domingo, 1 de março de 2009

Quando copiar era um estímulo intelectual

Era a biblioteca, e não a igreja, o local mais provável de encontrar um monge copista na Europa medieval. Copiando às vezes para fugir do tédio, eles acabaram preservando a cultura ocidental.
por Pierre Riché


Não há nada de original em pensar que, no princípio da vida monástica, os monges eram copistas e leitores assíduos. Se no século V eles copiavam manuscritos, era para escapar da ociosidade e para ganhar o sustento. Cultivavam essa atividade, mas também fabricavam pães, ou outros objetos de artesanato. Contentavam-se com um único livro, a Bíblia, cujas passagens aprendiam e sabiam de cor, sobretudo os salmos. A palavra bibliotheca foi empregada para designar os diferentes livros da Bíblia. A regra de São Bento (480-540), à qual sua ordem religiosa (conventos beneditinos), era submetida, menciona apenas o estudo das Escrituras.

Um outro italiano, Cassiodoro (490-581), fundou um mosteiro para organizar o estudo de textos religiosos e profanos. Antigo ministro do imperador bizantino Teodorico, Cassiodoro converteu-se à vida religiosa em meados do século VI e, após criar um mosteiro em uma das suas propriedades na Calábria, decidiu recopiar uma grande parte das obras latinas. No livro As instituições, fez uma espécie de catálogo analítico de sua biblioteca, e o elogio dos copistas: "Ao reler as escrituras, eles enriquecem sua inteligência, multiplicam os preceitos do Senhor, por meio das suas transcrições. Feliz aplicação, estudo digno de louvor: pregar pelo trabalho das mãos, abrir e dar seus dedos às línguas, levar silenciosamente a vida eterna aos homens, combater as sugestões do diabo pela pena e pela tinta...". Depois da morte de Cassiodoro, uma parte dos seus livros religiosos foi transferida para a biblioteca de Latrão, sede do bispado de Roma. De lá, muitos acabaram na Inglaterra.

O Renascimento carolíngio foi gestado nos mosteiros da Gaula no sul da França], a partir do final do século VII. Com efeito, os monges de Luxeuil fizeram os manuscritos com uma nova escritura, tal como podemos ver no Lectionnaire - Lecionário - de Luxeuil. Os escribas, que recopiavam os livros vindos de Roma, aperfeiçoaram a escritura, ancestral da Carolina, a escrita caligráfica surgida na Europa entre os séculos VIII e IX, que originou a distinção de maiúsculas e minúsculas nas modernas escritas européias. Nas margens do Loire (a cerca de 200 km de Paris), as abadias de Saint-Martin-de-Tours e de Fleury (hoje Saint-Benoît-sur-Loire) possuíam ateliês de escritura já ativos. Nas margens do Sena, os mosteiros de Saint-Denis e Saint-Wandrille participaram igualmente dessa produção de manuscritos em miniaturas, mais bem escritos e, até mesmo, mais bem adornados.

Desse modo, assim que Carlos Magno restaurou as escolas e os scriptoria em todo o reino [leia mais no dossiê "Carlos Magno, a espada e a fé", História Viva, ed. 22], ele investiu no trabalho dos mosteiros. Em sua célebre Admoestação geral, coleção de antigos cantos eclesiásticos, trechos da missa e responsórios, ele insiste em que cada clérigo e cada monge deveria aprender a gramática, o cálculo, o canto e as notas tironianas. E especifica que o trabalho dos escribas não seria confiado a jovens, mas a homens de idade adulta, de modo que os missais, os evangeliários e os livros de salmos não tivessem nenhum erro. A partir de então, a nova escrita iria se impor em todos os scriptoria. Chamada de Carolina, por causa de Carlos Magno, ela se caracterizava pelo tamanho pequeno, bem legível e regular, que encontramos na escrita atual, desde que os primeiros impressores do século XV a escolheram entre muitas outras.

Jamais será excessivo insistir sobre o prodigioso trabalho dos scriptoria carolíngios. Milhares de manuscritos foram recopiados - quase oito mil foram conservados: as obras dos fundadores da Igreja, de gramáticos, poetas, prosadores. Graças aos copistas, uma grande parte da herança literária latina foi salva e preservada. Cícero, Virgílio, Tácito e muitos outros só se tornaram conhecidos pelo trabalho dos carolíngios.

Ao mesmo tempo, os escribas e os pintores fabricavam manuscritos de luxo. Na corte carolíngia, as bíblias, os evangeliários e os livros de salmos, ricamente adornados com iluminuras, eram depositados e preservados na capela real. Carlos, o Calvo, neto de Carlos Magno, foi um entusiasta dos belos manuscritos. Quando esteve em Roma para receber a coroa imperial das mãos do papa João VIII, levou de presente uma Bíblia magnífica.

As bíblias de Tours estão entre as mais belas editadas naquela época. Na Alemanha, os mosteiros de Saint-Gall, Reichenau e Fulda também possuíam equipes de escribas e de pintores.

Enquanto sob Carlos Magno os escribas recopiaram, sobretudo, obras religiosas, foi sob seus sucessores, Luís, o Pio, e Carlos, o Calvo, que ocorreu o que ficou conhecido como o "segundo Renascimento carolíngio", quando os autores profanos tiveram uma importância até então desconhecida, como os textos de César e Seutônio.

Nessa época, certos manuscritos eram sobrecarregados de sinais, chamados de "neumas", ou seja, notas musicais que permitem cantar o texto. Os monges as utilizavam para o canto a capela, mas também o faziam os alunos das escolas, para decorar os poemas dos salmos. A divisão do império carolíngio entre os netos de Carlos Magno - ocorrida na segunda metade do século IX - e as invasões normandas seguidas das húngaras complicaram a vida monástica. Mosteiros caíram nas mãos dos aristocratas laicos, ou foram arruinados pelos invasores. Muitos monges escaparam carregando relíquias e manuscritos para locais onde puderam se refugiar, sobretudo na região da Borgonha.

No começo do século X, foi fundado o mosteiro de Cluny (Borgonha), que se transformou no modelo das abadias reformadas, algumas décadas mais tarde. Outras reformas e reconstruções aconteceram em locais diversos, e a vida religiosa e o estudo renasceram nos mosteiros, em meados daquele século. As bibliotecas foram reconstituídas, e os scriptoria reativados. O século X caracterizou-se - pelo menos na sua segunda metade - por uma renovação intelectual e artística que prolongou o Renascimento carolíngio.

Os mosteiros que produziam manuscritos são numerosos. Entre eles, houve exemplos extraordinários. Na Alemanha, os otonianos foram os sucessores dos carolíngios - Oto I restaurou o Império germânico em 962 -, e o mosteiro de Saint-Gall foi o de maior prestígio. Centenas de manuscritos saíram do seu scriptorium, fosse para servir à biblioteca, da qual se conhece o catálogo, fosse para serem trocados por manuscritos de outras bibliotecas, particularmente a do mosteiro vizinho em Reicheneau, ou para serem vendidos. Ricos manuscritos, belamente adornados com iluminuras, foram executados nessas abadias. Na segunda metade do século X, muitas obras de luxo, destinadas à corte e ao bispo, foram escritas e pintadas em Reichenau.

No norte da Itália, a abadia de Bobbio, fundada pelos irlandeses no século VII, possuía a maior biblioteca do Ocidente. Um catálogo da época descreve 650 manuscritos. E foi o que entusiasmou um erudito de Reims, logo que foi nomeado abade de Bobbio em 982. No começo da sua formação, Gerbert d\\'Aurillac iniciou os estudos de teologia, ciências, aritmética e astronomia. Depois de uma temporada em Reims, ele foi para Bobbio.

Em sua correspondência, fala sobre os livros que encontrou, e de que modo comissionou a confecção de manuscritos. Ele exigiu do seu arcebispo permissão para recopiar obras provenientes de outras abadias. Hoje esta biblioteca só é conhecida em função de um inventário feito por um abade antes da peregrinação à Terra Santa. Além disso, Gerbert foi convidado por seu aluno, o imperador Oto I, a subir ao trono de São Pedro, sob o nome de papa Silvestre II (ano de 999), quando então legou uma parte dos seus livros à corte imperial, os quais ainda podem ser consultados na biblioteca do bispado de Bamberg (Baviera, Alemanha).

A Aquitânia, que vegetara desde a reconquista carolíngia em meados do século VIII, teve monges prósperos no século XI e tornou-se uma das cortes mais letradas e cultas da França. O abade Abbon do mosteiro Saint-Benoît-sur-Loire no ano 1000 e contemporâneo de Gebert tinha estreitas relações com a Inglaterra, com a qual fazia intercâmbios. Nos séculos X e XI, as abadias da Inglaterra eram tão ativas quanto as do continente. Em Canterbury e Winchester, escribas e pintores deixaram esplêndidos manuscritos litúrgicos.

Na segunda metade do século XI, as abadias se transformaram. A herança da cultura carolíngia cedeu espaço a uma outra cultura unicamente religiosa. Na França, em especial na abadia de Saint-Bernard de Clairvaux (abadia cisterciense), os manuscritos religiosos tiveram a prioridade, e os responsáveis pelas iluminuras foram restritos a uma ascese artística. A austeridade era de rigor: o ouro e as iniciais ornadas foram banidos. Em Paris, freqüentemente se contratava o trabalho de escribas fora do mosteiro. Nessa época, os fabricantes de livros apareceram nas cidades.

Até o final da Idade Média, cada mosteiro continuou a ter seu scriptorium. Mas o belo período da grandiosa produção de manuscritos havia terminado. Foram a escola episcopal, a biblioteca eclesiástica da cidade e, depois, no século XIII, as universidades que ficaram encarregadas de produzir os manuscritos.
Os escribas trabalhavam cercados do seu material: cartuchos de tinta, penas, raspadeiras, folhas de pergaminho. O pergaminho, fornecido pelo abade, era um material caro, que podia ser comprado, ou fornecido pelos membros do mosteiro. Quando uma solicitação de um manuscrito era feita ao scriptorium, o requerente podia enviar o pergaminho necessário, como podemos constatar na carta de Gerbert, dirigida ao abade de Saint-Julien-de-Tours.

O pergaminho era preparado previamente, a partir de pele de vitela ou de carneiro. Imersas num banho de cal durante alguns dias, essas peles eram espichadas e raspadas dos dois lados, depois cortadas e, eventualmente, tingidas numa cor púrpura para os manuscritos de luxo. Quando faltava pergaminho, era possível reutilizar as folhas já escritas de um manuscrito incompleto ou usado, raspando-se cuidadosamente sua superfície. Ao contrário do que se disse muitas vezes, os monges não substituíam de forma sistemática as obras profanas por textos religiosos. Graças a esses palimpsestos, posteriormente pôde-se descobrir textos antigos pela leitura de pergaminhos, com o auxílio de uma lâmpada de Wood, que emite raios ultravioletas.

Uma vez preparado, o pergaminho recebia um acabamento: uma grande folha podia ser recortada em quatro pedaços (de onde vem a expressão in quarto), ou em oito (de onde vem a expressão in octavo). Esses pedaços podiam ser encadernados em formatos pequenos, que continham um número maior de fólios. Mais tarde, o pergaminho foi apresentado em forma de rolo, como os antigos volumina, sobretudo para usos litúrgicos.

O escriba sentava-se num banco, os pés pousados sobre um escabelo. Colocava o pergaminho sobre os joelhos ou, ainda melhor, sobre uma escrivaninha. Na mão direita, segurava a pena que molhava no tinteiro. Ele podia ter uma raspadeira na mão esquerda. Um manuscrito de Bamberg mostra as etapas do trabalho do escriba em pequenos desenhos. Ele talhava a pena, escrevia seu rascunho numa tabuinha de cera. Essas tabuinhas sempre foram utilizadas na Idade Média, e se acompanhavam de estiletes de metal, que tinham uma ponta de um lado, e na outra uma parte achatada para apagar a escrita. No lugar da tabuinha de cera, o escriba podia usar um velho manuscrito ou, ainda melhor, escutar o ditado do leitor.

