quinta-feira, 23 de junho de 2011

Quais foram as maiores rebeliões populares da história?


Ludismo

Lidia Neves
Nenhuma revolta juntou mais pessoas que a de maio de 1968, na França. Começou com estudantes que brigavam contra a administração linha dura de uma universidade dos arredores de Paris, a Nanterre. Em março daquele ano, 140 alunos invadiram o prédio da reitoria. Isso inspirou outros estudantes, e os protestos foram aumentando, até que em 2 de maio o reitor quis "acabar com a bagunça": fechou os portões do campus. Aí que o bicho pegou. Centenas de alunos da Universidade Sorbonne se juntaram para protestar contra a resolução. Chamaram a polícia. Mais de 100 acabaram feridos e a Sorbonne terminou ocupada por policiais. Os estudantes, então, passaram dias enfrentando a polícia com pedras e coquetéis molotov. A luta motivou organizações trabalhistas a sair para o pau também. Elas chamaram uma greve geral no dia 13 de maio. E no fim do mês o número de grevistas chegava a 10 milhões – dois terços dos trabalhadores. Os líderes da revolta, agora, queriam a saída do presidente Charles De Gaulle. Para evitar o caos, o governante convocou eleições presidenciais às pressas e ameaçou endurecer caso a greve continuasse. Deu certo: o movimento murchou e De Gaulle, com a imagem melhorada por ter trazido a paz de volta, acabou reeleito. Só que maio de 1968 não morreu aí: a magnitude da rebelião fortaleceu partidos de esquerda no mundo todo. E olha que tudo começou praticamente do nada. Qualquer revolta popular que se preze, afinal, começa desse jeito. Olha só.

532 - Insurreição das torcidas
Onde: Constantinopla, Império Bizantino.
Por quê: Membros das duas maiores "torcidas organizadas" de corridas de biga, a Azul e a Verde, tinham sido presos e condenados ao enforcamento. O imperador Justiniano 1º, entusiasta do esporte, aliviou a pena para prisão, mas isso não agradou aos torcedores, que queriam o perdão total.
Como foi: Os "azuis" e os "verdes" invadiram o presídio e libertaram seus colegas. Colocaram fogo na cadeia e em outros edifícios da cidade, gritando nika! ("vitória!"), igual faziam nas corridas de biga. Alguns senadores viram o motim como uma oportunidade para derrubar o imperador e deram armas aos rebeldes.
O que conseguiram: Derrubaram Justiniano. Mas as forças do imperador fizeram uma armadilha no hipódromo e encurralaram os rebeldes. Depois de 300 mortes, tudo voltou ao normal.

1811 - Quebra das máquinas
Onde: Nottingham, Inglaterra.
Por quê: Foi uma reação contra a implantação de máquinas na indústria. A queixa era que elas tiravam o emprego dos trabalhadores braçais.
Como foi: Operários destruíam fábricas como forma de protesto. Eles se autodenominavam ludistas – se diziam seguidores do lendário Ned Ludd, um trabalhador que teria quebrado um tear mecânico em uma revolta contra o uso das máquinas no final do século 18. O governo britânico repreendeu duramente os rebeldes. Alguns deles foram condenados à morte e outros, deportados para a Austrália.
O que conseguiram: O movimento perdeu força com o surgimento dos sindicatos. Hoje o termo ludista é usado como sinônimo de quem se opõe ao avanço da tecnologia.

1881 - Luta pelo carnaval
Onde: Port of Spain (1881), San Fernando e Princes Town (1884), Trinidad e Tobago.
Por quê: Colonizadores britânicos tentaram proibir o Canboulay, o carnaval de Trinidad e Tobago. Achavam que a festa, cheia de ritos e bacanais, era uma "ameaça à ordem pública".
Como foi: A primeira ofensiva partiu do chefe da polícia local, Arthur Baker, que tentou reprimir o Canboulay em Port of Spain. Os foliões foram para o pau com a polícia para garantir a festa, e até tiveram o apoio do governador inglês. Três anos depois, Baker tentou acabar com a folia nas cidades de San Fernando e Princes Town, e o povo reagiu do mesmo jeito.
O que conseguiram: O Canboulay se mantém firme até hoje. Das cantorias dos ex-escravos surgiu o calipso, na década de 1920. E os motins ainda são lembrados durante a festa.

1968 - Motins por Luther King
Onde: Washington, Chicago e Baltimore, EUA.
Por quê: Quando Martin Luther King foi assassinado, algumas pessoas saíram às ruas pedindo o fechamento de lojas em respeito ao luto pelo líder do movimento contra a segregação racial.
Como foi: As manifestações foram ganhando adeptos. O que era meia dúzia virou uma multidão. E o que era uma marcha pacífica virou uma revolta violenta. Mais de 20 mil saíram às ruas.
O que conseguiram: Nada. Com mais de 13 mil soldados, a polícia e as Forças Armadas abafaram as rebeliões. Saldo: 12 mortos, 1 097 feridos e 6 100 presos. Cerca de 1 200 prédios foram queimados. E os prejuízos com a destruição foram de 150 milhões de dólares em valores de hoje.

1969 - Levante gay
Onde: Nova York, EUA.
Por quê: Na década de 1960 era normal a polícia americana prender freqüentadores de bares gays. No Stonewall Inn, que também funcionava como boca-de-fumo em Nova York, isso rolava com mais freqüência ainda.
Como foi: Em 28 de junho a polícia entrou no bar quando ele já estava cheio – o que não era comum – e disse que ia prender quem estivesse vestido de mulher. A multidão reagiu com garrafadas e a galera dos bares vizinhos foi ajudar na briga. No fim, 2 mil pessoas enfrentavam 400 policiais.
O que conseguiram: Depois do episódio de Stonewall, formaram-se as frentes de libertação gay em vários países. A data da rebelião é lembrada no mundo todo com o Dia do Orgulho Gay e com as paradas gays.

1989 - Insurreição contra Ceausescu
Onde: Timisoara e Bucareste, Romênia.
Por quê: A polícia foi prender um padre de Timisoara que tinha criticado o regime socialista. Uma multidão cercou a casa dele para tentar impedir, hurrando gritos de guerra contra o comunismo. A polícia reagiu com gás lacrimogênio. E a revolta aumentou.
Como foi: Rebeldes invadiram prédios da administração comunista. Rolaram brigas e tiroteios. O ditador Nicolae Ceausescu mandou tropas a Timisoara e convocou os trabalhadores das cidades vizinhas para acalmar a situação. Só que eles se juntaram aos amotinados.
O que conseguiram: Fileiras de trabalhadores invadiram Bucareste e tomaram o prédio do Partido Comunista no dia 22 de dezembro. O líder do Exército recolheu suas tropas. E Ceausescu acabou pego. O ditador, condenado em uma corte militar, morreu fuzilado.

1992 - Revolta racial
Onde: Los Angeles, EUA.
Por quê: Um júri majoritariamente branco absolveu 4 policiais brancos do crime de ter espancado Rodney King, um motorista negro.
Como foi: Negros e latinos, revoltados com a decisão, quebraram carros, saquearam lojas e incendiaram vários edifícios. Enquanto um motorista de caminhão branco era espancado por uma multidão, gente que assistia aos motins pela televisão saiu de casa para resgatá-lo. No dia seguinte, os donos de lojas coreanos começaram a reagir ao vandalismo com armas de fogo, criando um clima de guerra total.
O que conseguiram: A Justiça americana reabriu o caso Rodney King e dois dos 4 acusados foram considerados culpados.

2001 - Panelaço
Onde: Várias cidades da Argentina.
Por quê: O país vivia uma crise financeira que já durava 3 anos. Para evitar a quebra dos bancos, o ministro da Economia, Domingo Cavallo, elaborou o "corralito", um plano econômico que impunha limites aos saques de dinheiro. Resultado: quem era de classe média passou a viver como pobre. Quem já era pobre caiu na miséria.
Como foi: Começou uma onda de saques a supermercados e lojas. O presidente Fernando De La Rúa decretou estado de sítio e suspendeu as garantias constitucionais por um mês. Ao verem o discurso do presidente na TV, as pessoas saíram às ruas batucando em panelas. Uma barulheira só.
O que conseguiram: Cavallo e De La Rúa tiveram seus poderes tolhidos pelo Congresso e renunciaram.
Revista Superinteressante

Guerra Fria - A BATALHA DA MÍDIA

Em plena Guerra Fria, disputa entre revistas 'Life' e 'O Cruzeiro' evidenciava preocupação dos EUA com avanço da esquerda no Brasi

