quarta-feira, 30 de abril de 2014

A Morte de Hitler

Voltaire schilling

Em  exposição organizada em Moscou, as autoridades russas expuseram uma parte superior do que se supõe ser o crânio de Adolf Hitler, ditador da Alemanha entre 1933 e 1945, que se suicidou no dia 30 de abril de 1945. Leia sobre os últimos dias que antecederam a sua morte.


Última foto de Hitler, capa de um dos inúmeros livros a seu respeito


"Se não chegarmos a triunfar não nos restaria senão, ao soçobrarmos, arrastar conosco metade do mundo neste desastre". - Hitler a H.Rauschning, "Gesprache".

O ambiente no bunker era tenso, sufocante. Faziam mais de cem dias, entre entradas e saídas, que um pequeno grupo de funcionários, oficiais e oligarcas nazistas, estavam lá entocados como lobos acuados ao redor de Adolf Hitler. Construída nos jardins da Chancelaria do Reich, em Berlim, a casamata tinha a função de protegê-los dos ataques aéreos aliados que devastavam a capital da Alemanha. Acentuando ainda mais a situação troglodita e claustofóbica em que viviam, chegou-lhes a notícia que o Exército Vermelho estava às portas. No dia 18 de abril de 1945, um colossal vagalhão blindado de tanques, canhões e aviões, esparramou dois milhões e meios de soldados russos para as cercanias da cidade. Mais de um milhão deles combateram uma espetacular batalha de ruas, contra as derradeiras forças da resistência alemã. Ao preço de 300 mil baixas, os soviéticos penetraram-na por todos os lados.


Foto do fantasmagórico bunker de Hitler


A última aparição de Hitler

Hitler ainda recebeu alguns convidados mais próximos para seu aniversário em 20 de abril. Há uma foto dele na ocasião. Com a gola do capote levantada, ele cumprimenta, do lado de fora da Chancelaria do Reich destruída, alguns jovens garotos da juventude nazista que haviam se destacado na defesa desesperada da cidade. O Führer estava uma ruína humana. Os últimos acontecimentos haviam-lhe retirado a seiva. Sua tez acinzentou-se, o rosto encovou-se e os olhos adquiriram uma opacidade de semimorto. Para consolá-lo e sacudi-lo da letargia depressiva em que se encontrava, Joseph Gobbels, seu Ministro da Propaganda, lia-lhe diariamente trechos da "História de Frederico o Grande", de Carlyle, especialmente a passagem onde é narrada a milagrosa salvação daquele capitão-de-guerra prussiano na Guerra dos Sete Anos (1756-63), que escapou do destino dos derrotados devido a um desacerto ocorrido entre seus inimigos.

A determinação de ficar ali e travar a batalha final foi tomada numa reunião no dia 22. Inspirando-se na tradição nórdica do herói que morre solitariamente num último combate, ou no sepultamento do guerreiro viquingue incinerado no seu barco de comando, Hitler comunicou a todos a intenção de comandar pessoalmente as operações. Recebeu, porém, telefonemas de alguns seguidores e de outros generais que instaram para que se retirasse enquanto havia tempo. O Führer manteve-se intransigente. Ninguém o arrastaria para fora da liça.

O atentado de 20 de julho e o desencanto
Uma das razões, mais remotas, da aparência cinzenta e desencantada de Hitler, resultou do choque que ele teve, nove meses antes, do atentado cometido contra a sua vida. Naquela ocasião, no dia 20 de julho de 1944, um grupo de conspiradores, quase todos altos membros da hierarquia militar e integrantes da nobreza alemã, conseguiram fazer com que o coronel do estado maior Claus Schenk von Stauffenberg, colocasse uma bomba no quartel-general do Alto Comando. O artefato explodiu na sala de reuniões onde Hitler estava presente, mas apenas provocou pequenas escoriações nele. Refeito do susto, o ditador ordenou uma caçada em massa contra todos os envolvidos, que terminaram executados depois de serem sumariamente condenados à morte num Tribunal Popular. O outro motivo que levou Hitler a desejar suicidar-se, e em seguida ser incinerado, decorreu da notícia que ele recebeu do destino infausto do ditador fascista Benito Mussolini. O Duce fora capturado em Dongo, no norte da Itália, por partisans comunistas, e seu corpo foi exposto, pendurado de cabeça para baixo num posto de gasolina em Milão, junto ao da sua amante Claretta Petacci, em 28 de abril de 1945. Hitler temia que seu cadáver fosse profanado ou levado como troféu de guerra para a URSS.

O casamento e uma traição

Hitler e Eva Braun
Poucos dias depois de ter tomado a decisão definitiva, resolveu formalizar sua união com Eva Braun, encomendando um casamento de emergência dentro do abrigo. O casal decidira por fim à vida juntos. Hitler tinha-se mantido solteiro, até então, em nome da mística que sua solitária figura messiânica exercia sobre o povo alemão. O salvador não poderia ser um homem comum, com esposa e filhos, envolvido pela contabilidade doméstica, e na rotina matrimonial burguesa.

Teve ainda um espumante ataque de fúria quando soube (ele, mesmo nos estertores, ainda era informado de tudo), que Heinrich Himmler, o Reichsführer SS, havia, às suas costas, à socapa, contatado com o legatário sueco, o conde Bernadotte, para negociar uma paz em separado com os exércitos ocidentais, que avançavam Alemanha a dentro vindos do Rio Reno. Numa das suas derradeiras ordens, determinou a expulsão sumaria dele do Partido Nazista, exonerando-o de todos os cargos de chefia. Mas aquela altura de nada adiantava.

O momento final
No dia 29 de abril, deu-se a reunião final. O General Weidling, governador militar de Berlim, e comandante da LVI Panzer Corps, ainda aventou a possibilidade de uma escapada pelas linhas soviéticas, mas Hitler o dissuadiu. Não tinham nem tropas, nem equipamento, nem munições, para qualquer tipo de operação. Era ficar e morrer!

O Führer então despediu-se formalmente das pessoas mais próximas que ainda o seguiam até aquele momento. Pressentindo o suicídio, os que estavam no bunker reagiram de uma maneira inesperada. Muitos, após colocarem discos na vitrola, puseram-se a dançar e alegremente, confraternizaram com os demais, como se um esmagador peso, repentinamente, tivesse sido removido de cima deles. O fascínio de feiticeiro que Hitler exercera sobre eles cessara como que por encanto.

Depois do almoço, no dia 30 de abril, trancou-se com Eva Braun nos seus aposentos. Ouviu-se apenas um tiro. Quando lá penetraram encontraram-no com a cabeça estraçalhada à bala e com a pistola caída no colo. Em frente a ele, em languidez de morta, estava Eva Braun, sem nenhum ferimento visível. Ela ingerira cianureto, um poderosíssimo veneno. Eram 15:30 horas! Rapidamente os dois corpos, envolvidos num encerado, foram removidos para o pátio e, com o auxilio de 180 litros de gasolina que os embeberam, formaram, incendiados, uma vigorosa pira. Ao redor deles, uma silenciosa saudação fascista prestou-lhes a homenagem derradeira.

Berlim, o mausoléu de Hitler
Lá fora, a capital do IIIº Reich também ardia num colossal braseiro. Monumentos, prédios públicos, palácios, edifícios, casas, praças e avenidas, pareciam um entulho só. Os sobreviventes, apavorados com o terrível rugido dos canhões e das bombas, que lhes soavam como se fosse o acorde final do "Gotterdammerung", o wagneriano "Crepúsculo dos Deuses", acreditavam que a hora do apocalipse chegara. Berlim, com 250 mil prédios destruídos, virara um cemitério lunar. A grande cidade, transformada em ruínas, assemelhava-se a um fantástico mausoléu erguido pela barragem de fogo aliada para sepultar uma das monstruosidades do século. Hitler suicidara-se aos 56 anos, e o seu regime, que segundo seus propagandistas mais pretensiosos deveria ser o Reich de Mil Anos, naufragou com ele doze anos depois dele ter assumido a Chancelaria da república alemã, em janeiro de 1933.
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Rapidinhas da História...





A versão oficial garante que Hitler e Eva Braun se mataram em 30 de abril de 1945

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Operação Capela - Segredos de convenção


Nos anos 70, sargento Vallejo percorria em sua Kombi disfarçada as paróquias do interior e 'convencia’ padres a colaborar com o regime

Bernardo Kucinski*

Capivari ficou para trás. Próxima parada, Monte Mor. Faz calor. A estrada corta por monótonas lavouras de cana e um ou outro rancho abandonado. Quase não há sitiantes depois da lei da Concentração Fundiária Obrigatória. Mata de sombra também rareia. O sargento Vallejo resmunga. Estradinha pior que tábua de raspar mandioca. A Kombi sacoleja feito britadeira. Vallejo tenta evitar a ressonância dirigindo pelas beiradas. Para essa missão tinha que ser um Ford, ou que fosse um Jipão, ele pensa, sentindo o corpo moído.
Jorge Mascarenhas
"Vallejo estaciona a Kombi numa sombra da pracinha e se aboleta num boteco, para tomar uma cerveja."

Alegaram que a Kombi branca disfarça melhor. De fato, se perguntam ele diz que é da profilaxia. A maioria responde "ah, bom". Sempre perguntam, gente curiosa. Não sabem o que é profilaxia, mas a palavra impõe respeito. Povo ignorante. Se algum mais enxerido quer saber do que, ele fala, é geral, de tudo. É federal, ele arremata. Aí, ninguém pergunta mais nada.

A missão do sargento Vallejo é ultrassigilosa. O codinome é Operação Capela, mas de tão secreta não tem nada escrito. As ordens são todas de boca. Cada expedição dura 20 dias. O duro é ficar longe de casa, almoçando cada dia feijão de tempero diferente, dormindo onde dá. Também não gosta da missão, preferia a tropa. Entrou no Exército para ser soldado, não para ser espião. Mas o major insistiu, missão importante, ele disse. E tinha gratificação por fora. Vallejo não simpatiza com os utopistas, mas não gostou do que fizeram com a madre. Ficou abalado. Uma freira é quase uma santa. Está certo que prometer uma sociedade sem dinheiro e sem exército é estupidez, mas não era o caso de fazer o que fizeram.

Essa é sua quinta sortida. Com o tempo descobriu que leva jeito. Talvez porque estudou em colégio de padre. Muito jeito. O major elogiou. De toda a força tarefa, ele estava se saindo o melhor, disse. Eles são 12, escolhidos a dedo. Cada um fica com uma região.

Vallejo foi selecionado porque sabe tudo de religião. Quando era moço pensou em ser padre. Era o desejo da mãe. Não deu certo. Agora, o destino o colocou de volta dentro das igrejas. Já conhece um punhado de padres. Conseguiu recrutar dois, o padre Gonçalo, de Itupeva, e o padre Laércio, de Rio Pardo. Também descobriu que o dominicano de Bofete era utopista. Dele devem ter arrancado o nome da madre superiora. Sente um pouco de culpa...

O sargento Vallejo trabalha com duas listas, ocultas no fundo do alforje, junto ao revólver e os envelopes de dinheiro. A lista base, como ele chama, é a de todas as paróquias e padres que rezam missa e exercem o sacramento da penitência. São mais de 90 na sua área. Ele nunca pensou que tivesse tanto padre nesse interior largado e pobre de tudo. É uma lista pormenorizada e de aparência inocente. Foi preparada pelo arcebispo. Diz a ordem a que o padre pertence ou se é secular, quanto tempo está na paróquia, idade, de onde veio. Se um deles morre ou é transferido, ele risca, se é novo e não está na lista, ele acrescenta. A outra relação é a dos delegados de polícia, para os quais ele tem que entregar os envelopes. Todo o resto é memorizado. No retorno, ele reporta.

