segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O paradoxo andante - Eduardo Galeano


O paradoxo andante
Por Eduardo Galeano

Cada dia, ao ler os jornais, assisto a uma aula de história.
Os jornais ensinam-me pelo que dizem e pelo que silenciam.
A história é um paradoxo andante. A contradição move-lhe as pernas. Talvez por isso os seus silêncios digam mais que as suas palavras e muitas vezes as suas palavras revelam, mentindo, a verdade.
Dentro em breve será publicado um livro meu chamado Espejos [Espelhos]. É algo assim como uma história universal, e desculpem o atrevimento. "Posso resistir a tudo, menos à tentação", dizia Oscar Wilde, e confesso que sucumbi à tentação de contar alguns episódios da aventura humana no mundo, do ponto de vista dos que não apareceram na foto.
Pode-se dizer que não se trata de factos muito conhecidos.
Resumo aqui alguns, apenas uns poucos.
* * *
Quando foram desalojados do Paraíso, Adão e Eva mudaram-se para África, não para Paris.
Algum tempo depois, quando os seus filhos já se tinham lançado pelos caminhos do mundo, foi inventada a escrita. No Iraque, não no Texas.
Também a álgebra foi inventada no Iraque. Fundou-a Mohamed al Jwarizmi, há mil e duzentos anos, e as palavras algoritmo e algarismo derivam do seu nome.
Os nomes costumam não coincidir com o que nomeiam. No British Museum, por exemplo, as esculturas do Parténon chamam-se "mármores de Elgin", mas são mármores de Fídias. Elgin era o nome do inglês que as vendeu ao museu.
As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu, a bússola, a pólvora e a imprensa, tinham sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo o que a Europa reinventou.
Os hindus souberam antes de todos que a Terra era redonda e os maias tinham criado o calendário mais exacto de todos os tempos.
* * *
Em 1493, o Vaticano presenteou a América à Espanha e obsequiou a África negra a Portugal, "para que as nações bárbaras sejam reduzidas à fé católica". Naquele tempo, a América tinha quinze vezes mais habitantes que a Espanha e a África negra cem vezes mais que Portugal.
Tal como ordenara o Papa, as nações bárbaras foram reduzidas. E muito.
* * *
Tenochtitlán, o centro do império asteca, era de água. Hernán Cortés demoliu a cidade pedra por pedra e, com os escombros, tapou os canais por onde navegavam duzentas mil canoas. Esta foi a primeira guerra da água na América. Agora, Tenochtitlán chama-se México DF. Por onde corria a água, correm agora os automóveis.
* * *
O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagónia.
A avenida mais longa do Uruguai tem o nome do general Rivera, que no século XIX exterminou os últimos índios charruas.
* * *
John Locke, o filósofo da liberdade, era accionista da Royal Africa Company, que comprava e vendia escravos.
No momento em que nascia o século XVIII, o primeiro dos bourbons, Felipe V, inaugurou o seu reinado assinando um contrato com o primo, o rei da França, para que a Compagnie de Guinée vendesse negros na América. Cada monarca ficava com 25 por cento dos lucros.
Nomes de alguns navios negreiros: Voltaire, Rousseau, Jesus, Esperança, Igualdade, Amizade.
Dois dos Pais Fundadores dos Estados Unidos desvaneceram-se na névoa da história oficial. Ninguém se recorda de Robert Carter nem de Gouverner Morris. A amnésia recompensou os seus actos. Carter foi a única personalidade eminente da independência que libertou os seus escravos. Morris, redactor da Constituição, opôs-se à cláusula que estabelecia que um escravo equivalia às três quintas partes de uma pessoa.
"O nascimento de uma nação" , a primeira super-produção de Hollywood, foi estreado em 1915, na Casa Branca. O presidente, Woodrow Wilson, aplaudiu-a de pé. Ele era o autor dos textos do filme, um hino racista de louvor ao Ku Klux Klan.
* * *
Algumas datas:
Desde o ano 1234, e durante os sete séculos seguintes, a Igreja Católica proibiu que as mulheres cantassem nos templos. As suas vozes eram impuras, devido àquele caso da Eva e do pecado original.
No ano de 1783, o rei da Espanha decretou que não eram desonrosos os trabalhos manuais, os chamados "ofícios vis", que até então acarretavam a perda da fidalguia.
Até ao ano de 1986 foi legal o castigo das crianças, nas escolas da Inglaterra, com correias, varas e cacetes.
* * *
Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, em 1793 a Revolução Francesa proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A militante revolucionária Olympia de Gouges propôs então a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A guilhotina cortou-lhe a cabeça.
Meio século depois, outro governo revolucionário, durante a Primeira Comuna de Paris, proclamou o sufrágio universal. Ao mesmo tempo, negou o direito de voto às mulheres, por unanimidade menos um: 899 votos contra, um a favor.
* * *
A imperatriz cristã Teodora nunca disse que era uma revolucionária, nem nada que se parecesse. Mas há mil e quinhentos anos o império bizantino foi, graças a ela, o primeiro lugar do mundo onde o aborto e o divórcio foram direitos das mulheres.
* * *
O general Ulisses Grant, vencedor da guerra do Norte industrial contra o Sul esclavagista, foi a seguir presidente dos Estados Unidos.
Em 1875, respondendo às pressões britânicas, respondeu:
- Dentro de duzentos anos, quando tivermos obtido do proteccionismo tudo o que ele nos pode proporcionar, também nós adoptaremos a liberdade de comércio.
Assim sendo, em 2075, o país mais proteccionista do mundo adoptará a liberdade de comércio.
* * *
"Lootie", ("Saquezinho") foi o primeiro cão pequinês a chegar à Europa.
Viajou para Londres em 1860. Os ingleses baptizaram-no assim porque era parte do saque extorquido à China no fim das longas guerras do ópio.
Vitória, a rainha narcotraficante, tinha imposto o ópio a tiros de canhão. A China foi convertida num país de drogados, em nome da liberdade, a liberdade de comércio.
Em nome da liberdade, a liberdade de comércio, o Paraguai foi aniquilado em 1870. Ao final de uma guerra de cinco anos, este país, o único das Américas que não devia um centavo a ninguém, inaugurou a sua dívida externa. Às suas ruínas fumegantes chegou, vindo de Londres, o primeiro empréstimo. Foi destinado a pagar uma enorme indemnização ao Brasil, à Argentina e ao Uruguai. O país assassinado pagou aos países assassinos pelo trabalho que tinham tido a assassiná-lo.
* * *
O Haiti também pagou uma enorme indemnização. Desde que em 1804 conquistou a sua independência, a nova nação arrasada teve de pagar à França uma fortuna, durante um século e meio, para expiar o pecado da sua liberdade.
* * *
As grandes empresas têm direitos humanos nos Estados Unidos. Em 1886, o Supremo Tribunal de Justiça estendeu os direitos humanos às corporações privadas, e assim continua a ser.
Poucos anos depois, em defesa dos direitos humanos das suas empresas, os Estados Unidos invadiram dez países, em diversos mares do mundo.
Então, Mark Twain, dirigente da Liga Anti-imperialista, propôs uma nova bandeira, com caveirinhas em vez de estrelas. E outro escritor, Ambroce Bierce, confirmou:
- A guerra é o caminho escolhido por Deus para nos ensinar geografia.
* * *
Os campos de concentração nasceram em África. Os ingleses iniciaram a experiência, e os alemães desenvolveram-na. Depois disso, Hermann Göring aplicou na Alemanha o modelo que o seu pai tinha testado, em 1904, na Namíbia. Os mestres de Joseph Mengele tinham estudado, no campo de concentração da Namíbia, a anatomia das raças inferiores. As cobaias eram todas negras.
* * *
Em 1936, o Comité Olímpico Internacional não tolerava insolências. Nas Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, a selecção de futebol do Peru derrotou por 4 a 2 a selecção da Áustria, o país natal do Führer. O Comité Olímpico anulou o jogo.
* * *
Não faltaram amigos a Hitler. A Rockefeller Foundation financiou investigações raciais e racistas da medicina nazi. A Coca-Cola inventou a Fanta, em plena guerra, para o mercado alemão. A IBM tornou possível a identificação e a classificação dos judeus, e essa foi a primeira façanha em grande escala do sistema de cartões perfurados.
* * *
Em 1953, explodiu o protesto operário na Alemanha comunista.
Trabalhadores tomaram as ruas e os tanques soviéticos dedicaram-se a calar-lhes a boca. Então Bertolt Brecht sugeriu: Não seria mais fácil que o governo dissolvesse o povo e elegesse outro?
* * *
Operações de marketing. A opinião pública é o target. As guerras vendem-se mentindo, tal como se vendem os carros.
Em 1964, os Estados Unidos invadiram o Vietname, porque o Vietname tinha atacado dois navios dos Estados Unidos no Golfo de Tonkin. Quando a guerra já tinha trucidado uma multidão de vietnamitas, o ministro da Defesa, Robert McNamara, reconheceu que o ataque de Tonkin não existira.
Quarenta anos depois, a história repetiu-se no Iraque.
* * *
Milhares de anos antes da invasão norte-americana levar a civilização ao Iraque, nesta terra bárbara nasceu o primeiro poema de amor na história mundial. Na língua suméria, escrito no barro, o poema narrou o encontro de uma deusa e um pastor. Inanna, a deusa, amou nessa noite como se fosse mortal. Dumuzi, o pastor, foi imortal enquanto durou essa noite.
* * *
Paradoxos andantes, paradoxos estimulantes:
O Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais belas esculturas da era colonial americana.
O livro de viagens de Marco Pólo, aventura da liberdade, foi escrito na prisão em Génova.
"Don Quixote de La Mancha", uma outra aventura da liberdade, nasceu na prisão de Sevilha.
Foram netos de escravos os negros que criaram o jazz, a mais livre das músicas.
Um dos melhores guitarristas de jazz, o cigano Django Reinhardt, só tinha dois dedos na sua mão esquerda.
Não tinha mãos Grimod de Reynière, o grande mestre da cozinha francesa. Com garfos escrevia, cozinhava e comia. Tradução de Luis Leiria