Uma grande revista americana expõe, em fotos que ficaram famosas mundo afora, a miséria numa favela carioca. Para dar uma resposta ao "imperialismo americano", uma das maiores revistas brasileiras revida, com uma reportagem mostrando a pobreza de uma família num cortiço de Nova York. Foi o ponto de partida, em plena Guerra Fria, para um debate ideológico, social - com direito a arrecadação de fundos nos EUA - e de ética no jornalismo.
O ano era 1961, e os EUA nutriam preocupação crescente com o avanço da esquerda na América Latina. A Casa Branca temia que o governo de João Goulart transformasse o Brasil em uma nova Cuba. E os brasileiros, incomodados com a ingerência americana na política nacional, desejavam mostrar que a pobreza não era exclusividade daqui, aconselhando os vizinhos do norte a olharem para o próprio quintal.
Essa história, que teve como protagonistas as revistas "Life" e "O Cruzeiro", é relembrada por uma nova pesquisa de Fernando de Tacca, professor do Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação da Unicamp, que ganhou com ela o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia/Funarte, no ano passado.
Tacca analisou a reportagem da "Life" que traz uma imagem do carioca Flávio da Silva, 12 anos na época, alçado à fama ao ser fotografado doente e deitado numa cama na Favela da Catacumba, na Lagoa. Ele estudou, também, o revide de "O Cruzeiro", a melhor revista brasileira da época, que publicou pouco depois a manchete "Repórter Henri Ballot descobre em Nova York um novo recorde norte-americano: MISÉRIA".
Flávio, símbolo da pobreza
Com o título "Uma família castigada numa favela do Rio. O temível inimigo da liberdade: pobreza", a "Life" de 16 de junho de 1961 apresentou ao mundo a história da família de José Manuel da Silva e Nair Germana da Silva. Com oito filhos, o casal morava na comunidade da Catacumba, que, após a remoção dos seus cerca de 10 mil habitantes nos anos 70, deu lugar ao Parque da Catacumba.
Acompanhado do jornalista brasileiro José Gallo, o fotógrafo americano Gordon Parks passou dias observando a vida da família de retirantes nordestinos. Focou o seu olhar no menino Flávio, de 12 anos, que, mesmo asmático, cuidava dos irmãos menores e das tarefas domésticas.
Na reportagem, os Silva são apresentados como um exemplo de pobreza que pode ser encontrada também em Venezuela, Chile, Bolívia e Equador e que implica "perigo acentuado". "Na maior parte aglomerados em bolsões (...), largamente distribuídos nos morros das cidades, onde a abundante pobreza se torna campo fértil para a exploração política comunista e castrista", disse a revista.

A reportagem sobre o Brasil foi a segunda de uma série de "Life" sobre a América Latina. A primeira tratava da ascensão de Fidel Castro em Cuba, com analogia às Ligas Camponesas brasileiras, lideradas pelo então líder comunista Francisco Julião - que, do fim dos anos 50 ao golpe militar de 1964, tentou implantar a reforma agrária no país, para temor dos americanos. A terceira reportagem abordou a Bolívia.
- O objetivo ideológico da "Life" era alertar para o avanço dos movimentos populares na América Latina e sua influência no sucesso da Revolução Cubana - explica Tacca.
O pesquisador ressalta, também, a relação da reportagem com o acordo conhecido como Aliança para o Progresso, tema de uma reunião dois meses antes. Idealizada pelos EUA, e tendo como pano de fundo a Guerra Fria, a Aliança previa investimentos na América Latina para promover o desenvolvimento regional, tentando conter o avanço do comunismo e a influência de Fidel Castro no continente.
Tacca explica que, para a "Life" e o governo americano, a pobreza era o berço preferido da temida proliferação da ideologia esquerdista. A reportagem sobre a Catacumba foi publicada numa época em que a política externa brasileira preocupava os EUA, com os presidentes Jânio Quadros e João Goulart - este último, derrubado pelos militares - simpáticos a uma aproximação com países comunistas.
A reportagem de "Life", publicada também na edição em espanhol, comoveu os americanos, sensibilizados com a imagem do menino Flávio. Sua fotografia foi publicada ao lado de outra, em que o corpo de uma suposta vizinha do garoto jaz num caixão.
A revista organizou uma arrecadação de dinheiro nos EUA para ajudar a criança, levada àquele país para fazer tratamento. A família do garoto ganhou uma casa própria e mobiliada, fato noticiado por grandes jornais brasileiros da época. A "Life" fez nova reportagem sobre a recuperação de Flávio, que apareceu sorridente na capa da edição de 21 de julho de 1961, e a nova vida de sua família.
Mas a denúncia da miséria no Rio mexeu com "O Cruzeiro". A revista enviou o fotógrafo Henri Ballot para Nova York, com a missão de mostrar que também havia miséria nos Estados Unidos. Na cidade, a publicação mostrou, em fotos com ângulos semelhantes aos usados pela reportagem da "Life", a vida de uma família portorriquenha num cortiço sujo e infestado por insetos e ratos. "A miséria não é exclusividade nossa", dizia o texto de 7 de outubro de 1961.
Como a rival americana, "O Cruzeiro" destacou a vida de um dos filhos da família, Ely-Samuel Gonzalez, de 8 anos. "O seu corpo magro de subnutrido é coberto de feridas, roído por baratas que invadem sua cama cada noite", escreveu, destacando uma fotografia em que o garoto aparecia deitado coberto de baratas, em alusão à imagem de Flávio da Silva na "Life".
A reação de "O Cruzeiro" gerou um debate sobre a ética do fotojornalismo. A revista "Time" publicou, poucos dias após a edição brasileira, reportagem questionando a postura do fotógrafo brasileiro Henri Ballot. Ele foi acusado de ter montado a foto em que Ely-Samuel aparece dormindo com baratas no cortiço em Nova York.

A "Time" relatou o polêmico embate entre "Life" e "O Cruzeiro" em reportagem com o título "A imprensa: vingança carioca".
"O fato é que a fotografia mais comovente de Ballot - a de Ely-Samuel, frágil filho de 8 anos de Gonzalez, dormindo num colchão imundo e com aparentes baratas em seu corpo - fora posada. O fotógrafo capturou e distribuiu baratas com esse objetivo", denunciou a "Time", que enviou repórteres para conversar com a família portorriquenha retratada por Ballot.
A revista "O Cruzeiro" não contra-atacou a reportagem da "Time". "O que, de certa forma, é uma aceitação da versão americana", escreve Tacca na pesquisa.
Após fazer as polêmicas imagens sobre a miséria americana e ter sua ética questionada pela "Time", Ballot foi proibido de voltar aos EUA, num momento de acirramento da Guerra Fria.

Jornal o Globo

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A história e a evolução do alfabeto na linguagem

Uma das maiores contribuições dos romanos para o mundo ocidental foi o alfabeto latino. Ainda que adaptado para as várias e diferentes línguas do mundo, o alfabeto latino conquistou um território nunca antes imaginado pelos romanos e hoje é utilizado até por idiomas que não possuem nenhuma ligação com o latim, como o turco e o chinês. Mas de onde ele veio? Como surgiu? Conheça um pouco mais sobre
Francisco Edmar Cialdine Arruda*


Uma das maiores contribuições dos romanos para o mundo ocidental foi o alfabeto latino. Ainda que adaptado para as várias e diferentes línguas do mundo, o alfabeto latino conquistou um território nunca antes imaginado pelos romanos e hoje é utilizado até por idiomas que não possuem nenhuma ligação com o latim, como o turco e o chinês. Mas de onde ele veio? Como surgiu? Conheça um pouco mais sobre
Francisco Edmar Cialdine Arruda*

O alfabeto é uma forma de registrar uma língua cujos caracteres (as letras) procuram corresponder a um respectivo fonema. Mas essa correspondência não é perfeita. Em português, por exemplo, temos letras que podem representar fonemas diferentes, como a letra "x" (exemplo, enxame, próximo); letras que representam mais de um fonema ao mesmo tempo: novamente o "x" (táxi - "táksi"); fonemas que são representados por várias letras: rosa ("z"), zebra ("z"), exame ("z"); isso sem falar dos dígrafos.
A escrita alfabética se opõe a outras formas de escrita, como a ideográfica (saiba mais no quadro Outras formas de escrita), usada em vários países do extremo oriente, e a outras formas menos comuns. Ademais, existem outros alfabetos além do alfabeto latino como, por exemplo, o alfabeto grego e o cirílico latino como, por exemplo, o alfabeto grego e o cirílico .

cirílico
O alfabeto cirílico foi criado no século IX por missionários cristãos (em especial São Cirilo), a partir da combinação de letras gregas e hebraicas, dentre outras. É utilizado principalmente nas línguas eslavas, como o russo. Originalmente, possuía 43 letras, mas muitas foram re- tiradas por serem consideradas supérfluas - o russo moderno, por exemplo, tem 32 letras. A Romênia, apesar de ser um país de língua neolatina, usou o alfabeto cirílico por muito tempo - apenas no século XVIII adotou o modelo latino.

ORIGENS DISTANTES
A história de nosso alfabeto remonta à metade do segundo milênio antes de Cristo e a um povo de origem semita, os fenícios. Esse povo se caracterizava por uma cultura comercial marítima muito forte e chegou a formar colônias por todo Mediterrâneo, inclusive na península Ibérica, o ponto mais ocidental da Europa. Com o objetivo de facilitar a comunicação e, consequentemente, o comércio, surgiram, na cidade fenícia de Biblos, as primeiras manifestações escritas que acabariam por formar o alfabeto fenício, que se espalhou Mediterrâneo afora. A língua fenícia era representada por 22 sinais gráficos - apenas consoantes, já que a língua era de origem semita e, portanto, as vogais eram inferidas pelo contexto. Seria como se escrevêssemos "Brsl" no lugar de "Brasil".
Com a divulgação desse alfabeto, os gregos se apropriaram dele e o adaptaram para sua língua. Tal processo foi lento. Acredita-se que, no final do século V a.C., a cidade de Atenas, grande centro cultural da civilização grega, oficializou a adoção da escrita alfabética. A grande mudança que os gregos fizeram foi a inserção das vogais. Para isso, eles excluíram alguns caracteres usados para sons guturais (produzidos no fundo da garganta), que não existiam na língua grega, e aproveitaram para representar os fonemas vocálicos. De igual modo, os gregos criaram símbolos para representarem os fonemas aspirados que não existiam na língua dos fenícios. Com isso, chegamos ao alfabeto grego tal o conhecemos ainda hoje - a única diferença de lá para cá é a pronúncia de algumas letras.
etruscos
A Etrúria era uma região que ficava ao norte do Lácio, onde hoje está localizada a Toscana. Pouco se sabe sobre o povo que viveu lá (os etruscos) e sua língua não foi decifrada, apesar de fazer uso de um alfabeto próximo do adotado nas colônias gregas ocidentais (que era um pouco diferente do grego clássico de Atenas). Durante a Monarquia (período que antecedeu a República), eles chegaram a dominar os romanos, os quais influenciaram em inúmeros aspectos.