Depois que Vallejo desenvolveu seu método, a missão ficou fácil. Ele chega do meio para o fim da missa e procura o genuflexório mais perto do altar, caminhando com passadas firmes, barulhentas, fazendo-se notar, preocupado e contrito, o chapéu nas mãos juntas, em sinal de humildade e respeito. Terminada a missa dirige-se ao confessionário.

Na primeira confissão cuida de não se precipitar. Faz-se um pouco de bobo. Diz que o demônio está tentando o filho, o rapaz meteu-se numa turma que ataca as autoridades e volta tarde para casa, e nessa turma mistura homem e mulher; pede perdão por não ter educado os filhos no caminho da fé e da Santa Madre Igreja, e pergunta o que fazer. É basicamente essa a primeira conversa. Pela reação do padre ele faz uma primeira classificação. Os carismáticos reagem com severidade, acusam o filho de grave ofensa a Deus e de estarem no caminho da perdição. Exigem que o pai o obrigue a abandonar as más companhias. Os padres simpáticos aos utopistas desconversam, alguns se atrapalham um pouco; a maioria diz que jovens são assim mesmo, Cristo também se voltou contra os fariseus e por isso foi crucificado; nada disso é pecado. Recomendam trazer o filho à liturgia. Absolvem sem prescrever penitência.

Tanto num caso como no outro, o passo seguinte é o contato com o delegado. Por causa disso a Kombi branca é boa. Se fosse só para se confessar na Igreja podia ser qualquer carro, até uma moto servia. Primeiro ele entrega ao delegado o envelope com a gratificação e pede visto na lista e a data. Essa parte não faz parte da Operação Capela. Por isso tem recibo. Todos os delegados estão no programa, por ordem superior.

Tem um ou outro, como o dr. Junqueira, de Chaves, que finge colaborar, mas não passa nada. Ele já se queixou dele pra fábrica. A maioria ajuda, dá a ficha toda. Ele fica sabendo se o padre é devasso, como o de Rio Pardo, se já foi acusado de pedofilia ou se tem caso com mulher, ou alguma acusação pendente, ou se já chegou corrido de outra paróquia.

Esses padres ele traz pro programa fácil, é falar da ficha e eles se apavoram. Foi assim com o padre Laércio e com o padre Venâncio, de Mairinque flagrado forçando uma beata na cama. O bispo abafou os dois casos, mas o delegado tinha as fichas. Esse delegado, o dr. Gumercindo, é dos melhores. O envelope dele é o mais gordo. Merecido. Padre bem conservador ele consegue trazer para o programa mesmo não tendo ficha. É só falar das igrejas incendiadas pelos anarquistas na Espanha. Aprendeu isso no treinamento.

Se o padre é simpático aos utopistas, a diretiva é descobrir quem são seus amigos e se a paróquia oferece curso de alfabetização ou costuma abrigar forasteiros. Mas isso tudo é incumbência do delegado, não é mais com ele. Cabe também aos delegados plantar os olheiros na missa para anotar se os sermões são subversivos. E mandar relatório para a fábrica.

Não deixa de ser divertido, pensa o sargento Vallejo, ao se lembrar da cara do padre Laerte quando ele falou dos meninos do coro. Esse tipo de padre ele odeia. Não tem contemplação, fazem voto de castidade, mas são impostores e pervertidos, só usam batina em vez de calça pra tirar o pau pra fora mais fácil.

A estrada segue esturricada e poeirenta. Já se avista o campanário de Monte Mor, encimando o amontoado de casas. Vallejo lembra da mãe, católica praticante. Deus a tenha. Ela não ia gostar da missão. Pensando bem, não é mesmo coisa boa. Vallejo sente o corpo quebrado depois de tanta trepidação. De fato, a mãe não ia gostar. Nem um pouco. Pensar que ele entregou aquele dominicano de Bofete, um garoto ainda. O rosto redondo e rosado do rapaz não lhe sai da cabeça.

Vallejo estaciona a Kombi numa sombra da pracinha e se aboleta num boteco, para tomar uma cerveja. Ainda é cedo para a missa das 6. Da porta do boteco ele divisa a estrada perdendo-se ladeira abaixo, até atingir o pé do morro, depois subindo morro acima até sumir num fio. Ali é um morro depois do outro. Lavoura mesmo tem pouca. Terra cansada. Muito cupim, isso sim. E os alambiques. Ali tinha sido terra de gente antiga e pinga boa. Pena que veio essa lei e expulsou a maioria.

O corpo quebrado requer cachaça, pensa Vallejo. Depois da cerveja, pede uma dose dupla. Pra matar o bicho, fala. Nada de 51 ou Velho Barreiro. Pinga de alambique. Servem uma de Cabreúva. Ele emborca a dose dupla e mais outra, e a terceira. Da porta do boteco, acompanha o sol se pondo, as sombras se alongando, a estrada se desvanecendo no lusco-fusco. Aqui nem pensão de viajante tem, vou ter que pousar em Sumaré ou Hortolândia, calcula.

Merda de missão especial. Não fosse o relatório dele, o dominicano não seria preso e não pegariam a madre. O sino da igreja toca as badaladas das 6. Vallejo deixa passar 20 minutos, paga e entra na Igreja. A missa está pela metade. Com esse padre ele já se confessou uma vez. Lembra de ter ficado confuso. Não soube classificar. Não parecia da ala carismática nem simpático aos utopistas. Também não era moço nem velho, uns 40 e poucos anos. Esses são os mais difíceis de classificar.

Fez como sempre. Acabada a missa foi se confessar. O padre disse o de costume, confesse seus pecados meu filho que Deus te perdoa. Então, aconteceu. Deu um chilique no sargento Vallejo e ele confessou mesmo tudo, falou da Operação Capela, do dominicano delatado por ele, falou da fábrica, como era, como eles liquidavam uns e outros. Falou até do estupro da freira. Quando terminou estava exausto e suava frio. Na Igreja não havia mais ninguém.

O sacerdote saiu do confessionário, deu a volta, ergueu o sargento Vallejo pelo ombro e conduziu-o, amparado, até a sacristia. Não trocaram palavra. Vallejo, ainda tonto, compartilhou com o padre um caldo de galinha e broas de milho. Depois deitou-se ali mesmo, de comprido, no banco largo de madeira forrado com um acolchoado. Logo caiu em sono profundo. O padre então tirou as botinas do sargento, devagar, para não acordá-lo. Depois o cobriu com uma manta.

Naquela noite o sargento Vallejo respirou pesado. Ao despertar sentiu ter dormido o sono dos justos. Pensou no que fazer. O padre, sentado do outro lado da mesa, nada dizia. Não o admoestava, nem o acarinhava. Só observava. Sobre a mesa, uma coalhada, as broas de milho e as duas listas estendidas, como se o padre as tivesse decifrado.

O café exalava cheiro forte. Vallejo tomou uma xícara, devagar. Foi aos poucos clareando o pensamento. O padre, só olhando. Vallejo tirou da sacola os envelopes com os nomes dos delegados. Em cima da mesa foi abrindo um por um. O dinheiro ele amontoava e os envelopes, rasgava. Depois separou as notas em dois montinhos iguais, uma aqui a outra ali, uma aqui, outra ali. Pediu ao padre mais café. Terminou de dividir. Um dos montinhos ele empurrou para o padre. É o óbolo, disse.

O outro montinho ele enfiou no bolso da calça. Sua bênção, padre. Deus te abençoe, meu filho disse o padre. Vallejo levantou-se, apanhou as listas e as rasgou em pedacinhos. Na porta da sacristia ainda se deteve e deu um aceno de despedida. Depois montou na Kombi e pegou a estrada. Tinha que achar uma funilaria para pintar o carro. Não sei se vendo ou se aproveito para abrir um negócio qualquer de ambulante. Kombi é carro bom pra fazer pastel em feira, ele pensou. Entrou em São Paulo alta madrugada pela Lapa de Baixo. Ao cruzar uma esquina escura parou, desceu da Kombi e atirou seu revólver num latão de lixo.

* Bernardo Kucinski, jornalista e escritor, é autor, entre outros livros, de K - relato de uma busca e Você vai voltar pra mim - e outros contos (Cosac Naify). Este texto inédito é, na definição de Kucinski, uma "história ficcional baseada em fatos".
Jornal O Estado de S. Paulo

Notícias História Viva


Pegadas humanas de 800 mil anos são descobertas

AE - Agência Estado

Uma equipe de cientistas do Reino Unido anunciou nesta sexta-feira a descoberta de pegadas humanas datadas de mais de 800 mil anos na Inglaterra. São as mais antigas fora da África e os primeiros indícios de vida humana no norte da Europa.

Um grupo formado por pesquisadores do British Museum, do Museu de História Natural e da Universidade de Londres descobriu as impressões de até cinco indivíduos na lama fossilizada de um estuário em Happisburgh, na costa leste do país.

Para Nick Ashton, cientista do British Museum, as impressões são "uma tangível ligação com os nossos primeiros parentes humanos".

Os cientistas disseram que essas pegadas podem ser do Homo antecessor - hominídeo extinto que surgiu há cerca de 1,2 milhão de anos e perdurou, pelo menos, até cerca de 800 mil anos atrás -, cujos restos fossilizados foram encontrados na Espanha e datam de 800 mil anos atrás. A descoberta foi publicada na revista científica PLOS ONE. Fonte: Associated Press. 
Jornal O Estado de S. Paulo

Notícias História Viva

Missão espanhola faz descoberta que pode rever cronologia faraônica
Estudo escavou restos de um muro e colunas de mausoléu na região de Al Asasif

EFE

Uma missão de arqueólogos espanhóis e egípcios fez uma descoberta em uma tumba no sul do Egito que abre portas à reinterpretação da cronologia faraônica, pois poderia demonstrar que Amenhotep III e seu filho Amenhotep IV, conhecido como Akenaton, reinaram juntos.
EFE/ Ministério de Antiguidades do Egito
Amuletos e estátuas foram expostos junto a três esqueletos humanos e um sarcófago

A missão, liderada pelo arqueólogo espanhol Francisco Martín Valentín, escavou os restos de um muro e as colunas do mausoléu de um ministro da XVIII dinastia faraônica (1569-1315 a.C.) na região de Al Asasif, na província meridional de Luxor.

O grande diferencial da descoberta, explicou Valentín à Agência Efe, é que na escavação foram encontradas gravuras com os nomes de Amenhotep III e Amenhotep IV juntos.

Isto, segundo o especialista, "pode confirmar que os dois reis governaram juntos entre nove e dez anos dos 39 de Amenhotep III, já que os textos das colunas explicam que eram soberanos do Alto e do Baixo Egito". "Não há nada semelhante na história faraônica", afirmou taxativamente Martín Valentín.

O chefe do departamento de Egiptologia do Ministério de Antiguidades egípcio, Ali Asfar, destacou a importância dos nomes destes dois faraós aparecerem juntos. Asfar reconheceu que é muito complicado estabelecer as datas exatas dos reinados faraônicos, mas admite que este caso poderia obrigar a uma revisão das cronologias já estabelecidas, pois "confirmaria que ambos reinaram juntos".

Os reinados de Amenhotep III, também conhecido como Amenofis III, e de Amenhotep IV, que entrou para a história sob o nome de Akenaton, estão entre os mais relevantes do Egito Antigo por razões diferentes. O pai governou um país que conheceu um dos maiores períodos de prosperidade e estabilidade interna de sua história, com um longo mandato de quase quatro décadas.


Até agora, os especialistas pensavam que o filho havia se rebelado contra a forma do pai de conduzir o reinado e que, após sucedê-lo no trono após sua morte, adquiriu o nome de Akenaton e instaurou pela primeira vez o monoteísmo, com Aton como deus oficial.

No entanto a descoberta, explicou Martín Valentín, dá a entender que pai e filho estavam de acordo nessa autêntica revolução, já que compartilharam o reinado por uma década. A missão escolheu a tumba do ministro real, identificado como Amenhotep Huy, com a convicção que nela poderiam ser encontrados documentos que confirmassem o reinado conjunto.

