quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Arqueólogos encontram pedras sagradas dos incas no Peru

Pedras. Foto: Museu Britânico/Divulgação

As pedras cônicas já haviam sido descritas por cronistas

Arqueólogos do Peru e da Grã-Bretanha encontraram um conjunto de pedras incas que, segundo eles, podem revelar à humanidade o segredo do poderio da civilização que dominou parte da América do Sul entre os séculos 15 e 16.

Fazendo escavações no topo de uma montanha onde os incas realizavam rituais sagrados, os especialistas encontraram as três pedras ancestrais, objetos sagrados que, na crença inca, representavam a conexão entre o mundo dos ancestrais e o Sol.

Nenhum exemplar das pedras - descritas por cronistas espanhóis que chegaram à América no período das grandes navegações e vistas em desenhos feitos no período - havia sido encontrado antes.

Elas têm 35 cm de altura, formato cônico e são relativamente pesadas, precisando ser carregadas com ambas as mãos.

A equipe de arqueólogos incluiu cientistas da Universidade Nacional de Huamanga, no Peru, do Museu Britânico e das Universidades de Reading e de Londres, na Grã-Bretanha.

"Acreditamos que essas pedras, e as plataformas onde foram encontradas, guardam o segredo do poderio inca"", disse o especialista do Museu Britânico Colin McEwan à BBC Brasil.

Relatos Históricos

Os cientistas trabalhava há duas semanas a altitudes de entre 3,6 mil metros e 5 mil metros quando as pedras foram localizadas.

"Estou falando de arqueologia radical, era difícil trabalhar e até mesmo respirar lá em cima", disse McEwan.

Os incas acreditavam que seus ancestrais, os fundadores da civilização, haviam sido convertidos permanentemente em pedras.

Após a chegada dos colonizadores espanhóis, cronistas descreveram, em seus relatos históricos, importantes eventos públicos na praça central da capital do Império Inca, Cuzco.

Nessas ocasiões, o rei inca ficava sentado em uma plataforma elevada, de onde observava as celebrações.

Oferendas líquidas de chicha (uma bebida fermentada feita com milho) eram feitas por meio de uma abertura vertical feita na plataforma.

Quando o rei não estava presente, uma pedra sagrada era colocada no assento onde ele deveria estar sentado para representar o poder da dinastia inca.

Deuses da Montanha

"A capital inca, situada entre altitudes de 2,5 mil e 3,6 mil metros, era bastante alta", disse McEwan. "Mas a expansão do império inca implicou na conquista de altitudes ainda maiores, onde viviam as lhamas e alpacas, entre 3,6 mil metros e 5 mil metros".

Fonte de alimento e de lã para tecelagem, além de importante meio de transporte, grandes rebanhos de lhamas e alpacas eram vitais para a sobrevivência do império.

McEwan e a equipe de arqueólogos acreditam que isso explica a presença, nos cumes de várias montanhas, de cerca de 40 plataformas cerimoniais, símbolos do controle inca sobre esses territórios.

Com a ajuda do arqueólogo peruano Cirilo Vivanco Pomacanchari, da Universidade Nacional de Huamanga, que vem progressivamente localizando e mapeando as plataformas em locais remotos, a equipe chegou ao local onde as relíquias foram encontradas.

Segundo McEwan, eles não tinham qualquer ideia do que poderiam encontrar.

"Esses locais eram tão sagrados que os incas não queriam deixar qualquer traço visível da presença humana neles", disse McEwan.

"Ao escavar o chão da plataforma, encontramos amostras de solo trazidas de diferentes regiões, cuidadosamente dispostas".

Mais ao fundo, cerca de 2,5 metros abaixo da superfície, a equipe encontrou uma cavidade que havia sido escavada na rocha sólida.

"Quando escavamos, descobrimos três dessas pedras, cuidadosamente colocadas com as pontas juntas, como um tripé, apontando para baixo, indicando a conexão com o mundo dos ancestrais".

Poder Benevolente?

Questionando teorias segundo as quais os incas seriam "socialistas", McEwan disse que seu império foi construído com astúcia e violência.

"Quando negociavam com um líder local, os incas lhe ofereciam a opção de governar localmente, mas ele era obrigado a pagar impostos".

Se a oferta não era aceita, o poderio inca dizimava a população masculina e transferia os sobreviventes para outros locais, cortando seus vínculos com a terra e meios de subsistência.

As plataformas e as pedras ancestrais, parte do arsenal ideológico inca, eram um instrumento-chave de controle imperial.

"Sabíamos que os incas deveriam ter razões importantes para colocar essas plataformas nesses locais, próximos dos cumes sagrados e permitindo uma visão ampla de todo o horizonte à volta".

"Nós acreditamos que eles obrigavam a população local a trazer (as amostras de) solo e as colocavam nas plataformas como símbolos do domínio inca".

Os especialistas calculam que essas plataformas teriam sido construídas por volta de 1.400, durante a conquista daqueles territórios pelos incas, antes da chegada dos espanhóis.

Na crença inca, picos de montanhas cobertos de neve, de onde vem a água que sustenta a vida nos vales, eram sagrados.

As pedras seriam oferendas para o cume sagrado, conectando os ancestrais incas ao Sol.

"Você dá seu mais precioso objeto aos deuses da montanha, esperando em retorno a fertilidade da terra e os benefícios trazidos pelos animais que a habitam",

Corpos de crianças mumificados, encontrados anteriormente nas montanhas, indicam também a prática de sacrifícios humanos.

Nova Etapa

Segundo McEwan, o próximo passo é fazer uma análise das amostras de solo encontradas nas plataformas.

Com a ajuda de satélites, a equipe está tentando entender também a lógica por trás da localização específica de cada uma delas.

Ele diz que não há plataformas em todos os cumes altos e acredita que a escolha dos locais não era aleatória.

Finalmente, McEwan diz que a equipe quer saber como os incas conseguiram ganhar o impulso que lhes deu controle sobre um território tão imenso.

A resposta estaria guardada nas plataformas e pedras ancestrais.

"Elas estão no coração do grande projeto inca", concluiu Colin McEwan.

http://www.bbc.co.uk

Arquivos secretos revelam história alemã


Após a queda do muro de Berlim, a responsável pelos documentos do governo fala dos bastidores de tortura e medo que rondavam o país

Carina Rabelo


Defensora do lema "memórias reveladas para que não se esqueça e nunca mais aconteça", para a ex-ministra alemã Marianne Birthler, 61 anos, sociedade evoluída é aquela que conhece sua história. É no espírito de reconstrução da própria identidade que a Alemanha comemora, no dia 9, 20 anos da queda do muro de Berlim. A reunificação garantiu ao povo alemão o acesso irrestrito aos arquivos secretos da República Democrática Alemã (RDA), a antiga Alemanha Oriental. Os documentos mostram bastidores das operações da Stasi, a temida polícia secreta que espionava, prendia e torturava cidadãos. Em 1991, as violações foram reveladas em 140 quilômetros de papel, 1,3 milhões de fotos e cinco mil filmes e vídeos, 164 mil cassetes e 20 mil disquetes e fitas de áudio.
Nos anos 80, Marianne, que vivia no lado Oriental, se engajou nos grupos de oposição, foi investigada e viu muitos amigos sofrerem perseguições políticas e chantagens da polícia secreta. Considerada referência na defesa do acesso às informações, em 2000 ela assumiu a chefia do departamento dos arquivos da polícia secreta. Atualmente, ocupa cargos no Comitê Alemão do Unicef, no conselho da Transparência Internacional - coalizão global contra a corrupção - e na Grünen Akademie, rede acadêmica ligada ao Partido Verde.


Quando os arquivos da Stasi foram abertos, muitas pessoas ficaram sabendo que o parceiro, o vizinho ou um amigo era espião. Como tem sido a receptividade dos alemães a esses documentos?


MARIANNE BIRTHLER - A aceitação é grande. Não devemos esquecer que os cidadãos da antiga República Democrática Alemã (RDA) conquistaram o direito ao exame dos arquivos depois de terem ocupado entre 1989 e 1990 os escritórios do Ministério de Segurança do Estado. E, até hoje, aproximadamente 1,7 milhão de pessoas apresentaram requerimentos para exame dos documentos, além dos meios de comunicação. Reportagens sobre colaboradores extraoficiais ou os procedimentos do Ministério de Segurança do Estado mostraram às camadas mais amplas da população - também na Alemanha Ocidental - quão pérfidos foram os métodos da Stasi.


Muitas também descobriram que foram vigiadas.

MARIANNE - É óbvio que ler isso nos documentos referentes à própria pessoa também é penoso, mas é, sobretudo, uma oportunidade para recuperar o controle da própria biografia. O ministério muitas vezes interveio na vida dos cidadãos, sem que eles pudessem provar isso. Você não podia frequentar a universidade, não podia trabalhar na sua profissão, não ganhava a residência já prometida. Seus amigos de repente se afastavam, e tudo isso era manipulado pela Stasi.

Há uma equipe que trabalha na colagem dos pedaços de papel dos documentos destruídos após a queda do muro. Quantos se perderam?


MARIANNE - É muito difícil dizer quantos documentos o Ministério de Segurança do Estado conseguiu destruir. Restaram-nos documentos que equivalem a 160 km de papel, além de fitas magnéticas e fotografias. Na dissolução do ministério encontramos mais de 15 mil sacos com documentos rasgados. Esse é o material que os oficiais da Stasi queriam fazer desaparecer completamente. Já conseguimos recompor o conteúdo de 400 sacos e estamos nesse momento desenvolvendo um processo de reconstrução computadorizada. Em Leipzig, por exemplo, os colaboradores da Stasi tinham despedaçado os documentos com uma máquina gigantesca e misturado os fragmentos com água, até formar uma pasta.

Além disso, em 1990 foi destruído, com a concordância dos dirigentes políticos, quase todo o acervo do Departamento de Espionagem no Exterior da Stasi.

O filme "A Vida dos Outros" (2006) mostra como um policial protegeu um investigado por consciência. Há algum paralelo com a realidade?


MARIANNE - O enredo do filme é um conto de fadas. Não temos notícia de oficiais da Stasi que protegeram pessoas espionadas. Isso nem teria sido possível, pois os colaboradores da Stasi também eram supervisionados. Na rotina da Stasi, todas as atividades descritas no filme eram separadas e executadas por colaboradores distintos, que nada sabiam um do outro e, muitas vezes, nem conheciam a finalidade da sua tarefa.