A democracia e suas idades


REVISTA CH 252 :: SETEMBRO DE 2008 :: SOBRE HUMANOS


Entender a evolução histórica desse conceito ajuda a trazer respostas aos desafios da sociedade


A antiguidade da palavra ‘democracia’ é em muitos sentidos enganosa. Sua longa existência pode induzir-nos a supor que os valores e as instituições hoje associadas a esse conceito estão presentes na história desde a Antiguidade clássica. Com freqüência, adotamos termos sem perceber que sua carga semântica sofre, com o tempo, mudanças significativas. A palavra democracia não ficou imune a tal processo.

A democracia, como é conhecida hoje, é um fenômeno que se generalizou após a Segunda Guerra Mundial. Tem, portanto, apenas 50 anos, ainda que em alguns países sua construção tenha começado antes desse prazo. Essa novidade, típica do século 20, pode ser compreendida como uma convergência de três tradições distintas: a democrática clássica, a liberal e a socialista. Tais modelos foram formulados, em contextos históricos particulares, como respostas a desafios diferenciados, e estão combinados na forma construída no século 20. A novidade consiste nessa combinação, por vezes um tanto confusa.


Situada a 1 km da Acrópole, a colina de Pnyx era o local em que os cidadãos se reuniam na antiga Atenas para o exercício da democracia. Discursos eram feitos na plataforma que se vê em primeiro plano na imagem (foto: Adam Carr).


O primeiro componente é representado pelo velho modelo da democracia clássica praticada na Atenas do século 5 a.C., fundada na idéia de que o governo é o próprio povo (demos), sem qualquer intermediação. Esse modelo tinha como premissa o princípio da ‘isonomia’, segundo o qual os cidadãos tinham peso político idêntico, independentemente de suas posições sociais.

Ainda que o modelo ateniense contivesse um critério de exclusão – mulheres, estrangeiros e escravos não podiam participar –, o princípio da isonomia tem aspectos revolucionários, já que distingue a dimensão da política dos outros aspectos da vida social e confere a ela primazia.

O segundo componente é a tradição liberal, ou seja, aquela inaugurada com a modernidade, a partir do século 16, que teve nos filósofos políticos John Locke (inglês, 1632-1704) e Charles-Louis de Secondat, o barão de Montesquieu (francês, 1689-1755), seus principais formuladores. A preocupação básica do liberalismo, desde seu nascimento, foi a de estabelecer limites legais ao exercício do poder político. Daí sua preocupação com a proteção de direitos individuais diante da ameaça de exercício tirânico dos governos.

O processo de democratização política, iniciado no século 19 por meio da extensão progressiva do direito de voto, marcou-se por uma combinação entre as linguagens da democracia clássica e do liberalismo moderno. Democracia, nesse quadro, significa não mais autogoverno do demos, mas extensão do direito individual de escolha de representantes. Em diversos países europeus, tal extensão viria a incluir, no início do século seguinte, o operariado.

Socialismo e ampliação de direitos individuais
O terceiro componente do experimento democrático do século 20, o socialismo, está diretamente associado à ampliação desse direito. Tal extensão inclui a ação de inúmeros movimentos sociais de cunho igualitário e a presença eleitoral – legislativa e governativa – dos partidos de esquerda, com papel relevante na maioria dos países democráticos. O conjunto foi decisivo para, por meio de pressão por legislação e reforma social, estabelecer restrições ao mercado e definir critérios de justiça social. A pressão igualitária inscreveu na experiência democrática uma pauta de direitos sociais, que excede e complementa as liberdades individuais instituídas pela tradição liberal.

A descrição da democracia como uma decantação dessas três vertentes tem, ao menos, duas utilidades. A primeira consiste em pensar o fenômeno democrático como processo, e não como algo estático, já que sempre se pode imaginar o aperfeiçoamento de seus três componentes: a participação e soberania populares, os direitos civis e os mecanismos de proteção e inclusão sociais.

A segunda é a fixação de algo como um ‘piso’, um limite mínimo. Assim como disse Hémon de Tebas, na peça teatral Antígona, diante das pretensões despóticas de seu pai, Creonte – “Não há polis onde um só manda.” –, pode-se dizer que será menos-que-democrática a sociedade que fizer regredir os três aspectos mencionados.

revsta ciencia hoje
Renato Lessa
Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro,
da Universidade Candido Mendes,
e Universidade Federal Fluminense
rlessa@iuperj.br

Reforma Pereira Passos



AVENIDA Central, c.1910. Coleção Gilberto Ferrez. Foto: Marc Ferrez. In: PARENTE, José Inácio e MONTE-MÓR, Patrícia (Orgs.). Rio de Janeiro: Retratos de Cidade. Rio de Janeiro: Interior Produções, c.1994. 176p.

No alvorecer do século XX, o Rio de Janeiro enfrentava graves problemas sociais, decorrentes, em larga medida, de seu crescimento rápido e desordenado. Com o declínio do trabalho escravo, a cidade passara a receber grandes contingentes de imigrantes europeus e de ex-escravos, atraídos pelas oportunidades que ali se abriam ao trabalho assalariado. Entre 1872 e 1890, sua população duplicou, passando de 274 mil para 522 mil habitantes.

O incremento populacional e, particularmente, o aumento da pobreza agravaram a crise habitacional, traço constante da vida urbana no Rio desde meados do século XIX. O epicentro dessa crise era ainda, e cada vez mais, o miolo do Rio – a Cidade Velha e suas adjacências – , onde se multiplicavam as habitações coletivas e onde eclodiam as violentas epidemias de febre amarela, varíola, cólera-morbo que conferiam à cidade fama internacional de porto sujo.


VENDEDORES ambulantes, c.1895. Coleção Gilberto Ferrez. Foto: Marc Ferrez. In: PARENTE, José Inácio e MONTE-MÓR, Patrícia. Rio de Janeiro: Retratos de Cidade. Rio de Janeiro: Interior Produções, c.1994. 176p.

Não por acaso, os higienistas foram os primeiros a formular um discurso articulado sobre as condições de vida na cidade, propondo intervenções mais ou menos drásticas para restaurar o equilíbrio daquele "organismo" doente. O primeiro plano urbanístico para o Rio de Janeiro foi elaborado entre duas epidemias muito violentas (1873 e 1876), mas uma ação concreta nesse sentido levaria cerca de três décadas para se realizar. Foi a estabilidade político-econômica, a duras penas alcançada no governo Campos Sales (1898-1902), que permitiu ao seu sucessor, Rodrigues Alves, promover, entre 1903 e 1906, o ambicioso programa de renovação urbana da capital.

Tratada como questão nacional, a reforma urbana sustentou-se no tripé saneamento – abertura de ruas – embelezamento, tendo por finalidade última atrair capitais estrangeiros para o país. Era preciso sanear a cidade e, para isso, as ruas deveriam ser necessariamente mais largas, criando condições para arejar, ventilar e iluminar melhor os prédios. Ruas mais largas estimulariam igualmente a adoção de um padrão arquitetônico mais digno de uma cidade-capital.

As obras de maior vulto - a modernização do porto, a abertura das avenidas Central (A. Rio Branco) e do Mangue – e o saneamento foram assumidas pelo governo federal. A demolição do casario do centro antigo, a abertura e o alargamento de diversas ruas e o embelezamento de logradouros públicos foram atribuídos à prefeitura da capital.


LARGO do Depósito. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 1904. In: História dos Bairros: Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Zona Portuária. Rio de Janeiro: Editora Index, João Fortes Engenharia, 1987.

