domingo, 27 de março de 2011

No xaxado com Lampião


Denize Guedes
10 de setembro de 2010
A octogenária Alzira Marques recorda os bailes animados organizados pelo rei do cangaço

Noite de sábado para domingo, fim de setembro de 1936. Faltava só passar o pó no rosto, espalhar o perfume atrás da orelha e calçar as alpercatas. Cabelos negros e encaracolados na altura da cintura, dentro do seu melhor vestido, a menina de 12 anos, que, se os pais se descuidassem, trocava o estudo pela dança, estava pronta para o seu primeiro baile no alto sertão sergipano com o bando do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Não havia escolha, só mesmo confiar na bênção da tia de criação antes de sair de casa engolindo o medo.

“Eles mandavam apanhar a gente. Vinha aquela ordem e tinha de cumprir. Se não, causava prejuízo depois”, conta Alzira Marques, que completa 86 anos em agosto. Ela lembra detalhes das incontáveis festas cangaceiras a que foi em fazendas que já não existem mais e que deram lugar à planejada Canindé de São Francisco, com o início da construção da hidrelétrica do Xingó, em 1987. Canindé Velho, como a sertaneja chama o local onde nasceu, à beira do Velho Chico, foi demolida por conta da usina, hoje fonte de renda para a cidade – atrai quase 200 mil turistas por ano com o Cânion do Xingó.

O auge de Lampião em Sergipe vai de 1934 a 1938, quando o cangaceiro foi morto ao lado de Maria Bonita e outros nove do bando, em 28 de julho, na Grota do Angico, município de Poço Redondo. “Este é o estado onde ele encontrava mais proteção, aliando-se aos poderosos locais, como o coronel Hercílio Porfírio de Britto, que dominava Canindé como se fosse um feudo”, explica Jairo Luiz Oliveira, da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço. “São os chamados coiteiros (quem dava proteção ao cangaço), políticos de Lampião. Melhor ser seu amigo que inimigo.”

Foi nas terras de Porfírio de Britto que Alzira mais arrastou as sandálias. “Na primeira vez, encontrei Dulce, que foi criada comigo em Canindé Velho e tinha virado mulher do cangaceiro Criança. Eles também eram de muito respeito e nunca buliram com gente minha. Pronto, não tive mais medo”, relembra. Temporada de baile era fim de mês, quando as volantes da Bahia e Pernambuco – as polícias mais algozes no rastro de Lampião – voltavam a seus estados para receber o soldo. “Aí os cangaceiros viam o Sertão mais livre para fazer festa”, diz.

Dia de dança, Alzira tinha de sair e voltar à noite para não levantar a suspeita dos vizinhos. Às 22 horas, punha-se a andar 2 quilômetros até o local onde um coiteiro escondia os cavalos. Outras meninas iam junto. Montavam e seguiam morro acima por uns 15 minutos. “Quando a gente chegava, ia direto dançar o xaxado, forró, o que fosse, até 4 horas da manhã.” Mesmo caminho de volta, chegava com um agrado do rei do cangaço: uma nota de 20 mil réis. “Era tanto do dinheiro, mais de 300 reais na época de hoje. Dava tudo para minha tia.”

Apesar de festeiro, não era sempre que o líder do bando dava o ar da graça. Quando ia, porém, não se fazia de rogado: no mato à luz de candeeiro, onde o arrasta-pé comia solto, brilhantina no cabelo, dançava com as moças do baile sem sair da linha. Média de 20 homens para 15 mulheres. “Ninguém era besta de mexer com a gente. Eles nos respeitavam demais. Lampião era o que mais recomendava: ‘Olha o respeito!’” Maria Bonita – que para Alzira “não era lá essa boniteza, Maria de Pancada era mais bonita” – não tinha ciúme.

O cangaceiro mais conhecido do Brasil gostava de cantar e levava jeito para compor. Quem não se embalou ao som de Olé, mulher rendeira / Olé, mulhé rendá? Ou de Acorda, Maria Bonita / Levanta, vai fazer o café? Alzira conta que era comum ele pedir ao sanfoneiro Né Pereira – outro intimado do povoado – para tocar essas canções, enquanto ele mesmo cantava. “Letra e música dele, além de ser um exímio tocador de sanfona”, confirma Oliveira.

Os bailes eram como banquetes. “Tinha comida e bebida de toda qualidade. Peixe, galinha, porco, carneiro, coalhada, bolo, cachaça limpa”, diz Alzira. Outro ponto que se notava era o aroma: os cangaceiros, que podiam passar até 20 dias sem tomar banho, gostavam de se perfumar. O coronel Audálio Tenório, de Águas Belas (PE), chegou a dar caixas de Fleurs d’Amour, da marca francesa Roger & Gallet, para Lampião. “Era perfume do bom, mas misturado com suor. Subia um cheiro afetado. A gente dançava porque era bom”, afirma a senhora, que se entrosava mais com Santa Cruz e Cruzeiro.

Mais de 70 anos depois, Alzira ainda sonha com aquelas noites e sente falta da convivência com os amigos: muitas festas aconteciam em Feliz Deserto, fazenda que Manuel Marques, seu então futuro sogro, tomava conta. Não raro, o brilho da prata e do ouro das correntes, pulseiras e anéis dos cangaceiros visitam sua memória, assim como a imagem de Lampião lendo a Bíblia num canto da festa. “Ele era muito religioso.” No seu pé de ouvido fica o xa-xa-xá das sandálias contra o chão, som que deu nome ao xaxado, segundo Câmara Cascudo, ritmo tipicamente cangaceiro que não se dança em par.

Testemunha de um período importante da história do País, conta que nunca teve vontade de entrar para o cangaço nem considerava Lampião bandido: “Não era ladrão, ele pedia e pagava, fosse por uma criação, por um almoço. Agora, se bulissem com ele, matava mesmo”. Na cidade é conhecida como a Rainha do Xaxado. No último São João, que antecipou as comemorações do centenário de nascimento de Maria Bonita (8/3/1911), foi uma das homenageadas.

Balançando-se na rede na entrada de sua casa, satisfeita com os dez filhos, 40 netos e 37 bisnetos, Alzira aponta para um dos locais onde dançou com Lampião: uns 100 metros adiante, a Rádio Xingó FM. “Continua lugar de música.” Mas e Lampião, dançava bem? “Ah, ele dançava bom.”

Revista Carta na Escola

sábado, 26 de março de 2011

O Chile sombrio de El Rey


Elias Thomé Saliba
5 de novembro de 2010
Militante do partido que elegeu Salvador Allende narra três décadas de história do país a partir do golpe de 1973

Rememorar acontecimentos dolorosos, sobretudo aqueles com os quais tivemos maior envolvimento, é tarefa difícil. Exige um esforço de distanciamento construir um texto em que todos se reconheçam nas sombras do passado. Esta qualidade se destaca na narrativa de Heraldo Muñoz em A Sombra do Ditador – Memórias Políticas do Chile sob Pinochet (Jorge Zahar, 396 págs., R$ 59), uma reconstrução equilibrada da dramática história chilena, abrangendo o período que vai do golpe militar responsável por derrubar Salvador Allende, em 1973, até a eleição de Michelle Bachelet à Presidência, em 2006.

Militante do Partido Socialista, que elegeu Allende, Muñoz foi personagem engajado nessa conjuntura traumática. Escapou de ser preso e torturado porque o oficial em seu encalço errou de endereço e a corajosa vizinha, mesmo pressionada pela polícia, não o denunciou. Em quatro anos de exílio, meio forçado pelas circunstâncias, casou-se com uma norte-americana, formou-se na Graduate School of International Studies da Universidade de Denver. Foi colega de classe de Condoleezza Rice, chamada carinhosamente pelos colegas de “Condi” e empossada secretária de Estado do país entre 2005 e 2009. Retornou ao Chile e tomou parte ativa na coligação de oposicionistas a Augusto Pinochet até a derrota do ditador no Plebiscito de 1988, tornando-se peça central na área diplomática do governo de Ricardo Lagos. Atualmente responde pelo cargo de embaixador do país na Organização das Nações Unidas.

Sua história pessoal, contudo, aparece muito pouco no livro, perdendo para uma narrativa vibrante, calcada em fontes confidenciais, entrevistas, papéis de militantes e a vasta cobertura jornalística da época. Em 2001, como vice-ministro das Relações Exteriores do Chile, recebeu do governo americano caixas com milhares de documentos estatais das ações estratégicas dos EUA no Chile entre 1970 e 1990, recém-liberados ao acesso público graças às pressões realizadas no contexto da prisão de Pinochet em Londres. Com base nessa documentação, o livro reafirma o papel dos EUA, notadamente do presidente Richard Nixon e do secretário Henry Kissinger, no golpe contra Allende, reconstituindo inclusive os diálogos entre os dois personagens.

Nixon insistia que, se não tivesse agido contra Allende, Chile e Cuba teriam formado um “sanduíche vermelho” que poderia “colorir toda a América Latina”. A resposta de Kissinger é despida de quaisquer sutilezas: “Não vejo por que nós precisamos ficar passivos, olhando um país se tornar comunista por causa da irresponsabilidade do seu povo”. Os diálogos foram apenas os vestígios mais salientes da rede de ações ilegais, pagamentos secretos, informações distorcidas e encobrimento da verdade para desestabilizar Allende, que se transformaria em uma espécie de “Watergate da política externa” do governo Nixon.