O objetivo era impedir que uma pessoa soubesse demais ou pudesse pôr algo em movimento.


Que tipos de tortura eram praticados pela Stasi?


MARIANNE - Nos anos 50, algumas vítimas relataram que encheram o chão da sua cela com água para que elas não pudessem sentar ou dormir. Era uma forma de provocar a exaustão. Em anos posteriores recorria-se, principalmente à violência psíquica. Assim, os acusados eram pressionados sistematicamente, mediante a ameaça da imposição de penas severas, da prisão arbitrária de pessoas próximas ou da adoção forçada dos filhos. Muitas vezes, a privação do sono era obtida também por meio de interrogatórios noturnos e ininterruptos. Na maioria dos casos, a insônia já resultava das pressões advindas do isolamento na prisão e da incerteza total acerca do destino dos presos. Além disso, as lâmpadas sempre permaneciam ligadas nas celas durante a noite.

Eram muito frequentes?


MARIANNE - As torturas físicas passaram a ocorrer com frequência cada vez menor, à medida que a RDA empenhava- se em ser reconhecida no plano internacional e temia revelações sobre a forma como tratava os presos, sobretudo após a adoção da prática da libertação dos detentos e sua expulsão do país em troca de grandes quantias de dinheiro. Por isso, desde os anos 60, a violência era psíquica, sob a forma da humilhação e da tutela. Até hoje, muitos dos aproximadamente 250 mil presos políticos sofrem as consequências traumáticas das condições desumanas nas prisões.

Como ocorria a venda de pessoas do lado oriental para o ocidental?


MARIANNE - Nessas iniciativas de venda de presos a Stasi atuava em segredo. As negociações eram realizadas com a ajuda de advogados de ambos os lados. Na RDA, a cúpula do Estado influía consideravelmente. No Ocidente, essas transações eram dirigidas por órgãos governamentais. Vendiam-se, sobretudo, presos políticos. Para a RDA, esse comércio era um bom negócio: no total ela recebeu aproximadamente 1,8 bilhão de euros.

Os investigados podem obter informações sobre os torturadores e investigadores, como nome verdadeiro e endereço?


MARIANNE - Os investigados têm livre acesso às suas fichas. Isso também significa que eles podem ler nelas os nomes dos oficiais da Stasi mencionados nos documentos. Muitas vítimas procuraram entrar em contato com os autores, seus investigadores e outras pessoas. Na maioria dos casos, essas tentativas fracassaram diante da falta de disposição dos autores de se expor a tais situações.

Havia núcleos neonazistas investigados pela polícia secreta?


MARIANNE - Sim, como o caso da Divisão SS Walter Krüger, em Wolgast. Foram presos nove jovens adultos, em 1989. Grupos neonazistas na Alemanha Ocidental, como o Grupo de Esporte Defensivo Hoffmann, também eram objetos interessantes para a Stasi. Mais frequente, contudo, era a perseguição de pessoas sob o pretexto de atitudes fascistas, quando elas, na verdade, representavam apenas um estorvo para a política oficial.

A sra. chegou a ser investigada pela polícia secreta?

MARIANNE - Vivi na RDA e trabalhei, primeiro, no comércio exterior. Depois, frequentei um curso pedagógico na igreja evangélica e atuei durante muitos anos com crianças e adolescentes, uma área na qual podíamos trabalhar em relativa liberdade, embora sob fiscalização da Stasi. Em meados dos anos 80 engajei-me cada vez mais na política, na oposição. Muitos amigos, que também atuavam no movimento de base, sofriam perseguição política e eram observados. Sabíamos disso. Mas só após a queda do muro viemos a conhecer as verdadeiras dimensões da observação.

Pelos diversos casos de espionagem e traição, é de se imaginar que havia um clima de desconfiança permanente. Os resquícios desta desconfiança ainda se mantêm entre os alemães?


MARIANNE - A desconfiança é um fenômeno secundário de cada ditadura. Em quem ainda posso confiar? Eis a pergunta. Sabíamos, porém, que a Stasi queria produzir exatamente esse efeito de insegurança e tentamos nos libertar dele. A abertura dos arquivos trouxe à luz muitos casos de traição, mas eles não envenenaram a sociedade, em que pesem as suas consequências dramáticas nos casos individuais. Muito pelo contrário, existe até hoje uma discussão social importante, também muito atual depois das eleições para os parlamentos estaduais, sobre como lidar com ex-informantes e colaboradores de dedicação exclusiva. Vamos aceitar que antigos colaboradores do Ministério de Segurança do Estado ou antigos dirigentes do partido atuem na política, se tornem chefes de partidos políticos e mesmos secretários de Estado? Será que eles podem trabalhar em altos cargos no serviço policial? Essa discussão somente é possível porque os arquivos estão abertos e porque existe o direito à fiscalização. A verdade nos ajuda a reduzir a desconfiança. Mas nem sempre é fácil e confortável conviver com ela.

China – Década de 1980, abertura para um universo de influência cultural do “Império do Centro”


