domingo, 31 de janeiro de 2010

Tutankhamon - Novos Achados

Os arqueólogos fizeram uma abertura na porta larga o bastante para poderem entrar naquela sala que foi chamada de "antecâmara". Media 3,70 x 8,00 e tinha 2,5 metros de altura. Empilhada junto a cada uma das paredes, mas com uma certa ordem, havia uma grande quantidade de objetos.

Tudo parecia recente: uma impressão digital na superfície pintada, flores incrivelmente bem conservadas, uma lâmpada que parecia ter sido apagada há pouco, um recipiente com argamassa utilizada para rebocar a porta...

Ao longo de uma parede via-se três divãs dourados em cujos lados haviam sido esculpidos animais que projetavam sombras grotescas, iluminadas pelas lanternas dos exploradores.

À direita da entrada duas estátuas do faraó, pintadas de negro e dourado, em tamanho natural, voltadas uma para a outra, guardavam uma porta selada.

Rodeando essas figuras havia dezenas de objetos empilhados: porta-jóias, vasos de alabastro, pequenas capelas negras fechadas, caixas brancas ovais, carruagens desmontadas, um retrato do faraó...

O solo estava coberto de cascalhos, de fragmentos, de elementos vegetais provenientes de ramos e cestos espalhados.

Os ladrões que haviam entrado na tumba por duas vezes haviam desprezado certos objetos. Tiraram o fundo de uns pequenos cofres, abriram cestos, esvaziaram os vasos de óleos... mas tudo ali oferecia um espetáculo ímpar aos exploradores.

O diário de escavação de Carter relacionou 171 móveis e objetos diferentes nessa antecâmara, isso sem se levar em consideração que alguns desses objetos eram cofres com vários elementos no seu interior.

Nessa sala também havia uma capela feita de madeira dourada, com meio metro de altura, que mostrava suas portas abertas, violadas pelos ladrões.

Nela deveriam estar duas estátuas (uma do rei e outra da rainha), de ouro maciço. A capela estava montada sobre um trenó de madeira laminada de prata. O grupo estatuário nunca foi encontrado.

As estátuas pintadas de negro que mencionamos antes traziam o nome do "Ka Real de Horakhty, o Osíris-Tutankhamon" tinham 1,70 metro e guardavam uma porta lacrada. Além dessa porta Carter percebeu que havia uma outra na parede ao lado da qual estava empilhada a maior parte dos objetos que estavam na antecâmara. Nela os pesquisadores viram que já havia um pequeno buraco, talvez feito pelos ladrões.

A sala a que dava acesso mostrava estar em grande desordem, possivelmente porque havia sido utilizada pelos ladrões para o exame dos "tesouros". Mas a essa sala retornaremos mais adiante.

O que realmente preocupava Carter era o lugar onde poderia estar o sarcófago do rei. Teria sido saqueado? A múmia teria sido destruída por algum governante posterior, num ato de revanche contra os que participaram da reforma de Akhenaton ? Teria sido violada pelos ladrões na busca de amuletos valiosos ?



Em 17 de fevereiro de 1923 os arqueólogos derrubaram solenemente a parede guardada pelas duas estátuas negras do rei. Cerca de 20 convidados estavam presentes, enfastiados, comentando estarem prestes a testemunhar a abertura de mais uma tumba vazia.

Carter foi lentamente retirando a argamassa e cada uma das pedras que bloqueavam aquela passagem. Quando a abertura estava suficientemente larga, penetrou na câmara seguido de Carnarvon.

Passados 20 minutos regressaram em silêncio e com ar de estupefação à antecâmara.

Gestos acompanhando esse ar fizeram com que os convidados avançassem numa corrida desenfreada para o buraco aberto na porta, pisoteando-se uns aos outros. Restaurada a ordem, todos, dois a dois, puderam entrar naquela sala.

Ali viram colares espalhados pelo chão, caixas em formas de capelas e pilones, uma grande capela de madeira decorada que ocupava quase toda a sala, odres de vinho, remos de madeira, uma trombeta de prata, lâmpadas de alabastro, estátuas...