Mesclado às muitas histórias da época, o livro também traz um instigante esboço da personalidade de Pinochet e da sua carreira militar. Como dissimulador, Pinochet era um artista, mas de capacidade intelectual limitada, quase sempre compensada com um sentido altamente perspicaz de autopreservação. Disfarçava mal apenas o seu irreprimível desejo de exercer tutela, que se revelava num dos pitorescos versos de El Rey, sua canção favorita, segundo o qual Com dinheiro ou sem dinheiro, eu sempre farei o que quiser, pois ainda sou o rei. Muñoz mostra que Pinochet nunca foi plenamente convertido ao evangelho do livre mercado, propagandeado e posto em prática no Chile pelos Chicago Boys e seu inspirador, Milton Friedman, já que era profundamente enraizado na mentalidade hierárquica do Exército. Ainda assim, o ditador não teve muita escolha, pois o remédio amargo prescrito pelos Chicago Boys apelava para os seus pendores autoritários. Quem já fora um dia prejudicado por uma boa dose de disciplina rígida?

Muñoz escreve páginas detalhadas, cheias de bonomia irônica, sobre os mais variados temas dos anos terríveis de Pinochet. Conta toda a história da Dina, sua polícia secreta que perseguia dissidentes no mundo todo e, mais importante, permitia que o ditador mantivesse, sob rédeas curtas, seus inúmeros inimigos dentro das Forças Armadas. Não esconde nada dos casos controversos, como os assassinatos do general Carlos Prats e de Orlando Letelier. Revela, em detalhes, as tentativas frustradas de matar Pinochet, incluindo a famosa emboscada em Cajon del Maipo, em 1986.

Impossível não perceber os níveis ridículos atingidos pela censura ditatorial de Pinochet nas muitas histórias minuciosamente narradas nesse livro. Até um jornal declaradamente pró-governo como o La Segunda chegou a ser fechado por um dia em razão de ter anunciado o aumento do preço dos cigarros na primeira página, e com isso “alterado a tranquilidade do povo”, segundo justificou o censor. Após o Plebiscito em 1988, o governista La Nación chegou às bancas com quase um dia de atraso, pois teve de substituir a página às pressas para reconhecer a vitoria do “não”. No mesmo dia saiu a manchete, quase humorística, do oposicionista Fortin Mapocho: “Ele concorreu sozinho e ainda chegou em segundo!”

O riso apenas encobria as tragédias. Por um capricho da natureza, também foi impossível esconder 21 corpos de oposicionistas (descobertos em 1989) enterrados no deserto do Atacama. Paradoxalmente, as condições extremamente secas do deserto os mantiveram bem preservados. Foram rapidamente identificados porque portavam carteiras de identidade e, alguns deles, cartas de despedida aos familiares. Muñoz ainda conta toda a história da Comissão Rettig, a “Comissão da Verdade”, que concluiu seu relatório em 1991 apresentando dados que chocaram a opinião pública internacional, desdobrando-se em inúmeros processos de reparação.

Além das muitas histórias documentadas, o livro é importante ao desmistificar o próprio regime de Pinochet, o qual, ao combinar medidas ferreamente autoritárias na política com medidas econômicas liberais orientadas para o mercado, chegou a ser apresentado ao mundo como um paradigma. Muñoz mostra que o modelo chileno criou dois países. Um, empresarial e moderno, caracterizado pela construção de arranha-céus e a florescente exportação de frutas, salmão e madeira. O outro, economicamente estagnado e quase socialmente isolado pelo autêntico apartheid econômico no qual o preço social pago pelos sacrifícios humanos talvez tenha sido muito alto. Ao analisar os fatos, o livro se aproxima da complexidade da história, sempre incompatível com o maniqueísmo simplista das memórias pessoais.

Revista Carta na Escola

Churchill, o militar e o mito


Leandro Antonio de Almeida
9 de fevereiro de 2011
Nas comemorações, em Londres, dos 60 anos da Segunda Guerra Mundial em 2005, a leitura artística de discursos do primeiro-ministro britânico da época, Winston Churchill, foi uma das movimentadas atrações. A associação de seu nome com a atuação da Grã-Bretanha no conflito é tão latente que até hoje gera uma enxurrada de biografias, com tons que variam entre o enaltecimento pela defesa da ilha e a responsabilização pelas inúmeras mortes de soldados ingleses. Todas configuram fios da trama que tornam Churchill mundialmente um dos mitos políticos e militares do século XX.

Winston Churchill nasceu em 1874, filho de mãe norte-americana e pai da aristocracia inglesa. Randolph Churchill atuou como político na Câmara dos Comuns pelo Partido -Conservador e foi membro de gabinete de governo no reinado da rainha Vitória. Por não corresponder às expectativas do pai nos estudos, em vez de curso universitário, o jovem Winston seguiu carreira militar, passando no exame para cadete na Real Academia Militar em 1893, promovendo-se em 1895 para os 40 Hussardos da Rainha, um renomado regimento de cavalaria.

Tanto Randolph quanto Winston participaram do expansionismo britânico pelo mundo, quando o “império onde o sol nunca se punha” atingiu sua maior extensão. No gabinete, Randolph viu a Grã-Bretanha reforçar seu poder em todos os continentes, como a anexação da Birmânia, em 1885, e a ocupação de territórios africanos, do Egito à África do Sul. Já o jovem Winston Churchill participou de campanha contra tribos afegãs em 1897, da expedição para reconquista do Sudão em 1898 e, no ano seguinte, foi preso no conflito entre os ingleses e os bôeres holandeses na África do Sul. A presença nesses episódios reforçou nele um sentimento difundido em fins do século XIX e início do XX, que pregava um papel civilizatório para as nações europeias, via conquista militar ou predomínio econômico sobre o globo. Winston Churchill foi um ferrenho defensor do imperialismo e do colonialismo britânico, até mesmo quando essa postura já soava inconveniente, a exemplo da questão sobre a autonomia da Índia nos anos 1930, atacando abertamente Mahatma Gandhi no movimento que tornaria o líder hindu outro mito mundial do século XX, símbolo da não violência.

A fuga da prisão na África do Sul, o esconderijo por dois dias no poço de uma mina, o transporte de trem para Moçambique no meio de fardos de lã, e o retorno para a atuação no Exército britânico, descrita por meio de reportagens, valeram a Churchill prestígio para impulsionar sua eleição ao Parlamento em 1900. A partir daí iniciou uma carreira política de altos e baixos, com discursos memoráveis, opiniões controversas, mudanças de partido, impetuosidade nas ações em gabinetes de governo que lhe valiam prestígio ou períodos de isolamento. A carreira política de Churchill não o afastou das relações com os militares. Em 1905 ocupou seu primeiro cargo como vice-ministro para as Colônias, e em 1911 foi nomeado primeiro lorde do Almirantado (ministro da Marinha), participou da organização de tropas britânicas na Primeira Guerra Mundial e foi nomeado ministro das Colônias em 1921. Seus contatos no governo e nas Forças Armadas o mantinham bem informado das questões militares no mundo. Churchill alertou para o que se passava com a Alemanha nazista e advogou pelo rearmamento do país, na contramão dos cortes de gastos militares para investimentos sociais pelo gabinete dos anos 1930, em meio à crise econômica mundial e dolorosas lembranças das mortes do conflito entre 1914 e 1918.

Quando Hitler alcançou o poder pelo Partido Nazista em 1933, iniciou uma política belicista. A Alemanha tinha sofrido pesadas sanções com a derrota na Primeira Guerra, pois o Tratado de Versalhes a responsabilizava pelos prejuízos: pagou altas somas de dinheiro aos vitoriosos Inglaterra e França, perdeu territórios e foi desarmada. Hitler ignorou Versalhes, passou a rearmar o país e a expandir o território alemão. Ocupou a Renânia em 1936, anexou a Áustria em 1938, invadiu a Tchecoslováquia em março de 1939 e, após firmar acordo de não agressão com a URSS de Stalin, invadiu a Polônia em setembro. Como a Polônia era aliada da Inglaterra, esta declarou guerra ao Reich, deflagrando o conflito na Europa.

A construção do mito Churchill, o estadista visionário e determinado, aconteceu nesse contexto. Suas severas críticas aos “apaziguadores” reverteram a seu favor com a deflagração da guerra, valendo o retorno ao cargo de lorde do Almirantado em setembro de 1939 e sua nomeação para primeiro-ministro em maio de 1940. Dois meses depois teve de lidar com os momentos mais difíceis para a Inglaterra. As forças nazistas invadiram e ocuparam o norte do território francês, voltando-se para a ilha. Atacaram bases na costa e, não obtendo resultado, durante cinco meses bombardearam cidades, começando pela capital, Londres. Churchill manteve sua posição de resistir ao ataque alemão, apelando ao patriotismo e à luta em inflamados discursos: “Hitler sabe que ou nos dobra nesta ilha ou perde a guerra. Se pudermos resistir, a Europa poderá ser livre e o destino do mundo voltar-se para um futuro mais promissor iluminado ao sol. Mas, se falharmos, o mundo inteiro (…) mergulhará no abismo de uma nova Idade das Trevas”.