por Paulo Antônio Pereira Pinto

Há cerca de dez anos, tenho tido o privilégio de contar com este espaço, concedido pela Universidade de Brasília, para exercícios de reflexão sobre minha vivência, entre China, Sudeste Asiático, Taiwan, Índia e, agora, Cáucaso. Peço vênia, nesta oportunidade, para a recapitulação dos “melhores momentos” destes estudos. O primeiro artigo trata do período entre 1982 e 1995, dividido entre Pequim (Brasília), Kuala Lumpur, Cingapura e Manila. Analisa o processo de abertura chinesa, consequências no plano interno e nas relações da RPC com seu entorno imediato, no Sudeste Asiático.
Assim, meus depoimentos se iniciam, a partir da década de 1980, quando começa uma nova fase na história recente da China, com processo de modernização e abertura do país ao exterior, após o período turbulento da Revolução Cultural.
Tanto no plano interno, como no externo, identificam-se, naquele momento, alterações determinadas por condicionantes da forma de pensar chinesa, cuja história é marcada por ciclos que se repetem em resposta a sucessivas novas contradições. Buscam-se, sempre, outros pontos de equilíbrio. O ocorrido na década de 1980 significava o início de nova cena de partida, de um passado recente, que estabeleceu bases para o cenário em vigor na China. Daí, talvez, o interesse quanto à reflexão sobre o que se passou, para o melhor entendimento do que está acontecendo e virá a ocorrer.
Naquele período, cabe ressaltar, não era possível deixar de sentir uma certa tristeza, pelo fato de que havia sido encerrada, na China, uma era de convicção poética maoista. A partir de 1949, acreditara-se que, em benefício do interesse comum da sociedade, centenas de milhões de pessoas poderiam ser levadas a patamar mais elevado do que o egoísmo individual.
A experiência chinesa de busca de uma sociedade igualitária encantara a muitos. Os países do Terceiro Mundo admiravam sua combatividade e auto-suficiência. Os economistas ocidentais registravam o pleno emprego atingido no campo e invejavam sua força de trabalho disciplinada, na indústria. O exercício de observação diário e o aprendizado da realidade do país, no entanto, indicavam que não se vivera na China, nas três décadas anteriores, tantos motivos de encantamento[1].
Na verdade, naquele período, perdurara o elitismo e a corrupção entre os dirigentes do partido e do governo. O lento progresso obtido na economia demonstrara não ser tão fácil, desenvolver-se com os próprios recursos, sem a infusão de investimento, tecnologia ou ajuda externa.
Em suas relações internacionais, sabe-se que a República Popular, desde sua fundação, em 1949, havia mantido um vasto exército e milícias armadas e desenvolvido a bomba atômica. A China tivera conflitos com a União Soviética e Índia e fricções com o Japão, com respeito às Ilhas de Senkaku e com o Vietnã, quanto às Spratlys. Não se tratava, portanto, de país totalmente “amante da paz”, conforme se divulgava em Pequim aos visitantes estrangeiros.
No plano interno, à medida que se conhecia melhor a real situação chinesa, ficavam diminuídos, inclusive, os ganhos considerados, por exemplo, no controle familiar – enorme. No entanto, verificava-se o custo em termos de direitos humanos, na proibição de casamentos antes dos 20 anos e obrigatoriedade de apenas um filho por casal.
Não se quer negar, no entanto, as grandes conquistas do período maoísta, nem os feitos do povo chinês. Um país que, na primeira metade do século XX, fora devastado por guerras internas, encontrava-se, no início da década de 1980, unificado, apesar das crises de liderança resultantes da Revolução Cultural.
Como era possível verificar, a China alimentava e vestia seu povo. Um esforço descomunal fora feito para construir represas, diques e sistemas de irrigação, bem como no sentido da auto-suficiência alimentar. Mas seria isso suficiente? Tais conquistas teriam que ser vistas em perspectiva.
Mao Zedong tornara a “necessidade” em “virtude”, como base de sustentação para política de auto-suficiência. Em grande parte, tratava-se de reação ao fato de que os soviéticos terem cessado toda e qualquer auxílio, a partir de 1960, levando consigo, inclusive as matrizes de fábricas cuja instalação já havia sido iniciada.
O Grande Timoneiro, então, colocou toda sua crença na “genialidade do povo chinês”. Doravante, tudo seria resolvido com a mobilização permanente das “massas”. Daí, surgiriam energias e talentos até então escondidos por sistema social opressivo. Na década de 1960, por exemplo, ampla campanha nacional encorajava simples operários a fazerem sugestões sobre inovações tecnológicas. Exageros evidentes eram noticiados a respeito do aumento de produtividade como resultado de soluções práticas obtidas nos canteiros de obras, campos agrícolas e operadores de máquinas nas fábricas.
O caráter “anticientífico” das práticas maoistas chegou ao apogeu durante a chamada Revolução Cultural, quando professores e alunos foram obrigados a curvar-se diante da “sabedoria” das massas.
Postura semelhante foi adotada nas forças armadas chinesas, onde o conceito maoista de “guerra popular” baseava-se na premissa de que “homens contavam mais do que máquinas”. Nessa perspectiva, centenas de milhares de soldados de infantaria, com armamento obsoleto, seriam capazes de derrotar um Exército soviético equipado com armas modernas. Mantinha-se, no entanto, a dissuasão nuclear, na medida em que a China não renunciava a sua própria bomba atômica.
Com a derrota do “bando dos quatro”, a China desencadeou outra campanha, desta feita para condenar a viúva de Mao, visando a acusá-la e a seus três cúmplices de Xangai pela maioria dos fracassos e fraquezas do anos anteriores. Este novo processo implicou, novamente, em notáveis exageros nas acusações. A mensagem, no entanto, era clara: os dirigentes chineses haviam tomado consciência de que suas políticas de auto-suficiência, recusa em aceitar ajuda externa e negativa à aquisição de tecnologia estrangeira haviam reduzido as taxas de crescimento e o progresso em quase todos os setores da economia.
A rejeição da ideologia passada foi feita na forma de pronunciamentos que, gradativamente, desautorizassem o autoritarismo vigente na fase que se encerrava. Enquanto isso, o corpo de Mao Zedong era reverenciado no Mausoléu, em Pequim, com todas as honras devidas ao fundador da República Popular da China. Tratava-se, no entanto, de trazê-lo a proporções humanas.
Começava o processo de estabelecer seu lugar na história, como um grande líder revolucionário, mas como um homem com menor sucesso, quando se tratou de administrar um país. Suas principais preocupações diziam respeito à eliminação dos dogmas socialistas, agora vistos como impedimento à nova marcha da China, em direção à modernização. O principal responsável pelas alterações na condução das políticas, econômica e social da China, a partir de 1978, e “Novo Timoneiro”, passou a ser o então Vice-Primeiro-Ministro Deng Xiao-Ping.
O julgamento público de Mao, no entanto, tinha dimensões restritas. Todos os erros cometidos no período de radicalização maoísta eram atribuídos a Lin Piao e ao “bando dos quatro”. Para o cidadão chinês, contudo, havia implicações óbvias: não era possível aceitar que toda a culpa fosse atribuída a um traidor e a quatro radicais – na prática, os atuais dirigentes em Pequim estavam admitindo que a “Grande Revolução Proletária Cultural” havia sido um fracasso enorme e custoso.
O próprio retorno de Deng Xiao-Ping ao poder, como Vice-Primeiro Ministro já significava uma rejeição eloqüente do julgamento de Mao, que havia dado seu apoio pessoal às duas quedas anteriores de Deng.
Não era possível ignorar, contudo, que Mao tinha razão quanto ao diagnóstico sobre os males que atingiam a China. Assim, de acordo com sua visão, o maior perigo para o país seria o retorno à estagnação imposta pela burocracia do partido e do estado. Suas soluções eram poéticas e imaginativas: uma série de campanhas para mobilizar os intelectuais – “O Movimento de Cem Flores” – a busca de um caminho mais curto para o Socialismo – “O Grande Salto Adiante” – e a provocação de uma “discórdia criativa” entre a juventude do país e a burocracia estatal – “A Revolução Cultural”.
Sabe-se, contudo, que Mao não obteve sucesso na criação do “homem socialista”. Ele pediu demais, tanto dos chineses, quanto da natureza humana.
No final da década de 1970, no entanto, todo este processo havia sido esquecido. Ficara provado que, em tese era uma boa idéia encorajar os trabalhadores a pensarem o aumento da produção com seus próprios meios. Na prática, a premissa ideológica, sobre a qual se baseava – a de que a sabedoria está consagrada nos trabalhadores – conduziu a medidas impraticáveis, como por exemplo, a utilização de máquinas antiquadas sendo utilizadas em velocidade inapropirada, provocando acidentes ou resultados negativos.
Com a morte de Mao Zedong e a derrubada do “Bando dos Quatro”, a China poderia, finalmente, defrontar-se com estes fatos negativos e tomar as decisões cabíveis, para superá-los.
Havia sido abandonado, no entanto, o fundamento da filosofia maoista: o “conceito hegeliano” de que a unidade deve ser dividida em duas partes e que cada situação contém em si contradições saudáveis que são necessárias para a luta e o progresso, levando, assim, à noção de luta de classes contínua e revolução permanente[2].
Segundo Mao, a China não deveria jamais permitir-se cair na complacência da “unidade” e, de acordo com esta filosofia, o “Grande Timoneiro” teve a audácia poética de desencadear uma revolução contra seu próprio governo e partido. O veredito da história será provavelmente o de que, enquanto Mao foi um dos maiores líderes revolucionários, demonstrou ser um governante menos habilidoso, uma vez que sua revolução tornou-se vencedora. Provocou, assim, severas perdas a seu país, enquanto perseguia suas visões utópicas.
Sob nova liderança, Pequim pareceria retomar a abordagem mais tradicional à forma de governança, recuperando a busca filosófica chinesa do “Caminho Real”.
Recorda-se, então, que, desde os primórdios da civilização chinesa, há 4000 anos, às margens do Rio Amarelo, que pensadores buscam equilíbrio e harmonia como forma de governança a ser chamada de “Caminho Real”, quando haveria “ordem social” em que os monarcas exerceriam suas responsabilidades e a população cumpriria seus deveres.
Nas palavras de Confúcio: “Quando um governante faz o que é certo, influenciará as pessoas, sem ordená-las. Quando o governante não faz o que é certo, seus comandos não são obedecidos”. Implícita fica a noção de que, caso a autoridade local não crie condições de governança adequadas ao funcionamento harmonioso da sociedade, os cidadãos podem ignorar o governante.
No início da década de 1980, portanto, o sentimento dominante era o de que a morte havia “humanizado” Mao Zedong e “desmitificado” a China, que, então, admitia suas limitações no trato com os grandes problemas do país.
Abertura para um Mundo de “Desordem sob os Céus”
Nos anos em que foram registradas as observações acima – entre 1982 e 1985– o cenário internacional era bipolar, com centros de poder em Washington e Moscou. Segundo classificação adotada no Ocidente, o planeta era dividido em “Três Mundos”. Os países industrializados de economia de mercado foram incluídos no Primeiro Mundo. Os de sistema econômico centralmente planificado participavam do Segundo. Os em desenvolvimento eram despachados para o Terceiro.
Durante a fase maoista, no entanto, os chineses tinham uma visão própria do globo terrestre. Este estaria dividido em duas partes antagônicas – a metade que apoiava o bloco soviético e a outra que se opunha, incluindo a China. A política externa da RPC seguia esta rigidez, baseada no pressuposto de que qualquer coisa que pudesse prejudicar os interesses de Moscou seria favorável a Pequim.
Sob a nova liderança de Deng Xiaoping, tornou-se mais pragmática também a postura chinesa no plano externo. Este “último Grande Timoneiro do século XX” – como se referem a ele alguns historiadores – apresentara, a propósito, teoria própria quanto à existência de “Três Mundos”[3].
Segundo Deng:
“A julgar pelas alterações nas relações internacionais, o mundo atual consiste de três partes, ou três mundos, que são tanto interconectados, quanto contraditórios. Os Estados Unidos e a União Soviética formam o Primeiro Mundo. Os países em desenvolvimento na Ásia, África e América Latina integram o Terceiro Mundo. Os desenvolvidos – sejam os do mundo capitalista ou do socialista – formam o Segundo Mundo”.
De acordo com o novo discurso chinês, o Sudeste Asiático, já então organizado por sua associação regional ASEAN (na sigla em inglês), representaria, em meados da década de 1970, exatamente o tipo de interlocutor capaz de implementar a cooperação – e refletir as contradições – entre países do Terceiro Mundo e entre estes e o Segundo Mundo, conforme defendido pela China. Assim, em oposição ao congelamento das esferas de influência das superpotências—ambas integrantes exclusivas do Primeiro Mundo imaginado pelos chineses.
Tais desenvolvimentos induziam, desde então, à percepção de que a estrutura de poder bipolar que vinha permeando a região estaria sendo alterada em função de nova “multipolaridade”, na Ásia-Pacífico, onde quatro potências principais – os Estados Unidos, a União Soviética, a China e o Japão – teriam, doravante, sua parcela de influência.
