terça-feira, 26 de abril de 2011

Pindorama não é Pandora


Apesar de terem muito em comum, as duas maiores nações da América vivem mais de estranhamentos que de afinidades
Lorenzo Aldé

“Permita-me dizer isso da forma mais clara possível: os Estados Unidos não têm absolutamente nenhum interesse em invadir a Amazônia”. Essa declaração oficial do então embaixador americano no Brasil, Anthony S. Harrington, em junho de 2000, tentava desmentir um boato que se disseminara a partir da Internet e causava mal-estar até mesmo entre os militares: em um livro de Geografia adotado por escolas públicas americanas, as crianças estariam aprendendo que a floresta amazônica era uma “reserva internacional”, sob a responsabilidade das Nações Unidas.

O esforço diplomático pode ter ajudado a comprovar que a notícia era falsa, mas foi insuficiente para arrefecer o temor generalizado de que algum dia os Estados Unidos atropelem nossa soberania nacional em nome de interesses econômicos ou militares.

Nada menos que 72,7% dos brasileiros civis consideram que a Amazônia corre o risco de ser invadida ou internacionalizada, como revelou uma pesquisa encomendada em 2008 pela revista Veja ao instituto CNT/Sensus. Entre os militares, então, o sentimento de desconfiança quanto aos “irmãos” do Norte é quase um pré-requisito profissional. Em documento confidencial vazado há poucos meses pelo site WikiLeaks, o embaixador americano Clifford Sobel qualificou de “tradicional paranoia brasileira” a preocupação de nossas Forças Armadas com a defesa da região contra possíveis ameaças externas.(...)

Leia a matéria completa na edição de Março, nas bancas.

Revista de História da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Os últimos dias de Che





Biografia em quadrinhos narra a via crucis do guerrilheiro argentino na selva boliviana
Por Carlos Minuano

É fato que o médico argentino Ernesto Guevara de la Serna, eternizado como o guerrilheiro revolucionário Che Guevara, não conseguiu levar a cabo sua empreitada visionária. Ao trocar a medicina pela luta armada, o herói latino-americano avistava no horizonte de suas batalhas o advento de uma nova sociedade, o surgimento de um novo homem. Em ambos os casos, com mais dignidade e justiça. Infelizmente, não foi o que aconteceu. A miséria continua assolando grandes populações e a ditadura implacável do capitalismo, embora em crise, continua dando as cartas do jogo.
Entretanto, a morte trágica de Guevara, abandonado nas selvas da Bolívia, não foi inútil. Tem o valor de um símbolo poderoso, que resiste ao tempo, como afirma Ernesto Sábato, na introdução de Che (Conrad, 96 págs., R$ 34,90), biografia em quadrinhos publicada na Argentina em 1968, três meses após a morte do revolucionário argentino – e que apenas agora chega ao Brasil. “Pode-se atribuir a Guevara um romantismo louco, mas é essa imagem heróica e solitária que desperta a esperança, a coragem e a fé em milhões de jovens nos quatro cantos do planeta.”
Quem assina o roteiro de Che é Héctor Oesterheld, a arte é de Alberto Breccia, com a ajuda de seu filho Enrique, em seu primeiro trabalho, então com 22 anos. A obra é considerada uma das mais importantes para a construção do mito em torno de Guevara. Mas, além do sucesso – dezenas de milhares de exemplares vendidos em pouco tempo –, a HQ tem um histórico sangrento de perseguição e morte. Logo após o lançamento, a editora foi invadida e o estoque do álbum confiscado e destruído pelo serviço de inteligência do exército.
Na época, a Argentina já agonizava sob a ditadura militar do general Onganía, no poder desde 1966, que baniu do mapa o movimento nacional peronista criando um ambiente de grande tensão política. “A censura e a perseguição também atingiram os partidos políticos”, recorda Enrique Breccia, de 62 anos, em entrevista à Fórum. Militante peronista, ele conta que “perseguiam o peronismo com particular afinco”.
Mas era só o começo. Nos anos posteriores, o autoritarismo pioraria em alguns graus, adquirindo características brutais. O alento trazido pelo regresso de Perón, após quase duas décadas de exílio, teve vida curta. Ele morre um ano depois, cercado de direitistas, e deixa o país nas mãos de sua viúva, Isabelita Perón. Para entornar o caldo de uma vez por todas, ela se alinha ainda mais com a direita, confirmando sua guinada ao criar a força parapolicial Alianza Anticomunista Argentina para eliminar definitivamente as lideranças de esquerda do país. Em 1976, Isabelita cai e o país assiste à volta da ditadura militar, mais violenta e decidida a varrer qualquer vestígio de esquerda. É quando o álbum Che é definitivamente censurado.
A situação piora ainda mais em 1977. Oesterheld e sua família começam a sofrer ameaças. Pouco depois ele e suas quatro filhas entrariam para a cínica estatística dos “desaparecidos”, segundo a qual cerca de 30 mil argentinos tinham subitamente sumido. Oesterheld foi sequestrado no dia 14 de dezembro de 1977 e, segundo prisioneiros que dividiram cela com o roteirista, antes de sua morte ele ainda passou por uma última tortura, sádica ao extremo: recebeu fotos de suas filhas, torturadas e mortas. De acordo com dados evidentemente não oficiais, Oesterheld foi assassinado em 1978.
Diferentemente do que se afirma, de que a morte do roteirista argentino estava diretamente ligada à publicação de Che, segundo Enrique Breccia, Oesterheld foi perseguido e assassinado por conta de sua militância política. “Ele era membro do grupo armado Montoneiros, dizer que ele foi morto por causa de uma história em quadrinhos é desmerecer sua memória”. Para a viúva de Oesterheld, no entanto, seu marido entrou na mira da ditadura em 1968 – ano de lançamento do livro.

A via crucis de Che
O álbum Che faz um retrospecto da trajetória do guerrilheiro argentino, mas se concentra em seus últimos dias. Oesterheld, Breccia e seu filho Enrique narram com maestria a trajetória de Che Guevara desde a decisão de retornar à guerrilha, dando as costas para as vantagens dos cargos oficiais que ocupou em Cuba depois da vitória conquistada ao lado de Fidel Castro durante a Revolução. Após uma tentativa fracassada na África, Guevara parte para a Bolívia com o objetivo de instalar uma base guerrilheira de onde lutaria pela unificação dos países latino-americanos.
Sem apoio do partido comunista boliviano e nem mesmo a colaboração dos camponeses que habitavam a região, Guevara foi capturado em 8 de outubro de 1967 e executado no outro dia por um soldado da Bolívia. “Nunca saberemos o que disse Guevara nesse momento, mas podemos imaginar que seu olhar era de profunda tristeza”, assinala Sábato. “Não pela morte, já esperada, mas por ter sido levada a cabo por um boliviano e não por um soldado dos Estados Unidos”, conclui.
Mas, 40 anos depois, que mudanças a luta e a morte de Guevara trouxeram para a América do Sul? Para Enrique Breccia, o cenário não é animador. O mais evidente, diz ele, é o fracasso da luta armada como método de ação política, da qual Guevara foi um dos principais defensores. “A outrora poderosa influência cubana agora se vê reduzida a uns poucos países pseudorrevolucionários, como Nicarágua, Venezuela, Equador e Bolívia.” Para o desenhista argentino, são vestígios de uma mudança inviável. “Pregam um discurso de revolução, quando na realidade só atendem a agenda do império estadunidense”
Semelhante, segundo Enrique, ao que fez Fidel, quando transformou Cuba em um peão a serviço do império soviético. “Ao invés de optar por um desenvolvimento econômico-político autônomo, Fidel subordinou Cuba aos interesses geopolíticos soviéticos. Para o desenhista argentino, não foi por acaso o desencanto de Che com Fidel ao assumir o Ministério de Produção e Indústria. “Ele logo percebeu que a industrialização do país não interessava aos soviéticos e quando se foi tornou-se um obstáculo para esses planos.” Enrique afirma ser esse o motivo principal da derrota de Guevara nas selvas bolivianas. “Ele foi traído, o imperialismo soviético, por meio de Fidel, o entregou.”

