelecimento dos valores na relação entre o esporte e a sociedade, esse infeliz incidente terá servido para alguma coisa.

Tradução: Lana Lim

Le Monde

Kosovo, de mito a nação

29/11/2009
Luis Prados
Em Pristina (Kosovo)

A situação econômica, e não o conflito étnico, é a prioridade do novo país - energia, educação e predomínio da lei são os seus três desafios, segundo o governo

Pristina, capital de Kosovo, é provavelmente uma das cidades mais feias da Europa. A predominância do concreto da época comunista da antiga Iugoslávia se une aos danos causados pelos bombardeios da Otan na guerra de 1999, e algumas monstruosidades arquitetônicas modernas são uma homenagem ao mau gosto.

Mas o cúmulo fica por conta de uma escultura recém-inaugurada de Bill Clinton, um monumento à arte "kitsch" em homenagem ao ex-presidente dos Estados Unidos, cuja intervenção freou a tentativa de genocídio das forças sérvias de Slobodan Milosevic. Sobre um pedestal de mármore branco, sua figura de bronze se eleva como um boneco de cabeça grande com a mesma solenidade de um mímico de rua.

Nova nação Povo celebra a independência de Kosovo, em Pristina. "Estamos crescendo a 3% e precisamos chegar aos 7% para gerar emprego. É crucial sermos atraentes para o investimento estrangeiro e integrarmo-nos à Europa", comenta o economista Muhamet Mustafa

Mas sob essa superfície caótica de obras e engarrafamentos sugiram nos últimos anos bares, cafés e restaurantes com projetos e estilos que não perdem em nada para Londres e Berlim, e uma vida noturna à espanhola. No pub Moroon pode-se ouvir versões de "Entre dos Aguas" ou "La Bamba", interpretadas em "turbofolk", o ritmo frenético das orquestras dos filmes de Emir Kosturica, ou algumas ruas mais adiante, no Depot, uma antiga fábrica sem janelas, pode-se escutar o grupo Nothing Like the Sun fazer uma versão de Coldplay na mesma linha.

Nesses clubes de música ao vivo, milhares de jovens bebem até altas horas da madrugada, postergando mais um dia a decisão de construir o novo país ou emigrar em busca de um futuro melhor.

Cerca de 70% dos quase dois milhões de habitantes de Kosovo são menores de 27 anos, e a taxa de desemprego alcança 40%. Não é estranho, portanto, que conseguir um visto para escapar seja o objeto mais desejado de muitos e que o problema econômico seja hoje muito mais urgente do que o conflito étnico com a minoria sérvia.

O economista e professor Muhamet Mustafa afirma que o generoso investimento estrangeiro dos primeiros tempos está decrescendo e que há uma ameaça de estancamento.

"Estamos crescendo a 3% e precisamos chegar aos 7% para gerar emprego. É crucial sermos atraentes para o investimento estrangeiro e integrarmo-nos à Europa."

Ahmet Shala, ministro das Finanças, destaca três desafios: "Energia, educação e predomínio da lei". Além disso, a Sérvia impõe dificuldades às suas exportações. E quanto à corrupção, da qual muitos kosovares acusam as organizações internacionais que operam no país, o ministro assegura que "é um fenômeno comum aos Bálcãs, e provavelmente menor em Kosovo" do que em outros países do sul da Europa. Apesar dessas frentes abertas, Shala é otimista e acredita que, ao final, os kosovares criarão um "Estado multiétnico e democrático".

Talvez. No momento, a prioridade para boa parte deles é conseguir um visto para sair do país, e não só entre os jovens. Há meio milhão de kosovares trabalhando no estrangeiro, a maioria na Alemanha e Suíça, e as remessas enviadas pelos emigrantes correspondem a 15% do PIB da jovem nação. Nexrail Qahili, 59, é chefe de família em Lubishte, uma aldeia ao sul de Pristina. Dedicada à agricultura de subsistência, a família vive do dinheiro enviado por seu irmão, que trabalha na construção na Eslovênia. "A independência foi uma coisa boa", disse Qahili, "mas agora o problema é que não há trabalho. Antes éramos uma família grande e tínhamos mais renda. Agora não temos suficiente. Por isso há tantos negócios ilegais, para que as famílias possam sobreviver".

