segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Notícias História Viva


Hitler ordenou pessoalmente ataques a navios e cerco a portos

É o que revelam os papéis do Tribunal de Nuremberg guardados no Itamaraty

26 de agosto de 2012 
WILSON TOSTA / RIO - O Estado de S.Paulo
Uma estratégia naval supervisionada pelo próprio Adolf Hitler resultou no ataque generalizado de submarinos alemães a navios mercantes brasileiros junto à costa do País nos primeiros oito meses de 1942, quando o governo Getúlio Vargas ainda era formalmente neutro na 2.ª Guerra Mundial. Documentos do Tribunal de Nuremberg guardados no Arquivo Histórico do Itamaraty mostram que o führer autorizou pessoalmente o uso da força contra embarcações do Brasil em maio daquele ano, por considerar os brasileiros em guerra contra o reich.
A papelada tem partes do diário de guerra do ex-chefe de Operações do Oberkommando der Wehrmacht (OKW), general Alfred Jodl, e depoimento do ex-ministro da marinha alemã Erich Raeder na corte que julgou chefes nazistas - Jodl foi condenado à morte e Reader, à prisão perpétua. Os afundamentos levaram o País ao conflito.
"Em 29 de maio, o Comando de Operações Navais (SKL) propôs liberar o uso de armas contra forças aéreas e navais brasileiras", anotou Jodl em 16 de junho. "(O SKL) Considera apropriado um rápido golpe contra navios mercantes e de guerra brasileiros no momento presente, no qual medidas defensivas ainda estão incompletas e a possibilidade de surpresa existe, já que o Brasil praticamente está guerreando no mar a Alemanha. (...) Sobre a proposta do chefe do Comando Operacional das Forças Armadas, o führer ordenou em 30 de maio que o Comando de Operações Navais (SKL) deveria verificar, perguntando a Roma se relatórios brasileiros sobre a guerra, como ações contra submarinos do Eixo, estão corretos. A investigação (...) mostrou que submarinos italianos foram atacados em 22 e 26 de maio no canto nordeste do Brasil por aviões que fora de dúvida decolaram de base área brasileira."
Chefe da marinha de guerra alemã (Kriegsmarine) até 1943, Raeder se defendia em Nuremberg da acusação de crime de guerra por ordenar ações bélicas contra um país neutro e atacar embarcações brasileiras. Na época, os U-boats (submarinos) alemães tentavam bloquear o envio de matérias-primas e armas aos Aliados no Reino Unido e norte da África, atacando embarcações mercantes inimigas, o que não era oficialmente o caso do Brasil. Sua defesa argumentou que os brasileiros não sinalizavam corretamente seus barcos, tornando-se impossível diferenciá-los de navios inimigos. A documentação faz parte do arquivo da Missão Militar Brasileira na Alemanha e foi encaminhada ao País pelos Aliados em 1946.
Medo. A tensão entre Brasil e Alemanha vinha de 1941. O primeiro incidente entre os dois países ocorreu em 22 de março, quando o navio mercante Taubaté foi metralhado pela Luftwaffe no Mediterrâneo, junto à costa do Egito, deixando um morto e 13 feridos. Em 13 de junho, um submarino alemão obrigou o navio Siqueira Campos a parar junto a Cabo Verde. A embarcação brasileira só foi liberada após ser revistada e ter tripulantes fotografados. O Brasil aprofundava as relações com os Estados Unidos, que, a partir de junho, passaram a usar portos de Recife e Salvador. De Natal, americanos começaram a fazer patrulhamento aéreo. O Brasil rompera com o Eixo (Alemanha, Itália e Japão) em 28 de janeiro de 1942, no fim da 3.ª Conferência de Chanceleres das Américas, no Rio.
"A relação entre Brasil e Alemanha na época era assustadora", declarou Raeder, respondendo a seu advogado, Siemers, diante dos juízes em Nuremberg . "Alemães eram perseguidos lá, tratados muito mal. Os interesses econômicos da Alemanha eram prejudicados pesadamente. Brasileiros já vinham dando ouvidos aos Estados Unidos. Tinham permitido estações de rádio americanas. Transmissores sem fio tinham sido estabelecidos ao longo da costa brasileira e também estações de inteligência. (...) Eles mesmos confirmaram que tinham destruído um submarino alemão."
Depois do rompimento diplomático, recrudesceram os ataques alemães contra o País, ainda longe de águas brasileiras. A guerra chegaria mais perto em 22 de maio, quando o submersível italiano "Barbarigo" atacou (sem conseguir afundar) o vapor mercante Comandante Lira, entre Fernando de Noronha e o Atol das Rocas. O submarino foi localizado por um B-25 Mitchell da FAB, que, atacado a tiros de metralhadora, segundo a versão brasileira, reagiu com bombas. A embarcação italiana escapou, mas o incidente teve repercussão no comando alemão. É a esse caso que Jodl cita em seu diário.
A embaixada alemã temia o agravamento das relações com o Brasil, por causa da atitude da Argentina e do Chile. Após a ação contra o Barbarigo, o Comando de Operações Navais propôs que dez submarinos, que deveriam sair entre 22 de junho a 4 de julho de portos na França, bloqueassem os principais portos brasileiros de 3 a 8 de agosto. A ordem deveria ser dada aos submarinos até 15 de junho.
'De acordo'. Segundo Jodl, depois de o comandante da marinha relatar a situação a Hitler em 15 de junho em Berghof, o führer "se declarou de acordo". "Ordenou, contudo, que antes da decisão definitiva a situação política fosse de novo examinada pelo Ministério das Relações Exteriores." A operação, porém, acabou suspensa. Veio então nova série de ataques de navios brasileiros, ainda longe das águas nacionais.
Em agosto, o Eixo iniciaria outra ofensiva, agora contra a costa brasileira. Só no dia 16 morreram 551 pessoas nos ataques aos navios Baependi (270 mortos), Araraquara (131) e Annibal Benevolo (150). Os três foram torpedeados pelo submarino alemão U-507 perto de Sergipe. Um dia depois, o mesmo submersível matou mais 56 pessoas, ao afundar os navios Itagiba e Arará na costa da Bahia. Em 19 de agosto, o U-507 afundou a barcaça Jacira, perto de Ilhéus. Três dias depois, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália.
Telegrama "altamente secreto" da marinha alemã para o OKW admitia "risco" de a força ser responsabilizada pela entrada do Brasil na guerra. Ela sugeriu ao ministério das relações exteriores que pedisse às nações neutras para sinalizar seus navios para não serem confundidos com inimigos. Por fim, o documento da marinha diz: "O Ministério das Relações Exteriores alemão, contudo, mandou tal notificação só para Argentina e Chile. Um telegrama enviado em 10 de fevereiro de 1942. O Ministério das Relações Exteriores permaneceu no ponto de vista de que Estados sul-americanos que tinham rompido relações conosco não fossem informados."
Mortes. Ao todo, 35 navios brasileiros foram atacados de 1941 a 1944 - 33 afundaram, com 1.081 mortos documentados (mas o número pode chegar até a 1.400, pois nem toda embarcação tinha controle do número de passageiros) e 1.686 sobreviventes. Estudioso da 2.ª Guerra Mundial, o historiador Frank McCann, da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, avalia que os documentos de Nuremberg trazem detalhes importantes sobre as decisões alemãs de atacar navios brasileiros. "Publicados, poderiam finalmente aquietar um pouco do nonsense sobre quem afundou os navios brasileiros e por quê." www.estadao.com.br

Notícias História Viva


Brasileiro conta como sobreviveu a campo de concentração

Parte da família de Thomas Venetianer foi mantida em gueto comandado pelo húngaro Laszlo Csatary e depois enviada a Auschwitz.

