terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

ESPORTE NA GRÉCIA ANTIGA: UM BALANÇO CONCEITUAL E HISTORIOGRÁFICO

ESPORTE NA GRÉCIA ANTIGA: UM BALANÇO CONCEITUAL E HISTORIOGRÁFICO
Prof. Dr. Fábio de Souza Lessa*
Universidade Federal do Rio de Janeiro - LHIA/PPGHC/UFRJ
Rio de Janeiro, Brasil
fslessa@uol.com.br


Resumo
A proposta do presente artigo é estudar as diversas abordagens presentes na produção historiográfica contemporânea acerca das práticas esportivas entre os gregos antigos. Discutiremos ainda a possibilidade de aplicação do conceito esporte ao contexto do mundo antigo grego.

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Revista Recorde

A CAPOEIRA CONTEMPORÂNEA: ANTIGAS QUESTÕES, NOVOS DESAFIOS.

A CAPOEIRA CONTEMPORÂNEA: ANTIGAS QUESTÕES, NOVOS DESAFIOS.
Vivian Luiz Fonseca1
CPDOC/ Fundação Getúlio Vargas
Rio de Janeiro, Brasil
vivianluizfonseca@gmail.com


Resumo
A capoeira se configura enquanto um terreno de tensões, podendo ser divididas em duas categorias centrais: internas e externas. Nesse artigo analisarei a formação dessas tensões internas, presentes a partir da criação e desenvolvimento das suas escolas de capoeira mais famosas (Angola e Regional). Será objeto de estudo, também, a tensão externa que hoje se manifesta na relação entre os capoeiristas e o CONFEF/ CREF, que tentam vincular a capoeira ao campo da Educação Física.
Matéria completa no endereço
Revista Recorde

ARENAS ANTIGAS E ESTÁDIOS MODERNOS


ARENAS ANTIGAS E ESTÁDIOS MODERNOS
Profa. Dra. Renata Senna Garraffoni1
Universidade Federal do Paraná
Curitiba, Brasil
resenna93@hotmail.com