Para a opinião pública, o primeiro-ministro passou a simbolizar a resistência e a luta pela liberdade. Quando, em maio de 1941, Hitler trocou a frente ocidental pela opção de invadir a URSS, deixando de atacar a Inglaterra, seu prestígio estava consolidado, aumentando com a virada na guerra. Churchill procurou convencer o presidente Roosevelt da magnitude do conflito e, contendo seu empedernido anticomunismo, contatou Stalin. Os arranjos formalizaram, na Conferência de Teerã, em 1943, a coalizão entre URSS, Estados Unidos e Grã-Bretanha contra a Alemanha.

No final da Segunda Guerra Mundial, Churchill era uma personalidade de prestígio mundial, bem mais rico em razão do sucesso de seus livros, que lhe valeram o Nobel de Literatura em 1953. Mas, ao contrário do que imaginava, seu partido saiu derrotado das eleições de 1945, motivo pelo qual renunciou ao cargo de primeiro-ministro. Na esfera internacional, percebeu a emergência de uma ordem mundial na qual a Grã-Bretanha perdera o papel de principal potência, disputado agora por EUA e URSS na Guerra Fria. Responsável por difundir a imagem da Cortina de Ferro, reuniu esforços para a formação de uma união europeia. Antes de morrer e ser enterrado com honrarias de chefe de Estado, em 1965, ainda viu o Império se desfazer com a independência política das colônias.

Churchill era consciente do seu papel nos eventos da Segunda Guerra, como também na sua interpretação, ao ponto de ironicamente declarar que “a História será gentil comigo porque eu irei escrevê-la”. Não só escreveu suas Memórias da Segunda Guerra Mundial como seus documentos e discursos foram reunidos no Museu Churchill, em parte disponíveis em www.winstonchurchill.org. A parte mais pitoresca dessa churchilliana on-line apresenta e procura refutar “mitos” pessoais e históricos em torno do líder, como sua compulsão pela bebida ou, ao direcionar suprimentos para zonas de guerra, ter causado na fome de Bengala a morte de milhões de pessoas entre 1943 e 1945. Mas esse esforço não impede apropriações funestas. Em 2003, o chefe do Pentágono, ao planejar a “guerra defensiva” contra o Iraque, comparou Churchill ao presidente dos Estados Unidos. George W. Bush deve ter ficado lisonjeado, pois possuía um busto do estadista britânico em sua escrivaninha.

Leandro Antonio de Almeida é doutorando em História e professor da UFRB

Revista Carta na Escola

As origens do mal

Como o imperialismo europeu transformou uma região pacífica no mais famoso barril de pólvora geopolítica da atualidade. Por Edilson Adão. Foto: Ahmad Gharabl/AFP

Os frequentes atos extremistas que assolam o Oriente Médio remetem à pergunta: hoje palco de tamanha violência, por que Jerusalém foi há pouco mais de um século lugar de convivência respeitosa entre judeus, muçulmanos e cristãos? Devemos considerar que até então a cidade encontrava-se sob a tutela do império turco-otomano, cujo califa de outrora, o sultão Osman III, através de um edito de 1757, delimitou muito bem os direitos e competências de cada religião que entendia ser sua a sagrada Jerusalém. As maiores confusões ficavam por conta dos cristãos, particularmente durante a Páscoa, quando a boa convivência dava lugar a vergonhosos acirramentos entre gregos ortodoxos, católicos armênios, coptas egípcios, maronitas sírios e outras comunidades cristãs. Mas, no geral, a convivência era boa e pautada pela tolerância, salvo excessos eventuais. Certa vez, entrevistei um octogenário palestino que me disse ser um judeu o melhor amigo de seu pai. Vizinhos, era -comum caminharem juntos pelas ruas da Palestina; seu pai virava à esquerda e entrava na mesquita, o amigo à direita para a sinagoga. Finalizadas as orações, encontravam-se na saída e continuavam o passeio. Essa utópica cena para os dias de hoje foi fato um dia na Terra Santa.

Não obstante celeumas ideológicas, é quase impossível não atribuir ao imperialismo europeu (logo, ao capitalismo), o barril de pólvora em que se transformou o Oriente Médio. O desarranjo lógico do território forjou ali as mais es-drúxulas unidades sem o mínimo lastro histórico-geográfico que justificasse a existência de certos países, em particular às margens do Golfo Pérsico, mas também nas areias do deserto. Fronteiras mal formuladas construíram gradativamente o clima de tensão que hoje se abate na região. A tensão evoluiu para violência na segunda metade do século XX, cujas três últimas décadas assistiram ao surgimento de um novo fenômeno: o fundamentalismo.

INTOLERÂNCIA: FENÔMENO DO SÉCULO XX
Quem matou o Mahatma Gandhi? Quem matou Yitzhak Rabin? Quem matou Anwar Sadat? Cada um desses líderes foi morto pelo fundamentalismo intrínseco à sua própria religião.

Apesar de litígios religiosos serem antiquíssimos, é no século XX que o extremismo torna-se fenômeno comum. Temos notícias de atentados religiosos desde o fim do século XIX, quando a Irmandade Muçulmana lutava contra o domínio britânico no Egito. Mas o parâmetro contemporâneo para aquilo que se convencionou designar como “fundamentalismo” podemos encontrar na Revolução Islâmica de 1979, quando o Irã converteu-se em uma teocracia xiita.

Contudo, é no cristianismo que residem os primórdios do fundamentalismo. Suas raízes estão ligadas ao protestantismo cristão norte-americano do século XIX, cuja leitura literal e dogmática da Bíblia difundia a crença de uma supremacia cristã e a não aceitação de outras verdades religiosas, fundamentos que tanto contribuíram para a formação da cultura Wasp (White, Anglo-Saxon and Protestant ou Branco, Anglo-Saxão e Protestante). Líderes norte-americanos passaram a se inspirar nesses preceitos para a orientação do modo de vida, num claro enfrentamento com a modernização da sociedade. Nessa linha, o homem deve pautar-se numa leitura ortodoxa da palavra de Deus, o Ser infalível que orienta todo o modus vivendi da sociedade. Para os fundamentalistas, qualquer interpretação da vida que não encontre uma justificativa bíblica deve ser refutada. A Bíblia não deve ser interpretada, como fazem os teólogos mais progressistas, mas simplesmente obedecida, pois é a verdadeira palavra de Deus: basta segui-la. A História, a Geografia e, principalmente, a Biologia nada acrescentam ao conhecimento. O evolucionismo deve ser banido como teoria e ser substituído plenamente pelo criacionismo – esta, sim, uma teoria embasada na palavra divina. O fundamentalismo consiste nesse comportamento de obediência extrema a um credo religioso, que não aceita conviver com outra perspectiva ou forma de explicação da vida. Há uma única verdade: Deus.

Na perspectiva fanática, portanto, a crença do outro está equivocada. Acontece que, quando o outro pensa da mesma forma, aflora a intolerância e a coexistência torna-se impossível. Resultado: conflitos e mortes. A origem disso é cristã, mas, nos dias de hoje, é o fundamentalismo islâmico o mais atuante de todos e seus feitos, os mais impressionantes.

O fundamentalismo é um movimento reacionário, pois pretende um retorno- aos valores tradicionais que fundamentam sua crença, numa clara oposição ao secularismo e à modernidade. A emergente Índia, por exemplo, candidata à condição de potência econômica nos anos vindouros, tem no combate ao extremismo religioso interno seu maior desafio. O Partido do Congresso, laico, tenta, a duras penas, construir uma nação secular, mas o oposicionista Barhatya Janart Party (BJP), de orientação fundamentalista hindu e que já governou nos anos 1990, luta por uma Índia teocrática, caminhando no sentido contrário e investindo na supremacia bramanista perante uma minoria muçulmana de mais de 150 milhões de habitantes. A atmosfera indiana é de pura tensão.

Tendo como grande ícone a Revolução Islâmica, a opção fundamentalista não ficou restrita ao xiismo; inclusive, nos dias de hoje, é na vertente do sunismo que temos os principais grupos atuando. A falta de atenção, no entanto, pode levar muitos a incorrer no mais comum dos erros: a confusão entre islamismo e fundamentalismo, visto que o noticiário pouco contribui ao discernimento das diferenças, podendo levar a entender o extremismo religioso como circunscrito ao islamismo. Sobre o significado da palavra Islã, o xeque Jihad Hassan Hammadeh, vice-presidente da Assembleia Mundial da Juventude Islâmica, uma das maiores autoridades brasileiras no assunto, informa que “islã”, na língua árabe, deriva da palavra “salam”, que significa paz, portanto, a essência da religião islâmica é a paz, seu alicerce é a paz, por isso é que a definição de islam é: submissão total e voluntária a Deus Único, então quem é voluntário a Deus deve praticar o que Ele ordena, que é a justiça, a paz, o amor, a solidariedade etc. Quanto à violência, a religião islâmica proíbe qualquer ato de injustiça contra qualquer ser e inclui também a agressão contra o meio ambiente. Deus disse no Alcorão (livro sagrado dos muçulmanos): “E quem tirar uma vida inocente é como se tivesse assassinado toda a Humanidade, e quem salvá-la é como se tivesse salvado toda a Humanidade”, portanto, o muçulmano é proibido de cometer qualquer ato de agressão injusta, dando-lhe, somente, o direito à legítima defesa, que é direito de qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo e em todas as religiões. Deus disse no Alcorão Sagrado: “E se punirem,- que punam da mesma forma como foram punidos,- e quem tiver paciência, é melhor para os pacientes”.