Apoiada nas idéias de civilização, beleza e regeneração física e moral, a reforma promoveu uma intensa valorização do solo urbano da área central, atingindo como um cataclisma a população de baixa renda que ali se concentrava. Cerca de 1.600 velhos prédios residenciais foram demolidos. Parte considerável da imensa massa atingida pela remodelação permaneceria no centro, em suas franjas e fendas deterioradas, pois, apesar do rápido crescimento da zona norte e dos subúrbios, essas áreas não constituíam alternativa de moradia para os que sobreviviam de biscates ou recebiam diárias irrisórias. Serviam apenas aos que possuíam remuneração estável e suficiente para as despesas de transporte, aquisição de terreno, construção ou aluguel de uma casa.

Nesse contexto aflorou na paisagem do Rio, ao lado das tradicionais habitações coletivas que se disseminaram nas áreas adjacentes ao centro (Saúde, Gamboa e Cidade Nova), uma nova modalidade de habitação popular: a favela. Em fins de 1905, uma comissão nomeada pelo governo federal para examinar o problema das habitações populares constatou que as demolições de prédios iam muito além de todas as expectativas, forçando a população a "ter a vida errante dos vagabundos e, o que é pior, a ser tida como tal". O relatório da mesma comissão fazia referência ao Morro da Favela (atual Providência) – "pujante aldeia de casebres e choças, no coração mesmo da capital da República, a dois passos da Grande Avenida" – que emprestaria seu nome ao, até hoje, mais destacado ícone da segregação social no espaço urbano da cidade.


TRANSPORTE de café na Rua do Acre. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1908. In: História dos Bairros: Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Zona Portuária. Rio de Janeiro: Editora Index, João Fortes Engenharia, 1987.

A reforma da capital constituiu, sem dúvida, uma ruptura no processo de urbanização do Rio de Janeiro, um ponto de inflexão no qual a "cidade colonial" cedeu lugar, de forma definitiva à "cidade burguesa", moderna, do século XX, que tinha como parâmetros as metrópoles européias. Em novembro de 1906, quando Rodrigues Alves Passou a faixa presidencial a Afonso Pena, o Rio – remodelado e saneado – já era apresentado como "a cidade mais linda do mundo", a "cidade maravilhosa".

http://www2.prossiga.br/ocruz/riodejaneiro/reforma/reformaurbana.htm

O julgamento dos crimes contra a humanidade: a reflexão de Hannah Arendt


O julgamento dos crimes contra a humanidade: a reflexão de Hannah Arendt
Escrito por Sara Ramos Pinto
31-Mar-2008
No rescaldo de toda a polémica suscitada pelos excertos publicados em Fevereiro e Março de 1963 no jornal The New Yorker, Hannah Arendt publica, ainda em 1963, a sua avaliação do julgamento de Eichmann num livro intitulado Eichmann Trial: A Report on the Banality of Evil. Neste meu comentário e, espero, igualmente sugestão de leitura revisitaremos a reflexão de Hannah Arendt relativamente à questão do mal, da responsabilidade individual em contexto de guerra e das dificuldades sentidas em julgamentos de crimes contra a humanidade.

Para quem o nome Eichmann se encontra já esquecido nos recantos da memória, será importante relembrar a sua associação à Alemanha Nazi e ao planeamento do Holocausto. Enquanto tenente-coronel da SS, Eichmann foi levado a tribunal como responsável pela logística do extermínio de milhares de pessoas, nomeadamente a organização dos processos de identificação e transporte de pessoas para os diferentes campos de concentração.

Em 1964 é publicada uma segunda edição, na qual, além dos artigos publicados em 1963 aquando do julgamento, são publicado também outros textos informativos que vieram a público depois do julgamento e um importante comentário da autora sob a forma de “pós-escrito”, onde a filósofa alemã deixa a descoberto as suas muito próprias reflexões sobre o julgamento em particular e o julgar de crimes contra a humanidade em geral.

A par da relevância enquanto documento histórico que este texto representa, a sua importância firma-se pelo abordar recorrente de 4 temas centrais:

1) Um Tribunal conduzido segundo as necessidade do público e que nunca reflectiu sobre as acusações principais;

2) O carácter abrangente do Tribunal que reflectia sobre questões que em muito ultrapassavam o caso de Eichmann;

3) A questão de se teria sido Israel o contexto mais apropriado para aquele julgamento;

4) O grau de responsabilidade que pode reconhecido sobre um único individuo em contexto de guerra e de hierarquia militar.

Quanto ao desenrolar do julgamento, parece-me bastante revelador a comparação feita entre a sala de audiência e uma sala de teatro, logo no primeiro capítulo intitulado “A Casa da Justiça”. O réu, neste caso Eichmann, assumiria o papel de herói, a assistência o de público e Hausner, o Procurador-Geral, o de um possível narrador/comentador, levando a que mais uma vez se coloque a já tão discutida questão da ténue fronteira que separa a ficção da realidade. Embora não na linha de dramaturgos como Brecht (afinal de contas sempre se tratava de um julgamento), o público participa em pleno neste julgamento, na medida em que todo este processo se mostra mais direccionado para o público, com os seus desejos e necessidades, do que para o réu e o julgar dos seus actos. O Promotor Público, tanto na sala como fora dela, tirando partido da presença dos canais televisivos internacionais, procura atribuir a Eichmann responsabilidades que este não poderá nunca assumir (nomeadamente a de ser o principal responsável pela “Solução Final”), ao mesmo tempo que, de forma bastante dramática (tanto no sentido de emocional como no de teatral), dava a entender que era a oportunidade do povo judeu se “vingar” e trazer a julgamento todas as injustiças e perseguições de que foi alvo em 5000 anos de existência.

Pela forma como descreve o desenrolar dos acontecimentos, assim como as atitudes dos presentes, Hannah Arendt deixa bem claro que duas forças contraditórias se erguiam no que se refere aos objectivos destes julgamento. Se por um lado temos um grupo de juízes que procura julgar Eichmann enquanto homem pelos actos cometidos de forma justa e imparcial; por outro, temos o ministério público que parece querer transformar este julgamento num espectáculo mediático e Eichmann num “bode expiatório”. Como deixa o Procurador-Geral bem claro nas suas palavras de abertura, este julgamento tinha o objectivo bem definido de deixar certos “recados” a diferentes entidades envolvidas na II Guerra Mundial: ao mundo não judaico, para que fiquem conscientes de que os judeus foram um alvo pelo simples facto de serem judeus; aos restantes estados europeus, por de alguma forma terem sido coniventes por inércia; aos judeus da Diáspora, para lhes relembrar todas as perseguições de que têm sido alvo; aos judeus de Israel, que, nascidos depois do holocausto, começavam a perder os laços com esta página da sua história; e, finalmente, todos aqueles que encobriam outros militares nazis refugiados.

Importante será ter em conta, e disso nos vai Hannah Arendt avivando a memória de tempos a tempos, que o Estado de Israel, como estado recentemente formado, encontra neste julgamento uma forma de legitimação e afirmação de si mesmo como estado democrático e justo capaz de julgar os crimes contra o seu próprio povo. Contudo, pelas atitudes e comentários paralelos do advogado de acusação, assim como pelo público que assistia ao julgamento (maioritariamente judeus de meia-idade que passaram pelos horrores dos campos de concentração), percebemos que este julgamento se afirma antes como um processo de expiação, tanto do sofrimento causado pela II Guerra Mundial, como por todas as perseguições que marcam a Diáspora do povo Judeu. Ao contrário dos julgamentos de Nuremberga, onde a acusação havia alicerçado os seus argumentos à luz do conceito de “crimes contra a humanidade”, o julgamento de Eichmann em Israel por um tribunal israelita iria permitir o julgamento apenas dos crimes perpetrados contra o povo judeu (e apenas o povo judeu) que se sentia o mais lesado.

É dentro deste contexto talvez mais político que social que tomaram lugar perguntas que não fariam qualquer sentido naquele contexto, nomeadamente: “‘Como pode isto acontecer?’, ‘Qual foi a razão?’, ‘Porquê os Judeus?’, ‘Porquê os Alemães?’, ‘Que papel tiveram as outras nações?’, ‘Qual o grau de responsabilidade dos aliados?’, ‘Como puderam os judeus, através dos seus dirigentes, colaborar na sua própria destruição?’, ‘Porque terão caminhado para a morte como ovelhas para o matadouro?’” (p.57). Perguntas que se no julgamento nunca vieram a ter resposta, conhecem-na nas palavras de Hannah Arendt que, como sobrevivente de um campo de concentração, afirma sem grande dificuldade ou embaraço, que não é uma questão de maior ou menor coragem, mas sim de uma maior ou menor consciência da realidade. Numa situação em que a morte parecia a única certeza, o último acto de liberdade permitido à vítima era a possibilidade de escolha do tipo de morte a que se iria entregar. Parece ser esta a mensagem de Hannah Arendt numa frase muito lúcida deste primeiro capítulo: “Existem muitas coisas bastante piores que a morte […], só os muito jovens tinham sido capazes de ‘decidir que não podemos ir para o matadouro como ovelhas’” (p. 65).