18 de agosto de 2012 
Há mais de seis décadas vivendo no Brasil, o engenheiro Thomas Venetianer, de 75 anos, é um dos poucos sobreviventes ainda vivos do Holocausto, quando milhares de judeus morreram assassinados em campos de concentração por forças alemãs durante a Segunda Guerra Mundial.

Em entrevista à BBC Brasil, Venetianer contou que parte de sua família foi morta pelas mãos do ex-comissário de polícia húngaro Laszlo Csatary, de 97 anos. Considerado o criminoso nazista mais procurado do mundo, Csatary está há um mês em prisão domiciliar, após ser descoberto por repórteres do jornal britânico The Sun, em Budapeste.
Durante a ocupação nazista na Hungria, Csatary foi comandante do gueto responsável por enviar cerca de 15,7 mil judeus ao campo de Auschwitz, no sul da Polônia, um dos mais conhecidos centros de tortura do regime de Adolf Hitler (1889-1945). BBC Brasil http://www.estadao.com.br

UM MILHÃO DE VISITAS


Este blog que foi criado para guardar coisas boas da net...para não se perder com com o tempo... 
completou 1 milhão de visitas. 
Quero dizer que o conhecimento é um livro aberto e que, acordo todos os dias e me sinto completamente feliz por sua visita, pois sou apaixonado pela educação, ela me presenteou de vendedor de balas a professor. HOJE TRABALHO NA EDUCAÇÃO DE  PESSOAS.
É O GRANDE ORGULHO DA MINHA VIDA.
VOCÊ..........É MINHA SEGUNDA GRANDE SATISFAÇÃO.
OBRIGADO HOJE, AMANHA E DEPOIS.
Acho que essas palavras resume um pouco o que sou...

Loucos e Santos


por OSCAR WILDE

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

Rapidinhas da História


Surgido entre as duas guerras,  o Surrealismo afirmou-se como uma corrente artística empenhada na descoberta do Homem, nas suas dimensões mais profundas.



sábado, 25 de agosto de 2012

A supremacia política do Partido Comunista da União Soviética – Estaline (1924)



Todos os grupos pequeno-burgueses penetram, de uma forma ou de outra, no Partido; eles trazem-lhe o espírito de hesitação e de oportunismo, o espírito de desmoralização e de incerteza.
É neles, principalmente, que reside a fonte do fraccionismo e da desagregação, a origem da desorganização do Partido que eles minam do interior. Fazer a guerra ao imperialismo, tendo tais «aliados» na retaguarda, é expor-se a suportar o fogo dos dois lados [...]. A luta sem tréguas contra tais elementos e a sua expulsão do Partido são, pois, condição prévia do sucesso da luta contra o imperialismo.
Fonte: PORTUGAL - EXAME NACIONAL DO ENSINO SECUNDÁRIO

Ato Colonial (1930)



Artigo 2.º
É da essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações que neles se compreendam, exercendo também a influência moral que lhe é adstrita pelo Padroado do Oriente.
Artigo 22.º
Nas colônias atender-se-á ao estado de evolução dos povos nativos, havendo estatutos especiais dos indígenas, que estabeleçam para estes, sob a influência do direito público e privado português, regimes jurídicos de contemporização com os seus usos e costumes individuais, domésticos e sociais, que não sejam incompatíveis com a moral e com os ditames de humanidade.
Artigo 35.º
Os regimes econômicos das colônias são estabelecidos em harmonia com as necessidades do seu desenvolvimento, com a justa reciprocidade entre elas e os países vizinhos e com os direitos e legítimas conveniências da metrópole e do Império Colonial Português.
Fonte: PORTUGAL EXAME NACIONAL DO ENSINO SECUNDÁRIO

O Estado fascista, segundo Mussolini (1932)



O Estado fascista […] antecipa a solução de certos problemas universais, surgidos noutras áreas: no domínio político, pelo fraccionamento dos partidos, pelo abuso do poder do parlamentarismo, pela irresponsabilidade das assembleias […]. O fascismo quer que o Estado seja forte, organizado e baseado, ao mesmo tempo, numa larga base popular. O Estado fascista atribui a si próprio o domínio da economia e, pelas instituições corporativas, sociais e educativas que criou, o sentido do Estado chega até às ramificações extremas do país; e, no Estado, circulam, enquadradas nas suas organizações respectivas, todas as forças políticas, econômicas e espirituais da nação. […]
O Estado fascista organiza a nação, mas, no entanto, deixa aos indivíduos uma margem suficiente; limitou as liberdades inúteis ou nocivas, mas conservou as liberdades essenciais.
Fonte: EXAME NACIONAL DO ENSINO SECUNDÁRIO PORTUGAL

Mundo atual, segundo Barack Obama



(24 de julho de 2008)
Povos  do  mundo:  olhai  para  Berlim  [...].  Quando  o  povo  alemão  derrubou  o  muro  [...], começaram  a  ruir  os  muros  em  todo  o  mundo.  [...]  Também  os  mercados  se  abriram,  e  a difusão da informação e da tecnologia reduziu as barreiras às oportunidades e à prosperidade.  Enquanto o século XX nos ensinou que partilhamos um destino comum, o século XXI revelou  um mundo mais interligado do que em qualquer outra época da história humana.
A queda do Muro de Berlim trouxe uma nova esperança. Mas essa nova proximidade deu origem a novos perigos – que não podem ser contidos nas fronteiras de um país, nem pela distância de um oceano. Os terroristas do 11 de Setembro conspiraram em Hamburgo e treinaram em Kandahar e em Carachi antes de matarem milhares de pessoas de todo o globo em solo americano.
 Neste  preciso  momento,  os  carros  em  Boston  e  as  fábricas  de  Pequim  estão  a  fazer derreter  as  calotes  de  gelo  no  Ártico,  a  fazer  recuar  as  linhas  costeiras  do  Atlântico  [...].
Materiais nucleares mal guardados na antiga União Soviética ou os segredos de um cientista do Paquistão podem ajudar a construir uma bomba que vá detonar em Paris. As papoilas do Afeganistão  transformam-se  na  heroína  consumida  em  Berlim.  A  pobreza  e  a  violência  na  Somália semeiam o terror de amanhã. [...]
Neste mundo novo, estas correntes perigosas tornaram-se mais fortes do que os nossos esforços  para  contê-las.  É  por  isso  que  não  podemos  dar-nos  ao  luxo  de  nos  mantermos divididos.  Nenhuma  nação,  por  maior  ou  mais  poderosa  que  seja,  pode  enfrentar  sozinha esses desaios. [...] O maior de todos os perigos será o de permitirmos que novos muros nos  venham separar. Os muros entre velhos aliados de ambos os lados do Atlântico não podem continuar de pé. Os muros entre países com mais e países com menos não podem continuar de pé. Os muros entre raças e tribos, entre nativos e imigrantes, entre cristãos, muçulmanos e judeus não podem continuar de pé. [...]
Este é o momento em que temos de derrotar o terrorismo e secar o poço de extremismo   que o alimenta. [...]
Vamos estender as nossas mãos aos povos dos locais esquecidos deste mundo que anseiam por vidas marcadas pela dignidade e pela oportunidade, pela segurança e pela justiça? Vamos tirar da pobreza as crianças no Bangladeche, proteger os refugiados do Chade e erradicar, no nosso tempo, o lagelo da SIDA?
Vamos erguer-nos pelos direitos humanos do dissidente da Birmânia, do blogger do Irão ou do eleitor do Zimbabué? Vamos dar sentido às palavras «nunca mais» no Darfur? [...] Iremos acolher  os  imigrantes  de  diferentes  origens  e  evitar  a  discriminação  daqueles  que  não  se parecem conosco nem rezam da mesma forma que nós, e cumprir a promessa de igualdade e oportunidade para todos?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Teoria econômica keynesiana (1936)