Antes de começar, o escriba experimentava a pena, ao traçar algumas letras do alfabeto nas margens, ou os primeiros versos de um salmo. Pode-se também encontrar reflexões pessoais do tipo: "Como o pergaminho é felpudo"; "Como está frio hoje"; "A lâmpada emite uma luz ruim"; ou, ainda, "Agora é a hora do almoço". Como o silêncio devia reinar no scriptorium, pode-se imaginar os escribas passando essas reflexões, uns para os outros.

O trabalho era difícil durante o inverno, sobretudo pela penumbra. Por causa do esforço de olhar fixamente os manuscritos, os monges poderiam ficar cegos. Aquele que ditava o texto, o dictator, o fazia com rapidez. Os monges tinham dificuldade de seguir o ditado.

Raramente o escriba trabalhava sozinho. A arrumação do mosteiro de Saint-Gall previa sete assentos no scriptorium. Apesar de os nomes não serem registrados, era muito fácil reconhecer a mudança da mão. A duração da execução de um livro variava segundo a habilidade dos copistas e os mais hábeis se vangloriavam de fazer um livro em dois dias ou de copiar 30 folhas por dia. Em geral, era preciso dois a três meses para copiar um manuscrito de dimensão média. Depois do manuscrito terminado, era necessário reler e corrigir os erros. Muitos escribas eram inexperientes, alguns quase analfabetos, e recopiavam os textos de uma maneira automática, sem compreender seu conteúdo. Aqueles que escreviam a partir do ditado acabavam usando uma ortografia fonética.

O chefe do ateliê revia o manuscrito. Um bom revisor corrigia a pontuação e a ortografia, sublinhava uma palavra incompreensível e marcava a margem com a palavra que julgava conveniente e adequada. Depois do término do manuscrito, se fosse um livro luxuoso de salmos ou um evangeliário encomendado por um bispo, ou por um príncipe, o pintor sucedia o escriba. Ele decorava as iniciais, enquadrava as páginas, pintava o que ficara em branco, segundo seu próprio talento ou segundo o estilo da escola onde fora formado. Temos então o manuscrito copiado, corrigido e ornamentado.

Em seguida, era necessário reunir as folhas, formar os cadernos para fazer um códice. Sobre o desenho já citado de Bamberg, pode-se ver o monge dobrar, costurar as folhas, cortar e depois preparar as encadernações. Desde a época carolíngia, a encadernação era utilizada para os livros valiosos, e era feita com peles de cervos. Assim, Carlos Magno autorizou os monges de um mosteiro francês a caçar cervos para criar um estoque do couro destinado à encadernação. A superfície lisa das encadernações era confiada a ourives, ou a artesãos que trabalhavam com marfim.

Cópias a preço de ouro
Abaixo, uma carta de Gerbert d\\'Aurillac para o abade de Saint-Julien-de-Tours.

"Tendo considerado que a ciência moral e a ciência da língua não são separadas da filosofia, sempre misturei estudos de bem viver, e estudos de bem falar (...) para me preparar, jamais cessei de constituir uma biblioteca. E mesmo que recentemente em Roma, e em outras regiões da Itália, na Alemanha e também na Bélgica, eu tenha resgatado copistas e cópias de obras a preço de ouro, graças à ajuda benévola, e à solicitude dos meus amigos nessas províncias, do mesmo modo deixe-me vos pedir que seja assim no vosso mosteiro, e por vosso intermediário. No final das cartas nós vos indicaremos o que queremos copiar. Segundo vossas instruções, nós enviaremos o pergaminho para os copistas, e os fundos que serão necessários, sem esquecer não mais de vos indicar a nossa benevolência." (Extrato da carta 44.)

Um trabalho para a alma
O texto abaixo do scriptorium de Saint-Martin-de-Tours busca orientar o trabalho dos copistas.

"Que tomem lugar os que escrevem as palavras da lei santa, assim como os ensinamentos dos santos padres. Que eles não se permitam misturar suas tagarelices frívolas, com medo de que essa frivolidade não induza sua mão ao erro.

Que consigam textos corrigidos com cuidado, a fim de que a pena do pássaro siga certa pelo seu caminho. Que distingam as nuances dos sentidos das palavras, por membros e incisos, e que coloquem cada ponto em seu lugar, a fim de que o leitor não leia coisas falsas, ou talvez permaneça repentinamente interditado na igreja diante dos seus irmãos na religião.

De resto, deve-se fazer obra valiosa, e copiar os livros santos, e o escriba não será privado da sua própria recompensa. Mais do que cavar a videira, é bom copiar livros: lá se trabalha para a venda, aqui, para a alma. Do novo e do antigo, todo mestre poderá produzir em abundância, se ele ler os ensinamentos dos santos padres." (Alain, "Poème no 94".)

Um manuscrito no centro de mistério
O cotidiano dos copistas medievais é o cenário que o escritor italiano Umberto Eco escolheu para seu romance O nome da rosa (Difel), que viria a se transformar em filme de sucesso. A ação se passa num mosteiro em algum lugar no norte da Itália, no qual há uma imensa biblioteca com obras profanas e sagradas. E o enredo fala de uma série de crimes que, como se vê pelo desenrolar da história, estão de alguma forma ligados a esses livros. A reconstituição é perfeita e até o nome scriptorium é utilizado, embora as legendas do filme usem a palavra "escritório", que, apesar de ter derivado da primeira, não traduz o sentido específico, qual seja, o local onde trabalhavam os copistas.

Pierre Riché é professor emérito de História Medieval na Universidade de Paris X, Nanterre; publicou livros relacionados à História da cultura e da educação na idade média ocidental, entre eles, La Vie Quotidienne dans L´Empire Carolingien ( Paris, 1973).

Revista Historia Viva

Circuncisão a tradição do corte

Símbolo da aliança divina para uns, ritual iniciático para outros, essa prática de mais de 5 mil anos tem justificativas religiosas, mitológicas e médicas.
por Malek Chebel

Quando nos referimos aos rituais humanos, não é possível precisar ao certo a data e o local de sua origem. Esse é o caso da circuncisão, intervenção cirúrgica que consiste na remoção do prepúcio, prega cutânea que recobre a glande do pênis. Essa remoção, chamada também exérese do prepúcio ou peritomia (do grego peri, "em torno", e tomia, "corte"), é realizada atualmente em clínicas com condições de higiene e assepsia.

A circuncisão existe há mais de 5 mil anos. Ela é praticada numa vasta zona que vai da África subsaariana até o Oriente Próximo, incluindo a Pérsia, passando pelo Magreb, a Líbia e o Egito, a Palestina, a Síria, a Arábia e o Iêmen. Os turcos são circuncidados, assim como os muçulmanos da Ásia Menor. Judeus e muçulmanos do mundo inteiro são circuncidados, independentemente de suas convicções religiosas. Hoje em dia, o fator de integração e conformidade com a aparência física supera as crenças religiosas. Contabilizamos mais de 900 milhões de circuncidados no mundo, número que pode passar de um bilhão, se considerarmos a evolução do islamismo nas regiões sub-africanas e no Ocidente. Atualmente, as zonas de extensão da circuncisão são a Europa e os Estados Unidos. Por razões de higiene, a circuncisão ganha terreno, sobretudo, em meio laico.

Embora os historiadores tenham se limitado a conjeturas, sabemos que essa prática - como outras intervenções e marcas corporais - antecede todas as invenções da humanidade e até mesmo o monoteísmo. A Bíblia relata que na época de Abraão a circuncisão já era conhecida e praticada às margens do rio Jordão e na Samaria.

Desde o princípio, essa prática inscreveu-se no registro do simbólico: "E a aliança que eu faço com vocês e com seus futuros descendentes, e que vocês devem observar, é a seguinte: circuncidem todos os homens. Circuncidem a carne do prepúcio. Este será o sinal da aliança entre mim e vocês. Quando completarem oito dias, todos os meninos de cada geração serão circuncidados; também os escravos nascidos em casa ou comprados de estrangeiros, que não sejam da raça de vocês" (Gênesis, XVII, 10-11).

Com exceção dos hieróglifos, estamos diante do texto mais antigo que trata de uma prática ligada ao órgão genital de mais de um bilhão de homens no mundo. Desde tempos remotos, ela envolveu inúmeros povos da Arábia-Iêmen, Etiópia-Sudão-Egito e Mesopotâmia, que estiveram entre os maiores inovadores de ritos sociais.
Heródoto confirma a antiguidade do costume: "[...] Os colquidianos, os egípcios e os etíopes são os únicos povos que sempre praticaram a circuncisão. Os fenícios e os sírios da Palestina reconhecem nesse hábito a influência dos egípcios; os sírios que vivem nos vales do Termodon declaram que esse costume foi introduzido em sua comunidade há pouco tempo pelos colquidianos". E o grande historiador de Halicarnasso conclui: "Egípcios e etíopes, eu não saberia dizer qual dos dois povos foi o primeiro a praticá-lo, pois trata-se de um costume muito antigo" (Histórias, II, 104).

Desde então, a ciência histórica não forneceu muitos dados sobre a prática da circuncisão. Afora o relato da Bíblia citado no início, não dispomos de documentos confiáveis que precisem o local de seu nascimento. "A circuncisão vem dos egípcios, dos árabes ou dos etíopes?", pergunta-se Voltaire, no século XVIII. E afirma: "Sei apenas que os padres da Antiguidade imprimiam em seus corpos marcas de sua consagração, assim como se marcava com um ferro ardente a mão dos soldados romanos" (Obras completas, tomo VII). Para responder parcialmente ao filósofo, sugerimos algumas pistas. Segundo pesquisas, a circuncisão teria nascido em solo africano e dataria de cinco a sete mil anos. Após sua implantação definitiva no leste do continente africano, ela teria migrado para o norte pelo rio Nilo, graças à dispersão de tribos estabelecidas na região.

Há centenas de anos, a circuncisão teria evoluído no Egito faraônico de forma considerável a ponto de ser "codificada". Prova disso é a descoberta por arqueólogos de representações de falos circuncidados em uma necrópole de Tebas datando do Novo Império (1500 a.C.). Embora o clero egípcio não seguisse as religiões monoteístas que iriam popularizar a circuncisão, em particular o judaísmo, ele era circuncidado e exigia que os novos adeptos o fossem igualmente. Essa codificação era obra de padres e médicos que seguiam o exemplo dos faraós, os quais conferiam à circuncisão uma indiscutível função iniciática e sacerdotal. Não deveria Pitágoras ser circuncidado antes de ingressar na grande biblioteca de Alexandria para se iniciar nos mistérios órficos? Graças a Titus Flavius Clemens ou Clemente de Alexandria (150-215), sabemos que esses "mistérios" constituíam a base dos ensinamentos de Orfeu, personagem mítico da Trácia antiga, que, além de seu conhecimento científico e mágico, inventou a cítara. Sobre essas diferentes iniciações, Jâmblico (240-325), filósofo neoplatônico, forneceu uma brilhante interpretação em sua obra Os mistérios do Egito. E o historiador fenício Sanconiaton relata, em sua Teogonia fenícia, que Cronos, o primeiro rei desse povo, praticara a circuncisão em seus companheiros e em si mesmo.

Desde então, a circuncisão vem adquirindo importância crucial para aqueles que a praticam. É um ritual que soube agregar em torno de si uma quantidade de significados de alcance universal: religiosos, iniciáticos, profiláticos, estéticos e medicinais.

Entre os hebreus, o mohel ou moël é o responsável pela circuncisão, chamada hatâna. O rabino inicia o ritual com uma bênção para legitimar a exérese do prepúcio, possibilitando a denominação da criança. A circuncisão judaica, além de permitir o acesso à lei divina, representa o sinal da aliança com o povo eleito: "Minha aliança estará marcada na carne de vocês como aliança eterna" (Gênesis, XVII, 10-13).

Durante os dois primeiros séculos da era cristã, uma controvérsia acirrada atravessou a nobreza da Roma antiga. Seria ou não necessário circuncidar os novos cristãos para que fossem totalmente integrados à comunidade cristã? O debate atingia grandes proporções, à medida que os judeus e uma parte dos primeiros cristãos eram habitualmente circuncidados. A questão era ao mesmo tempo dogmática e doutrinal: se a circuncisão fazia parte da identidade coletiva judaica e de sua aliança com Deus, o cristão deveria aceitá-la como símbolo comum, sem perder sua identidade? E também sua alma.