A paisagem e a história mudam em Mitrovica, ao norte da capital. A cidade, de cerca de 85 mil habitantes, 50 mil deles sérvios, está dividida física e etnicamente pela ponte sobre o rio Ibar, e nela foram registrados os maiores incidentes entre as duas comunidades. Na parte norte pode-se ver pichações contra a UE e a favor da união com a Sérvia.

Momcilo Arlov, diretor do Centro para o Desenvolvimento da Sociedade Civil, é taxativo: "A independência de Kosovo não começará a funcionar até que a Sérvia a reconheça".

Arlov, nascido na Croácia, porém antigo membro do Exército sérvio, é
pessimista: "Não há trabalho, não há futuro, a corrupção é avassaladora e as o que funciona é graças a Belgrado". Além disso, diz ele, a vida em Mitrovica é um caos porque "as organizações internacionais, Eulex, Unmik, Kfor, e a polícia kosovar têm competências exclusivas e mandatos diferentes, e por isso nenhuma faz nada."

Na Eulex, a missão europeia para a estabilização de Kosovo, a visão é diferente. Eles admitem que a coordenação entre as diferentes instituições internacionais [a Unmik é a missão da ONU, e a Kfor é a força da Otan] é "frustrante", e atribuem "a corrupção, a delinquência, o contrabando e os incidentes na fronteira" às instituições sérvias. "Belgrado faz um uso político da situação, para consumo interno e como base de negociações com a comunidade internacional", afirma um de seus representantes, que exigiu anonimato.

O médico Bajram Rexhepi, ex-primeiro-ministro e ex-prefeito de Mitrovica, opina que "há muitos pseudopatriotas, mais motivados pelo dinheiro do que por verdadeiros sentimentos nacionalistas. Os sérvios da cidade são reféns da política de Milosevic". Não lhe falta razão.
Os sérvios do norte de Kosovo são os restos do naufrágio da política ultranacionalista do ex-presidente. Os sérvios da Servia utilizam duas palavras para se referir a seus irmãos de Kosovo: "selak" (camponês) e "siptar", que significa albanês e é muito pejorativa. Na Espanha poderia ser equivalente a "sudaca" para se referir aos latino-americanos.

No povoado de Gracanica, a cerca de dez quilômetros de Pristina, vivem 13 mil sérvios - antes da guerra havia 30 mil -, e ali fica a sede o Partido Liberal Independente, dirigido por Nenda Rasic, ministro do Trabalho e Bem-Estar Social do governo kosovar, um dos dois ministros sérvios de gabinete que preside Hashim Thaçi. Rasic afirma que "Kosovo é uma região. Aceitamos nos integrar em suas instituições, mas não reconhecemos a independência", e acrescenta: "Belgrado não oferece nada à nova geração de jovens que vivem aqui. As pessoas querem coisas concretas, não só palavras. A segurança já não é a prioridade, é a economia".

Kosovo passou de mito a nação em pouco mais de dez anos. Já não é mais a lenda fundadora da Sérvia nem a emergência internacional pelo conflito étnico. É um país pequeno, pobre, jovem e novo, cujo êxito será crucial para o futuro da Europa.

Tradução: Eloise De Vylder

El País

"Pai dos Pobres" provocou milagre econômico no Brasil

25/11/2009

Jens Glüsing

O Brasil é visto como uma história de sucesso econômico e sua população reverencia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um astro. Ele está na missão de transformar o país em uma das cinco maiores economias do mundo por meio de reformas, projetos gigantes de infraestrutura e explorando vastas reservas de petróleo. Mas ele enfrenta obstáculos.

Elizete Piauí aguarda pacientemente por horas à sombra de uma mangueira. Ela calça sandálias de plástico e veste um short largo sobre suas pernas finas. A 40ºC, o ar tremula neste dia incomumente quente na Barra, uma pequena cidade no sertão, o coração do Nordeste brasileiro. Mas Elizete não se queixa, porque hoje é seu grande dia, o dia em que se encontrará com o presidente, que está trabalhando para fornecer água encanada para sua casa.

Em Sertania (Pernambuco), Lula vistoria as obras da transposição das águas do rio São Francisco

O barulho de um helicóptero sinaliza sua chegada. A aeronave branca sobrevoa a multidão antes de pousar. Uma escolta de batedores acompanha o presidente até a cerimônia.