Revolução em quadrinhos
A dupla Oesterheld e Breccia, que pela primeira vez têm uma HQ publicada no Brasil, fez da Argentina uma referência mundial em produção de quadrinhos, influenciando nomes de peso como Hugo Pratt e Frank Miller. Por ironia, a década de 60 é conhecida como o período em que os quadrinhos argentinos começam a entrar em crise. Contrariando os mais deprimidos, é quando aparece em cena a Mafalda, de Quino, entre outras obras primas, como o álbum Che, que Alberto Breccia considerava uma de suas mais importantes criações. “É o mais bem construído e o mais coletivo de meus álbuns”, afirmou o desenhista. Alberto Breccia morreu em 1993, aclamado como um mestre dos quadrinhos e herói da cultura argentina. REVISTA FÓRUM

Os pecados do Haiti

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca.
Por Eduardo Galeano
A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto
Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe de exercer o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial tem mais poder do que Préval, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito com um voto sequer.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem lhe ordenando:

– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico
Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha lhe explicou, em Port-au-Prince, qual era o problema:

– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, ao lado de El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das Leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até a cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos tinham conquistado antes a sua independência, mas meio milhão de escravos trabalhavam nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém-nascida foi condenada à solidão. Ninguém comprava do Haiti, ninguém vendia, ninguém reconhecia a nova nação.

O delito da dignidade Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar conseguiu reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano lhe havia entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti, mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. A essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perda por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

sábado, 23 de abril de 2011

Terra da vergonha

Legalmente, a escravidão não existe. Mas milhares de trabalhadores sabem que a realidade é bem próxima do cativeiro
Vivi Fernandes de Lima

Antônio morava no Maranhão e precisava de trabalho. Até que ficou sabendo que uma propriedade estava recrutando peões. Ele se interessou e foi com mais 41 trabalhadores para o local do serviço. Chegando lá, foi vendido por R$ 80,00 ao fazendeiro Miguel de Souza Rezende. Ele passou a trabalhar na derrubada da mata e na limpeza do pasto. Dormindo em barraco, passando fome, sem dinheiro para enviar à família e ainda devendo ao armazém da fazenda, decidiu fugir. Mas o cantineiro avisou: “Não faça isso, que eles te matam”, referindo-se aos muitos jagunços armados que rondavam a fazenda. Um colega de Antônio fugiu e o grupo chegou a ouvir tiros à noite.

As condições a que Antônio e seus companheiros foram submetidos – pressão física ou psicológica, sob pretexto de dívida, comprometendo a liberdade de ir e vir – é o que defensores dos direitos humanos, sindicalistas, funcionários do Estado e pesquisadores chamam de trabalho escravo. Quanto ao uso do termo, o sociólogo e coordenador do Grupo de Pesquisa de Trabalho Escravo Contemporâneo (GPTEC), da UFRJ, Ricardo Rezende, esclarece: “A categoria trabalho escravo por dívida, como não é exatamente a mesma escravidão que havia na antiguidade romana e grega, ou a da África e das Américas até o século XIX, suscita dúvidas para alguns pesquisadores; por isso, a categoria vem acrescida, algumas vezes, de complementação (semi, branca, contemporânea, por dívida ou análoga)”.

O trabalho forçado mais comum no Ocidente é o que está associado à dívida. Os explorados são obrigados a cumprir o compromisso de trabalho porque, segundo os fazendeiros, eles devem hospedagem, alimentação e remédios, que são comprados no armazém das fazendas. “Normalmente, o valor de pagamento combinado não é honrado. Quando chegam ao local de trabalho, esse mesmo valor já está 50% menor porque os exploradores cobram até o transporte que os levou para lá”, diz a professora Adonia Antunes Prado, também do GPTEC.

Exploradores como Miguel Rezende – mais de uma vez flagrado pelos grupos de fiscalização do governo federal utilizando mão de obra escrava – devem ser julgados pela Justiça do Trabalho e podem ser punidos criminalmente, ficando de dois a oito anos na cadeia. Mas, até hoje, somente um fazendeiro foi preso por esse crime. A sociedade civil criou um meio de ajudar a punir economicamente esses exploradores. Trata-se do Pacto Nacional, coordenado pela OIT, pelo Instituto Ethos, pelo Instituto Observatório Social e pela ONG Repórter Brasil. Por meio deste instrumento, empresas se comprometem a não negociar com propriedades que estejam na Lista Suja de Trabalho Escravo. Mais de 200 empresas já aderiram ao Pacto. Entre elas estão Vale, Petrobras, Pão de Açúcar e Shell.

Enquanto isso, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel percorre o país para repreender casos de trabalho forçado. Auditores do Ministério do Trabalho, acompanhados pela Polícia Federal, vão aonde há denúncias, normalmente registradas pela Comissão Pastoral da Terra. De acordo com pesquisa da ONG Repórter Brasil, 25 mil pessoas foram escravizadas por ano no país desde 2001. O número de libertos ainda está longe de zerar essa estatística: desde 1995, quando o governo federal reconheceu a existência de trabalho escravo, 36 mil pessoas foram libertadas.

O uso desse tipo de mão de obra não é exclusividade do Brasil. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, há 200 milhões de pessoas escravizadas no mundo. A revista Time publicou recentemente um artigo sobre esse tipo de exploração na África do Sul e destacou que nunca houve tantos escravos no mundo como há hoje. Para o coordenador da Repórter Brasil, Leonardo Sakamoto, as principais causas dessa exploração no país são a impunidade, a ganância e a pobreza. “Manter um trabalhador como um ‘cativo’ hoje é muito mais barato do que antes de Lei Áurea”.

As diferenças entre o trabalho forçado de hoje e a escravidão são basicamente a ilegalidade, o baixo custo dos explorados e a curta duração do “contrato”. Atualmente, há mais denúncias desse tipo de crime nas regiões Norte e Centro-oeste. Mas isso não quer dizer que as outras regiões tenham menos ocorrências. “Em 2009, o Rio de Janeiro inaugurou sua presença na lista dos ‘campeões’ em trabalho escravo. Em apenas cinco operações de fiscalização, o Rio teve 521 trabalhadores libertados – o maior número para o Brasil no ano –, enquanto o Pará, tradicional palco deste tipo de infração, em 64 operações teve pouco mais de 300 libertações”, diz Adonia, referindo-se às libertações feitas em Campos dos Goytacazes, onde prevalecem as plantações de soja.

A atividade agropecuária é campeã nos registros de trabalho forçado. A fazenda que abriga a destilaria Pagrisa, no Pará, foi uma das repreendidas pela fiscalização. O número de libertações em suas terras assusta: 1.064. “Trata-se de um processo de exploração em massa”, diz Caio Magri, coordenador do Instituto Ethos. Para os fazendeiros manterem mais de mil trabalhadores ilegais e coagidos, é necessária uma forte estrutura de vigilância, ou seja, muitos seguranças particulares armados. “Por isso, é importante a presença dos policias federais junto com os auditores. Trata-se de um trabalho muito perigoso, basta lembrar a Chacina de Unaí”, diz Magri, referindo-se ao assassinato de fiscais do trabalho na cidade goiana em 2004.

O assunto é duro, difícil de ser medido, por ser ilegal, e de ser descrito, por ser tão desumano. Os pesquisadores, quando acompanham a fiscalização móvel, surpreendem-se com os maus-tratos sofridos pelos trabalhadores ao ouvirem relatos sobre torturas, chicotadas e até assassinatos. Adonia já acompanhou uma dessas incursões e não esquece: “É muito bom ver a transformação nos rostos dos trabalhadores na hora em que eles vão voltar pra casa. Eles ficam mais bonitos”. Revista de História da Biblioteca Nacional

Para sobreviver, a escravidão por contrato


Sem ter como prover seu próprio sustento, a cafuza livre Joanna Baptista passa escritura de venda de sua própria liberdade
Manuela Carneiro da Cunha

Em agosto de 1780, em Belém do Pará, uma mulher livre se vende como escrava. O caso é inusitado e requer um despacho do ouvidor: “caso bastardo”, diz ele, mas que se deve deixar à vontade expressa dos envolvidos, a cafuza que vende sua liberdade e o catalão que a compra. Uma escritura pública de venda é feita em tabelião, diante de testemunhas.