Alguns estudiosos do Islã afirmam ser equivocada a expressão “fundamentalismo” para designar os atos extremistas que marcaram o fim do século XX. Em sua concepção, o termo é totalmente infeliz, uma vez que se faz uma adaptação da realidade cristã à islâmica. Tal analogia é então descabida, pois as escolas de filiação religiosa são distintas. Enquanto no cristianismo a interpretação do fundamentalismo é visceralmente conservadora, antimodernista e arraigada aos valores tradicionais da Bíblia, no Islã, dá-se o contrário. Logo, o que vemos e classificamos hoje como fundamentalismo islâmico é exatamente o oposto daquilo que pregam os verdadeiros estudos dos fundamentos do Islã. Regimes como o iraniano ou o que era vigente até há pouco tempo no Afeganistão seguem o oposto daquilo que seriam os “fundamentos do Islã.”

Edilson Adão Cândido da Silva é mestre em Ciências pela USP, autor de Oriente Médio: A Gênese das Fronteiras (Editora Zapt) e professor de Geopolítica e Teoria das Relações Internacionais no Ensino Superior

Carta na Escola

The Bulgária Herald

As jazidas de laquê, as usinas de dossiê e os campos de repolho

por Holegárion Ribamarov

Revista piauí

sexta-feira, 25 de março de 2011

Pós-muro


Em 1989, na Europa do leste, as pessoas queriam solidariedade e liberdade para viver suas vidas fora do controle estatal.

por Slavoj Zizek

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, é comum ouvir que os acontecimentos daquela época foram milagrosos, um sonho realizado, algo que ninguém teria imaginado mesmo poucos meses antes. Eleições livres na Polônia e Lech Walesa como presidente: quem poderia prever? Mas um milagre ainda maior ocorreu poucos anos depois: as eleições livres e democráticas devolveram os ex-comunistas ao poder, Walesa foi marginalizado e tornou-se menos popular que o próprio general Jaruzelski.

Em geral, essa reversão é explicada pelas expectativas "imaturas" do povo, que simplesmente não tinha uma ideia realista do capitalismo: eles queriam se apoderar do bolo e comê-lo, queriam as liberdades democráticas e abundância material sem ter que se adaptar a uma "sociedade de risco" - por exemplo, sem perder a segurança e a estabilidade (mais ou menos) garantidas pelos regimes comunistas.

Quando a névoa sublime da Revolução de Veludo foi dispersa pela nova realidade democrática e capitalista, as pessoas reagiram de três formas: algumas tiveram saudades dos "bons e velhos tempos" do comunismo, outras abraçaram o populismo nacionalista de direita, e houve ainda as que manifestaram uma espécie de paranoia anticomunista retardada.

As duas primeiras reações são fáceis de compreender, e até se sobrepõem com relativa frequência, tal como na Rússia atual. Os mesmos direitistas que, décadas atrás, gritavam "Antes morto do que comunista" [Better dead than red] agora resmungam "Antes comunista do que comer hambúrgueres". A nostalgia pelo comunismo não deve ser levada muito a sério: longe de expressar um desejo verdadeiro de retornar à cinzenta realidade socialista, é uma espécie de luto, um jeito de se livrar delicadamente do passado. E o populismo nacionalista, longe de ser exclusivo ao Leste Europeu, é uma característica de todos os países apanhados no vórtice da globalização.

Muito mais interessante é a recente ressurreição do anticomunismo por toda parte, da Hungria à Eslovênia. Em outubro de 2006, uma onda de protestos contra o Partido Socialista no poder paralisou a Hungria por semanas. Os manifestantes culpavam os sucessores dos comunistas pela crise econômica no país. Eles negavam legitimidade ao governo que, no entanto, foi eleito democraticamente, e, quando a polícia era usada para restaurar o mínimo de ordem civil, faziam comparações com o Exército soviético que esmagou a revolução de 1956.

Em resumo, diziam que a Revolução de Veludo de 1989 precisava se repetir, já que, por trás da falsa aparência de democracia, nada mudara de verdade, pois as mesmas forças do mal davam as cartas no poder. Em dezembro de 2006, a Polônia endureceu a lei que proibia ex-colaboradores da polícia secreta comunista e pessoas ligadas ao velho regime de assumirem cargos públicos.

Outro aspecto do mesmo processo foi a reabilitação, nos países bálticos e na Eslováquia, dos colaboradores nazistas, transformados em "combatentes anticomunistas". Sua colaboração, e mesmo a participação em massacres de judeus, foi considerada necessária na luta patriótica contra o comunismo. Era um mal menor. Na Revolução de Veludo ucraniana, que levou Viktor Yushchenko ao poder, cantavam-se as mesmas músicas entoadas pelos colaboradores nacionalistas que apoiaram a ocupação alemã.

Não é de se espantar que, pressionado por certos países pós-comunistas, o Parlamento Europeu tenha aprovado uma resolução que equipara o comunismo ao nazismo. E não é de se espantar que, na Eslovênia, a direita populista reprove a esquerda por ser uma "força de continuidade" do velho regime comunista. Novos problemas e desafios são julgados com base em velhos conflitos, e a luta pelos direitos dos gays é soturnamente interpretada como parte de um complô comunista para desmoralizar a nação.

Como e por que esses fantasmas reaparecem em nações onde a maioria dos jovens nem sequer se lembra do comunismo? Os anticomunistas fazem uma pergunta simples - "Se o capitalismo é tão melhor que o socialismo, por que nossas vidas continuam miseráveis?" - e a respondem de maneira direta: é porque ainda não chegamos ao capitalismo, não temos uma verdadeira democracia. Os ex-comunistas ainda estão no poder, disfarçados de proprietários e dirigentes. Precisamos de outro expurgo, a revolução tem que se repetir. É evidente a semelhança que há entre esse discurso e o velho costume comunista de atribuir seus fracassos à perpétua influência das "forças do passado".

Essa nova geração de anticomunistas tem uma imagem da sociedade que é assustadoramente parecida com a imagem do capitalismo alimentada pelos esquerdistas: uma sociedade na qual a democracia formal é uma máscara que esconde a dominação por uma minoria rica. Em outras palavras, os anticomunistas não percebem que aquilo que eles chamam de pseudo-capitalismo pervertido é simplesmente o capitalismo.

Pode-se dizer que, após o colapso dos regimes comunistas, seus antigos partidários, desiludidos, estavam mais preparados para gerir a nova economia capitalista do que os dissidentes do populismo. Enquanto os heróis das manifestações anticomunistas continuaram a acalentar o sonho de uma nova sociedade baseada em justiça, honestidade e solidariedade, os ex-comunistas se acomodaram sem dificuldades às novas regras capitalistas. Paradoxalmente, na nova situação pós-comunista, os anticomunistas insistiram no sonho utópico de uma democracia verdadeira, ao passo que os ex-comunistas aceitaram o mundo cruel da eficiência de mercado, com toda a sua corrupção e truques sujos.

Será que o realismo capitalista é a única resposta para a utopia socialista? O que se seguiu à queda do Muro foi mesmo a era da maturidade capitalista, o abandono de todas as utopias? Será que essa época também não teve uma utopia própria? Novembro de 1989 marcou o início dos "felizes anos 90", o utópico "fim da história" de Francis Fukuyama. Ele anunciou que a democracia liberal havia vencido, que o advento de uma comunidade mundial global e liberal estava por acontecer, e que os obstáculos que se interpunham a esse final feliz eram apenas contingentes (bolsões de resistência onde os dirigentes locais ainda não enxergavam que a hora deles havia acabado).

Em contrapartida, o 11 de Setembro marcou o fim simbólico dos "felizes anos 90". Assinalou o começo de nossa era atual, em que novos muros estão se erguendo por toda parte, entre Israel e a Cisjordânia, em torno da União Europeia, na fronteira dos Estados Unidos com o México - mas também dentro dos próprios países.

Parece que a utopia dos anos 90 de Fukuyama teve que morrer duas vezes: o colapso da utopia política liberal-democrática do 11 de Setembro não afetou a utopia econômica do capitalismo de mercados globais, mas a crise financeira de 2008 certamente o fez. Nos anos 90, acreditava-se que a humanidade havia finalmente encontrado a fórmula para uma perfeita ordem socioeconômica.