Lula sai da limusine vestindo uma camisa branca de linho e um chapéu militar verde. Ignorando os dignitários locais em seus ternos pretos, Lula segue direto para a multidão atrás de uma barreira de segurança. "Lula, Papai!", chama Elizete. Ele a puxa até seu peito e aperta a mão de outros na multidão, permitindo que as pessoas o toquem, façam carinho e o abracem. Gotas de suor correm pelo seu rosto corado enquanto pessoas o puxam pela camisa, mas Lula se deixa embeber na atenção. Ele se sente em casa aqui, em uma das regiões mais pobres do Brasil.

O presidente passa três dias viajando pelo sertão. Ele conhece a rota. Ele veio à região pela primeira vez há 15 anos, em campanha, viajando de ônibus e ficando hospedado em locais baratos. Ele fazia paradas em todas as praças, sete ou oito vezes por dia, geralmente realizando seus discursos na traseira de um caminhão. Sua voz geralmente ficava rouca e fraca à noite e ele tinha que trocar sua camisa suada até 10 vezes por dia.

'Ele ainda é um de nós'
Agora ele viaja de helicóptero e carros blindados, com os carros da polícia, com suas luzes piscando, abrindo o caminho ao longo das estradas. Voluntários montam aparelhos de ar condicionado e bufês nos aposentos de Lula, às vezes até mesmo estendem um tapete vermelho. A imprensa critica as despesas, mas isso não incomoda a maioria dos brasileiros, porque eles têm orgulho de seu presidente. Ele chegou ao topo, eles argumentam, então por que não desfrutar de seu sucesso? "Ele ainda é um de nós", diz Elizete, "porque ele é o pai dos pobres".

Lula está familiarizado com o destino dos nordestinos pobres do Brasil. Ele nasceu no sertão, mas sua mãe colocou seus filhos na traseira de um caminhão e os levou para São Paulo, 2 mil quilômetros ao sul. A posterior ascensão de Lula ao poder começou nos subúrbios industriais de São Paulo. Sua mãe foi uma das centenas de milhares de pessoas carentes que deixaram o sertão atormentado pela seca, com seus campos ressecados e animais morrendo de sede, e migraram para o sul mais rico, para trabalhar como porteiros, garçons, operários de construção ou empregados domésticos.

Em um plano para tornar verde esta região árida, Lula está explorando as águas dos 2.700 quilômetros do Rio São Francisco, um rio vital para grandes partes do Brasil. O rio fornece água para cinco Estados, mas ele passa em torno do Sertão. Segundo o plano de Lula, dois canais desviarão água do rio por 600 quilômetros até as áreas atingidas pela seca. "É o mínimo que posso fazer por vocês", Lula diz às pessoas na Barra.

Projeto controverso
O megaprojeto, que exige a superação de uma diferença de altitude de 200 metros, tem um custo estimado de R$ 6,6 bilhões. Lula posicionou soldados na região para escavar os canais. Oito mil trabalhadores labutam nos canteiros de obras enquanto tratores e escavadeiras movem a terra pela estepe. Se tudo correr bem, 12 milhões de brasileiros se beneficiarão com o projeto de transposição de águas, que deverá ser concluído em 2025. É o maior e mais caro projeto de Lula, assim como provavelmente seu mais controverso.

Aqueles que o apoiam comparam Lula ao presidente americano Franklin D. Roosevelt, que represou o Rio Tennessee nos anos 30, para fornecer eletricidade à região, e que lançou o New Deal, um imenso programa de investimento para superar a Grande Depressão. Mas os críticos veem a obra como um imenso desperdício de dinheiro. O projeto também atraiu a ira dos ambientalistas e até mesmo o bispo da Barra já fez duas greves de fome contra ele. Ele teme que o projeto de transposição das águas secará ainda mais o rio, alegando que a irrigação beneficiaria principalmente o setor agrícola.

O bispo não está presente. Dizem que ele está participando de reuniões fora da cidade. Na verdade, o religioso está mantendo discrição. As críticas ao presidente são desaprovadas por sua congregação. Lula fala a linguagem das pessoas comuns, contando histórias de sua juventude aos seus simpatizantes, histórias dos tempos em que sua mãe o enviava para buscar água e ele voltava para casa equilibrando um balde pesado sobre sua cabeça. Ele tinha cinco anos na época.