Joanna Baptista havia nascido livre, filha de uma índia e de um escravo negro, ambos a serviço de um mesmo padre. Mortos os pais e o senhor, ela se declara desvalida – “sem Pay nem May que della podessem tratar e sustentar assim para a passagem da vida como em suas moléstias, e nem tinha meios para poder viver em sua liberdade” – e desejosa de ser escrava, supondo que quem a tivesse pago por dinheiro teria interesse em mantê-la e cuidar dela.

A idade da postulante à escravidão não é mencionada na escritura, embora, criada em casa de padre, não devesse ser desconhecida. Devia ser jovem, já que falava dos filhos que acaso viesse a ter, e que a eles a escravidão não seria transmitida – cláusula provavelmente inócua. Quanto a ela própria, seria escrava enquanto vivesse e poderia ser vendida a terceiros.

Joanna Baptista se vende por 80 mil-réis, 40 mil em dinheiro, 40 mil em adereços de ouro e “trastes” para se vestir. Declara ter recebido o dinheiro e as joias, e que iria receber adiante os trastes correspondentes aos 22 mil-réis que faltavam.

O despacho do ouvidor é de uma singular displicência. Diante de matéria inusitada, ele evoca vagamente o direito romano, pede a presença dos interessados e, ante suas declarações, decide que prevaleça a livre vontade dos contratantes. Dois séculos antes, a questão da legalidade da venda de si próprio em escravidão havia sido discutida de forma exaustiva. Nenhuma menção é feita pelo ouvidor a esse amplo debate, por ignorância, descaso ou expediente.

De posse do despacho, o tabelião lavra uma escritura pública de venda: dois soldados, vizinhos do comprador, são testemunhas, e Joanna Baptista, por não saber escrever, pede a um homem que assine por ela. Um ano mais tarde, tira-se uma cópia da escritura.
O documento é uma peça a mais no conhecimento das condições de vida dos pobres livres no Brasil colonial e imperial. Ele indica que, no fim do século XVIII, uma mulher pobre podia não ter meios suficientes para se manter livre. Vender sua liberdade era certificar-se de que sua vida passava pelo menos a interessar a quem pagara por ela.

A controvérsia sobre a legalidade de alguém vender a si mesmo em escravidão tem uma longa história, desde o fim do século XV. Duas teorias confrontaram-se diretamente em torno desse tema: uma sustentava que a liberdade era uma propriedade do homem, em nada distinta de outras, e passível de ser vendida. Outra negava aos homens o direito de venderem sua liberdade, que era conferida por Deus.

Em parte, essa disputa foi inserida no debate entre dominicanos e jesuítas. Os teólogos-juristas dominicanos espanhóis, e particularmente Francisco de Vitória e Domingos de Soto, afirmavam que, a não ser em caso de extrema necessidade, ou seja, em perigo de vida, um homem não podia vender sua liberdade. Mas no fim do século XVI, os jesuítas começaram a atacar os dominicanos – acusados de serem criptoprotestantes, praticantes do protestantismo de forma clandestina –, e coube a um jesuíta português, Luís de Molina, produzir o ataque à teoria política dominicana. Para Luís de Molina, que foi professor em Évora, e para seu discípulo espanhol, Francisco Suárez, que ensinou em Coimbra, o homem era senhor de sua liberdade e podia vendê-la a seu critério, como a qualquer outra coisa sobre a qual tivesse domínio.

A questão tinha incidência direta no Brasil: provavelmente no ano de 1567, a Mesa da Consciência e Ordens, fundada 35 anos antes e que opinava sobre dúvidas teológico-jurídicas, já a dirigira a dois jesuítas. Era possível alguém vender seu filho e vender a si mesmo em escravidão licitamente? Tratava-se de questões distintas: uma envolvia a discussão da pátria potestade, o poder dos pais sobre seus filhos; outra, o domínio sobre a própria liberdade.

Creio que o caso de Joanna Baptista, a cafuza que se vende em escravidão, no fim do século XVIII, em Belém do Pará, deva ser um dos últimos exemplos de servidão consentida. A essa altura, já era um “caso bastardo”. Por se colocar a liberdade nos termos do direito de propriedade moderno, chega-se ao paradoxo de se estabelecer uma relação de escravidão por um contrato de compra e venda no qual a vendedora é ao mesmo tempo sujeito e objeto da transação.

Artigo resumido e adaptado do capítulo “Sobre a servidão voluntária, outro discurso: escravidão e contrato no Brasil colonial”, do livro Cultura com aspas (Cosac Naify, 2009).

Manuela Carneiro da Cunha é professora da Universidade de Chicago, membro da Academia Brasileira de Ciências e autora, entre outros livros, de Negros estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África (Brasiliense, 1985).

Saiba Mais - Bibliografia

Após o livro pioneiro de Franco (1969), os estudos de Mello e Souza (1982) e de Dias (1984) Revista de História da Biblioteca Nacional

Malandro é o gato

Em tempos de peste bubônica, muita gente tentou se dar bem vendendo ratos, mas foi a saúde pública que mais lucrou
Dilene Raimundo do Nascimento e Matheus Alves Duarte da Silva

“Rato, rato, rato!” Ao ouvir esse grito no Rio de Janeiro no início do século XX, nada de olhar para o chão nem ficar em um pé só. O melhor seria correr atrás do rato, dar-lhe uma paulada e entregá-lo ao “ratoeiro”, provável autor do grito. Esse funcionário pagava a quem recolhesse ratos na rua e revendia os animais para o governo. A simples iniciativa tirou de circulação mais de 1,6 milhão desses animais entre 1903 a 1907, diminuindo os casos de peste bubônica. Mas também aguçou a malandragem dos cariocas: muitos chegaram a fabricar ratos de papelão e cera para vender.

A esperteza desses enganadores não era o problema mais grave. Parte da população e até alguns cientistas se recusavam a aceitar que a cidade estava assolada pela mesma peste que aterrorizou a Europa na Idade Média e no início da Idade Moderna, com muito mais mortes que no Rio de Janeiro. Segundo o escritor Daniel Defoe (1659?-1731), só no ano de 1665, em Londres, a doença teria dizimado cerca de 68 mil pessoas de uma população total de 450 mil.

Já no Rio de 1900, que tinha uma população de 690 mil habitantes, um pouco maior que a da capital inglesa no século XVII, 360 pessoas morreram em 1903, o pior ano da epidemia. Até 1907, foram duas mil mortes. Como era difícil estabelecer o diagnóstico e muitas famílias escondiam seus doentes, talvez este número tenha sido até maior, mas não o suficiente para impressionar a população e a comunidade científica.(...) Revista de História da Biblioteca Nacional

Coisa mais linda...


Em oposição ao melodramático samba-canção, a contida bossa nova reinventou o amor na música brasileira.
Paulo da Costa e Silva

Tente mostrar a um jovem a gravação da música “Sistema Nervoso” no vozeirão de Orlando Correia, sucesso nas rádios em 1953. Ou faça com que ele ouça a rancorosa “Vingança”, clássico de Lupicínio Rodrigues, também dos anos 1950. O resultado não deve variar muito. Os jovens de hoje não se identificam mais com músicas de voz impostada e cheia de vibratos, com letras exageradamente dramáticas, embaladas por plangentes violinos. Não tem jeito: essas canções nos soam “antigas”.

Nada a ver com a idade da composição. Mesmo para os jovens da época, elas já chegavam datadas ao ouvido. Motivo? A recém-nascida bossa nova. Quando ela surgiu, em 1958, quase tudo o que tocava nas rádios se tornou subitamente “velho”. Chico Buarque que o diga: “Eu era um garoto que, como os outros, amava a bossa nova e o Tom Jobim. Não gostava mais das canções desesperadas. Só queria aquela música que era toda enxuta, porque derramada para dentro”.