Gladiadores romanos e imaginário moderno
Luis Carlos Ribeiro organizou, em 2003, um dossiê na revista História: Questões e Debates intitulado Esporte e Sociedade3. Ao apresentá-lo chamou atenção para um aspecto conhecido daqueles que se dedicam à temática, mas pouco difundido entre os pesquisadores que trabalham outros aspectos da sociedade moderna: a dificuldade de se tornar o esporte em um objeto de estudo das Ciências Humanas.
Durante as primeiras décadas do século XX, a influência marxista e seu papel ao definir os objetos de estudos da História e Ciências Sociais, consagrou ao esporte o espaço do lazer, ressaltando seu caráter lúdico e de massa, reservando importância aos estudos sobre o trabalho e não a diversão. Assim, estigmatizado como fator de alienação, o esporte foi entendido como favorável às classes dominantes, impedindo a revolução tão almejada.
Somente com as críticas a algumas proposições marxistas nos anos de 1960 foi possível reverter esse quadro. A busca por novos temas, segundo Ribeiro, e a renovação crítica encabeçada pela nova historiografia marxista inglesa, abriu a possibilidade de se pensar a sociedade de forma mais ampla, para além dos muros das fábricas4. Atrelado a essa renovação da problemática marxista outro fator foi decisivo no desenvolvimento do campo, os estudos de Norbert Elias e Pierre Bourdieu. Ao trazerem o esporte para o centro das atenções dos sociólogos, cada um a seu modo ajudou a construir ferramentas conceituais fundamentais para tornar o esporte um fenômeno social, passível de ser analisado e discutido nas Ciências Sociais. Melo e Speciale ressaltam que os estudos de Bourdieu dos finais dos anos de 1970 e início da década de 1980, por exemplo, embora poucos, foram imprescindíveis sedimentar a noção de esporte como objeto de reflexão que contribui para um maior conhecimento da modernidade, abrindo espaço para estudiosos explorarem um viés até então pouco considerado5.
Se no princípio o esporte era entendido como mercadoria e meio de alienação, os desdobramentos críticos ao longo do século XX e início do XXI vieram alterar profundamente esse quadro. A partir de um diálogo interdisciplinar, sociólogos, antropólogos, historiadores, profissionais da área de saúde e educação física expandiram as formas de se interpretar o esporte na modernidade. Assim, mais que um produto capitalista destinado a ludibriar as massas, o esporte passou a ser entendido como constituinte e construtor da sociedade, podendo ser interpretado a partir de uma multiplicidade de ângulos. Aos poucos foram se desenvolvendo estudos acerca da relação entre esporte e arte6, da sua importância política, de suas facetas nacionalistas, desde sua presença entre os ideais estéticos do nazismo até as implicações políticas das competições em época da Guerra Fria, da relação do homem com a natureza a partir do desenvolvimento de esportes de aventura, da sua importância disciplinar na educação militar, da violência dentro e fora dos estádios, das relações em que os sujeitos estabelecem com seus corpos, alimentação e ideal de beleza, das implicações da mídia e da espetacularização do esporte, enfim, de como o esporte produz emoções e emolduram visões de mundo, mediando relações do sujeito com o mundo ao seu redor.
Entre os diversos caminhos que se ramificaram após os primeiros estudos de Bourdieu e Elias, gostaria de destacar um aspecto em particular que sempre chamou muito minha atenção: a retomada dos valores clássicos e sua inserção no mundo do esporte moderno. Ao pensar essa relação, talvez o exemplo que venha a mente, de imediato, sejam os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, profundamente marcado por sua instrumentalização em prol do regime nazista7. No entanto, não só em períodos totalitários que a relação entre mundo antigo e moderno aparece no universo do esporte.
Grandes eventos esportivos, como os Jogos Olímpicos ou a Copa do Mundo, constantemente evocam os antigos heróis e atletas formando uma ponte entre presente e passado por meio das aberturas espetaculares dos eventos transmitidas ao vivo e, também, por uma série de programas e reportagens para familiarizar o público brasileiro à Antigüidade Greco-romana.
Assim, é muito comum em época de Copa do Mundo a insistência na produção de reportagens na mídia impressa ou televisiva que retomam, acriticamente, a idéia de que os romanos viviam a política do Pão e Circo ou durante os Jogos Olímpicos a evocação de antigos deuses gregos e heróis que marcaram os textos literários de outrora.
O interessante desse processo é que, em geral, tais reportagens são muito concisas e imediatas, construindo um discurso mais próximo dos ideais capitalistas modernos, de superação de limites, esforço, competitividade e beleza dos corpos do que das recentes pesquisas históricas que, muitas vezes, possuem uma visão contrária ao que a mídia noticia.
Embora não seja minha intenção aqui aprofundar essa discussão, gostaria de destacar algo que me parece muito instigante dentro desse processo: a comparação entre atletas e os gladiadores romanos. Considero essa comparação bastante intrigante, pois as lutas de gladiadores possuem uma série de particularidades que muito se distanciam do esporte moderno. Em seus primórdios os combates estavam inseridos em um contexto religioso, realizados com a função de manter viva a memória de pessoas importantes falecidas. Com o passar do tempo, essa atividade foi se transformando e adquirindo um viés público, mas nunca anulou definitivamente sua faceta religiosa e sua relação com um passado a ser lembrado8. Talvez o aspecto que mais indique essa permanência é a própria terminologia empregada, pois os combates de gladiadores nunca deixaram de serem chamados de munera, ou seja, o termo empregado durante séculos para se referir a essa forma de combate está relacionado ao caráter funerário do evento9.
Essa particularidade religiosa ou a relação com a morte, o sangue ou a infamia de seus combatentes, algo tão distante do que ocorre nos estádios modernos, no entanto não impediu, por exemplo, que a mídia internacional, por ocasião da Copa do Mundo de 2002, comparasse estes antigos guerreiros ao então goleiro da seleção alemã, Kahn.
Como na época eu vivia na Alemanha realizando parte de minha pesquisa de doutorado, pude acompanhar como em diferentes mídias se comentava a força e a destreza deste atleta, esperança da Alemanha reunificada de ganhar seu primeiro título mundial. Da mesma forma que Kahn era construído na mídia européia como um guerreiro impassível diante de qualquer ameaça, como um grande defensor do gol alemão e chamado de Der Gladiator, os torcedores eram comparados aos romanos comuns que freqüentavam as arenas ou corridas de bigas.
Embora essa tenha sido a primeira vez que vi uma relação tão explícita entre gladiadores antigos e atletas modernos, aos poucos percebi que tais comparações não se restringem ao futebol, mas diz respeito a toda uma gama de esportes que inclui até o surf10. Em 2004, por exemplo, tive a oportunidade de ler uma entrevista do surfista brasileiro Neco Padaratz concedida a Carlos Sarli, na ocasião em que o surfista voltara a conquistar prêmios internacionais11. A reportagem, muito bem cuidada visualmente com fotos de Padaratz em diferentes momentos de sua carreira, me chamou a atenção, pois se intitulava “Gladiador”. Logo abaixo do título em letras grande seguia a seguinte chamada:
Neco Padaratz já foi considerado a maior promessa do surf brasileiro, inclusive pela mídia especializada estrangeira. Foi treinado para ser campeão desde a infância, mas problemas físicos o tiraram do rumo. Quase morreu numa onda errada no Taiti, teve de vencer o medo e a depressão – e lutar contra a fama de encrenqueiro e baladeiro. Aos 27 anos, mostrou o guerreiro
que é ao conquistar, em 2003, o título WQS, a divisão de acesso do surf mundial. Este ano, ele voltou a Teahuppo e superou o trauma que quase o tirou do esporte.
Esse pequeno trecho, cuidadosamente escrito pelo autor da entrevista, nos indica o tom da reportagem e o perfil do entrevistado: um jovem treinado para vencer, um bravo lutador que além de superar os problemas físicos, voltou ao Taiti para enfrentar, mais uma vez, a onda que quase o matou. O interessante desse discurso é que ele nunca compara explicitamente o contexto dos combates de gladiador ao surf, mas deixa como livre associação do leitor. Ao acompanharmos a entrevista, é possível perceber que o cerne da questão está nos comentários que Padaratz faz de sua vida pessoal e sua carreira, além de algumas reflexões sobre acidente que ocorreu no Taiti. É por meio destas reflexões, e nas entrelinhas de sua fala, que o leitor pode estabelecer a ponte entre o surfista e o gladiador: treinamento físico e psicológico para o fortalecimento do corpo e alma para o desafio de vencer a morte. Assim, o que está em jogo não são somente algumas das características dos combates de gladiador como desafiar a morte, que só aparece no título, mas sim valores modernos como treinamento, a perseverança, a força, a superação de limites, a fama e a paz de espírito por ter cumprido os objetivos que são transformados em universais e atemporais, constituindo as virtudes do “gladiador moderno”.
Nesse sentido, acredito que por ser uma revista destinada aos jovens de classe média/alta, já que a matéria original era da Revista Trip e fora cedida para a revista de bordo da Gol, o cerne da questão não está nos antigos guerreiros, mas sim no incentivo do jovem leitor, seja ele empresário ou esportista, a melhorar a produtividade e vencer no concorrido mundo moderno. Assim, nessa associação proposta pela entrevista o gladiador romano é retirado de seu contexto original e reinterpretado a partir de valores muito bem definidos e os sujeitos que outrora viveram e lutaram nas arenas romanas são transformados em metáforas para reforçar alguns ideais contemporâneos como a necessidade de treinamento para ser um bom profissional, de domesticar a rebeldia jovem e tornar-se exemplo de fama e sucesso.
O perfil do gladiador que surge nesses discursos, seja os sobre o goleiro alemão ou o surfista brasileiro, não é em minha opinião, fundamentado na especificidade histórica romana, pelo contrário, é constituído a partir de generalizações e da homogeneização desta sociedade e da criação de pontes entre passado e presente baseada em princípios universais. Nas imagens que circulam pela mídia dos últimos anos, presenciamos os gladiadores sendo adaptados para atender ao mercado de consumo de massa, nas mais distintas esferas como, por exemplo, os filmes de Hollywood, os seriados de TV como Roma ou mesmo do best seller de Hyrum Smith intitulado O Gladiador Moderno12, livro que compara antigos gladiadores a jovens empresários ousados que almejam vencer no competitivo mercado norte-americano, redimensionando os significados dos combates a fim de atender os anseios de vários setores sociais.
Nesse sentido, essas relações entre o esporte moderno e as práticas corporais antigas são atravessadas por discursos de competitividade e vitória, explorando um universo majoritariamente masculino. A construção da força e da coragem dos desportistas modernos acaba vinculando o vencedor a uma noção masculina muito específica que molda um imaginário do que seriam os combates de gladiadores, independente de seu contexto histórico, indicando como Roma segue sendo revisitada e reinterpretada em diferentes meandros da sociedade moderna e, muitas vezes, fora do alcance da academia. Se no campo midiático os gladiadores são símbolos de autocontrole, vitória e modelo de competividade masculina, seria interessante observarmos o que a academia produz acerca desses sujeitos históricos.

Os Gladiadores e a historiografia
Os combates de gladiadores sempre se constituíram como um tema controverso entre os estudiosos do mundo romano e desde o século XIX muitas maneiras de se interpretar esse fenômeno foram produzidas. Em minhas incursões sobre a historiografia acerca dos combates de gladiadores percebi alguns eixos que se estruturaram as interpretações: os estudos que destacam o viés político dos espetáculos afirmando ou negando a idéia de Pão e circo, os que enfatizavam ou questionam seu caráter violento e os que exploram seus aspectos culturais e sociais13. Nesse momento, mais do que discutir cada uma delas, gostaria de ressaltar um pequeno detalhe, não considerado em nenhum dos trabalhos a que tive acesso, mas que é muito relevante para a reflexão que proponho nesse momento. Ao observar as muitas obras lidas sobre os combates, majoritariamente escritas por homens, percebi que nos prefácios, apresentações ou
conclusões os estudiosos buscavam, de alguma maneira, trazer as lutas de gladiadores para um universo próximo aos leitores.