Verifica-se, a propósito, que, desde o início da atual política de modernização da China, na década de 1980, houve desdobramentos que facilitaram o atual avanço do processo de congruência entre a área de influência tradicional da cultura chinesa e uma nova fronteira econômica da RPC .
A crescente regionalização da produção evoluía, de forma que a interação de novas tendências, como a redução nos custos da mobilidade dos fatores de produção e as economias de escala exigidas por processos produtivos crescentemente sofisticados, proporcionavam o surgimento dos chamados “tigres” ou “novas economias industrializadas”. Os efeitos de tais reajustes seriam evidentes no aparecimento de formas de relacionamento inovadoras, que incluiriam diferentes tipos de parcerias entre Japão, novas economias industrializadas no Sudeste Asiático e partes da China.
A emergência de certos países e agrupamentos regionais, sempre de acordo com esta linha de raciocínio, não se deveria a experiências isoladas, mas a fenômeno integrado, que projetaria sobre a área como um todo os benefícios da acumulação de capital e da experiência modernizadora resultante da aplicação prática de novos conhecimentos científicos e tecnológicos[4].
A estabilidade e o progresso na Ásia-Pacífico passaram a ser entendidos, por setores de opinião, como dependentes, cada vez mais, de processos de cooperação que garantissem a negociação entre suas diferentes culturas. Nesse contexto, despertavam crescente interesse os vínculos históricos entre a China e o Sudeste Asiático.
Isto porque a maioria dos países do Sudeste Asiático compartilha de passado que os inseriu, em maior ou menor escala, em esfera de influência de duas grandes civilizações: a chinesa e a indiana, que interagiram, através dos séculos, com culturas locais. O Budismo, o Islã, o Hinduismo e o Confucionismo deixaram, assim, marcas profundas que continuam a diferenciar ou aproximar pessoas.
A este mosaico de heranças culturais seculares, somou-se, mais recentemente, o colonialismo europeu que impôs pela força, novos valores e normas de organização e comportamento. A partir do término da Segunda Grande Guerra, os Estados recém-independentes da região foram divididos, pela rivalidade ideológica das superpotências, entre os que serviriam como a vitrine da economia de mercado e os que seguiriam o sistema de planejamento centralmente planificado.
Com a multipolaridade resultante do término da Guerra Fria, ocorreu o recuo das esferas de domínio de Washington e Moscou. Como consequência, no Sudeste Asiático, tornou-se possível o ressurgimento de influências político-culturais antigas, como a chinesa. Hoje, quando se discutem os efeitos da presença avassaladora da cultura de massa, resultante da globalização, os países da área buscam, em sua própria região, marcos de referência que permitam afirmar valores, idéias e crenças, consolidadas através de uma história compartilhada numa geografia determinada.
No Sudeste Asiático, nessa perspectiva, verificou-se a gestação de um novo conjunto de mudanças que afetaram não apenas a economia, através da reorganização freqüente de suas vantagens competitivas, transformações técnico-industriais nas formas de produzir e alterações na organização da sociedade. Tudo isso ocorreu, no entanto, com a preservação de valores culturais que, passando de geração a geração, garantiram uma base de sustenção do modelo que se consolidava.
Tal panorama leva alguns estudiosos, como Léon Vandermeersch[5], a contribuir para a tese de que existe uma base cultural para avaliar o fenômeno do dinamismo dos países objeto deste estudo. Isto porque, apesar de sua diversidade, em termos de extensão geográfica, população, estágio de desenvolvimento, sistema político e experiência colonial, alguns países do Sudeste Asiático possuem, em comum, conjunto de valores herdados de período de influência cultural chinesa.
Na prática, este processo de complementação/contradição – segundo o pensamento de Deng Xiaoping, citado acima – evoluiu com a busca da construção de sucessivos “building blocks”, a partir da integração do próprio sistema econômico da China. Isto levaria a moldura política regional com forte influência do ordenamento histórico em que, durante séculos, parte da área hoje situada entre Myanmar e Vietnã esteve inserida em grande arco de Estados vinculados ao Império do Centro.
Na primeira etapa dessa construção de blocos, logo após ao desaparecimento de Mao Zedong, integrou-se o próprio sistema econômico chinês. Em seguida, foi permitida a abertura de cidades costeiras ao comércio internacional, com a criação das Áreas Econômicas Especiais, onde foram adotadas práticas de economia de mercado dentro de um sistema centralmente planificado mais amplo. Os blocos seguintes foram surgindo ao longo do rio Yantze, até chegar a Xangai, onde se situaria a “cabeça do dragão”[6].
Gradativamente, houve a consolidação de Hong Kong e Macau no sistema produtivo da RPC. A crescente integração econômica – e futuramente política – com Taiwan será o passo seguinte. A expansão da fronteira econômica chinesa em direção ao Sudeste Asiático será a fase posterior, que está sendo facilitada pela existência, ao Sul da China, de uma rede de indivíduos com origem étnica comum, chamados “chineses de ultramar”, que têm como referência uma mesma identidade cultural.
Assim, gradativamente, chegar-se-ía a uma futura congruência entre a área de influência tradicional da cultura chinesa e uma nova fronteira econômica da RPC.
Este último desenvolvimento ocorreria através de um fenômeno de “cross fertilization”[7], caracterizado por intercâmbio de referenciais de valores, entre aquela área considerada historicamente como situada na periferia do Império do Centro e a RPC.
O conjunto de transformações ocorreu de forma a sugerir, mesmo, a emergência de um novo paradigma regional. Isto porque, por um lado, a existência de uma base cultural chinesa servia de plataforma de sustentação para um processo de cooperação com o Sudeste Asiático.
Por outro, haveria os tipos de contribuições seguintes:
os países bem sucedidos como a “vitrine do Capitalismo no Sudeste Asiático” – a exemplo de Cingapura – indicariam os rumos para o aperfeiçoamento da “economia socialista de mercado”, com características chinesas, ora buscada pelo programa de modernização da RPC;
a persistência do Vietnã em manter seu sistema central de planejamento, ao mesmo tempo em que adota “práticas de economia de mercado”, reforça a proposta chinesa de preservar a vertente “socialista” entre as medidas que estão sendo crescentemente adotadas, no programa de modernização da República Popular da China; e
o esforço de composição constante no sentido da manutenção da harmonia e convivência pacífica entre a população de origem chinesa e os de fé islâmica na Malásia e Indonésia serve como inspiração para exercício semelhante a ser promovido na região central da RPC, principalmente na província de Xinjiang, onde há expressivo contingente de muçulmanos. Outrossim, estende-se a necessidade de relacionar-se com novas Repúblicas, como a do Tajiquistão, onde predomina a mesma religião.
A tese de que estaria em curso tal desenvolvimento considera que, quando se fala em influência político-cultural chinesa, se tem em conta os efeitos dessa herança histórica na ação das sociedades civis, como facilitador do processo da cooperação entre a China e o Sudeste Asiático[8].
Não estão sendo consideradas, portanto, iniciativas de “políticas de Estado”. Isto porque, tanto na China, quanto no Sudeste Asiático, o conceito de Estado evoluiu em diferentes estágios, sempre a partir da perspectiva de que o centro de tudo era a figura do dirigente local, desvinculada de um espaço geográfico definido. A concepção chinesa, ademais, sempre atribuiu importância fundamental aos laços sanguíneos, como marco de referência para a soberania do Imperador. As fronteiras eram definidas em termos de população, sem levar em conta limites territoriais.
O interesse quanto à reflexão sobre o tema deve-se à influência que a emergência de um bloco político de interesses recíprocos e de mega proporções – como o representado pela China e o Sudeste Asiático – exercerá no ritmo de integração e cooperação na Ásia-Pacífico, um dos laboratórios de modernidade do planeta. Ademais, existe a possibilidade de que laços culturais possam vir a ser fator determinante na expansão de fronteira econômica na área em questão, em oposição ao exercício da força como garantia de esfera hegemônica, conforme ocorrido, com freqüência, em outras partes do mundo.
O processo de abertura da China, na década de 1980, portanto, foi facilitado por conjunto de reciprocidades entre a RPC e o Sudeste Asiático, que, ao consolidarem seu relacionamento, desenvolvem projeto regional com agenda de preocupações próprias.
CONCLUSÃO
A partir do processo de abertura, na década de 1980, a evolução social na China inicia novo ciclo histórico, em obediência ao paradigma ditado pela tradição chinesa. Nessa sequência, acontecem mais consensos do que compromissos. Há novas “cenas de partida” que se sucedem [9]. A RPC superava, naquele momento, o ponto de equilíbrio alcançado pelo princípio socialista, segundo o qual “de cada um de acordo com suas habilidades e a cada um de acordo com suas necessidades”. Seguindo a tradição confucionista, a busca da estabilidade social deveria, então, recorrer a novos fundamentos.
Segundo especialistas no assunto, Mao não teria sido um líder na concepção de Confúcio. Pois, não abraçou as normas ditadas pela “li”, que estabelecem a conduta adequada à ordem social. Teria agido no estilo de um “Macaco Rei”, liberando forças de “luan” (desordem e rebelião) para mobiizar a população e manter-se no poder. Assim, na essência do pensamento maoista se encontrava a rejeição à concepção confucionista de estabilidade. O progresso, para Mao, só poderia ser obtido pela luta contínua e permanente.
Deng Xiaoping, no entanto, personificou o retorno da China à tradição confucionista, no sentido de que caberia ao líder benevolente buscar o caminho certo para a estabilidade, segurança e o estabelecimento de forma de governança que favorecesse o progresso. Sua liderança proporcionou, também, a consolidação do relacionamento entre a China e o Sudeste Asiático, em função dos laços históricos, mencionados no decorrer do texto, que têm sido capazes de garantir a inserção internacional chinesa atual em universo de influência cultural do antigo “Império do Centro”[10].
Por precaução, cabe seguir identificando se predominam, hoje, na sociedade chinesa, normas ditadas por “li” ou se há riscos de “luan”.
[1] Tais observações decorrem do fato de o autor ter servido na Embaixada do Brasil em Pequim, no período de 1982 a 1985, quando era leitor assíduo das revistas semanais “Far Eastern Economic Review” e “Asiweek”, editadas, então, em Hong Kong, entre as poucas fontes de informação sobre o que se passava na China.
[2] Vide “Mao prend le Pouvoir”, por Roland Lew, Éditions Complexe 1981.
[3] “Teng Hsiao-Ping, a Political Biography”, por Chi Hsin. Cosmos Books. Ltd. 1978.
[4] Tais observações decorrem do fato de o autor ter servido, no período de 1986 a 1995, no Sudeste Asiático, sucessivamente, nas Embaixadas do Brasil em Kuala Lumpur, 86-88, Cingapura, 89-90, e Manila, 91-95. Durante estes nove anos, participou de numerosos seminários e conferências em centros de estudos estratégicos destas capitais.
[5] “Le Nouveau Confucionisme” – Léon Vandermeersch, Le Débat – número 66, septembre-octobre 1991.
[6] O “China Institute of Contemporary International Relations”, em estudo intitulado “China’s Economic Reform and Opening-up”, publicado em abril de 1993, menciona que: “To vitalize the domestic economy and to open it to the outside world are two inseparable and basic parts of China’s economic restructuring and are also an important expression of the socialism with Chinese characteristics. The opening up and development of Pudong Area in Shanghai will make it a “dragon-head” to lead the economic development of the Yangtze Delta and even the whole Yangtze River valley. Shanghai will become a “Hong Kong” on the Chinese mainland and resume its position as one of the international economic, financial and trade centers”.
[7] Segundo “The Random House Dictionary of the English Language, Second Edition Unabridges”, “Cross fertilization” pode ser entendido como : “interaction or interchange, as between two or more cultures, fields of activity or knowledge, or the like, that is mutually beneficial and productive”.
[8] Pereira Pinto, Paulo Antônio – A China e o Sudeste Asiático, Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2000.
[9] Vide Pereira Pinto, Paulo Antônio, “Iruan nas Reinações Asiáticas”, Editora Age, Porto Alegre,2004. O autor procura associar sua participação na batalha judicial para o retorno do menor brasileiro Iruan Ergui Wu, retido em Taiwan, ao Rio Grande do Sul, com a forma de negociação cultural com o universo de influência chinesa, do qual a ilha de Formosa faz parte.
[10] Denominação usada pelos chineses de outrora para definir sua posição hegemônica na Terra.