Terminava o reinado do samba-canção, gênero que dominava, inconteste, o cenário musical brasileiro desde a segunda metade dos anos 1940. Depois de quase uma década de melodrama, os excessos haviam virado norma, o que reduzia seu efeito. Aos poucos, aquele amor sofredor e desesperado, alimentado por sua própria impossibilidade, como o de Romeu e Julieta, era deixado de lado. As dores-de-cotovelo de compositores pioneiros como Herivelto Martins e Lupicínio Rodrigues, assim como as de autores da fase mais sofisticada do gênero, como Antônio Maria e mesmo Dolores Duran, perderiam espaço para o amor solar e positivo de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra e companhia.

Leveza e novidade – isso era tudo o que a juventude queria naquele final dos anos 1950. JK leva a capital para Brasília. O Brasil se sagra campeão mundial de futebol na Suécia. Nasce o Cinema Novo. A economia passa por um momento de euforia. As classes médias urbanas experimentam considerável crescimento. Mudam os estilos de vida: no Rio de Janeiro, os velhos bondes, vestígios idílicos da cidade antiga, cedem espaço aos novíssimos automóveis, e em Copacabana os casarões dão lugar a altos prédios de apartamentos. A cidade volta-se para o mar, e a cultura carioca vai com ela. É “a civilização de praia”, como brincava Tom Jobim.

As canções de Tom e Vinicius também falavam de amor, mas trouxeram para o sentimento romântico uma nova inflexão. Impossível imaginar um samba-canção com o suave título de “O Amor, o Sorriso e a Flor”, nome do segundo álbum de João Gilberto. Da mesma forma, seria inconcebível uma bossa nova chamada “Caixa de Ódio” ou “Judiaria” – canções de Lupicínio Rodrigues. As letras se tornam mais leves, freqüentemente marcadas por elementos visuais luminosos, como o “Dia de luz/ Festa do sol” que encontra “O Barquinho” (Roberto Menescal/ Ronaldo Bôscoli) deslizando “no macio azul do mar”.

E a ruptura ia além do conteúdo dos versos. Em suas melodias, a bossa nova também fazia jus ao nome. Ao contrário das canções de Lupicínio Rodrigues, nas quais os sentimentos passionais se expressam em abruptos deslocamentos entre notas graves e agudas e em longas durações vocálicas, a bossa nova prima pela economia de meios. Exemplo extremo desse minimalismo é o “Samba de uma Nota Só”, em que, como o nome adianta, Tom Jobim e Newton Mendonça brincam durante quase toda a música em cima de uma nota-base: o ré.

É fácil perceber as diferenças de melodia nesses gêneros. Experimente cantarolar os primeiros versos de “Nervos de Aço”, sucesso de Lupicínio: “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? Ter loucura por uma mulher?” O canto se desloca de uma nota grave para outra muito mais aguda, e se fixa nela. Agora, faça o mesmo com a frase descritiva que inicia “Corcovado” – “Um cantinho, um violão, este amor, uma canção”. A música de Tom se desenvolve passo a passo, sem grandes variações ou saltos entre as notas. Elas são curtas e próximas.

As grandes oscilações melódicas do samba-canção exigem certo esforço do intérprete. E esse tipo de canto transmite tensão, uma sensação de busca, um sentimento de falta, um desejo de completude – características bastante conhecidas do amor romântico tradicional. São idéias estranhas à contida bossa nova, na qual não cabem arroubos sentimentais. Suas melodias exigem outra forma de cantar, mais branda e intimista, próxima da fala. É a música por excelência dos elevadores e aviões, “não apenas porque é agradável, mas porque expressa perfeitamente uma ascensão sem esforço”, escreveu o musicólogo Lorenzo Mammi.

A harmonia – arranjos e interação entre os instrumentos – também soa renovada. Um acorde, por si só, já comunica um clima, uma sensação. Na obra de Jobim, a harmonia deixa de ser mero apoio à melodia. Elas se tornam complementares. Talvez seja esta a grande descoberta do maestro: uma canção pode ser feita sobre duas ou três notas apenas, sem com isso perder seu impacto emocional.

Nos sambas-canções, a melodia reina soberana, a serviço da letra. As músicas do gênero, também chamado de “samba de fossa”, quase sempre nos contam histórias, em relatos autobiográficos. “Caminhemos”, de Herivelto Martins, é exemplar: “Não, eu não posso lembrar que te amei/ Não, eu preciso esquecer que sofri”. “Exemplo”, de Lupicínio, segue a mesma linha: “Dez anos estás a meu lado/ Dez anos vivemos brigando/ Mas quando eu chego cansado/ Teus braços estão me esperando”.

É claro que a música de Jobim também tem belas melodias. Mas, no lugar da narrativa, há um investimento na sensação. As letras da bossa nova dificilmente narram histórias – preferem descrever situações, atmosferas, paisagens. São como pinturas ou fotografias: “Eu, você, nós dois/ Sozinhos neste bar à meia-luz/ E uma grande lua saiu do mar (...) / O sol já vai caindo / E o seu olhar / Parece acompanhar a cor do mar” (“Fotografia”). A bossa nova rejeita o tom confessional das narrativas românticas, com seus fantasmas do passado e suas grandes profundidades sentimentais. Ao se ater à superfície das imagens, valoriza o instante e nunca retorna ao passado.

Essas opções não eram gratuitas. Entre as décadas de 1950 e 1960, nascia no país uma nova identidade amorosa. Num tempo de revolução comportamental, um novo tipo de mulher – que estuda, trabalha, vota, milita, toma pílula anticoncepcional e pode até se divorciar – ganha feições diabólicas no samba-canção. Ela é sempre a traidora volúvel, pérfida, responsável pelo ocaso masculino. Mais afinada com essas transformações, a bossa de um Vinicius de Moraes trata de redimir a mulher, em clássicos como “Garota de Ipanema”, “A Felicidade” e “Ela é Carioca”.

As melodias de Tom, entre pequenos acidentes e deslizamentos de semitom, celebram a mobilidade e o descompromisso dos afetos. Mesmo os fracassos amorosos são perpassados por uma aura de afetividade. Ressentimentos, ódios e rancores não costumam freqüentar os corações da bossa nova. O rompimento amoroso não redunda em desespero, bebedeiras e suicídios porque traz consigo, junto com a dor, novas possibilidades. A melodia pode, agora, ser re-harmonizada infinitamente: o passado já não tem o mesmo peso. O homem abandonado não precisa perder a cabeça e maldizer a mulher. Afinal, seu amor pode até retornar: “Mas, se ela voltar/ que coisa linda/ que coisa louca”, imagina o hino “Chega de Saudade”.

Mas se não é triste como as fossas de outrora, não se pode negar que a bossa nova carrega certa melancolia. É a expressão contraditória de uma geração dividida entre a saudade do sentimento e a sedução da sensação. Suspensa entre um antigo modo de sociabilidade que ruía e uma nova ordem que se anunciava, mas que ainda não se definira com muita clareza. O amor surge como antídoto para essa insegurança, como uma identidade de resistência – e por isso mesmo jamais pode resvalar para desejos de vingança ou traição. Como prega o título da canção de Tom e Vinicius, a bossa nova deixou “o amor em paz”.

Paulo da Costa e Silva é músico e jornalista, autor da dissertação “Contra os Excessos: Contenção, Equilíbrio e Amor na Bossa Nova” (PUC-Rio, 2008).

Saiba Mais - Bibliografia:

CASTRO, Ruy. Chega de Saudade: A História e as Histórias da Bossa Nova. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

MAMMI, Lorenzo. “João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova”. Novos Estudos (Cebrap), nº 34, nov. 1992.

NAVES, Santuza. Da Bossa Nova à Tropicália. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

TATIZ, Luiz. O Século da Canção. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004.