Revista Recorde

ROMA - ELOGIO DO ENRIQUECIMENTO


ELOGIO DO ENRIQUECIMENTO


Todos os homens são iguais em humanidade, até os escravos, porém os que possuem um patrimônio são mais iguais que os outros. Esse mesmo patrimônio desempenha na economia antiga um papel tão central quanto o da empresa entre nós, o da sociedade anônima; no entanto, para bem compreendê-lo precisamos deixar de lado ideias que seriam mais verdadeiras com relação ao Ancien Regime. Fazer negócios em Roma não significava aviltar-se; a usura e o comércio não eram apanágio exclusivo de uma classe ou ordem especializadas, burguesia, libertos ou cavaleiros; a nobreza e os notáveis não eram todos proprietários absenteístas, senhores indolentes; a autarcia, o mito filosófico, não constituía a finalidade de sua gestão, e eles não se limitavam a explorar superficialmente seus domínios para tirar aquilo com que mantinham sua posição: queriam aumentar seu patrimônio, ganhar dinheiro por todos os meios. A grande palavra não era autarcia, nem indolência, nem rebaixamento, mas negocismo nobre; o patrão, o chefe de empresa, nessa época, era o "pai de família", expressão em que o termo família significa casa e patrimônio. Um negocismo patrimonial.
E é porque a economia pertencia à vida privada, o que absolutamente não é o caso hoje em dia quando se fala em legítimo capitalismo anônimo. Entre nós, os atores econômicos são pessoas morais chamadas firmas ou sociedades; existem, portanto, máquinas anônimas que produzem dinheiro e pessoas privadas se empoleiram sobre esses recursos. Entre eles, os atores econômicos eram as próprias pessoas privadas, os pais de família. Entre nós, uma firma de importação-exportação continua sendo o que era se os acionistas mudam e revendem seus títulos a [pág. 128] outros. Entre os romanos, um patrimônio continuava sendo o que era se seu proprietário abandonava o comércio marítimo e aplicava toda a fortuna em bens de raiz. Disso não decorre, comoveremos, que a racionalidade do pai de família se limitasse a assegurar o futuro de sua casa em lugar de procurar o lucro à maneira da racionalidade capitalista: a diferença estava alhures. "Ajamos como bons pais de família", escreve Sêneca a Lucílio, falando por provérbio: "aumentemos o que recebemos como herança; que a sucessão passe ampliada por mim a meus herdeiros." Esbanjar o patrimônio equivale a destruir a dinastia e cair na subumanidade: os nobres arruinados eram descontentes, conspiradores em potencial, cúmplices de qualquer Catilina; ao contrário, o filho de um arrivista, de um liberto enriquecido, poderá ingressar na ordem dos cavaleiros e ambicionar ver o próprio filho senador. As virtudes aquisitivas eram nobres; de acordo com Cícero, se um filho da classe alta não for um inútil, entrará na carreira pública ou pelo menos aumentará o patrimônio da família. Essa aprendizagem dos interesses patrimoniais é uma parte pouco conhecida da educação romana. Em 221 antes de nossa era, o povo romano ouviu a oração fúnebre de um grande senhor chamado Cecílio Metelo; um de seus méritos reconhecidos foi o de ter sabido "ganhar muito dinheiro por meios honestos". Sem dúvida não havia desonra em ser "pobre", o que, evidentemente, era a condição mais comum; alguns até tiravam disso uma sabedoria, como Horácio.
O problema é que a palavra "pobre" não tem o mesmo sentido em latim e em francês [e em português], onde ganha seu significado em relação à sociedade inteira, que compreende uma maioria de pobres e um punhado de ricos; em latim, essa maioria não conta, e a palavra "pobre" tem um significado no seio da minoria que chamaríamos de rica: os pobres eram os ricos que não eram muito ricos. Horácio fazia da pobreza virtude e se declarava pronto para consolar-se caso suas ambições naufragassem: a pobreza sempre lhe serviria de barco salva-vidas. O dito barco consistia de dois domínios, um em Tívoli e outro em Sabina, onde a casa do senhor ocupava uma área de seiscen- [pág. 129]
tos metros quadrados. A pobreza no sentido cristão e moderno do termo ultrapassava o horizonte do que ele podia conceber. Enriquecer, ou pelo menos se ocupar do próprio patrimônio e dos negócios, não significava romper com o ócio? Não. O negocismo, como vimos, era uma realidade que continuava não sendo essencial à identidade de um notável (assim como Paul Éluard, que vivia de especulações imobiliárias em Saint-Denis, foi poeta, e não corretor de imóveis). A gestão de um patrimônio de bens de raiz implicava que o dono supervisionasse o cultivo de suas terras, vigiasse seu administrador ou escravo intendente, vendesse pelo melhor preço os produtos da propriedade; devia também emprestar dinheiro a juros para nunca deixá-lo parado. Tudo isso, porém, apenas decorria do direito de propriedade e constituía seu exercício. Quanto aos outros meios de "ganhar muito dinheiro", por meios honestos ou não, referiam-se ao exercício ou abuso de direitos civis ou honras cívicas: esposar um dote, atrair heranças ou legados, pilhar seus administrados e os fundos públicos.


História da vida privada, 1: do Império Romano ao ano mil / organização Paul Veyne ; tradução Hildegard Feist; consultoria editorial Jonatas Batista Neto. — São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

ROMA - LOUVÁVEL OCIOSIDADE & RIQUEZA É VIRTUDE


LOUVÁVEL OCIOSIDADE
A economia romana comportava um importante setor servil; havia também a prisão por dívidas, em que um credor sequestrava o devedor com a mulher e os filhos para fazê-los trabalhar; e um setor do Estado em que os condenados, os escravos do fisco (ou seja, de inumeráveis domínios imperiais) penavam sob as chibatadas dos guardas; muitos cristãos conheceram tal destino. Mas o setor principal continuava juridicamente livre. Pequenos camponeses independentes penavam para pagar os impostos; como escreveu Peter Brown, "o Império Romano deixava o terreno livre para as oligarquias locais de notáveis e confiava-lhes o cuidado de garantir as tarefas administrativas; exigia-lhes pouca coisa pela via fiscal e evitava mostrar-se muito curioso quanto à maneira como os impostos eram extorquidos do campesinato; é a espécie de governo displicente que constituiu o princípio de muita dominação colonial num período recente". Outros camponeses eram meeiros desses notáveis. Trabalhadores agrícolas, assalariados, artesãos cujos serviços eram comprados para determinada tarefa tinham com os empregadores um pacto de compromisso que raramente assumia a forma de contrato escrito (à exceção de casos em que havia um contrato de aprendizagem). Assim como o Código Napoleônico acata a palavra do senhor nas contestações relativas aos salários dos criados, assim também um empregador romano faz justiça se os assalariados o roubam, como se fossem escravos. As cidades são essencialmente os lugares onde os notáveis, como a "nobreza citadina" da Renascença italiana, distribuem os lucros da terra: oposição completa com a Idade Média francesa e sua nobreza de castelões. Ao redor desses notáveis urbanos vivem [pág. 112] artesãos e comerciantes que são os fornecedores de tais ricos; era isso uma "cidade" romana (que com uma cidade moderna só tem em comum o nome). Como se reconhecia uma cidade? Pela presença de uma classe ociosa, a dos notáveis. A ociosidade é a peça principal de sua "vida privada"; a Antiguidade foi a época da ociosidade tida como mérito.
Por volta de 1820, dizia um astrólogo ao jovem herói de A cartuxa de Parma: "Dentro de talvez um século não se há mais de querer ociosos". Tinha razão. Em nosso século XX ninguém confessa de bom grado que vive de rendas. Desde Marx e Proudhon a noção de trabalho tornou-se um valor social Universal, um conceito filosófico. Tanto que o antigo desprezo pelo trabalho, as declarações de desdém não disfarçado pelos que trabalham com as próprias mãos, a exaltação do ócio como condição necessária para uma vida de homem "liberal" digno do nome de homem, tudo isso nos choca. O trabalhador era não apenas socialmente inferior mas também visto como um tanto ignóbil. A partir disso muitas vezes concluímos que uma sociedade que desconhecia a tal ponto os verdadeiros valores devia ser uma sociedade mutilada, obrigada a pagar o preço de sua mutilação: não seria o desprezo pelo trabalho que explicaria o atraso econômico dos antigos, sua ignorância das máquinas? A menos que uma praga se explique por outra praga e o desprezo pelo trabalho tenha sua explicação nesse outro escândalo que foi a escravidão…
E, no entanto, se formos sinceros encontraremos em nós uma das chaves desse enigma. Sim, o trabalho nos parece respeitável e não ousaríamos nos gabar de ser ociosos; isso não impede que sejamos muito sensíveis às distinções de classe e, sem confessar, vejamos os operários e artesãos como gentinha; não gostaríamos que nós e nossos filhos caíssemos a esse nível nos envergonhamos um pouco de tal sentimento.
Essa é a primeira das seis chaves das atitudes antigas diante do trabalho: o desdém pelo valor trabalho era desdém social pelos trabalhadores. Esse desdém perdurou até a época de A cartuxa de Parma, mais ou menos; depois, para manter a hie- [pág. 113] rarquia das classes sociais reduzindo os conflitos de classes, foi preciso enaltecer no trabalho um valor verdadeiro e o valor de todos; foi a paz social dos corações hipócritas. O mistério do desprezo antigo pelo trabalho consiste simplesmente no fato de que os acasos da guerra social não conduziram a esse provisório armistício da hipocrisia. Uma classe social orgulhosa de sua superioridade canta a própria glória (é isso a ideologia).