"Desde 2009 trabalhamos neste lugar, onde escavamos cerca de 400 metros quadrados, e esperamos novas descobertas nos 600 metros quadrados que ainda faltam", disse o arqueólogo, antes de acrescentar que ninguém tinha escavado antes esse mausoléu inacabado.

Segundo o espanhol, Amenhotep III governou entre 1397 e 1340 antes de Cristo, por cerca de 38 anos, enquanto Amenhotep IV esteve à frente do país entre 1360 e 1348 a. C, ou seja, por 17 anos. A descoberta indicou que foram nesses dez anos de reinado conjunto que teria explodido a chamada "revolução atoniana". "Acho que tanto o pai como o filho, ou toda a família real, promoveram essa revolução, que deslocou o deus Amon, que era venerado em Tebas, capital faraônica de então", comentou Martín Valentín. 
Jornal O Estado de  S. Paulo

Reis Magos: origens e tradições populares brasileiras


Bandeira de Folia de Reis
 Xilogravura Bumba-Meu-Boi

Cartaz da “Cabalgata de Reyes Magos” (1999, Sevilha-Espanha)


A história dos personagens cristãos e suas representações na cultura


As celebrações em louvor aos Reis Magos ocorrem basicamente entre o Natal e 6 de janeiro, dia de Santos Reis: é o terceiro momento do ciclo festivo do Natal, que se integra ao patrimônio artístico e cultural. Para alguns, esta alegre manifestação de religiosidade popular teria surgido entre nós; entretanto, ela se originou bem mais remotamente. Esses personagens bíblicos surgem no capítulo 2 do Evangelho de São Mateus, no episódio da Adoração dos Reis Magos, que a eles alude vagamente, sem especificar nomes, categorias, número ou procedência. Após meditação exegética, Apologistas e os Pais da Igreja – Gregório, Ambrósio, Jerônimo, João Crisóstomo, Agostinho e Tomás de Aquino, entre outros, formularam os primeiros dogmas e rituais cristãos e se manifestaram sobre os Magos.

No século VI, os Magos já eram considerados “Reis” e o Papa Leão I, o Grande, fixou-os em número de três. No século XII, em documento atribuído ao monge beneditino inglês Beda, surgem os nomes definitivos: Gaspar, Balthazar e Melchior, e suas descrições foram estabelecidas. Os Magos influenciaram artes e tradições populares desde os primórdios da cristandade. O pesquisador francês Gilbert Vezin, autor da obra clássica “L’Adoration et le cicle des Mages dans l’art chrétien primitif" afirma de modo categórico: “O tema da Adoração dos Magos foi o assunto mais popular e frequente que se expressou na Arte, no Oriente e no Ocidente”.

Na Idade Média, em Creccio-Itália, São Francisco de Assis concebeu, em 1223, a representação da cena da natividade (Presépio), na qual se incorpora a figura dos Reis Magos. Esta criação difundiu-se por toda a cristandade, dando notável impulso ao processo de evangelização da doutrina cristã, passando a estar também presente nos lares mais humildes em zonas rurais e pequenas localidades distantes dos aglomerados urbanos.

Surgiram também estórias e lendas envolvendo os Reis Magos, no sentido de “(...) complementar o que faltava à imaginação popular (...)”, anota o historiador de arte francês Émile Mâle, em artigo publicado nos alvores do século XX, na Gazette de Beaux-Arts. Prossegue o autor: "O povo achava os evangelhos muito suscintos(...). Nenhuma das cenas da infância de Cristo forneceu mais material para o povo que a ‘Adoração dos Magos’. Suas misteriosas figuras mostradas veladamente nos evangelhos despetavam ávida curiosidade nas pessoas.” Dentre essas histórias, sobressai o manuscrito Historia Trium Regum, de Johannes von Hildesheim, carmelita alemão e professor de teologia em Paris, publicado entre 1364-1375, para elucidar a origem dos Magos.

Seus restos mortais, transladados do Oriente para o continente europeu, estiveram desde o século VII abrigados inicialmente num modesto templo construído à época nos arredores de Milão, na Itália. A partir de 1164 seguiram para a Alemanha e encerrados numa urna dourada instalada no altar mor da Catedral de Colônia. Esta grandiosa obra de arte - ouriversaria passou a ser conhecida como “Relicário de Santos Reis”.

O assunto é...

O texto de Hildesheim mereceu ensaio crítico, na reputada coleção "Early English Text Society", em 1876, assinada por seu presidente C. Horstmann, reconhecendo “(...) o grande número de manuscritos espalhados na Inglaterra e por toda Europa cristã, o que comprova a grande popularidade do referido manuscrito”. E conclui: “(...) o assunto dos Três Reis Magos tornou-se um dos temas favoritosda Idade Média, eram os santos mais populares do mundo cristão”. Afora a Terra Santa, as peregrinações a Colônia só eram suplantadas pelas de Roma e de Santiago de Compostela.

A presença dos Magos nas artes visuais alcançou o apogeu na Renascença: artistas de muitas nacionalidades retrataram a Adoração dos Magos. Giotto di Bondone(1266-1337) representou como cometa a estrela que conduziu os Magos do Oriente a Belém, depois de o Cometa Halley passar sobre a Europa, em 1301. O próprio Leonardo da Vinci deixou pintura incompleta da Adoração dos Magos.

No domínio da música clássica, destacam-se as composições de Johann. Sebastian Bach (1685-1750), num ciclo de cantatas dedicadas à solenidade da epifania. Consta que Goethe(Johann Wolfgang von Goethe, 1749-1832), inspirado nos Magos, compôs o poema “Epiphanias”, redescobriu o manuscrito de Hildesheim, em 1818, e se empenhou em traduzi-lo para o alemão, entregando a tarefa ao poeta alemão Gustav Schwab, que não só o traduziu, mas escreveu poema para fazer parte do texto. Publicado em 1821, incorporou pequeno poema de Goethe que conclui: (...) pois, afinal, somos todos Reis Peregrinos, ao alvo querendo chegar.

No medievo, o episódio dos Magos do Oriente era representado nas igrejas européias através dos Dramas (ou Autos) Litúrgicos Medievais, Mistérios ou Officium Stellae. A dramaturgia sobre os Magos se sobressaiu como um dos temas mais apreciados para encenações segundo Karl Young ( The Dramas of the Medieval Church) e William Smoldon(The Music of the Medieval Church Dramas), reconhecidos estudiosos do teatro medieval.

Alguns Autos eram dialogados, outros musicados, como dramas musicais, óperas, ou operetas. Foram famosas as dramatizações do século XII, nas catedrais francesas de Rouen, Limoges e Besançon, cujos originais em latim ainda estão conservados na Biblioteca Nacional da França.

Na Espanha, encenava-se o Auto de los Reyes Magos, de autor desconhecido. Encontrado na Catedral de Toledo, o texto é incompleto e escrito em linguagem castellianizada e influída por el dialecto mozárabe, sendo reconstituído por Ramón Menendez de Pidal, com data provável do século XII, e considerado la pagina más antigua del teatro español.

Presume-se que esta peça se disseminou pela Península Ibérica, influenciando obras similares, abundantes nas literaturas hispânica e lusa. A propósito, cabe mencionar que na Espanha o dia de Reis permanece feriado. Retomando o ensaio de C.Horstmann, se observa um aspecto interessante nas festas medievais dos Reis Magos, de natureza nitidamente profana: “A celebração no dia de Santos Reis era solenizada com incomum alegria e esplendor, com encenações dramáticas dentro da igreja e de mascaradas(sic) fora (...)”.

Émile Male, também referendado anteriormente, registrou a tendência de popularização dos dramas litúrgicos medievais sobre os Magos: “(...) ganhavam o gosto popular e no século XIV o drama dos Magos não se representava somente nas igrejas, mas também em pleno ar livre”. Ele a ilustra, relatando o cortejo dos Reis Magos, dos dominicanos em Milão, em 1336. Esta milenar tradição voltou a ser representada em 1962, após longa interrupção.

Cidades europeias realizam cortejos similares: Florença, Sevilha e Coimbra, dentre outras. No tocante a Portugal, Luiz Francisco Rabelo na “Breve Historia do Teatro Português alude a não aceitar que: “ as manifestações místicas de Idade Média, religiosas ou profanas não houvessem chegado ao extremo ocidental da Península Ibérica”.Mais adiante, conclui:” As Ordens Religiosas que se instalaram em Portugal, certamente trouxeram consigo os mistérios”.

Assim, ordens religiosas na Espanha e em Portugal incorporaram os dramas litúrgicos dos outros países europeus para ensino e propagação da doutrina cristã. Na quadra natalina, grupos peditórios iam de casa em casa, pelas aldeias e freguesias: na Espanha, o costume dos “Villancicos” e, em Portugal, os “Cantares de Janeiras e Reis.”

As tradições populares ibéricas, como dramatizações ou grupos peditórios, foram transplantadas para o Brasil. Os jesuítas que aqui aportaram com o primeiro Governador Geral Tomé de Sousa, em 1549, utilizavam essas tradições sob forma de canto, dança e encenação, na catequese e no ensino a indígenas e colonos portugueses – reinóis. Anchieta, o precursor das letras brasileiras, formado na escola de Gil Vicente, compôs (a pedido do Padre Manuel da Nóbrega), ensaiou e representou sua peça Pregação Universal, reintitulada Na Festa de Natal, na igreja dos Jesuítas em São Paulo de Piratininga (atual cidade de São Paulo), no Natal de 1561, no Ano Novo e Dia de Reis de 1562. Nesse Auto, insere-se ato com a presença dos Reis Magos.

Sobre o auto, o Padre Armando Cardoso, em obra sobre o teatro anchietano, assegura que a peça foi encenada noutros núcleos jesuítas, no litoral brasileiro. Um deles, o dos Reis Magos, localizava-se no Espírito Santo, 20 km ao norte de Vitória - atual localidade de Nova Almeida -, sendo aí erigida a igreja dos Reis Magos, marco jesuítico do Brasil, tombado pelo IPHAN, em 1943.

Outro registro consta do Compêndio Narrativo do Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, citado por Luiz da Câmara Cascudo: “desses grupos pedindo os Reis (no sentido de oferta) na Bahia, na segunda metade do século XVII”. Do Compêndio, o etnógrafo português Leite de Vasconcellos extraiu comentário sobre a presença de mascarados(sic) nas peças jesuítas.

Graciliano Ramos, atento observador de nossos costumes, no conto Um Natal, escreveu:
“O Natal, festa profana, alcança duas outras; Ano Bom e Reis. Começa dia 24 de dezembro e termina 6 de janeiro, representa uma solução de continuidade nas aperreações do sertanejo”. Assim, entre nós, as tradições populares dos Reis Magos derivam de manifestações ibéricas, em rituais litúrgicos e paralitúrgicos que sofreram influências locais, regionais e étnicas. Realizados no interior das igrejas, pouco a pouco, foram se popularizando no meio rural, praças e ruas. No Brasil, são designados por Reisados, “festejam o Natal e os Reis”, segundo Câmara Cascudo. Compreendem: Folias ou Companhias de Reis, Tiração de Reis, Presépio,Pastor, Pastorinhas, Pastoris e o Bumba meu boi do nordeste oriental.

Há, ainda: Cavalo Marinho, Boi de Reis,Reis de Boi, Terno de Reis (baiano e sulino), Reiadas e outras mais expressões dessa tradição popular, disseminada por quase todo território brasileiro.