DO GREGO AO LATINO (VIA ETRUSCOS?
Aqui é que os latinos entram na história. No entanto, a grande polêmica é: sabemos que o alfabeto latino se desenvolveu a partir do grego - aliás, o latim arcaico era muito parecido com o grego antigo -, porém não se sabe se esse desenvolvimento foi direto ou se foi intermediado pelos etruscos. De fato, os etruscos deixaram muitas marcas culturais nos latinos, principalmente durante os primeiros séculos da civilização romana, razão pela qual não seria de estranhar que os romanos usassem um alfabeto baseado no etrusco. Os primeiros escritos revelavam que os romanos, inicialmente, escreviam utilizando apenas letras maiúsculas (chamadas de "Capitalis quadrata", ou escrita monumental). Essa escrita era mais utilizada em documentos oficiais. Também era comum não haver espaço entre as palavras nem pontuação e não possuir uma ordem certa: podia-se escrever da esquerda para a direita e vice-versa ou, ainda, alternando escrever da esquerda para a direita e viceversa ou, ainda, alternando . Com o tempo, a literatura se desenvolveu e, consequentemente, a escrita foi ganhando o formato que conhecemos hoje nas aulas de latim. Surgiram a escrita cursiva (utilizada no dia a dia) e a escrita uncial.
No período clássico (século I a.C.), o alfabeto já estava em vias de consolidar-se com suas 21 letras originais (A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, V, X) e as letras gregas (Y, Z) usadas em palavras dessa origem. Esse alfabeto chegou até nossos dias com pouquíssimas alterações (algumas para se adequar às necessidades fonético-fonológicas de cada língua).
alternando
A chamada escrita "bustrofédon" (do grego "bous", boi; "strophé", virar) tinha esse nome porque sua forma de escrever, alternando a ordem a cada linha, lembrava o ato de arar a terra com um boi: seguiase, por exemplo, da esquerda à direita e, ao final, quando seguia para a próxima linha, mudava-se, da direita para a esquerda e assim sucessivamente em ziguezague. Muitas línguas arcaicas utilizavam essa ordem ao escrever.

PARTICULARIDADES
Houve duas modificações no alfabeto dignas de nota. A primeira ocorreu no período do imperador Cláudio (41 a 54 d.C.). Conhecido por sua erudição, ele propôs o acréscimo de três letras: ╛ (para representar o som "u" consoante),├ (para representar o som "ps") e (para representar um som intermediário entre "i" e "u"). Porém, após a morte do imperador, tais letras foram abolidas.
A outra reforma, datada da Renascença, veio do erudito Petrus Ramus e acrescentou as letras J e V. Vamos às explicações: os romanos não conheciam os fonemas "j" (de jato) nem "v" (de vida). Como consequência essas letras não existiam. Por outro lado, a letra I representava tanto uma vogal quando uma consoante, ambas pronunciadas da mesma forma, sendo que o I consoante equivale ao nosso "i" semivogal. De igual modo, a letra V, escrita cursivamente como u, representava tanto a vogal quanto a consoante (também equivalente ao nosso "u" semivogal). A partir de Ramus, o "u" vogal passou a ser representado por U/ u e o "u" consoante, V/v; assim como o "i" vogal, I/i e o "i" consoante, J/j. Apenas com o tempo foi que surgiram os fonemas "v" e "j".
Outras particularidades que podemos ressaltar: a letra K, usada sempre antes de A, e a letra Q, usada antes de O e U, foram caindo em desuso, sendo substituídas por C na maioria das palavras. Essa letra servia tanto para o fonema "c" (de carro) quanto para "g" (de gato). Com o tempo acrescentou-se um traço na parte inferior da letra para diferenciar os dois fonemas e assim surgiu a letra G. Já a letra S surgiu para representar um fonema surdo (o "s" de sapo), mas que, no século IV a. C., sonorizou-se entre vogais (tal qual o "s" de rosa), porém, posteriormente voltou a ser apenas surdo. No período pré-clássico, a letra F era escrita sempre FH, mas com tempo simplificou-se; Além disso, as letras gregas usadas para fonemas aspirados foram, por um tempo, usadas como números (saiba mais no quadro "Os números latinos"), já que esses fonemas não existiam em latim.

POR FIM (FIM)
É claro que muito há que ser dito ainda sobre o tema. Nada mencionamos sobre a polêmica existente entre as várias pronúncias latinas; também mereciam algumas linhas as adaptações como o surgimento do Ç, Ñ, dentre outras letras. Mas deixaremos essas questões a cargo da curiosidade do leitor em pesquisar sobre o tema. Recomendamos a leitura de História concisa da escrita, de Charles Higounet (editora Parábola), como pontapé inicial , bem como História da escrita de Steven Roger Fischer (editora da Unesp) - e, claro, sempre estaremos disponíveis a ajudar os curiosos a descobrir respostas...

ALFABETOS ANTIGOS
A título de ilustração, abaixo um quadro comparativo entre alguns alfabetos antigos. Na sequência temos hieróglifos egípcios, fenício antigo, hebraico antigo, moabita, grego antigo, grego oriental, grego ocidental, grego clássico, etrusco antigo, etrusco clássico, latim antigo, latim antigo monumental e latim clássico.
OUTRAS FORMAS DE ESCRITA
É interessante saber que o homem sempre possuiu formas diferentes para registrar uma língua - algumas desapareceram com tempo, outras per- manecem. Não é adequado dizer que a escrita "evoluiu", sob pena de afirmar que as formas de escrita hoje são melhores que as antigas. As línguas do Oriente Médio, por exemplo, possuem a forma de escrever muito mais antiga que o alfabeto latino - e nem por isso são inferiores (ou superiores). O fato é que a forma de escrita de um povo sempre será suficiente para suas ne- cessidades linguísticas; caso contrário, o próprio povo, às vezes consciente, outras inconscientemente, adapta a escrita para as necessidades existentes. Dentre as outras formas de escrita podemos destacar:


ABJAD: um tipo de alfabeto só de consoantes. Nessa forma de escrita, as vogais são inferidas pelo contexto ou sinais diacríticos. As línguas semíticas (do Oriente Médio), como o hebrai- co, o árabe e o próprio fenício, são exemplos de línguas que usam abjad. Acima exemplos de letras do alfabeto hebraico.


ABUGIDA: uma forma de escrita em que o caractere representa uma consoante e uma vogal previamen- te unida a ela, de modo que as de- mais vogais são representadas por sinais diacríticos. A língua hindu e seu alfabeto devanagári, acima, é um exemplo:

IDEOGRAMA: é um tipo de escrita antiga e que existe ainda hoje. Os hieróglifos egípcios, os kanji do japonês e chinês são exemplos desse tipo de escrita. Abaixo alguns hieróglifos:


PICTOGRAMAS: os pictogramas foram as primeiras tentativas de manifestação escrita do homem. Na verdade, os pictogramas estão entre a escrita e o desenho. As primeiras inscrições nas cavernas foram pictográficas:

NÚMEROS LATINOS
Existe uma crença sobre os números latinos serem derivados da inicial do nome do número (C para centum, "cem"; M para mille, "mil"). No entanto, como explicar V (5), X (10), L (50) e D (500)?
O fato era que os antigos pastores marcavam com um traço para contar cada cabeça do rebanho. Mas, como a percepção humana não ultrapassa quatro unidades diferentes, a quinta marca foi concebida de forma diferente (V) e a décima, seu dobro (X não passaria de dois V, um sobre o outro). Já L, C, D, M são originados a partir de letras gre- gas que foram se modificando com o uso: psi (Ψ) para L, teta (Θ) para C e phi (Φ) para M. Acredita-se que D seria, na verdade, a metade direita de phi (Φ). É importante dizer que os romanos não conheciam o numeral zero e que os números, inicialmente, se faziam repetindo as letras. Com o tempo passou-se a utilizar um sistema de subtração que tornou a numeração mais prática, isto é, em vez de LXXXX para 90, usa-se XC (100-10). Ainda hoje é possível ver essa numeração romana utilizada em inscrições de monumentos, principalmente religiosos.

*Professor da Universidade Regional do Cariri, mestre em Linguística aplicada pela Universidade Estadual do Ceará e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Lexicografia, Terminologia e Ensino (LETENS), atuando principalmente com os temas Terminologia, Lexicografia, Surdez, Multimodalidade e Estudos clássicos. Contato: ed0904@gmail.com

Revista Língua Portuguesa

As grandes invenções da humanidade

Livro: As grandes invenções da humanidade
Número de páginas: 360
Editora: Larousse
As invenções que mudaram a vida de todos nós
Recontando a história de 150 invenções, este livro discorre sobre descobertas fundamentais, como o fogo, a agricultura, a roda, a escrita, a metalurgia, o zero... Mas as invenções “menores”, que afetam – ou até transformam – a nossa vida cotidiana a ponto de ser difícil nos imaginarmos hoje sem elas, não são esquecidas: o fósforo, o elevador, o aspirador, a caneta-tinteiro...