RIQUEZA É VIRTUDE
1º) Primeira chave, pois: a diferença dos grupos sociais é valorizada de acordo com seus recursos. Em Atenas, na época clássica, quando os poetas cômicos qualificavam um homem por seu ofício (Eucrates, o comerciante de estopa; Lisicles, o comerciante de carneiros), não era precisamente para honrá-los; só é homem por inteiro quem vive no ócio. Segundo Platão, uma cidade bem-feita seria aquela na qual os cidadãos fossem alimentados pelo trabalho rural de seus escravos e deixassem os ofícios para a gentalha: a vida "virtuosa", de um homem de qualidade, deve ser "ociosa" (logo veremos que é a vida de um proprietário de bens de raiz, que não "trabalha" no sentido de se ocupar em dirigir suas terras). Para Aristóteles, escravos, camponeses e negociantes não poderiam ter uma vida "feliz", quer dizer, ao mesmo tempo próspera e cheia de nobreza: podem-no somente aqueles que têm os meios de organizar a própria existência e fixar para si mesmos um objetivo ideal. Apenas esses homens ociosos correspondem moralmente ao ideal humano e merecem ser cidadãos por inteiro: "A perfeição do cidadão não qualifica o homem livre, mas só aquele que é isento das tarefas necessárias das quais se incumbem servos, artesãos e operários não especializados; estes últimos não serão cidadãos, se a Constituição conceder os cargos públicos à virtude e ao mérito, pois não se pode praticar a virtude levando-se uma vida de operário ou de trabalhador braçal". Aristóteles não quer dizer que um pobre não tenha meios ou oportunidades de [pág. 114] praticar certas virtudes, mas, sim, que a pobreza é um defeito, uma espécie de vício. Para Metternich, o homem começava no barão, para os gregos e romanos, começava no proprietário de terras, que vivia de rendas. Os notáveis do mundo greco-romano não se consideravam superiores à média da humanidade, como os nobre do Ancien Regime: consideravam-se a humanidade plena e inteira, a humanidade normal; portanto, os pobres eram normalmente inferiores: não viviam como se devia viver.
Riqueza constituía virtude. Num processo em que era acusado e a multidão ateniense atuava como juiz, Demóstenes jogou na cara do adversário as seguintes críticas: "Sou melhor que Esquines e mais bem-nascido; não gostaria de dar a impressão de insultar a pobreza, mas devo dizer que meu quinhão foi, quando criança, frequentar boas escolas e ter bastante fortuna para que a necessidade não me obrigasse a trabalhos vergonhosos. Tu, Esquines, foi teu destino, quando criança, varrer como um escravo a sala de aula onde teu pai lecionava". Demóstenes ganhou triunfalmente o processo.
Os pensadores gregos confirmaram os romanos nessa convicção natural. "As artes do vulgo, as artes sórdidas", escreveu Sêneca, "são, segundo o filósofo Posidônio, as dos trabalhadores braçais, que empregam todo o seu tempo em ganhar a vida; tais ofícios nada têm de belo e em nada se parecem com o Bem." Cícero não teve de aprender com o filósofo Panaitios, cujo conformismo apreciava, que "todo salário é sórdido e indigno de um homem livre, pois constitui o preço do trabalho, e não de uma arte; todo artesanato é sórdido e o comércio de revenda [por oposição ao alto negócio] também o é". A igualdade democrática, o ideal socialista e a caridade cristã não existiam para ordenar a esse desprezo espontâneo que tivesse algum pudor.
A Antiguidade celebrava a condição de quem vivia de rendas com o mesmo despudor com que o Ancien Regime considerava indigente quem não era nobre. Uma classe de ricos notáveis mais ou menos cultos e que deseja reservar para si as alavancas políticas exaltava sua afortunada ociosidade como possibilidade de uma cultura liberal e de uma carreira política. Os [pág. 115] trabalhadores, dizia Aristóteles, não saberiam governar a cidade, e acrescentava que não podem, não devem e, de resto, não pensam nisso. Na verdade muitos ricos, no dizer de Platão, não se imiscuíam nos negócios públicos e tratavam principalmente de se divertir e aumentar seu patrimônio. Os ricos, escreverá o místico Plotino, geralmente são decepcionantes; pelo menos têm o mérito de não precisar trabalhar e, assim, "formam uma espécie que guarda alguma reminiscência da virtude"; quanto à "massa dos trabalhadores braçais, é uma desprezível multidão, destinada a produzir objetos necessários à vida dos homens virtuosos".
Sem dúvida os ricos não precisam trabalhar; só que, escreve Platão, cometem o erro de trabalhar assim mesmo: por cobiça. Seu amor às riquezas "não lhes deixa um momento de descanso para se ocuparem de outra coisa além de suas propriedades privadas; a alma de cada cidadão hoje se acha presa a seu enriquecimento e nunca pensa em outra coisa senão fazer que cada dia traga seu lucro; cada um está disposto a aprender qualquer técnica, a praticar qualquer atividade que lhe dê lucro, e não lhe importa o resto".