Tudo aponta para a importância vital que tem a criação de um controlo central sobre certas atividades hoje confiadas, em grande parte, à iniciativa privada [...]. No que respeita ao consumo, o Estado será levado a exercer sobre ele uma influência diretora através da sua política fiscal, pela determinação da taxa de juro e, talvez ainda, por outros meios […]. Pensamos também que uma esta socialização do investimento constituirá o único meio de assegurar, quanto possível, o pleno emprego […]. Não é da propriedade dos meios de produção que o Estado se deve encarregar. [...]
O alargamento das funções do Estado […] parece-nos […] o único meio possível de evitar uma completa destruição das instituições econômicas actuais […].

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A AFIRMAÇÃO DO NAZISMO NOS ANOS 30 E 40 DO SÉCULO XX



Memórias de um alemão
O 30 de Janeiro de 1933 não trouxe qualquer vento de revolução, mas uma mudança de governo. Hitler tornou-se chanceler. […]
Durante o mês de Fevereiro, todos os acontecimentos se limitaram às notícias publicadas nos jornais […]. É óbvio que bastantes coisas se passaram neste âmbito: o Reichstag [Parlamento] foi dissolvido […]. Verificaram-se rápidas e violentas mudanças dos altos funcionários administrativos e instaurou-se o terror durante a campanha eleitoral. Os nazis actuavam sem peias: as suas tropas de assalto irrompiam regularmente nas reuniões eleitorais dos outros partidos, abatiam quase todos os dias um ou dois adversários políticos […]. O novo Ministro do Interior da Prússia (um nazi, um tal capitão Goering) promulgou um decreto inacreditável. Ordenava que a polícia, em caso de confronto, tomasse automaticamente o partido dos nazis sem investigar responsabilidades e, além disso, disparasse contra os outros sem aviso prévio. Um pouco mais tarde, constituiu-se uma «polícia auxiliar» formada por membros das SA. […] Mais tarde, o Reichstag ardeu. […]
Hitler, rodeado de camaradas […], pronunciou estas palavras imortais às portas do Reichstag: «Se isto é obra dos Comunistas, do que não duvido, que Deus tenha piedade deles!» Nós não fazíamos a mínima ideia do que se passava. O rádio não estava ligado. […] As brigadas de intervenção já andavam por todo o lado a arrancar as vítimas da cama, a primeira grande remessa com destino aos primeiros campos de concentração: deputados de esquerda, escritores de esquerda, médicos, funcionários e advogados, que gozavam de pouca simpatia. […]
Mais ou menos no mesmo momento, foi publicado um decreto de Hindenburg que abolia a liberdade de expressão, a confidencialidade postal e telefônica dos cidadãos e conferia à polícia plenos direitos para efetuar buscas domiciliárias, confiscar e prender. […] Os partidos de esquerda haviam sido terminantemente proibidos de efetuar qualquer tipo de propaganda eleitoral. […]
Um sindicalista social-democrata de Copenick enfrentou uma patrulha das SA que irrompeu uma noite pela sua casa para o «deter». […] No dia seguinte, as patrulhas das SA apresentaram-se em Copenick, entraram nas casas de todos os habitantes de conhecida orientação social--democrata e abateram-nos sem mais explicações. […]
Mantinham-nos, em simultâneo, permanentemente ocupados e distraídos com uma sucessão ininterrupta de celebrações, cerimónias e festas nacionais. Tudo começara com uma enorme celebração da vitória antes das eleições de 5 de Março, «Dia do Despertar Nacional»: desfiles gigantescos e fogo-de-artifício, tambores, bandas de música e bandeiras espalhadas por toda a Alemanha, a voz de Hitler através de milhares de altifalantes, juramentos e promessas solenes. Desta revolução [nazi], que não se dirigia contra qualquer regime, mas contra as bases da coabitação humana na Terra, [...] o primeiro ato intimidatório foi o boicote imposto aos judeus, a  1 de Abril de 1933. Assim o decidiram Hitler e Goebbels […]: todas as lojas dos judeus seriam boicotadas. As tropas das SA montariam guarda às portas e impediriam a entrada das pessoas. O boicote atingiria também os médicos e os advogados judeus, que seriam controlados nos consultórios e nos escritórios pelas patrulhas das SA. […]
Ao mesmo tempo, arrancou uma grande «campanha de informação» contra os judeus. Os alemães foram esclarecidos, através de panfletos, cartazes e concentrações, de que fora um erro terem considerado os judeus como seres humanos. Os judeus eram, na verdade, «seres inferiores», uma espécie de animais, mas providos de características demoníacas. As consequências que havia a retirar deste facto não foram desde logo explicadas. Contudo, a expressão «Morte aos Judeus!» foi proposta como slogan de campanha e grito de guerra.
Retirado do EXAME NACIONAL DO ENSINO SECUNDÁRIO - PORTUGAL

A condição operária, no jornal O Pensamento Social (1872)



Quem estuda as condições econômicas nas quais se desenvolve a sociedade moderna conhece que a riqueza da burguesia é produzida em toda a parte pelas mesmas causas. A concentração dos instrumentos de trabalho (terra, minas, oficinas, capital-moeda, etc.), o trabalho do homem substituído pelo do autômato, a divisão do trabalho e o estabelecimento de novos mercados para os produtos industriais e agrícolas, tais são as condições essenciais do desenvolvimento dessa riqueza. Mas, ao passo que a riqueza aumenta, a miséria cresce. Nos países civilizados, onde há grandes riquezas, há inúmeros miseráveis. Os instrumentos de trabalho concentram-se: o número de desapropriados sobe; e estes, não possuindo instrumentos de trabalho, são constrangidos a vender a sua força vital ou produtiva, como outros vendem as suas vacas e os seus carneiros.
As condições do trabalho são também iguais em toda a parte. O operário catalão, como o inglês, trabalhando em comum nas oficinas, respirando a mesma atmosfera, ali esgotam as forças, curvados sob o mesmo jugo, o jugo do capital.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Por que judeus e palestinos vivem em conflito?


Eliza Kobayashi
Quase que diariamente os jornais do mundo inteiro noticiam os infindáveis ataques mútuos entre israelenses e palestinos e as diversas iniciativas internacionais de tentar promover, sem sucesso, a paz entre os dois povos. O conflitos entre árabes e judeus, apesar de atuais, têm origem milenar e carregam uma longa história de desavenças religiosas e de disputa de terras. "Desde os tempos bíblicos, judeus e árabes, que são dois entre vários povos semitas, ocuparam partes do território do Oriente Médio. Como adotavam sistemas religiosos diversos, eram comuns as divergências, que se agravaram ainda mais com a criação do islamismo no século VII", conta Alexandre Hecker, professor de História Contemporânea da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Universidade Estadual Paulista (Unesp).