Enfim, invenções mais recentes, como telefone celular, internet, televisão digital, todas derivadas de tecnologias que invadem nosso cotidiano, são alvo de atenção especial.

E se a questão do estatuto da ciência em relação à moral se apresenta hoje de maneira mais controversa e fecunda, notadamente no campo das ciências da vida (clonagem, transgênicos...), a grande história da inteligência humana permanece em marcha, sempre imprevisível, sempre apaixonante...

Tecnologia: uma mudança radical que veio para facilitar, compreender e acelerar o desenvolvimento mundial.

Por mais longe que voltemos na história do homem, sempre encontraremos um embrião de civilização. Mas nunca saberemos como, ao longo da pré-história, a arte de acender o fogo e de usá-lo foi elaborada, não somente para atender necessidades domésticas, mas também para as primeiras operações industriais: endurecimento da ponta das varas de madeira, extração dos metais, cozimentos de cerâmicas... Do mesmo modo, sempre ignoramos como o homem aprendeu a caçar, a criar gado, a cultivar plantas, a reunir fibras vegetais. No entanto, foi essencialmente por essas aquisições que o homem se fez homem e começou a aventura de civilizado.

SOBRE O LIVRO
A imprensa foi inventada por Gutenberg?
Onde começou a agricultura?
Quando surgiu a primeira máquina de escrever?
Como foi criado o avião?
Quem inventou a internet?
Essas e muitas outras questões são abordadas nessa obra que oferece ao leitor, simultaneamente, uma visão panorâmica do conhecimento humano e o prazer de um relato claro e delicioso. As 150 invenções que revolucionaram a ciência e nosso cotidiano, mentes originais, autodidatas e pesquisadores obstinados são personagens dessa obra, um registro vivo e interessante da grande epopeia técnica da humanidade.

Uma aceleração no desenvolvimento técnico torna-se perceptível desde o início da Idade Média. E é no decorrer da Idade Média que aparece o maquinismo, que toma a dianteira sobre a energia muscular da época arcaica, e uma nova atividade: a construção das máquinas. Por outro lado, as sucessivas inovações vão se integrar ao sistema técnico existente sem ameaçar o equilíbrio dele.

É difícil dar uma definição simples dessa etapa que ainda vivemos. O termo tecnologia resume um modo de pensar, de analisar e de criar no qual o enfoque científico tem um lugar primordial, sem obscurecer o da execução técnica.

Entre os avanços tecnológicos da Primeira Guerra Mundial, o mais espetacular foi o desenvolvimento das telecomunicações. Outras inovações procedem das duas guerras, como os radares e os sonares, as turbinas de avião, os engenhos da astronáutica, as aplicações civis e militares da energia nuclear, entre tantas outras. Assiste-se a uma aceleração sem fim do progresso técnico? As últimas décadas parecem marcadas pela emergência de um sistema chamado “tecnociência”. Por esse termo se entende um conjunto no qual cooperam instituições, pesquisadores e engenheiros a fim de utilizar recursos da ciência e da técnica para aplicações precisas.

Hoje, porém, os avanços da tecnologia militar suscitam tantas inquietações quanto os das técnicas industriais otimizadas, que reduzem o trabalho humano por razões econômicas e acarretam sofrimento social. A partir do momento em que uma aplicação é tecnicamente viável, passa, por isso mesmo, a ser desejável. Mas muitos são os que temem que, a partir do momento em que se tornam exequíveis, todas serão, um dia, realizadas...
Revista Língua Portuguesa

domingo, 19 de junho de 2011

Lições e desvios da moral

A dívida em relação ao passado se impõe. Somos solicitados a honrar uma certa memória para que sejamos responsáveis por ela, porém o convite tende a metamorfosear-se em imperativo e a responsabilização em culpa

por Samuel Tomei

Como divindades infernais encarregadas da vingança dos deuses, os editorialistas, especialistas e políticos convocam constantemente a História a serviço de uma moral ameaçadora. Periodicamente, colocam-nos alerta, por exemplo, contra o aparecimento de um novo Hitler: Gamal Abdel Nasser, em 1956, Saddam Hussein, em 1991, e mais recentemente Slobodan Milosevic. Contudo, na história, a comparação nem sempre tem, necessariamente, a força da razão. Na época da intervenção em Kosovo, nossos arautos repetiam, como papagaios, propagandas imutáveis, sem demonstrarem lembrar grande coisa das supostas lições do passado. O moralismo fundado sobre a história, nas mídias ocidentais, é exatamente o contraponto à "Voz da Rússia", monoliticamente pró-Sérvia.

Se a tentativa de instituir o passado como guia de boa conduta para o presente demonstra uma intenção louvável, o apelo ao dever de memória, que supostamente nos responsabiliza pelo que permitiria compreender a realidade, conduz à discordâncias.

Desvios do dever de memória Segundo Paul Ricoeur, a exortação de Israel ? Izkor (Lembra-te) ? é uma invocação, não uma ordem. Da invocação à lembrança, se passaria pela intimação
A prática do dever de memória é indispensável à manutenção da unidade de um grupo, conferindo-lhe coerência de valores, normas comuns. Sua invocação baseia-se na moral; a memória comum é nosso código. O dever de memória invoca a religião. Ora, como observa Serge Bernstein: "Qualquer sistema que deseje atingir uma certa estabilidade deve resgatar algo de religioso1" Nesse contexto, podemos entender o "religioso" nos dois sentidos que sugere a etimologia ambivalente do termo. Religioso no sentido de relegere (Cícero), tornar a ler o passado, e também reler no sentido de reinterpretar: a causa é, aqui, a manutenção da coesão social através da definição de uma identidade comum ? religare, religar (Lucrécio). O dever de memória, ou culto de uma memória que nos deve ser comum, é, do ponto de vista de qualquer poder, o princípio de coesão por excelência. A memória coletiva deve, para constituir-se, ser inteligível e libertar-se de qualquer trabalho crítico, sob pena de perder sua função: "Ela escolhe o que lhe interessa na matéria histórica" ? escreve Mona Ozouf2 - "dando-se o direito de isolar tal episódio revelador, de fixar-se em núcleos temporais, e ao mesmo tempo ignorar longas seqüências." Logo, ela também se estabelece através de silêncios obrigatórios3. Ela homogeneíza e tende a dissolver o indivíduo no grupo.

Segundo Paul Ricoeur, a dívida em relação ao passado se impõe; ele salienta que a exortação de Israel ? Izkor (Lembra-te) ? é uma invocação, não uma ordem. Ora, da invocação à lembrança, teríamos passado à intimação4. Somos solicitados a honrar uma certa memória a fim de sermos responsáveis por ela, porém o convite tende a metamorfosear-se em imperativo e a responsabilização em culpa. Os desvios recentes do dever de memória foram analisados e denunciados com força e fineza por Pierre Nora e Henry Rousso: "Quando o dever de memória se transforma em moral de substituição, e pretende erigir em dogma a consciência permanente, imprescritível e universal do crime cometido, chega a um impasse. [...] A moral, ou melhor, o moralismo, não combina com a moralidade histórica. Para conservar sua força de edificação, o dever de memória acaba falsificando os fatos [...].5"

Colonização a ferro e fogo Se os intelectuais denunciam as distorções da "realidade histórica", eles defendem uma memória tão seletiva e moralizadora quanto a que rejeitam
Ora, ainda que alguns intelectuais denunciem as distorções que o dever de memória impõe à "realidade histórica", eles o fazem para defender uma memória não menos seletiva e tão moralizadora quanto a que rejeitam. Condenam a mistificação da memória republicana, por exemplo ? que não pode ser negada ?, menos para buscar uma aproximação com a verdade do que para degradar a República em seu princípio.

Dois exemplos: dever de memória em relação aos povos oprimidos por uma República colonizadora amnésica; e dever de memória em relação a povos reprimidos por uma República jacobina.

As revelações do general Aussaresses admitindo ter torturado na Argélia causaram indignação, e com justa razão. Só poderíamos acolher seu testemunho com repulsa, ainda que confirme o que é amplamente conhecido e denunciado desde a época em que os fatos ocorreram6. Esse caso permitiu que alguns comentaristas provocassem uma discussão mais ampla sobre o colonialismo francês, considerado como um "impensado da história da França", como se não fosse abundante a literatura sobre a questão. A lógica é simples: a República colonizou a ferro e fogo, ultrajou seus princípios e deve arrepender-se; ela está desqualificada.

A "culpabilização" hipócrita
A realidade é menos simples. O colonialismo não nasceu com a República. E, se o direito e o dever das raças pretensamente "superiores" de civilizar as raças supostamente "inferiores" encontraram um advogado apaixonado em Jules Ferry ? cujo governo caiu devido à questão colonial ? devemos lançar ao esquecimento a tradição, ainda que minoritária, porém combativa, de um anticolonialismo arraigadamente republicano? Basta lembrar o longo discurso de Georges Clemenceau em 30 de julho de 1885, que combate o argumento vazio do princípio da colonização: "Não, não existe o direito de nações supostamente superiores contra nações inferiores." E o chefe radical coloca-se na mesma linha dos revolucionários de 1789: de 7 a 15 de maio de 1791, a Constituinte debateu as colônias e concedeu direitos políticos aos homens de cor nascidos de mães livres. Em 16 do Pluvioso7 do ano II (4 de fevereiro de 1794), a Convenção aboliu a escravidão, restabelecida, depois, por Bonaparte, em 1802. E a Constituição Republicana de 1848 proclamou: "A República não pretende mais fazer distinções entre a família humana."