Além de Israel, o país que mais terá sentido as consequências deste julgamento foi, com toda a certeza, a Alemanha. Recolhidos os escombros e enterrados os mortos, a Alemanha via-se agora a braços com a reconstrução do país, não só a nível das infra-estruturas destruídas pelos intensos bombardeamentos, mas também ao nível da sua identidade enquanto povo, um povo que talvez apenas com o tribunal de Nuremberga terá tomado consciência da verdadeira dimensão das acções do III Reich. Quase 20 anos depois, o povo alemão é novamente obrigado a confrontar-se com o seu passado: muitos dos elementos nazis tinham fugido como Eichmann, mas muitos permaneciam na Alemanha, ocupando, inclusive, cargos no governo ou na justiça. Inúmeros julgamentos tomam lugar, mas também nestes casos os processos se mostram motivados mais por razões políticas que sociais. Também a Alemanha era um país recentemente formado (ainda que dividido), que necessitava de se afirmar como Estado democrático capaz de julgar os seus próprios criminosos e de lutar contra/travar mais uma vaga anti-germânica que decerto ressurgiria aquando do julgamento de Eichmann. Muitos são os elementos nazis levados a tribunal, mas as penas atribuídas deixam transparecer, segundo alguns, a pouca importância que socialmente lhe era dada, de tão leves que foram.

Expostos os factos num discurso de reportagem que procura interferir o menos possível, Hannah Arendt abre espaço para as suas próprias palavras no “Epílogo” e no “Pós-escrito”. Aqui aborda questões como a da responsabilidade (cuja antecâmara tinha tido lugar no capítulo intitulado “Veredicto”) e dos limites desta face a conceitos como o de “acção sob ordens superiores”, ou “acção de Estado”; assim como dos limites de certos conceitos jurídicos como o de “crimes de guerra”, “crimes contra a humanidade” ou “crimes de genocídio” e da sua aplicabilidade, neste caso em particular e em casos futuros. Hannah Arendt faz-nos reler novamente o texto ao abordar novamente a questão do “Mal”, relativamente à qual a autora desvela agora novas nuances face ao “Mal radical” que tinha ponderado aquando da discussão de regimes autoritários em 1951 no texto As origens do Totalitarismo. Assumindo o subtítulo como chave interpretativa, a autora reconduz a reflexão do leitor para a “banalidade do mal”, tratando-se agora de um mal a interpretar num tempo e espaço específicos e que partilha a sua presença num indivíduo que, antes de mais, se apresenta com sentimentos humanos, que terá agido sem “más-intenções”, que afirma não ter morto ninguém e não ser responsável por qualquer morte em consequência do facto de ter agido no cumprimento de ordens superiores. À autora, e ao leitor, surge como reveladoramente impressionante a capacidade de um indivíduo em plenas faculdades mentais se ter destituído das suas intenções individuais e se ter deixado diluir numa autoridade superior a quem parece reconhecer razão absoluta. Banalidade do mal traduz assim desta forma a incapacidade de um indivíduo de criticar e prever as consequências dos seus actos.

Embora termine o pós-escrito dizendo que “[a] presente obra [se] propunha simplesmente avaliar até que ponto o tribunal de Jerusalém conseguiu satisfazer as exigências da justiça” (p.378), a verdade é que acaba por, pelo menos, enunciar algumas das grandes questões a enfrentar pelo recém formado (2002) Tribunal Penal Internacional (TPI). Além de uma muito interessante visão sobre o julgamento em si, este livro acaba por, 30 anos antes, levantar as questões agora tão discutidas no contexto da formação do TPI. Este parece ser, de facto, um importante elemento para a paz mundial, mas, tal como previa Hannah Arendt, difíceis obstáculos terá que enfrentar a começar pela natureza dos crimes que irá julgar e pelas ténues fronteiras que separam os conceitos operacionais básicos. Aos olhos que lerem este texto neste atribulado século XXI, fica a curiosidade em saber qual teria sido o comentário de Hannah Arendt, numa espécie de segundo epílogo, sobre tão importante organismo de justiça, o seu papel nas relações entre os diferentes países e sua (in)eficácia.


O julgamento dos crimes contra a humanidade: a reflexão de Hannah Arendt
31-Mar-2008 © 2008 - Revista Autor

Powered by QuoteThis © 2008

Fonte:
http://revistaautor.com/index.php?option=com_content&task=view&id=151&Itemid=38

RIO DE JANEIRO - REFORMAS URBANAS


No século XX Questões estéticas, sanitárias, viárias e habitacionais - O primeiro plano data de 1875 com a criação da Comissão de Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro e vai até 1902 – não foi totalmente executado. 1o. período – início do século XX; 2o. período – de 1920 a 1945

Reformas feitas durante a administração Prefeito Engenheiro Pereira Passos PLANO DE EMBELEZAMENTO E SANEAMENTO DA CIDADE - faz intervenções de ordem SANITÁRIA, VIÁRIA e ESTÉTICA aproveitando idéias da proposta de 1875. Seu plano tem influência de Haussmann (plano de remodelação de Paris); . o objetivo do Plano é o EMBELEZAMENTO dando nova fisionomia arquitetônica à Cidade através da erradicação dos cortiços e casas de cômodo e valorização dos espaços centrais; .determina recuos das edificações e pavimentação diferenciada, substitui vielas por ruas arborizadas e mais largas; faz obras de escoamento das águas pluviais, favorece o Centro e os bairros vizinhos e parte da zona sul. Demonstra preocupação com esgotamento sanitário e sistema de abastecimento de água; tem preocupação com o sistema viário – prevê abertura de GRANDES EIXOS de circulação - as avenidas são o principal ponto do plano; questões habitacionais - a reforma urbana, traz sérias conseqüências para a população de baixa renda - são feitas demolições e desapropriações nas áreas do Centro – a valorização desta área faz com que a população seja expulsa. População de classe baixa vai para os subúrbios, longe dos locais de trabalho ou para os morros próximos ao Centro e isso causa o aumento do processo de favelização; para atender a esta demanda Pereira Passos institui política habitacional e constrói inicialmente 120 casas. Sua política não tem continuidade após sua administração.

Reformulação do Plano de Melhoramentos de 1875 . complementa as reformas efetuadas pelo Presidente Rodrigues Alves (Porto do Cais do Rio de Janeiro), conclui as obras do Canal do Mangue, arrasamento do Morro do Senado e abertura de grandes avenidas como a Av. Central (atual Rio Branco).

Principais obras de Pereira Passos Avenida Passos – prolongamento da Rua do Sacramento (Centro), trecho que vai da Praça Tiradentes até a Rua Senhor dos Passos; Avenida Central (atual Avenida Rio Branco); Avenida Beira-Mar – vai do início da Avenida Rio Branco até a praia de Botafogo – é executada em área aterrada (5.200m de extensão – 33m de largura); Avenida Mem de Sá – é uma via diagonal – liga a Lapa aos bairros da Tijuca e de São Cristóvão (1.550m de extensão – 17m de largura); Avenida Francisco Bicalho – é resultante das obras de saneamento com o prolongamento do Canal do Mangue; Cais do Porto do Rio de Janeiro – as obras abrangem drenagem e construção de muralha do cais, além de colocação de trilhos da Estrada de Ferro Leopoldina e linhas do Cais do Porto; Av. Rodrigues Alves – é resultante das obras do Cais do Porto – usada para ligação com a Zona Norte; Avenida Atlântica – é toda executada sobre aterro – são construídas muralhas e passeios; Túnel do Leme; obras de higiene – instalação de mictórios e defectórios em locais de aglomeração como praças e recantos; obras executadas também no Passeio Público, Praça XV, Praça São Salvador, Praça Tiradentes, Largo da Lapa, dentre outras.

Prefeito Carlos Sampaio – 1920 a 1922 - Demolição do MORRO DO CASTELO – elimina do Centro as áreas residenciais de baixa renda; Abre a Avenida Rui Barbosa, dando continuidade à Avenida Beira-Mar; liga o Centro à Copacabana; faz obras de saneamento e embelezamento na Lagoa Rodrigo de Freitas; contrata o engenheiro Saturnino de Brito para execução das obras; intensifica o processo de OCUPAÇÃO DOS SUBÚRBIOS.

Principais obras "Embora fosse um sítio histórico, o morro havia se transformado em local de residência de inúmeras famílias pobres, que se beneficiavam dos aluguéis baratos das antigas construções ali existentes. Situava-se, entretanto, na área de maior valorização do solo da cidade, a dois passos da Avenida Rio Branco. Daí porque era preciso eliminá-lo, não apenas em nome da higiene e estética, mas também da reprodução do capital". Demolição do Morro do Castelo - a terra retirada do Morro do Castelo foi usada para aterrar parte da Urca, Lagoa Rodrigo de Freitas, Jardim Botânico, área do Jóquei Clube e muitas áreas da Baía de Guanabara. Vale lembrar que a Rua Santa Luzia, onde estão a Igreja de Santa Luzia e a Santa Casa de Misericórdia, ficava junto ao mar. Neste período a questão do saneamento permanece. Sistema viário – são discutidas propostas para abertura de vias e implantação de novos meios de transporte.