Essa sala, batizada pelos exploradores de "câmara mortuária", era a única decorada da tumba. Estava um metro abaixo do nível do solo da antecâmara e dela os arqueólogos podiam ver uma outra sala que não estava bloqueada.

Os pesquisadores se aproximaram da grande capela dourada e viram que suas portas tinham trancas de ébano. No chão, frente à capela, notaram que jazia um selo de terra com o cartucho da necrópole, destinado a lacrar as trancas. Aquele selo havia sido rompido pelos salteadores que tinham conseguido chegar à múmia do rei.

Quando as pesadas portas da capela foram abertas, Carter viu-se frente a um fino dossel de linho, amarelado pelo tempo, no qual estavam presas margaridas de bronze dourado. Havia bastões, armas, recipientes de alabastro e outras miudezas.

Por trás do dossel, o indício mais importante: a porta de uma segunda capela, também de madeira dourada, trazia na tranca o lacre (selo) da necrópole tebana...intacto! Este selo ou lacre (foto acima) era usado para fechar e selar túmulos, para que ninguém entrasse depois de o defunto ser enterrado. Os selos eram de argila e tinham gravado o nome e várias imagens que faziam referência a necrópole.

Dentro da câmara funerária do túmulo de Tutankhamon, Carter encontrou quatro santuários (capelas). Neste segundo santuário (capela) ainda continha o selo (lacre), nele vê-se um chacal, que representa o Deus Anupu, guardião das necrópoles, e nove personagens cativos, ajoelhados e com as mãos atadas nas costas.

Abertas as portas dessa segunda capela (santuário), mais objetos foram encontrados: arcos cerimoniais, flechas, abanadores... e uma terceira capela decorada como as anteriores.

Quando foram abertas as portas dessa capela, mais uma foi encontrada. Sua forma diferia das três anteriores. A cada objeto encontrado pelos arqueólogos eram desvendados os segredos das cerimônias funerárias e da vida do jovem rei sepultado naquela tumba.

As capelas representavam as que foram erigidas por Ísis nos lugares santos onde havia encontrado as partes do corpo de Osíris. O rei morto representava, agora, o próprio deus morto, pronto a ressuscitar num outro mundo, unindo-se à própria essência divina.


Bem, as portas da quarta capela foram abertas. Havia um brilho dourado no que viam, diferente do brilho do ouros das capelas anteriores.

Era o de um sarcófago de quartzito amarelo, belo na sua decoração e muito bem guardado pelas capelas externas. Estava-se cada vez mais próximo da múmia do rei.
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A Formação do Egito Faraônico

O arqueólogo Vere Gordon Childe mencionou que grupos humanos socialmente organizados em clãs, e já sedentarizados às margens do Nilo, em dado momento podem ter caído sob o poder de uma "casta sacerdotal" que subjugou o restante do gupo, provavelmente por conhecerem como determinados fenômenos ocorriam (relacionando os períodos de cheias do rio com o surgimento sazonal de corpos celestes, por exemplo).

Alguns locais, como Gherze e a região de El-Fayum, ao norte, e Amrat, no sul, deram aos dias de hoje testemunhos de que os grupamentos humanos que ali existiram foram chegando a uma série de sofisticações tais como a realização de ritos funerários elaborados, e o uso de utensílios aprimorados de cerâmica, pedra e de osso.

Ainda no terceiro milênio antes da era cristã algumas das vilas que se haviam formado nas margens do Nilo chegam à condição de aldeias bem desenvolvidas. A navegação a remo e a vela rapidamente foram aprendidas pois para se ir ao norte bastava que se seguisse a corrente do rio. Em sentido contrário era suficiente aproveitar os ventos que sopram constantemente do Mediterrâneo em direção ao sul.

Os habitantes do vale do Nilo deram início a práticas mais eficientes que garantissem melhores resultados em suas colheitas, otimizando o uso e a administração de canais de irrigação ao longo das margens do rio.