As recentes revelações do general Aussaresses permitiram que alguns comentaristas provocassem uma discussão mais ampla sobre o colonialismo francês
Marc Ferro acentua a existência "de um escândalo da colonização. Na Indochina, na África, a República traiu seus valores. [?] Contudo" ? acrescenta ? "hoje reina uma espécie de "culpabilização" que me choca ainda mais pela reação de uma parte da opinião pública, que reage como se tudo lhes houvesse sido escondido. Não é verdade. Nos manuais da minha geração, no período entre guerras, estava escrito com todas as letras que, na Argélia, Bugeaud queimava os douars8 em massa e que Gallieni, em Madagascar, passava vilarejos inteiros a fio de espada."

A vez do colonialismo interno
Segundo o coordenador dos Annales, se a integração não existia socialmente, professores, mestre-escolas e médicos, "realizaram uma obra de que não têm do que se envergonhar9". Da mesma forma, Charles-Robert Ageron dedica-se minuciosamente a desconstruir "esse falso mito da Exposição de 1931, lugar de memória da República e apogeu da idéia colonial republicana. O esquecimento, a ignorância, a nostalgia, e até, para algumas pessoas, a habilidade política, puderam tornar essa fábula crível10". Mais uma vez, o dever de memória a que somos levados não passa do negativo da memória colonial, limitando-se a apresentar os supostos benefícios da expansão francesa. A moral que daí se depreende não tem nada de melhor.

Depois de incriminar a expansão externa, faz-se o mesmo com o colonialismo interno. De forma que, principalmente a partir da comemoração do bicentenário da Revolução Francesa, cresce a propensão de fustigar um certo jacobinismo republicano em nome da memória das minorias regionais oprimidas; alguns historiadores, como Pierre Chaunu, de forma um tanto provocadora, sem dúvida, chegam a falar do "genocídio" cometido na Vendée11 pela República: "Nunca tivemos uma ordem escrita por Hitler a respeito do genocídio judaico, mas possuímos as de Barère e de Carnot com respeito à Vendée12."

A intensidade trágica da História O esquecimento, a ignorância, a nostalgia ? e até, para algumas pessoas, a habilidade política ? puderam tornar crível a fábula da Exposição de 1931
Outros tentam difamar uma memória republicana apresentada de maneira simplificada, com traços de um jacobinismo autoritário, defendida ardorosamente por uns poucos nostálgicos, sobreviventes de uma França rançosa, a "France bolorenta", na expressão de Philippe Sollers. Essa velha França se enrugaria numa memória condenada: "em tempos de Internet" (comentário inevitável!), como ousar o ridículo de defender noções tão desgastadas como nação, república, escola laica, ou mesmo como ousar desconfiar de corpos intermediários, como tantos feudos potenciais, contrários ao princípio de igualdade? Só Maurras pregava, em nome da tradição, a volta desses corpos intermediários (corporações, províncias...) e rejeitava o estatismo, a centralização administrativa.

Não é possível fundar uma moral sobre uma memória unívoca. Ora, o trabalho histórico destrói a idéia da univocidade dos fatos; se a memória não se perturba com as nuances, a história deve sacrificar-se a elas. O desvio do dever de memória defende o trabalho histórico. Já em 1865, Edgard Quinet tentava "trazer o espírito crítico à história da Revolução, pois muita gente quer fazer dela um livro fechado a sete chaves em que não se pode tocar13". Se, atualmente, a tentativa é de pôr a história a serviço da memória, o autor de La Révolution já procurava libertar um pouco a história da memória, dando ao trabalho histórico uma base crítica. A história deve desmitificar, desmistificar. Diante do caráter "religioso" do dever de memória, a história seria uma operação de "laicização" da memória, relegando ao passado comum toda sua relatividade.

Enquanto não se quiser compreender que o esforço de contextualizar, de submeter incessantemente um acontecimento histórico à crítica, não é diminuir sua eventual intensidade trágica, estará sendo invocado, peremptoriamente, um dever de memória em detrimento da pesquisa permanente, assimptótica e difícil da verdade. Explicitar não é justificar. Jean-Noël Jeanneney salienta que "pode-se dizer que cabe justamente aos historiadores defenderem os atores contra o fascínio das repetições, lembrando que nada recomeça de forma idêntica e que a seqüência é sempre nova14". No entanto, isto não significa que não exista nada a ser aprendido com o estudo da história, ainda que apenas um instrumento de decifração aproximativa da complexidade do mundo. (Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Ler, de Serge Bernstein, La République sur le fil, ed. Textuel, Paris, 1998, p. 52 2 - Ler entrevista de Mona Ozouf a Jean-Françosi Chanet,, "Le passé recomposé", Magazine littéraire nº 307, fevereiro de 1993, p. 93. 3 - Ler, de Jean-Noël Jeanneney, La République a besoin d?Histoire, col. Interventions, ed. Seuil, Paris 2000. 4 - Ler, de Paul Ricoeur, "La mémoire heureuse", Notre Histoire, setembro de 2000. 5 - Ler, de Henri Rousso, La hantise du passé, ed. Textuel, Paris, 1998, pp 44-45; e também, de Eric Conan e Henry Rousso, Vichy, un passé que ne passe pas, Paris 1996. 6 - Ler artigos de Pierre Vidal-Naquet, e também a edição de 21 de maio de 2001 de Le Monde, que publicou algumas cartas de Hubert Beuve-Méry ao ministro-residente Robert Lacoste. 7 - N.T.: Quinto mês do calendário republicano. 8 - N.T.: Pequenos acampamentos de nômades, comuns no Norte da África. 9 - Ler, de Marc Ferro, "La République a trahi ses valeurs", Les Collections de l?Histoire n°11, abril de 2000, p.9. 10 - Ler, de Charles-Robert Ageron, "L?Exposition coloniale de 1931, mythe républicain ou mythe impérial?", in Les lieux de mémoire, organizado por Pierre Nora, Paris, ed. Gallimard (Quarto), 1997, vol. I, p.493-515. 11 - N.T.: A Vendée
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Assim se colonizou a África negra

No século 16, as invasões portuguesa e marroquina iniciaram a desestruturação dos reinos e impérios ao sul do Saara — onde havia cidades de mais de 100 mil habitantes. Após três séculos de guerras, e escravidão ocidental e árabe, a população estaria reduzida a um quarto da original e as sociedades, arrasadas

por Louise Marie Diop-Maes

No século 16, na maior parte das regiões da África subsaariana, existiam cidades de tamanho considerável para a época (de 60 mil a 140 mil habitantes ou mais), aldeias grandes (de mil a 10 mil habitantes), parte de reinos e impérios notavelmente organizados, territórios de habitat disperso denso. É isso que revelam os vestígios e escavações arqueológicas, bem como as fontes escritas, tanto externas (árabes e européias, anteriores a meados do século 17) como internas (autóctones, escritas em árabe, língua da religião, ou no latim da Europa). A agricultura, criação de animais, caça, pesca, artesanato muito diversificado (tecidos, metais, cerâmica etc.), navegação fluvial e lacustre, comércio local e distante, com moedas específicas, eram bem desenvolvidos e ativos.

O nível intelectual e espiritual era análogo ao do Norte da África na mesma época. O grande viajante árabe do século 14, Ibn Battuta, louva a segurança e a justiça encontrada no império do Mali. Antes da utilização de armas de fogo, o comércio árabe permanecia secundário em relação à atividade econômica e ao volume da população. Leão, o Africano (início do século 16), menciona que o rei de Bornu (região chadiana) organizava apenas uma expedição por ano para capturar escravos [1].

A partir do século 16, a situação modifica-se radicalmente. Os portugueses penetram ao sul da foz do rio Congo, conquistam Angola, destróem os principais portos da costa oriental e alcançam o atual território de Moçambique. Os marroquinos atacam o império songai, que resiste durante nove anos. Os agressores dispõem de armas de fogo; os subsaarianos, não. Milhares de habitantes são mortos ou capturados e condenados à escravidão. Os vencedores se apossam de tudo: homens, animais, provisões, objetos preciosos e o que mais possam pegar.

Reinos e impérios são pulverizados em principados ? levados a guerrear com freqüência cada vez maior, a fim de ter prisioneiros que possam ser trocados, principalmente por fuzis, indispensáveis na defesa e no ataque. Populações são deslocadas ? provocando novos choques, campos de refugiados, a propagação de um estado de guerra latente até o coração do continente. As investidas militares multiplicam-se, ao ponto de atingir, no nordeste da África Central do início do século 19, o número de 80 por ano, segundo o erudito tunisiano Mohamed el Tounsy, que viajou por Darfur e Ouaddaï (atual Chade) nessa época [2]. A porcentagem de cativos em relação ao conjunto da população aumenta continuamente, entre o século 17 e o fim do 19. "Distritos outrora densamente povoados foram reconquistados pelo mato" ou pela floresta [3].