A experiência das últimas décadas mostrou claramente que o mercado não é um mecanismo benigno, que funciona melhor quando deixado por sua conta. É preciso violência para criar as condições necessárias a seu funcionamento. A forma com que os fundamentalistas de mercado reagem à desordem que se sucede quando suas ideias são aplicadas é típica dos "totalitaristas" utópicos: eles culpam o fracasso em fazer concessões - ainda há muita intervenção estatal - e exigem uma aplicação ainda mais radical da doutrina de mercado.

Observamos hoje a explosão do capitalismo na China e nos perguntamos quando o país se tornará uma democracia. Mas e se isso nunca acontecer? E se o seu capitalismo autoritário não for apenas a repetição do processo de acumulação capitalista que, na Europa, vigorou do século XVI ao XVIII, mas um sinal do que está por vir? E se a "malévola combinação do chicote asiático com o mercado de ações europeu" (como Trotsky caracterizava a Rússia czarista) provar-se mais eficiente economicamente do que o capitalismo liberal? E se ficar claro que a democracia, tal como nós a entendemos, não é mais a condição e o motor do desenvolvimento econômico, mas um obstáculo?

Se for esse o caso, talvez a decepção pós-comunista não deva ser descartada como sinal de expectativas "imaturas". Nos protestos contra os regimes comunistas no Leste Europeu, as pessoas, em sua maioria, não pediam o capitalismo. Queriam solidariedade e um tipo bruto de justiça, queriam liberdade para viver suas vidas fora do controle estatal, queriam se reunir e falar do jeito que bem entendessem, queriam se libertar da doutrinação ideológica primitiva e da hipocrisia. Aspiravam a algo que podia ser melhor descrito como um "socialismo com face humana". Talvez essa opinião mereça uma segunda chance.
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quarta-feira, 23 de março de 2011

Marx e a sociologia

Para Marx, o proletariado pode desempenhar um papel equivalente ao exercido pela burguesia Ricardo Musse

Ilustração: André Toma

Na investigação da relação de Marx com a sociologia, não há como subestimar a importância do movimento crítico. Ao longo de toda sua obra, o exame das diversas teorias sociais prevalecentes desemboca, com base no exercício de uma crítica ao mesmo tempo imanente e transcendente, na delimitação de um território próprio denominado pela posteridade de “materialismo histórico”, “sociologia marxista” ou mesmo “sociologia ou teoria crítica”.

Durante o inverno de 1845-1846, refugiados em Bruxelas, Marx e Engels redigiram A Ideologia Alemã. O texto, no entanto, por uma série de motivos, não foi editado e permaneceu assim durante o período em que eles viveram. Numa breve apresentação de sua trajetória intelectual, no Prefácio ao livro Para a Crítica da Economia Política (1859), Marx comenta o manuscrito, destacando que “tratava-se de acertar contas com nossa antiga consciência filosófica. O propósito tomou corpo na forma de uma crítica da filosofia pós-hegeliana (…) Abandonamos o manuscrito à crítica roedora dos ratos, tanto mais a gosto quanto já havíamos atingido o fim principal: a autocompreensão”.

Embora o contexto da referência permita inferir que o manuscrito continha um esboço da teoria ali exposta de forma sintética, Marx, fiel ao seu estilo negativo, prescinde dessa afirmação. A interpretação apenas literal dessas frases, predominante entre as duas primeiras gerações de marxistas, corroborou a tese de que se tratava de um momento superado de um itinerário que transitara da filosofia à economia política. Essa hipótese, no entanto, foi plenamente desmentida pela publicação do primeiro volume do livro, em 1926 (o segundo foi editado em 1932). As ideias apresentadas nesse Prefácio, e que se tornaram uma espécie de resumo oficial da teoria marxista da história, retomam quase que literalmente o texto do manuscrito de 1845-1846.

A Ideologia Alemã tornou-se desde então um texto essencial do corpus marxista. Nela delineia-se pela primeira vez de forma nítida o que pode ser considerado o programa do materialismo histórico, gestado por meio de uma crítica incisiva dirigida simultaneamente à filosofia, à teoria política, à historiografia, à economia política, à teoria social etc.

A atividade prática humana
A autocompreensão à qual Marx se refere surgiu, em grande medida, de um acerto de contas com Ludwig Feuerbach, o mais destacado dos filósofos pós-hegelianos. Nos 11 parágrafos das famosas “Teses sobre Feuerbach”, escritas provavelmente em maio ou junho de 1845 – portanto, alguns meses antes do início da redação de A Ideologia Alemã –, Marx, que havia muito já não era idealista, ao contestar o caráter passivo, abstrato e não histórico do materialismo (incluindo o de Feuerbach), destaca que a sensibilidade, a história e a vida social resultam da atividade prática humana.

Um ponto decisivo da divergência de Marx ante Feuerbach consiste na determinação do conceito de “alienação”. No quarto parágrafo, Marx afirma: “a autoalienação religiosa, o desdobramento do mundo em um mundo religioso e um mundo mundano (…) só pode se explicar pela autodilaceração e pela autocontradição desse fundamento mundano”. Desse modo, a questão da alienação, e assim da própria situa-
ção do homem, é deslocada de “um reino autônomo nas nuvens” ou da compreensão do indivíduo singular para a vida efetiva, que se desenrola como um nexo de relações sociais.

Por conseguinte, a tarefa mais urgente e impostergável para Marx, naquele momento, era delinear uma nova concepção, materialista, da história e da sociedade. Teoria essa que, não custa repetir, nasceu da convivência com e da crítica à filosofia pós-hegeliana, mas que, de certo modo, pode ser estendida a grande parte da tradição cultural e intelectual burguesa.

A estratégia de Marx e Engels para submeter à crítica os jovens hegelianos, evitando o risco de recair no jogo especular de uma crítica da “filosofia crítica”, passa pela remodelação do conceito de “ideologia” – concebido como um descompasso entre o que os indivíduos, grupos e sociedades imaginam ser e o que efetivamente são.

O esforço crítico vincula-se assim ao desenvolvimento de uma teoria apta a compreender os indivíduos efetivos em suas ações concretas, o que aponta para a necessidade de conhecer suas condições materiais de vida e as relações sociais aí engendradas. Esse programa, ao qual Marx se ateve ao longo de sua trajetória, foi levado adiante submetendo à crítica – imanente e transcendente – aquelas que são comumente apresentadas como as três fontes do pensamento marxista: a teoria social alemã, tal como configurada no idealismo alemão e no movimento dos jovens hegelianos; a teoria social inglesa, consubstanciada na economia política; e as vertentes da sociologia francesa iniciadas por Saint-Simon, com seus desdobramentos no socialismo utópico de Fourier e Proudhon.

Embora, em A Ideologia Alemã, Marx e Engels esbocem alguns traços da aplicação desse programa à história universal, o livro quase não trata do mundo moderno. O levantamento das principais determinações da sociedade capitalista tornou-se imprescindível durante a redação do Manifesto do Partido Comunista (1848).Para compreender o momento histórico, Marx expõe a história da gênese e do desenvolvimento do mercado mundial, assim como dos conflitos sociais e das oposições de classe que moldam esse cenário, delineando os principais pontos da sociologia marxista, numa exposição concisa das coordenadas econômicas, sociais, políticas e culturais do mundo moderno.

O Manifesto pode ser lido então como uma espécie de “dialética da modernidade”, salientando a contradição entre o dinamismo inerente ao desenvolvimento das forças produtivas (destacado na metáfora “tudo que é sólido desmancha no ar”) e a estática inerente às relações de produção, que reproduzem a cada momento as formas desiguais de apropriação da riqueza e de dominação social.

Marx apresenta o Manifesto como uma autoexposição do comunismo. Conjugado a essa tentativa de exposição teórica das premissas de um movimento político que mal entrara em cena e já invocava para si o papel de protagonista, Marx compôs um diagnóstico da modernidade que esquematiza, em linhas gerais, tópicos que só serão desenvolvidos detalhadamente em obras posteriores, particularmente no conjunto de textos projetados pelo próprio Marx como uma “crítica da economia política” e cuja formulação mais acabada consiste em O Capital.

Luta de classes
Dito em termos drásticos, de A Ideologia Alemã, bem como de seus inúmeros estudos sobre história, Marx tomou como pressuposto no Manifesto apenas um esquema mínimo, a tese de que “a história de todas as sociedades até o presente é a história das lutas de classes”. Trata-se, portanto, de trazer para o centro do relato da história humana o conflito, a “luta ininterrupta, ora dissimulada, ora aberta”, entre oprimidos e opressores.

Apesar do tom panfletário, inerente a seus objetivos práticos, políticos e pedagógicos, o Manifesto mantém a postura crítica em relação à filosofia da história de A Ideologia Alemã. Em lugar de estabelecer uma teleologia para o desenvolvimento geral da espécie humana, Marx, analisando em bloco o destino do mundo moderno, apenas aponta duas tendências, extraídas da observação do passado histórico, procurando evitar recair na ideia de uma necessidade inerente ao espírito ou em alguma forma de determinismo: “uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou uma derrocada comum das classes em luta”.

Na descrição de Marx, a “moderna sociedade burguesa não aboliu os antagonismos de classe”, mas antes colocou novas classes, novas condições de opressão, novas formas e estruturas de luta, sintetizadas no conflito entre burguesia e proletariado.