As vilas e cidades começaram a atingir um tal ponto de estruturação que administrativamente as tornava independentes umas das outras. Os gregos chamaram essas unidades administrativas de "nomos", denominação pelas quais são conhecidas ainda hoje.

Os nomos começaram a organizar em grupos maiores e constituíram duas federações, uma ao norte e outra ao sul.
Frente e Verso da célebre Paleta de Nar-mer que se encontra exposta no Museu Egípcio, Cairo. A frente mostra o rei com a coroa branca do Alto Egipto castigando um inimigo com uma clava piriforme tendo à sua frente o deus Hórus segurando a cabeça de um inimigo pelas narinas.

No verso, ostentando a coroa vermelha do Baixo Egito, Nar-mer inspeciona um desfile de inimigos decapitados e com as cabeças metidas entre as pernas, sendo acompanhado pelos seus porta estandartes, porta sandálias e um alto oficial com o seu equipamento de escriba. c. 3100 a.C.
Cerca de 3200 ou 3100 a.C. a federação de nomos do sul, liderada por Menés (ou Nar-Mer), marchou até o norte tomando Mênfis, uma das suas principais cidades.

Foi estabelecido um novo governo e surgiu o Egito dos faraós, unificado com o governo centralizado nas mãos de um único soberano - o faraó.

O faraó passaria a ter, em sua titulatura, os epítetos "Rei do Sul e do Norte" e "Senhor das Duas Terras", numa alusão às duas federações que se uniram para formar um único país.
O reconhecimento do direito ao trono das Duas Terras foi feito por um grupo cuja denominação era "os seguidores de Hórus".

Essa denominação tanto pode significar que o grupo era formado por sacerdotes vinculados ao culto de Hórus, em Heracleópolis, quanto que era formado por grupos esparsos que se reuniram em torno do símbolo totêmico do falcão Hórus para a campanha de conquista do Norte.

O faraó, a partir desse momento, foi identificado como um deus vivo, com os sacerdotes sempre fazendo parte do conjunto humano que administrava o Egito.

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O Antigo Egito

Terra do Nilo e das Pirâmides, o Egito fascina a quem dele se aproxima, envolvendo a todos num clima de mistério e grandiosidade. De Heródoto a Napoleão, e até os dias de hoje, a história da civilização egípcia vem sempre envolta numa nuvem mística, quase etérea, resultado da inevitável mistura de deuses, mitos, monumentos e personagens que marcaram, indelevelmente, a história da humanidade.

Quando se fala no Egito da Antiguidade, as primeiras coisas que nos vêm à mente são as imagens das grandes pirâmides, as múmias e artefatos dos museus, os templos e a atmosfera aventuresca que cerca tudo o que diz respeito ao tempo dos faraós, que a literatura e o cinema nos mostram como sempre presentes nas expedições arqueológicas, envolvidas por um clima de conto policial de Agatha Christie.

Sem qualquer sombra de dúvida, a civilização do Egito antigo atiça a nossa imaginação pela aura de mistério que a envolve. No entanto muito já se sabe a respeito do modo de vida, da estrutura social, da estrutura econômica, das relações políticas do Egito faraônico.

Mas muitas vezes a circulação dessas informações fica restrita ao meio acadêmico ou a umas poucas centenas de pesquisadores dedicados. Infelizmente há muitas coisas que não chegam a público, propiciando a formulação de idéias fantasiosas que não são comprováveis, engrossando um extenso rol de crenças sobre a cultura egípcia, difícil de ser combatido.

As "Páginas" do "Site MistériosAntigos.Com" vão levar você para textos sobre o Antigo Egito onde poderão ser extraídas muitas informações a respeito da terra dos faraós. Os textos vão mostrar o que é o Egito a partir das concepções acadêmicas sim, mas sem torná-las maçantes. O que na opinião de muitos é uma realidade fascinante.

A Fabulosa descoberta da Tumba de Tutankhamon, costumes, crenças e ritos da Antiga Civilização Egípcia...