A partir das invasões portuguesa e marroquina,
toda a estrutura social entra em colapso

O tecido sócio-econômico e político-administrativo, que fora constituído aos poucos, se corrompe e arruína inteiramente. Nos locais onde o cultivo de alimentos e a obtenção de água são difíceis, as pessoas vêem-se, com freqüência, reduzidas à auto-subsistência. Uma regressão enorme ocorre em todos os domínios. O destino dos cativos se agrava. Uma nova categoria social nociva emerge: a dos agentes comerciais, dos encarregados de caravanas, dos intérpretes, dos intermediários, dos abastecedores ? os "colaboracionistas" da época, enfim. Alguns príncipes tentam, em vão, se opor a esse comércio cada vez maior de seres humanos. Mas o rei de Portugal responde negativamente às cartas de protesto de Alfonso, o rei do Congo — convertido ao cristianismo. Um de seus sucessores é reduzido ao silêncio pelas armas. O mesmo em Angola.

O posto de comércio francês no Senegal fornece armas aos mouros para que ataquem o damel [4], que não autoriza a passagem das caravanas de escravos. É portanto a demanda externa que provoca uma enorme disseminação e proliferação da escravidão na África negra.

No começo, os reis entregavam apenas os condenados à morte. Mas os portugueses desejam efetivos mais volumosos, que eles próprios se encarregam de capturar, atacando sem qualquer outro pretexto. De 1575 a 1580, Dias Novais, primeiro governador de Angola, expedia cativos a um ritmo de 12 mil por ano em média [5]. É duas vezes mais, só partindo de Angola, que todo o tráfico transaariano na mesma época, se tomarmos como referência, por exemplo, os números colhidos pelo historiador norte-americano Ralph Austen.

No século 17 e, principalmente, no 18, a maior parte dos armadores europeus — sobretudo os holandeses, ingleses e franceses — dedica-se a tal tráfico marítimo ultra-lucrativo. Na segunda metade do século 18, atingem-se números extraordinários: exceto nos anos de guerra entre franceses e ingleses, centenas de navios embarcam de 150 mil a 190 mil cativos por ano [6]. A insegurança generalizada e crescente multiplica a penúria, fome, doenças locais e, pior de tudo, doenças trazidas de fora — particularmente, a varíola. As endemias se instalam e as epidemias se alastram.

Guerras, tráfico de escravos, queda da natalidade: um enorme déficit demográfico reduz a um quarto a população

Surge um enorme déficit demográfico. Ele é devido, em primeiro lugar, a todos os que morreram por causa dos ataques e durante as transferências do interior para os pontos de partida e os entrepostos; aos que se suicidaram e aos revoltosos executados no momento do embarque; aos óbitos resultantes da multiplicação das investidas e das guerras internas provocadas pela desarticulação de entidades políticas, pela fuga das populações, pela vontade cada vez maior de fazer prisioneiros; aos mortos pela fome (após pilhagem de colheitas e estoques) e por doenças de todo tipo; aos que padecem devido à introdução de armas de fogo e álcool adulterado, ao retrocesso da higiene e dos conhecimentos adquiridos.

A todos esses mortos somam-se os cativos e cativas arrancados do subcontinente. O próprio número de nascimentos entra em queda, devido à desarticulação da sociedade. Como durante a Guerra dos Cem Anos, que levou a França a perder metade de sua população, o decréscimo se fez de maneira irregular, variando conforme a região. Acentua-se fortemente a partir do fim do século 17. De meados do século 18 em diante, o decrescimento global é maciço e rápido.

É possível avaliar esse decrescimento? Para medir os efeitos demográficos da Guerra dos Cem Anos na França, comparamos o número de residências existente antes da guerra com o número contabilizado depois. Na África, tanto quanto na Índia, não dispomos de registros de batismos e outros, mas sabemos, a partir dos viajantes e exploradores do século 19, que, na parte ocidental, as maiores aglomerações não contavam com mais de 30 mil a 40 mil habitantes. Eram, portanto, cerca de quatro vezes menores do que as maiores cidades do século 16.

Segundo os mesmos testemunhos, pode-se observar que a diferença era ainda maior entre a população rural ou entre o número de combatentes que um príncipe ou um líder guerreiro podia arregimentar. Será a relação aproximada de 4 para 1, observada na África Ocidental, representativa da diminuição do conjunto da população africana negra entre os séculos 16 e 19? Do cabo das Palmas [7] ao sul de Angola, as perdas foram ainda mais elevadas. Gwato (Ughoton), o porto de Benin, contava 2 mil residências quando os portugueses lá chegaram e não mais que 20 ou 30 quando os exploradores do século 19 apareceram [8]. O historiador norte-americano William G. Randles mostra que a população de Angola havia igualmente se reduzido em proporções imensas [9]. Por outro lado, as regiões do Chade, no interior, permaneceram bastante povoadas até cerca de 1890 — com cidades de 3 mil habitantes em 1878.

A mesma destruição da Guerra dos Cem Anos na Europa,
porém por mais de três séculos...

No atual Sudão, o despovoamento começa com a dominação escravista do paxá egípcio Mohammed Ali, em 1820. Na África Oriental, os planaltos elevados, como em Ruanda e Burundi, permanecem densamente povoados, em torno de 100 habitantes por quilômetro quadrado, contrariamente ao que se deu na região do lago Niassa. Na África do Sul, a partir da primeira metade do século 19, a ação dos ingleses se soma à dos bôeres [10] para dizimar as populações autóctones. No conjunto, parece razoável considerar que a população da África negra era, no século 19, três a quatro vezes menor do que no século 16.

Mas será possível saber o tamanho da população da África negra perto de meados do século 19? A conquista colonial (artilharia contra fuzis de tráfico), o trabalho forçado multiforme e generalizado, a repressão das numerosas revoltas por meio do ferro e do fogo, a subalimentação, as diversas doenças locais e, de novo, as doenças importadas e a continuação do tráfico oriental reduziram ainda mais a população que baixara para quase um terço, já em 1930. Nessa época, medidas administrativas e sanitárias propiciaram a retomada do crescimento demográfico, que foi cada vez maior.

Essa avaliação foi possível porque, com a presença européia no interior dos territórios, certos dados estatísticos foram acrescentados às fontes narrativas [11]. Em 1948-1949, um recenseamento geral e coordenado foi efetuado em toda a África subsaariana. Após a correção por falta de declaração, a população foi estimada em, aproximadamente, 140 a 145 milhões de pessoas. Pode-se supor que, em 1930, a população somava de 130 a 135 milhões de indivíduos. Esses representavam, então, dois terços da população aproximada das décadas de 1870-1890 — cerca de 200 milhões. Segundo o resultado de minhas pesquisas, a população era da ordem de pelo menos 600 milhões (uma média de 30 habitantes por km2) no século 16 . Os números antigos de 30 a 100 milhões são totalmente imaginários, como bem o mostrou Daniel Noin, ex-presidente da Comissão de População da União Geográfica International (IGU, segundo as iniciais em inglês) [12].

Entre meados do século 16 e 19, a população subsaariana decaiu em cerca de 400 milhões. Desse total, a porcentagem dos que foram deportados do litoral e do Sahel é impossível de precisar, em função do volume do contrabando e do número muito elevado de clandestinos, antes e depois da proibição do tráfico. Segundo diversas fontes e pesquisas, os números oficiais para o tráfico europeu são, na realidade, o dobro [13]. As estimativas do tráfico árabe são também aleatórias. Para fornecer uma ordem de grandeza, digamos que o número, para os dois tráficos somados, deva se situar entre 25 e 40 milhões. Continua ainda um tanto discutível, mas não resta dúvida que as estimativas frágeis não dão conta da enormidade das dissimulações. Cerca de 90% da perda de população deveram-se a mortes ocorridas na própria África. Isso se explica pela situação de grave insegurança no conjunto do território, que persistiu por quatro séculos, resultado dos efeitos destrutivos, diretos e indiretos, de dois tráficos simultâneos, cada vez mais intensos.

Uma Guerra dos Cem Anos que durou três séculos, com as armas da Guerra dos Trinta Anos, e depois as dos séculos seguintes. A conquista e a ocupaç

Louise Marie Diop-Maes é doutora em geografia humana, autora de Afrique noire, démographie, sol et histoire (Dakar-Paris, Présence Africaine/Khepera, 1996).


[1] Jean-Léon l?Africaine, Description de l?Afrique, Paris, Adrien-Maisonneuve, 1956.

[2] Pierre Kalck, Histoire de la République centrafricaine, Paris, Berger Levrault, 1995.

[3] Charles Becker, "Les effets démographiques de la traite des esclaves en Senegambie", em De la traite de l?esclavage, actes du Colloque de Nantes, t. 2, Nantes-Paris, CRHMA e SFHOM, 1988.

[4] Título dado aos soberanos animistas do reino de Cayor (Senegal).

[5] William G. Randles, De la traite à la colonisation: les Portugais en Angola, em Annales ESC, 1969.

[6] Idem.

[7] Localizado na fronteira entre o que são hoje a Libéria e a Costa do Marfim, margem Norte do Golfo da Guiné (Nota da edição brasileira)

[8] Raymond Mauny, Les siècles obscurs de l?Afrique, Paris, Fayard, 1970

[9] Charles Becker, op. cit.

[10] Colonizadores holandeses (e franceses).

[11] Wiliam Randles, op. cit.

[12] Idem.

[13] Daniel Noin, La population de l?Afrique subsaharienne, Éditions Unesco, 1999.

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Dom João VI, o AI-5 e a Resistência


Na luta pela independência e na superação da ditadura militar, repetem-se velhos padrões brasileiros: a tendência aos acordos conciliatórios, a recusa a mudanças radicais, uma "democracia" que esconde os conflitos. Mas há sinais de que este quadro pode estar mudando


por Cláudio César Dutra de Souza, Sílvia Ferabolli

O ano de 2008 é particularmente significativo para o Brasil. Comemoramos 200 anos da fuga da família real portuguesa à colônia, na companhia de 10 mil cidadãos influentes na corte. Também faz aniversário o AI-5 — Ato Institucional nº 5 —, que instituiu, em 1968, o que Elio Gaspari chama de "A Ditadura Escancarada".