Saiba Mais - Filmes:

“Vinicius” (Miguel Faria Júnior, 2005)
“Coisa mais linda: histórias e casos da bossa nova” (Paulo Thiago, 2005)
“Os desafinados” (Walter Lima Jr., 2008) Revista de História da Biblioteca Nacional

Bossa nova, lado B


Na contramão do estilo suave que ganhou o mundo, Maurício e Durval criaram uma fusão quente entre o samba e os improvisos do jazz americano.
Bryan McCann

Há datas que ninguém esquece. 1956: Tom Jobim colabora com Vinicius de Moraes na música e nas letras da peça “Orfeu da Conceição”. 1958: João Gilberto apresenta sua inconfundível batida de violão e sua interpretação intimista em “Chega de Saudade”, composta por Jobim e Vinicius. 1959: a bossa nova ganha o mundo com “Orfeu Negro”, versão cinematográfica da peça de Vinicius. 1962: o sucesso internacional do estilo se consagra no famoso concerto do Carnegie Hall, em Nova York. 1963: João Gilberto se junta ao jazzista americano Stan Getz para lançar o antológico disco “Getz/Gilberto”.

São episódios marcantes, mas que acompanham só uma linhagem da bossa nova. Essa versão suave e sedutora, com harmonias arrojadas e melodias simples e sutis, não era a única bossa da época. Conviviam com ela experiências mais “quentes”, que tentavam combinar ritmos nacionais com os ricos improvisos jazzísticos em alta nos Estados Unidos. Os sopros ganhavam importância, desafiados por harmonias ousadas, sob influência do blues e do bebop; o piano se dedicava às inversões dos acordes e a bateria empurrava tudo irresistivelmente para frente. O nascente estilo chegou a ser conhecido como samba-jazz, e talvez tivesse ficado com esse rótulo se não surgisse a marca bossa nova para aglomerar várias tendências dentro de um mesmo segmento de mercado.

Muita música nova rolava na Copacabana da segunda metade dos anos 1950, e grande parte dela girava em torno de combinações inusitadas entre jazz e samba. O saxofonista americano Booker Pittman fora redescoberto pelo cronista Sérgio Porto depois de anos de esquecimento no Paraná, e dava aulas de jazz-blues do Texas nas boates do bairro carioca. Maestros como Lindolfo Gaya e Lyrio Panicalli revestiam a música popular em versões de sucesso com arranjos densos, salpicados de acordes dissonantes. Chorões como Sebastião de Barros, o K-Ximbinho, faziam um choro jazzístico com um pé no blues alterado de Thelonius Monk. Jovens craques, como o saxofonista Paulo Moura, encaravam o jazz, a música erudita e o choro com a mesma habilidade. Fronteiras nacionais e estilísticas estavam ali para serem quebradas.

Mas entre todas essas tendências, foi por meio das invenções de dois jovens amadores, ainda pouco conhecidos nos inferninhos de Copacabana, que a bossa quente encontrou uma expressão própria e uma base para futuras inovações. Durval Ferreira e Maurício Einhorn costumavam se encontrar na Praça São Salvador, em Laranjeiras, para trocar idéias sobre o que acontecia no mundo do bebop e experimentar as primeiras parcerias. Durval era um violonista da Zona Norte do Rio, entusiasta do jazz e com um jeito diferente de tocar samba. Maurício era um gaitista, filho de judeus poloneses imigrantes, apaixonado por George Gershwin, o grande compositor nova-iorquino que mesclou jazz com música erudita, e Charlie Parker, saxofonista criador de uma linguagem densa e tecnicamente desafiadora de bebop. Maurício já tinha participado das rodas de jazz no bar do Plaza Hotel com o pianista Johnny Alf, mas continuava praticamente desconhecido do público. Com uma memória inigualável para os temas do cinema norte-americano, ele os usava como ingredientes para improvisos extraordinários. Tocando de ouvido, inventava melodias inusitadas e sugeria ao amigo Durval os acordes para acompanhá-lo. Entre uma e outra experimentação, em 1958 nasceu “Sambop”.

Para entender a inovação contida nesta canção, vale compará-la com o hino inaugural da bossa nova oficial, “Chega de Saudade”, composto no mesmo ano. A música de Tom e Vinicius tem 84 compassos, uma introdução formal seguida de duas partes e uma mudança de ré menor para ré maior entre elas. É uma pequena obra camerística, cuja melodia e estrutura devem muito ao choro. Já “Sambop” tem 24 compassos e se desenvolve de maneira bem diferente. A canção começa com um verso melódico de quatro compassos. Essa linha é repetida, e depois passamos para uma segunda parte de oito compassos e voltamos, finalmente, para a primeira frase. É o formato conhecido como AABA, numa estrutura relativamente simples, com raízes no jazz-suingue norte-americano. Essa simplicidade é uma espécie de convite para improvisos, como nas melodias de Charlie Parker (1920-1955), inspiradas em harmonias típicas dos anos 1930.

E o convite é aceito já na primeira gravação da música, na voz de Claudete Soares, no disco “Nova Geração em Ritmo de Samba” (1960). Depois de cantar a letra da música, ela passeia por oito compassos em uma linha vocal scat (sem palavras), com ênfase na síncope rítmica, um recurso pouquíssimo usado na música brasileira da época. Em sua gaita, Maurício improvisa com a fluidez e os deslocamentos de ritmo que virariam suas marcas. Assim como em “Chega de Saudade”, o que chega aos ouvidos é a expressão já madura de um novo estilo. É a bossa quente que vem ao mundo.

No meio do caldeirão de tendências da noite carioca da época, o novo estilo só poderia prosperar por obra do acaso: algum grande nome que o ouvisse e o levasse para palcos maiores. Pois foi isso que aconteceu. E logo com Julian “Cannonball” Adderley, um dos sucessores imediatos de Charlie Parker no sax alto, que combinava um improviso elegante com as raízes do blues. Ele soube do histórico concerto no Carnegie Hall, em Nova York, em 1962. No palco, revezaram-se os principais nomes da nova música brasileira, entre eles Tom Jobim, João Gilberto, Luiz Bonfá, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Sérgio Ricardo, Milton Banana e Sérgio Mendes. E assim como Stan Getz reconheceu na bossa de João Gilberto uma parceira perfeita para o seu cool jazz, Cannonball viu na banda Bossa Rio Sextet, do jovem Sérgio Mendes, o time ideal para encarar sua aventura pelo lado mais quente da bossa nova. Ao violão, Sérgio era acompanhado por Durval Ferreira. Cannonball não perdeu tempo: semanas depois estava gravando um disco com o grupo brasileiro, e nele incluiu quatro músicas da dupla Maurício/Durval: o clássico “Sambop”, a contagiante “Batida Diferente”, a bela “Clouds” (“Nuvens”) e “Joyce’s Samba”. O disco “Cannonball’s Bossa Nova” não recebeu a mesma atenção que “Getz/Gilberto”, gravado pouco depois. Mas é igualmente antológico.

O destino não foi muito generoso com Maurício e Durval. Existem gravações às pencas de “Batida Diferente” e “Estamos Aí” – também do final dos anos 1950 – tanto no Brasil como no exterior, mas poucos críticos destacam o papel fundamental dos dois na construção da bossa nova. Suas músicas foram mal compreendidas: ao privilegiar a improvisação, eram vistas como mera matéria bruta para o solista. “Estamos Aí” é uma prova de que isso não é verdade. Além de uma melodia inesquecível, esconde em sua estrutura uma mudança de um semitom acima para apenas dois compassos, o quinto e sexto. É o tipo de alteração sutil que Charlie Parker trouxe para o bebop e que Maurício incorporou à bossa quente. Trata-se de um grande desafio para o solista. Muito músico famoso não consegue passar por ele. Mas, quando enfrentado por um talento genial, como o do saxofonista cubano Paquito D’Rivera, que sempre fecha seus shows com essa canção, essa estrutura gera uma sensação de leveza, um sobe-e-desce encantador.