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (à frente), com o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, exibe mãos sujas de petróleo na plataforma P-34, em Vitória, Espírito Santo

O Brasil já foi chamado de "Belíndia", um termo cunhado por um empresário que via o vasto país como uma mistura entre a Bélgica e a Índia, um lugar com riqueza europeia e pobreza asiática, onde o abismo entre ricos e pobres parecia intransponível. Lula foi o primeiro a construir uma ponte entre os dois Brasis.

Agora ele é tanto o queridinho dos banqueiros quanto ídolo dos pobres. Com o chamado presidente operário no comando, o Brasil está atraindo investidores de todas as partes do mundo. Jim O'Neill, o economista chefe do Goldman Sachs, inventou a sigla Bric para as economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia e China, prevendo um futuro brilhante para o gigante sul-americano. Mas seus colegas zombaram dele. A China e a Índia certamente tinham perspectivas, mas o Brasil? Por décadas o país era visto como um gigante acorrentado, atormentado por crises infindáveis e inflação.

Potência econômica ascendente
Mas hoje o "B" é a estrela entre os países Bric, com os especialistas prevendo um crescimento de até 5% para a economia brasileira em 2010. O Brasil está atualmente crescendo mais rápido do que a Rússia e, diferente da Índia, não sofre de conflitos étnicos ou disputas de fronteira. O país de 192 milhões de habitantes possui um mercado doméstico estável, com as exportações - carros e aeronaves, soja e minério de ferro, petróleo e celulose, açúcar, café e carne bovina - correspondendo a apenas 13% do produto interno bruto.

E como a China substituiu os Estados Unidos como maior parceira comercial do Brasil no início deste ano, o país não foi severamente afetado pela recessão no mercado americano como poderia ter sido. Os bancos do Brasil são fortes, estáveis e não encontraram grandes dificuldades durante a crise. Mais importante, entretanto, é o fato do Brasil ser uma democracia estável, ao estilo ocidental.

O país pagou sua dívida externa e até mesmo passou a emprestar ao Fundo Monetário Internacional (FMI). O governo acumulou mais de US$ 200 bilhões em reservas e o real é considerado uma das moedas mais fortes do mundo. Especialistas internacionais preveem uma década de prosperidade e crescimento para o país. Lula prevê que o Brasil será uma das cinco maiores economias do planeta em 2016, o ano em que o Rio de Janeiro será sede dos Jogos Olímpicos. O país será sede da Copa do Mundo de 2014.

E ainda há os recursos naturais aparentemente ilimitados do Brasil, vastas reservas de água doce e petróleo. O Brasil exporta mais carne do que os Estados Unidos. E a China estaria em dificuldades sem a soja brasileira. Nos hangares da fabricante de aviões, a Embraer, perto de São Paulo, engenheiros brasileiros constroem aviões para companhias aéreas de todo o mundo, incluindo aviões para trajetos menores para a Lufthansa.

Um patriarca extremamente popular
Em outras palavras, o presidente Lula tem bons motivos para estar repleto de autoconfiança. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, o estão cortejando, enquanto Wall Street praticamente o venera. Ele é até mesmo tema de um novo filme, "Lula, o Filho do Brasil", que descreve a saga de sua ascensão de engraxate a presidente.

Carisma Patriarca extremamente popular, o líder brasileiro é até mesmo tema de um novo filme, "Lula, o Filho do Brasil", que descreve a saga de sua ascensão de engraxate a presidente do país

Todo o Brasil desfruta da fama de seu presidente que, há menos de sete anos no poder, atualmente conta com um índice de aprovação acima de 80%. A oposição praticamente desapareceu e o Congresso se tornou submisso. Lula dirige o país como um patriarca, tanto que seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, o está acusando de "autoritarismo" e alertando que o Brasil está no caminho de um capitalismo estatal.

Há um quê de verdade nas alegações de Fernando Henrique. Lula nunca teve confiança na capacidade do mercado de curar a si mesmo e considera que o Estado deve moldar uma nova ordem social. Ele adora projetos impressionantes e gestos nacionalistas. Ele é pragmático, mas despreza especuladores. "Brancos com olhos azuis" levaram o mundo à beira da ruína financeira, ele disse recentemente. Ele falava dos banqueiros.