Affonso M. Furtado da Silva é vice-presidente da Comissão Nacional de Folclore, membro do Conselho Estadual de Cultura/RJ e autor de Reis Magos: história, arte e tradições (Léo
Christiano Editoria)

Colaboração de Affonso M. Furtado da Silva 
 http://www.cultura.rj.gov.br

Jacques Le Goff foi decisivo para o estudo da Idade Média

Ao lado de Pierre Nora, autor criou a chamada nova História
02 de abril de 2014

Andrei Netto


Divulgação
Le Goff morreu aos 90 anos

Uma das maiores autoridades mundiais em Idade Média, o historiador francês Jacques Le Goff, faleceu na segunda-feira, aos 90 anos, informou ontem a sua família. Autor de mais de 40 livros, entre os quais Uma Longa Idade Média (2004), Le Goff foi escolhido onze vezes doutor honoris causa na Europa e no Oriente Médio por ter se tornado uma referência incontornável em seu domínio de estudos. Daqui para a frente, ele próprio fará parte da História.

Nos últimos anos de sua vida, embora sua saúde se degenerasse, continuava ativo e lúcido, trabalhando em seu escritório, sempre cercado de milhares de livros. Entre fontes bibliográficas e documentos que compunham seu espaço de trabalho, Le Goff parecia seguir à risca uma constatação de Marc Bloch que se tornara célebre: “O bom historiador é como o ogro da lenda. Onde ele cheira a carne humana, ele sabe que lá está o seu jogo”.

Caçando lendas, Le Goff, fundamentou sua grande linha de pensamento: a de que a Idade Média não fora uma era de obscurantismo, como se imagina. Essa revolução quebrou a lógica moderna, que ao longo dos séculos transformara o termo “medieval” em um adjetivo pejorativo.

Romper com essa linha de pensamento foi possível a partir dos anos 1920, quando a célebre Escola dos Annales, o movimento liderado por Lucien Febvre e Marc Bloch, passou a adotar métodos pluridisciplinares na pesquisa historiográfica. Le Goff, ao lado de outro francês, Pierre Nora, foi responsável pela “terceira onda” dessa escola, lançando nos anos 1970 a chamada Nova História. Essa corrente amplificou os horizontes da disciplina, focando sua atenção no imaginário, na “história das mentalidades” – ou seja, na forma de pensar, de agir, de viver, individual e coletiva, de cada tempo e sociedade.

O historiador, a partir de então, renovou seu papel, buscando inspiração na antropologia para fundamentar interpretações e análises mais vastas, o que lhe permitiu romper clichês. Como o holandês Johan Huizinga o fizera no início do século 20, Le Goff viu na Idade Média muito mais do que doenças, miséria, ódio, guerras e opressão – como sugeriu o poeta italiano Francesco Petrarca, ainda no século 14, ou o fizeram humanistas do século 16 e filósofos do 18. Ser medieval, sustentou Le Goff ao longo de sua obra, também foi sinônimo de alegria, de idealismo, de arte e de amor.

Essa visão da história foi deixada pelo francês em livros como A Civilização do Ocidente Medieval (1964), O Nascimento do Purgatório (1981) e O Imaginário Medieval (1985). Nestes e em outros livros, sua mais importante contribuição foi a consistência e a profundidade com que desmistificou a Idade Média, desenvolvendo uma análise relativista sobre o período, que incluiu revoluções sociais e intelectuais pouco conhecidas ou menosprezadas nos nossos dias.

“Eu fui voluntariamente provocador ao falar de uma longa Idade Média que se prolongou até o século 18. Continuo a pensar que há uma certa verdade na ideia de que a Idade Média vai até o fim do século 18, se observamos aspectos essenciais, como a fome, as pestes, a indústria – a economia capitalista do século 18 é uma grande virada”, disse Le Goff em entrevista ao Estado em outubro de 2010. “Mas, mesmo que consideremos que o fim da Idade Média acontece no fim do século 15, ela não era decadente, não era triste, mas sim soberba, até exagerada.”

Le Goff viveu até seus últimos dias em um apartamento de classe média no 19º distrito de Paris, nordeste da cidade, onde se situam os antigos bairros operários da capital, ainda hoje mais populares. Tratava-se, reconheceu ele, de um sinal de seu engajamento político – o historiador se considerava um “moderado de esquerda”.

Em uma segunda entrevista ao Estado, o historiador revelou também uma refinada capacidade de análise sobre a realidade contemporânea internacional. Sobre a crise financeira global, por exemplo, afirmou: “O sistema capitalista está em um estado de decomposição e de esclerose. O sistema socioeconômico, que já podíamos não amar, cedeu seu lugar a uma dominação dos bancos – no mundo inteiro e inclusive nos Estados Unidos. Essa dominação é quase um gangsterismo financeiro”.

Na mesma entrevista, demonstrou que chegara ao final de sua vida com um quê de decepção: “Tenho 86 anos, e o que marca meu espírito é a desesperança, porque vejo perspectiva de melhora enquanto for vivo”.
Jornal O Estado de S.Paulo

O tapeceiro do passado

Na História de Jacques Le Goff, os contornos dos tempos perdidos ganham sutileza, cor, verdade

Gilles Lapouge

Jacques Le Goff morreu em Paris aos 90 anos. Era o maior historiador francês e um dos últimos representantes da escola dos Annales, que desde os anos 1930 vem subvertendo na França e no mundo a leitura do passado dos homens. A primeira geração dos Annales foi a de Marc Bloch e Lucien Febvre; foi seguida por aquela do grande Fernand Braudel, que em1936 lecionou na recém-fundada Universidade de São Paulo; depois da guerra, sucedeu-lhe a terceira geração, com Georges Duby, Leroy-Ladurie e, principalmente, Jacques Le Goff.

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Viajante. Ele via a Idade Média feita de sombras, mas também de luz sublime

Esses grandes intelectuais dotaram a pesquisa histórica de um novo suporte lógico. Em vez de se debruçarem apenas sobre as batalhas, as coroações ou as tragédias, dedicaram igual interesse à vida cotidiana, ao que chamavam de non-événementiel (não factual): a metamorfose das mentalidades, a transformação dos hábitos, as lentas evoluções da maneira de amar, de alimentar-se, de morrer; as descobertas das paisagens, os jogos da paixão, as relações dos homens com o próprio corpo, as festas, as flexões das palavras e da linguagem.

Eles urdiram uma nova tapeçaria do passado. As imagens dos tempos perdidos ganharam em sutileza, verdade e cor. Além dos períodos convulsionados da história tradicional, estudaram os períodos pesados, lentos, quase viscosos que moldam o caráter das sociedades de maneira bem mais profunda que as guerras e o cerimonial da política.

Nessa ressurreição do passado, Jacques Le Goff ocupa uma posição eminente. Não apenas presta atenção a cores jamais percebidas como faz surgir do abismo da morte, do fundo do tempo, todo um continente, uma Idade Média desconhecida que a nossos olhos maravilhados se revela como os emergentes destroços de um navio magnífico, carcomido por moluscos e ferrugem e ainda resplandecente dos matizes das profundezas.

Ele busca e apreende essa Idade Média na consciência dos homens. Estuda seus sonhos e terrores, palavras e quimeras, corpos e alimentação. Ouve o gargalhar das bruxas, o sussurrar das monjas em oração no branco manto das igrejas e mosteiros que na Idade Média cobriam a cristandade.

A história de Le Goff nos seduz de outras maneiras. Seus escritos revelam o prazer, a fruição que ele experimenta ao devorar velhos manuscritos, antigos vestígios semiapagados, sacudindo a poeira que cobria, até sufocá-las, antigas representações que tínhamos daqueles tempos. "O pó se levanta ao poderoso vento do mar aberto", diz ele.

Em suas retortas de alquimista, Le Goff descobre paisagens jamais suspeitadas. A Idade Média não é mais a "noite negra" que separava, na história tradicional, o fim do Império Romano da Renascença. Uma nova Idade Média se descortina, feita de sombras, evidentemente, mas também de uma luz sublime. Essa Idade Média inédita é a verdadeira matriz de nossa modernidade.

"É na Idade Média’, afirma Le Goff, "que se constitui o elemento fundamental de nosso cristianismo. É nela que vemos a formação do Estado e da ideia de soberania. E também o surgimento da língua francesa, o desenvolvimento urbano e a fundação da cidade moderna. É sempre na Idade Média que vemos crescer as universidades, fenômeno novo e europeu. Porque a Europa também nasce na Idade Média."

Quais de seus livros podemos citar? O mais célebre é A Invenção do Purgatório, que se situa no século 12. Le Goff não só acompanha as etapas do surgimento como explica o motivo pelo qual, nessa época, os homens repudiam a terrível divisão entre bem-aventurados e amaldiçoados, inferno e paraíso, e acham mais compassivo acrescentar a um maniqueísmo atroz os estágios intermediários do purgatório para se ter em conta a infinita variedade do Mal e do Bem.

Jacques Le Goff tinha outra virtude. Homem da palavra, apresentava sua bela Idade Média no rádio. Seus programas fascinaram a França. Ele "representava" a história no rádio como a representava em seus cursos. Quando trabalhava numa grande biografia do rei São Luís, fascinou seus alunos descrevendo como o corpo (sagrado) do rei, que morreu de peste durante a oitava Cruzada, foi fervido pelos companheiros para que seus ossos pudessem ser levados de volta à França.

Era um apreciador dos bons vinhos e da boa cozinha, um brilhante interlocutor. Compartilhar um jantar com esse grande amante da vida era uma festa. Lembro-me de um deles. Ao ser servido um queijo de cabra na sobremesa, Le Goff começou a comparar a crosta do queijo, de cor cinzenta, bronze, azulada e ferrugem, recoberta de pequenas borbulhas, ao grão da pintura dos quadros de Giotto e Fra Angelico. Dali, divagou como num sonho e nos transportamos, como por um passe de mágica, da crosta do queijo de cabra para a cidadezinha de San Gimignano, depois para Florença e a dinastia dos Médicis, terminando com não sei que papa dos albores da Renascença. Tudo isso, todo esse teatro, estava como que escondido no humilde queijo de cabra. Le Goff terminou a representação dando uma dentada decisiva no queijo que, de repente, tornara-se algo sublime aos nossos olhos.

É emocionante e eloquente ver, neste momento em que o grande explorador e viajante do tempo já não está entre nós, o jornal Le Monde pedir ao grande escritor italiano Umberto Eco, autor de O Nome da Rosa, seu testemunho sobre esse que foi seu amigo. Como se o historiador rigoroso que foi Le Goff só pudesse ser celebrado por um dos maiores romancistas europeus. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
Jornal O Estado de S. Paulo

quarta-feira, 23 de abril de 2014

São Jorge contra o dragão de cada dia

São Jorge contra o dragão de cada dia

Santo guerreiro supera resistências e conquista devotos

FRANCISCO LUIZ NOEL
Procissão de São Jorge em Quintino, no Rio de
Janeiro / Foto: Divulgação


Provas de que ele teria vivido um dia em carne e osso são inexistentes, assim como relatos documentados de seus milagres, sem contar a façanha de ter abatido um dragão a golpes de lança, desferidos do alto de um cavalo branco. Nem a Igreja põe a mão no fogo quando o assunto é a vida terrena de São Jorge, mas os adeptos desse ícone da religiosidade popular no Brasil não dão a mínima para a reticência das autoridades eclesiásticas e a resistência dos incrédulos. Aos que só acreditam vendo, os devotos respondem com a fé nos poderes de proteção do santo guerreiro, cultuado com reverência fervorosa no dia de sua morte presumida – 23 de abril – e invocado ao longo do ano como poucas outras santidades do panteão católico.

Figura de envergadura nacional entre os brasileiros, São Jorge tem seu maior santuário nas terras cariocas, onde ofusca o prestígio do padroeiro do Rio de Janeiro, São Sebastião, festejado no feriado municipal de 20 de janeiro. Um e outro encarnam a condição de mártir, como militares convertidos ao dogma cristão e perseguidos pelo Império Romano. “Os dois eram cultuados em Portugal quando teve início a colonização do Brasil. O primeiro, evocado com grito de guerra no começo das batalhas campais; o segundo, contra a peste”, diz na Universidade Federal Fluminense (UFF) a historiadora Georgina Silva dos Santos, que estuda a religiosidade popular e tem tese de mestrado sobre a irmandade portuguesa de São Jorge nos tempos da Inquisição.