Depois de 1962, Durval e Maurício trilharam caminhos diferentes. Maurício Einhorn tornou-se conhecido do público do jazz internacional. Mentor de muitos gaitistas profissionais, como Gabriel Grossi, José Staneck e Guta Menezes, e idolatrado por artistas do mundo inteiro, no Brasil não obteve reconhecimento como compositor inovador.

Mas os ventos parecem estar mudando. Maurício e Durval começam a receber mais espaço na mídia. “Batida Diferente”, disco solo irretocável que o segundo lançou em 2004, trouxe o músico e compositor de volta à pauta e ao público – lamentavelmente, só por um breve período, pois Durval Ferreira morreu no ano passado. Maurício, depois de décadas de participações breves em discos de colegas e admiradores, lançou três CDs nos últimos quatro anos. O belíssimo “Travessuras”, de 2007, merece atenção especial, recheado de composições inéditas tão boas quanto “Sambop” e com o estilo de sempre.

Moral da história? A bossa nova foi muito mais diversa do que as pessoas costumam pensar. Em tempos de celebrações pelos 50 anos do gênero, vale recordar que ela foi feita de muitos caminhos. Precisamos voltar a eles.

Bryan Mccann é professor de História da América Latina e coordenador do Programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Georgetown (EUA), autor do livro Hello, Hello Brazil: Popular Music in the Making of Modern Brazil (Duke University Press, 2004).

Saiba Mais - Bibliografia:

CHEDIAK, Almir. Songbook Bossa Nova, 4, Lumiar Editora, 1994.

GAVA, José Estevam. A Linguagem Harmônica da Bossa Nova. Unesp, 2002.

Saiba Mais - Discos:

Adderley, Cannonball. “Cannonball’s Bossa Nova”, Capitol Jazz, 1962.

Einhorn, Maurício. “ME”, Clam/Continental 1980.

Einhorn, Maurício. “Travessuras”, Delira, 2007.

Ferreira, Durval. “Batida Diferente”, Guanabara, 2004.

Powell, Baden. “Tempo Feliz”, Companhia Brasileira de Discos, 1966.

Vários Artistas. “Nova Geração em Ritmo de Samba”, Copacabana, 1960.

Negrito
ABC dos ritmos

Blues: Com raízes na música negra do sul dos Estados Unidos, o blues serviu de base para a maioria dos estilos de jazz e também para o rock and roll. Sua estrutura clássica – que admite infinitas variações – tem doze compassos, em formato AAB, privilegiando a sétima dominante, a quinta bemol e a terceira diminuta nas melodias e harmonias.

Bebop: Linguagem de improvisação jazzística, que exige do solista a habilidade de usar os acordes da harmonia como base para a invenção simultânea de arpeggios e frases advindos de acordes relacionados, com ênfase na síncope rítmica, tocado muitas vezes em tempos galopantes.

Cool Jazz: Variação mais suave do bebop, usando os mesmos recursos do improviso, mas com timbres mais melífluos, e geralmente tocado em tempos mais relaxados.

Jazz-suingue: Estilo aprimorado pelas big bands dos anos 1930, privilegiando a síncope rítmica e uma apresentação de vários solistas improvisando sobre harmonias e estruturas advindas do cancioneiro da música popular americana.

Revista de História da Biblioteca Nacional

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Dia do Índio


Ricardo Barros Sayeg

Estima-se que na época da descoberta do Brasil pelos portugueses, existiam cerca de cinco milhões de índios no território nacional, divididos em mil povos diferentes. Hoje em dia, são apenas 227 povos e sua população está em torno de 400 mil. As razões do extermínio dos povos nativos são muitas e estão ligadas às doenças trazidas pelos colonizadores, ao uso de armas a fim de conquistar seus territórios, à dominação cultural, entre tantas outras formas de dominação.
No século XIX, com os avanços da biologia, em especial da epidemiologia, foi comum o homem branco utilizar-se de doenças como ferramenta de conquista de território. Um caso clássico se deu no Maranhão, na vila de Caxias. De acordo com o antropólogo Mércio Pereira Gomes, em 1816 fazendeiros da região, com o objetivo de apossarem-se de mais terras, resolveram “presentear” os índios locais com roupas de pessoas infectadas com a varíola (geralmente essas peças eram queimadas para se evitar a transmissão da doença). Os indígenas levaram essas roupas para suas aldeias e muitos acabaram morrendo, deixando muitas áreas livres para que os fazendeiros pudessem criar gado. Casos semelhantes ocorreram na região Amazônica e em toda América do Sul.
A fim de se redimir do extermínio causado aos povos nativos, o Brasil nomeou o Dia do Índio, comemorado em 19 de abril. A data foi instituída pelo presidente Getúlio Vargas por meio do Decreto-Lei 5540 de 1943 e celebra a mesma data em que, em 1940, várias lideranças indígenas do continente organizaram o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México. Muitos representantes das nações indígenas não participaram do Congresso temendo não serem ouvidas pelos homens brancos. Durante esse encontro foi criado o Instituto Indigenista Interamericano. O organismo, também com sede no México, tem como objetivo principal defender os interesses dos povos nativos da América em todo o continente.
O Brasil só aderiu à nova instituição devido à intervenção do Marechal Rondon. O militar foi um ardoroso defensor dos povos indígenas. Ele nasceu na cidade de Mimoso, no interior do estado do Mato Grosso. Seu pai era descendente de portugueses e sua mãe, de índios Bororós. Inicialmente foi professor e, em 1881, matriculou-se na Escola Militar do Rio de Janeiro. Foi indicado componente da Comissão Construtora das Linhas Telegráficas, explorando os sertões do Mato Grosso, no ano de 1892. Sua tese era: “matar nunca, morrer se necessário”. Foi ele o criador da primeira instituição de cuidados com os índios: o Serviço de Proteção ao Índio. Em 1967, foi então criada a FUNAI - Fundação Nacional do Índio. Esse organismo, vinculado ao Ministério da Justiça, tem como objetivo principal promover políticas de desenvolvimento sustentável das populações indígenas, aliar a sustentabilidade econômica à sócio-ambiental e implementar medidas de vigilância, fiscalização e de prevenção de conflitos em terras indígenas.
Nesse 19 de abril devemos refletir, e muito, sobre o futuro dos povos indígenas no Brasil e no mundo. Afinal, temos muito a aprender com eles e devemos respeitá-los em sua cultura e suas características.

*Ricardo Barros Sayeg é Professor de História do Colégio Paulista, Mestre em Educação pela Universidade de são Paulo, formado em História e Pedagogia pela mesma universidade.


quarta-feira, 20 de abril de 2011

BOSSA ESSENCIAL - 12 músicas fundamentais ( e suas histórias )


Chega de Saudade - É o marco zero do movimento. Saiu primeiro em maio de 1958, na voz de Elizeth Cardoso, com João Gilberto no violão, num disco todo feito de parcerias entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes, o famoso 'Canção do Amor Demais'. Foi a primeira vez que se ouviu a tal batida da bossa nova: o violão único de João, que todo os jovens músicos da época tentaram imitar.

Mas o próprio João Gilberto, que não saiu nos créditos do disco da Elizeth, teimava - ainda bem - em fazer a sua própria versão de 'Chega de Saudade', Com a ajuda de Tom Jobim, acabou gravando um histórico compacto em 1958, que trazia 'Chega de Saudade' de um lado, e do outro 'Bim Bom' (uma rara composição do próprio João). Foi a primeira vez que se ouviu a tal da batida casada à interpretação única de João Gilberto - e que depois todo mundo quis imitar também. Depois desse compacto, pode-se dizer que a bossa nova estava de fato inaugurada.

A gravação do compacto foi uma verdadeira epopéia. João Gilberto ainda não era famoso, mas já era o perfeccionista até hoje capaz de enlouquecer técnicos e orquestra. Houve brigas com os músicos, com os técnicos e também com Tom Jobim, como narra Ruy Castro. Houve até um motim, quando os músicos se recusaram a continuar a gravação. Depois foram acalmados, mas aí foi a vez de João se recusar a cantar... Ou seja, 'Chega de Saudade', de quebra, inaugura também parte do vasto folclore que cerca João Gilberto, síntese maior da bossa nova.