Plano AGACHE – 1926 - 1930 Alfred Hubert Donat Agache – arquiteto francês – faz o primeiro Plano Diretor para a cidade do Rio de Janeiro (grupo de técnicos estrangeiros) – 1926 a 1930 . cidade é elaborada de forma global – com atenção especial para a área central – aspectos estéticos e de saneamento – Plano de Remodelação e Embelezamento; . é somente físico territorial - não é de desenvolvimento; . enfoca três funções da cidade: “circulação, digestão e respiração”; dá ênfase ao embelezamento – é um típico plano diretor quando produz um retrato das condições futuras da cidade e compara com a cidade ideal; tem objetivo de ordenar a cidade – ZONEAMENTO e LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA; apresenta para a cidade duas funções: político-administrativa por ser a Capital e econômica, como porto e mercado comercial e industrial. O plano é elaborado em três partes: 1a. - componentes antropogeográficos do Distrito Federal, o Rio de Janeiro como um todo e os grandes problemas sanitários; 2a. - trata da essência do plano, o modelo de cidade ideal e como atingi-la; 3a. - dedicada ao saneamento. Em anexo ao plano são feitos projetos de legislação visando regulamentar as propostas.

As principais características do Plano são: o instrumento de intervenção é o ZONEAMENTO - propõe várias tipologias habitacionais (populares) e política territorial; é dado enfoque global; a favela para Agache é uma escolha – a solução é construção de habitações a preços baixos ou subvencionadas pelo Estado; sistema viário – é descrito dentro de uma visão orgânica da cidade; é uma das principais funções: circular; preocupação com sistema de transportes – deve ser integrado (necessidade de eliminar os bondes); propõe abertura de artérias principais e criação de vias de comunicação entre os bairros e construção de rede de metropolitano; o sistema ferroviário desempenha papel importante – serve à zona industrial e subúrbios.

Período a partir de 1941 - na década de 40 surge a preocupação com a drenagem e sistema de escoamento de águas pluviais, abastecimento de água – a rede necessita de ampliação; 1941 - demolição do Morro de Santo Antonio – ligação da zona norte e zona sul; 1944 – abertura da Avenida Presidente Vargas – ligação do Centro à Zona Norte; 1946 – abertura da Avenida Brasil; 1940 – Rio de Janeiro é sede do I CONGRESSO BRASILEIRO DE URBANISMO – neste evento é sugerida a criação do Instituto da Casa Popular – habitações populares devem ser subordinadas ao Plano Diretor das cidades. Questão habitacional é discutida – proposta para criação de bairros operários e cidades industriais – retomam a concepção de cidades-jardim nos subúrbios = melhoria da qualidade de vida. 1947 – é discutida a necessidade de morar-se perto do local de trabalho gerando menos problemas com trânsito. Década de 50 – Affonso Eduardo Reidy projeta o Conjunto Habitacional do Pedregulho em São Cristóvão, propondo bairro autônomo. 1950 – são discutidos os transtornos causados pela verticalização na Zona Sul comprometendo a paisagem, contrariando os princípios de aeração e insolação; adensamento dos edifícios em volta dos morros não respeita a topografia da cidade.

Prefeito Henrique Dorsworth – 1937 - 1945 - Plano de Obras da Comissão do Plano da Cidade - Propõe uma série de projetos dentre eles, o Plano de Extensão e Transformação da Cidade. Suas principais realizações foram a abertura da Avenida Presidente Vargas, a remodelação das quadras do Centro, a Avenida Brasil, a Avenida Tijuca, o Corte do Cantagalo, urbanização do bairro de Botafogo, remodelação da Floresta da Tijuca e duplicação do túnel do Leme. Em 1938 a idéia de remodelação das quadras do centro é resgatada do Plano Agache. É estabelecido que seja mantida uma área interna nas quadras, que limite a profundidade dos edifícios construídos. 1940 – Avenida Presidente Vargas - ocorre a partir da desapropriação de mais de 600 prédios no centro da cidade; o trecho principal (que foi executado) vai da Praça XI até a rua Visconde de Itaboraí – contribuiu para a expulsão da população de baixa renda da área central. A avenida foi inaugurada em 1944. 1944 – Urbanização do bairro de Botafogo. A responsável pela obra é a Comissão do Plano da Cidade. Os jardins da praia são projetados por Burle Marx. 1946 – Avenida Brasil - Obra realizada pela Comissão do Plano da Cidade – é construída sobre um aterro a partir de obras de saneamento feitas na orla da Baía de Guanabara. Tem por objetivo não só deslocar a parte inicial das rodovias Rio-Petrópolis e Rio-São Paulo, como pretende incorporar novos terrenos ao tecido urbano na Zona Oeste, visando ocupação por indústrias (15km de extensão e 60m de largura – 4 pistas).

Administração do Prefeito Negrão de Lima1958 – 1960 - Plano de Realizações da Superintendência de Urbanização e Saneamento - SURSAN - Via do Cais do Porto – Copacabana - realizada pelo Departamento de Urbanização do Distrito Federal – liga a Zona Norte, Cais do Porto até o túnel Catumbi – Laranjeiras (posteriormente é modificado); Trecho do túnel Catumbi – Laranjeiras (Santa Bárbara); Avenida Norte-Sul - projeto do Departamento de Urbanismo – Affonso Eduardo Reidy e Hermínio de Andrade e Silva – complementa a urbanização da área do Morro de Santo Antonio (entre a Espanada de Santo Antonio e Morro da Conceição); Avenida Perimetral; Radial-Oeste - projeto original da administração Henrique Dodsworth (1937-1945) . a obra começa em 1952; processo de desapropriação da área inicia-se em 1954/55; é finalizada em 1955 - liga a Praça da Bandeira aos subúrbios da central . remoção de favelas – quatro comunidades abrangendo mais de 70 mil pessoas – transferidas para a Cidade de Deus (moradores das favelas da Praia do Pinto – Leblon), favela da Catacumba (Lagoa Rodrigo de Freitas) e favela Macedo Sobrinho (Botafogo) os moradores das demais favelas foram transferidas para Cidade Alta e Água Branca;

Administração do Governador Carlos Lacerda - 1963/65 e 1965 a 1977 - PLANOS DOXIADIS - 1965 - Plano elaborado por solicitação do governo do Estado da Guanabara, com intenção de preparar a cidade para o ano 2000; elaborado pelo escritório grego “Doxiadis Associates” – 1965 e denominado como plano de desenvolvimento; sua abordagem engloba a cidade e seu entorno – área metropolitana; preocupações com o econômico e social, considerando intervenções físicas; teorias centradas nos grupamentos humanos - objetivo do planejamento físico – e comunidades que funcionem na escala humana e se aglutinem para alcançar condições favoráveis de desenvolvimento; sugerem criação de grupos aglutinados e bairros dotados de suas próprias finalidades básicas; o plano é nos moldes dos Planos Diretores – compara a cidade com a cidade ideal; a cidade é estudada no seu aspecto histórico, geográfico e econômico; analisam os problemas e dão um modelo. A administração defendeu uma reformulação completa da política habitacional no rio de Janeiro – o objetivo era levar os moradores das favelas para as áreas periféricas. Moradores das favelas do Esqueleto, do Pasmado, do Bom Jesus, de Maria Agú e de Brás de Pina foram removidos para os conjuntos habitacionais Vila Kennedy, Vila Aliança; a construção de conjuntos habitacionais fazia parte do Plano de Habitação Popular.

As principais preocupações nos primeiros cinqüenta anos do século XX: condições sanitárias, estéticas, questão habitacional, estruturação do sistema viário – expansão da cidade. O Rio de Janeiro passou por uma série de modificações físicas, algumas com base em intenções urbanísticas, outras como conseqüência da valorização do solo urbano, do próprio crescimento da cidade e da necessidade de ganhar novas áreas. As principais transformações ocorreram na área central, quando a cidade perdeu sua imagem colonial, tornando-se moderna com a abertura de grandes avenidas e urbanização das áreas resultantes dos desmontes dos morros. As demais mudanças são em relação às questões estéticas e sanitárias e, relacionadas à questão habitacional, que ocorreram durante todo o século XX, mas que não detiveram o crescimento desordenado e o processo de favelização.