Mas antes de visitar as outras páginas, leia logo abaixo as últimas notícias sobre um dos maiores Faraós do Antigo Egito, Tutankhamon (Tutancâmon). Fonte: BBC.COM

Uma equipe de cientistas conseguiu fazer uma reconstituição das feições de um dos faraós mais famosos do antigo Egito, Tutancâmon. Três grupos de peritos - franceses, egípcios e americanos - reconstruiram modelos separados mas semelhantes de como seria o rosto do faraó usando radiografias.

Os franceses e egípcios sabiam quem estavam recriando, mas os americanos não foram informados de onde vinha o modelo do crânio analisado.

Os modelos do menino-rei, morto 3.300 anos atrás, revelaram um jovem com bochechas rechonchudas e um queixo arredondado.

Os modelos têm uma semelhança surpreendente com a máscara que cobriu a face mumificada de Tutancâmon quando seus despojos foram encontrados pelo arqueólogo britânico Howard Carter em 1922, e outras imagens antigas.

"Formatos de rosto e crânio nos modelos são notavelmente semelhantes a uma imagem famosa de Tutancâmon quando criança, onde ele é retratado como deus sol na alvorada partindo de uma flor de lótus", disse o secretário do Conselho Supremo de Antigüidades do Egito, Zahi Hawass.

Usando imagens de tomografia computadorizada de alta resolução, a equipe americana identificou corretamente que o crânio vinha de um norte-africano.

"As diferenças primárias (das reconstruções dos de americanos e egípcios) estavam no formato da ponta do nariz e orelhas", disse Hawass.

As versões francesa e americana também traziam nariz e queixo de formato semelhante, mas a equipe egípcia chegou a um nariz mais pronunciado, de acordo com o arqueólogo. As imagens de tomografia computadorizada - as primeiras obtidas de uma múmia egípcia - foram obtidas em janeiro passado. Elas sugerem que o rei não era muito robusto, mas um homem saudável de 19 anos, quando morreu, provavelmente vítima de complicações resultantes de uma fratura na perna e não de assassinato, como se suspeitava.

Quando foram feitas radiografias do corpo, em 1968, um fragmento de osso foi encontrado em seu crânio levando a especulações de que ele havia sido morto com um golpe. Pouco se sabe sobre os dez anos de reinado de Tutancâmon depois que ele sucedeu Akhenaten, que abandonara os velhos deuses do Egito em favor do monoteísmo.

Alguns historiadores dizem que ele teria sido morto por tentar trazer de volta o politeísmo. Outros acreditam que ele foi assassinado por Ay, o segundo em comando, e que acabou sucedendo o jovem faraó. Mas Hawass disse que está convencido de que Tutancâmon não foi assassinado.

MisteriosAntigos.Com

Beatlemania


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Quatro garotos britânicos desembarcam em Nova York, cativam
multidões e fazem um show visto por 73 milhões de pessoas pela TV.
Os adultos torcem o nariz, mas esse fenômeno chegou para ficar


O show que mudou tudo: Paul, George, Ringo e John no palco do programa de Ed Sullivan, nos estúdios da CBS, em NY

A espera foi longa e sofrida – ao menos para os padrões de um adolescente que não consegue tirar alguma coisa da cabeça. Demorou mais de um ano desde que eles estouraram na terra da rainha, mas os americanos finalmente puderam ver de perto os Beatles, o jovem fenômeno britânico que contagia multidões e enlouquece seus fãs, no último dia 9, no Ed Sullivan Show, da TV CBS. A audiência televisiva da apresentação, realizada num teatro da Broadway, em Manhattan, foi nada menos que impressionante: 73 milhões de pessoas ficaram grudadas à tela durante a exibição. A partir do momento em que Paul McCartney abriu a boca para cantar close your eyes and I’ll kiss you (de All My Loving), não tinha mais volta. Não há um canto da América que não tenha sucumbido à febre da chamada "beatlemania".