Na igreja carioca dedicada a São Jorge, matriz da paróquia do subúrbio de Quintino, o pároco Marcelino Modelski traça um paralelo entre os adeptos dos dois mártires. “Os devotos de São Sebastião têm uma característica: de modo mais expressivo, são católicos tradicionais, fiéis de preceito, de missa dominical, que têm na Igreja não apenas uma referência ocasional, mas uma vivência comunitária. É uma fé mais madura, mais esclarecida, que busca o santo não para pedir coisas, mas como inspiração para uma vida de santidade, de doação, de desprendimento, de serviço ao próximo, de amor a Cristo.” O pragmatismo marca os seguidores de São Jorge, que apelam por proteção e força frente às adversidades do dia a dia.

Sob o crivo da ortodoxia religiosa, as duas entidades detêm status distinto no Cânon do Vaticano, que contém uma longa lista de santos oficiais da Igreja. O respeito devocional ao Dia de São Jorge não é obrigatório para os fiéis desde maio de 1969, quando o papa Paulo VI passou a limpo o calendário litúrgico e tornou facultativo o culto de vários santos destituídos de provas documentais de que tenham existido – carência de que não partilha Sebastião, com vida comprovada na região da Itália, no século 3. “Não há dados históricos sobre a vida de São Jorge, mas, desde o início do cristianismo, a Igreja acolheu e respeitou o processo de transmissão da devoção”, salienta o pároco de Quintino.

Sempre figurado com elmo e lança de militar medieval, capa vermelha, cavalo branco e o dragão subjugado no chão, São Jorge ganhou fama por personificar valores como fé e coragem diante das forças associadas ao mal. Padroeiro de Portugal e Inglaterra, da espanhola Catalunha e do escotismo, o santo é personagem recorrente na cultura brasileira. Além de venerado em altares e terreiros, inspirou o cineasta Glauber Rocha em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, ícone do Cinema Novo, e compositores como Jorge Benjor, Caetano Veloso e Djavan. Em São Paulo, é invocado como protetor pelos corintianos; no Rio, influencia até o ilegal jogo do bicho. Em 23 de abril, como é grande a jogatina no cavalo, o animal é “cotado” pelos bicheiros, que pagam prêmios menores nas apostas feitas no quadrúpede.

Proteção e segurança

Padre Marcelino e a historiadora Georgina creditam à força de dois fatores a popularidade do santo guerreiro no Rio: o sincretismo entre o mundo católico e as religiões afro-brasileiras e o sentimento de insegurança reinante entre a população. “A associação entre São Jorge e os orixás africanos contribuiu e ainda contribui para torná-lo uma entidade popular, ultrapassando os limites impostos por classe social, gênero ou etnia”, diz a pesquisadora. Para os umbandistas cariocas, ele é Ogum, guerreiro valente e senhor do ferro, embora a tradição baiana vincule Jorge a Oxóssi, protetor das matas e ciclos lunares. Por isso, o santo passou a bater-se com o dragão na Lua, cenário que só aparece aos olhos dos devotos brasileiros.

O ardor devocional pelo guerreiro, como intermediário do socorro divino ou como entidade autossuficiente, cresce de forma proporcional ao medo da violência urbana. “O Rio vive uma guerra há décadas. O governo se omite, inexistem políticas públicas e a questão é tratada como problema de polícia, e não de garantia de direitos; em consequência, as pessoas buscam quem as defenda. Elas procuram um herói, um lutador, alguém capaz de conter a força do mal, da morte, da violência. São Jorge faz esse papel”, diz o padre, apontando uma identificação particular dos jovens com o santo combatente. “A imagem da vitória sobre o dragão é fortíssima. O devoto diz que é guerreiro como Jorge e faz tatuagens para mostrar isso. Na oração, reza que está vestido com as armas de Jorge, como se dissesse: ‘Sou lutador e vou vencer’.”

Não é por menos que a economia do estado do Rio de Janeiro para pela terceira vez neste 23 de abril, dia transformado em feriado pelo governador Sérgio Cabral Filho, que sancionou, em março de 2008, lei aprovada pela Assembleia Legislativa. Autor do projeto, o hoje deputado Jorge Babu conseguiu alçar a data a feriado municipal no Rio em 2001, quando era vereador. Fazendo eco a queixas surgidas no meio empresarial, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) ajuizou ação direta de inconstitucionalidade contra a decisão do governador. Aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) cabe, agora, decidir se o dia do santo guerreiro continuará sendo de descanso ou voltará a ser de trabalho para os fluminenses.

Muito antes de 23 de abril ser feriado, a afluência de fiéis à Igreja de São Jorge dava prova da pujança da devoção popular. Na festa de 2009, estima o pároco Marcelino Modelski, 100 mil pessoas passaram pelo templo de Quintino, na Rua Clarimundo de Melo. Para fazer frente ao vaivém das multidões na igreja e nas barraquinhas ao redor, a paróquia mobilizou 300 religiosos e leigos. As cerimônias foram abertas às 5 horas, com alvorada ao som de fogos de artifício, que espocaram também em muitos pontos da cidade. Nove missas foram celebradas na igreja, com destaque para a das 19 horas, assistida pelo prefeito Eduardo Paes, de blusa vermelha e branca – as cores do santo. Em seguida, a tradicional procissão saiu pelas ruas do bairro.

Flores, palmas e espadas-de-são-jorge sobressaem entre as oferendas comuns ao santo. “Na festa, temos uma equipe exclusiva para receber as flores, que são passadas diante da imagem, abençoadas e devolvidas, para ser levadas para as casas”, informa o padre. Há nove anos na paróquia, ele assinala que a graça mais solicitada ao santo é a proteção frente às dificuldades da existência cotidiana. Na data, devido à gigantesca quantidade de fiéis, a igreja não atende confissões e ministra a comunhão numa capela montada especialmente para a ocasião. A tradição inclui uma grande queima de velas – “um problema para a igreja e para os bombeiros”, preocupa-se o religioso. Todos os anos, mais de uma tonelada de velas alimenta o fogaréu.

Em volta da matriz, a festa alegra também os donos das barraquinhas. A fé em São Jorge movimenta um diversificado e multicolorido comércio de bens de cunho religioso, marcado pela informalidade. Nas barracas, os fiéis encontram de tudo um pouco com a imagem do santo, incansável na cena em que, do alto do cavalo, nocauteia o dragão peçonhento. A variedade inclui de imagens de gesso e outros materiais, em todos os tamanhos, a camisetas com a estampa do guerreiro, passando por escapulários, gravuras de parede e adesivos coloridos para vidros e carroceria de automóveis.

Exemplo de fé

Ao longo dos séculos, o apelo protetor de São Jorge relegou a segundo plano o exame racional de suas peripécias, a exemplo do que ocorre com outros santos e figuras lendárias, como o rei Artur, que a história não comprova ter vivido na Grã-Bretanha do século 6. “Nos domínios da fé popular, importa mais a eficácia simbólica do que propriamente a veracidade das informações”, explica a historiadora Georgina. “Ao prestar culto, o fiel pretende saturar-se da força extraordinária do santo para lidar com a realidade, injusta e opressora. A superação de um problema engendra uma relação de gratidão que se perpetua no tempo e reforça essa dependência.”

Nas pesquisas sobre a construção da imagem de São Jorge no imaginário popular, Georgina rastreou duas versões sobre a origem do santo. Segundo a mais antiga, que consta de um fragmento de texto em grego, ele foi torturado ao recusar-se a cultuar divindades pagãs. Por manter-se fiel a Jesus, recebeu marteladas na cabeça, calçou sapatos cheios de pregos, foi cortado a golpes de gládio (espada curta das legiões romanas) e bicado por aves de rapina. Sua sobrevivência ao martírio foi obra de Deus, que o fez ressuscitar três vezes. Numa das voltas à vida, o santo curou um boi, sarou o filho de uma viúva, ressuscitou 400 pagãos e arrematou o milagre batizando todos eles.

No século 4, assinala a historiadora, as narrativas sobre São Jorge foram rechaçadas pelo Concílio de Niceia, que as considerou destoantes das Escrituras. Nem por isso os seguidores abandonaram o santo, venerando-o em regiões costeiras do mar Mediterrâneo e no norte da Europa. No ano 916, nova versão sobre Jorge reforçou sua legenda, adicionando detalhes mais verossímeis à vida do mártir. Segundo esse relato, ele foi homem rico na Capadócia, na atual Turquia, integrou o exército romano e negou-se a curvar-se aos deuses pagãos. Preso por ordem do imperador Diocleciano, doou os bens aos pobres e amargou suplícios cruéis, sempre operando milagres. Depois de converter a imperatriz ao cristianismo, foi condenado à decapitação.

Dragão em cena

O dragão entrou na lenda numa narrativa popular registrada no século 13 pelo arcebispo Jacopo de Varazze, de Gênova. Na coletânea de histórias Legenda Áurea, assinala a pesquisadora da UFF, Jacopo relata que o monstro flagelava a cidade de Lida e saciava a fome com animais entregues pelos moradores. Extintos os rebanhos, as oferendas passaram a ser humanas, por sorteio. Quando teve a filha sorteada, o rei não conseguiu quem a substituísse e foi obrigado a cedê-la ao martírio. Jorge passava pelo lugar e, vendo a jovem aos prantos à espera do dragão voraz, matou-o a golpes de lança. Modesto, dispensou a mão da moça, oferecida pelo pai, e fez dois pedidos ao rei: a propagação da fé cristã e o socorro aos pobres.

Como guardião da fé e defensor de povos e territórios, São Jorge foi invocado por espanhóis e portugueses na resistência às invasões árabes e, do século 11 ao 15, na reconquista da península Ibérica. Em Portugal, no século 12, uma igreja foi dedicada a ele pelo fundador do reino, Afonso Henriques. Com a ascensão ao poder da dinastia dos Avis, o santo foi alçado a patrono do país em formação e deu nome ao paço real – o Castelo de São Jorge, em Lisboa. Na fase dos Descobrimentos, na virada do século 15 para o 16, a figura do guerreiro em luta com o dragão era lembrada pelos portugueses nas aventuras nos mares e lugares em que aportavam, dando nome a uma ilha nos Açores, fortificações na costa africana e, no Brasil, à freguesia de São Jorge dos Ilhéus, em terras que hoje pertencem ao estado da Bahia.

A popularidade de São Jorge entre os lusitanos difundiu-se com a incorporação de sua imagem às celebrações do Corpo de Deus, no fim do século 14, destaca Georgina. A festa de Corpus Christi era a mais concorrida de Portugal, reunindo o povo, autoridades da Igreja e do Estado, contando às vezes com a participação do rei. No Brasil, relata a pesquisadora, o santo guerreiro é venerado desde os primórdios da colonização portuguesa, no século 16. “A primeira notícia é trazida indiretamente pelo padre Manuel da Nóbrega, que afirma ter realizado na Bahia uma procissão do Corpo de Deus, segundo os moldes portugueses. Portanto, a dar crédito à voz do jesuíta, São Jorge saiu no cortejo de 1549”, observa Georgina.

A historiadora explica que o culto ao santo tomou impulso no Brasil depois que a família real portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro, em 1808, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte. Sob dom João VI, Pedro I e Pedro II, a procissão de Corpus Christi ganhou pompa, trasladando ao Brasil a presença de São Jorge nas celebrações. Em sua pesquisa, Georgina reconstituiu o espetáculo de devoção que caracterizava a data: “A aparição do santo no cortejo era o clímax da festa. Vestido como um general, sobre um garboso cavalo, o mártir era saudado com canhonaços. A única figura a rivalizar com ele era o próprio imperador. O aparato cênico da festa decerto contribui para destacá-lo entre os santos do panteão católico”.