O conflito mais recente entre os dois povos se intensificou a partir da Primeira Guerra Mundial, quando se deu o fim do Império Otomano, e a Palestina, que fazia parte dele, passou a ser administrada pela Inglaterra. "A região possuía 27 mil quilômetros quadrados e abrigava uma população árabe de um milhão de pessoas, enquanto os habitantes judeus não ultrapassavam 100 mil", afirma o professor. A Inglaterra apoiava o movimento sionista, criado no final do século 19 com o objetivo de fundar um Estado judaico na região da Palestina, considerada o berço do povo judeu. Segundo Alexandre, o papel dos ingleses naquele momento era o de criar esse "lar nacional" para os judeus, que vinham sofrendo perseguições e violências em todo o mundo, mas sem violar os direitos dos palestinos árabes que já viviam ali. "Assim, na década de 20, ocorreu uma grande migração de judeus para a Palestina". 

Depois de 1933, com a ascensão do nazismo na Alemanha e o aumento das perseguições contra os judeus na Europa, a migração judaica para a região cresceu vertiginosamente. Os palestinos, por sua vez, resistiram a essa ocupação e os conflitos se agravaram. Após a Segunda Guerra Mundial e o fim do Holocausto, que levou ao extermínio de 6 milhões de judeus, a crescente demanda internacional pela criação de um estado israelense fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovasse, em 1947, um plano de partilha da Palestina em dois Estados: um judeu, ocupando 57% da área, e outro palestino (árabe), com o restante das terras. "Essa partilha, desigual em relação à ocupação histórica, desagradou os países árabes em geral", afirma Alexandre Hecker. 

Em 1948, os ingleses finalmente desocuparam a região e os judeus fundaram, em 14 de maio, o Estado de Israel. Um dia depois, os árabes, insatisfeitos com a partilha, declaram guerra à nova nação, mas acabaram derrotados. "O conflito permitiu a Israel aumentar seu território para 75% das antigas terras palestinas: o restante foi anexado pela Transjordânia (a parte chamada Cisjordânia) e pelo Egito (a faixa de Gaza)", explica o professor. Em consequência disso, muitos palestinos refugiaram-se em Estados árabes vizinhos, enquanto boa parte permaneceu sob a autoridade israelense. "Outras guerras se sucederam por causa de fronteiras, com vantagens para Israel e sempre sem uma solução para o problema dos refugiados". Apesar de algumas tentativas de acordos e planos de paz, a situação atual ainda é de muito impasse, principalmente pelo fato de os palestinos, liderados pelo movimento radical islâmico Hamas, não reconhecerem o direito de existência de Israel. Na opinião de Alexandre, "a guerra entre palestinos e judeus só terá um fim quando for criado um Estado palestino que ocupe, de forma equitativa com Israel, a totalidade do território tal qual ele se apresentava em 1917".
Revista Nova Escola

Como é a convivência entre árabes e judeus na Palestina



Para entender a questão palestina, é preciso diferenciar povos (israelenses e árabes-palestinos) e religiões (judaísmo, cristianismo e islamismo). Existem árabes-palestinos e israelenses que são judeus, cristãos e islamitas (ou muçulmanos). A convivência entre os povos é conflituosa há muitos anos. Uma disputa política marcante ocorreu em 1948, quando a Palestina foi anexada ao recém-criado Estado de Israel. Hoje, esse exército impõe toques de recolher ao povo palestino, mantém mais de 713 barreiras de controle e um muro com 790 quilômetros separando o país do território. Segundo um acordo da Organização das Nações Unidas (ONU), deveriam ser criados dois Estados, Israel e Palestina, mas ele não é cumprido.
Ali El-Khatib, coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Árabes da Faculdade de Campinas (Facamp)
Revista Nova Escola

sábado, 18 de agosto de 2012

Debret







Um passar de olhos sobre as imagens reproduzidas nesta página é suficiente para remeter o leitor aos livros de história do Brasil. São litografias das aquarelas de Jean-Baptiste Debret. Tão difundidas para ilustrar e fundamentar trabalhos dos nossos historiadores, elas acabaram dissociadas dos textos produzidos pelo próprio artista para compor os três volumes de Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, publicados em Paris entre 1834 e 1839. Fiel à sua formação de “pintor de história”, Debret manteve a prática da documentação, complementando as pinturas com textos informativos e interpretativos. Mas dele, que se definia como homem de “pena e pincel”, sobressaíram os pincéis.
“Enquanto a maioria dos viajantes estrangeiros se preocupava apenas em classificar os elementos da natureza e das personagens que compunham seus quadros, Debret tinha o propósito deliberado de criar uma história a partir da sistematização das informações. Em três volumes, ele organiza os trabalhos numa linha progressiva, dos índios até as instituições políticas e religiosas, contextualizando cada aquarela a seu período. Não existe outra obra deste porte aliando textos à força de 150 imagens”, afirma a historiadora Valéria Alves Esteves Lima. 
Formada pela UFRJ, Valéria já tinha o mestrado em história da arte pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, onde também defendeu sua tese de doutorado sob orientação do professor Robert Wayne Slenes. Inicialmente, ela pretendia dar continuidade à dissertação sobre a Academia Imperial de Belas-Artes, mas viu-se debruçada em Debret – um dos fundadores e professores da escola – e na documentação ilustrativa visando apresentar à Europa a imagem de um Brasil em regeneração com a chegada da Corte Portuguesa, e que inevitavelmente atingiria o nível de civilização dos países do velho continente. 
Debret foi discípulo do primo Jacques-Louis David, líder da escola neoclássica francesa. Acompanhou o primo durante a Revolução Francesa e na corte de Napoleão Bonaparte, como autor de obras celebrizando os feitos do imperador. Mais que o declínio do império napoleônico, o desconsolo com a morte do filho, em 1815, foi o que motivou sua vinda para o Brasil no ano seguinte, integrando uma missão francesa contratada para criar na colônia uma escola de artes plásticas que se transformaria na Academia Imperial. 
Debret desembarcou no Rio de Janeiro em 1816, justamente quando o Brasil era elevado à condição de Reino Unido. Aqui ficou por 16 anos, tempo que lhe rendeu grande conhecimento da realidade brasileira, ainda mais gozando de proximidade com o poder – emprestava sua arte à família real – e na capital que vivia um período de desenvolvimento econômico, urbano e cultural, com inauguração de bibliotecas, teatros e academias literárias e científicas. “Os trabalhos de Debret seriam um testemunho que se contrapõe à imagem de uma monarquia fugida da Europa, despreparada, decadente e caricata. Na visão dele, nem João VI e Pedro I, nem as capacidades do País mereciam desprezo”, afirma a historiadora. 
Para o pintor francês, a família real trouxe tradição e simbolizou o poder constituído, marcando o fim da administração colonial. A bagagem adquirida na corte francesa e nos estudos de história e filosofia permitia que compreendesse bem o momento político e deve ter influído na elaboração de sua obra. “Ele entende a elevação a Reino Unido como o início do processo de regeneração do país, que então pega o trem da civilização. É, então, que se sentem os efeitos da abertura dos portos e a retomada das relações de Portugal com as nações européias, o que promovera a entrada de mais estrangeiros no Brasil. Segundo Debret, esta presença européia era fundamental”, explica Valéria Lima.
Miscigenação – A pesquisadora atenta para as idéias iluministas de Debret, que via na educação e na miscigenação racial e cultural de índios e negros com os europeus, o meio de acesso dessas populações a níveis de civilização inatingíveis caso permanecessem em seu isolamento. Freqüentando o poder e sem perder o contato intenso e prolongado com os habitantes, o artista detinha visão privilegiada do regime, atestando as condições de diálogo para esta mistura racial. “A leitura que ele faz é curiosa, pois não vê nada de diminuidor na proposta. Simplesmente achava que a miscigenação já estava acontecendo, que era preciso reconhecê-la e ter consciência de que dela dependia, também, o progresso que se desejava para o país”, observa Valéria. 
Isto não significa que Debret enaltecesse ou colocasse as outras raças em pé de igualdade com os brancos. Sem contestar as teorias raciais da época, como as especulações sobre o tamanho do crânio, o pintor tinha o negro como indolente e mentalmente limitado, admirando apenas a sua força física. “Seu interesse na miscigenação estava na formação de um tipo biológico capaz de sobreviver ao clima considerad
o insuportável para o branco e que fosse intelectualmente capaz de acompanhar a civilização européia”, acrescenta. Em relação aos nativos, o artista organizou o material a partir dos indígenas mais “primitivos” até os civilizados, a fim de mostrar que se tratava de uma tendência natural. “Ele trata o primitivismo já como parte do passado, algo folclórico. Avalia como inevitável a associação dos índios com os brancos, esperando que os próprios índios civilizados resgatassem os mais avessos para a civilização”.

Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil
A Devido ao hábito da observação, natural em um pintor de história, fui levado a extrair espontaneamente os traços característicos dos objetos que me rodeavam; desta forma, meus desenhos feitos no Brasil retratam especialmente as cenas nacionais ou familiares do povo entre o qual passei dezesseis anos. 
(Sobre sua filiação artística, vol. 1)

É no índio selvagem que encontramos o princípio e o germe de tudo aquilo que o espírito humano concebeu como idéias filosóficas, elevadas, admiráveis e mesmo bizarras, aplicadas por ele unicamente através do instinto e da inspiração. 
(Sobre os indígenas, vol. 1)

Minha intenção foi compor uma verdadeira obra histórica brasileira, na qual se desenvolva, progressivamente, uma civilização que já honra seu povo, dotado naturalmente das mais preciosas qualidades, para merecer um paralelo vantajoso com as nações mais destacadas do antigo continente. 
(Sobre a proposta de fazer uma obra histórica, vol.1)

Porém, por um singular contraste, foi a mão de um rei de Portugal que desperta o brasileiro depois de três séculos de apatia quando, fugitivo da Europa, ele vem estabelecer seu trono na sombra destas agradáveis palmeiras, para logo abandonar, é verdade, esta obra de regeneração inspirada pela necessidade. No entanto, a civilização havia germinado e o Brasil, consciente de seu futuro, conserva o primogênito deste inconstante protetor, e faz dele um imperador independente cujo poder soberano anula definitivamente as pretensões do poder português sobre suas antigas possessões na América. Assim emancipada, a terra de Alvarez Cabral governa a si mesma e deve às suas próprias luzes sua prosperidade sempre crescente. 
(Sobre o papel da monarquia portuguesa, vol. 3).
Jornal Unicamp

A história sobrenatural do Brasil



Livro resgata fatos obscuros do trabalho
de cristianização dos índios na América portuguesa
Antropofagia, bebedeiras coletivas, poligamia, rituais pagãos, nomadismo, cotidianas guerras tribais. Como conviver com um povo deste? Para os dominadores portugueses do Brasil colônia, era impossível. Daí a decisão de catequizar os indígenas ou, havendo resistência, de escravizá-los ou dizimá-los. 
Os vivos e os mortos na América portuguesa – Da antropofagia à água do batismo é um livro de Glória Kok, lançado pela Editora da Unicamp, enfocando os vínculos que índios e jesuítas estabeleceram com o mundo sobrenatural. Formada em filosofia, mestre e doutora em história social pela USP, Glória reuniu testemunhos preciosos sobre a forma como os nativos brasileiros – notadamente os tupis-guaranis – encaravam a morte e o paraíso, as suas práticas xamânicas, o significado de suas guerras, as formas de resistência diante dos colonizadores e das atrocidades de que foram vítimas em nome da cristianização.
A partir do reconhecimento pelo papa de que os índios são seres racionais (em 1537) e da chegada da Companhia de Jesus (em 1549), Glória Kok resgata fatos obscuros da história colonial até hoje pouco divulgados. Esta omissão, de um lado, ajudou a eternizar o preconceito contra ritos ancestrais, pois, por ignorarmos seus significados, nos habituamos a vê-los como manifestação da ignorância dos índios. De outro lado, contribuiu para manter imaculada a história oficial, onde praticamente não se menciona o genocídio de nativos e que somente agora começa a ser revista e recontada aos alunos da rede básica.
Na opinião da pesquisadora da USP, houve nos últimos anos grande produção de teses e livros de historiadores, o que iluminou o tema da colonização da América portuguesa sob diferentes prismas. “Esses textos são gradualmente transpostos, ainda que com filtros, para os livros de ensino fundamental e médio. Assim, os conflitos inerentes ao processo de catequização e à escravidão já se apresentam indissociados da história da colonização em vários livros didáticos e paradidáticos do mercado brasileiro", afirma.
Glória, porém, ressalta que isso não basta. "Na minha opinião, os livros também devem contemplar uma abordagem mais detalhada e dinâmica dos rituais indígenas tupis-guaranis e a leitura que deles fizeram os jesuítas, bem como a que os índios fizeram do mundo cristão, para que os alunos possam entender as disputas simbólicas que estruturam nosso imaginário".


Hoje - Solicitada a avaliar a postura da Igreja de hoje ante os índios, a autora de Os vivos e os mortos lembra que, mesmo na Colônia, os jesuítas reuniram todas as forças para a catequese e, para isso, precisaram flexibilizar os seus próprios procedimentos. Ela crê que este enfoque em relação aos índios mudou, sobretudo a partir dos anos 70, com o surgimento da Teologia da Libertação na América Latina, quando a Igreja passou a se colocar ao lado dos oprimidos. "Não sou uma especialista na matéria, mas nota-se que, por um lado, a Igreja desenvolveu um padrão bem mais tolerante com relação às culturas diferentes e ancestrais e, por outro, muitos povos indígenas aguçaram a consciência da necessidade de preservação das tradições tribais e das diferentes culturas, organizando movimentos de resistência".
Os mortos em desassossego
Segue uma reprodução (praticamente literal) de alguns tópicos do Capítulo 1 de Os vivos e os mortos na América portuguesa – Da antropofagia à água do batismo. O capítulo leva o título acima e este resumo, obviamente, não reflete a riqueza de detalhes com que Glória Kok resgata as relações dos indígenas com o mundo sobrenatural:


*Por ocasião da chegada dos europeus à América portuguesa, os Tupi viviam na orla atlântica do Amazonas até Cananéia e na região da bacia amazônica, enquanto os Guarani distribuíam-se pelo litoral de Cananéia ao Rio Grande do Sul, infiltrando-se nas margens dos rios Paraná, Uruguai e Paraguai. Esta ocupação dos tupi-guarani era interrompida apenas em alguns pontos do litoral: na foz do Rio Paraíba pelos Goitacá, pelos Aimoré no sul da Bahia e norte do Espírito Santo, e pelos Tremembé na faixa entre Ceará e Maranhão. Esses povos não-Tupi eram chamados de tapuias.
*As guerras entre tribos indígenas, mesmo de mesma língua, fervilhavam por todo o território. O motivo desses conflitos era um só: eles queriam vingar a morte dos seus pais antepassados. Para os europeus, essas guerras não tinham o menor sentido, já que não visavam nem a expandir o território, nem enriquecer, nem dominar, explorar ou aniquilar o inimigo. Muitas vezes, um grande contingente de homens era mobilizado para incursões guerreiras, cujo resultado era a captura de um único prisioneiro, que depois seria comido ritualmente pela tribo.
*Na aldeia vitoriosa, o índio capturado era recebido com muita alegria e entusiasmo. Era pouco vigiado, pois se fugisse seria considerado um covarde em sua terra e acabaria passando a vergonha de ser morto pelos índios de sua própria tribo. A morte pelo inimigo era a ideal, almejada por todos: a consagração do guerreiro. Não se encontrava prisioneiro que não preferisse ser morto e comido a pedir perdão.

*Para os covardes e os homens que nunca mataram um inimigo, o destino lhes reservava a mortalidade da alma, o apodrecimento do corpo, a transformação em uma existência espectral, que não conservava nada mais de humano. Aos guerreiros valorosos, que aprisionaram e mataram muitos inimigos, ou ainda às mulheres dedicadas ao preparo da carne dos prisioneiros e à sua ingestão, era permitido o ingresso a essa vida ideal coroada pelo convívio com os antepassados, deuses e heróis-civilizadores.

*É lícito afirmar que os índios acreditavam na realidade de uma substância para além do corpo físico, a que os europeus atribuíram o nome de alma. Mas a alma índia não envolvia a idéia de desmaterialização absoluta. Tampouco suprimia todas as ligações entre a "alma" e os restos mortais ou a desvencilhava das primitivas necessidades. Nessa ótica, a morte representava uma fenda na pessoa, a partir da qual o corpo e a alma submetiam-se a intensos processos de transformação.
*Contrapondo-se à vítima do terreiro que não demonstrava o menor vacilo ante o golpe de tacape, ciente de que seu corpo posteriormente seria consumido pelos inimigos, o índio que era acometido por alguma doença e percebia a proximidade da morte vivia trespassado pelo medo. Pode-se deduzir que o medo era, em grande parte, oriundo da decomposição física. "(...) dizem que é triste cousa morrer, e ser fedorento e comido pelos bichos".
*O curso das relações entre os vivos e os mortos nas tribos tupis-guaranis alterou-se substancialmente com a chegada dos jesuítas que, ao trazerem um outro modelo de sobrenatural, desfiguraram e esgarçaram o vínculo existente entre os vivos e os mortos. No entanto, antes de implantá-lo, trataram, sobretudo, de minar a resistência indígena que se manifestaria em várias regiões e de formas variadas.

SERVIÇO
Os vivos e os mortos na América portuguesa - Da antropofagia à água do batismoGlória Kok
Editora da Unicamp
Campinas, 2001
183 páginas


Jornal Unicamp

Por ortografias nunca dantes exploradas



Pesquisadora faz análise inédita de trechos
da Carta de Pero Vaz de Caminha

MARIA ALICE DA CRUZ
A pesquisadora Nazarete de Souza: estudo enriquecido com fatos históricos e breve biografia de Caminha
Datada deste porto seguro davosa jlha da vera cruz oje sesta feira primeiro de mayo de 1500... A escrita parece estranha numa primeira leitura da chamada Certidão de Nascimento do Brasil: a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão oficial da armada de Pedro Álvares Cabral em sua viagem de descobrimento da Terra do Pau-Brasil. Natural a estranheza às palavras, pois as versões apresentadas em sala de aula geralmente são revisadas de acordo com as atuais normas gramaticais, coisa inimaginável quando a frota de Cabral aventurou-se em enfrentar o mar rumo à mata virgem habitada por seres pardos, nus, armados com setas, como descreve fielmente Caminha, nomeado escrivão da armada aos 50 anos de idade.

Se em termos lingüísticos a carta havia sido analisada em aspectos filológicos, semânticos e fonológicos, a pesquisadora Nazarete de Souza faz, ao lado de seu orientador, o professor Luiz Carlos Cagliari, um desafio inédito: “O estudo de alguns aspectos da ortografia da Carta de Pero Vaz de Caminha”. A dissertação de mestrado, realizada no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL), foi iniciada na época da comemoração dos 500 anos do descobrimento. Definida pela pesquisadora como uma pequena contribuição para um projeto maior sobre a História da Língua Portuguesa, coordenado pelo professor Cagliari, a pesquisa apresenta uma análise importante para a construção da história da ortografia da língua portuguesa, jamais tratada em estudos da carta. Nazarete e Cagliari analisaram cuidadosa e minuciosamente todos os termos curiosos da carta, comparando-os à tradição ortográfica vigente. 
O texto descritivo de Caminha apresenta construções curiosas de palavras como jlha de Vera cruz, em vez de Ilha de Vera Cruz, a duplicação de consoantes, a separação de termos como tam bem, por tamto, bem como a união de vocábulos como queo, em vez de que o e ocapitam, em vez de o capitão. Se hoje revisores e editores podem discutir o uso de maiúsculas e minúsculas, graças à padronização de estilo e à normatização da gramática, Caminha não tinha a preocupação de iniciar parágrafo com letra maiúscula e tampouco de escrever a palavra toda na mesma linha. O que representaria ao revisor de hoje o trecho amcoragem limpa. aly Jouuemos todaaquela noute. a aaquinta feira pola manhã fezemos vella? 
A pesquisa demonstra que a certidão de nascimento do Brasil, dirigida a rei Manuel, relatando a primeira impressão sobre os indígenas habitantes da Ilha de Vera Cruz, Terra de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz e, definitivamente, Brasil tem muito mais a contar do que as impressões dos portugueses sobre aspectos etnográficos e geográficos. 
Algumas palavras da ortografia de Caminha são facilmente reconhecíveis, mas, na maioria das ocorrências, seria necessária uma preparação antes de tomar conhecimento do original. Redigido em linguagem acessível, o estudo feito por Nazarete pode ser usado como orientação a estudiosos e a estudantes a fim de facilitar o entendimento da Carta de Pero Vaz, afinal, é a primeira vez que um pesquisador se empenha em analisar a ortografia da carta. 
A escolha da carta como objeto de estudo da pesquisa, segundo Nazarete, “justifica-se pelo valor inegável que seu conteúdo tem para a história do Brasil, de Portugal e da América Latina”. A pesquisa é enriquecida com fatos históricos de Portugal de 1500 e uma breve biografia de Pero Vaz de Caminha, nomeado mestre da Balança da Moeda por d. João, quando este ainda era príncipe regente, em pleno campo de batalha. Segundo alguns estudiosos, além das habilidades de escrivão, a carta deixa transparecer o caráter e a dignidade de Caminha. Segundo dados da pesquisa, ele tinha prestígio como homem público. Sua importância social consta em documentos públicos oficiais da Câmara Municipal do Porto. Pesquisadores encontraram sua assinatura em vários documentos, principalmente em atas de sessões da Câmara. 
Durante muito tempo, Caminha foi considerado um escritor ingênuo e sem estilo por críticos do século 20. Atualmente, é visto como um escritor refinado, com domínio de estilo e preocupado com a simplicidade e a objetividade. O exemplo está em um trecho no qual ele apresenta suas impressões sobre a terra descoberta, aqual bem certo crea que por afremosentar nem afear, aja aquy de poer maís caaquilo que vez e me pareçeo. Traduzindo: a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.
Um dos poucos documentos que se salvaram da armada de Cabral, a Carta ficou inédita por três séculos na Torre do Tombo, em Lisboa, até ser descoberta pelo guarda-mor da torre, José de Seabra, em 1773. Hoje, faz parte do acervo da real Marinha do Rio de Janeiro. O padre Manuel Aires do Casal foi responsável por sua primeira publicação, em 1817. O estudioso Jaime Cortesão a considera uma obra literária do gênero “narrativas de viagem”.
O estilo caligráfico pertence à escrita dos cortesãos, tradicional do século 15, mas a carta tem características da escrita encadeada que viria a ser moda no século 16. O estilo encadeado é aquele em que se escreve sem levantar a pena, gerando palavras ajuntadas, segundo dados da pesquisa (veja reprodução nesta página).
Breve dicionário de Caminha
anoua – a nova
jsto – isto
omonte – o monte
himdo – indo
eos – e os
njnguem – ninguém
demarço – de março
poer – pôr
dagram – da grande
papagayo – papagaio
ahuuas – a umas
nauios – navios
ataa – até a
biij – VIII
asvy – as vi
xiiij – XIV
meteram-se – meteram-se
chuuaçeiros – chuvaceiros
ahuumas – a umas
trouueranlhes – trouxeram-lhes
amrique – Henrique
auamjelho - evangelho
fre/mossa – formosa
bertolomeu - Bartolomeu
loçaynha – louçainha
açerqua – acerca
apreposito – a propósito
comcrudiram – concluíram
detremjnado – determinado
Aleuantarãsse – levantaram-se
simgraduras – singraduras
andauã – andava
Bõõs – bons
Jnorançia – ignorância