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata. Primeiro Embaixador do Brasil residente em Baku, Azerbaijão. Serviu, anteriormente, como Cônsul-Geral em Mumbai, entre 2006 e 2009 e, a partir de 1982, durante vinte anos, na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. Na década de 1970 trabalhou, na África, nas Embaixadas em Libreville, Gabão, e Maputo, Moçambique e foi Encarregado de Negócios em Pretória, África do Sul. As opiniões expressas são de sua inteira responsabilidade e não refletem pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores (papinto2006@gmail.com).

Meridiano 47

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Brasil de todos os santos

Natália Pesciotta

Seja nos foguetes das festas juninas, no nome de nossas cidades ou em expressões costumeiras, os santos povoam a cultura nacional. Símbolos tão populares assim só poderiam ter originado muitas histórias.


Das Duas Pontes, da Barra, dos Patos, do Paraíso. Em criativas variações, são João está presente nas cinco regiões brasileiras. Mas são José é o mais numeroso – só a Paraíba tem mais de 10. No Brasil inteiro há cerca de 500 municípios com nomes de santos. E mais de 40 times de futebol.

A maior metrópole do País e segunda do mundo leva o nome do santo do dia em que se rezou sua primeira missa. Quem escolheu foi o jesuíta José de Anchieta, hoje a um passo de ser também canonizado. O maior rio nordestino chamamos de Velho Chico, tal a intimidade assumida com são Francisco. Tudo porque na primeira vez que aquelas águas foram navegadas era dia dele. Outro Rio, o de Janeiro, decreta feriado pelo padroeiro Sebastião, no dia 20, mas não abre mão de cruzar os braços também no 23 de abril, de Jorge.

Cada dia tem seu santo, cada santo tem um dia. Os engraçadinhos dizem que o de são Nunca fica fora do calendário. Responde-se: ele é contemplado em 2 de novembro, dia de Todos os Santos. Data que originou, inclusive, a nomenclatura do maior porto brasileiro e um tradicional sobrenome do nosso povo: Santos.

Portugueses enraizaram o culto às santidades católicas em todos os âmbitos da vida no Brasil. Trouxeram vários costumes, e logo tratamos de inventar outros. Muitas vezes eles acabam desatrelados do catolicismo para fazer parte de uma tradição maior. Cultuamos até figuras não reconhecidas pelo poderoso Tribunal Eclesiástico. E, contrariando a máxima de que santo de casa não faz milagre, já emplacamos ao menos um genuinamente nacional: são frei Galvão. Além de Paulina, uma italiana com os pés fincados no Brasil.


Ligar a torneira e abrir a porta é com Pedro
Diz Jesus a Pedro: “Eu te darei as chaves do Reino do Céus: tudo o que ligares na Terra será ligado nos céus, e tudo que desligardes na Terra será desligado no Céu”. Daí acreditar que o padroeiro do Brasil manda nas chuvas. Por isso também soltar foguetes na sua data, em junho, para agradar o porteiro celestial. É bom garantir amizade.


Feita branca, aparecida negra
Quem declarou são Pedro de Alcântara padroeiro do Brasil, com a bênção do papa, foi… Pedro de Alcântara, nosso primeiro imperador. Como está atrelado à história imperial, o santo acabou ficando em segundo plano em relação à Nossa Senhora Aparecida, também nossa padroeira. Além de ter sido encontrada no rio Paraíba por pescadores pobres, ela é negra. No entanto, sua cor não é original da imagem. Especialistas atestam que os traços tradicionais, do século 18, adquiriram o tom escurecido enquanto ficaram sob a água lodosa.


Imagem de madeira recebia salário para dirigir infantaria
Um governador baiano já havia proclamado soldado o santo Antônio da igreja local para que a santidade auxiliasse nos momentos de aperto. Com a invasão francesa em Portugal, dom João não pensou duas vezes. O então príncipe regente do Reino Unido de Portugal e Brasil apelou ao santo peão com uma promoção. Em 1810, assinou decreto, no Rio de Janeiro, elevando o “Glorioso santo Antônio, que se venera na cidade da Bahia”, ao posto de “Tenente Coronel de Infantaria”. Outras imagens da santidade junina também receberam títulos de soldado, capitão, coronel e tenente em todo canto do Brasil a fim de garantir alguma proteção. Sempre com os devidos documentos, distintivos e indumentária – e sem esquecer dos soldos pagos às paróquias.


Justo: Rita empresta a casa, Benedito convida pra festa
Aparecida do Norte festeja são Benedito com congada todo ano. A romaria faz questão de passar na paróquia de santa Rita de Cássia e levá-la no andor para participar da festa. Não que a santa tenha alguma coisa a ver com a homenagem, mas como o são Benedito da cidade ficou muitos anos sem igreja própria, alojava-se na paróquia dela. Os fiéis acreditam ser de bom tom que ele retribua a hospedagem.


Santo negro entrou em festa pagã
Para se assemelhar às santidades, era comum os escravos do Brasil pintarem de preto imagens de Nossa Senhora do Rosário e de santo Antônio.

São raros os santos de pele originalmente escura. São Benedito, um dos exemplos mais importantes, sempre atraiu devoção dos afro-brasileiros. Enquanto as santidades de pele e olhos claros ganharam similares em entidades nagôs, o santo negro não tem correspondente nos candomblés. É evocado sempre como o católico são Benedito mesmo.

De modo que só poderia acontecer no Brasil, ele e Nossa Senhora do Rosário dividem homenagem com reis africanos na congada, festa tradicional do País ligada à Igreja.


Corinthians salvou o santo guerreiro
Segurando uma lança e sobre um cavalo branco, são Jorge é o guerreiro mais cultuado nestas terras. Sem entrar no mérito da lenda que o coloca na Lua, nem a passagem do santo pela Terra pode ser comprovada. Por isso, na década de 1960, quando a Igreja fez uma reforma litúrgica para reconsiderar seus santos, colocou o padroeiro da Inglaterra e do Corinthians na lista dos “cassados”. Dom Paulo Evaristo Arns interferiu junto ao papa: “Santo padre, nosso povo não está entendendo direito a questão. São Jorge é muito popular no Brasil, sobretudo entre a imensa torcida do Corinthians, o clube de futebol mais popular de São Paulo”. Para alegria dos corintianos, a começar por dom Paulo, o santo continuou ocupando o dia 23 de abril. “Não podemos prejudicar nem a Inglaterra nem o Corinthians”, escreveu o líder máximo da Igreja.


Só mesmo aqui santo recebe em pulinho
À frente do setor de achados e perdidos celestial está Longuinho. Mas isso só segundo os brasileiros, e folclorista nenhum desvendou a origem da crendice. Provavelmente os três gritinhos ou pulinhos em recompensa pelo objeto encontrado referem-se à Santíssima Trindade. Segundo os católicos tradicionais, o responsável pelo setor é santo Antônio.


Na boca do povo
Santo do pau oco Algumas igrejas mineiras ainda guardam santos esculpidos em madeira vazia por dentro. Durante o ciclo do ouro, as imagens eram usadas para esconder minério em pó das autoridades fiscais, sonegando as altas taxas de extração cobradas pela Coroa.

Conto do vigário No século 18, dois vigários de Ouro Preto disputavam a mesma imagem de Nossa Senhora para suas paróquias. O vigário de Pilar propôs acabar com a pendenga lançando a sorte: amarrariam a santa num burro postado entre as duas paróquias e acatariam a direção que o animal tomasse como destino para a imagem. Assim foi feito. Naquele dia mesmo a imagem pousou na igreja do Pilar. Mas tudo não passava de uma esperteza do vigário local. Como o burrico era de sua paróquia, ele bem sabia que o bicho tomaria o caminho de casa.


Assunto urgente? Tratar com Expedito
Sempre em alta com agradecimentos em faixas e santinhos distribuídos pelos devotos atendidos, Expedito é o santo das causas urgentes. Em latim, Expeditus significa disponibilidade, rapidez.


Herói de batina levou santo de volta pra casa
Padre José Simões, outro pároco do Pilar, em Ouro Preto, não cansou de inventar contos do vigário. Para se disfarçar, deixou a barba crescer e pegou carrão emprestado. Fez um avião atrasar só para o esperar e fugiu de grandes figurões. Todas as peripécias, com ou sem a batina, eram para recuperar imagens de santos roubadas das igrejas por vendedores ou colecionadores. Morreu em 2009 com mais de 500 artigos sacros resgatados no currículo. Teve até peça que voltou do Louvre para Minas Gerais.


Pílula milagrosa é herança do santo da casa
A pílula de são frei Galvão é aconselhada principalmente para grávidas preocupadas com o sucesso no parto ou para casais inférteis. Porém, pode ser tomada na ânsia pela cura de qualquer tipo de mal físico ou psicológico. O frei paulista, que viveu entre 1739 e 1822, criou o “medicamento” em vida, quando procurado para auxiliar uma moça em complicada situação de parto. Deixou às freiras enclausuradas no Mosteiro da Luz, em São Paulo, a incumbência de produzir a pílula em série, para ser distribuída gratuitamente. Consiste em nada mais do que um minúsculo papel dobrado, com uma frase escrita à mão, em latim: “Depois do parto, permanecestes virgem, Mãe de Deus, intercedei por nós”. Cada envelope vem com três pílulas e a receita: é preciso rezar a novena de frei Galvão por nove dias e ingerir o “comprimido” no primeiro, no quinto e no último.


Há quatro séculos na fila
Todos os quatro mil santos da Igreja católica percorreram um longo caminho até conquistar o posto. Postuladores são espécies de advogados que defendem os candidatos perante o Tribunal Eclesiástico. Para chegar à santidade, é preciso passar por três categorias anteriores: servo de Deus, venerável e beato. Dois brasileiros fizeram-se santos: frei Galvão e madre Paulina que, apesar de nascida na Itália, cresceu em Santa Catarina. À beira do último degrau, temos hoje o beato José de Anchieta, jesuíta que fundou São Paulo. Seu processo arrasta-se no Tribunal desde 1602.


Padim não era padre
Padre Cícero Romão fez de Juazeiro do Norte o maior polo religioso da América Latina, e, por conta disso, a segunda maior cidade do Ceará. Ai de quem disser que Padim não é santo perto dos milhões de romeiros que vão a Juazeiro todos os anos. Mas a verdade é que o vigário sertanejo morreu condenado pelo Santo Ofício, proibido de rezar missa. O Vaticano não acreditava em seus milagres, achava que promovia fanatismo e se beneficiava financeiramente da devoção popular. Só agora, 75 anos depois da morte, pensa em reabilitá-lo entre os seus – quem sabe o primeiro passo para a canonização.


Rita desbanca Cícero e Redentor
A maior imagem sagrada do mundo é brasileira, mas não é nem a de Padim Ciço, no Ceará, nem a de Jesus Cristo, no Rio de Janeiro. A santa Rita de Cássia recém-construída em Santa Cruz e com 56 metros, no Rio Grande do Norte, bate as duas e não tem correspondente no planeta.


SAIBA MAIS
Superstição no Brasil, de Câmara Cascudo (Global, 2001).
Cada Dia Tem Seu Santo, de A. de França Andrade (Artpress, 2000).
Brasil de todos os Santos, de Ronaldo Vainfas e Juliana de Souza (Jorge Zahar, 2002).