História da vida privada, 1: do Império Romano ao ano mil / organização Paul Veyne ; tradução Hildegard Feist; consultoria editorial Jonatas Batista Neto. — São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

ROMA - O IMPÉRIO DA PROPINA


O IMPÉRIO DA PROPINA
Tudo valia dinheiro. Os postos militares que garantiam a polícia dos campos e ali preenchiam os cargos administrativos [pág. 95] faziam os povoados votar-lhes gratificações (stephanos). Todo funcionário dava um jeito para que lhe molhassem a mão a fim de executar a menor tarefa; a necessidade de tosar os animais sem os esfolar muito levou à divisão equânime dos lucros: as propinas acabaram sendo oficialmente tabeladas e o preço de cada etapa foi afixado nos escritórios. Os administrados tinham o cuidado de se apresentar diante de um funcionário ou de um alto dignitário com um presente na mão; afinal, tratava-se de reconhecer com um símbolo substancial a superioridade dos chefes sobre os comandados.
Às propinas acrescentavam-se as extorsões praticadas pelos altos mandarins. Depois da conquista romana da Grã-Bretanha, a administração militar obrigava as tribos submetidas a levarem suas cotas de trigo a celeiros públicos muito distantes, depois cobrava pela permissão de entregá-lo em celeiros mais próximos. Exigir pagamentos ilegais constituía o grande negócio dos governadores de província, que compravam o silêncio dos inspetores imperiais e dividiam os lucros com seus oficiais e chefes de departamento. O poder central fazia vista grossa, bastava-lhe receber sua parte. Pilhar as províncias como governador era, diz Cícero, "o caminho senatorial de enriquecimento"; um caso fenomenal como o de Verrès, que trouxe sua província da Sicília a rédea curta e estabeleceu ali um terror sangrento, é comparável ao gangsterismo de Estado de alguns presidentes da América Central — Duvalier, Batista, Trujillo. Em menor escala, o princípio do governo de província como empresa econômica privada subsistiu durante todo o Império. Ninguém fazia mistério disso. Os poetas eróticos esperavam impacientemente que os maridos deixassem a esposa para ir enriquecer longe durante um ano de província; declaravam que, por sua parte, viviam apenas para o amor e desdenhavam os cuidados com a carreira e a preocupação de fazer fortuna. Um romano enriquecia em parte à custa dos cofres públicos; um governador recebia escusamente colossais quantias para sua missão e jamais prestava contas; sob a República, tais quantias representavam a maior parte do orçamento do Estado. Quanto ao resto, além [pág. 96] das extorsões, o governador negociava; o último século antes de nossa era viu os negociantes italianos se apoderarem de todas as posições econômicas no Oriente grego com a ajuda interessada dos governadores ali estabelecidos. Por isso os governadores romanos apoiavam os mercadores romanos: corrupção, e não "imperialismo econômico".
Até o último século era honesto enriquecer como governante. Em A cartuxa de Parma, quando o conde Mosca deixa o mistério, pode dar ao grão-duque uma prova incontestável de sua honestidade: tendo chegado aos negócios públicos com 130 mil francos, ao sair possui apenas 500 mil; Cícero, depois de um ano de governo de província, ganhou o equivalente a 1 milhão de francos e pôde vangloriar-se: era bem pouco. Os antigos sistemas administrativos têm em comum com o que chamamos de administração apenas o nome; durante milênios, os soberanos extorquiram impostos ou subjugaram as populações servindo-se de uma máfia chamada administração, exatamente como os reis da França, à guisa de Marinha de guerra, concediam cartas de navegação a piratas que batizavam de corsários e que dividiam com eles os lucros do corso. Ninguém servia o Estado, porém dele se servia — concepção censurável talvez, mas psicologicamente um corsário não é um oficial da Marinha de alma corrompida.
Não se tratava de ser íntegro, mas de ter tato, como um comerciante que não deve deixar a clientela perceber que vende apenas em seu próprio interesse. Ora, enquanto os governantes se servem servindo ao imperador, as populações oprimidas querem poder acreditar que esses senhores paternais as oprimem para seu próprio bem. "Sê obediente e o governador te amará", escreve são Paulo. Assim, é preciso enriquecer sem que atitudes muito explícitas impossibilitem tal crença; o interesse dos funcionários nos benefícios do poder não deve desmentir o desinteresse do próprio poder. De tempos em tempos um processo público dava um exemplo e a cabeça de um governante caía, ou pelo menos sua carreira: esse desastrado manifestara sentimentos cinicamente interessados; encontrou-se uma carta na [pág. 97] qual escrevia à sua amante: "Alegria! Alegria! Venho a ti livre de minhas dívidas, depois de colocar à venda a metade de meus administrados" (é uma das três ou quatro cartas de amor que nos chegaram da Antiguidade). Quanto ao imperador e seus altos funcionários, provavam o desinteresse do poder desmentindo os próprios subordinados; o imperador ostensivamente criticava o fisco — que outra coisa não era senão o administrador dos domínios imperiais —; de quando em quando atendia a uma súplica de camponeses que se queixavam das exações de seus agentes e expedia um edito suprimindo a corrupção: "Que as mãos dos funcionários deixem de ser ávidas, que deixem, repito", escrevia. Quanto aos altos funcionários, fixavam as propinas, o que os legalizava.

História da vida privada, 1: do Império Romano ao ano mil / organização Paul Veyne ; tradução Hildegard Feist; consultoria editorial Jonatas Batista Neto. — São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

AS CIDADES NA CHINA ANTIGA - Parte 2


AS CIDADES NA CHINA ANTIGA
André Bueno.