Bibliografia utilizada:
http://www.almacarioca.com.br/imagem/fotos/rioantigo/index.htm
gttp://www.brazilbrazil.com/allmap.html
http://www.favelatemmemoria.com.br/publique/
Rezende, F. Vera. Texto: “Evolução da produção urbanística na cidade do Rio de Janeiro, 1900-1950-1965”.
Rio Maravilha. Revista Manchete, Edição Especial. Rio de Janeiro, 1974.
Segre, Roberto. Texto: “Rio de Janeiro metropolitano: saudades da Cidade Maravilhosa”
Texto: “Evolução Urbana do Rio de Janeiro”

http://bhpbrasil.spaces.live.com/Blog/cns!CBF475499EC82673!4359.entry

Carta de um soldado


BILHETE ENCONTRADO NO BOLSO DA FARDA DE UM SOLDADO DESCONHECIDO, MORTO NA SEGUNDA GRANDE GUERRA, NO PRIMEIRO ATAQUE À MONTE CASTELO.

" Escuta Deus,
Jamais falei contigo.
Hoje quero saudar-te-: Bom dia! Como vais?
Sabes? Disseram que tu não existe e eu, tolo, acreditei que era verdade.
Nunca havia reparado tua obra.
Ontem à noite da trincheira rasgada por granadas, vi teu céu estrelado e compreendi então que me enganaram.
Não sei se apertarás minha mão .Vou te explicar e hás de compreender.
É engraçado: neste inferno hediondo achei a luz para enxergar teu rosto.
Dito isto já não tenho muita coisa a te contar.
Só que... que... tenho muito prazer em conhecer-te.
Fazemos um ataque à meia noite.
Não tenho medo.
Deus, sei que tu velas...
Ah! É o clarim! Bom Deus, devo ir-me embora.
Gostei de ti, vou ter saudade.
Quero dizer, será cruenta a luta, bem o sabes, e esta noite pode ser que eu vá bate a tua porta!
Muito amigos não fomos é verdade.
Mas sim... estou chorando! Vê Deus, penso que já não sou tão mau.
Bom Deus, tenho que ir. Sorte é coisa bem rara.
Juro porém que já não receio a morte... "
http://forum.hardmob.com.br/archive/index.php/t-103780.html

“Cartas de Stalingrado”.



“Cartas de Stalingrado”.

“Amados pais. Se estão lendo esta carta, é porque ainda temos o aeroporto. Tenho certeza que esta será a última que seu amado filho lhes escreverá. Temos russos por todos os lados e não nos mandam ajuda de Berlim. Lhes tenho uma triste notícia, Granstsau morreu semana passada. Estava ele, eu e mais três andando quando simplesmente caiu no chão com a cabeça aberta. Amados pais, chorei muito ao vê-lo, porque crescemos juntos, lembram-se? Quando éramos crianças, quebrei a perna, ele me levou a casa nas suas costas com a minha perna quebrada. Sinto muito pelos pais dele. Perdi meu único amigo. E aqui haverá o fim. Nosso comandante se matou com um tiro na boca ontem de noite. Nossa moral não existe mais. Mas espero que essa maldita guerra acabe, pouco me importa o que aconteça. Se não receberem mais cartas minhas, vão para Espanha o quanto antes, sabemos que é uma questão de tempo dos russos chegarem em Berlim. Amados pais, após essa guerra, a Alemanha ficará atônita ao saber que o soldado que lhes escreve teve a vida salva por um médico judeu. Estou bem dos ferimentos, mas a cicatriz é enorme e horrível. Amados pais, se cuidem. Se não receberem mais cartas minhas, vão para Espanha, o dinheiro vocês já tem. Logo estaremos de novo conversando com Hilse, nos bom tempos dos dias de sol. Com muita devoção, seu filho querido.”

“Não sei se voltarei a te escrever mais uma vez, é preciso que esta carta chegue às suas mãos e que fique a saber desde já, para o caso de voltar alguma vez. Perdi as mãos no princípio do mês de dezembro. Na mão esquerda me falta o dedo mínimo, mas o pior é que na direita congelaram os três dedos do meio. Posso pegar um copo com o polegar e o mínimo. Me sinto um inútil. Só quando perdemos os dedos que percebemos para é que servem, mesmo nas coisas mais pequenas. Kurt Hahnke, acho que você conhece, porque iam juntos à escola em 1937, ele tocou a música Passionata num piano, há 8 dias, numa pequena rua paralela à praça vermelha. Não acontece todos os dias, o piano estava literalmente na rua. A casa tinha sido bombardeada, mas o instrumento, talvez por compaixão, tinha sido afastado e colocado no meio da rua. Cada vez que passava um soldado, tocava um pouco. Em que outro lugar do mundo é que se pode encontrar pianos no meio da rua?”

“Me assustei quando vi o papel. Estamos completamente isolados, sem ajuda exterior. Hitler nos abandonou. Esta carta vai seguir se o aeroporto ainda estiver nas nossas mãos. Estamos no norte da cidade. Os homens da bateria também pensam nisso, mas não o sabem tão bem como eu. O fim está próximo. Hannes e eu vamos à prisão. Ontem vi os russos apanharem quatro homens, depois da nossa infantaria ter recuperado a iniciativa. Não, não vamos para a prisão. Quando Stalingrado cair, você ficará sabendo que nunca mais voltarei”.

“Você é o coronel, querido pai e do Estado-Maior. Você sabe o que significa tudo isto, por isso evita de eu explicar o que poderia ser sentimentalismo.É o fim. Acho que ainda agüentamos uma semana, depois, fecha o cerco. Não quero falar dos motivos a favor ou contra nossa situação. Esses motivos são perfeitamente insignificantes e não tem importância, mas se pudesse dizer qualquer coisa, gostaria de dizer que não devem procurar em nós a razão dessa situação, mas sim em vocês e quem é o responsável por isso tudo. Levantai a cabeça! Você pai, e os que são da mesma opinião, estejam com atenção para não acontecer uma coisa pior à nossa pátria. Que o inferno do volga sirva de aviso. Por favor, não deixem que o vento leve esta lição.”

http://www.cineguerra.com/bbs/viewtopic.php?p=451&sid=cb9a32d39b2750085187f4f0df6f5070


Últimas Cartas de Stalingrado
Fonte: Jornal do Século - História do Século XX - Ed.Abril Cultural

As cartas aqui referidas nunca chegaram a seus destinatários. Estavam incluídas no confisco imposto pelo Serviço de Informações do Exército alemão, com o objetivo de avaliar o moral das tropas em Stalingrado.
Mais tarde, preparou-se um relatório sobre a Batalha do Volga, baseado em cartas e documentos oficiais disponíveis, mas Goebbels recusou a permissão para publicá-lo.
"Trata-se de uma marcha fúnebre", disse ele ao autor. "Você deveria escrever uma fanfarra".

1-
"(...)Você é a mulher de um oficial alemão e por isso deverá enfrentar corajosamente o que tenho a lhe dizer, com a coragem com que ficou na plataforma da estação no dia em que segui para o Oriente.(...) A verdade significa conhecer os fatos a respeito das piores batalhas travadas em uma situação desesperadora: miséria, fome, frio, privações, dúvidas, desespero e homens morrendo de uma maneira horrível(...) Minha própria parcela de culpa é inegável. Numa proporção pequena - é verdade - cerca de um para 70 milhões - mas dá no mesmo. (...) Não estou acovardado, somente triste por não poder dar maior prova da minha coragem do que morrer por uma causa fútil, para não dizer criminosa. Não me esqueça rápido demais."

2-
"(...)Sobre o muito do que está acontecendo aqui jamais saberei coisa alguma; mas o pouco que sei é demais para o estômago. Ninguém poderá dizer que meus camaradas morreram com palavras como Alemanha ou Heil, Hitler! nos lábios... A última palavra de um homem vai para sua mãe ou para quem mais ama, ou então é apenas um grito de socorro. Já vi centenas caírem e morrerem e muitos, como eu, estavam na Juventude Hitlerista. Mas todos, na hora fatal, gritam por ajuda ou por alguém que nada mais poderia fazer por eles".