A crise financeira apenas confirmou o ceticismo de Lula em relação ao capitalismo. Lula acredita que o Brasil lidou melhor com a crise do que outros países porque o governo adotou medidas corretivas desde cedo. Segundo Lula, o combate à pobreza e a distribuição justa de renda não podem ficar aos cuidados do mercado.

Classe média crescente
Sob sua liderança, milhões de brasileiros ingressaram na classe média. A evidência dessa transformação social está por toda a parte: nos shopping centers do Rio e São Paulo, lotados de famílias barulhentas da periferia, ou nos aeroportos, onde mães jovens ficam na fila do balcão de check-in, aguardando para embarcar em um avião pela primeira vez em suas vidas. "A desigualdade entre ricos e pobres está começando a diminuir", diz o economista e especialista em estudos sobre a pobreza, Ricardo Paes de Barros.

A chave para aquela que provavelmente é a maior redistribuição de riqueza na história brasileira é o programa social Bolsa Família, sob o qual uma mãe carente que possa comprovar que seus filhos estão frequentando a escola recebe até R$ 200 por mês do governo. A primeira vista pode não parecer muito, mas este subsídio do governo ajuda milhões de pessoas a sobreviverem no Nordeste brasileiro.

Especialistas inicialmente criticaram o programa como sendo apenas uma esmola, mas agora ele é visto como um modelo mundial. Mais de 12 milhões de lares recebem os subsídios, com grande parte do dinheiro indo para o Nordeste. Graças ao programa Bolsa Família, a região antes atingida pela pobreza começou a prosperar. Muitos nordestinos abriram pequenas empresas ou lojas e a indústria descobriu o Nordeste como mercado. "Agora a região está crescendo por conta própria", diz Paes de Barros.

Lula foi abençoado pela sorte. Seu antecessor, Fernando Henrique, já tinha estabilizado a economia, que sofria com a hiperinflação, quando foi ministro da Fazenda em 1994. Ele impôs uma reforma da moeda ao país e implantou leis que forçaram o governo a adotar políticas com responsabilidade fiscal. Lula não mudou nada disso.

Não havia necessidade de Lula reinventar a política econômica e social do Brasil. O país tem uma tradição de controle total da economia pelo governo que remonta aos anos 30

O plano Marshall próprio do Brasil
Os centros nervosos da política econômica do país ficam abrigados em dois imponentes arranha-céus no centro do Rio. O Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), que conta com seus escritórios em uma torre de aço e vidro, foi criado com a ajuda americana e usando o KFW Banking Group da Alemanha como modelo. Ele financiou uma versão brasileira do Plano Marshall.

Nos anos 90, o BNDES administrou com sucesso a privatização de muitas estatais brasileiras. Hoje, ele fornece assistência a fusões e aquisições corporativas, ajuda empresas em dificuldades e financia os investimentos estratégicos do governo.

O BNDES é altamente respeitado. Acredita-se que seja em grande parte livre de corrupção e ele paga os mais altos salários do país. "Há um ano, os bancos estrangeiros batiam à minha porta perguntando se o Brasil estava preparado para a crise financeira", diz Ernani Teixeira, um dos diretores financeiros do banco. Teixeira conseguiu tranquilizá-los, notando que o BNDES tinha separado R$ 100 bilhões em reservas adicionais. No ano passado, o banco emitiu mais empréstimos e garantias de empréstimos do que o Banco Mundial - e até apresentou um lucro respeitável.

O segundo pilar do milagre econômico brasileiro fica diagonalmente no outro lado da rua: um bloco de concreto, iluminado à noite com as cores nacionais, verde e amarelo, é a sede do grupo de energia semiestatal Petrobras. A empresa planeja investir US$ 174 bilhões nos próximos quatro anos em plataformas de perfuração, navios e outros equipamentos para explorar as grandes reservas de petróleo além da costa do Brasil.

Há um ano e meio, a Petrobras descobriu novas reservas de petróleo sob o leito do oceano. Mas o petróleo será difícil de extrair, por estar situado abaixo de uma camada de sal em profundidades de pelo menos 6 mil metros. A expectativa é de que os poços comecem a produzir daqui pelo menos seis anos. A receita desse petróleo será depositada em um fundo que o governo usará principalmente para financiar novas escolas e universidades.