Os apóstolos Pedro e Paulo levantaram a questão da contradição, mas finalmente a concepção paulina triunfou, levando a uma nova orientação do culto. Não era suficiente estar circuncidado na carne, se a alma permanecesse pecadora. Era necessário que o espírito também o estivesse, de modo que observasse escrupulosamente as leis divinas. E o apóstolo acrescenta: "Os verdadeiros circuncidados somos nós que prestamos culto movidos pelo espírito de Deus. Nós colocamos nossa glória em Jesus Cristo e não confiamos na carne" (Carta aos Filipenses, III, 3). Surge assim o batismo, originário do grego baptisma, "conversão do coração". Desde então, o significado religioso da circuncisão não mudou, apesar da proliferação da circuncisão laica e da perseguição aos judeus durante o nazismo, quando se verificava se os homens eram ou não circuncidados.

No que se refere à circuncisão entre os árabes, desde tempos imemoriais os habitantes da península Arábica, formada por Iêmen, Omã, Iraque e Palestina, praticam a circuncisão em meninos de 13 anos. Sabemos que esse costume originou-se com a circuncisão de Ismael, o antepassado dos árabes, filho do patriarca Abraão, que foi circuncidado aos 13 anos. A Bíblia, contrariamente ao Alcorão, relata esse episódio.

Há dois outros elementos importantes que contribuíram para a aceitação islâmica da circuncisão. Por um lado, o profeta Maomé (570-632) - nascido circuncidado segundo a lenda - nunca a proibira, e, por outro, a circuncisão tornara-se um privilégio matrimonial. Até o início do século XX, os jovens iemenitas de 16 anos deviam ser circuncidados perante suas prometidas, testemunhas da coragem e do estoicismo de seus futuros esposos.

No entanto, cabe enfatizar o propósito, talvez apócrifo, atribuído ao califa Umar (581-644), que dizia: "Maomé foi enviado ao mundo para islamizá-lo e não para circuncidá-lo". Seja como for, desde a chegada do islamismo e da sua extraordinária propagação, ela atingiu todos os países seguidores do culto de Alá.

Finalmente, servindo de base a todas as razões mencionadas e parecendo legitimá-las, a questão da higiene é recorrente no campo da peritomia. A própria circuncisão muçulmana a encerra em seu nome: tahara (purificação) no Magreb; sounna (tradição) no Sudão e no Egito, khotên na Turquia e na Pérsia e enfim taziinet (embelezamento) na Mauritânia.

Mas se a circuncisão é uma prática "fortemente recomendada", não é uma condição religiosa stricto sensu do islamismo nem uma prescrição da doxa. Ela é adotada em terra islâmica, inclusive pelos novos convertidos, mas não faz parte das cinco condições exigidas para ser um bom muçulmano: profissão de fé, prece, doação, jejum e peregrinação à Meca.

Já o continente africano contempla dois tipos de circuncisão: a animista - a mais antiga - e a monoteísta, praticada nas regiões islâmicas. Em vários países africanos, a circuncisão - como o uso da barba e, no caso das mulheres, do véu islâmico - é considerada como um elemento de adesão ao culto maometano. Em outros países, como a Etiópia ou o Egito, os coptas - descendentes do povo do Antigo Egito - a praticam por mimetismo social, em vista de sua integração na comunidade circuncidada do entorno. Vários grupos étnicos importantes seguem essa prática: os dogons, os malinkés, os soninkés, os bambaras, os kabiyés do norte do Togo, os iorubás, os bozos, os pigmeus da África equatorial e os mossis. Os etnólogos que abordaram essa questão, com base nos mitos autóctones, apresentam duas explicações quanto à origem da circuncisão africana.

A primeira, de ordem cosmogônica, afirma que a origem da circuncisão encontra-se na criação do mundo como sinal de separação inicial dos indivíduos (supressão da androgenia) e de fixação no sexo ao qual eles pertencem. A segunda, de ordem sociopolítica, está vinculada à transmissão do poder no seio de uma comunidade africana sob domínio de um chefe tradicional. Essas duas grandes razões estão intrinsecamente ligadas à preocupação constante da fecundidade.

Um rito, três justificativas
A circuncisão é justificada por três tipos de discursos. Cada cultura segue aquele que mais se enquadra a suas tradições e costumes

Mitológica
É aquela aplicada às tribos africanas e aos povos que seguem a circuncisão pré-monoteísta e profana, como ocorre nas ilhas de Vanuatu, na Austrália e ao sudeste da Nova Guiné. Diz uma lenda do arquipélago que um dia um jovem rapaz e sua irmã decidiram ir ao bosque colher frutas. Após terem cortado cachos de bananas, o rapaz descansou ao pé de uma árvore, enquanto a irmã terminava a colheita do dia.

Mas, ao descer da árvore, o machado caiu de sua mão e cortou o prepúcio do irmão. Uma vez curado, o rapaz teve relação sexual com uma moça do vilarejo, que, satisfeita com o desempenho do amante, contou o que ocorrera a suas amigas. Despertou então o desejo de todas elas em dormir com o jovem, causando inveja aos homens da tribo. Curiosos, eles perguntaram a suas companheiras o motivo de tal interesse e elas responderam unânimes: "Só dormiremos com vocês, se estiverem como ele".

Religiosa
A circuncisão hebraica é o melhor modelo dessa vertente explicativa. De fato, o judaísmo considera a supressão do prepúcio como uma validação ou confirmação da adesão ao dogma. Fala-se, nesse caso, em "sinal de aliança" e "ingresso na Torá".

Quanto ao cristianismo, a circuncisão não é preconizada, mas sublimada a uma vocação espiritual. Lembremos da linha de demarcação introduzida pela literatura patrística. Filastro de Brescia fala da "circuncisão do coração", enquanto Tertuliano evoca a "circuncisão espiritual".

O islamismo não trouxe mudanças importantes ao rito. Para essa religião, a circuncisão implica uma purificação corporal, uma "prova" necessária ao fiel quando passa a freqüentar a mesquita. Dessa forma, sua função espiritual é relegada ao segundo plano. A explicação religiosa da circuncisão resume-se ao conceito de privar o homem de fatores exógenos que possam desviá-lo do caminho espiritual.

Médica
A explicação mais comum para os partidários atuais da circuncisão seria o fator higiênico. Em realidade, essa tese data de Filon de Alexandria (13 a.C. - 54 d.C.), filósofo judeu de origem grega que, em sua obra De circumcisione, chama a atenção para o fato de que a circuncisão garantiria uma maior higiene ao órgão genital masculino, evitando uma série de afecções como sífilis, fimose, herpes, balanopostites, falsa gonorréia, concentração de esmegma.

Nesse sentido, podemos afirmar que a circuncisão é o único tratamento válido para a fimose (estreitamento anormal e doloroso do prepúcio) e a parafimose (estrangulamento da base da glande do pênis por um prepúcio estreito demais). A história relata que após ter passado quatro anos em abstinência sexual por ter contraído fimose, o rei Luís XVI optou pela circuncisão.

Malek Chebel é antropólogo, psicanalista, especialista no mundo árabe e no islã; publicou Histoire de la circoncision des origines à nos jours (História da circuncisão das origens à atualidade, Balland. Coll. Le Nadir).

Revista Historia Viva

O Legado de Vargas

Meio século depois do fatídico suicídio do estadista, ainda pairam controvérsias acerca do real significado da Era Vargas
por Arnaldo José França Mazzei

O trabalhsita João Goulart presta homenagem ao mestre, ao lado de Leonel Brizola e Lutero Vargas, em 22 de abril de 1958, em São Borja (RS)

Prosseguem os debates a respeito da longevidade da herança varguistas e dos representantes políticos do seu legado.

Um conjunto de ismos, como populismo, personalismo, nacionalismo, desenvolvimentismo e trabalhismo são alguns dos termos atribuídos ao esquema getulista. Mas não somente. Legislação trabalhista e social, sindicato corporativo, carteira de trabalho, previdência social, justiça do trabalho, salário mínimo e Consolidação das Leis do Trabalho representam efetivamente as suas continuidades.

Os principais herdeiros de Getúlio Vargas posicionaram-se estrategicamente, assim como o "mestre", de forma oscilante no tabuleiro ideológico e político, circulando entre esquerda, centro e direita. A imagem de um pêndulo ajuda a classificar os vários momentos em que esses herdeiros e instituições aparecem e morrem na história brasileira.

"A Consolidação das Leis do Trabalho, o Partido Trabalhista Brasileiro, o Estatuto do Trabalhador Rural, Vargas, Kubitschek, Goulart, Arraes e Brizola fazem parte de um mesmo sistema. E juntam-se também Ademar de Barros, Hugo Borghi, Jânio Quadros e outros como elementos do mesmo universo populista. Todos eles, no entanto, estão relacionados ao pensamento getulista e particularmente à política de massas. Essa é uma das conotações básicas da democracia populista."
A reflexão do sociólogo Octavio Ianni (1926-2004) demonstra não restar dúvida de que a ruptura com o esquema varguista começou com o regime militar, instaurado no Golpe de 64, ainda que o conceito de populismo seja um tanto questionável como recurso teórico para interpretar o período.

Na verdade, há um conjunto de fatores analisados por Ianni e muitos outros historiadores do período que deve ser considerado para facilitar o entendimento da herança, do processo de continuidade e da ruptura do legado varguista. Um ponto de partida interessante para essa discussão é a famosa Carta-Testamento, hipoteticamente escrita pelo presidente. O conteúdo e a linguagem do documento sugerem um registro típico do seu estilo, caracterizado pela relação entre o EU (governante) e o POVO (governado).

Ele conduz para o futuro a divisão entre os que estavam ao seu lado e os que conspiravam contra a nação brasileira. Nesse embate contra as forças inimigas dos humildes, Getúlio coloca-se ao lado do povo. Ele era favorável à liberdade social e contrário à espoliação dos grupos financeiros internacionais, que, aliados a alguns grupos nacionais, opunham-se ao regime de garantia do trabalho, à lei de lucros extraordinários e ao salário mínimo.

O estadista também acusava inimigos da potencialidade nacional expressa pela criação da Petrobras, da Eletrobrás e pela defesa dos preços do café, o principal produto brasileiro de exportação. Dessa maneira, Vargas denunciava aqueles que combatiam o trabalhador livre.

Entretanto, na realidade, Vargas não foi capaz de superar a típica Conciliação pelo alto das elites, da qual é artífice e na qual se inclui também desde 1930 para assegurar a dominação social e política do povo brasileiro. Nesse sentido, o governo JK representou um momento em que estava contemplada a conciliação entre a política de massa, preocupada em responder aos interesses dos trabalhadores, e a política econômica, em acordo com os anseios das elites internas e externas.

O seu Plano de Metas, estabelecido sob a tríplice aliança - Estado, capital estrangeiro e capital nacional, significou um período de maior estabilidade dentro da continuidade varguista. Apesar do clima sempre iminente de golpe e da constante ameaça à constitucionalidade durante a instalação do próprio Juscelino no poder.

Curiosamente, o salário mínimo teve o seu maior pico no ano de 1957. Momento no qual a indústria brasileira, ritmada pelos "50 anos em cinco", desnacionalizava-se em setores dinâmicos importantes, que teriam a capacidade de puxar a demanda e o crescimento econômico, como o dos bens de consumo duráveis, que vão desde o automóvel até os produtos eletrônicos.

Nesse contexto ambíguo e contraditório, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) aparece como um dos principais arautos do getulismo. Seus principais líderes, com destaque para o vice-presidente João Goulart e para Leonel de Moura Brizola, tinham comportamento pendular entre o radicalismo trabalhista e a conciliação nacional. Na presença de um sindicalismo oficial mais organizado e de uma certa influência do Partido Comunista Brasileiro (PCB), eles representavam uma ameaça às forças liberais e conservadoras.