3-
O Führer prometeu tirar-nos daqui e todos nós acreditamos. Ainda acredito hoje, simplesmente porque devo acreditar em alguma coisa. Em que me resta acreditar? Não saberia o que fazer com a primavera ou o verão, ou com qualquer das coisas que tornam a vida feliz. É bom que eu continue acreditando, cara Grete; toda a minha vida - ou durante oito anos pelo menos - acreditei no Führer e o tomei ao pé da letra. É terrível como as pessoas aqui duvidam e é humilhante ouvir coisas que não se podem contradizer porque os fatos as comprovam".
http://www.cineguerra.com/bbs/viewtopic.php?p=451&sid=cb9a32d39b2750085187f4f0df6f5070

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Regime Militar 3

AI-1 deu início à "operação limpeza"

Grupo do general Castello Branco prometeu restaurar as instituições democráticas, mas foi vencido por militares da chamada 'linha-dura'
Da Redação
Os militares que assumiram o poder em 1964 pertenciam a facções diferentes das Forças Armadas. O grupo que articulou o movimento, liderado pelo general Castello Branco, prometeu restaurar as instituições democráticas assim que a "subversão" estivesse sob controle. A estratégia "castellista" fracassou e o grupo foi substituído por militares mais radicais.
No dia 9 de março, antes mesmo da posse de Castello, os ministros militares editam o AI-1, que dá início à "operação limpeza". O ato suspendia temporariamente a imunidade parlamentar e permitia ao governo cassar, demitir ou afastar funcionários públicos, parlamentares e juízes.
Até dezembro de 1964 foram cassados 50 congressistas (entre eles Juscelino Kubitschek e Leonel Brizola), 43 deputados estaduais e dez vereadores. Também foram afastados 49 juízes, 1.408 funcionários civis, 1.200 militares. Cem pessoas tiveram os direitos políticos cassados.
Fora do aparelho estatal, foram atingidos também os sindicatos e organizações estudantis. O Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) e a Confederação Brasileira de Trabalhadores Cristãos (CBTC) foram extintas. A UNE foi dissolvida. Várias universidades foram invadidas, e os professores "subversivos", aposentados. Surgem as primeiras denúncias de tortura.
O governo Castello inicia então uma reestruturação do Estado. O AI-1 permitiu a criação do SNI (Serviço Nacional de Informações). Uma ampla reforma tributária transferiu recursos dos governos estaduais para o governo central. Ao mesmo tempo, restringiu o crédito ao setor privado, cortou subsídios e adotou uma política de achatamento dos salários.
A recessão econômica e a redução do déficit público reduziram a taxa de inflação de 87,8%, em 1964, para 28,8%, em 1967. O governo estimulou a entrada de capital externo e a oligopolização da economia. A Lei de Remessa de Lucros foi revogada, e o novo governo teve acesso a créditos internacionais.
Apesar das cassações, a oposição não tinha sido silenciada. Surpreendida pelo golpe, não esboçou reação militar imediata. Passados alguns meses, Leonel Brizola e militares nacionalistas tentam organizar uma guerrilha no sul do país, sem sucesso. Em 1967, começam as primeiras ações armadas de grupos de extrema esquerda. Os assaltos a banco se tornam mais frequentes em 1968. Só em 13 de novembro de 1968 a polícia descobriu que os assaltos eram feitos por grupos de esquerda.
A oposição parlamentar, por sua vez, enfrentava obstáculos cada vez maiores. Em 1965, dentro da política de "retorno à normalidade", decidiu-se realizar as eleições para governador em 11 Estados. Vários candidatos da oposição foram impedidos de concorrer. Apesar disso, o PSD venceu as eleições em quatro estados.
A vitória da oposição produziu uma crise. Os militares da chamada "linha-dura" exigiam o cancelamento das eleições e a nomeação de interventores. Um acordo permitiu a posse dos eleitos em troca da edição do AI-2, que reduziu ainda mais os poderes do Congresso e do Judiciário, e do Ato Complementar nº 4, que extinguiu os partidos políticos.
Em 1966, o Ato Institucional nº 3 transformou as eleições para governador em indiretas e os prefeitos das capitais passaram a ser nomeados. O novo partido de oposição, o MDB, sofreu cassações. Tropas ocuparam várias cidades. A política de intimidação teve sucesso e venceu as eleições para a Câmara com 64% dos votos válidos, contra 36% do MDB.
A vitória permitiu que o governo aprovasse sem dificuldades uma nova Constituição em 1967, bem menos liberal que a de 1946. Apesar da vitória contra o MDB, o governo Castello Branco perdeu sua batalha para a "linha-dura", então encabeçada pelo ministro da Guerra, general Costa e Silva. O grupo "castellista" perdia sua batalha pela descompressão do regime.


Copyright © 1994-1999 Empresa Folha da Manhã S/A

Regime Militar 2

Regime militar de 64 modernizou economia e esmagou liberdades
Autor: Mario Vitor Santos


Em 21 anos, o Produto Interno Bruto subiu de US$ 78 bilhões para US$ 270 bilhões, mas há quem defenda que a riqueza poderia ser melhor distribuída se tivesse havido uma sucessão pacífica de governos democráticos
Há trinta anos, tropas do Exército saíam às ruas para depor o presidente João Goulart e instaurar o regime militar que durante 21 anos (1964-1985) governou o país.
Hoje, mais distantes de paixões que naquele período cindiram o Brasil em lados inconciliáveis, pode-se ter uma idéia mais completa do que foi o período.
O debate promovido pela Folha entre o ministro-chefe da Secretaria do Planejamento no governo Geisel, João Paulo dos Reis Velloso, e o economista Francisco de Oliveira, do Cebrap, reproduzido nas páginas centrais deste caderno, mostra que há crescentes pontos de convergência entre forças antes antagônicas.
Um dos riscos, porém, de uma abordagem já distanciada no tempo é o de que, no papel, as arbitrariedades havidas durante o regime militar surjam tênues, difusas, aceitáveis, "males necessários" até.
Os 21 anos de governo militar podem ser divididos em três fases. A primeira, que corresponde aos governos de Castello Branco e Costa e Silva, compreende o período de implantação das chamadas "reformas de base" do ciclo militar. O combate à inflação começou a dar resultados. A repressão era, diga-se assim, limitada.
A segunda fase, iniciada com o AI-5 em dezembro de 1968 e encerrada com a posse de Ernesto Geisel, caracterizou-se pelo estrangulamento do espaço político, ação da censura e desmantelamento da guerrilha, ao lado de baixa inflação e desenvolvimento econômico recorde. O próprio presidente Médici -principal representante do período- anunciou a face perversa desse chamado milagre brasileiro ao dizer que o país ia bem, mas o povo ia mal.
A terceira e última fase -de Geisel e Figueiredo- foi de crise econômica, ascensão inflacionária, escândalos administrativos e crescimento da oposição. Os sucessos anteriores transmudaram-se em fracassos. O monolitismo político precedente esfacelou-se, até a completa perda de hegemonia para o bloco oposicionista.
Em 63, o Brasil tinha 76 milhões de habitantes, o Produto Interno Bruto (PIB) era de US$ 78 bilhões e a renda per capita passava um pouco de US$ 1.000. Em 1985, os brasileiros eram 130 milhões, o PIB, que é a soma de todos os bens e serviços produzidos durante o ano, saltara para US$ 270 bilhões e a renda per capita chegava a mais de US$ 2.000.
A capacidade de geração de energia subira de 6 MW para mais de 40 MW em 84; a rede rodoviária federal pavimentada se elevara de pouco mais de 11 mil km para cerca de 53 mil km; os telefones instalados, que eram, em 63, 1,2 milhão, chegaram a mais de 10 milhões.
Há quem defenda que esses números poderiam também ter sido obtidos -e até superados- pela sucessão pacífica de governos democráticos e civis, caso não houvesse a ruptura de 1964. Acrescentam que, nesse caso, o desenvolvimento ter-se-ia operado sem tanta concentração de renda e sem que se tivesse que fechar partidos, cassar mandatos, intervir em sindicatos, exilar, sequestrar, torturar e matar.
É impossível saber ao certo. Importa mais agora não deixar de refletir sobre esse período. Não para remoer ódios, mas para evitar que se repita a situação que os gerou.

Copyright © 1994-1999 Empresa Folha da Manhã S/A

Regime Militar 1

Aquele era um país que ia "pra frente"
O Brasil já foi o país do futuro. Aconteceu entre 1969 e 1973 na imaginação dos próprios militares, dos empresários, da classe média e da maioria de trabalhadores e estudantes. Era um país que ia pra frente, como pregava o presidente Médici. A seleção conquistava o tricampeonato, Emerson Fittipaldi era campeão de Fórmula 1, o Produto Interno Bruto saltava 10% ao ano e a Transamazônica aumentava ainda mais o país. "O povo vive em ordem. O povo ajuda o país. Todos devem ajudar", ensinava uma cartilha do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) dos anos 70.
O diabo é que havia os que não queriam ajudar, segundo a lógica dos militares. Eram os que pediam eleições, fim da tortura, fim da censura e a volta dos direitos cassados pela Constituição de 1967 e atos institucionais. Foi contra esses que o Estado montou sua máquina de propaganda em 1969, para vender patriotismo e tentar "curar" a doença do subdesenvolvimento.
A vitória do patriotismo foi parcial. O consumo, estimulado pelo próprio regime, entrava na era do sexo, drogas e rock'n'roll. Coisas como minissaia, cabelos compridos e líderes comunistas como Che Guevara e Mao Tsé-tung disputando o estrelato pop com John Lennon e Mick Jagger não estavam nos gibis dos militares.
E havia a anarquia atávica. Enquanto Os Incríveis cantavam "as praias do Brasil ensolaradas, lá, lá, lá, lá", uma paródia debochava: "maconha no Brasil foi liberada...". Enquanto Sugismundo, um personagem encomendado pelo governo, dizia em 1971 na TV que "povo desenvolvido é povo limpo", 41% dos municípios nem tinham água encanada. Revista de mulher nua estava liberada, mas a foto só podia mostrar um seio, nunca o par.
O "Brasil Grande" nasceu desse zigue-zague. Para o bem e para o mal, foi a última vez que o Brasil gostou do Brasil.