Especiaria das especiarias



Mylton Severiano e Kátia Reinisch

Condimento, alimento e remédio. Estimulante. “Companheira sem rival”, disse Cascudo. A pimenta, de ardente sabor, agrada gente de toda classe. E, na época dos descobrimentos, interferiu na geopolítica do mundo e pôs Portugal no centro do cenário europeu.

Há dezesseis séculos, no ano 408 da nossa era, o rei dos visigodos, Alarico, venceu os romanos e, dentre outros tributos de guerra, lhes impôs um bem pesado. Prata? Ouro? Não: pimenta! Três mil quilos de pimenta. Vale a pena conhecer a história da frutinha pela qual reis, sultões e outros potentados foram capazes de arrostar céus, terras e mares.

Desde a mais remota antiguidade, era a pimenta que figurava no topo das famosas especiarias que a Europa importava do Oriente. Longa, vermelha, ashanti, mas principalmente a malagueta, a redonda-branca e a redonda-negra – estas duas por nós conhecidas como pimentas-do-reino.

O maior centro produtor era a Costa de Malabar, no sudoeste da Índia. Sua pimenta já chegava em larga escala à Europa no século 7. Santo Antonino (1389-1450), referindo-se à introdução do cristianismo naquela região indiana, conta que todo ano vinha de lá precioso presente para o papa: um carregamento de pimenta.

A especiaria saía da costa de Malabar rumo ao Mar Vermelho em galeras egípcias e fenícias, depois em veleiros árabes, os dahws. Descarregada em portos africanos, seguia em cáfilas – as caravanas de camelos – até o rio Nilo; e, navegando para o norte, ancorava em Alexandria. Nesse porto egípcio do Mediterrâneo, operavam corretores italianos e bizantinos que encaminhavam as cargas para Gênova, Veneza e Constantinopla – maiores centros distribuidores para toda a Europa.

Mas a pimenta, por seu valor, iria mexer até com a geopolítica da época. Pois o povo português, que revolucionaria a arte da navegação, não permaneceria para sempre à mercê dos “pedágios” cobrados pelos atravessadores. Um desses, rajá de Travancore, a quem cronistas portugueses chamavam de Rei da Pimenta. Nem uma arrobazinha deixava seus domínios sem pagar imposto. Outro, sultão do Egito, cobrava 1 ducado para permitir o embarque de cada bahal (cerca de 300 quilos). E cada bahal chegava à Europa por 100 ducados.

Então, no início do século 16, com suas caravelas, última palavra em matéria de tecnologia naval, os portugueses se lançam ao além-mar, desviando o comércio da via mediterrânea para a via atlântica. Lisboa se tornaria o novo centro comercial das especiarias, particularmente a pimenta, que, no dizer do cronista Gaspar Correia, é o “lume dos olhos de Portugal”.


Três famílias fogosas e provocantes
As mais de cem espécies pertencem a três famílias botânicas – as espécies marcadas com * são nativas do Brasil. Piperáceas: pimenta-do-reino, do-mato*, dos-índios*. Solanáceas: malagueta*, cumari*, caiena ou dedo-de-moça*, pimenta-de-cheiro*. Anonáceas: pimentas da-guiné, dos-negros, de-bugre*, do-sertão*.

A aromática pimenta-do-reino, nativa das Índias, amplamente cultivada no Pará, é o condimento mais usado no mundo, seja para dar sabor aos alimentos, seja para conservá-los. Seu nome científico é Piper nigrum.

Mas, seja de que família for, o que é que a pimenta tem que há milênios nos cativa? A culpa é da capsaicina, seu princípio ativo, que lhe confere o ardor e as propriedades benéficas: cicatriza feridas, combate dores de cabeça e tumores; melhora o humor; nos mantém cheios de vitalidade e disposição sexual.


Assim falou o cientista Pereira Barreto
“As nossa pimenta malagueta, que é a alma do vatapá baiano, constitui um condimento anódino de suprema eficácia como estimulante das glândulas de pepsina, para fazê-las derramar no estômago copioso suco gástrico e assim produzir uma ativa digestão. A pimenta malagueta, associada ao limão galego, é um excelente tópico para as inflamações da garganta, tão comuns entre nós. Podemos subscrever sem hesitação tudo quanto os baianos referem a favor da nossa inquitaya [malagueta e sal].”


Assim falou o folclorista Câmara Cascudo
“O condimento incomparável para o brasileiro é a pimenta, a pimentinha, companheira sem rival, transformando o peixe cozido em obra-prima, ressaltando os valores sápidos de todas as iguarias, aceleradora digestiva, masculinizando o sabor. ‘A malagueta esmagada simplesmente no vinagre é o prato permanente e de rigor para o brasileiro de todas as classes’, escrevia Debret entre 1816 e 1831, em Viagem Pitoresca e História do Brasil.”


SAIBA MAIS
História da Alimentação no Brasil, de Luis da Câmara Cascudo (Global, 2004).
Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luis da Câmara Cascudo (Global, 2000).
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (Editorial Enciclopédia, 1978)
http://www.almanaquebrasil.com.br

domingo, 16 de janeiro de 2011

Notícias de outros mundos


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Natália Pesciotta

Extraterrestres, fantasmas, seres fantásticos. Neste ou em outros tempos, criaturas sobrenaturais dão o que falar. Prepare alho, figas e repelentes. Mal-assombros estão à solta.


Ao que tudo indica, seres sobrenaturais sempre rondaram este pedaço da Terra. Os primeiros europeus que chegaram por aqui deram de cara com criaturas fantásticas nos mares, segundo relatos. A mitologia indígena e, mais tarde, a africana, só engrossou o caldo de mistérios trazidos pelos portugueses. Sejam de outros planetas, outras dimensões, da mitologia ou das profundezas do inferno, essas criaturas habitam nosso imaginário desde sempre.

Engana-se quem pensa que os mal-assombros estão fadados ao ostracismo no mundo contemporâneo. Os casos vão adequando-se ao tempo. Se no século 19 era comum ler sobre aparições de fantasmas nos jornais diários, os anos 1970 um periódico vendeu milhares de exemplares ao noticiar o nascimento de um bebê-diabo.

Divulgadas por fé ou má-fé, qualquer época tem histórias fantásticas que encontram eco. Para este Almanaque, mais importante do que a veracidade do que o povo conta é saber o que o povo conta. Assombrações, magias e encantamentos são parte consistente da cultura popular. Ao contrário do que se costuma pensar, ela não fica confinada nas enciclopédias de folclore. A cultura vive e se transforma a cada dia.

Até Gilberto Freyre, um de nossos principais intelectuais, enveredou pelo mundo das assombrações. Quando era diretor do jornal A Província, decidiu publicar uma série de artigos sobre casos conhecidos no Recife antigo. A quem se surpreendia com o interesse de um sociólogo pelo assunto, alegava: “Não há contradição radical entre Sociologia e História, mesmo quando a História deixa de ser de revoluções para se tornar de assombrações”.

A conclusão de Freyre, que bem poderia ser a mesma desta matéria, foi a seguinte: “Grande parte dessas sugestões terá sido simples crendice, superstição, histeria até. Outra parte, porém, não se deixa facilmente explicar pelo simplismo cientificista: retém seu mistério”. Então vamos aos fatos, factoides e mentiras deslavadas. Não só do Recife, mas dos quatros cantos.

ET de Varginha estaciona nave em pontos de ônibus
Primeiro, cidadãos viram objetos não identificados no céu. Depois, três meninas avistaram um alienígena encostado num muro. Nesse dia de chuva de 1997, vários caminhões do exército rodaram a cidade e, à noite, uma criatura de outro planeta finalmente chegou ao hospital, conduzida pela polícia. Foi essa a história
que colocou Varginha no mapa-múndi da ufologia mística e científica.

A polícia e o exército, no entanto, desmentem a operação secreta que teria capturado um óvni. Em 2010, 13 anos depois, divulgou-se um inquérito que explica o caso: os carros do exército saíram apenas para ir à manutenção, não para realizar uma missão secreta. A criatura vista pelas meninas teria sido um morador da cidade conhecido como Mudinho, agachado e sujo de terra. “Por argumento de causa e efeito, não tendo a criatura, não houve captura”, completa o redator do inquérito.

Pelo sim, pelo não, o caso garantiu fama ao município mineiro. Hoje o ET de Varginha é o mascote da cidade. Está nas praças e é a estatueta do festival de cinema local. Lá, até os pontos de ônibus têm forma de disco voador.

Chupa-cabra anda por portais interdimensionais
Sabe-se da existência do chupa-cabra desde o fim dos anos 1990, quando cabras começaram a aparecer mortas e sem sangue. As descrições de quem viu a criatura falam de um ser de grande porte, com espinhos nas costas e assustadores olhos brilhantes.

Segundo as versões existentes, pode ser de outro planeta, um inseto transmutado e até uma experiência da CIA que fugiu do controle. Acredita-se que veio de Porto Rico para o Brasil, e daqui para os Estados Unidos. Sempre por um portal interdimensional – certamente o departamento de imigração norte-americano não lhe concederia visto de entrada.


Fantasma do palácio alerta que vem coisa ruim
O vulto que eventualmente dá o ar da graça na sede do governo pernambucano, o Palácio do Campo das Princesas, não vem a passeio. Pelo menos é o que diz Gilberto Freyre no livro Assombrações do Recife Velho. Sempre que aparecia, diziam os funcionários do palácio, algo de ruim estava para acontecer. Um funcionário relatou a Freyre que, nos últimos tempos, vinha vendo o vulto constantemente. Quando os dois saíram fugidos do palácio, na batalha da Revolução de 1930, o funcionário lembrou: “Eu não lhe disse que o vulto do salão nobre vinha anunciando desgraça?
Apareceu a Zé Bezerra, que morreu pouco depois. Apareceu a Barbosa antes do cozinheiro Zé Mariano espalhar veneno na fritada. E há meses que vinha aparecendo”.


Mistério capixaba
Numa paradisíaca praia de Guarapari, no Espírito Santo, turistas costumavam ter visões de barcos e pescadores e ouvir sons de praia agitada durante a noite, apesar do lugar estar vazio. Os moradores, assustados, chamaram religiosos para benzer o local. Dizem que é por isso que se chama Praia dos Padres.