Ao transferir a corte portuguesa para o Brasil, Dom João VI efetivamente inventou um país. Até 1808, o Brasil não passava de uma colônia extrativista, que sustentava uma monarquia atrasada e absolutista, com os dias contados na esteira das grandes modificações iniciadas com a Revolução Francesa de 1789 e as guerras napoleônicas, que reescreveram o mapa de poder na Europa. Quando retornou a Portugal, em 1821, deixando o seu primogênito, D. Pedro I, como príncipe regente, o panorama do país havia mudado radicalmente. Era o nascimento efetivo de uma proto-nação, cujo desenvolvimento posterior já nos é bem conhecido.

O AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi o mais famoso do conjunto de 17 atos institucionais e 104 atos complementares baixados a partir de 1964. Em vigor até dezembro de 1978, produziu um conjunto de ações arbitrárias de efeitos duradouros. Definiu o momento mais radical do regime, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados, a partir de meras suspeitas ou posse de materiais considerados"subversivos".

Recordar esses dois eventos que se cruzam nesse ano é fundamental para o entendimento de estruturas fundantes de nossa história, a fim de que elas cessem de se repetir. Essas estruturas têm invariavelmente cunho autoritário e instauram novos paradigmas, que rompem antigos arranjos de forma vertical e absoluta, eclipsando, muitas vezes com violência, os movimentos sociais que se originam fora da esfera institucional do poder.

Rebeliões com escasso apoio popular: o poder colonial as sufoca, enquanto trama uma independência sem rupturas

No período colonial tivemos um série de revoltas, divididas em revoltas nativistas [1], no final do século 17 e início do século 18 (Revolta de Beckman, em 1684; Guerra dos Emboabas, 1708-09; Guerra dos Mascates, 1710-11 e Revolta de Filipe dos Santos em 1720) e revoltas emancipacionistas [2] no final do século 18 e início do 19 (Inconfidência Mineira, em 1789; Conjuração dos Alfaiates ou Inconfidência Baiana, em 1798, e a Revolução ou Insurreição Pernambucana, de 1817).

Essas insurreições foram abafadas e vencidas pela corte portuguesa. Seus líderes e principais artífices foram mortos, por vezes com crueldade, a fim de dar o exemplo à população sobre o destino daqueles que ousavam pensar de forma diferente. Na verdade, esses movimentos tiveram muito pouco daquilo que se chama "apoio popular". O cidadão comum tocava a sua vida e esperava a resolução dos conflitos para que, por fim, organizasse as suas ações de acordo com a nova ordem estabelecida — ou, na maioria dos casos, mantida. Mais sucesso tiveram aqueles que sabiam compor com os grupos dominantes. No período regencial, não foram poucos os que, através de apoio financeiro e logístico, ganharam seus títulos de nobreza, fartamente distribuídos por Dom João VI, aproveitando-se, assim, para enriquecer às custas de bons negócios para com a corte. Nossa independência em relação a Portugal se deu por intermédio do próprio establishment português: desde a abertura dos portos na chegada da corte real em Salvador, essa já era uma seqüência histórica previsível.

Em 1964, a corte brasileira mudava de nome e adquiria quepes e fuzis. A segunda ditadura brasileira do século 20, após o Estado Novo [3], teve como mote igualmente a "ameaça comunista".

Novamente observamos, no decorrer dos assim chamados "Anos de Chumbo", um fato incômodo à memória daqueles que pagaram caro para o restabelecimento da normalidade democrática no país. A maioria da população manteve-se distante da luta contra a ditadura, durante a maior parte do tempo. Houve um série de negociações com os artífices do regime para que esse terminasse — não em uma implosão como sonhavam os militantes da luta armada, mas em um suspiro lacônico. A lógica da ditadura a acompanhou até o seu derradeiro momento. Parida nos anos 60, a reboque de todo um processo de blidagem da América Latina contra a "ameaça comunista", patrocinada pelos EUA, terminou nos anos 1980, quando a União Soviética já agonizava e os ventos da globalização indicavam novas estruturações econômicas e de poder pelo mundo.

Certamente, nunca foram aconselháveis, no Brasil, os enfrentamentos diretos com o poder. A oportunidade de beijar a mão do soberano gerava filas imensas no paço imperial no século 19. O monarca, representando uma figura paterna dócil e solícita, a todos recebia acompanhado de seus príncipes e nobres. Existe a tendência um tanto jocosa de entender D. João VI como um rei covarde, que fugiu de Portugal deixando seus súditos à mercê das tropas de Napoleão. Mas ele foi, igualmente, o governante que costurou o nosso estado-nação e cujos descendentes governaram o país até novembro de 1889, quando um golpe militar instituiu a República. É esse, também, o perído de formação de uma elite dirigente cujos sobrenomes permanecem até hoje dando as cartas na nossa política.

Uma "representação" que inibe autonomias, pois é quase um cheque em branco aos governantes

Seguindo a mesma linha de raciocínio, Paulo Fagundez Vizentini nos informa que os militares deixaram o Brasil na posição de único país ao sul do Equador dotado de um completo e diversificado parque industrial, ao contrário de seus vizinhos do Cone Sul. A verve nacional-estatista dos militares até hoje provoca algumas nostalgias por parte de certos setores da nossa esquerda, que não podiam imaginar as metamorfoses que o capital sofreria no período democrático e que atigiriam o país em cheio a partir do governo de Fernando Collor de Mello.

É muito difícil imaginar a queda de Collor sem o apoio da mídia que o elegeu. No período em que se discutia o impeachment presidencial, a Rede Globo apresentou a minissérie "Anos Rebeldes", que serviu de dispositivo para que pudéssemos repetir, farsescamente, o período das grandes passseatas que exigiam a queda de um governo julgado ilegítimo. Tais atos foram extremamente compensatórios para uma geração abafada e violentada pouco mais de uma década antes. Mas havia diferenças: dessa vez, o real poder e a mídia estavam ao lado e não contra os manifestantes. E estes já não precisavam se preocupar com prisões, torturas e desaparecimentos, tal qual seus companheiros da década anterior. Eram herdeiros do processo de abertura "ampla gradual e segura" iniciada pelo presidente Geisel e pelo general Golbery do Couto e Silva em 1975.

A ditadura militar planejava a sua própria retirada de cena em face das mudanças liberais que se desenvolviam rapidamente nos EUA e na Europa, tornando o nacional-estatismo militar um anacronismo impensável na nova era globalizada. Da mesma forma, ao voltar para Portugal e deixar seu primogênito, Dom Pedro I, como príncipe regente, Dom João VI já sabia que a independência do Brasil era inevitável e que o monopólio extrativista português, que já fora golpeado com a abertura dos portos, em 1808 [4], se tornaria insustentável do ponto de vista político e econômico daquele momento em diante.

Lenta, gradual e segura, esse foi o lema de nossa abertura política, até o fim do AI-5. Embora não perdoasse os praticantes de "atos terroristas", a lei da anistia aprovada a 29 de agosto de 1979 eximia os militares de toda e qualquer culpa. Os próprios artífices da ditadura e dos abusos cometidos durante os anos de chumbo, educadamente entregaram a casa "limpa e arrumada" à democracia florescente. Foi mais uma mostra de como se faz política nesse país. Pela negociação, pelo consenso, pelas redes de cordialidade que sempre se estabeleceram entre o poder e sua resistência. Pela paciência e pela ausência de atos radicais de qualquer natureza. E também pelo dispositivo de uma democracia representativa, que em nossa realidade, significa quase um cheque em branco aos nossos reperesentantes institucionais.

Mas existe resistência, e essa se configura na forma do MST, dos movimentos negros, dos Fóruns Sociais Mundiais, dos direitos humanos, da questão indígena, entre outros, que freqüentemente sofrem a repressão e a violência policial, além da desconfiança de uma parcela significativa da população, capturada pelo discurso que criminaliza ações justas, legítimas e democráticas de fiscalização do poder e reivindicação de direitos. Que possamos depender menos dos favores da corte, de coroa, quepe ou gravata, sendo menos cúmplices de seus desmandos e da tentação de satisfazer nossas aspirações mesquinhas. Só assim evoluiremos de figurantes a atores políticos principais no teatro político de nosso país.


[1] Primeiras revoltas que aconteceram no Brasil, combatiam o domínio português. Tinham um caráter nacionalista mas não pensavam em independência, tendo como objetivo a defesa dos interesses específicos de uma determinada região da colônia contra as opressões da metrópole.

[2] As revoltas emancipacionistas reivindicavam a independência, questionando o pacto colonial, a dependência e a sujeição da colônia à metrópole.

[3] Em 1937, preparavam-se as eleições presidenciais para janeiro de 1938, quando foi denunciado pelo governo a existência de um suposto plano comunista para tomada do poder, conhecido como Plano Cohen. Esta situação criou um clima favorável para a instauração do Estado Novo, que ocorreria em novembro deste ano, durando até 1945. Foram criados nesse período o Conselho Nacional do Petróleo (CNP), o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Fábrica Nacional de Motores (FNM), entre outros. (Fonte; FGV - CPDOC)

[4] Naquele período em que a Europa estava sob o bloqueio continental, a medida efetivamente beneficiou a Inglaterra.