Marx associa o desenvolvimento histórico-social da burguesia, em especial sua constituição como força política, a uma série de acontecimentos que marcaram a gênese e os desdobramentos do mundo moderno. Desse modo, essa classe é apresentada como o produto de um longo processo, de uma série de revoluções nos meios de produção, transportes e comunicação, por meio do qual ela se desenvolve, economicamente, multiplicando seus capitais e, politicamente, empurrando para segundo plano as demais classes opressoras. Marx adverte assim que, ainda que as demais classes opressoras não sejam suprimidas, doravante quem dá as cartas nos rumos do desenvolvimento histórico e na luta política é a burguesia.

No Manifesto, o mundo burguês é compreendido como uma unidade contraditória entre fatores dinâmicos e invariância estática. O paradoxo de uma sociedade que não pode existir sem revolucionar continuamente os instrumentos de produção e, com eles, o conjunto das relações sociais é próprio do mundo moderno. Enquanto os antigos modos de produção assentavam-se, à maneira de uma tradição, na manutenção e conservação de relações fixas e cristalizadas, a sociedade burguesa se reproduz, mantendo-se idêntica somente ao preço de uma contínua transformação que, acarretando a obsolescência e uma incessante destruição de toda a estrutura de produção existente em determinado momento, subverte inclusive o cenário histórico e político.

Essa dinâmica, característica da modernidade, é apresentada e desdobrada no Manifesto sob a forma de um feixe de expansões que ocorrem simultaneamente, em direções e sobre domínios diferenciados. A descrição do papel “eminentemente revolucionário” desempenhado pela burguesia na história moderna pode ser concebida como uma história dos movimentos do agente histórico dessa expansão, o que explica, entre outras coisas, a forte carga irônica dessas passagens, muitas vezes interpretadas erroneamente como uma apologia da burguesia.

Marx descreve os movimentos segundo os quais o capitalismo extravasa o campo das relações puramente econômicas, espraiando-se para outras esferas da vida social. Esse processo caracteriza-se por uma inaudita mercantilização e reificação de todo o domínio social, atingindo inclusive o âmago da subjetividade.

Mas, ao mesmo tempo em que salienta o predomínio das relações mercantis e da reificação sobre o conjunto da vida social, Marx detecta outro movimento expansionista caracterizado pela colonização, ou melhor, pela penetração capitalista sobre áreas e regiões 
econômicas ainda não capitalistas – o que abrange desde áreas do mundo rural, situadas próximo do centro do capitalismo, até os territórios pré-capitalistas, situados nos confins do planeta.

Essa expansão, hoje denominada globalização, vincula-se de forma mais estreita, no Manifesto, com a fase do mercado mundial. Por “mercado mundial”, Marx designa tanto uma forma de concentração industrial como o domínio exclusivo do poder pela burguesia (na época do Manifesto, o recém-implantado Estado constitucional representativo).

Essas duas “expansões” são assinaladas, ao mesmo tempo, como expedientes a que a burguesia recorre para tentar superar as crises do capitalismo. Marx indaga: “Por quais meios a burguesia supera as crises? Por um lado, pelo extermínio forçado de grande parte das forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e da exploração mais metódica dos antigos mercados”.

A frase “exploração metódica dos antigos mercados”, outra vertente da expansão capitalista, alude à reformulação dos meios e das formas de produção, o que abrange desde a tecnologia empregada na produção até as formas de manejo da mão de obra no interior do processo produtivo. Esse processo, no entanto, não pode ser levado adiante sem a derrubada de obstáculos (jurídicos, culturais etc.) e sem uma intensificação da padronização específica da economia capitalista sobre as demais esferas do mundo social.

O proletariado
A exposição do proletariado, no decorrer do Manifesto, embora possa ser remetida ao quadro histórico-econômico próprio do mundo moderno, não privilegia as mediações econômicas, mas antes a história de sua formação política. De modo geral, Marx salienta que, na mesma medida em que a burguesia, ou melhor, o capital se desdobra, também o proletariado se desenvolve.

No Manifesto, Marx determina, de modo genérico, o proletariado como aqueles que “só subsistem enquanto encontram trabalho e só encontram trabalho enquanto seu trabalho aumenta o capital”. Esse modo de compreender a inserção social do proletariado destaca a submissão do mundo do trabalho à lógica econômica do mercado: os “operários, que têm de vender-se um a um, são uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio e, por isso, igualmente expostos às vicissitudes da concorrência e às oscilações do mercado”.

A dinâmica da expansão, própria do capitalismo, afeta o proletariado no âmago da sua inserção (e integração) social, como força de trabalho, consolidando-se como um dos principais obstáculos à sua organização e formação política. Esse processo foi destacado por Marx como uma forma de reificação típica da situação do trabalho no capitalismo. Primeiro, o trabalhador perde sua autonomia, pela via da expansão da maquinaria e pela ampliação da divisão de trabalho no interior do processo de produção, tornando-se quase um mero acessório da máquina. Mas, sobretudo, ele encontra-se submetido, no interior da fábrica, ao “despotismo” do capital: “Eles não apenas são servos da classe burguesa, do Estado burguês; diariamente e a cada hora eles são escravizados pela máquina, pelo supervisor e, sobretudo, por cada um dos fabricantes burgueses”.

A formação política do proletariado afigura-se, portanto, como uma forma de superação, seja da alienação própria ao mundo do trabalho, seja dos resultados da incessante concorrência entre os trabalhadores gerada pela recorrente reprodução da mão de obra. Nesse sentido, um dos pressupostos práticos do Manifesto, a tarefa de contribuir para a organização do proletariado em um partido político, não pode ser visto como um objetivo descolado da necessidade de superar esses obstáculos.

Pode-se considerar que a aposta de Marx, recorrente ao longo do Manifesto, atribui ao proletariado a possibilidade de desempenhar na história papel equivalente ao exercido pela burguesia. Vale dizer que, para Marx, a classe operária tem a possibilidade de posicionar-se como agente determinante do destino histórico do mundo moderno.

Esse engajamento da classe operária em um projeto de transformação social não é apresentado como um resultado automático e necessário decorrente das condições econômicas e sociais da sociedade burguesa. Marx adverte que os incessantes esforços para organizar o proletariado em um movimento político são, a cada instante, contrariados pela concorrência entre os próprios operários, bem como pela reificação, condições inerentes a sua situação no capitalismo.

A generalização da forma-mercadoria dificulta não só a afirmação do proletariado como sujeito histórico, mas a própria reflexão acerca dos problemas inscritos no cerne da sociedade capitalista, uma vez que a reificação, originariamente atuante no mundo do trabalho, estende-se para todos os setores da sociedade.

Ricardo Musse é professor do
Departamento de Sociologia da USP
Perfil biográfico – Karl Marx (1818-1883)
Karl Marx, num primeiro momento de sua trajetória, adere com entusiasmo àquela que ficou conhecida como a “esquerda hegeliana”, movimento de releitura do pensamento de Hegel (1770-1831), unido por um espírito crítico de recusa de qualquer tipo de transcendência, e centrado num interesse pelos indivíduos humanos, considerados os verdadeiros protagonistas do processo histórico. Superou, porém, essa posição, transformando a herança hegeliana no materialismo histórico, ou seja, numa visão de mundo baseada na concepção de que os eventos históricos são influenciados pelas relações sociais, em particular as relações entre classes, mais do que pelas ideologias.Marx nasceu em Tréveris, em 1818, no seio de uma família burguesa de origem judaica.Estudou em Bonn e em Berlim, doutorando-se com uma tese sobre a filosofia de Demócrito e Epicuro. Em 1843, casou-se com Jenny von Westphalen, jovem nobre que, repudiada por sua família, soube compartilhar a vida de lutas e privações do filósofo revolucionário.Depois de haver colaborado com a Gazeta Renana (um periódico de Colônia, com tendência moderadamente liberal), transferiu-se para Paris, em 1843, para participar, com Arnold Rouge (1802-1880), da fundação dos Anais Franco-Alemães, que representavam o interesse dos jovens hegelianos de expressar um juízo crítico sobre a cultura e a sociedade da época. Apenas o primeiro número da revista foi publicado. Em todo caso, os anos de sua estadia em Paris permitiram a Marx desenvolver intensos estudos, sobretudo de história e economia.Em 1844, conheceu Friedrich Engels (1820-1895), com quem estabeleceu imediatamente uma amizade sincera e profunda, que duraria toda sua vida e seria extraordinariamente construtiva, do ponto de vista tanto filosófico como político.Em janeiro de 1848, redigiu, junto com Engels, o famoso Manifesto Comunista para a Liga dos Comunistas. Quando estourou na França e na Alemanha o movimento revolucionário, Marx passou breve tempo em Paris, voltando logo a Colônia, onde colaborou com a Nova Gazeta Renana. Obrigado a emigrar, instalou-se com sua família em Londres, onde se dedicou a investigações de grande rigor científico, recolhendo elementos de história, economia e sociologia que lhe serviriam de base para escrever O Capital. Foram anos de dificuldades econômicas para Marx, aliviados pela ajuda financeira de Engels, que havia instalado uma indústria em Manchester.Em 1864, Marx fundou a Internacional dos Trabalhadores (conhecida, mais tarde, como a Primeira Internacional). Graças a esse êxito e ao grande prestígio adquirido no campo científico, a autoridade de Marx, como pensador e como organizador, consolidou-se cada vez mais, até sua morte, em 1883. A publicação dos volumes segundo e terceiro de O Capital, assim como de vários outros escritos de Marx, só foi possível graças à dedicação de Engels, que, depois da morte do amigo, recolheu cuidadosamente seus escritos, os reordenou e os preparou para a publicação.