Jornal UNICAMP

Canudos

Um novo olhar sobre
Historiador produz documentário com abordagem inédita sobre a saga de Antonio Conselheiro
Vista geral de Canudos.Há quem diga que a Guerra de Canudos (1896-1897), articulada pelo beato Antonio Conselheiro, foi uma espécie de movimento comunista primitivo que predominava no pequeno povoado baiano. Há ainda aqueles que viam em Canudos um movimento puramente messiânico, ligado apenas à religião e ao transcendente, engendrado pelo "fanático" beato que pretendia levar os seguidores para o céu, por meio do sacrifício de suas próprias vidas.
Soldados e um conselheirista preso.Mas o professor Ítalo Tronca, do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, está empenhado na elaboração de um vídeodocumentário com uma abordagem crítica em relação às narrativas tradicionais e que com o tempo tornaram-se oficiais. Ele se propõ ainda a despertar a curiosidade e provocar um certo estranhamento, tanto em especialistas quanto em estudantes da história e da cultura brasileiras, do ensino fundamental ao superior.
Foto 3 - Sepultamento do capitão Antônio Manuel de Aguiar e Silva."Não vou simplesmente recontar a história da Guerra de Canudos, mas lançar um novo olhar sobre a questão. Mesmo porque existe uma infinidade de documentários e filmes sobre o episódio, embora nem todos cumpram bem o seu papel", diz. No seu trabalho, o pesquisador vai mostrar que o discurso do pietismo ou da vitimização daquele povo "é de alguma maneira falso, assim como são falsos os argumentos daqueles que fazem apologia à civilização republicana".
Ruínas da igreja novaÍtalo Tronca vê o conflito com uma dimensão um tanto poética, até romântica, nessa abordagem que foge de um documentário puramente objetivo, que pretenda revelar a verdade sobre Canudos. "Trata-se de uma questão polêmica e estão em jogo muitas verdades. Esse é o dilema. E é isso que eu gostaria que o vídeo de alguma forma demonstrasse: a pluralidade de sentidos nesses acontecimentos", explica.

General Carlos Eugênio e seu estado maior em Monte SantoO professor de História do Brasil iniciou o projeto ao perceber que havia um vazio na historiografia sobre Canudos. "Quando se percorre a bibliografia sociológica ou política mais especializada, ou se faz uma abordagem dos acontecimentos, nota-se uma uniformidade do discurso:os mais sensíveis derramam-se em lágrimas por causa dos pobres miseráveis que morreram massacrados pela República; outros enaltecem a guerra, porque não haveria lugar para um corpo estranho como uma comunidade de fanáticos que não respeitavam as leis vigentes".
O Corpo de Antônio Conselheiro.O discurso oficial se apóia muito no fanatismo do beato Antonio Conselheiro e de seus seguidores, os sertanejos. Em seu trabalho, Ítalo Tronca pretende focalizar também o caráter libertário do movimento. "Pouco importa que existisse uma dimensão mística. O importante nisso tudo é que Antonio Conselheiro não estava ameaçando a ordem republicana. A ordem republicana é que, por várias razões e nem todas evidentes, se sentia ameaçada", explica o pesquisador da Unicamp. E mais, segundo ele, é que está em jogo questionar o espírito (éthos), a natureza do regime republicano, que no seu discurso oficial proclamava-se libertador, garantidor dos direitos das minorias , mas, diante dos inconformados com a nova ordem, partiu para a violência.

O professor Ítalo Tronca: "Antonio Conselheiro não estava ameaçando a ordem republicana"Escolas receberão vídeo
O Projeto Audiovisual "Canudos", já em fase de produção, é uma idéia do professor Ítalo Tronca, responsável também pela pesquisa. Conta com a participação do jornalista José Irani Dias e de Alan Russo, pesquisador e aluno de História do IFCH. A Petrobras entra com R$ 80 mil de patrocínio.
De acordo com o projeto inicial, o vídeo será formatado em blocos de 20 ou 25 minutos, que a empresa patrocinadora se propõe a distribuir pela rede de ensino em nível nacional. O filme também será veiculado em redes de televisão. 
"Temos entrevistas com uma antropóloga de Alagoas, bastante respeitada, e com a professora Walnice Galvão, especialista em Euclides da Cunha. O programa será composto ainda de um vasto material inspirado em trechos de Os Sertões, e do diário de uma expedição do próprio escritor. Este diário é um documento histórico, anterior ao livro que o consagrou, referente ao momento em que as tropas comandadas pelo general Bitencourt estavam a caminho de Canudos", conta Ítalo.
O professor adianta que pretende trabalhar com as informações do diário feito pelo escritor durante sua peregrinação pelo sertão baiano antes da chegada em Canudos e da batalha final. Com base nesse material, que inclui fotografias da época, Ítalo Troca vai elaborar umpré-roteiro do vídeo. 
"Euclides vai fazendo observações muito interessantes sobre as condições das tropas, o meio geográfico, a hostilidade desse meio e suas próprias sensações. Tudo isso vou compondo em minha imaginação. Esse documento, menos conhecido, é tão ou mais interessante do que o livro famoso, pois são observações e sentimentos do autor em primeira mão, despidos do cientificismo e dos recursos literários de Os Sertões; é muito mais uma reportagem de alto nível do que um trabalho literário. 
Ítalo Tronca acrescenta que no diário vai-se pre-configurando Os Sertões, como fosse a matéria bruta da posterior obra monumental. "Nosso vídeo pretende explorá-lo justamente por ter sido quase esquecido pela linguagem audiovisual, inclusive o cinema", conclui o professor.
Estudos revisitam tema
"Uma coincidência histórica reúne este ano os centenários da morte de Prudente de Moraes e da publicação de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Canudos se insere no projeto mais amplo sobre Prudente de Morais e sua época, final do século 19", explica o professor Ítalo Tronca. A tragédia que teve como palco o sertão baiano situa-se no coração do período de governo de Prudente de Morais. O drama e suas conseqüências - não só para o regime republicano recém-inaugurado, mas para a sociedade brasileira como um todo - não cessaram até hoje, quando analisados sob ponto de vista da história política, social e cultural.
O professor do IFCH explica que depois de Os Sertões, que parecia ter esgotado as possibilidades de interpretação do episódio, sucederam-se inúmeros estudos, apoiados na descoberta de novas fontes documentais. Esses documentos permitem hoje, mais do que uma simples revisão, uma nova leitura daqueles acontecimentos.