Nos três anos que precedem o golpe militar de 64, havia uma intensa mobilização social pelas reformas de base, em particular pela reforma agrária. Os sindicatos atuavam na forma de pactos setoriais, fóruns e debates estaduais, influenciados pelo PCB e pelo PTB. Foi criada a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), órgão que liderava a maioria dos movimentos grevistas e políticos da época. Não apenas os trabalhadores urbanos e rurais ampliavam sua participação política e social, mas também os estudantes em torno da União Nacional dos Estudantes (UNE), os militares e outros setores médios mais radicais.

No relato do historiador Leôncio Basbaum sobre o período, pode-se ter uma idéia do ambiente político quando da renúncia de Jânio Quadros em 1961 e a transmissão do poder a João Goulart, que estava em viagem oficial na China de Mao Tsé-tung. Segundo ele, ministros e chefes militares anteviam que a posse de Jango conduziria o país a uma guerra civil. O que Jango representava? A ascensão do trabalhismo, do sindicalismo e do comunismo ao poder? A vingança de Getúlio da Carta-Testamento? A divisão política e social da nação?

Registra-se no contexto internacional o auge da guerra fria e o domínio americano no plano econômico e político, em particular no financiamento e na participação no processo de reconstrução tanto da Europa como do Japão. O anticomunismo e a restrição às liberdades democráticas de expressão e organização eram a marca da campanha do governo dos EUA no período.

O parlamentarismo foi instalado como regime político no Brasil, numa solução que teve como articulador político Tancredo Neves, ex-ministro da Justiça de Vargas. Dessa maneira, João Goulart, ao tomar posse, estava esvaziado de poder.

A participação de Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, nesse contexto foi de suma importância. O líder sulista, um dos representantes mais radicais do trabalhismo e do nacionalismo getulista, mobilizou a campanha da legalidade.
O golpe militar de 1964 significou a primeira grande ruptura com o esquema varguista. Estava em jogo a implantação de outro programa econômico e de outra forma de dominação política: o desenvolvimento capitalista nacional associado com o internacional, aceitando de forma pragmática a dependência do capital estrangeiro, e a adoção da forma autocrática e ditatorial do exercício do poder. O regime militar praticamente desmontou o esquema varguista do topo à base da pirâmide, liquidando o trabalhismo e o nacionalismo, valendo-se da repressão e da perseguição aos líderes políticos, trabalhistas e sindicais.

No entanto, uma das heranças varguista mais importantes não foi destruída: a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). O regime militar soube usar muito bem a CLT de Vargas, bem como o seu estilo político à época do Estado Novo. A caserna restabeleceu o controle político e ideológico dos líderes sindicais, reforçou a burocracia e o assistencialismo nos sindicatos, proibiu as greves e regulou os salários, além de reprimir os movimentos operários e reativar a intervenção do Ministério do Trabalho nos sindicatos.

Ao passo que a ditadura de Vargas almejava o desenvolvimento do capitalismo nacional independente, os militares promoviam o desenvolvimento do capitalismo associado aos interesses internacionais.

A base social de tal modelo não poderia ser outra senão as classes médias, interessadas na garantia da renda, no prestígio e no poder. Esses eixos são satisfeitos pelo aumento do consumo de bens duráveis e patrimoniais. Setores da Igreja e militares conservadores, temerosos com a possibilidade das reformas de base, completavam a tropa de choque dos descontentes com a radicalização do esquema criado - e possibilitado - por Vargas.

Em nenhum momento a variante conservadora do varguismo, alojada principalmente no antigo Partido Social Democrático, foi totalmente desmantelada. Pelo contrário, foi cooptada pelo regime militar e acabou somando com os udenistas que conspiraram pelo golpe de Estado. A Arena e o MDB foram criados pelo regime militar para organizar as forças de apoio e de oposição, com total vigilância e controle do próprio governo.

Nessa realidade, surgia em meados dos anos 70 uma substancial vertente de ruptura com o getulismo. Tratava-se de uma nova classe operária, produzida pela expansão do capitalismo monopolista no Brasil. Sem nenhum compromisso com o nacional-desenvolvimentismo, caracterizava-se pelo antipopulismo, pela desconfiança de toda forma de liderança vinda de cima e pela busca de uma atuação política autônoma e independente. A expressão máxima de todo esse movimento foi o Partido dos
Trabalhadores, centrado na figura de Lula.

Com a crise do milagre econômico, iniciava-se a Abertura Democrática, lenta e gradual. A anistia e o pluripartidarismo ressuscitaram muitas figuras e instituições de inspiração varguista. Tendo à frente Ivete Vargas, o PTB é reorganizado, tudo indica que por influência direta do general Golbery. Em 1983, Brizola é eleito governador do Rio de Janeiro. Toda a movimentação em torno de eleições diretas para a presidência da República foi abortada com a indicação de Tancredo Neves, ex-ministro da Justiça e ex-membro do PSD da Era Vargas, para concorrer com Paulo Maluf, candidato da Arena, nas indiretas.

A eleição de Tancredo mostrava que os herdeiros do pêndulo de Vargas ainda estavam vivos e que a conciliação pelo alto prevalecia no nível nacional. Ou seja, figuras conservadoras do período getulista, aliadas às elites do regime militar, procuravam conduzir uma transição dentro da ordem para a democracia constitucional.

Com a morte de Tancredo Neves, o governo Sarney, em meio ao aprofundamento da crise econômica e social, dirigiu o país durante a Constituinte de 1988 e durante as eleições diretas. Esse período ficou conhecido como a Nova República. Apesar de não ter recuperado a estabilidade econômica, por meio de planos econômicos como o Cruzado e o Verão, trouxe quadros técnicos que defendiam o desenvolvimento nacional e concordavam com a ampliação da abertura democrática para os setores trabalhistas e populares.

Curiosa foi a primeira eleição direta no regime da Constituição cidadã de Ulisses Guimarães. Disputaram a Presidência da República com Fernando Collor de Mello, o jovem caudilho das Alagoas, dois líderes paradigmáticos: Brizola, do PDT, que encarnava o espírito radical de Vargas, do trabalhismo ao nacionalismo, e Lula, um líder conhecido como de oposição ao esquema trabalhista e sindical de Vargas, oriundo do novo sindicalismo com base no ABC paulista.

Herdeiro/afilhado de Vargas, Brizola por pouco não ganhou o lugar para disputar o segundo turno do pleito. A sociedade brasileira decidiu, no entanto, pelo pior caminho. Negou a boa tradição do passado varguista, representado por Brizola, e temeu a nova opção, oferecida por Lula. Fernando Collor, eleito em 1989, não deixava de ter alguma relação, consideradas as devidas proporções, com o varguismo. Lindolfo Collor, seu avô, havia sido ministro do Trabalho de Vargas.
Collor tentava produzir um populismo de direita. Seu esquema era o da corrupção combinado com o estilo autocrático em nome da modernidade capitalista. Resultou no impeachment de 1992. Assumiu Itamar Franco, conciliador e dono de um estilo político flexível do tipo "pau-para-toda-a-obra". O Plano Real foi arquitetado em seu governo na presença do então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, eleito em 1994.

Nos anos FHC, a possibilidade de exterminar a herança varguista era grande. O modelo neoliberal de seus dois mandatos afastou da cena política brasileira os elementos do nacionalismo, do trabalhismo e do sindicalismo.
Tudo começou com a o jogo de braço entre o governo FHC e a greve dos petroleiros em 1995. O governo ganhou a disputa e iniciou uma das maiores empreitadas contra os direitos trabalhistas previstos na CLT. Flexibilizou, remendou, desfigurou a CLT para adaptá-la aos novos tempos da acumulação global do capital.

O trabalhismo e o nacionalismo estavam quase liquidados. Mas o Brasil precisava de um novo Vargas, capaz de proteger os pobres, os trabalhadores, o salário mínimo, os direitos sociais e a sociedade do apetite do capital estrangeiro. Quem poderia exercer tal papel ? A resposta estava na eleição de Lula. De fato, ele tinha outra tarefa a executar. Depois de um ano de governo, o último remanescente do varguismo rompe a aliança histórica do velho com o novo trabalhismo. Talvez, na realidade, Lula fosse o único capaz de enterrá-lo definitivamente. No entanto, o espírito de Vargas ronda seu governo. Desde que assumiu o poder, o Partido dos Trabalhadores tem oscilado entre a conservação e a mudança, de maneira que lembra o pêndulo de Vargas.

Arnaldo José França Mazzei é doutor em Ciências Sociais, é Professor Titular da FEA-PUC-SP e Professor Doutor da FEA-USP.

Revista Historia Viva

Émile Zola- entre a genialidade e a justiça

A fama do escritor francês veio não só de suas obras como também de seu empenho em defender a absolvição de um condenado, desafiando a justiça e a política de sua época.
por Henri Mitterand

Émile Zola no escritório parisiense em 1868, em retrato feito pelo amigo Manet

Junho de 1908. Os restos mortais de Émile Zola são levados ao Panthéon. Um fanático nacionalista e anti-semita, Gregori, dispara contra o comandante Alfred Dreyfus e o fere no braço. As brasas do caso Dreyfus não estão extintas, os velhos rancores permanecem vivos. Em 29 de setembro de 1902, a morte de Zola, por asfixia em seu apartamento da rue de Bruxelles, fora talvez a conseqüência de um atentado. Três teses se contrapuseram a esse respeito: a da investigação oficial, que concluiu por um acidente, a de uma investigação particular feita em 1952, que apoiou em testemunhos indiretos a hipótese de um ato criminoso, e uma outra, recente, do comissário Marcel Leclère, que se inclinou pela hipótese de uma morte involuntária, resultante de erro. Em 30 de setembro de 1902, La Libre Parole, jornal do líder anti-semita Drumont, dizia na manchete de primeira página que Zola havia sido asfixiado. Alguns choraram, outros aplaudiram. Zola era então, e desde muito tempo, objeto de admirações incondicionais e de ódios irreconciliáveis; literários, morais, políticos. Ele jamais detestou isso.

Émile Zola nasceu em 10 de abril de 1840, no coração de Paris, filho de um engenheiro de origem veneziana, Francesco Zola, e de Emilie Aubert, natural da região da Beauce, 24 anos mais jovem que o marido. François Zola construiu em Aix-en-Provence a barragem e o canal Zola. Morreu em 1847 das seqüelas de um resfriado. Seu filho, órfão aos sete anos, viveu em Aix até perto dos 17, enfrentando dificuldades cada vez maiores, pois a família foi enganada pelos homens que se apoderaram da empresa do canal Zola. É assim que se formam os revoltados. No colégio Bourbon de Aix-en-Provence, ele teve como companheiro mais próximo Paul Cézanne, filho de um banqueiro, que sonhava em pintar com o mesmo ardor com que ele sonhava em escrever. Encontro extraordinário de dois garotos que lançariam por terra todas as convenções da arte. Quando Zola "subiu" para Paris, em fevereiro de 1858, foi um rude golpe em uma amizade que ainda se prolongaria por quase 30 anos.

Aluno do liceu Saint-Louis, ele fracassou no exame de conclusão do ensino médio em 1859. Estava mais interessado no espetáculo da cidade, revirada e reconstruída pelos pedreiros de Haussmann, do que nas aulas. Ele não insistiu. Seguiram-se três anos de vida boêmia nos alojamentos a preço módico da colina Sainte-Geneviève. Zola perambulava, vagava pelos ateliês de pintura na companhia de Cézanne, leu todos os clássicos e todos os românticos e compôs milhares de versos, pois se imaginava poeta. No decorrer do inverno de 1860-1861, teve um relacionamento com uma mulher tão pobre quanto ele. Chamava-se Berthe, é tudo que se sabe a seu respeito. Ela passava de amante em amante, levando ao desespero seu poeta famélico. Eles se separaram. Talvez ela tenha libertado o verdadeiro gênio de Zola, que voltou as costas à elegia romântica e se inscreveu na rude escola do real. Seu primeiro romance, La confession de Claude, em 1865, fez a transposição de sua aventura.