Da Capadócia ao Corinthians

No esporte das multidões, a invocação ao santo guerreiro é uma das armas dos corintianos para vencer o dragão nos gramados. Com sede no Parque São Jorge, situado no bairro paulistano do Tatuapé, o Corinthians mantém uma capela dedicada ao santo, representado no altar por uma vistosa imagem comprada na Turquia pela ex-presidente do clube Marlene Matheus, esposa do lendário ex-presidente Vicente Matheus, morto em 1997. Talhada à mão em madeira, a figura do santo foi benzida pelo papa João Paulo II em 1990, junto com camisas do time levadas ao Vaticano por Marlene e uma sobrinha, após gestões eclesiais de dois corintianos – o então cardeal arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, e o monsenhor Arnaldo Beltrami, capelão do clube, falecido em 2001.

A capela foi erguida em 1969, perto de uma bica de água em que umbandistas – entre eles, Pai Nilson, famoso no Corinthians – realizavam rituais com pedidos a Ogum. “Eu via que o culto a São Jorge era forte na umbanda e queria para os católicos uma imagem feita no lugar em que ele nasceu, abençoada pelo papa”, conta Marlene Matheus. A devota lamenta que, nas procissões feitas no clube em 23 de abril, a imagem usada seja menor, de gesso, comprada no comércio local. Em 2008, levada pelos fiéis à capela depois de missa no salão da sede, a figura caiu do andor e espatifou-se. A comoção foi grande, como se já não fosse pouco o Corinthians ter ficado de fora do Campeonato Brasileiro de Futebol daquele ano, rebaixado à segunda divisão.

Marlene Matheus chegou ao papa, em 1990, graças à intermediação do cardeal Arns, que levou a questão a auxiliares de João Paulo II, como o brasileiro dom Geraldo Majella Agnelo, atual cardeal arcebispo de Salvador. Duas décadas antes, Arns havia saído em defesa de São Jorge quando o guerreiro corria riscos na reforma de Paulo VI. No livro Corintiano, Graças a Deus, de 2004, ele conta que escreveu um bilhete ao pontífice: “Santo Padre, nosso povo não está entendendo direito a questão. São Jorge é muito popular no Brasil, sobretudo entre a imensa torcida do Corinthians, o clube de futebol mais popular de São Paulo”. Demonstrando atenção ao tema, o pontífice respondeu também num bilhete, conservado pelo religioso brasileiro: “Não podemos prejudicar nem a Inglaterra nem o Corinthians”.

Entre os paulistanos, contudo, São Jorge não tem o prestígio adquirido no Rio de Janeiro e é bem menos lembrado que Santo Expedito e São Judas Tadeu. Santo das causas urgentes, Expedito, que também foi militar romano, é venerado em 19 de abril e atrai mais de 100 mil pessoas à tradicional festa na igreja do Jaçanã; Judas Tadeu, apóstolo de Jesus e santo dos desesperados, também arrasta multidões a seu santuário, no Jabaquara, a cada 28 de outubro. No Rio, depois de São Jorge, outro santo bem cotado, além do padroeiro e de Judas Tadeu, é Francisco de Assis, protetor dos animais, lembrado em 4 de outubro. Em alta conta entre os fiéis também estão os santos juninos – Antônio, religioso português do século 12, festejado no dia 13, e os apóstolos João e Pedro, nos dias 24 e 29 –, reverenciados de norte a sul do país.

Revista Problemas Brasileiros

São Jorge: conheça a história do santo


Você sabia que no dia 23 de abril é comemorado o dia de São Jorge? Saiba mais sobre a história deste santo guerreiro

Patricia Bernal

São Jorge, o santo guerreiro, foi imortalizado no conto em que mata um dragão
Foto: Dreamstime

Muitas pessoas, independentemente de religião ou crença, acreditam na força da imagem do São Jorge, cuja memória é celebrada todo dia 23 de abril. O que muita gente desconhece é que o santo foi um padre e soldado romano, venerado como mártir cristão. Antes de ser reconhecido como santo pela igreja católica, e como guerreiro do ferro e das matas pelo candomblé, Jorge percorreu terras longínquas e lutou ardorosamente em defesa de sua fé.

O início de sua popularidade ocorreu no auge da perseguição aos cristãos pelo imperador romano Deocleciano - final do século 3, quando o ousado guerreiro passou a defender com muita fé o cristianismo. A imagem de São Jorge é representada por um jovem vestido com uma armadura, sentado em um cavalo branco com uma lança atravessando o dragão, pois o santo é imortalizado no conto em que mata um dragão.

Sucesso em terras brasileiras

São Jorge foi nomeado pelos portugueses como seus padroeiro. Já no o Brasil, quem realmente o popularizou foram os negros africanos. Segundo o teólogo Antonio Carlos Oliveira Souza, na época do Império, os europeus consideravam sua religião superior e proibiam qualquer tipo de manifestação de fé contrária à sua. Para não perderem suas raízes religiosas, os africanos usavam imagens católicas em seus cultos, associando-as a algum orixá para não serem perseguidos. "Esses fatores culturais e religiosos fizeram com que São Jorge encontrasse espaço definitivo também no candomblé" explica o teólogo.

Nas regiões próximas ao Rio de Janeiro e ao Rio Grande do Sul, o cavaleiro da fé cristã é identificado como Ogum, o guerreiro, o deus do ferro e da agricultura. "Aqueles que desejam resolver os conflitos da vida, abrir os caminhos e tirar os empecilhos à sua frente recorrem a Ogum", afirma o pesquisador Reginaldo Prandi. Um pouco mais ao norte, na Bahia e em todo seu redor, São Jorge é identificado como Oxóssi, patrono da caça e da ecologia. "Diferentemente de Ogum, os que invocam Oxóssi pedem alimento e fartura para seu lar", conta o pesquisador.


Oração de São Jorge

Aprenda a oração que você deve fazer na hora de pedir a proteção de São Jorge:

"Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meu inimigos.

Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo. São Jorge Rogai por Nós."
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quinta-feira, 17 de abril de 2014

Como era o sexo na Idade Média?



Marina Motomura

Na era medieval, a vida entre quatro paredes ficou mais recatada por causa da influência da Igreja Católica. No mundo ocidental, tudo que era relacionado ao sexo - exceto a procriação - passou a ser pecado. Até pensar no assunto era proibido! O único que se dava bem era o senhor feudal: além de colocar cinto de castidade em sua esposa, ele tinha o direito de manter relações sexuais com qualquer noiva em seu feudo na primeira noite do casamento dela. A datação tradicional da Idade Média vai de 476, queda do Império Romano do Ocidente, a 1453, queda de Constantinopla. Já no Oriente, em países asiáticos, a liberdade sexual era maior. Os homens orientais podiam, por exemplo, ter quantas mulheres quisessem, desde que conseguissem sustentar todas. "Mas o segundo casamento tem de ter autorização da primeira esposa. Isso foi feito para a mulher não ficar sozinha e desamparada", diz o historiador Claudio Umpierre Carlan, professor da Universidade Federal de Alfenas (MG) e pesquisador da Unicamp.

PROIBIDÃO

Sexo era pecado e deveria ser evitado a todo custo

Paquera

Por volta do século 12, surgiu o chamado amor cortês. Na corte, o cavaleiro levava o lenço da mulher amada. Mas era uma amor platônico e infeliz - como os casamentos eram arranjados por interesses econômicos, o cavaleiro e a dama quase nunca ficavam juntos. Os noivos arranjados muitas vezes só se conheciam por meio de retratos pintados a óleo

Posições

Só uma posição era consentida pela Igreja: a missionária (atual papai-e-mamãe). Ela tem esse nome porque os missionários cristãos queriam difundir seu uso em sociedades onde predominavam outras práticas. Para os cristãos, ela é a única posição apropriada porque, segundo são Paulo, a mulher deve sujeitar-se ao marido. O recato entre quatro paredes era tamanho que, em alguns lares mais tradicionais, o casal transava com um lençol com um furo no meio!

Masturbação

Para desincentivar o prazer sexual solitário, surgiram nessa época os mitos de que os meninos ficavam com espinhas ou calos nas mãos caso se masturbassem. Se uma menina se tocasse, ou estava tendo um encontro com Satã ou havia sido enfeitiçada por bruxas. A paranoia era tão grande que muitos tomavam banho vestidos - até o banho era considerado um ato libidinoso

Casamento

A família da noiva, que podia casar logo após a segunda menstruação, pagava um dote (dinheiro ou bens) ao noivo, que tinha, geralmente, entre 16 e 18 anos. Mas havia proibições, claro: o papa Gregório I proibiu o casório entre primos de terceiro grau, e Gregório III proibiu a união de parentes de até sexto grau!

Ciência

A anatomia não evoluiu muito na era medieval, mas os conhecimentos técnicos para evitar o sexo, sim! Não há consenso entre os historiadores sobre a invenção do cinto de castidade, mas acredita-se que o modelo mais antigo seja o de Bellifortis, de 1405. Feito de metal, ele tinha aberturas farpadas que permitiam urinar, mas não copular. Também foi inventada a infibulação, técnica de costura da vagina para garantir a fidelidade da mulher ao senhor feudal quando ele viajava

Homossexualidade

A relação homossexual era chamada sodomia e era crime com pena de morte, além de ser considerada heresia pela Igreja - os homossexuais poderiam até ser queimados em fogueiras. No Oriente, era aceito - mas na surdina. Por exemplo, em exércitos em guerra, era preferível a relação entre soldados do que recorrer a prostitutas

Prostituição

Como os homens não podiam ter prazer com as esposas, com quem só transavam para procriação, a procura por prostituas era grande. Ao mesmo tempo em que eram malvistas pela sociedade e pela Igreja, as profissionais do sexo tinham que doar metade de seus lucros ao clero - foi o que instituiu o papa Clemente II (1046-1047)

Pecados

Segundo a suma teológica de são Tomás de Aquino, documento escrito de 1265 a 1273, havia dois tipos de pecado pela luxúria:

- Pecado contra a razão

Fornicação e adultério, por exemplo

- Pecado contra a natureza

São os pecados que contrariam a ordem natural do ato sexual. Aí se incluem masturbação, sexo com animais, homossexualidade e a prática antinatural do coito. Leia-se: não podia ser feito sexo em orifícios não naturais (boca e ânus), mesmo que fosse entre marido e mulher!.
Revista Mundo Estranho

Em busca da “guerra boa” dos pracinhas

Historiadores advertem que a FEB deixou legado de cidadania

CARLOS HAAG


A FEB parte para a Itália e soldados se despedem de suas famílias, em foto de abril de 1944

Há exatos 70 anos, no dia 13 de agosto de 1943, foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB). As tropas saíram para o combate no dia 2 de julho de 1944. Pouco antes de o navio-transporte General Mann partir, com 5.075 soldados a bordo, Getúlio Vargas despediu-se dos “pracinhas”: “Soldados da Força Expedicionária. O chefe do governo veio trazer-vos uma palavra de despedida, em nome de toda a nação. O destino vos escolheu para essa missão histórica de fazer tremular nos campos de luta o pavilhão auriverde. É com emoção que aqui vos deixo os meus votos de pleno êxito. Não é um adeus, mas um ‘até breve’, quando ouvireis a palavra da pátria agradecida”.

No retorno, em 1945, a promessa não foi cumprida. “A gestão da desmobilização dos pracinhas foi politicamente conservadora a fim de evitar a participação dos expedicionários nos conflitos de poder do Estado Novo com um progressivo esquecimento social dos expedicionários. Os veteranos foram abandonados pelas autoridades civis e militares e a legislação de benefícios foi apenas praticamente ignorada e houve uma apropriação crescente dos benefícios destinados apenas aos combatentes por não expedicionários”, explica o historiador Francisco César Alves Ferraz, da Universidade Estadual de Londrina e pesquisador visitante da University of Tennessee. Ferraz trabalhou a reintegração social dos pracinhas em A guerra que não acabou (Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2012) e, mais recentemente, nas pesquisas A preparação da reintegração social dos combatentes estadunidenses da Segunda Guerra Mundial (1942-1946) e A reintegração social dos veteranos da Segunda Guerra Mundial: estudo comparativo dos ex-combatentes do Brasil e dos Estados Unidos (1945-1965).