Copyright © 1994-1999 Empresa Folha da Manhã S/A

Regime Militar - perguntas Folha de São Paulo - 1994

1. Quem era o vice do presidente Castelo Branco?
a) José Maria Alkmin; b) Pedro Aleixo; c) Costa e Silva.
2. Qual foi o único dos presidentes militares citado no título de uma peça de teatro de revista?
a) Castelo Branco; b) Costa e Silva; c) João Baptista Figueiredo.
3. Quem estava na capa do primeiro número do semanário "O Pasquim", em junho de 1969?
a) Leila Diniz; b) Ibrahim Sued; c) Sérgio Porto.
4. O que o poeta e compositor Torquato Neto fez ao completar 28 anos, a 10 de novembro de 1972?
a) fechou uma boate e deu uma festa; b) suicidou-se; c) decretou o fim do tropicalismo.
5. O que queria dizer: a) "Bacobufo no Caterefofo"; b) "Na Tonga da Mironga do Cabuletê"; c) "Valzengue"; d) "Mó Num Pá Tropi"; e) "Sacumé"; f) "Bocomoco"?
6. Qual foi a primeira marcha carnavalesca a mexer com o regime militar?
a) "Menino Linha-Dura"; b) "Ela só quer a Dita Dura"; c) "Dedo-duro".
7. O que era Magalhofa?
a) uma gíria carioca do final dos anos 60; b) apelido do ministro das Relações Exteriores Magalhães Pinto; c) apelido do Itamaraty durante a gestão Magalhães Pinto.
8. Quem liderava a Frente Ampla?
a) Juscelino Kubitschek; b) Renato Archer; c) Carlos Lacerda?
9. O que fazia Leila Diniz antes de virar "a musa de Ipanema"?
a) era modelo; b) era professora de uma escola pública na zona norte do Rio; c) trabalhava como enfermeira.
10. Quem apelidou Roberto Campos de Bob Fields?
a) Millôr Fernandes; b) Sérgio Porto; c) Jaguar?
11. Qual jogador foi convocado para a seleção brasileira de 70 por pressão do presidente Médici?
a) Brito; b) Dario; c) Everaldo?
12.Quem fez o primeiro topless nas areias de Ipanema?
a) Leila Diniz; b) Ana Maria Magalhães; c) Patrícia Casé?
13. Para qual filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol" perdeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1964?
a) "O Leopardo"; b) "Os Guarda-Chuvas do Amor"; c) "A Mulher de Areia".
14. O que faziam João (Tarcísio Meira), Duda (Cláudio Marzo) e Jerônimo (Cláudio Calvalcanti) na novela "Irmãos Coragem" de Janet Clair?
a) domador, enxadrista e piloto de corridas; b) dublê, lutador de boxe e trapezista; c) garimpeiro, jogador de futebol e namorador.
15. Quem visitou o Brasil às vésperas da assinatura do AI-5?
a) Elizabeth 2ª; b) Richard Nixon; c) Cláudia Cardinale.
16. Quem inventou a expressão "patrulhas ideológicas" e em qual publicação ela apareceu pela primeira vez?
a) o general Golbery do Couto e Silva, em entrevista ao "The New York Times"; b) o cantor Wilson Simonal, na revista "Manchete"; c) o cineasta Carlos Diegues, na "Veja".
17. Qual foi a inflação de 1964?
a) 750%; b) 91,9%; c) 325,7%.
18. Onde o ex-presidente Jânio Quadros esteve confinado em 1968 por declarações que desagradaram o ministro da Justiça Gama e Silva?
a) Fernando de Noronha; b) Macapá; c) Corumbá.
19. Quem foi nomeado para adido cultural do Brasil em Paris, no final do governo Jango, e nem chegou a ser empossado por causa do golpe?
a) Rubem Braga; b) Sérgio Buarque de Hollanda; c) Di Cavalcanti.
20. Quais as atrizes que se revezaram nas encenações carioca e paulista de "O Rei da Vela"?
a) Dina Sfat e Ítala Nandi; b) Leila Diniz e Lélia Abramo; c) Glória Menezes e Darlene Glória.
21. Quem fez esta ameaça em 1964: "Se essa história de cultura vai nos atrapalhar a endireitar o Brasil, vamos acabar com a cultura durante 30 anos"?
a) Coronel Darci Lázaro; b) Almirante Pena Botto; c) Amaral Netto.
22. Qual o tema do musical "Roda Viva"?
a) miséria do nordeste; b) golpe militar na América Latina; c) fabricação de ídolos pela televisão.
23. Onde se exilaram, no auge do regime militar: a) Caetano e Gil; b) Chico Buarque e Glauber Rocha; c) José Celso Martinez Corrêa?
24. De que era feita a tão polêmica sunga com que Fernando Gabeira passou a frequentar as praias cariocas após voltar do exílio?
a) náilon; b) brim; c) crochê.
25. Quem dos citados não fazia parte do show "Opinião": Oduvaldo Viana Filho, Armando Costa, Paulo Pontes, Nara Leão, Flávio Rangel, Zé Ketti, João do Vale.
26. Quem apresentava na TV Record o programa "Esta Noite se Improvisa"?
a) J. Silvestre; b) Blota Júnior; c) Renato Corte Real.
27. Para que foi baixado o Ato Institucional nº 3, em fevereiro de 1966?
a) para impor eleições indiretas para governadores; b) para permitir expurgo nas repartições públicas; c) para cancelar as eleições para governadores.
28. Quem era: a) "A Vaca de Nariz Sutil"; b) a "vaca fardada"; c) a Vaquinha Mococa?
29. Qual era o codinome da amante do ex-governador Adhemar de Barros, de quem guerrilheiros roubaram cofre com mais de US$ 2 milhões?
a) Doutor Fausto; b) Doutor Caligari; c) Doutor Rui.
30. Quem disse que "a corrupção militar ou a corrupção protegida pelos militares é a pior que pode existir, porque é armada"?
a) Carlos Lacerda; b) Ulysses Guimarães; c) Luís Carlos Prestes.
Respostas:
1. a; 2. b (na peça "De Costa a Coisa Vai", de Colé e Silva Filho, encenada no teatro Carlos Gomes, do Rio, em 1967); 3. b; 4. b; 5. a (um espetáculo musical), b (um samba do Vinicius de Moraes), c (uma expressão do Chacrinha), d (uma estrofe do samba "País Tropical"), e (corruptela de "Sabe como é", inventada por Ivan Lessa), f (uma gíria paulistana dos anos 70 que não pegou nem em São Paulo); 6. c (de Haroldo Lobo, para o Carnaval de 1965); 7. c; 8. c; 9. b; 10. b; 11. b; 12. c; 13. b; 14. c; 15. a; 16. O cineasta Carlos Diegues na revista "Veja"; 17. b; 18. c; 19. c; 20. Dina Sfat e Itala Nandi; 21. a (após invadir a Universidade de Brasília em 1964); 22. c; 23. a) Londres, b) Roma, c) Lisboa; 24. c; 25. Flávio Rangel; 26. b; 27. a; 28. a (um romance de Campos de Carvalho), b (o apelido do general Olympio Mourão Filho), c (a garota-propaganda do leite em pó Mococa); 29. c; 30. a.


Copyright © 1994-1999 Empresa Folha da Manhã S/A

Guerra civil americana

A Guerra civil americana de 1861 a 1865 apresenta grande importância, pois marca profundamente a sociedade norte-americana que até este momento tinha resolvido os problemas internos através de processos pacíficos de negociação, conchavo e votos ou simplesmente escamoteados. Assim, a guerra prova que o sistema político falhou.
O total de mortos no conflito gira em torno de 618.000 americanos, para se ter uma idéia de sua importância, superou o número de americanos mortos na 1 guerra mundial (125.000), 2 guerra mundial (322.000), guerra da Coréia (55.000) e guerra do Vietnã (57.000).
Está guerra lembra as tentativas de separatistas no Brasil (Confederação so Equador, República Piratini e Catarinense) com separação dos estados do norte, fundando os Estados Confederados Americanos (ECA).
As causas desta guerra estão associadas as diferenças internas entre o norte e sul dos EUA:
* tarifa de importações - o Norte queria alta para proteger suas manufaturas das importações, enquanto o Sul queria baixa para poder importar seus produtos a um baixo preço;
* questão do acesso a terra a preços elevados - o Norte receava que a facilidade de acesso poderia encarrecer a mão-de-obra ou a falta em suas fábricas, enquanto o Sul, pequenos proprietários do norte, operários e imigrantes defendiam as terras baratas;
* questão dos bancos e do dinheiro;
* melhoramentos internos
* escravidão.

Mais informações - Eisenberg, Peter louis. Guerra civil americana. Brasiliense, 1985.