Zé do Caixão desafia o vampiro de Osasco
“Vampiro de Osasco mata e bebe o sangue de 11 cachorros”. O jornal paulistano Notícias Populares não teve pudores ao vender a história, que começou com essa manchete e continuou por dias com novas notícias sobre os feitos da entidade.

Só que, uma semana depois, o caso precisava de um desfecho. Um delegado colocou a jaguatirica do zoológico de São Paulo na viatura, ligou as sirenes e andou por Osasco, apregoando ter desvendado o caso – o vampiro não passava de um felino.

Como a história não caiu nas graças dos leitores, o NP então apelou: “Zé do Caixão desafia o vampiro de Osasco”.

O jornal realmente enviou José Mojica Marins para a cidade. Fotografou-o no cemitério, em procissão para espantar o vampiro e tudo. No fim das contas, Zé do Caixão teria descoberto que a história não passava de uma farsa. Em entrevista exclusiva à gazeta, revelou que espertinhos estavam assustando as pessoas de boa-fé com dentaduras de vampiro.


Bebê-Diabo nasce em São Paulo
Era esta a manchete do Notícias Populares de 11 de maio de 1975. Um jornalista da casa ouviu falar de um bebê que havia nascido com pelos num hospital paulista e resolveu caprichar nos detalhes: “Um monstrinho horripilante, peludo, que ao falar parecia estar mugindo”. Ao sair da barriga da mãe, a criança infernal teria dito: “Dá pra fechar a janela? Ou fecham ou eu mato a todos”.

Em uma das dezenas de capas que a história ocupou, um taxista relatava ter parado o carro para o bebê, que, quando entrou no veículo, ordenou: “Toca para o inferno!”.

Depois de dobrar as vendas do jornal para 150 mil exemplares diários, acriatura teria fugido para o Nordeste. Animado com os números, um jornal pernambucano não perdeu a deixa: “Bebê-Diabo chega a Recife”.


Fantasmas de teatro não respeitam hora de ensaio
É difícil encontrar por aí um teatro histórico que não seja frequentado por almas penadas. Alguns costumam ter seus fantasmas fixos. O cearense José de Alencar e o Teatro Amazonas, em Manaus, têm residentes especiais.

No de Fortaleza, a assombração não só aparece constantemente, como faz piruetas e outros passos de balé. Segundo funcionários e visitantes, trata-se de uma encantadora bailarina, com vestido azul e longos cabelos.
Não some sem antes dizer: “Eu preciso ensaiar”.

Já o do Amazonas costuma tocar piano. Geralmente, quando aparece no palco, ouve-se ecoar a 5ª Sinfonia de Beethoven, sua peça preferida.


Contra lobisomem, vá de crucifixo ou repelente
Em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, houve rumores de que um lobisomem estava à solta em 2007. O padre da cidade não teve dúvidas. Espalhou entre os habitantes crucifixos pintados de vermelho, como se estivessem ensanguentados.

Afirmava que o objeto afugentava o “Homem da Capa Preta”. Mas a proteção contra a mistura de homem com lobo pode também ser mais prazenteira. Em Joanópolis, cidade paulista conhecida como a capital do lobisomem, é fácil encontrar Repelente de Lobisomem. Trata-se de uma cachaça, e das boas.


Bilu se comunica em interface amigável
O ET Bilu ficou famoso recentemente ao aparecer em reportagem de tevê dando conselhos à humanidade: “Busquem conhecimento”.

As cenas foram feitas na fazenda do Projeto Portal, que estuda a “ciência paralela”, em Corguinhos, Mato Grosso do Sul. Segundo os ufólogos responsáveis, Bilu é líder de uma raça extraterrestre chamada Laquin, que tem base na fazenda.

Na reportagem, Bilu pede que a equipe chegue mais perto, sem sucesso. Os ufólogos explicam que a criatura precisa sintonizar os humanos para se comunicar. E que é preciso ter hábitos especiais para entrar em sintonia –
não tomar refrigerante, beber ou fumar, por exemplo.

Bilu quer mostrar que extraterrestres não são daquele jeito que se desenha, por isso apareceu na televisão. Teria dito: “Não se confundam. Eu estou usando a personalidade de uma criança, meio lúdico. Não sou uma criança imatura. Eu estou usando essa interface amigável para relaxar vocês”.


Escravos penados nunca deixam Diamantina
Almas penadas que pedem missa, dão pista de tesouros ou simplesmente aterrorizam os moradores. No século 19, jornais de Diamantina, em Minas Gerais, constantemente publicavam reportagens sobre a presença de fantasmas na cidade.

Em 1983, espalhou-se o medo de um ladrão que, procurado pela polícia, se transformava em cupim – se estivesse no mato – ou em vassoura, caso estivesse escondido dentro de casa. Só uma voz pareceu para negar as aparições: a do senador Joaquim Felício dos Santos, figura importante na época, que escreveu o artigo Os Invisíveis.

Os mais crentes em explicações sobrenaturais, no entanto, acreditam que o Vale do Jequitinhonha não é pouco desenvolvido à toa. Os suplícios sofridos pelos escravos negros nas minas de ouro teriam amaldiçoado para sempre a região.


Procissão de mortos avisa quem será o próximo
Os moradores de Diamantina costumavam ouvir uma procissão de escravos e escravas que arrastavam pesadas correntes pela rua das Mercês, até se dissiparem na altura da igreja. Há quem conte a história até hoje. Escutar não tem problema. Mas só enxerga a procissão quem vai morrer naquele ano.


SAIBA MAIS
O Livro dos Fantasmas, de Viriato Padilha (Spiker, 1956).
Nada Mais que A Verdade – A extraordinária história do jornal Notícias Populares (Carrenho, 2002).
A Bailarina Fantasma, de Socorro Accioli (Biruta, 2010).

TEM CORAGEM?
Em São Paulo e no Recife é possível fazer um passeio turístico pelos locais considerados assombrados.Na capital paulista, uma empresa de turismo organiza o roteiro São Paulo de Outro Mundo (www.graffit.com.br).
Já o roteiro Lendas do Recife, baseado no livro de Gilberto Freyre sobre assombrações, é oferecido pela prefeitura (www.recife.pe.gov.br).

Da breve Perestroika à eterna era Putin


Análises traçam paralelos entre a União Soviética e a Rússia atual. Entre os pontos mais evidentes, estariam a burocracia, o sistema de partido único, o desrespeito aos preceitos democráticos e o renascimento de um “imperialismo russo”. No entanto, o período Putin está longe de se parecer com estagnação da era Brejnev.

por Vladislav Inozemtsev

Rússia de 2010 não é a União Soviética do fim dos anos 1970. Mas é verdade que as duas têm muito em comum: lá, onde reinava absoluto o Partido Comunista da União Soviética (PCUS), encontra-se desde então o Partido Rússia Unida, presidido por Vladimir Putin e constituído por 46% de funcionários de diversas hierarquias. O Soviete Supremo foi substituído pela Duma, a Assembleia Nacional, cujos deputados são eleitos a partir de listas de partidos formuladas pelo Kremlin – os partidos que estiverem fora de seu controle não são elegíveis. Toda manifestação de oposição é reprimida, a televisão é censurada e os tribunais costumam dar ganho de causa ao Estado. No âmbito da economia, tem-se agora o “neosovietismo”: na época de Leonid Brejnev, presidente de 1977 a 1982, os hidrocarbonetos e as matérias-primas constituíam 55% das exportações; hoje representam 80%. O número de funcionários públicos aumentou, assim como os efetivos das forças de segurança. As grandes empresas estão sob o controle do Estado e, em termos de política externa, o desaparecimento da União Soviética é percebido, segundo Putin1, como “a maior catástrofe geopolítica do século XX”.

Mas, ao mesmo tempo, a Rússia atual é radicalmente diferente do que foi a União Soviética. Monstruoso sob vários aspectos, o regime no poder governa uma nação paradoxalmente livre. Para uma classe de privilegiados, hoje é possível sair e entrar no país quando quiser. Assim, mais de cinco milhões de russos vivem no exterior, mas conservando sua cidadania original. A economia do país está aberta para o mundo: em 2009, o volume do comércio exterior representou 40,7% do seu PIB (Produto Interno Bruto), contra 18,3% nos Estados Unidos. Sua cultura e suas redes de informação são difundidas para fora dos limites territoriais. Encontram-se hoje no país jornais ocidentais e, nas grandes cidades, há retransmissoras de televisões estrangeiras. Ao contrário da China, a Rússia não censura a internet. Alguns veículos criticam abertamente o regime político, ainda que com um saldo de assassinatos escandalosos de vários jornalistas. O exercício da atividade comercial é livre – o país conta, hoje, com 1,5 milhão de pequenas e médias empresas – e os cidadãos podem se tornar proprietários de seus apartamentos ou casas, sem qualquer limitação prévia de área dos terrenos. Enquanto isso, brotam bancos privados e companhias industriais.

Esse sistema é único. Um misto de “quase soviético” e “pseudo-ocidental”, ele tem produzido uma situação tal que, segundo palavras do historiador russo, Aleksei Miller, “a pessoa chega a se sentir livre dentro de uma Rússia radicalmente diversa dos padrões democráticos”2. Ao menos em dois aspectos, o modelo de Putin é indiscutivelmente mais bem-sucedido que o de Brejnev.

No que diz respeito à política, na época soviética, o poder era exercido num vácuo, no interior de fronteiras impermeáveis e acompanhado por uma ideologia considerada brutal e simplista pelo Ocidente, ainda que apoiada por muitos russos. Era dentro desse contexto que o PCUS mantinha sua “verticalidade do poder” e lutava contra todo o pensamento alternativo e qualquer iniciativa que ameaçasse seu papel de “farol”. Essa ideologia entrou em colapso em favor de um capitalismo livre de qualquer princípio. As fronteiras estão abertas, os russos podem viajar para o exterior, criticar o poder, além de receber e difundir as informações que quiserem. Por isso, ainda que na última década vários princípios autoritários, característicos da era Brejnev, tenham reaparecido, eles não despertaram muita resistência dentro da população.

Propriedade privada


No aspecto socioeconômico, o sistema soviético dizia fundamentar-se pela distribuição de bens básicos para a sobrevivência. Com a Perestroika, política introduzida em 1985 para reestruturar a economia soviética, os reformistas russos e os ocidentais que aconselharam o primeiro governo democrático do país se convenceram de que o acesso à propriedade privada evitaria o retorno do autoritarismo e da dependência para com o Estado. Mas isso não ocorreu. O crescimento econômico dos anos 2000 provocou o enriquecimento de muitos cidadãos e, ao mesmo tempo, garantiu sua lealdade ao novo regime. Custe o que custar, as classes média e alta tentam assegurar a perenidade de seu status.