Segundo o pesquisador, diferentemente dos ex-combatentes da Europa e da América do Norte, que fizeram de suas expressões públicas movimentos sociais organizados (o que tornou possível a conquista de benefícios e de reconhecimento social), os veteranos, também pelo seu pequeno número, tiveram pouco sucesso em chamar a atenção da sociedade e do aparelho estatal para seus problemas. Ferraz, que analisou a diferença da reintegração dos ex-combatentes americanos e brasileiros, lembra que, já em 1942, foram encomendados estudos, realizados por diversos órgãos do governo dos EUA, Forças Armadas, comissões do Congresso e iniciativa privada. “Um dos resultados mais expressivos foi o conjunto de leis chamado de G.I. Bill of Rights, que concedia estudo técnico e superior gratuito aos veteranos, transformava o governo federal em fiador de empréstimos bancários e concedia auxílio-desemprego e assistência médica gratuita para os que estiveram em serviço ativo em guerra por pelo menos 90 dias.

Por isso o Departamento de Guerra americano enviou, em 6 de abril de 1945, correspondência ao general comandante das forças do Exército dos EUA no Atlântico Sul, sob as quais os brasileiros estavam subordinados, alertando para a inconveniência da desmobilização imediata da FEB quando do seu retorno ao Brasil. “Uma vez que é a única unidade do Exército brasileiro, inteiramente treinada pelos EUA, considera-se que tem grande valor como um núcleo para o treinamento de outros elementos do Exército brasileiro e como uma contribuição potencialmente valiosa do Brasil à defesa hemisférica”, observa o documento. O aviso já refletia os rumores, iniciados a partir de março de 1945, de que as autoridades militares brasileiras pretendiam desmobilizar sumariamente a FEB, o que aconteceu efetivamente.
Tomada de Monte Castelo pelo Regimento Sampaio, em imagem de fevereiro de 1945

“O Exército fez o possível para marginalizar e desconsiderar quem esteve na linha de frente. Havia enorme preconceito e inveja daqueles que estiveram com a FEB. Toda a experiência adquirida foi desprezada, contrariando o conselho dos EUA para que se vissem os expedicionários como núcleo de um esforço de modernização e renovação do nosso Exército”, analisa o historiador Dennison de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que trabalha o tema, entre outros, na pesquisa atual Reintegração social do ex-combatente no Brasil: o caso da Legião Paranaense do Expedicionário (1945-1980). “Na ânsia de se livrarem da FEB, tida como politicamente não confiável pelo Estado e pelos militares, os pracinhas foram rapidamente desmobilizados sem que tivessem se submetido a exames médicos, que mais tarde seriam fundamentais para que obtivessem pensões e auxílios no caso de doenças ou ferimentos adquiridos no front, lembra o professor. Havia temores políticos: a ameaça que representava para o Exército de Caxias esse novo tipo de força militar, mais profissional, liberal e democrático; o medo de que os oficiais febianos pudessem se tornar o fiel da balança político-eleitoral e fossem cooptados pelos comunistas; acima de tudo, temia-se que os expedicionários, entre os quais Vargas tinha grande popularidade, pudessem apoiá-lo e empolgar a população para soluções diferentes daquelas do pacto conservador das elites políticas para a sucessão do antigo líder do Estado Novo.

O Comando Brasileiro, no Aviso Reservado de 11 de junho, emitido pelo Ministério da Guerra e assinado pelo ministro Dutra, observava que: “Não obstante reconhecer o interesse do público, fica proibido, por motivo de interesse militar, aos oficiais e praças da FEB fazer declarações ou conceder entrevistas sem autorização do Ministério da Guerra”. Para Ferraz, a proibição de falar sobre o histórico das ações é um ato de censura, não de segurança. O objetivo parece ter sido “quebrar o impacto” da chegada da FEB, evitar as declarações que pudessem embaraçar a instituição militar ou envolvê-la nas questões políticas que fermentavam naquele momento.

Isso, segundo ele, fica mais evidente quando se compara com as instruções emitidas ao Grupo de Caça da FAB, enviadas pelo Comando Americano: “Quando você chegar à sua cidade natal, provavelmente a imprensa local desejará entrevistá-lo. Você terá liberdade de falar de suas atividades aos jornalistas, mas não deve especular sobre o futuro de nossas unidades. A guerra continua no Oriente Próximo. Estamos interessados, porém, que a sua história seja contada várias vezes, nos EUA e no Brasil. Boa sorte no futuro”, assinado Charles Myers, brigadeiro do ar.


A luta que levou à vitória de Monte Castelo

A FEB não era bem-vinda também por boa parte dos membros do Exército, os militares de carreira que conseguiram, de alguma forma, escapar da ida à guerra. “O envio de expedicionários, os cidadãos-soldados, era motivo de piada nos quartéis. Quando eles voltaram com prestígio popular, muitos sentiram que poderiam ‘ficar para trás’ em suas carreiras e se iniciou uma conspiração surda da maioria que temia ser ultrapassada em suas promoções e cargos”, observa Dennison Oliveira.

Ferraz, na comparação entre americanos e brasileiros, mostra como um dos pontos importantes na reintegração de veteranos dos dois países foi como lidar com o passado, que trazia justamente essas questões políticas associadas aos ex-combatentes. No caso nacional, a última guerra externa em que houve mobilização de jovens que não eram militares regulares foi a Guerra da Tríplice Aliança (1856-1870), cujo retorno à sociedade foi longe do satisfatório, com a maioria dos veteranos indo parar no Asilo de Inválidos da Pátria. “Uma consequência não planejada pelo Império foi o crescimento da participação ativa de oficiais, inclusive de baixa patente, na política do país. O legado disso foi mais o receio das autoridades pelo protagonismo político dos combatentes do que o reconhecimento dos deveres da sociedade e do Estado com os veteranos de guerra, nota Ferraz. Nos EUA, as mobilizações da Guerra Civil e, em especial, na Primeira Guerra Mundial”, quando os veteranos tiveram suas questões potencializadas com a Depressão e explodiram distúrbios nas ruas americanas, ensinaram as autoridades como fazer a reintegração de seus jovens.

“Eles viram que o perfil dos combatentes recrutados influi diretamente na reintegração social: as chances de sucesso na reentrada da vida profissional e da cidadania aumentam com o maior grau de formação escolar e qualificações profissionais. E também quanto mais igualitário e socialmente distribuído for o recrutamento, melhores as condições de uma recepção positiva da sociedade”, explica Ferraz. No caso da FEB, lembra o pesquisador, todo um arsenal de “jeitinhos” foi utilizado para tirar da unidade filhos de classes mais abastadas. Mesmo assim, apesar da maioria pobre e de baixa escolaridade, a força brasileira exibiu uma amostragem melhor que a média do país.


Desfile de pracinhas na Itália, em 1945

“Sargentos, cabos e soldados eram majoritariamente de origem urbana, alfabetizados, e apresentavam robustez e resistência física, a ponto de a FEB precisar confeccionar uniformes maiores que os do fardamento normal do Exército”, observa o historiador Cesar Campiani Maximiano, pesquisador do Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), autor, entre outros, de Barbudos, sujos e fatigados: soldados brasileiros na Segunda Guerra (Grua, 2010). “Do total de praças, 80,7% eram originários das regiões Sul e Sudeste do país. Os convocados oriundos do Nordeste, escolhidos por suas ótimas condições de saúde e grau de instrução, eram, na maioria, estudantes que serviram como cabos e sargentos, incorporados para suprir a deficiência de graduados experientes”, nota o autor.

Nos EUA, dos primeiros 3 milhões convocados, 47% estavam abaixo dos padrões; entre 1942 e 1943, dos 15 milhões de examinados, 32,4% foram rejeitados por causas físicas ou psiquiátricas e um terço considerado “inaptos para aproveitamento em qualquer grau”. Os americanos queriam apenas o melhor e adotaram critérios rigorosos para isso. A diferença mais gritante, porém, é que não houve distinção de classe no recrutamento para a guerra e um rigoroso controle no sistema de insenções, ao lado de campanha de mobilização da opinião pública, fez com que se recrutassem até o final da guerra mais de 16 milhões de soldados. “Praticamente cada ramo familiar americano tinha um combatente entre os seus, o que ajudou na compreensão dos deveres da sociedade para com aqueles que lutaram”, avalia Ferraz.

No Brasil, apesar das festas, os expedicionários foram rapidamente desmobilizados. “A razão foi política: tanto as autoridades do Estado Novo em decadência quanto as forças políticas de oposição temiam o pronunciamento político dos expedicionários, no que poderia ser a repetição do envolvimento político dos militares no século anterior após a Guerra da Tríplice Aliança”, fala Ferraz. A pressa foi tão grande em acabar com a FEB que os pracinhas já saíram da Itália com seus certificados de baixa e quando chegaram ao Brasil já não estavam mais sob a autoridade do comandante da FEB, mas do comandante militar do então Distrito Federal, não exatamente simpatizante dos febianos.

“A partir de então estavam à própria sorte. Traumas psicológicos de todo o tipo e rotina da luta de sobrevivência no mercado de trabalho dificultaram o retorno dos milhares de brasileiros que estiveram nos campos de batalha. As primeiras leis de amparo só foram aprovadas em 1947”, afirma Dennison de Oliveira. A maioria delas não foi sequer cumprida. Algumas, por sua vez, caíram mal entre os ex-combatentes, como o decreto-lei assinado por Vargas em julho de 1945 que concedia anistia aos militares da FEB, cujo efeito prático foi anistiar aqueles que desertaram no Brasil ao período anterior à campanha militar. Para Oliveira, o ápice foi a chamada Lei da Praia, assinada em 1949 por Dutra. “De acordo com ela, qualquer pessoa enviada à ‘zona de guerra’ tinha direito aos auxílios e pensões. A lei incluía vias navegáveis e cidades no litoral brasileiro que se encontravam nessa ‘zona de guerra’. Assim, seja o soldado que corria perigo e lutava no frio dos Apeninos, seja o bancário que fora transferido para uma cidade litorânea, todos recebiam o mesmo”, diz o historiador.

“Claro que nos EUA também houve dificuldades de reintegração, mas houve um esforço da sociedade em receber os milhões de retornados da guerra. Os seus combatentes seriam conhecidos como a ‘boa geração’, aquela que garantiu a vitória contra a barbárie. Para os veteranos brasileiros, esse reconhecimento não aconteceu”, observa Ferraz. Segundo o historiador, a busca por apoio institucional às necessidades dos veteranos levou-os à aproximação com as Forças Armadas e, logo, com suas práticas políticas, inclusive o golpe de 1964. Transformados em símbolos e apoiadores do regime militar, viraram alvo dos críticos da ditadura do pós-64. “Ao invés de colocar em questão essa identidade entre Exército, governo militar e FEB, esses críticos preferiram investir contra a memória expedicionária, o que só reforçou os laços entre o Exército e os veteranos”, observa Ferraz.

Não se pode negar, é claro, que muitos pracinhas apoiaram o regime militar, até porque na primeira geração dos golpistas tinha alguns febianos, como o primeiro presidente do regime militar, Castello Branco, cuja ascensão ao poder deu a esperança aos veteranos de que seriam “vingados”. Mas as memórias desses combatentes revela outras histórias, como verificou o historiador e brasilianista israelense radicado nos EUA Uri Rosenheck, da Emory University, que pesquisou a FEB em Fighting for home abroad: remembrance and oblivion of World War II in Brazil. Entre os seus objetos de estudo estão as memórias dos ex-combatentes e os monumentos que celebram os expedicionários em “espaços cívicos” das cidades.