Lula apresentou recentemente uma legislação que regulamentaria a exploração das reservas de petróleo submarinas, fortalecendo assim o monopólio da Petrobras. Especialistas temem que Lula esteja criando um monstro corporativo poderoso e corruptível.

Obstáculos burocráticos
O imenso apagão que ocorreu simultaneamente em grandes partes do país, há duas semanas, teria sido um sinal de alerta de que o governo está indo além de sua capacidade? A modernização da infraestrutura decrépita do Brasil está avançando, mas lentamente. Bilhões de dólares em investimentos em portos, construção de estradas e no setor de energia existem apenas no papel, com a implantação atrapalhada por uma burocracia kafkaniana e um Judiciário moroso. Além disso, o país também não teve muito sucesso no combate à criminalidade.

O apagão em 18 Estados brasileiros levanta dúvidas sobre a real capacidade do Brasil decolar

Lula tem mais um ano no poder, após ter resistido à tentação de manipular a Constituição para garantir sua reeleição para um terceiro mandato. Ávido em preservar seu legado, ele tem buscado a indicação de sua ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, como sua sucessora, apesar da resistência dentro do próprio Partido dos Trabalhadores.

Rousseff, que foi integrante dos grupos guerrilheiros de esquerda após o golpe militar de 1964 e que posteriormente passou anos presa, tem uma reputação de tecnocrata competente, mas é vista como inacessível e autoritária. Ela está acompanhando o presidente em suas viagens pelo país, inaugurando novas estradas e usinas elétricas. Lula a apoia de modo tão determinado que até parece estar fazendo campanha para si mesmo.

Ela também está com ele em seu giro pelo Nordeste, apesar dos médicos terem removido um tumor de sua axila há poucos meses. Acredita-se que ela esteja curada e ela atualmente usa uma peruca após a quimioterapia. Seu rosto é pálido e seu sorriso parece congelado. O presidente a puxa para o seu lado quando ele caminha até o microfone, e ele menciona o nome dela repetidas vezes.

Elizete Piauí, ainda completamente embriagada pelo seu encontro com Lula, a viu pela televisão. Ela sabe que Dilma é a candidata de Lula e ela fará campanha pela ministra, apesar de que preferiria que Lula permanecesse no poder. "Eu votarei em qualquer pessoa que ele indicar", ela diz.

Lula também prometeu retornar. Antes do fim de sua presidência, ele planeja fazer outra viagem ao Nordeste para ver o quanto progrediram as obras no Rio São Francisco. Talvez, espera Elizete, ele terá atendido seu maior desejo até lá e ela poderá servir a ele um copo de água - de sua própria torneira, em sua própria casa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Revista Der Spiegel

Diários sexuais revelam o lado suave de Mussolini

27/11/2009
Alexander Smoltczyk

"Il Duce" Os diários da amante Carla Petacci, recém-publicados, revelam um Mussolini viciado em sexo e antissemita, que achava Hitler "muito agradável" - e ocasionalmente sofria de impotência



A amante de Mussolini, Clara Petacci, registrou detalhes íntimos do seu relacionamento com "Il Duce" no seu diário. Os diários dela, recém-publicados, revelam Mussolini como sendo um viciado em sexo e antissemita que achava Hitler "muito agradável" - e que ocasionalmente sofria de impotência.

Em determinada ocasião, o "pequeno Führer" de Il Duce aparentemente o deixou na mão. "Era como se eu fosse feito de madeira. Nem um só pelo do meu corpo ficou ereto", disse Benito Mussolini, surpreso. Maria José di Savoia, a mulher do rei Umberto 2º, fez tudo o que pode para seduzir o líder dos fascistas italianos na praia. Mas Benito simplesmente não foi capaz de corresponder às iniciativas de Maria José. "Eu não era um homem, mas sim um político", disse ele.

Pelo menos foi dessa forma que Mussolini, que foi o primeiro-ministro da Itália durante 21 anos e que era conhecido como "Il Duce", descreveu mais tarde a cena para a sua amante Clara "Claretta" Petacci, que a seguir registrou as palavras dele no seu diário.