Este novo modelo de cidade aparece em um momento de transformação da China: antes, um país que vivia da pobreza do campo, "salvo" por seus rituais antigos, e depois, uma civlização em expansão que lutava para se expandir e, ao mesmo tempo, manter uma estrutura que respondeu a todos os seus questionamentos anteriores...mas como dar o próximo passo? Como ir contra a razão de sua própria grandeza?
Nestas condições, a idéia de recorrer à tradição terminou por permear o pensamento chinês em todos os sentidos. Nenhuma resposta era encontrada fora do ritual, e se este mudava, era por que assim os deuses queriam. Logo, sacralizar este tipo de cidade também era importante, já que no momento em que se domina o seu modo de construção, e que este se encontra abençoado pelo céu, os homens passam a operacionalizar sua existência, controlando-o e o expandindo segundo sua vontade.
Desta forma, podemos concluir que a ritualização da pratica de construção das cidades na China Antiga manifesta-se como parte integrante do desenvolvimento das ciências chinesas, onde o conhecimento , quando funcional, e demonstrando respostas satisfatórias as questões materiais, é logo associado ( ou ainda, interpretado) á luz da ascendência mítica que a vontade celeste e o culto as tradições antigas impunham ao sistema representativo e simbólico do pensamento chinês.
Apesar do aparente imobilismo que se insere na cultura chinesa justamente pela formação dessa estrutura de pensamento, completamente voltada para um passado mítico glorioso, devemos notar que a materialização de algumas respostas no campo material, mesmo que pautadas nesse pensamento, representam avanços respeitáveis; afinal, em Chang An, capital da dinastia Han ( século III AC a III DC) o nível de domínio da natureza permitiu as técnicos de "feng shui" construírem um porão de pedra onde era guardado gelo para servir uma espécie de "sorvete" ao imperador no verão.... Esse é apenas um detalhe no complexo sistema de pensamento chinês onde a construção das cidades nada mais é do que uma manifestação em grande escala de uma estrutura cultural onde a questão ritual domina todos os sentidos e áreas produtivas da civilização...
NOTAS
(1) Entendemos aqui o conceito de ritual dentro da perspectiva Funcionalista de Robertson Smith (1889), que afirmava que os rituais não surgiam para "satisfazer uma necessidade teórica ou técnica, mas por uma necessidade "prática" (V.V. Rito Enciclopédia Einaudi. Lisboa, Imprensa Nacional, 1994 v.30 p.328.) A partir de uma determinada problemática material, a civilização chinesa desenvolvia uma série de respostas que, se comprovadas em eficácia, eram fixadas sob forma mecanizada e posteriormente ritualística, quando sua função original se perdia e a atribuição de elementos místicos a integrava no contexto geral dos conhecimentos culturais.
(2) A Noção de modelo aqui apresentada refere-se a conceituação de FREITAS, G. Vocabulário da História, Lisboa, Plátano, 1996. P.184 . ao definir Modelo, ele emprega três interpretações dos quais duas nos são pertinentes; 1. "Instrumento de trabalho mental que consiste em reproduzir qualquer realidade complexa duma maneira simbólica e simplificada, em ordem a permitir verificar seu comportamento
no caso de uma modificação de qualquer uma de suas variáveis" e 2. "padrão que se destina à ser copiado ou reproduzido". Embora seja necessário avaliar, ao longo do texto, as modificações que surgem do desenvolvimento dos modelos de cidades chinesas, empregamos o termo aqui em sua segunda significação.
(3) No livro O Pensamento Chinês, GRANET nos dá uma elucidação abrangente sobre o desenvolvimento da maneira de pensar da civilização chinesa. Em linhas gerais, ela se caracteriza pelo "quase imobilismo" causado pela fixação das práticas operacionais sob forma ritual, o que dificultava o desenvolvimento de novas respostas técnicas às crescentes demandas materiais em virtudes das mesma "confrontarem" o sagrado. O modo de pensar chinês chinês tendia a não diferenciar sob qualquer forma ao avanços técnicos do estudo da natureza, da religiosidade e do misticismo. Assim, o desenvolvimento técnico , muito vezes embasados no próprio arcabouço cultural chinês, era visto sob a ótica de uma "ciência-ritual", ao qual as respostas obtidas eram tidas como "abençoadas" ou derivadas do divino. Um exemplo bem claro está na produção dos cereais, citado na p.245 (v.1) do livro Civilização Chinesa , do mesmo autor, onde a descoberta do cultivo do painço é conscientemente entendido com prática humana, mas atribuída, por sua eficácia, ao Deus Heou Tsi, ou "príncipe painço". Para compreender mais sobre os avanços técnicos, recomendamos também a consulta do grande trabalho de NEEDHAM, Joseph; Science and civilization in China, Cambridge, Cambridge Univer. Press, 1976,
(4) Nos remetemos novamente a idéia de modelo aqui apresentada, como um padrão à ser copiado. Ela resulta do conjunto de práticas pelo qual o esquema de construção de uma cidade, em todas as suas características, atinge potencialidade, reconhecimento, sendo por fim sacralizado.
(5) GRANET (1979) conceitua de forma singular a questão do "lugar-santo". Anteriormente, acreditávamos que a formação dos campos sagrados estava ligada diretamente aos cemitérios, quando na verdade, sua origem é mais antiga: nas páginas 293-294 (vol.1)do seu livro Civilização Chinesa , ele concebe uma nova significação do termo: os "lugares santos" seriam inicialmente lugares de orgias sagradas ou cultos anímicos que conquistaram gradativamente dentro das comunidades sua importância ritual, atraindo então a prática das crenças religiosas. Assim, a construção de cemitérios próximos à esse locais foi uma derivação do culto aos antepassados ( advindo do culto as eras passadas, ou da tradição de uma "antigüidade" mais próxima dos deuses), objetivando a aproximação dos mortos com um centro de energia ou "poder". No entanto, segundo afirmação do autor , não devemos restringir o "lugar santo" à um local pré-determinado: ele pode ser um lugar na natureza, ou mesmo um rio. Mas em todos os casos, sem exceção, a presença desse espaços fora dos perímetros urbanos está fundamentada justamente em seu processo de formação espontânea além do perímetro urbano, onde seus aspectos práticos ( fosse a prática do sexo longe dos olhares da comunidade, fosse a execução de um ato religioso em particular de contato com a natureza, etc.) exigiam certa distância da cidade.
(6) O termo feudalização ,aqui, é empregado em sentido bem próximo ao ocidental, embora temporalmente distante. O processo ao qual aludimos se refere, na China, a concentração das terras por senhores e barões locais, em troca de proteção contra estrangeiros e invasores, economicamente vinculados em contratos de arrendamento e politicamente organizados segundo práticas de servidão e vassalidade, estabelecidas poe meio de juramentos de fidelidade ao senhor maior. No livro Civilização Chinesa vol. 1, p.121, GRANET utiliza o termo por compreendê-lo como conveniente.
(7) Feng Shui, (pronuncia-se Fon shue) é a arte ou técnica de domínio do espaço, empregada na estética e na arquitetura chinesa. Sua descoberta foi atribuída ao místico Duque Chou, ou por vezes ao lendário primeiro imperador, Shi Huang Ti. Controvérsias à parte, sua efetividade foi provada diversas vezes ao longo do desenvolvimento da arquitetura chinesa e sua inserção nas práticas culturais chinesas foi plena. Para saber um pouco mais sobre o assunto, dois bons manuais são o Livro do Feng Shui, do mestre Lam Kan Chuen, São Paulo, Manole, 1998 e Feng Shui- arte milenar chinesa da organização do espaço, de Richard Craze, São paulo, Campus, 1998.

DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL
TUCÍDIDES . História da Guerra do Peloponeso tradução Mário da Gama Kury.
Brasília, editora UNB 1999
HIPPOCRATES,Nature of Man translation by Jones Loeb classical Library, Harvard
University Press, 1995
HIPPOCRATES. Prognosis, translation by Jones Loeb Classical Llibrary. Harvard
University Press, 1995
HOMERO/ A Iliada, tradução de Fernando C de Araújo. Rio de Janeiro: Ediouro,
1997

DICIONÁRIOS
CHEVALIER. Dicionário dos Símbolos 12a ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1998
AURELIO, Mini Dicionário da Língua Potuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985
BIBLIOGRAFIA GERAL
CHAUNI, M. Introdução a história da FIilosofia vol 1. São Paulo: Editora Brasiliense, 1995
DETTIENE, M. Dionisio a Céu Aberto. Rio de Janeiro Jorge Zahar, 1988
ENTRALGO, P.L. La medicina hipocrática. Madrid: Alianza Editorial, 1970
GINZBURG, C A Micro História e Outros Ensaios. Rio de Janeiro: Difel, 1989
HAVELOCH. A Revolução da Escrita na Grécia. São Paulo: Unesp 1996
JONES, P. O Mundo de Atenas. São Paulo: Martins Fontes, 1997
RICHARD SENNET Carne e Pedra o corpo e a cidade na civilização ocidental São
Paulo: Record, 1994
SNELL, B. A descoberta do Espirito. Rio de Janeiro: Editora 70, 1997
VERMANT, J.P. . O Homem Grego. Lisboa: Presença, 1994.

Revista Gaialhia - UFRJ

sábado, 20 de fevereiro de 2010

AS CIDADES NA CHINA ANTIGA - Parte 1


AS CIDADES NA CHINA ANTIGA
André Bueno.


No presente artigo estudaremos de forma introdutória o processo de formação das cidades na China antiga.
Para tal, devemos apontar para dois fatores fundamentais na compreensão da cultura chinesa: a questão do ritual e da estrutura de longa duração que envolve o desenvolvimento das formas de pensar nesta sociedade.
Em primeiro lugar, devemos conceituar de forma razoável a noção de ritual aqui aplicada(1): ela está ligada a constituição de uma série de modelos(2) sucessivos de adaptação ao ambiente, e a operacionalização e eficácia do mesmo, se comprovada, era fixada sob forma ritualística , absorvendo posteriormente os elementos místicos que lhes eram atribuídos. Daí se incorre que a prática de fixação desses modelos constituía uma necessidade de "sobrevivência", e sua reprodução transformava-se quase em lei, dada sua significação.
Devido à essa concepção do ritual, articulamos o segundo ponto de análise: a estrutura de longa duração do pensamento chinês(3). Em virtude da apreciação do domínio do território, os chineses criaram uma idéia de passado mítico, onde os antigos líderes eram filhos de deuses que ensinaram aos homens como viver. Neste ponto, muitos dos rituais são sacralizados, deixando de possuir tão somente suas características práticas para também ganharem um caráter religioso (embora nem todos os rituais fossem igualmente absorvidos pelas diversas religiões da China, e nem as mesmas os compreenderiam da mesma forma). O que importa, porém, é que se criou aí um ponto de atrito estrutural onde o modelo (ritual) construído para manter e expandir a vida começava a se chocar com as novas necessidades advindas da própria expansão possibilitada pelo modelo! Entenderemos isso observando melhor o desenvolvimento desses modelos(4) de complexo urbano criados na China antiga.