Revista Cult

A revolução de saias

Revolução Francesa : Partida das Mulheres do Mercado para Versalhes (1789)

A revolução de saias

A atuação das mulheres na Revolução Francesa foi marcada por uma marcha que forçou o rei a deixar Versalhes
por Tiago Cordeiro

Na história tradicional da Revolução Francesa, os grandes personagens são homens: Maximilien de Robespierre (1758-1794), Georges Jacques Danton (1759-1794), Jean-Paul Marat (1743-1793). Uma mulher brilha nos relatos, porém do lado da realeza: a rainha Maria Antonieta (1755-1793). Mas a participação feminina foi muito mais importante do que se imagina. "Sua presença na cena política foi tolerada e até incentivada no início da Revolução, porém reprimida em outubro de 1793, e depois novamente, de forma definitiva, em 1795", afirma a pesquisadora Tania Machado Morin em uma tese a respeito do assunto, defendida na Universidade de São Paulo - e um dos raros estudos sobre o tema já publicados no Brasil.

As mulheres fundaram clubes políticos, discursaram na Assembleia Nacional, participaram das jornadas revolucionárias. Mas, acima de tudo, foi um grupo de 7 mil mulheres do povo que marchou 14 quilômetros de Paris a Versalhes, sob chuva, para protestar contra a escassez de pão, gritando: "Vamos buscar o padeiro (o rei), a padeira (a rainha) e o padeirinho (o príncipe delfim)". A Marcha das Mulheres alcançou o objetivo de trazer o rei Luís XVI e sua família para Paris. Poucos dias depois, a Assembleia Nacional também se mudou para a capital.

Esse período de ativismo político foi pouco estudado até os anos 1980, quando as comemorações do bicentenário da Revolução Francesa impulsionaram as pesquisas sobre o tema e fizeram justiça à ação pioneira das cidadãs revolucionárias francesas.
Influência e liderança

Antes de 1789, só mulheres da aristocracia tiveram poder. Depois, surgiram lideranças nas classes populares e entre a burguesia

Os irmãos Edmond (1822-1896) e Jules Goncourt (1830-1896) escreveram - com uma dose de exagero - sobre a mulher da aristocracia francesa no século 18: "Ela tinha o rei da França ao seu alcance; dava ordens na corte, mantinha as alianças políticas, a paz e a guerra, a literatura, as artes e a moda nas dobras de sua saia. Do começo ao fim do século, o governo da mulher foi o único governo visível e apreciável". Parte dessa descrição poderia se aplicar a madame de Pompadour, amante do rei Luís XV (1710-1774) durante 20 anos. A partir de 1789, em meio à efervescência social e política, uma geração de revolucionárias entrou na cena política. Muitas vinham das classes populares e tiveram papel importante em vários momentos cruciais da Revolução (leia abaixo).

Surgiram as primeiras vozes feministas (o termo nem existia na época), como Olympe de Gouges (1748-1793), que escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, dizendo que, se a mulher tinha o direito de subir no cadafalso, também deveria ter o de subir na tribuna. Foi guilhotinada em 1793, acusada de se esquecer das virtudes de seu sexo. A baronesa holandesa Etta Palm d'Aelders (1743-1799) fez discursos em defesa dos direitos políticos da mulher, da educação feminina e do divórcio. Considerada suspeita, fugiu para a Holanda. Théroigne de Méricourt (1762-1817) declarou que as mulheres se armariam para mostrar aos homens que não tinham menos coragem que eles. Pronunciada louca em 1794, foi internada num hospício feminino até a morte.

Mas foi na Marcha a Versalhes de 5 e 6 de outubro de 1789 que as mulheres irromperam na cena pública como protagonistas políticas. As militantes causaram escândalo dentro e fora da França e medo nas autoridades, que decretaram a lei marcial para pacificar a rebelião a força. "A marcha marcou o início do ativismo das mulheres do povo e sua integração ao movimento de massa revolucionário, coisa inédita na França e na Europa da época", diz a pesquisadora Tania Morin. Em agosto de 1792, muitas participaram do ataque ao palácio das Tulherias, em Paris, onde morava a família real desde 1789. O acontecimento levou à destituição e prisão do rei e ao início do regime republicano na França.

Em 1793, Claire Lacombe e Pauline Léon fundaram o principal clube político feminino da Revolução: a Associação das Republicanas Revolucionárias. Elas reivindicavam o porte de armas para defender a pátria dos inimigos internos (um direito exclusivo dos cidadãos). À época, havia 60 clubes políticos femininos ou mistos espalhados pelo país. Em outubro de 1793, todos foram fechados e Pauline Léon passou seis meses na prisão.

Em maio de 1795 havia fome na capital. Suicidas se atiravam no rio Sena, inclusive mães com filhos pequenos. Exasperadas pelo racionamento de pão e pela não aplicação da Constituição democrática de 1793, as mulheres dos bairros operários, apelidadas de "bota-fogos", instigaram um levante popular contra o governo da Convenção Nacional. Foi a gota d’água. A insurreição foi derrotada e as mulheres, alijadas da política nacional. A repressão severa é a maior prova de que elas incomodaram seriamente a ala masculina da Revolução.


Igualdade entre os sexos

Os principais momentos da revolução e a participação feminina

1789-1790
Mulheres escrevem numerosas cartas e panfletos pedindo educação, treinamento profissional e igualdade para homens e mulheres perante a lei.



1789
5 de maio: Abertura dos Estados Gerais.

14 de julho: Tomada da Bastilha. Entre os combatentes, ficaram registrados vários nomes de mulheres.

26 de agosto: Os deputados aprovam a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
5 e 6 de outubro: Marcha das mulheres para Versalhes. O rei Luís XVI é forçado a se mudar para Paris.

1790
2 de fevereiro: Surge a associação política Sociedade Fraternal dos Patriotas dos Dois Sexos.

19 de junho: A Assembleia Nacional suprime a nobreza hereditária, os títulos e os brasões.

3 de dezembro: Luís XVI escreve ao rei da Prússia para pedir apoio.


1790-1791
Formação de associações políticas femininas. Os herdeiros são declarados iguais perante a lei. É o fim dos privilégios da primogenitura masculina.

1791
20-21 de julho: Fuga e prisão do rei em Varennes.

17 de julho: No Campo de Marte, massacre de manifestantes contrários à restauração do rei.

3 de setembro: Aprovação da Constituição de 1791, que inclui o sufrágio masculino censitário.

Setembro: Olympe de Gouges publica a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã.

1792
6 de março: Pauline Léon apresenta à Assembleia uma petição de 319 parisienses reivindicando a formação de uma guarda nacional feminina.

20 de abril: A França declara guerra ao rei da Hungria e da Boêmia.

10 de agosto: O palácio das Tulherias, onde morava o rei, é invadido pelo povo.

20 de setembro: Aprovação da lei do divórcio.

21 de setembro: Fim da monarquia e início da república.

1795
20 a 24 de maio: Insurreição de Prairial, instigada pelas mulheres, que gritam o lema: "Pão e Constituição!".

- A Convenção proíbe as mulheres de frequentar as assembleias e de se reunir nas ruas em grupos de mais de cinco.

26 de outubro: Fim da Convenção Termidoriana e início do governo do Diretório.

1794
4 de fevereiro: A Convenção decreta a supressão da escravidão nas colônias.

Fevereiro e março: Agitação das operárias das oficinas de fiação.

28 de julho: Robespierre e 22 seguidores são guilhotinados.

Setembro: Théroigne de Méricourt é declarada louca e internada.

1793
21 de janeiro: Execução de Luís XVI na guilhotina.

Abril: o deputado Guyomar propõe a igualdade política de homens e mulheres. Sua sugestão não é aprovada pela Assembleia.

16 de outubro: Execução de Maria Antonieta na guilhotina.

30 de outubro: Proibição dos clubes políticos femininos.


Jornada revolucionária

Depois de um dia de marcha, negociações e violência na madrugada, as manifestantes conseguiram trazer o rei Luís XVI a Paris

Em setembro de 1789, faltava pão em Paris. As autoridades nada resolviam. As mulheres ameaçavam tomar as rédeas da situação. Um incidente infeliz no palácio de Versalhes precipitou a rebelião. Em 1º de outubro, durante uma recepção da família real a oficiais do regimento de Flandres, oficiais teriam pisoteado aos risos a cocarda (insígnia militar) tricolor, símbolo da revolução, e levantado brindes à cocarda austríaca, da terra natal da rainha Maria Antonieta. Notícias e boatos a respeito da ofensa percorreram Paris como um rastilho de pólvora. A indignação do povo estava prestes a explodir.