Esses diários foram publicados pela primeira vez na semana passada, provocando uma consternação considerável em um dos descendentes de Mussolini. "Hoje em dia essa mulher seria condenada por espreitar os outros", afirma Alessandra Mussolini, neta de Il Duce. Ela insiste que "nem uma só palavra" escrita por Petacci sobre o seu avô é verdadeira.

"O seu gigante"
Os Mussolini nunca tiveram muita simpatia por Petacci, a única mulher que foi fiel a Mussolini literalmente até o final amargo.

O pai dela era um médico do Vaticano, e, quando adolescente, ela escrevia poemas sobre o "Duce, mio grandissimo Duce". Ela tornou-se amante dele aos 19 anos. Em 1936, após uma separação de dois anos, ela tornou-se a principal e permanente concubina de Mussolini, a única que tinha direito a guarda-costas, um motorista e aposentos no Palazzo Venezia.

Ela o chamava de "Ben", e ele referia-se a si próprio, de forma nada modesta, como "o seu gigante". Diante de Claretta, sua confidente, ele reclamava das botas apertadas que tinha que usar sempre. Uma versão sentimentalizada da história dela foi transformada em filme em 1984, tendo Claudia Cardinale no papel principal.

Mussolini tinha tanta obsessão por sexo quanto pelo seu próprio poder. Até o dia da sua remoção do poder, 25 de julho de 1943, "todas as tardes uma mulher era trazida para ele", recorda-se o seu criado, Quinto Navarra. As mulheres eram registradas no livro de hóspedes como "visitantes fascistas".

"Houve ocasiões em que eu tive 14 mulheres, e pegava três ou quatro delas todas as noites, uma após a outra", disse Mussolini. Mas agora, insistiu ele, Claretta era a única. "Amore", disse ele. "Por que você se recusa a acreditar em mim?".

Mussolini passou grande parte da noite anterior a 13 de março de 1938, quando a Áustria foi anexada ao Reich alemão no Anschluss, tentando persuadir Claretta a não ser ciumenta, e os seus esforços tiveram sucesso. Ela escreveu: "Nós fizemos amor como nunca antes, até ele sentir dor no coração, e depois fizemos de novo. Depois disso ele adormeceu, exausto e feliz".

Confidências A amante de Benito Mussolini,
Clara Petacci, registrou detalhes íntimos do
seu relacionamento com "Il Duce" no seu diário

"O seu precioso corpinho só tremerá para mim"
O próprio Mussolini era altamente ciumento e certificava-se de que cada movimento da sua "bambina" fosse observado. "O seu precioso corpinho só tremerá para mim", disse ele a Claretta, que era 29 anos mais nova do que ele. Petacci escreveu para passar o tempo que ficava esperando por ele. Ela escrevia rápida e abundantemente, tendo redigido quase 2.000 páginas só em 1938. Escrever era uma "terapia" para Petacci, segundo o editor Mauro Suttora, "porque ela passava os dias sem fazer nada, a não ser viver para Mussolini".

Entretanto, em sua maioria as conversas de alcova registradas por Petacci, intercaladas de críticas à mulher de Mussolini, Ráchele, são um registro de vício em sexo, paixão inconsequente e hipocrisia. Em uma ocasião, por exemplo, Mussolini chora ao descrever os horrores da guerra na Espanha, onde 150 crianças tinham acabado de ser mortas em um bombardeio aéreo. "Imagine só, prédios inteiros destruídos, como se fossem feitos de papelão". Mas a Itália havia ordenado a intensificação do bombardeio.

Houve várias publicações questionáveis nos últimos anos descrevendo Mussolini como um homem induzido, uma figura trágica que foi obrigada por Hitler a perseguir os judeus. Mas as notas de alcova de Petacci deixam pouca dúvida de que Mussolini era um completo antissemita. "Eu sou racista desde 1921", confidenciou Mussolini a Petacci em agosto de 1938. "Eu não sei como eles podem acreditar que estou simplesmente imitando Hitler, que naquela época não tinha sequer nascido. É preciso dar aos italianos um senso de raça, de forma que eles não produzam mestiços, e não arruínem aquilo que há de belo em nós".