Garota de Ipanema - Estreou em 1962, no histórico show do Bon Gourmet, no Rio, que reuniu Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto. O impacto da música foi tamanho que, conta Ruy Castro em 'Chega de Saudade', ninguém lembra que na mesma noite também estrearam outros clássicos absolutos: 'Só Danço Samba', 'Samba do Avião' e 'Samba da Bênção'.

Não, a música não foi composta no bar Veloso, depois rebatizado Garota de Ipanema, esquina da Prudente de Moraes com Montenegro (depois rebatizada Rua Vinicius de Moraes). Castro conta que Tom fez a melodia em sua própria casa para uma comédia muscial que nunca saiu do papel. Vinicius pôs a letra em Petrópolis.

Mas é fato que foi no Veloso que a dupla viu a menina passar, várias vezes, nem sempre a caminho do mar. Aliás, era este o título original: 'Menina que Passa'. A menina, como se sabe, era a Helô Pinheiro, então com 19 anos. Morava na Montenegro e costumava passar pelo Veloso para comprar cigarro para a mãe.

Isso hoje é notório. Mas em 1962 poucos sabiam quem era a musa inspiradora da canção. Só em 1965 Tom e Vinicius revelaram tratar-se de Helô, já com 22 anos.

'Garota de Ipanema' foi um estouro: no Brasil, depois nos Estados Unidos, depois no mundo todo. Teve mais de 40 gravações nos dois primeiros anos, segundo Ruy Castro. Virou uma espécie de Monalisa da música brasileira. Com 'Yesterday', dos Beatles, disputa o posto de música mais tocada no mundo. Ganhou um sem número de interpretações e versões. O estadao.com.br apresenta aqui trechos de 98 versões compiladas pela própria garota de Ipanema .


Águas de Março - A bossa nova já era coisa do passado quando saiu o 'Disco de Bolso - O Tom de Antonio Carlos Jobim e o Tal de Joao Bosco', encartado numa edição do semanário 'Pasquim' de 1972. Continha de um lado 'Águas de Março', cantada pelo próprio Tom, do outro 'Agnus Sei', do estreante João Bosco. Mas a versão definitiva de 'Águas de Março' é o dueto que consta do antológico 'Elis e Tom', de 1974, recentemente remasterizado. Música e álbum são constantemente citados entre os melhores de toda a música, e, eventualmente, os melhores.


Influência do Jazz - Diz a letra: 'Que o samba balança de um lado pro outro / O jazz é diferente pra frente, pra trás / E o samba meio morto, ficou meio torto / Influência do Jazz'. É uma resposta - que acaba irônica - à polêmica sem fim que credita a bossa nova à música americana e ignora a importância do samba para sua gênese. Mas para além da ironia, 'Influência do Jazz', como parte do ótimo terceiro disco de Carlinhos Lyra, 'Depois do Carnaval', de 1963, ilustra também uma guinada para alguns dos mais nomes notórios da bossa nova: do asfalto ao morro, do idílio ao engajamento político. 'Conheci Cartola, Zé Keti, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros e João do Vale e aproximei a música do morro e a música rural da música da classe média', diz Lyra, em texto auto-biográfico, disponível em seu site. Nara Leão, musa do movimento, também acabou deixando 'o amor, o sorriso e a flor' para trás e, no ano seguinte, estreava em disco com 'Opinião de Nara', cantando os sambas de Zé Kéti e João do Vale.


Corcovado - No original, seu primeiro verso quase pôs a música toda a se perder: 'Um cigarro, um violão...'. Até que João Gilberto, incomodado, propôs a Tom Jobim reformulá-la. 'Um cantinho, um violão/este amor, uma canção' acabou tornando-se um dos versos mais conhecidos do repertório nacional. Foi com 'Corcovado', em português e em inglês ('quiet nights of quiet stars'), que Tom Jobim cativou a pláteia norte-americana no histórico show do Carnegie Hall, que em 1962 projetou a turma da bossa nova no exterior.


O Barquinho - Roberto Menescal e turma chamavam de 'samba canseira' a música brasileira que antecedeu a bossa nova. 'Era tudo feito com palavras sofridas e não batia com uma geração feito a nossa, que vinha com a cabeça voltada para a natureza, para o dia, para o sol', diz, , na autobiografia que leva seu nome, da coleção 'Gente'. 'Nós (...) trouxemos o sal, o sol e o sul (...). E foi uma festa', lembra Roberto Menescal. 'O Barquinho', dele e Ronaldo Bôscoli, é sua música-síntese. Um dos maiores sucessos da bossa nova, 'O Barquinho' também ilustra certa predileção do movimento pelos diminutivos: a tardinha, o barquinho, o cantinho, o sambinha, o beijinho, o banquinho, etc.

Ah, sim. O barquinho em questão existiu mesmo. Era uma traineira (Tiago II) que Menescal, grande mergulhador, costumava alugar em Cabo Frio. Mas a música não foi composta em alto-mar, não. É uma das tantas que saíram dos encontros realizados no apartamento de Nara Leão, na Avenida Atlântica, Ipanema.


Meditação - É de 'Meditação' o verso que batiza o segundo álbum de João Gilberto, 'O Amor, o Sorriso e a Flor'. Diz que: 'Quem acreditou / No amor, no sorriso, na flor / Então sonhou, sonhou...'. O disco todo é como um marco da maioridade da bossa nova. Além de 'Meditação', aparecem mais duas parcerias dos amigos de infância Tom Jobim e Newton Mendonça ('Samba de uma Nota Só' e 'Discussão'), três só de Tom Jobim ('Corcovado', 'Outra Vez', 'Só em Teus Braços'), uma de Carlinhos Lyra e Ronaldo Bôscoli ('Se é Tarde Me Perdoa'), uma rara composição do próprio João Gilberto em homenagem ao amigo Luiz Bonfá ('Um Abraço no Bonfá') e ainda: 'O Pato' (Jayme Silva - Neusa Teixeira), 'Amor Certinho' (Roberto Guimarães), 'Trevo de Quatro Folhas' (M.Dixon - H.Woods) e 'Doralice' (Antônio Almeida - Dorival Caymmi).



Bim-Bom - João Gilberto, o intérprete, é figura central da bossa nova. Seu violão é a marca registrada do gênero, e ele mesmo tornou-se o ídolo de quase todos os ídolos do período. Já seu trabalho como compositor é uma espécie de lado B. Ele gravou apenas seis músicas de sua autoria: 'Hô-bá-lá-lá', 'Bim-Bom', 'Um Abraço no Bonfá', 'Undiú', 'João Marcello', 'Acapulco' e 'Valsa'. Vendeu os direitos das três primeiras a preço de banana: 307 dólares (em 1961), conta Ruy Castro.


Samba de Uma Nota Só - Clássico instantâneo da bossa nova e espécie de carta de intenções. Diz que bossa nova é samba (ou 'sambinha') e decreta que 'a base é uma só'. Mais uma da dupla Tom Jobim/Newton Mendonça.



Se todos fossem iguais a você - 'Se todos fossem iguais a você' antecipa a bossa nova. É de 1956, dois anos antes, portanto, da 'fundação' do gênero. Foi a primeira criação de uma das mais brilhantes e frutíferas parcerias do gênero: Tom e Vinicius. Foi feita no famoso sobrado da Nascimento Silva 107, e, Ipanema, onde, quatro depois, como cantado em 'Carta ao Tom 74', a dupla ensinaria a Elizeth Cardoso as canções da ' Canção do Amor Demais' - aí sim, inaugurando oficialmente a bossa nova.

'Se Todos Fossem Iguais a Você' foi composta para musical 'Orfeu da Conceição', que fez enorme sucesso logo na estréia, no Teatro Municipal, com Haroldo Costa e Dirce Paiva no elenco, e cenário de Oscar Niemeyer.