Fim do período boêmio. Em março de 1862, uma recomendação o fez ingressar na Librairie Hachette, famosa editora francesa. Zola agarrou com as duas mãos a chance que passava. Encarregado da publicidade e da distribuição dos livros à imprensa, atendia ao mesmo tempo editores, escritores e jornalistas, o que lhe permitiu organizar rapidamente uma valiosa agenda de endereços. Lendo os autores da Hachette e das outras editoras, educou-se como livre-pensador. Aos 25 anos, crítico literário, cronista e logo crítico de arte, afirmava bem alto sua admiração pelos escritores e artistas que desafiavam o conformismo: os Goncourt, Flaubert, Courbet, Manet. Enquanto todos os críticos oficiais cobriam de injúrias o pintor de Déjeuner sur l\\'herbe e de Olympia, ele bradou em L\\' Evénement: "O lugar do sr. Manet é no Louvre!"

Seguiram-se alguns anos difíceis. Zola deixou a Hachette, no início de 1866, para viver exclusivamente de sua pena, de um pequeno jornal a outro, produzindo na base de um romance por ano. Ora, o pagamento dos textos era irregular e os romances não davam retorno. Ele tinha a seu encargo a mãe e a mulher, Alexandrine. Felizes os escritores que tinham boas rendas, como Flaubert e os Goncourt. Zola estava o tempo todo contra a parede.

Paradoxalmente, foi o Império que o livrou das dificuldades. Em maio de 1868, Napoleão III liberalizou o regime da imprensa. Os jornais oposicionistas surgiram como cogumelos depois da chuva. Zola ingressou em La Tribune, onde atuou durante dois anos. Por meio de amigos de Victor Hugo, teve abertas as colunas do Rappel, mais ferozmente republicano que La Tribune. A abdicação de Napoleão III o preservou no último instante de uma condenação por estímulo ao menosprezo pelo governo. A propaganda democrática o alimentava, e ele não pedia mais do que isso. Mas o que fazer em uma Paris atacada pelo exército prussiano, durante a Guerra Franco-prussiana (1870-1871)? Em 7 de setembro de 1870, os Zola conseguiram embarcar em um dos últimos trens que deixaram a estação de Lyon. Passariam o fim da guerra em Marselha, onde Zola fundou um jornal hoje desaparecido, La Marseillaise, e depois em Bordeaux, onde ele se fez contratar como cronista parlamentar de La Cloche. Cada vez que, no decorrer desses cinco anos, o solo ameaçava afundar sob ele, Zola retomava pé com uma rara habilidade tática e com um desprezo crescente pelo pessoal político.

A coleção de 20 volumes sobre os Rougon-Macquart nasceu em boa medida de seu desencantamento. Em 1868 ele concebeu a idéia de uma "história natural e social de uma família sob o Segundo Império", um pouco por razões de subsistência, um pouco para desafiar a lembrança de Honoré Balzac e de La comédie humaine, e mais ainda para dar forma romanesca a sua visão da sociedade contemporânea. Vinte e cinco anos de trabalho ininterrupto entre 1871-1893. O primeiro romance, La fortune des Rougon, foi concluído quando a guerra de 1870 interrompeu sua publicação em folhetins. Seguiram-se 19 outros, pontuados pela balbúrdia de alguns escândalos: L\\'Assommoir, em 1877, Nana, em 1880, La Terre, em 1887.

Tantos mundos e condutas observados e compreendidos em sua violenta verdade. Um acerto de contas libertário com as hipocrisias bem-pensantes; uma expansão contínua da sátira e da ironia. Uma montagem exagerada, excessiva, no estilo de Flaubert. É assim a crônica monumental dos Rougon-Macquart, na qual com freqüência o sexo e a morte fazem par e onde se encontram a cada instante estranhezas mais surrealistas que "naturalistas".

Nesse processo, Zola terminou por conquistar fortuna. A família deixou seus alojamentos modestos em Batignolles para se instalar em Paris. Eles freqüentavam os salões de alguns amigos mais próximos, entre eles o editor Charpentier, os Manet, Flaubert. Em 1878 compraram uma casa de campo em Médan, aldeia da Île-de-France que seria imortalizada em Les soirées de Médan. Zola aparecia como chefe de escola, mas seus sucessos lhe valeram tanto o ciúme quanto a admiração.

Ninguém era mais caricaturado do que ele. O romancista obstinava-se em querer entrar para a Academia Francesa, mas sempre encontrava as portas fechadas. Sua estatura aumentou em meio a polêmicas, às quais permaneceu indiferente. A República jamais o defendeu. Depois de L\\'Assommoir, seu nome foi retirado das listas das condecorações futuras. Ele esperaria até 1888 pela cruz de cavaleiro da Legião de Honra.

A riqueza, o sucesso, as honrarias não o tornaram feliz. A morte da mãe, depois a do velho amigo Flaubert, em 1880, conduziram-no à beira da depressão. Os anos passavam, sempre os mesmos. De tempos em tempos, Zola deixava escapar uma confissão, inesperada e secreta, como esta, no esboço de Le revê: "Eu, o trabalho, a literatura que devorou minha vida, e as perturbações, a crise, a necessidade de ser amado...". Tudo está dito. E tudo está pronto para outra coisa.

Na primavera de 1888, Alexandrine cometeu a imprudência de contratar em Médan uma jovem criada de origem borgonhesa, cujos traços seriam capazes de encantar um pintor: Jeanne Rozerot, de 21 anos, uma Vênus escondida sob o avental. Cinco anos mais tarde, a dedicatória do Docteur Pascal a Jeanne diria o essencial: "À minha bem-amada Jeanne, a minha Clotilde, que me deu o banquete real de sua juventude e que trouxe de volta meus trinta anos, ao fazer-me presente de minha Denise e de meu Jacques, os dois queridos filhos para quem escrevi este livro, para que saibam, lendo-o algum dia, o quanto adorei a mãe deles". A redescoberta dos prazeres da carne, o amor paterno, em nada mudaram a curiosidade de Zola pelos assuntos de sua época. O ciclo dos Rougon havia contado a história de um regime que não existia mais. A série Les trois villes com três livros: Lourdes (1894), Rome (1896) e Paris (1898) iria se abrir às agitações das cidades modernas.

Quando esse último romance apareceu, em março de 1898, foi envolvido pelo turbilhão de "J\\'Accuse...!" (leia o texto na página 25). Em 1894, Zola não conheceu o processo do capitão Dreyfus. No entanto, o anti-semitismo ambiente o enojava. Quando o comandante Esterhazy, o verdadeiro traidor, foi absolvido, em 11 de janeiro de 1898, Zola lançou todo o peso de seu nome em um confronto direto com os ministros, os juízes militares e os generais. Nada sobreviveria da honra deles, abatida por uma inquirição implacável. A França inflamou-se, os "intelectuais" se mobilizaram, os estados-maiores e os gabinetes ministeriais ficaram em pânico, fez-se condenar Zola a um ano de prisão, mas a trama do tenente-coronel Henry, chefe dos serviços de informação, caiu por terra. A revisão do processo de 1894 estava em andamento. Era preciso resolver-se a repatriar Dreyfus, preso desde 1895 na ilha do Diabo. Zola correu todos os riscos, pagou com um ano de exílio na Inglaterra a eficácia de sua eloqüência; mas salvou o oficial judeu.

Sua vida iria se concluir com essa derradeira bofetada no establishment. Ele começou um novo ciclo, a série Les quatre Evangiles, mas morreu antes de haver escrito o quarto. Voltou os olhos para a profecia utópica de um século XX que imaginava marchar para a fraternidade e a felicidade. Em resumo, ele desapareceu a tempo, antes de assistir ao eterno retorno da barbárie.

Uma ferida na honra francesa
Em 1894, o judeu Alfred Dreyfus, oficial do exército francês, foi acusado de ser um suposto informante a serviço do governo alemão. O crime foi enquadrado como alta traição e o acusado sofreu um processo fraudulento conduzido a portas fechadas. A farsa foi acobertada por uma feroz onda de nacionalismo e xenofobia que invadiu a Europa no final do século XIX. Dias soturnos já avistados em 1886, com o lançamento do panfleto anti-semita de Édouard Drumont intitulado A França judia.

A perseguição ao oficial começou quando Madame Bastian, encarregada da limpeza na embaixada alemã em Paris, descobriu uma carta no cesto do lixo do adido militar alemão, o tenente-coronel Schwarzkoppen. O achado caiu nas mãos do serviço secreto francês, que concluiu ser o escrito a prova da existência de um traidor entre o corpo militar. Um bode expiatório fez-se necessário. Seu nome: Alfred Dreyfus, condenado à prisão perpétua na ilha do Diabo, na costa da Guiana Francesa.

Em 1898, evidências de sua inocência possibilitaram um segundo julgamento. Mais uma encenação. A permanência da sentença anterior provocou a indignação de Émile Zola, peça-chave da campanha pelo indulto do militar injustiçado. Zola fez excelente uso do único meio de mobilização da opinião pública na época: a imprensa escrita. Seu golpe de mestre veio em 1898, com a publicação de J\\'Accuse, a célebre carta aberta ao presidente da República Félix Faure, publicada pelo jornal L\\'Aurore.

Indignado, o escritor endereça uma reprimenda à França: "Como poderias querer a verdade e a justiça, quando enxovalham a tal ponto todas as tuas virtudes lendárias?". A polêmica agrupou os franceses em duas frentes de batalha: os dreyfusards e os anti-dreyfusards. Provocador da balbúrdia, Zola foi condenado a um ano de prisão por difamação. Resolvido com o exílio de um ano na Inglaterra.

Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy, major do exército francês, foi o verdadeiro autor da carta, desmascarado, em grande parte, graças aos esforços de Zola. Infelizmente, Zola, não assistiu à revisão do processo, que promoveu a reabilitação do oficial em 1906.

Raphaella de Campos Mello

Henri Mitterand é professor emérito na Sorbonne Nouvelle. Publicou numerosos textos sobre a obra de Zola e sobre os romancistas dos séculos XIX e XX.

Revista Historia Viva

Disney, a serviço do FBI

O criador de Mickey Mouse combateu os sindicatos, era amigo íntimo de Edgar Hoover, o chefão da polícia federal americana, e participou ativamente da cruzada macarthista
por Aymar du Chatenet

O artista denunciou seus funcionários e perseguiu celebridades com o apoio do Senado americano

Walt Disney não foi apenas o pai de Mickey e Donald, o produtor de Branca de Neve, Bambi, Dumbo e Pinóquio e o genial inventor da Disneylândia. Durante 26 anos, de 1940 a 1966, o artista forneceu aos agentes do governo americano relatórios sobre atividades consideradas subversivas das estrelas de Hollywood, dos sindicatos de técnicos e das associações de artistas, roteiristas, produtores e escritores.

A atuação de Disney como informante do FBI, o Federal Bureau of Investigation, foi divulgada inicialmente pelo escritor Marc Eliot em O príncipe sombrio de Hollywood (Ed. Marco Zero). A biografia, classificada como “não autorizada” pela imprensa americana, traz uma análise de 470 páginas de informações produzidas pelo próprio órgão estatal. Para acessar o dossiê, Eliot recorreu ao Freedom of Information Act, um dispositivo legal que autoriza qualquer cidadão americano a ter acesso aos arquivos de uma administração. O material não está completo: faltam 100 páginas e muitas das recebidas pelo autor foram escurecidas, para garantir o anonimato de informantes ou de pessoas colocadas sob suspeita por Disney.

Segundo os dados obtidos, a parceria começou em 1940, quando o artista tinha 39 anos. Nessa época, o poderoso e temido chefe do FBI, John Edgar Hoover, colecionador inveterado de segredos de alcova, assuntos de família e fofocas de todo tipo, se propôs a ajudar Disney na busca por sua árvore genealógica. O assunto era um tormento para o animador desde a adolescência, quando descobriu que não possuía certidão de nascimento. Acreditando ser adotado, ele fez inúmeras pesquisas para encontrar suas origens, todas sem resultado. A oferta do FBI era uma ótima oportunidade para finalmente atingir seu objetivo. Em troca do esforço dos agentes, Disney tornou-se informante e manteve uma relação quase filial com Hoover.
O acordo, imediatamente colocado em prática, levou dois investigadores americanos à cidade de Mojacar, na Espanha, em busca do atestado de nascimento. Eles encontraram o registro de uma criança, nascida por volta de 1890, cuja mãe teria sido Isabel Zamora Ascencio.