Inicialmente, tivemos a criação de comunidades rurais, cujo território era coletivamente trabalhado por duas (no máximo três) famílias de poder patriarcal (mas em menor número também matriarcais), onde a liderança era exercida por conselhos de anciãos. Posteriormente, com a agregação de novos trabalhadores vindos de outros territórios, essas famílias iniciaram uma fase de liderança, exercendo poder servil através de obrigações de trabalho em troca de habitação, comida e defesa aos estrangeiros que vinham habitar suas terras.
Na organização desta primeira comunidade, é de fundamental importância a análise do "Lugar-santo" (que podia ser um campo-santo, um ponto de culto ou até mesmo um cemitério). Esse espaço era um centro de importância comunitária, pois se acreditava que nele estava depositado um grande poder, uma fabulosa energia acumulada pela terra e pela natureza resultante das orgias, da prática dos ritos e que, por conseguinte, atraía a presença dos antepassados e dos espíritos.
O fato de que as primeiras cidades eram construídas em círculos, tais como aldeias muradas, com uma função protetora que dispensava a privacidade entre seus habitantes. Assim, o lugar dos ritos, dos mortos (5) era o único que ficava fora do restritíssimo perímetro urbano, além dos campos, claro.
É no "Lugar-santo" que os chineses jovens fogem com suas amadas e deixam cair no chão seu esperma fecundo; lá, encontram-se os antepassados quando as árvores florescem; é onde se realiza a orgia, onde se bebe, onde se deixa parte da vida pelo vinho, pois o esquecimento da bebedeira é um momento roubado da mesma. Quem detém o poder sobre o "lugar-santo" é o líder da aldeia, pois seu poder é igual ao do campo santo para os membros de sua comunidade: é ele quem observa os ritos, quem controla as leis, que lida com as áreas consagradas aos espíritos. De lá, ele retira parte do fundamento de seu poder Esse simples, porém complexo modelo, surge como o embrião das vilas chinesas, que depois seriam como "ilhas produtivas" (cf. GRANET, 1979, v.1, 1o cap.)
Nessas vilas, o trabalho é dividido, mas todos alternam-se nos serviços existentes Com a unificação de territórios no período de feudalização (6) (aproximadamente século XII A.C.) temos o desenvolvimento de atividades mercantis, que aperfeiçoam o comércio de trocas e o especializam. Porém, como conciliar essa
pequena comunidade agrária cujo modelo ritual é "abençoado" por um novo tipo de comunidade mais dinâmica e integrada?
Temos aí duas respostas: gradativamente, essa evolução veio pelo próprio poder do "campo-santo", que gerava um pequeno mercado a sua volta, e pela conquista de novas terras advindas do crescimento das comunidades em virtude do sucesso de seu modelo produtivo e da ritualização dos relacionamentos matrimoniais, através da sacralização das orgias. Esse crescimento força a expansão da comunidade, e de suas atividades produtivas. Por outro lado , temos também o aperfeiçoamento do domínio das técnicas de habitação e do controle das forças naturais, que dariam origem ao "feng shui' (arte da água e do vento)(7), cujo domínio possibilitava a escolha dos melhores locais para moradia, produção, etc. Essa técnica possuía, originalmente, um sentido prático, e não apenas os caracteres estéticos que hoje lhe são atribuídos.
Por conseguinte, temos o surgimento de um novo modelo de cidade: um lugar escolhido, que possui um campo santo, um mercado e uma guarda. O perímetro aumenta, surgindo então as grandes cidadelas ou muralhas. Neste período feudalizado, a delimitação das cidades pelas muralhas também muda, ganhando novas características: sua forma de ser construída e o perímetro que as mesmas vão cobrir passam a ser definidos pelos senhores locais. Este processo ocorre, obviamente, em decorrência do pragmatismo desses líderes: afinal, só se investiria tempo em muralhas mais fortes para cidades mais importantes. Existiam três tipos de amuradas: para as cidades sem templo, ou com templo não consagrado, havia uma muralha de barro; para as cidades com templo consagrado, uma de tijolos; e por fim, para as cidades sagradas, dos líderes ou com mais de um templo, muralhas de pedra.
A consagração de um templo está ligada a importância da cidade na região: é preciso um alto funcionário para fazê-la, Ela só existe com um grande campo santo e um grande mercado. A muralha é feita pelos súditos em regime de convocação: eles tiram alguns dias de seu trabalho para construí-la. São estimulados por guardas de bastões, recebendo comida e tendo direito de amaldiçoar a muralha e cantar.(cf. GRANET, 1979, v.2, p.91)
Neste contexto, a sacralização de alguns rituais, principalmente no tocante ao da construção das cidades, leva à algumas diferenciações antes não existentes ou
identificáveis: os nobres começam a morar no lado esquerdo, virados para o sul, a direção sagrada; os camponeses e mercadores do lado direito, virados para o norte. Estes detalhes apontam para o início do convívio entre eles, mas ao mesmo tempo da separação mais distinta de grupos dentro da sociedade chinesa.
O que se concebe, dessa forma, é o surgimento de um novo modelo de cidade adequado ao novo contexto, cujo processo de fundação deve ser identificado por suas inovadoras singularidades.
Foram identificadas três formas de surgimento de uma cidade na China antiga: o espontâneo, baseado na antiga comunidade rural, e de certa forma quase inexistente no século X AC; a escolhida, onde uma nova cidade era formada, segundo o interesse de algum senhor de terras em aglutinar trabalhadores, arrotear terras novas, conquistar território, etc, forma essa que se aperfeiçoou com a evolução do "feng shui", utilizado também para remodelar as cidades existentes. E uma terceira forma, "meng", surgida principalmente durante o período imperial, em torno do século IV AC. Esta era uma cidade para fins comerciais, surgida do interesse de mercadores em estabelecerem-se em uma região. Estes procuravam o senhor das terras, ou o governo local, e acordavam a construção de uma cidade fundamentada no mercado, e não no campo ou no "campo-santo". Possivelmente fruto do modo de pensar mascate, esse novo modelo de cidade estava de acordo com os padrões e modelos de construção, sendo a diferença sua função e origem. Esse tipo de cidade recebeu grande impulso imperial porque favorecia o domínio de rotas comercias e de novos territórios. A cidade "meng" era singular: seus mercadores pagavam a proteção do senhor local (ou de uma guarda) e uma taxa pela entrada e saída de produtos estrangeiros de seus perímetros: podiam vender o que quisessem (concessão especial da cidade "meng", já que outros tipos de perímetros urbanos sofriam restrições nesse sentido, não podendo negociar mercadorias sem autorização dos protetores locais), construíam a cidade segundo seus interesses, mas não podiam obrigar o senhor das terras ou o governo local a comprar seus produtos. Da mesma forma, esses líderes locais não podiam exigir, sob forma alguma, qualquer espécie de tributação em mercadorias dos comerciantes instalados em suas "meng", além das taxas anteriormente citadas.