"Hitler realmente gosta muito de mim"
Após retornar da Conferência de Munique em 1938, ele declarou a Claretta. "O Führer é muito agradável", disse Il Duce à sua amante. "Hitler é no fundo uma pessoa emotiva. Quando ele me viu, brotaram lágrimas dos seus olhos. Ele realmente gosta muito de mim".

No entanto, Mussolini ficava meio irritado com as explosões de fúria de Hitler. "Centelhas saíram dos olhos dele, o seu corpo tremia, e ele só conseguiu se controlar com dificuldade. Eu, por outro lado, permaneci completamente calmo". Na opinião de Mussolini, foi ele que salvou a conferência. "Fui eu que os trouxe de volta à questão pertinente. Eles se perderam na discussão. Hitler sinceramente me adora".

Depois da conferência, Mussolini e Petacci tiraram férias em uma praia. Mussolini, enquanto folheava jornais franceses, ficou de repente de mau humor. "Esses judeus repulsivos... Eles deveriam ser todos destruídos", disse Mussolini. "Eu criarei um banho de sangue da mesma forma que os turcos fizeram. Eu os isolarei e os aprisionarei. Eles conhecerão o punho de ferro de Mussolini. É hora de os italianos perceberem que não podem mais ser explorados por essas serpentes".

Cinco semanas depois, ele colocou em vigor uma nova lei racial que declarava os "casamentos mistos" inválidos. Quando o papa Pio 11 fez objeções, Mussolini ficou furioso. "Nunca antes um papa prejudicou tanto a religião. Ele já perdeu quase o mundo inteiro". E Mussolini continuou: "Ele faz coisas desonrosas. Como ele pode dizer que nós e os semitas somos iguais? Nós lutamos contra eles durante centenas de anos, e os odiamos".

Essa é uma história antiga, e que não é exclusiva da Itália: a história de homens baixos e poderosos que têm o coração entre as pernas, cercam-se de garotas de cabaré e, no final, só sentem atração por coisas que são ainda mais poderosas e inescrupulosas do que eles. Uma sentença que Petacci atribuiu a Mussolini, "Eu sou como Napoleão", poderia muito bem ter sido proferida por um dos seus sucessores modernos, alguém que gosta de ser chamado, não de Il Duce, mas de Il Cavaliere ou "Papi".

Amizade "Hitler é no fundo uma pessoa emotiva. Quando ele me viu, brotaram lágrimas dos seus olhos. Ele realmente gosta muito de mim", disse Mussolini à amante, sobre o colega nazista

Doces nulidades
Após ter sido deposto em 1943, Mussolini, com o auxílio de Hitler, criou o Estado fantoche da República de Salò, no Lago Garda. Carletta ficou para trás, em Roma, mas o casal acabou se reunindo e, após fugirem e serem presos por militantes italianos, ela e Il Duce foram executados juntos em abril de 1945.

Petacci entregou os seus diários à condessa Rina Cervis. Em 1950, a polícia os desenterrou no lugar onde tinham sido escondidos, no jardim da condessa. Depois disso, eles foram mantidos em uma caixa no arquivo nacional, e só foram divulgados 70 anos após terem sido redigidos.

Mas será que os registros não passam de "conversas de alcova", como alegam alguns especialistas em Il Duce? E, no caso de Petacci, será que o velho ditado romano se aplica? "Diga à sua amante tudo, e não apenas a verdade".

"É claro que não vale a pena discutir as doces nulidades. Mas as supostas observações sobre politica são interessantes", afirma Lutz Klinkhammer, do Instituto Histórico Alemão em Roma. "Quando se trata de política, por que Mussolini desejaria esconder tudo dela?" questiona Klinkhammer. "Pettaci não estava interessada em política. Por exemplo, as anotações dela sobre o antissemitismo de Il Duce basicamente confirmam as conclusões das nossas mais recentes pesquisas".

Quando a minúscula República Salò chegou ao fim, em abril de 1945, Mussolini ofereceu à sua amante a opção de fugir para a Espanha, mas Petacci recusou. Pouco tempo depois, ela estava pendurada de cabeça para baixo, ao lado de Il Duce, sobre a Piazzale Loreto, em Milão, tendo sido fuzilada por militantes. Um homem que estava no local teria dito: "Uma coisa pode ser afirmada a respeito dela: ela tinha belas pernas".

Tradução: UOL

Revsta Der Spiegel