O pai, um notável chamado José Guirao, era casado com outra mulher e não assumiu a relação com a amante. Após sua morte, a señorita Zamora teria embarcado para a América e Disney seria, na verdade, o pequeno José, nome de batismo do bebê espanhol. Pura especulação, as informações foram habilmente utilizadas por Hoover para manter estreitos laços com o cineasta.

Disney e Charles Chaplin, vítima célebre da caça as bruxas empreendida no macarthismo

Mas a aliança era bilateral e Disney utilizou-a muitas vezes, fora da alçada particular inicial. Recorreu à polícia federal contra os sindicatos e, em outro nível, para quebrar o monopólio das grandes companhias cinematográficas, que controlavam a distribuição e exportação da produção hollywoodiana. Para ele, os sindicatos eram certamente comunistas e as empresas, a expressão de um complô tramado por imigrantes do leste europeu. Não seria Hoover quem iria contradizê-lo.

Em 1941, o artista realizou uma de suas obras-primas, Fantasia. O filme, protagonizado por Mickey Mouse, foi um fracasso de público. O cineasta atribuiu a péssima recepção da animação a uma “conspiração sindical”, em um período em que seus funcionários entraram em greve por melhores condições de trabalho.

Greve e perseguição

A mobilização eclodiu quando os diretores do estúdio proibiram o estabelecimento de sindicatos filiados à Cartoonist Guild, espécie de federação dos cartunistas. Com barricadas e piquetes, a queda-de-braço durou vários meses. Por fim, todos os líderes sindicais foram demitidos, e Disney aproveitou a Huac, Comissão de Investigação sobre as Atividades Antiamericanas, que funcionou entre os anos 1938 e 1975, para pedir investigação dos militantes. Por vingança, perseguiu os sindicalistas durante anos, mas foi obrigado a readmitir alguns após processos jurídicos.

Em fevereiro de 1944, ele participou da fundação da Motion Picture Alliance, uma máquina de guerra a serviço do anticomunismo. A organização agrupou a nata dos conservadores, entre eles, o milionário e magnata da imprensa, William Randolph Hearst, e os astros John Wayne e Gary Cooper. Em sua declaração de princípios, a MPA alertava para uma possível “dominação dos comunistas, dos radicais e desmiolados de todo tipo”.


Nove dos Dez de Hollywood, grupo de escritores de esquerda perseguidos no período

Em março do mesmo ano, Disney dirigiu-se ao Congresso dos Estados Unidos, solicitando à Huac que estudasse “a maneira flagrante com que a indústria do filme alimentou, em seu seio, comunistas e outros grupos de tendência totalitária, que trabalhavam na divulgação de idéias e de crenças antiamericanas”. O clima de inquisição em Hollywood estava criado. Qualquer pessoa suspeita de ser liberal ou progressista era ouvida pelos políticos, amplamente apoiados e encorajados em seus trabalhos pelo FBI. Em 1947, a Huac investigou, entre outros alvos, um grupo de escritores de esquerda conhecido como “Os dez de Hollywood”. Por se recusarem a responder às perguntas sobre uma eventual ligação com o partido comunista, eles tiveram suas carreiras prejudicadas e alguns cumpriram pena de prisão. A acusação era a de violação da primeira emenda da Constituição americana, que ironicamente regula a liberdade de expressão, de opinião e de manifestação.

No clima de perseguição, Disney também participou ativamente do Communist Pictures, um grupo de representantes do FBI dedicados a localizar subversivos. Entre os que se uniram a esse movimento, estava um ator de segunda categoria, então desconhecido do grande público: Ronald Reagan. O dossiê do FBI sobre aquele que se tornaria presidente dos Estados Unidos entre 1981 e 1989 é eloqüente. Militante sindicalista, Reagan logo tornou-se suspeito por sua atuação no comitê dos cidadãos para as artes, ciências e profissões liberais, considerado uma fachada para os comunistas.

Alertado por seu irmão Neil, membro do mesmo comitê, ele optou por colaborar com as investigações e fornecer aos agentes as listas de militantes ou simpatizantes do comunismo.

Denúncias públicas

Reagan foi brilhante e se tornou informante confidencial. Hoover aproveitou o talento de seu jovem recruta e fez com que fosse ouvido pela Huac.

Para jornais posteriores ao macarthismo, o termo para definir a perseguição política deveria ser "hooverismo", em referência a J. Edgar Hoover (acima)

Em 24 de outubro de 1947, foi a vez de Disney depor perante os políticos, no mesmo dia de Gary Cooper. No relatório da audiência, consta um trecho do diálogo em que os membros da comissão perguntavam se houve, “em qualquer período que seja, comunistas empregados no estúdio”. E o artista respondeu: “Sim. No passado tivemos algumas pessoas que acredito serem comunistas”. Questionado se a greve teria sido fomentada por membros do partido comunista, ele afirmou: “Estou profundamente convencido de que um grupo de comunistas tentou influenciar nossos artistas e conseguiu”. No depoimento, citou os nomes de Herbert Sorrell e Dave Hilberman, dois sindicalistas que participaram da mobilização. Porta-voz dos sindicatos hollywoodianos, Sorrell viu sua carreira naufragar e morreu após um ataque cardíaco aos 45 anos. Hilberman foi vigiado durante anos pelo FBI e teve de se mudar para Nova York, onde trabalhou para uma sociedade de produção tachada de socialista.

A postura anticomunista não escapou à União Soviética, que proibiu os filmes de Disney em todo seu território a partir de março de 1949. Em reação a essa sanção, o artista recebeu uma placa de bronze da Câmara do Comércio de Los Angeles, por sua contribuição ao comércio internacional. O clima de tensão se agravou em 1950, com o crescimento da popularidade do senador republicano Joseph MacCarthy, anticomunista fervoroso. Além da Huac, diversos outros instrumentos estavam atuando, como o Subcomitê Interno de Segurança do Senado e o Subcomitê Permanente de Investigações do Senado. Entre 1949 e 1954, mais de 109 dossiês foram analisados no Congresso americano e o termo “macarthismo” passou a definir a política de perseguição sistemática aos partidários da esquerda, embora alguns jornais tenham posteriormente afirmado que o nome ideal seria “hooverismo”. Toda pessoa que se recusasse a comparecer aos depoimentos era automaticamente fichada. John Huston, Katharine Hepburn, Lauren Bacall e Humphrey Bogart receberam muitas críticas por se limitaram a dar respostas evasivas. Os escritores: John Steinbeck, Arthur Miller, Tennessee Williams, Truman Capote, Dashiell Hammett e Thomas Mann também foram espionados. Outra vítima célebre dessa caça às bruxas foi Charles Chaplin, cujos protestos contra a histeria anticomunista irritavam Disney. Apesar de sua fama, o criador de Carlitos não escapou das perseguições, que o obrigaram ao exílio na Europa.

No Natal de 1954, o chefão do FBI nomeou Disney agente especial, o que fez dele um informante de confiança. Essa promoção não foi desinteressada, pois ocorreu no momento em que o artista estreou no mundo da televisão, assinando um acordo com o canal ABC. Hoover deu uma importância especial a essa mídia, pressentindo a força que iria adquirir nos anos seguintes. Em relatório confidencial, Hoover escreveu: “Tendo em vista o prestígio do sr. Disney, o produtor mais importante de desenhos animados da indústria do cinema, sua competência e suas vastas relações no domínio da produção, nós estimamos que sua colaboração para os serviços do Bureau pode se revelar preciosa. Por isso, recomendo que seja promovido a contato oficial de nossos serviços, sob o título de Special Agent in Charge”.

A lua-de-mel foi finalmente encerrada em 1956. Vítimas de sua paranóia, os homens de Hoover, se não o próprio, começaram a suspeitar de Disney quando ele solicitou uma área do FBI como locação de curtas-metragens do Clube do Mickey. Apesar de terem autorizado a filmagem, o clima de confiança nunca mais foi o mesmo. Em 1961, o artista aprovou o roteiro de Um piloto na Lua, que ridicularizava policiais. Quatro anos depois, se recusou a modificar o script de O espião com patas de veludo, pouco elogioso ao FBI.

Vítima de Hoover

Ignorando a qualidade de informante de Disney, os agentes fizeram uma investigação para provar que ele havia participado da Noite das Américas, evento do Conselho de Democracia Pan-americana, considerado uma associação subversiva, e de uma homenagem a Art Young feita pelo jornal New Masses, taxado como aliado do partido comunista americano. Quando o presidente Dwight Eisenhower (1953-1961) listou personalidades suscetíveis de serem nomeadas ao Conselho Nacional da Cultura, Hoover enviou os dossiês desses dois casos e o nome de Disney foi descartado.

O artista passou de colaborador à vítima do chefão do FBI, que de 1924 a 1972 reinou como mestre absoluto sobre toda a vida política dos Estados Unidos, fichando mais de 159 mil de pessoas. Até hoje, a família do homem vencedor de 29 Oscars e 4 Emmy nega sua participação no macarthismo, sob o argumento de que ele seria apenas um “contato” do FBI. Para seu biógrafo, o “público americano só conhecerá a verdade no dia em que todas as peças – sem cortes – do dossiê Disney, em poder do FBI, estiverem disponíveis”. Um forte indício de que as informações divulgadas até agora estão corretas é que nenhum processo foi aberto contra o livro, traduzido em 14 línguas.

Zé Carioca, um brasileiro em defesa dos EUA
Em plena Segunda Guerra Mundial, Walt Disney desembarcou no Brasil para colaborar com a “política da boa vizinhança”. À época, o governo Getúlio Vargas flertava com o Eixo, em detrimento dos Aliados, e os Estados Unidos adotaram uma campanha para ampliar sua influência política, econômica e cultural no país. Entre as iniciativas para aproximar as duas nações, estavam o impulso à carreira de Carmem Miranda e a viagem de 15 dias de Disney ao Rio de Janeiro. A missão do artista, instruído cuidadosamente por Nelson Rockefeller, diretor da influente Secretaria para Assuntos Interamericanos, era ganhar a simpatia dos brasileiros e o resultado foi a criação de Zé Carioca. O papagaio estreou no filme Alô, amigos de 1942, em que ciceroneava o Pato Donald pelo país. A passagem pela América Latina ainda rendou outros dois personagens: o Gauchinho Voador, representante da Argentina, e o galo mexicano Panchito. Todos se tornaram bons amigos de Donald, simbolizando o que deveria ser a relação com os americanos.

Aymar du Chatenet é jornalista e escritor

Revista Historia Viva

Eugenia, a biologia como farsa

No século XIX o racismo ganhou status científico por meio de uma doutrina que inspirou governos e intelectuais de todo o mundo
por Pietra Diwan
ARQUIVO MAX-PLANCK-GESELLSCHAFT, BERLIM

Durante a década de 30, uma série de exames antropométricos foram realizados na Alemanha nazista para catalogar características físicas da população. O célebre eugenista Otmar von Verschuer em ação

Inglaterra, século XIX. As transformações desencadeadas pela segunda fase da Revolução Industrial alteram profundamente a vida social. O medo burguês da multidão nascente, aliado ao triunfo do discurso científico, encontra na biologia um meio de pôr ordem no aparente caos social: reurbanização, disciplina e políticas de higiene pública deveriam ser aplicadas com a finalidade de prevenir a degradação física dos trabalhadores para evitar prejuízos na economia.

Em meio ao clima de crença inabalável na ciência, o naturalista inglês Charles Darwin publica em 1859 o livro fundador do evolucionismo: A origem das espécies. As descobertas de Darwin mostravam que no mundo animal, na permanente luta pela vida, só os mais bem adaptados sobrevivem e os mais bem “equipados” biologicamente têm maiores chances de se perpetuar na natureza. As teses de Darwin logo são transportadas para outros campos do conhecimento em uma tentativa de explicar o comportamento humano em sociedade. Surge assim o darwinismo social, que apresenta os burgueses como os mais capazes, os mais fortes, os mais inteligentes e os mais ricos.

O cenário estava armado para que o primo de Darwin, o pesquisador britânico Francis Galton, se apropriasse das descobertas do naturalista para desenvolver uma nova ciência. Seu objetivo: o aperfeiçoamento da espécie humana por meio de casamentos entre os “bem dotados biologicamente” e o desenvolvimento de programas educacionais para a reprodução consciente de casais saudáveis. Seu nome: eugenia.