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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Joaquim Nabuco - Uma voz cosmopolita

Os diários de Joaquim Nabuco mostram como o intelectual formou suas idéias sobre o Brasil a partir da comparação com os países que visitou

João Gabriel de Lima

Acervo Iconografia
Joaquim Nabuco: um admirador da cultura anglo-saxônica num meio intelectual fascinado pela França


Num país de provincianos, o pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910) foi um cosmopolita que passou boa parte da vida fora do Brasil. Escritor, diplomata de carreira e político, fez história como a principal voz contra a escravidão. Gostava tanto de viajar que, quando lhe perguntavam quais os livros prediletos de sua estante pessoal, ele costumava responder: "Os meus Baedeker", referindo-se à mais famosa coleção de guias turísticos do século XIX, publicada pelo alemão Karl Baedeker. Das terras que visitava, aprendia os costumes, avaliava a política e a economia e, principalmente, fazia comparações com o Brasil. A grande originalidade de obras como Minha Formação é o cotejo do Brasil com outros países. Nesse exercício Nabuco dizia muito sobre o que o Brasil era e mais ainda sobre o que poderia ter sido. Chegam às livrarias nesta semana os Diários de Joaquim Nabuco (Editora Bem-Te-Vi, dois volumes de 310 e 535 páginas, vendidos juntos a 185 reais). A obra, com prefácio e notas do historiador Evaldo Cabral de Mello e organização da escritora Lélia Coelho Frota, tem como principal atrativo os relatos das viagens do intelectual, entremeados de reflexões. Na parte mais interessante, a primeira, em que um jovem Joaquim Nabuco narra suas impressões iniciais sobre a Europa e os Estados Unidos, lêem-se os germes das idéias que o autor desenvolveria mais tarde em sua obra.

Em um tempo em que a maior parte da intelectualidade brasileira tinha influência francesa, Nabuco se definia como um admirador da cultura anglo-saxônica. Foi Londres, e não Paris, a cidade que mais o impressionou em sua viagem de formação à Europa, entre 1873 e 1874. Ele voltaria à capital inglesa em muitas outras ocasiões, numa delas para redigir sua obra-prima como polemista, O Abolicionismo. Nabuco achava que a monarquia parlamentar britânica era o melhor entre os regimes de governo e defendia sua implantação no Brasil. Entrou para a história, no entanto, como americanófilo, por emular, já na idade madura, a chamada Doutrina Monroe, segundo a qual as nações do continente deveriam formar um bloco liderado pelos Estados Unidos. Nabuco é um admirador confesso da Inglaterra, mas a extensão de seu fascínio, ainda na juventude, pelo país de Thomas Jefferson – uma relação de amor e ódio, diga-se – é a novidade mais interessante dos Diários. Ele desembarcou nos EUA em 1876 para seu primeiro posto diplomático no exterior, como adido da embaixada brasileira em Washington. Num primeiro momento, detestou o que viu. Achava a cultura do país materialista, seus habitantes gananciosos e a política um meio corrupto em que as nulidades triunfavam, ao contrário do que ocorria na Inglaterra, onde a monarquia garantia que os melhores tivessem assento no governo. Com o tempo, passou a ver o lado positivo dessas mesmas características: o pragmatismo da cultura, o empreendedorismo dos habitantes e um sistema político no qual não eram tão importantes os melhores, já que as instituições funcionavam bem. Ou, como ele escreveria mais tarde em Minha Formação: "O governo tem uma capacidade limitada de fazer mal".

O que o fascinava nos Estados Unidos era, acima de tudo, a percepção de que aquela sociedade representava o futuro, enquanto a aristocrática Europa olhava para o passado. Num dos trechos mais impressionantes dos Diários, Nabuco antevê a globalização. Ele achava que, num mundo interligado pelo telégrafo (imagine se ele tivesse experimentado a internet...), os hábitos dos homens tenderiam a se uniformizar, e isso propagaria o estilo americano, "que realiza perfeitamente que a vida é um business e que é preciso o dólar para não falir nela". O olhar aguçado sobre o país não se limita à política nem ao mundo dos negócios. Nabuco, que na juventude alimentou veleidades de ficcionista, era também um arguto observador dos costumes. Habituado aos padrões brasileiros e europeus, mais liberais, ele se espantava com o puritanismo americano, sobretudo com a fidelidade no casamento. Quem conhece a biografia de Nabuco sabe que ele advogava em causa própria. Com 1,86 metro de altura, bigodão aprumado e ternos impecáveis, o pernambucano era conhecido como "Quincas, o Belo" e cultivava fama de namorador, tendo entre seus alvos preferenciais as mulheres casadas. Na França e no Brasil, fazia freqüentemente o papel que Giacomo Casanova chamava de "cavaliere servante", o amante jovem que espantava o tédio dos matrimônios maduros. Nos Estados Unidos, suas investidas nessa seara não passaram de flertes. "Fora do casamento não há nada aqui", anotou, com uma ponta de frustração, numa das páginas dos Diários.

Os críticos que analisam Joaquim Nabuco com critérios de hoje apontam duas nódoas em sua obra. A primeira é que, embora tenha sido aguerrido combatente da escravidão, Nabuco não contestava a existência de raças superiores e inferiores. A seu favor, diga-se que a idéia da hierarquia das raças era predominante. Os célebres antiescravistas do século XIX, entre eles o presidente americano Abraham Lincoln, pregavam a igualdade de oportunidades na escola, no serviço público e perante a lei para os homens de todas as raças. Mas nenhum deles aceitou totalmente a idéia de que negros e índios pudessem ser iguais aos brancos. Lincoln fez uma guerra civil não para acabar com a escravidão, mas para manter a união dos Estados Unidos. O presidente americano, no entanto, acalentou a idéia de que, uma vez libertos, os escravos negros dos EUA se mudassem para o México e para países da América Central.

Nabuco chegou até a enxergar mais longe do que a cultura do seu tempo permitia ao apontar a miscigenação como traço distintivo da cultura brasileira. Sobre esse alicerce, anos mais tarde Gilberto Freyre erigiria Casa-Grande & Senzala – livro que, lançado em pleno nazismo, teve o efeito de um libelo antieugenia. Outra idéia polêmica de Nabuco foi a defesa ferrenha da monarquia brasileira. Além do componente afetivo – os Nabuco de Araújo mantinham ligações com a família imperial –, a convicção tem boa dose de pragmatismo. Joaquim Nabuco sabia que um país de instituições fracas como o Brasil não seria transformado pela república, do dia para a noite, numa democracia sólida como a americana. Ele temia que o Brasil ficasse mais parecido mesmo com a Bolívia – o que, descontado o exagero, efetivamente ocorreu.

Em parte por seu pendor monarquista, Nabuco se retirou da política pouco depois da proclamação da República, tendo visto o triunfo da causa que norteou sua vida, a abolição. É algo a ser lamentado. Em Minha Formação, editado em 1900, ele critica o fato de a corrente abolicionista ter refluído no dia seguinte à assinatura da Lei Áurea, quando seriam necessárias "medidas sociais complementares" em benefício dos libertados, como a educação. É de idéias assim que os grandes países são feitos. Os Estados Unidos não seriam o que são hoje se os "pais da pátria" não tivessem insistido na educação de massas como base do ideal de igualdade. Ou, para ficar num exemplo mais próximo, a Argentina não seria a nação com a maior qualidade de vida da América Latina em boa parte do século XX se Domingo Faustino Sarmiento não tivesse importado, no século anterior, o modelo educacional americano. É uma pena que a república brasileira tenha sido fundada por militares de vocação autoritária como Floriano Peixoto e bacharéis beletristas como Rui Barbosa, e não por democratas de idéias sólidas como Joaquim Nabuco.

ANTEVENDO A GLOBALIZAÇÃO

"O telégrafo, pondo o mundo todo em contato, desenvolve muito a solidariedade humana. (...) Vive-se hoje quanto à soma de impressões de cada hora cem vezes mais do que antigamente, porque elas nos vêm de todos os cantos da terra. A princípio isso determina uma certa excitabilidade nervosa, mas talvez acabe por produzir uma inteira insensibilidade. Estive neste país durante grandes acontecimentos: depois de ver a efervescência que eles produzem, é agradável ver a calma em que se deixam esquecer."
26/4/1877

SOBRE OS ESTADOS UNIDOS

"Não se pode dizer deste país que ele tem ideal. É o país prático por excelência, que tem a admirável qualidade de bem ou mal governar-se a si mesmo. Não lhe falta 'manhood' (virilidade), mas tudo nele serve a fins materiais. A instrução pública, que está tão desenvolvida, só tem tido esse desenvolvimento por ser um elemento do 'business'. Ganhar dinheiro é o fim real da sociedade americana."
17/7/1877

Reprodução Enciclopédia Mirador
A revolta da Armada: Nabuco condenava os métodos ditatoriais de Floriano Peixoto

SOBRE O BRASIL

"Cada vez mais me convenço de que a civilização no país acabou com a monarquia. O que há são restos dela. Não há mais princípio que detenha ninguém, nem pressão social que impossibilite os piores atentados. (...) A classe de homens que governam é inverossímil, os processos de governo uns torpes, outros indignos, outros ridículos. Copiam os decretos da coleção sul-americana, dos estados de sítio orientais, argentinos, bolivianos, que sei eu? A adulação dos jornais ao ditador é tão grosseira como a dos guaranis do Paraguai. É uma boêmia política de ceroulas e chinelas, como não se viu nunca mais desprezível, que nos governa."
17/10/1893

Revista Veja