O ex-presidente e atual primeiro ministro, Vladimir Putin, ainda atrai aplausos daqueles que consideram que esse foi o principal serviço que ele prestou ao país. Para sustentar essa estabilidade econômica, o governo defende a produção nacional com medidas protecionistas e oferece a dezenas de milhares de companhias russas uma situação de quase monopólio sobre as mercadorias. O aumento bruto dos custos3 está elevando os preços no varejo, mesmo sobre a mercadoria europeia, mas isso é compensado destinando-se aos mais pobres parte dos dividendos obtidos com o petróleo.

Desta forma, os dirigentes russos foram muito bem-sucedidos ao utilizar um modelo de governo que seus antecessores comunistas nem mesmo ousaram sonhar. Eles melhoraram o nível de vida dos trabalhadores, ao mesmo tempo que adiaram as eleições livres e suprimiram o direito de greve e manifestações. Puseram a justiça a serviço da burocracia e isolaram-se do povo.

Espaço social


Como resultado, temos uma sociedade livre sob o controle de um poder autoritário, uma simbiose impossível segundo os critérios sociológicos ocidentais. Se a Rússia pode aceitar tudo em prol de sua liberdade, defendida apaixonadamente durante a Perestroika, é porque a noção de ação coletiva é amplamente desacreditada. O segredo da Rússia de Putin deve-se a um rápido crescimento do espaço social, onde o cidadão tem a sensação de poder resolver as contradições do sistema individualmente.

A magnitude e a força da Perestroika de 1985 se explicam pela origem social múltipla de seus adeptos, que apenas em circunstâncias especiais conseguiriam agir em conjunto. O sistema soviético não tolerava a emergência de grupos sociais muito numerosos; ele também censurava opiniões divergentes, sufocava culturas alternativas, reprimia a vida religiosa; os russos não tinham acesso à história autêntica de seu país e não deveriam manifestar nacionalismo. Um professor universitário ateu ou um camponês religioso ortodoxo tinha as mesmas razões de descontentamento com relação ao sistema. As “respostas individuais” aos desafios existentes eram impossíveis. A isso, juntou-se uma economia rudimentar, privilegiando a expansão da indústria militar antes de responder às necessidades básicas dos cidadãos, que já se encontravam esmagados por um sistema burocrático, por sua vez engessado pelo partido.

Desde que Mikhail Gorbatchev lançou a ideia de mudança, atraiu milhões de simpatizantes. Alguns queriam reformas e a modernização do sistema; outros, sua destruição total. Todos, de qualquer modo, sabiam que a resolução individual dos problemas passaria por profundas transformações. Daí a grande variedade de cidadãos convertidos à Perestroika: os mineradores (que hoje morrem dentro dos poços, porque seus dirigentes se recusam a investir em segurança) lutaram com o mesmo entusiasmo dos primeiros empresários privados pelas mudanças radicais, que apoiados pelos burocratas locais e não tendo outra opção, desistiram de suas carteirinhas do Partido Comunista e proclamaram a independência das repúblicas nacionais.

O sistema atual não reproduz os erros do anterior. Ele soube se livrar a tempo de milhões de cidadãos muito ativos – que saíram do país nos anos 1990 –, cujos posicionamentos políticos teriam, sem dúvida, criado um novo tipo de dissidência. Para a maioria dos cidadãos, o sistema também deu acesso a diversas formas de enriquecimento e autonomia graças ao desenvolvimento do comércio, às possibilidades de mobilidade social (por vezes vertical e horizontal) e ao direito de cruzar fronteiras. O sistema também soube encontrar um equilíbrio judiciário entre interesses e potencial: às pessoas talentosas e determinadas, ele ofereceu posições lucrativas nos negócios e, para as outras, postos dentro de uma burocracia gangrenada pela corrupção.

O sistema soviético gastou uma energia colossal para convencer os cidadãos de sua superioridade em todas as áreas. Agora, isso parece um desperdício. A sociedade russa é uma sociedade “sem cidadãos”: como ela pôde se transformar nessa estrutura leve e desagregada? A resposta, sem dúvida, deve ser buscada dentro das especificidades de sua elite e nos seus trampolins sociais. Na maioria das sociedades que se modernizam, existem vários tipos de elite – política, empresarial, intelectual, militar. No caso da Rússia, essas divisões foram apagadas durante o período de transição para o capitalismo. As elites universitárias e militares foram consideradas inúteis e seus trabalhos praticamente pararam de ser remunerados. Ao mesmo tempo, a esfera material absorveu o conjunto de valores sociais, e as elites políticas se viram tête-à-tête com o povo, que reclamava suas riquezas. O mundo dos negócios começou, então, a definir os valores sociais e a penetrar, de acordo com sua própria expansão, as estruturas do poder. Nesta primeira etapa – até o início dos anos 2000 –, o aparelho do Estado dependia em grande parte desta esfera econômica, e ainda estava longe de se ater a qualquer princípio ideológico.

A situação se deteriorou muito ao longo dos últimos dez anos. A chegada de Putin foi acompanhada por uma nova categoria de personalidades cada vez mais jovens, sem outro desejo além do enriquecimento pessoal e aceitando de bom grado as incríveis possibilidades que lhes oferecem os dirigentes políticos. Os homens de negócios que tenham tido algum poder no período anterior foram imediatamente declarados indesejáveis. O Estado se estruturou aos poucos como uma empresa em escala nacional (nos primeiros anos, um bom número de grandes empresas fora devolvido ao controle do poder), e os funcionários, em nível regional e federal, também entraram para o mundo dos negócios. Nos anos 1990, ninguém se surpreendia ao saber que um governador de uma região pudesse estar à frente de um grupo bancário ou industrial; em 2000, todos achavam normal que a indicação para o cargo de governador ou ministro passasse por amigos ou parentes de diretores de alguma empresa comercial da região.


A ascensão dos siloviki, representantes das forças públicas nos ministérios do Interior, da Defesa e da Segurança, deu-se no mesmo cenário, levando a um recorde de corrupção. A privatização dos bens da indústria militar, postos em liquidação, fez com que os funcionários do Ministério da Defesa ganhassem milhões – o preço dos equipamentos militares foi multiplicado por oito ou nove na última década. No final dos anos 2000, as bases da nova realidade russa foram estabelecidas: livre conversão do poder em moeda e em bens, e vice-versa. A elite consolidada considerava sua atividade não como um serviço prestado à nação, mas como uma forma particular de transação comercial. Paradoxalmente, ela é muito aberta: cooptação regular de novas normas e possibilidade de abandonar o navio para se dedicar exclusivamente aos negócios. Os ocidentais tendem a pensar que a burocracia russa é ineficaz, mas ela é realmente bem eficiente – há, simplesmente, outros critérios de eficiência e outra visão de deveres.

Modelo exclusivo


A Rússia, nessa situação inédita, funciona segundo leis e códigos próprios. O país não é uma pálida réplica da democracia europeia, não é uma ditadura oriental revista e corrigida graças às ligações que teve com a história da Europa. Tampouco é a União Soviética ressuscitada dentro de sua ideologia de toda poderosa, nem um modelo de “transição autoritária”, já que sua economia não está evoluindo da acumulação de bens para o pós-industrial, mas segundo o esquema inverso.

Hoje, a Rússia é um sistema resultante do rápido colapso de todas as orientações morais e de todos os ideais de uma sociedade, dentro de um mundo dominado por motivações materialistas. Ela traçou seu próprio caminho. Ela não existiria se os europeus se recusassem a comprar petróleo de empresas semicriminosas, se seus dirigentes não se alegrassem em fazer parte das atividades da Gazprom – a maior fornecedora de gás natural do mundo –, se os investidores não estivessem em busca de bolhas especulativas nos mercados de valores mobiliários e imobiliários russos. Ela não existiria sem as sociedades off-shore, através das quais os empresários possuem abertamente (e os funcionários russos também, mas secretamente) 70% das grandes indústrias do país. O modelo russo seguiu um desenvolvimento lógico, que ainda pode perdurar por muito tempo, já que o descontentamento social não é evidente. Os cidadãos que o contestam são livres para se expressar dentro de esferas que não seja a política. Até mesmo os que querem brincar de desordeiros não são impedidos: simplesmente não têm plateia, nem mobilizam ninguém.

A sociedade russa, portanto, integrou o cinismo que a preside sob uma forma mais discreta, funcionando como qualquer comunidade ocidental: primazia pelo dinheiro e consumo, nivelamento de normas culturais, docilidade das populações, difusão maciça de tecnologias alienantes. O único problema desse sistema é sua incapacidade em formar uma classe intelectual e, portanto, para produzir conhecimentos indispensáveis. Os intelectuais permanecem supérfluos num país dedicado à exploração de seus recursos naturais, mas poderiam ser muito úteis quando as rivalidades econômicas mundiais se revelarem duras. O presidente Dmitri Medvedev entendeu bem isso. Ele não tem nenhuma intenção de desmontar o regime existente, mas sabe que é incompatível com o progresso tecnológico. Será que ele irá lançar reformas verdadeiras? Se for o caso, será que poderia mudar o sistema sem provocar sua destruição? Seja qual for a orientação política, democratas ou liberais, as chances dessas reformas acontecerem são obviamente maiores na Rússia de hoje do que seriam na União Soviética do passado.

Vladislav Inozemtsev é diretor do Centro de Pesquisas sobre Sociedade Pós-industrial e redator-chefe da revista Svobodnaïa Mysl


1 Comunicado à Assembleia Nacional, 25 de abril de 2005, disponível em: http://archive.kremlin.ru/text/appears/2005/04/87049.html
2 Aleksei Miller, “Da democracia do século XIX à do século XXI, e o que vem depois?”, em Vladislav Inozemtsev, Démocratie et modernisation: Débats sur lês défis du XXIè siècle, Evropa, Moscou, 2010, p.101 (em russo).
3 Na Rússia, o preço dos metais e materiais de construção é um dos mais elevados do mundo. O quilômetro de estrada entre Moscou e São Petersburgo custou 23 milhões de euros, e o custo de extração de gás foi multiplicado por sete entre 2000 e 2009. Vedomosti, Moscou, 14 de agosto de 2009, 14 de abril, 31 de maio e 1º de junho de 2010.
Le Monde Diplomatique Brasil