Em 5 de outubro, as mulheres tomaram a iniciativa, batendo tambores e tocando os sinos das igrejas para reunir a multidão. Mesmo após a queda da Bastilha, o rei ainda conservava certa aura de poder divino. O povo acreditava que sua presença resolveria a escassez. Por isso, causava irritação o isolamento de Luís XVI em Versalhes. Além disso, era intolerável sua recusa em assinar decretos importantes aprovados pela Assembleia Nacional, como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

As mulheres vieram em massa para o ponto de encontro na praça Luís XV, atual praça da Concórdia, armadas de lanças, foices, machados e mosquetões e puxando um canhão sem munição. Escolheram Maillard, oficial da Guarda Nacional e herói da Bastilha, para liderar a marcha. O grupo exigia a punição dos oficiais do banquete em Versalhes, o restabelecimento do suprimento de trigo e a presença do monarca em Paris. Exaustas mas vitoriosas, as mulheres do povo voltaram para a capital acompanhando a família real e trazendo a promessa de providências para a crise do pão. Como disse o escritor Jules Michelet (1798-1874): "Os homens tomaram a Bastilha, as mulheres tomaram o rei".


A ida

Reunidas e armadas, as manifestantes partiram na direção de Versalhes

1. Concentração
Uma multidão se concentra em frente ao Hotel de Ville, sede da prefeitura de Paris à época, e denuncia o prefeito Bailly por corrupção. O grupo é formado por mulheres do povo: vendedoras, lavadeiras, costureiras, artesãs.

2. A Marcha começa
Depois de tomar armas no Hotel de Ville com a ajuda de homens, o grupo se dirige à praça Luís XV, atual praça da Concórdia. A massa aumenta ao longo do percurso, atraindo militares, operários e gente da burguesia. Dali, todos partem para Versalhes, a fim de falar com o rei e a Assembleia.

3. Chegada a Versalhes
Depois de 14 quilômetros debaixo de chuva, 7 mil mulheres acompanhadas de soldados e populares se concentram nos portões do palácio. O grupo conta com o apoio da Guarda Nacional. O rei, que estivera caçando de manhã, fora avisado da manifestação e estava no palácio.

4. Mulheres na Assembleia
Parte das manifestantes se dirige à Assembleia Nacional, ao lado do palácio. Os deputados são interrompidos, as mulheres tomam a palavra e uma delas discursa da tribuna. Elas forçam a aprovação de medidas para diminuir o preço do pão.

5. Desmaio diante do rei
Doze mulheres vão ao palácio pedir ao rei que resolva a falta de pão. A porta-voz do grupo, Louison Chabry, de 17 anos, fica tão emocionada diante de Luís XVI que só consegue dizer "pão!" e desmaia. O rei a socorre paternalmente. Louison entra revolucionária e sai monarquista.

6. Tentativa de fuga
Luís XVI manda preparar as carruagens, reúne a família e tenta fugir pelos fundos. Membros da Guarda Nacional dizem a ele que não podem garantir sua segurança fora do palácio. Impedido de sair, ele volta para a residência.

7. Declaração assinada
Pressionado pelos gritos que vêm de fora e apreensivo com a iminente chegada de 15 mil guardas nacionais, o rei enfim capitula: assina a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

A volta

Com o rei a caminho da capital, o protesto se transformou em festa

8. Invasão e morte
Durante a noite, a população invade o palácio e ruma para os aposentos da rainha Maria Antonieta. Ela foge por uma passagem secreta direto para quarto do rei. O incidente provoca a morte de dois guardas.

9. O rei fala com o povo
Acompanhado da rainha e do comandante La Fayette (1757-1834), o rei se apresenta no balcão para os mais de 30 mil manifestantes que exigiam sua presença em Paris. Acuado, Luis XVI cede, com a condição de ser acompanhado pela rainha e pelos filhos.

10. Retorno a Paris
Depois de uma madrugada tensa, a família viaja na carruagem real, em meio a mulheres sentadas em canhões, manifestantes cantando "Viva o rei, viva a nação" e duas cabeças decapitadas em pontas de lança. Da procissão fazem também parte 100 deputados, guardas nacionais e carroças de trigo.

11. O cortejo real na capital francesa
Na chegada, Luís XVI recebe as chaves da cidade do prefeito Bailly e fala ao público do balcão do Hotel de Ville. Depois ele se instala no palácio das Tulherias, um espaço muito menor que Versalhes e que estava abandonado havia 100 anos. Duas semanas depois, o preço do pão cairia.


Post-Scriptum
Por Tania Machado Morin*

Legado escondido
O exemplo das revolucionárias só foi resgatado depois da Segunda Guerra

Uma patriota da cidade de Besançon declarou que as mulheres preferiam os elevados ideais da Revolução às trivialidades do amor. Imbuídas dos princípios de liberdade, justiça e igualdade contidos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, o entusiasmo daquelas mulheres era sincero, apesar de não terem oficialmente nenhuma das prerrogativas da cidadania, como o direito ao voto e às armas. A ruptura revolucionária abriu espaços inéditos de expressão política a um grupo social antes excluído deles: as mulheres do povo, que estavam mais preparadas do que se imaginava para ocupá-los. Pressionadas pelas circunstâncias, elas saltaram da política de bairro para a cena nacional ao se dirigirem às mais altas instâncias de poder em outubro de 1789: a Assembleia Nacional e o rei. Na sede do Legislativo, falaram de igual para igual com os deputados, subvertendo a ordem hierárquica tradicional. Ali nasceram as militantes francesas. Tendo combatido, não queriam ficar à margem dos acontecimentos.

As autoridades pensavam diferente: era preciso transformar aqueles seres políticos em esposas e mães dedicadas à família. Em 1793, uma lei estipulou que as "patriotas de outubro" teriam lugar especial nas cerimônias cívicas, durante as quais deveriam tricotar pacificamente na companhia dos maridos e filhos. A moral republicana exigia uma divisão clara entre papéis masculinos e femininos. Na Revolução, mulheres de todas as classes desempenharam com orgulho a função materna, agora acrescida de uma dimensão política e patriótica. Não era pouco: sua missão era educar os futuros heróis da nação. As militantes não viam incompatibilidade entre a vida política e a doméstica. A pátria era uma extensão da família. Mas os líderes jacobinos não queriam compartilhar o espaço com as mulheres, e a vocação materna foi a justificativa para a exclusão. Entretanto, as razões políticas não foram menos importantes para o silenciamento de adversárias estridentes que instigavam rebeliões populares e ameaçavam o poder.

O que restou de toda aquela experiência revolucionária? Os atos de cidadania femininos foram varridos do mapa até meados do século 19. O exercício pleno dos direitos cívicos imaginado pelas patriotas só se materializou na França após a Segunda Guerra Mundial. Mas as lutas pela cidadania do início da Revolução inspiraram as futuras gerações. A Sociedade das Republicanas Revolucionárias foi o protótipo dos clubes políticos femininos que surgiram na revolução de 1848. Como salientou a historiadora americana Harriet Branson Applewhite, depois da Revolução Francesa, qualquer planejamento de guerra incluía pensões para as viúvas ou esposas de mutilados de guerra, uniformes e provisões para maridos e filhos no exército, oficinas de trabalho para as mães e esposas de combatentes.

A Revolução acentuou o papel das mulheres como barômetro das crises sociais. Elas tinham se habituado a ir às galerias das assembleias exigir providências se suas reivindicações fossem negadas. Mas não se pode falar em continuidade entre as revolucionárias e as feministas contemporâneas. Separa-as o século 19, marcado pela profunda desigualdade política, social e jurídica entre os dois sexos. Os tratados médicos do fim do século 18 apontaram uma subalternidade orgânica no gênio feminino, condenando-as a uma espécie de menoridade vitalícia. Tal é o fundamento científico da subordinação da mulher ao homem no Código Civil de Napoleão (1804). Essa legislação reafirmou a autoridade paterna, reinstituiu a supremacia marital e tornou o divórcio mais punitivo para a esposa que para o marido. A teoria da domesticidade e da debilidade física e mental da mulher custou ao sexo feminino a relativa liberdade de que desfrutou nos primeiros anos da Revolução, sepultando por um século os sonhos políticos das mulheres livres de 1793. A marcha das mulheres foi longa e acidentada, e o legado das revolucionárias só foi resgatado pela geração das feministas do pós-guerra.

*Tania Machado Morin é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e autora da dissertação Práticas e Representações das Mulheres na Revolução Francesa - 1789-1795.

Saiba mais

LIVROS
A História da Revolução Francesa, Jules Michelet, Companhia das Letras, 2003
Obra clássica de Michelet, historiador do século 19 atento à vida privada da época.

Política, Cultura e Classe na Revolução Francesa, Lynn Hunt, Companhia das Letras, 2007
Analisa os símbolos e gestos que formaram a nova cultura política revolucionária.

Citoyennes Tricoteuses, Dominique Godineau, Editions Alinea, Perrin, 2004
Em francês, revela a trajetória das militantes políticas parisienses.

Revista Aventuras na História