Revista Gaialhia - UFRJ

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

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Eduardo Marculino

A arte de ser feliz


Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.


Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que as coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para vê-las assim."

"A arte de ser feliz"
Cecília Meireles

Jihad e escravidão: as origens dos escravos muçulmanos da Bahia


Jihad e escravidão: as origens dos escravos muçulmanos da Bahia
Paul E. Lovejoy

Sabe-se que a configuração étnica da população baiana modificou-se significativamente nas últimas décadas do século XVIII e ao longo do seguinte, quando Hauçás, Nupes e outros povos islamizados tornaram-se comuns entre os escravos, em especial a partir dos volumosos desembarques de cativos de fala Ioruba no século XIX.1 As origens desses escravos muçulmanos podem estar relacionadas ao contexto próprio das áreas interioranas da Baía de Benin e à jihad do Xeque Usman dan Fodio (morto em 1817), fundador do Califado de Sokoto. Deste modo, este estudo examina o material biográfico disponível, em uma tentativa de oferecer subsídios adicionais acerca da comunidade muçulmana para, assim, estabelecer mais claramente as ligações entre os padrões de resistência à escravidão na Bahia, que culminaram na insurreição Malê de 1835, e o movimento da jihad no interior da Baía de Benin.
Em um estudo anterior examinei 108 indivíduos cuja escravização no interior daquela zona foi seguida de sua migração para a Bahia ou, pelo menos, tinha-se tal destino em pauta.2 A ele foram acrescentadas outras biografias, do que derivou uma amostragem agora redefinida para 117 indivíduos originários do Sudão Central (veja-se o apêndice), região interiorana em relação à Baía de Benin que compreendia zonas de savana e parte do sahel, e que caiu sob dominação do Califado de Sokoto no século XIX.
Por certo, nem todas estas pessoas desembarcaram na Bahia, e algumas acabaram em Serra Leoa, por exemplo.3 Contudo, o grau de concentração da população escrava islamizada da Bahia permite-me supor que as características dos cativos libertados em Serra Leoa, e de outros que não alcançaram o Brasil, são representativas dos padrões históricos mais amplos, transferidos para solo baiano através da jihad; embora, é claro, reinterpretados pelas condições locais.

A associação entre a jihad e a população muçulmana deslocada para o Brasil constitui-se em um tema complexo, do qual nos aproximamos aqui, como já se disse, por meio do exame das histórias de vida de indivíduos escravizados no Sudão Central. Conforme discutido em outro trabalho, a eclosão da Guerra Santa muçulmana, em 1804, sucedeu a um período de turbulências políticas que eram, em parte, caudatárias de reações à escravização de muçulmanos que alegavam ser livres, e sua exportação para as Américas.4 Contudo, longe de pôr termo à escravização e à exportação de islâmicos, aparentemente a jihad teve por efeito a disseminação do câncer do cativeiro, com freqüência vitimando pessoas que imaginavam que a submissão ao Islã poderia protegê-las da deportação para além-mar. Por outro lado, até mesmo muitos opositores da Guerra Santa que se encontravam escravizados voltaram-se para o Islã militante no Brasil, promovendo a causa revolucionária da jihad como forma de obter maior autonomia ou a liberdade. A grande extensão do Islã militante na Bahia derivava do fato de que os muçulmanos enviados para as Américas encontravam-se ali fortemente concentrados. É possível que de 100 a 150 mil escravos do Sudão Central (excluídos os Iorubas setentrionais) tenham cruzado o Atlântico entre meados do Setecentos e a primeira metade do século XIX. Tal estimativa inclui os cativos identificados como Hauçás, Nupes, Bornos, Borgus e outras designações que indicam uma origem ao norte da Iorubalândia.
De 75 a 124 mil destes escravos partiram entre 1800 e 1850, com a grande maioria dirigindo-se, sem dúvida, para o Brasil, especialmente para a Bahia.5
Os identificados como “Iorubas do norte” (i.e., Oyo, Ekiti, Yagba e Okun Ioruba) também estavam bem representados na população exportada6 e, embora ainda não seja possível calcular o número de Iorubas setentrionais, estes eram certamente numerosos. Por conseguinte, nossa análise vai além do foco mais antigo representado pelas populações Hauçá, Nupe e Borno, ainda que as estimativas da escala da migração forçada de áreas afetadas pela jihad de Sokoto não incluam os Iorubas. Com esta perspectiva mais ampla, tenta-se capturar as áreas nas quais a jihad estava sendo levada a cabo até meados do Oitocentos.
Apesar dos dados não serem conclusivos, pode-se dizer, em uma estimativa conservadora, que os escravos do Sudão Central constituíam de 10 a 15% dos escravos exportados pela Baía de Benin nas décadas de 1770 e 1780, proporção que subiu nos anos 90 e ao longo da primeira década do século XIX, com a concomitante queda do número de escravos originários de áreas costeiras.
Em termos globais, é possível que 40 ou 50 mil escravos centro-sudaneses tivessem sido exportados pelo Atlântico no século XVIII. Após este período, a proporção de cativos originários daquela região, em relação ao total de exportados através da Baía de Benin, conheceu acentuadas flutuações.
No início da década de 1810, na primeira metade dos anos 20 e durante a primeira parte da década de 30 do século XIX, quando as exportações globais da Baía de Benin foram relativamente baixas, os escravos do Sudão Central talvez representassem de 25 a 40% do total vendido. Em anos-pico de fins das décadas de 1810, 1820 e 1830, a proporção de centro-sudaneses provavelmente caiu para 15% do total das exportações daBaía de Benin.7 Nestas ocasiões, a quantidade de Iorubas era grande, em especial a de Iorubas meridionais.
As origens étnicas dos escravos do Sudão Central

A maioria dos escravos que vieram do Sudão Central, no século XVIII, chegou à Baía de Benin através de Oyo. Comerciantes muçulmanos da região sudânica eram muito ativos naquela área já na primeira década do Setecentos, quando traziam escravos, panos e marfim à costa em troca de álcool, cauris e outros bens.8 Por volta de meados do século, escravos Hauçás eram comuns em Oyo, tanto para uso doméstico quanto militar.9 Nas décadas de 1780 e 1790, à margem deste mercado doméstico, as reexportações de cativos centro-sudaneses para as Américas através de Oyo (por
meio de seus portos ao longo da “Costa dos Escravos”) parecem ter crescido, em resposta à demanda americana por fontes adicionais de cativos. De fato, Porto Novo emergiu como o principal porto de Oyo, e seu comerciante mais importante nos anos 80 e 90, Pierre Tamata, um antigo escravo de origem Hauçá que fora educado na França, chegou a viajar para o Brasil.10 Neste período, poucos cativos, se é que os havia, foram exportados do Sudão Central através da Baía de Biafra ou da Costa de Ouro.11

Matéria completa no endereço
http://www.revistatopoi.org/numeros_anteriores/Topoi01/01_artigo01.pdf

Revista Topoi - UFRJ

Medéia - Ritos e Magia

A variante do mito de Medéia utilizada por Eurípedes em 431 a.c. é vista por nós como uma tentativa de reflexão e de criação do poeta em face a acontecimentos contraditórios, então vivenciados pelos atenienses.

Ler o artigo no endereço
http://www.revistaphoinix.kit.net/Phoinix%201996/artigo016_1996.pdf