Os métodos propostos pelos entusiastas da nova ciência, porém, não se resumiam à criação de um “haras humano”, povoando o planeta de gente sã, como propunham os defensores da “eugenia positiva”. No outro extremo, a “eugenia negativa” postulou que a inferioridade é hereditária e a única maneira de “livrar” a espécie da degeneração seria utilizar métodos como a esterilização, a segregação, a concessão de licenças para a realização de casamentos e a adoção de leis de imigração restritiva.


AKG IMAGES/LATINSTOCK

Crianças judias são submetidas ao procedimento em 1936

Inicialmente com pouca repercussão na Inglaterra, a doutrina começou a ganhar espaço nos meios intelectuais e acadêmicos mundiais a partir do início do século XX. Foi nos Estados Unidos e na Alemanha que as palestras e conferências de divulgação realizadas por Galton tiveram maior repercussão e os princípios da nova ciência começaram a ser colocados em prática. Hoje, quando pensamos em eugenia, é inevitável a associação imediata à Alemanha nazista, mas foram os Estados Unidos que implementaram o mais bem-sucedido e organizado plano de eugenização social da história, que segue ativo até os nossos dias.

Entre o ano de 1905 e a década de 20, instituições eugênicas proliferaram por todo o território americano. A principal delas, o Eugenics Record Office (ERO), foi dirigida pelo geneticista Charles Davenport, o maior representante da eugenia americana. A primeira lei de esterilização americana foi aprovada em 1907, no estado de Indiana, e estima-se que mais de 50 mil pessoas tenham sido esterilizadas entre 1907 e 1949 em todo o país, considerando que a última lei do gênero foi revogada somente na década de 70.

Os estudos médicos apresentados pelo Comitê de Imigração contribuíram para a aprovação do Johnson-Reed Immigration Restriction Act of 1924, lei que restringiu a imigração e acabou com a política open-door (portas abertas) nos Estados Unidos para impedir o “suicídio da raça”. Um gigantesco aparato institucional financiado por grandes corporações industriais divulgou a eugenia aos quatro cantos do mundo. Com o dinheiro do petróleo, a Fundação Rockefeller financiou e apoiou a prática na França, na Suécia e na Alemanha. Apesar de o prestígio da teoria ter entrado em declínio depois dos excessos do nazismo, as instituições eugênicas sobreviveram, ainda que com outros nomes, e muitas delas funcionam até hoje.

A radicalidade alemã

Ao contrário dos Estados Unidos, a eugenia na Alemanha teve vida mais curta, ainda que mais intensa. Apesar de normalmente associada à ascensão de Hitler ao poder em 1933, não é verdadeiro dizer que na Alemanha a doutrina esteve exclusivamente associada à ideologia nazista. Acredita-se que, mesmo sem o Führer, as leis de esterilização teriam sido implantadas no país. Aliás, a lei de 1933 que legalizou a prática foi inspirada na legislação da Califórnia, o estado que mais esterilizou nos Estados Unidos.


IDEAL HOMES: SUBURBIA IN FOCUS

A insalubridade da vida dos trabalhadores de Londres no século XIX inspirou Francis Galton a desenvolver uma teoria de aperfeiçoamento racial

É verdade, no entanto, que sob o nacional-socialismo a prática assumiu sua faceta mais radical. Centenas de milhares de pessoas foram esterilizadas compulsoriamente e mais de 6 milhões perderam a vida em nome da higiene da raça. Estima-se que mais de 1.700 tribunais, entre 1934 e 1945, aprovaram cerca de 400 mil esterilizações em território nazista.

Outra prática utilizada por Hitler foi a eutanásia, que foi regulamentada ainda antes do início da Segunda Guerra Mundial. Entre 1939 e o fim da guerra, 250 mil casos de eutanásia foram documentados, entre alemães com problemas mentais e deficiências físicas. Com a organização de um sistema de campos de concentração no início da década de 40, judeus, ciganos, homossexuais e oponentes do regime foram assassinados nas câmaras de gás, por meio de injeções letais ou abandonados à morte por desnutrição.

Os números e os nomes das pessoas que sofreram com a eutanásia selvagem são difíceis de precisar. Existem poucos arquivos sobre essa prática. O Tribunal de Nurembergue estimou a morte de cerca de 270 mil alemães, dentre os quais 70 mil idosos e 200 mil doentes. Além da solução final, que executou mais de 6 milhões de judeus a partir de 31 de julho de 1941, o nazismo esterilizou e matou, sob o argumento da raça e por meio da eugenia, centenas de milhares de pessoas “indesejáveis”. Com o fim da Segunda Guerra Mundial a eugenia foi “enterrada viva” na Alemanha a partir de 1948.

Não foi, porém, apenas o nazismo germânico que adotou a higiene da raça como política de Estado. A “ciência” também encontrou um campo fértil nos países escandinavos. Na Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia a eugenia pode ter sido mais branda, mas certamente não foi menos efetiva. Implantada como política pública pelo modelo local do sistema de bem-estar social, a versão escandinava foi cientificamente controlada pelo Estado com a finalidade de eliminar os caracteres indesejáveis da sociedade. Entre as décadas de 30 e 60 estima-se que a Suécia tenha esterilizado cerca de 39 mil pessoas; a Noruega, 7 mil; a Finlândia, 17 mil e a Dinamarca, 11 mil.


INSTITUTO GALTON, LONDRES

Francis Galton (à dir.), o criador da eugenia, aos 87 anos

A eugenia tampouco ficou restrita às nações que seriam o berço da “raça branca”. Na Ásia, China e Japão desenvolveram exemplos práticos – e recentes – de tentativas de aperfeiçoamento racial. Durante o período Meiji (1868-1912), o Japão implantou técnicas de melhoramento da raça através de um programa para a produção de futuros samurais. Mais tarde, em 1948, a Eugenic Protection Law (Lei de Proteção Eugênica), formulada sob inspiração da lei de esterilização alemã de 1933, foi instaurada no Japão sob ocupação americana no pós-guerra a fim de prevenir a reprodução dos “indesejados”, incluindo pessoas com doenças infecciosas.

A China, por outro lado, tem fama de praticar a eugenia atualmente. Uma lei de 1995, que atinge 70% da população chinesa, prevê exames pré-nupciais para o controle de doenças genéticas, infecciosas ou mentais. Quando os médicos consideram inapropriada a procriação do casal ou é detectada alguma doença pré-natal no feto, são receitados o aborto e a esterilização voluntária. No entanto, a eugenia na China não é uma novidade. Desde os tempos imperiais há uma preocupação com a descendência da raça chinesa. Para essa cultura milenar, os ancestrais são sempre os responsáveis pelas gerações futuras, e conceber uma criança com qualquer tipo de deficiência significa uma falha moral de seus pais, o que é inconcebível nesse modelo de sociedade.

Nem mesmo a América Latina, região mestiça por excelência, escapou da eugenia. Muito pelo contrário. Por aqui, o desejo de transformação racial esteve diretamente ligado à formação das identidades nacionais e a uma vontade de desfazer a opinião negativa dos europeus sobre a realidade racial de diversos países. Para os antigos colonizadores, a Argentina significava o “melhor do pior da Europa”; o México, com sua maioria racial de índios e mestizos, afastava-se da norma branca européia; e, finalmente, o Brasil, com seu clima tropical, estimulava a miscigenação e, portanto, sua deterioração racial. Dessa forma, a América Latina abraçou a nova teoria científica de melhoramento racial para resolver o problema da miscigenação, até então muito malvisto pelos europeus.


DIVULGAÇÃO

Homem assina autorização para sua própria esterilização na Suécia

Ligações com o fascismo

O mais importante representante da eugenia na Argentina foi o médico Victor Delfino, que fundou a Sociedad Argentina de Eugenesia em 1918. A conjuntura em que a prática floresceu na Argentina é caracterizada por uma crise econômica e uma reorientação política radical rumo à extrema direita que tornou o país altamente xenófobo. Do ponto de vista da composição racial, a Argentina era (e ainda é) um país branco; quase metade dos imigrantes que entraram no país, entre 1890 e 1930, era de origem italiana; somente 2% da população do país era negra e os indígenas eram marginalizados. Efetivamente, a Argentina foi o único país da América Latina a realizar o branqueamento racial. A eugenia platina teve uma conexão forte com o fascismo italiano. Nossos vizinhos transpuseram as idéias de Mussolini para a sua realidade e passaram a defender uma argentinidad como parte da herança latina e mediterrânea.

O México praticou um tipo de eugenia diametralmente oposto ao da Argentina. Foi o único país a ter uma legislação regulamentando a esterilização, medida rejeitada pelo restante da América Latina, adotada como parte do programa de saúde pública implantado pelo governo que assumiu o poder após o fim da Revolução Mexicana em 1917. Quanto à composição racial mexicana, sua população era principalmente índia e mestiça, sem traços marcantes de imigração. Em 1911, a população estava dividida da seguinte forma: 35% de indígenas; 50% de mestiços; 15% de criollos (brancos hispânicos). A década de 30 no México é marcada pela intensificação do pensamento nacionalista que afirma o discurso da raça na tentativa de exaltar o mestiço e eliminar da nacionalidade mexicana, pelo processo de eugenia negativa, a raça negra. O caminho encontrado foi a imigração restritiva. Para os eugenistas, essas raças se reproduziam mais que os índios e os mestiços.



ACADEMIA PAULISTA DE PSICOLOGIA

O médico paulista Renato Kehl, o grande divulgador da eugenia no Brasil

A eugenia brasileira, por sua vez, surgiu em resposta às teorias degeneracionistas européias do século XIX que criticavam a miscigenação dos trópicos. Apesar do paradoxo racial, implantar a eugenia no Brasil era visto por cientistas e intelectuais do período como um caminho para elevar um país povoado por uma legião de jecas. Antes de 1917, houve algumas iniciativas esparsas que mencionavam a eugenia como um caminho possível, mas foi com o médico paulista Renato Kehl que a teoria adquiriu adeptos e defensores.

O arauto brasileiro

O entusiasmo generalizado causado por uma conferência realizada por Kehl na Associação Cristã de Moços de São Paulo impulsionou a fundação da Sociedade Eugênica de São Paulo (Sesp), em 1918. A primeira associação do tipo na América Latina contou com cerca de 140 associados. Entre eles estavam o fundador da Faculdade de Medicina de São Paulo, Arnaldo Vieira de Carvalho, o sanitarista Arthur Neiva, o psiquiatra Franco da Rocha e o educador Fernando de Azevedo.

Em 1920, Kehl muda-se para o Rio de Janeiro e ao lado de outros médicos psiquiatras participa da fundação da Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), instituição cujo intuito era combater os “fatores comprometedores da higiene da raça e a vitalidade da Nação”. Miguel Couto, presidente da Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, Carlos Chagas, diretor do Instituto Oswaldo Cruz, e Edgar Roquette-Pinto, diretor do Museu Nacional, estavam entre os mais de 120 associados da LBHM.

No início da década de 30, boa parte da LBHM passou a defender abertamente a radicalização das ações “antidegenerativas” como a esterilização, mas alguns membros da associação reagiram à proposta. Edgar Roquette-Pinto se colocou contra a segregação e a favor da miscigenação. Adepto da eugenia positiva, profilática e não radical, para ele a solução para o problema nacional era a higiene e não a raça. Insatisfeito com as divergências na LBHM, Renato Kehl organizou então a Comissão Central Brasileira de Eugenia (CCBE) sob inspiração da Comissão da Sociedade Alemã de Higiene Racial, com a qual se correspondia. Por meio da CCBE, Kehl se aproximou de Oliveira Vianna, então consultor jurídico do governo provisório de Getúlio Vargas, e integrou um grupo designado pelo recém-fundado Ministério do Trabalho para pensar os problemas da imigração no Brasil a partir de 1932.