O Pato - João Gilberto já cantava 'O Pato' com os Garotos da Lua, muito antes da bossa nova, mas foi só no final dos anos 50 que a música tornou-se uma verdadeira obsessão. Passava horas seguidas tocando e cantando 'O Pato'. Vem daí a lenda de que seu gato, que morreu após cair do parapeito do apartamento, teria na verdade cometido suicídio porque não suportava mais escutar 'O Pato'. A música é um dos sucessos do segundo disco de João Gilberto, 'O Amor, O Sorriso e A Flor'.



Desafinado - Nasceu como uma brincadeira cruel dos parceiros Tom Jobim e Newton Mendonça: compor uma apologia dos cantores desafinados (que eles conheciam da noite) numa base musical complexa o bastante para embaraçá-los. Ficou praticamente pronta em uma só noite e consagrou a expressão que já era moda entre os jovens compositores: 'Isto é bossa nova, isto é muito natural'.

A questão tibetana

Entenda as raízes da disputa pela soberania do Tibete e a influência chinesa sobre a região


Entre os séculos 7 e 9, o rei tibetano Namri Lontsen e seus descendentes disputam territórios com a China, na tentativa de unificação. Sob a dinastia Yuan, a partir do século 13, a China passa a clamar o território tibetano. Seriam mais de 700 anos de jurisdição chinesa no território.

O Tibete, por sua vez, argumenta que era um protetorado dos impérios dominantes, oferecendo auxílio espiritual em troca de proteção política. Além disso, dizem os tibetanos, vários impérios alternaram-se no controle da região, como o Mongol e o Manchu - os quais eventualmente incluíam a China em suas fronteiras.
Independência
Depois de anos de exílio por causa do domínio da dinastia chinesa Qing, que entra em colapso em 1912, o 13º dalai-lama retorna ao Tibete e declara independência do país. Apesar disso, a China e alguns países ocidentais, como os EUA e o Reino Unido, não reconheceram a independência do Tibete.

Invasão e acordo
Um ano após a fundação da República Popular da China, comandada por Mao Tsé-tung, o governo chinês decide reincorporar o Tibete. A invasão causa a morte de cerca de 1,1 milhão de pessoas. Em 1951, líderes tibetanos são forçados a aceitar o 'Acordo de 17 Pontos para a Liberação Pacífica do Tibete', que garantiria a autonomia política e religiosa do Tibete, mas sob a condição de estabelecimento de bases militares e civis chinesas em Lhasa. As Nações Unidas anulam o acordo, assinado sob pressão.

Protestos e exíilio
Acusando a China de não cumprir o acordo, os tibetanos organizam o primeiro levante contra as forças chinesas. As manifestações são repreendidas com violência. O dalai-lama, vários de seus ministros e cerca de 80 mil tibetanos fogem para a Índia. No plano internacional, os EUA adotam postura ambígua: enquanto se recusam a reconhecer a indepêndência do Tibete, financiam grupos separatistas de guerrilha. O auxílio financeiro americano dura até 1971, quando iniciam aproximação com a China.

Revolução cultural
Durante os anos da Revolução Cultural de Mao, as atividades religiosas no Tibete são proibidas e templos são destruídos. Em 1965, o Tibete é declarado região autônoma da China. Nas décadas seguintes, o governo chinês passaria a investir na região, modernizando-a e exaltando os progressos materiais que promove. Para os tibetanos, no entanto, a suposta ajuda beneficiaria mais a etnia han, que passou a migrar para o Tibete, e contribuiria para a descaracterização da cultura local.

Dialogos retomados
Sob o governo de Deng Xiaoping, a China adota uma postura menos dura e abre canais de negociação com o dalai-lama, exilado. As discussões sobre a soberania tibetana são abaladas quando novos protestos surgem. Em resposta, a China impõe Lei Marcial no Tibete. Em 1989, o dalai-lama recebe o prêmio Nobel da Paz. No mesmo ano, acontece o massacre dos estudantes na Praça da Paz Celestial.

Rompimento e interferência
China interrompe as negociações com o dalai-lama. Em 1995, o governo chinês prende Gedhun Choekyi Nyima, o garoto de seis anos apontado pelo dalai-lama como o Panchen Lama, segunda figura mais importante do budismo tibetano, e nomeia outro no lugar. O menino nunca mais foi visto e é considerado o mais jovem prisioneiro político do mundo.

Olimpíada e protesto
Em 2002, o governo chinês retoma contato com o dalai-lama. Em 2008, às vésperas da Olimpíada em Pequim, na China, as manifestações pela independência tibetana se intensificam e tornam-se violentos. A causa atrai simpatia também no ocidente, e o revezamento da tocha olímpica no mundo se transforma em catalisador de protestos.

O que foi o Apartheid na África do Sul?

O termo, em africâner, língua dos descendentes de europeus, significa "separação", e foi atribuído ao regime político de segregação dos negros na África do Sul, que durou, oficialmente, 42 anos
Entrada do Apartheid Museum, em Joanesburgo,
África do Sul: "brancos" e "não brancos".
Foto: The Africa Fellowship/Creative Commons.
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Nelson Mandela deixou a prisão há 20 anos, no dia 11 de fevereiro de 1990. A liberdade do líder foi o mais forte sinal do fim do regime de segregação racial na África do Sul, o apartheid.

Colonizada a partir de 1652 por holandeses e tendo recebido imigrantes de outras partes da Europa e da Ásia, a África do Sul tornou-se, em 1910, uma possessão britânica. Desde a chegada dos primeiros europeus, há mais de três séculos, a história do país africano, que será a sede da Copa do Mundo em 2010, foi marcada pela discriminação racial, imposta pela minoria branca.

Como protesto a essa situação, representantes da maioria negra fundaram, em 1912, a organização Congresso Nacional Africano (CNA) à qual Nelson Mandela, nascido em 1918, se uniu décadas depois. No CNA, Mandela se destacou como líder da luta de resistência ao apartheid.

O pai de Mandela era um dos chefes da tribo Thembu, da etnia Xhosa e, por isso, desde cedo, o garoto foi educado e preparado para assumir a liderança de seu povo. "Ele recebeu o melhor da Educação de sua tribo e foi iniciado em todos os rituais. Mas também teve o melhor da Educação europeia, estudando em bons colégios”, explica Carlos Evangelista Veriano, professor de História da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

O apartheid oficializou-se em 1948 com a posse do primeiro-ministro Daniel François Malan, descendente dos colonizadores europeus - também chamados de africâners. “Embora a história oficial omita, sabemos que os ingleses foram os financiadores do apartheid, já que o Banco da Inglaterra custeava todos os atos do governo sul-africano”, afirma Veriano.

Com o novo governo, o apartheid foi colocado em prática, instituindo uma série de políticas de segregação. Os negros eram impedidos de participar da vida política do país, não tinham acesso à propriedade da terra, eram obrigados a viver em zonas residenciais determinadas. O casamento inter-racial era proibido e uma espécie de passaporte controlava a circulação dos negros pelo país. “É importante lembrar que essa política teve clara inspiração nazista”, diz o professor.

Embora tenha sido preso diversas vezes antes, Mandela já cumpria pena desde 1963 quando recebeu a sentença de prisão perpétua. Porém, com o passar dos anos, o mundo passou a se importar mais com a inadmissível situação da África do Sul, que começou a receber sanções econômicas como forma de pressão para acabar com o apartheid. Em 1990, com o regime já enfraquecido, Mandela foi solto, depois de 27 anos no cárcere. O governo, liderado por Frederik De Klerk, revogou as leis do apartheid. Três anos depois, Mandela e Klerk dividiram o Prêmio Nobel da Paz.

Em 1994, nas primeiras eleições em que os negros puderam votar, Mandela foi eleito presidente do país. O filme Invictus, dirigido por Clint Eastwood, em cartaz atualmente nos cinemas, tem como foco a história de Mandela (interpretado por Morgan Freeman) logo que ele assume a presidência. A obra mostra como o líder governou não com a intenção de se vingar dos brancos, mas sim de realmente transformar o país em uma democracia para todos.
Revista Nova Escola