Jornal UNICAMP

Como e por que os homens trabalham


Ensinar como eram as relações sociais em diversas épocas ajuda a entender em quais aspectos a concepção de trabalho mudou

Daniele Pachi


Acordar cedo, tomar café da manhã e sair apressado para trabalhar. Provavelmente, essa cena faz parte do cotidiano de familiares de grande parte dos estudantes.

Será que a garotada imagina que a dinâmica do trabalho nem sempre funcionou da forma como conhecemos e vivenciamos nos dias de hoje? Essa é uma reflexão importante para ser proposta nas aulas de História. Para fazer isso, é possível aproveitar conteúdos considerados clássicos da disciplina que fazem parte do currículo de 6º e 7º anos: Roma e Grécia antiga e Idade Medieval.

"Estudar com a turma as sociedades desses períodos sob a perspectiva do trabalho é interessante porque ajuda os alunos a conhecer esse aspecto e a relação dele com as transformações que ocorreram - e ainda ocorrem - na sociedade ao longo da História", diz Juliano Custódio Sobrinho, selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Para uma base sólida e uma exploração crítica, o professor precisa auxiliar os jovens a comparar o ontem e o hoje. Dessa maneira, eles vão poder relacionar os conteúdos estudados e a realidade em que vivem e fazer conjecturas.

Inicialmente, para apresentar o tema que será foco das aulas, é fundamental falar, ainda que brevemente, sobre as origens do Dia Internacional do Trabalho, (1º de maio) e seu significado social e histórico (veja o quadro abaixo). Em seguida, proponha aos estudantes, como objetivo final do estudo, a elaboração de um quadro comparativo entre as relações trabalhistas nos dias atuais, na Antiguidade e na Idade Média.

Esclareça que, para conhecer o contexto atual, eles devem ir a campo e entrevistar pessoas conhecidas (como familiares, amigos e funcionários da escola). A organização da lista de perguntas deve ser coletiva e você, professor, tem de supervisionar a seleção e fazer os ajustes necessários. Não podem faltar questões como "você trabalha quantas vezes por semana?", "tem mais de um emprego? Por quê?", "recebe algum tipo de bonificação?", "tem direito a férias remuneradas?" e "é registrado em carteira ou autônomo?". Outras perguntas, sobre valor salarial, por exemplo, não são interessantes para esse tipo de exploração.

Feitas as entrevistas, é hora de socializar as respostas e o grupo, ainda reunido, deve identificar características que marcam o mundo trabalhista atual. É possível, dentre outros cenários, que as pessoas entrevistadas ganhem salário, trabalhem em mais de um emprego e realizem uma jornada definida, com direito a receber benefícios e bonificações (essas últimas, de acordo com o cumprimento de metas estabelecidas previamente e comunicadas pelo empregador).

Antes de mergulhar com a turma nas sociedades do passado, pergunte por que as pessoas, hoje em dia, trabalham durante quase toda a vida. É provável que as respostas tenham a ver com a necessidade de ganhar dinheiro para arcar com as necessidades da família (comprar comida, roupas e remédios e viver em boas condições). Esse é um momento importante para contar que a subsistência sempre foi um dos principais motivos pelo qual os homens trabalham. Mas a relação entre empregadores e trabalhadores já sofreu grandes mudanças, bem como a forma da atividade: antes, escrava ou devida a alguma obrigação para com o patrão, e agora, livre. "Fazer um resgate histórico sobre essa atividade em vários aspectos (social e econômico, por exemplo) ajuda a entender por que as relações trabalhistas ganharam a configuração atual e se tornaram cada vez mais dinâmicas", afirma Sobrinho.
O Dia do Trabalho
Em 1º de maio de 1886, norte-americanos saíram às ruas de Chicago por melhores condições de trabalho. Eles reivindicavam a redução da jornada de 13 para oito horas, salários mais altos, descanso semanal remunerado e férias anuais. No mesmo dia, aconteceu uma greve geral no país. Os conflitos entre os manifestantes e a polícia se intensificaram: oito operários morreram e vários foram presos. Alguns, acusados de liderar as manifestações, foram julgados e sentenciados à morte. Três anos depois, a data foi oficializada internacionalmente como o dia que representa as conquistas dos direitos dos trabalhadores. No Brasil, é comemorada desde 1925.
Revista Nova Escola

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Existe alguma diferença na forma como os escravos eram tratados na Grécia e Roma antigas?



Ronaldo Nunes

Há diferenças, sim, mas também semelhanças. Desde o início das civilizações grega e romana, a prática da escravidão era comum - em Roma, a partir do século 8 a.C. e, na Grécia, desde a civilização micênica (1500-1200 a.C.). Nos dois casos, um homem podia se tornar escravo por ter contraído dívida sem honrá-la. Era possível, ainda, passar a essa condição por ter sido vencido na guerra. Nesse caso, a vida do inimigo era poupada para que ele fosse conservado como escravo (daí a palavra latina servus). O comércio ocorria em grandes mercados, regulado por leis que previam o direito do cativo de comprar sua liberdade de volta por meio do acúmulo de um pecúlio. Isso era incomum para os escravos do campo, mas uma opção mais realista para os que viviam nas cidades e faziam biscates. Na Grécia, era rara a libertação de um escravo e o liberto não tinha direitos. Seus descendentes continuavam escravos, e as chances de alforria eram restritas. Já em Roma, era comum que escravos urbanos fossem alforriados, e seus filhos, considerados livres. Os libertos adquiriam a cidadania romana. Outra diferença: entre os romanos, os libertos passavam a ser tratados como parentes do seu antigo dono, herdando, inclusive, seu nome de família. Em duas gerações, não havia mais distinção entre os antigos donos e os descendentes de escravos. Nas duas sociedades, havia punições e maus-tratos: eles podiam ser mantidos acorrentados, marcados a ferro, sofrer mutilações e ser condenados à morte.
Revista Nova Escola