Os resultados dos trabalhos da Comissão de Imigração liderada por Oliveira Vianna contribuíram para a formulação da Lei de Restrição à Imigração. Mais política do que racial, a medida barrou a entrada no Brasil de asiáticos e judeus denominados pelos eugenistas como não-assimiláveis. Essa postura negativa estava então alinhada com a ideologia nazi-fascista e com as políticas imigratórias dos Estados Unidos. Legalizada em 1934, foi retirada da Constituição após o golpe do Estado Novo, em 1937, embora o comprometimento com a eugenia ainda fosse uma política de Estado, que só recuaria após a adesão do Brasil ao bloco dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1942.

Seja no Brasil de Vargas ou na Alemanha de Hitler, o fato é que durante as primeiras décadas do século XX a eugenia exerceu forte influência sobre governos e intelectuais dos quatro cantos do mundo. A prática assumiu uma multiplicidade de facetas que particulariza cada análise de acordo com a época e o país. Há algo, porém, comum aos diversos eugenistas: todos tinham em vista a substituição das leis de proteção social por outras que favorecessem a reprodução de bons elementos na sociedade, utilizando o rótulo de ciência para um projeto essencialmente político e ideológico.


PRECURSORES NA ANTIGÜIDADE
MUSEU DO VATICANO


Escultura representando um discóbolo (arremessador de disco), exemplo de padrão de beleza dos gregos antigos

Os ideais eugênicos modernos remontam à Antigüidade. Os padrões de beleza física da Grécia antiga, assim como os exemplos de força dos exércitos de Esparta e, séculos antes, as regras de higiene dos hebreus e sua profilaxia também inspiraram os teóricos eugenistas da segunda metade do século XIX e princípios do século XX. No século VIII a.C. a cidade-estado grega de Esparta já adotava medidas de purificação da raça. Todos os recém-nascidos eram examinados cuidadosamente por um conselho de anciãos e, se constatada anormalidade física, mental ou falta de robustez, ordenava-se que o bebê fosse lançado de cima do monte Taigeto. Para o povo judeu, o ritual de inserção no grupo representada pela circuncisão é tão importante quanto a descendência do sangue puro quando se afirma que só é judeu aquele que nasce de ventre judeu. Dessa forma, apesar de o judaísmo ser uma religião, muitas das relações de seus adeptos são pontuadas pela linhagem de sangue. (P. D.)

MONTEIRO LOBATO E O CHOQUE DAS RAÇAS
© ACERVO ICONOGRAPHIA

Monteiro Lobato: para o escritor, que defendia a eugenia, a humanidade precisava de poda, assim como a vinha

O choque das raças ou o presidente negro é o único romance escrito por Monteiro Lobato. Em 1926, o autor criou uma trama futurista num tempo regido pela eugenia, no qual é eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, no ano de 2228. A partir desse enredo, Lobato faz a defesa dos ideais eugênicos. O entusiasmo com a doutrina aparece também em carta escrita a seu amigo, o médico Renato Kehl:

“Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato.”

A ficção de Lobato contém em si a junção de todos os desejos e medos de uma sociedade eugenizada. Segundo o autor, o princípio da eficiência “resolverá todos os problemas materiais dos americanos, como o eugenismo resolverá todos os problemas morais”. Para Lobato, a eugenia e a eficiência seriam as chaves para solucionar os males da humanidade. (P. D.)

Pietra Diwan é mestre em história pela PUC-SP e autora do livro Raça pura: uma história da eugenia no Brasil e no mundo (Contexto, 2007)

Revista Historia Viva

A mão invisível da CIA na União Européia

De 1949 a 1959, em plena Guerra Fria, a CIA despejou o equivalente a US$ 50 milhões em movimentos pró-europeus, dentre os quais o do britânico Winston Churchill e o do francês Henri Frenay. Seu objetivo? Conter o comunismo
por Rémi Kauffer
AGIP/RUE DES ARCHIVES

Truman e Churchill em 1952: a Cia financiou organizações criadas pelo líder britânico, que não queria tirar os recursos do seu próprio bolso

Em 1948, a Europa estava dividida em duas. Metade do continente havia aderido ao socialismo e a outra metade, que permanecia fiel ao capitalismo, vivia sob a ameaça de uma invasão total do Exército Vermelho. Um pequeno círculo de americanos lançou então as bases do Comitê para uma Europa Unida (American Committee for United Europe), o Acue, oficialmente criado em 5 de janeiro de 1949, na sede da Fundação Woodrow Wilson, em Nova York. Políticos, juristas, banqueiros e sindicalistas se misturavam no interior de seu conselho diretivo. Robert Paterson, o secretário da Guerra; Paul Hoffman, o chefe de administração do Plano Marshall (ver glossário); Lucius Clay, o administrador da zona de ocupação na Alemanha. Mas o principal do Acue eram os homens do serviço secreto e a outra sigla que estava por trás do comitê. A CIA, a Agência Central de Inteligência, criada em 15 de setembro de 1947 por uma lei de segurança nacional assinada pelo presidente Harry Truman, envolvida em uma história que revela como os americanos, no pós-guerra, apoiaram os movimentos que defendiam a unificação da Europa como antídoto contra Stalin.

Basta ver quem era seu presidente: William Donovan. Nascido em 1883 em Buffalo, o advogado irlando-americano conhecia bem a Europa. Em junho de 1942, criou o Office of Strategic Services (OSS), o serviço secreto americano da Segunda Guerra Mundial, que chefiaria até setembro de 1945, quando o órgão foi dissolvido. “Wild Bill” teceu relações privilegiadas com a CIA.

Outro importante membro do comitê era Allen Dulles, ex-membro do OSS e um dos redatores da lei que criou a CIA. Dulles acreditava que em matéria de ação clandestina, público e privado deveriam unir forças. Em 1950, reassumiria oficialmente uma posição no serviço secreto, e logo em seguida estava à frente da agência – de fevereiro de 1953 a setembro de 1961.
Surpreendente caldeirão, no comitê personalidades da alta sociedade e/ou do serviço secreto coabitavam com os dirigentes da poderosa central sindical American Federation of Labor, a AFL, com quem compartilhavam a aversão pelo comunismo.


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Reunião do Conselho Europeu em 1952, com os chanceleres da Alemanha, Grã-Bretanha e França: integração da Europa seria "antídoto" contra Stalin

Para enfrentar a União Soviética, Washington desenvolveu dois conceitos-chave: a “contenção” e o Plano Marshall. A idéia da contenção foi desenvolvida por George Kennan, em julho de 1947: “O elemento maior da política dos Estados Unidos relativamente à União Soviética deve ser uma barreira, de longo prazo, paciente, mas firme, às tendências expansionistas russas”.

Quanto ao Plano Marshall, ele tem o nome de seu inventor, o general George Marshall, então ministro das Relações Exteriores do governo Truman. Ao oferecer ajuda na recuperação dos arruinados europeus, os Estados Unidos resolviam dois problemas. Puxar o tapete sob os pés dos partidos comunistas, através da melhora do nível de vida dos países atingidos e impedir sua própria indústria de mergulhar na decadência, abrindo as portas de novos mercados.

Para a dobradinha Marshall–Kennan, nada melhor como ferramenta do que a CIA. “Eles me chamam de pai da informação centralizada, mas eu preferia que eles se lembrassem de mim por causa de minha contribuição para a unificação da Europa”, suspirava Donovan, em outubro de 1952. Construir a Europa era preencher um vazio continental que tinha vantagens só para Stalin – em última instância, portanto, era proteger os Estados Unidos. Nos espírito dos homens da CIA, não havia nada de mais nobre do que uma ação clandestina a serviço da liberdade.

Enquanto isso, Winston Churchill, derrotado nas eleições legislativas de 1945, buscava a formação de um eixo anglo-franco-alemão, em uma “espécie de Estados Unidos da Europa”. Em maio de 1948, Duncan Sandys, seu genro, moldou o Congresso Europeanista de Haia sob medida para o sogro. E em outubro de 1948 Churchill criou o United European Movement – o Movimento Unido Europeu, do qual era o presidente de honra, ao lado de dois democratas-cristãos, o italiano Alcide de Gasperi e o alemão Konrad Adenauer, e de dois socialistas, o francês Léon Blum e o belga Paul-Henri Spaak.

Infelizmente para os “amigos americanos”, Churchill propôs objetivos europeus bastante limitados.


TAL/RUE DES ARCHIVES

O Exército Vermelho ocupa Berlim em 1945. O medo de uma invasão soviética assombrava a Europa Ocidental e seus aliados nos Estados Unidos

O Comitê e a tendência “federalista” de Henri Frenay queriam ir muito mais longe. Nos piores momentos da Segunda Guerra Mundial, Frenay, fundador do movimento da Resistência francesa Combat (ver glossário), concebeu a idéia de um continente unificado, com uma base supranacional. Em novembro de 1942, escreveu para De Gaulle que era preciso ir além da idéia de estado-nação: reconciliar-se com a Alemanha do pós-guerra e construir uma Europa federativa.

Com orientação de esquerda, a União Européia dos Federalistas, a UEF, foi criada em 1946. Frenay tornou-se o presidente do escritório executivo, secundado pelo ex-comunista italiano Altiero Spinelli e pelo austríaco Eugen Kogon. A CIA teria de optar então entre o velho leão inglês e o pioneiro da Resistência francesa.

A favor de Churchill contavam sua natureza de estadista, de aliado de guerra e sua preferência declarada pelos Estados Unidos; contra ele falavam sua recusa obstinada do modelo federalista, tão caro aos europeanistas americanos. Em março de 1949, Churchill se encontrou com Donovan, em Washington. Em junho, escreveu pedindo um aporte emergencial de recursos (pessoalmente muito rico, Churchill não tinha a menor intenção de recorrer ao próprio bolso). Comitê e CIA, a principal fornecedora de fundos, desbloquearam então uma primeira fatia, equivalente a pouco menos de 2 milhões de euros em valores atuais-, que permitiram “preparar” as primeiras reuniões do Conselho da Europa de Estrasburgo.

Para apoiar seus parceiros do Velho Continente, o Acue e a CIA montaram complexos circuitos financeiros. Os dólares do Tio Sam – equivalentes a 5 milhões de euros, entre 1949 e 1951, e depois o mesmo montante anualmente, na seqüência – vinham essencialmente de fundos alocados à CIA pelo Departamento de Estado americano. Em outubro de 1951, a volta de Churchill ao poder não interromperia o fluxo de dinheiro: entre 1949 e 1953 a CIA deu ao seu movimento o equivalente a mais de 15 milhões de euros, deixando a seus parceiros europeus a tarefa de redistribuir uma parte desse dinheiro a seus rivais da UEF.

Para Frenay, estava claro: a Europa federativa constituía então o único escudo eficaz contra o expansionismo comunista. A UEF não era rica. A saúde financeira viria do aliado americano? Sim, garantiam desde meados de 1950 os homens do Acue a um representante francês da UEF em visita a Nova York. De acordo com a posição oficial do governo americano, favorável à integração européia, sua ajuda não exigiria nenhuma contrapartida, política ou de outro tipo, condição sine qua non aos olhos de Frenay. A partir de novembro de 1950 o Acue financiaria com cerca de 600 mil euros uma das iniciativas mais significativas de Frenay e dos federalistas de esquerda: a criação, em Estrasburgo, de um Congresso dos Povos Europeus, também chamado de Comitê Europeu de Vigilância – em paralelo ao oficialíssimo Conselho da Europa de Churchill.

Para a CIA não eram os meios conservadores que precisavam ser convencidos, mas a esquerda anti-stalinista européia, da qual Frenay era um dos maiores representantes. Em 1952, o Acue financiou o efêmero Comitê de Iniciativa para a Assembléia Constituinte Européia, do qual Spaak seria presidente e Frenay secretário-geral. Por meio de fundações privadas mais ou menos fictícias, começou um procedimento de pagamentos aos federalistas de esquerda, por contatos paragovernamentais americanos.

Em 1958 a volta ao poder do general De Gaulle, radicalmente hostil às teses federalistas, aniquilou as últimas esperanças da UEF e de seus amigos americanos. À dissolução do Acue em maio de 1960, seguiu-se o fim dos financiamentos ocultos. Em 12 anos, a CIA pagou o equivalente a 50 milhões de euros. Sem jamais suas ações terem sido pegas em flagrante!

Rémi Kauffer é professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris e membro do comitê editorial da revista Historia

Revista Historia Viva