 
As tropas da FEB são recebidas na avenida São João em 1945

“No caso dos pracinhas, as memórias são apenas lembranças do passado, mas, por meio de um olhar analítico, elas se revelam como instrumentos de crítica política contemporânea. No caso brasileiro, ler as memórias de guerra é ver como esses homens desafiavam a ditadura militar e condenavam a política armada”, explica Rosenheck, que passou em revista as 150 memórias escritas sobre a FEB. Segundo ele, apesar de publicamente defenderem as suas lideranças, os cidadãos-soldados criticam os militares.

“A maioria das observações tem a ver com a ineficiência do Exército brasileiro, comparado com o similar americano, e o contraste entre os oficiais regulares e reservistas. Critica-se a falta de logística, como eles sofriam no frio por falta de uniformes apropriados, como tiveram que pagar por suas passagens de trem enquanto esperavam para embarcar para o Rio e mesmo a carência de identificações, as dog-tags, que não eram dadas a eles”, conta o brasilianista. As críticas mais ácidas vão para os oficiais do Exército regular, ou seja, o Exército de Caxias em oposição aos voluntários combatentes da FEB. “Eles lembram como esses primeiros tinham percepções antiquadas sobre as relações entre pracinhas e oficiais, sobre a ética e a moral do corpo de oficiais e sobre o profissionalismo em combate real.” Alguns recordam que foram roubados por seus superiores e que decisões eram arbitrárias e baseadas em que tipo de presente poderiam dar para seus oficiais.

O mesmo acontecia quando o assunto era racismo. “Em muitas memórias, os soldados se dizem horrorizados com o racismo dos militares americanos, mas em muitos casos nessas memórias se pegam ‘lapsos’ em que se percebe o racismo dos próprios pracinhas. Mas o importante é se perceber que eles preferem atribuir casos de preconceito a ‘ordens de superiores’. Assim, tudo fica como sendo ‘coisa de americano’ ou ‘dos superiores’, separando ‘os soldados’, ‘a FEB’ e por extensão ‘os brasileiros’ dos outros responsáveis por tais atos horríveis, seja pessoas domésticas ou estrangeiras.” Para Rosenheck, as acusações contra comandantes como racistas e incompetentes podem ser entendidas como um ataque implícito sobre as Forças Armadas e seu papel na sociedade. “A crítica não precisa ser explícita para ser efetiva. O fato de que veteranos da maior força de combate militar desde a Guerra do Paraguai critiquem o Exército dá a suas observações credibilidade e força. Tudo está centrado nos militares, não no governo político, na sociedade civil, o que só reforça essa leitura.”

Rosenheck também estudou os monumentos dedicados à FEB, com conclusões semelhantes. “Apesar de dizerem que os pracinhas foram esquecidos, há 192 monumentos dedicados à FEB, com 451 mortos, ou seja, quase três monumentos para cada sete mortos”, conta. São construções que não celebram mortos, mas celebram os vivos, os que voltaram, uma visão pouco militarista. As Forças Armadas estão quase ausentes nos textos que acompanham esses monumentos, com escritos que destacam a democracia, a liberdade, o civismo. Dos 192, 120 foram construídos entre 1945 e 1946, e 32 antes da instalação da ditadura militar. São poucos os que mostram soldados (a maioria é de obeliscos) e a representação visual deles não é de combate. “A narrativa não comunica a importância do Exército ou seu papel na construção da nação, mas os valores de uma sociedade civil”, diz o historiador. “Temos que reconhecer que as ligações da FEB com a história militar são importantes, mas há outras narrativas. É preciso criar ligações entre a história da FEB e outros aspectos da história e sociedade brasileira como um todo”, avisa.
Revista FAPESP

O tamanho do Brasil no mundo

Política externa da redemocratização buscou maior autonomia, mas sem abrir mão de sua essência

CARLOS HAAG

Prédio do Ministério das Relações Exteriores, Brasília

“A diplomacia existe para defender o Estado, não apenas um governo”, afirma o embaixador Fernando de Mello Barreto. “Daí, a perenidade da política externa brasileira, com uma linha de coerência suprapartidária ligada, como a maioria dos países, aos interesses econômicos, que são permanentes. No caso brasileiro, isso vai ainda mais longe: as determinações da nossa política externa estão na Constituição”, explica. Não se trata de mera opinião. Barreto “prova” essa estabilidade, na contramão do senso comum, numa minuciosa análise da atuação dos chanceleres dos últimos 25 anos que resultaram em A política externa após a redemocratização (Fundação Alexandre de Gusmão). Nas quase 1.400 páginas do estudo, o que se percebe é que, apesar dos diversos presidentes, o Itamaraty é uma rocha de estabilidade.

“Claro que há diferenças de prioridade entre os vários governos, em geral sutis, apesar da aparência externa de ‘ruptura’, em geral mudanças de rota por causa de alteração no quadro externo, que demanda ajustes. Mas são raros os momentos de alteração de políticas tradicionais”, analisa o diplomata. Mesmo o advento da redemocratização não mudou o quadro: Olavo Setúbal, chanceler de José Sarney e o primeiro após o fim da ditadura, em seu discurso de posse afirmou que daria continuidade à política exterior dos militares. O que Barreto comprova pela trajetória cronológica dos chanceleres é a tese da pesquisa de Tullo Vigevani, professor titular aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisador do Centro de Estudos de Cultura contemporânea (Cedec) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos dos Estados Unidos (INC-Ineu), apoiada pela FAPESP.

“Mesmo no governo Lula não se viu uma ruptura significativa com paradigmas históricos da política externa, mas uma mudança nas ênfases dadas a certas opções abertas anteriormente à nossa ação exterior”, analisa Vigevani. “O que há são tradições diplomáticas distintas, com diferenças nas ações, nas preferências e nas crenças, buscando resultados específicos distintos, mas procurando não se afastar do objetivo sempre perseguido de desenvolver economicamente o país, preservando certa autonomia política”, observa. Assim, para o pesquisador, o conceito central que explica o desenvolvimento da política exterior, de 1985 até hoje, é a busca da autonomia.

A hipótese de Vigevani está expressa em seu livro Brazilian foreign policy in changing times: the quest for autonomy from Sarney to Lula (Lexington Books), que acaba de ganhar sua segunda edição nos EUA. Autonomia é entendida como a capacidade dos latino-americanos de se proteger contra os efeitos negativos do sistema internacional e da pressão feita pelos países mais poderosos. Ela seria expressa em três formas: pela distância desses países (opção do governo Sarney); pela participação ativa em instituições internacionais (como no governo Fernando Henrique); e pela diversificação de parcerias e fóruns de atuação (no governo Lula e ainda em vigor na administração Dilma).

Assim, apesar da inexistência da ruptura do governo Sarney (1985-1989), pressões americanas fizeram com que as chancelarias de Setúbal e Abreu Sodré adotassem posturas mais liberais e menos autárquicas, em razão da negociação da dívida externa e dos contenciosos das patentes farmacêuticas e da informática. O fim da Guerra Fria colocou o governo Collor (1990-1992) entre posturas divergentes na atuação diplomática: embora tenha se distanciado das práticas tradicionais, alinhando-se aos valores dos países desenvolvidos, aproximou-se do Cone Sul. Rezek e Celso Lafer (que voltou à chancelaria com FHC), seus ministros no Itamaraty, foram responsáveis pela formulação de uma política para o Mercosul, tratado assinado por Collor, adaptado aos novos tempos de regionalismo aberto.
Assinatura do tratado que criou as bases do Mercosul, em março de 1991 em Assunção, Paraguai. A partir da esquerda: Collor de Mello, Andres Rodriguez, do Paraguai, Carlos Menen, da Argentina, e Luis Lacalle, do Uruguai

“Invariavelmente, porém, presidentes e chanceleres deram alta prioridade às relações com os países vizinhos, em especial os muito próximos, como a Argentina, ainda hoje uma peça central para o consenso no Mercosul”, concorda Barreto. “Essa postura também veio com a redemocratização, que possibilitou ao Brasil perceber que temos problemas comuns com o resto da América Latina”, diz. Na gestão de FHC como chanceler de Itamar Franco e, mais tarde, como presidente (1995-2002), foram resgatados temas tradicionais da diplomacia brasileira, como a ampliação da autonomia nacional, sintetizada na pretensão brasileira de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, uma ideia levantada ainda na administração Sarney. “Mais uma vez a diplomacia se beneficiou da democracia. Se estávamos num país redemocratizado, podia-se exigir o mesmo da ONU e das outras nações, o que explica a questão do assento permanente”, nota Barreto. “Claro que nos governos militares essa questão não poderia sequer ser levantada.”

“Com o fim da ditadura, foram adotadas políticas de direitos humanos, de rejeição à proliferação de armas nucleares e de apoio às novas demandas ecológicas (nos governos Sarney, Collor, Itamar Franco e FHC). O Brasil, agora, não estava comprometido com as denúncias dos governos militares e podia se colocar mais no cenário internacional, buscar maior autonomia, facilitando o trabalho dos diplomatas”, fala Barreto. Segundo Vigevani, o ápice desse novo movimento se deu no governo FHC, quando se buscou internalizar as mudanças liberais propostas pela globalização, ao mesmo tempo mantendo-se o apoio a instrumentos econômicos estatais. “Era uma perspectiva cooperativa, sem deixar de denunciar as assimetrias internacionais e criticar a política americana do unilateralismo”, avalia Vigevani.

A coerência com a agenda global permitiu a adoção da “autonomia pela participação”, em que o Brasil não se isolava, mas se articulava com o mundo em busca de posição mais adequada ao seu novo peso internacional. “O relacionamento com os EUA, apesar disso, foi de reproduções ininterruptas. A mudança bilateral se deveu mais a atos e fatos concretos do que por mudanças na política externa brasileira”, observa Barreto. O governo Lula (2003-2011) não mudou essa essência, embora tenha optado pelo que Vigevani chama de “autonomia pela diversificação”. “A tônica foi a aproximação de países do Sul para obter maior inserção e maior poder de barganha nas negociações internacionais, buscando sempre soluções multilaterais, em vez de um mundo unipolar”, explica o pesquisador.

 
No segundo mandato de Lula as diretrizes foram aprofundadas, com destaque para a relação com países emergentes como China, Índia, Rússia e África do Sul, sem que isso prejudicasse o eixo Brasília-Washington. “A melhoria das condições econômicas do Brasil permitiu que se pudesse partir para uma política que incluísse a África subsaariana, desde a ‘ação vocal’ contra o apartheid, do governo Sarney, até a mais recente aproximação e cooperação”, diz Barreto. No Oriente Médio, as posições brasileiras também se mantiveram estáveis. “No governo Collor houve o apoio à revogação da resolução que igualava o sionismo a uma forma de racismo; no governo Lula, o reconhecimento da Palestina como Estado. Nos dois casos, apesar das diferenças aparentes, houve apenas uma acentuação de tendências claras, que não divergiam muito de outros membros da ONU”, fala o diplomata.

Vigevani ressalta a contradição entre as pretensões brasileiras de global trader e global player. “A busca de diversificação de parcerias com países em desenvolvimento, como China e Índia, é um obstáculo ao aprofundamento de acordos com países do Mercosul, porque se concentram recursos e esforços de cooperação com atores mais importantes do que os vizinhos”, analisa o professor. A baixa sensibilidade de certos grupos às questões regionais aliada à prioridade dada pelo governo Lula a questões globais, como a intervenção no Irã, dificultam que o país exerça sua autonomia por diversificação com seu entorno.

Mas Fernando de Mello Barreto rejeita a crítica de que a política externa de Lula foi “politizada”. “A diplomacia é política, sempre. Basta ver que a grande maioria dos chanceleres veio da política, com apenas dois diplomatas de carreira, Luiz Felipe Lampreia e Celso Amorim”, lembra. “Seja como for, a redemocratização foi um caminho que levou o Brasil a uma nova posição internacional.