Foram cinco canções apenas: All My Loving, Till There Was You, She Loves You, I Saw Her Standing There e I Want To Hold Your Hand. E foi o bastante para que os Beatles tivessem os Estados Unidos a seus pés. Mas o começo ainda foi tenso, por conta de um contratempo: o guitarrista George Harrison só conseguiu subir ao palco às custas de muito remédio, por causa da violenta gripe com a qual tinha desembarcado na América. George não participou da passagem de som e nem do teste de palco para as câmeras, realizados no dia 8. Quando os Beatles tocaram Till There Was You, John Lennon foi enquadrado pela câmera, e uma legenda divertida apareceu: Sorry girls – he’s married ("Desculpem, garotas – ele é casado"). Segundo a produção do programa, a platéia que assistiu os Beatles dentro do estúdio da CBS foi de 728 pessoas – todas elas agora na mira da inveja de dezenas de milhões de fãs.

Não é para menos. A apresentação dos Beatles no programa já entrou para a história. Há mais de uma década, o carismático Ed Sullivan apresenta o show de variedades que se tornou uma verdadeira instituição americana. Todos os domingos, às 20 horas em ponto, os telespectadores ligam a TV e não perdem uma cena do programa, transmitido ao vivo – não só para ver nomes consagrados da música popular, mas também para descobrir novas tendências e talentos promissores. Com os Beatles não foi diferente, ainda que tenham se apresentado entre comediantes e shows de mágica. Na noite em que os quatro rapazes ingleses tomaram o palco, algo de muito especial aconteceu. Numerosos artistas já tiveram a chance de se apresentar ali. O impacto do show dos britânicos, porém, parece ter sido mais poderoso do que qualquer outro.

Descanso depois do pandemônio: o quarteto passeia num barco na Flórida

Um exemplo? A polícia de Nova York informou que, durante o tempo em que os Beatles se apresentaram naquela noite de domingo, não houve um crime sequer reportado nos Estados Unidos. Ao ser questionado sobre isso, George Harrison brincou: "Até os criminosos pararam durante 15 minutos enquanto estávamos no ar". E ele está certo. Difícil ficar indiferente a uma apresentação da banda. Não é apenas o charme de John, Paul, George e Ringo que contagia. As melodias são memoráveis e as letras das canções são diretas e coloquiais, criando um elo emocional instantâneo entre os quatro garotos e seus fãs. As mensagens são claras: "de mim para você", "ela te ama", "quero segurar sua mão". Nada mais simples, nada mais doce. Os Beatles, pelo que se vê, aprenderam esse truque ouvindo muito Carole King e Gerry Goffin, do Brill Bulding.

Estratégia e promoção - Quando a gravadora Capitol lançou I Want To Hold Your Hand e I Saw Her Standing There, em 26 de dezembro do ano passado, o coração da indústria musical americana já estava preparado. Já na semana seguinte, o disco entrou na parada, em 83º lugar,pulando para 42º na outra semana e chegando ao topo em 15 de janeiro. Os Beatles, que na ocasião estavam trabalhando duro em Paris, comemoraram com o empresário Brian Epstein (que colocou um penico na cabeça imitando um chapéu) e com o produtor George Martin, os dois mentores do sucesso do grupo.

Antes da primeira incursão até os EUA, a Capitol montou um cuidadoso esquema de divulgação, incluindo anúncios, aparições promocionais e até peças publicitárias.Além da agenda montada pela gravadora, Brian havia planejado outras aparições para a banda. Com muita insistência, convenceu Sullivan a receber os Beatles em seu conceituado programa de TV. Quando o apresentador estreou seu show, em 1947, já era respeitado nos bastidores da TV americana (ele vem do colunismo social e também teve passagem pelo rádio). O programa dele, contudo, não foi o único responsável por dar início à febre.

Na verdade, a conquista dos Estados Unidos começou já no dia 7, quando o voo 101 da Pan Am aterrissou em Nova York, no Aeroporto Internacional da cidade (que há dois meses passou a ser chamado de John F. Kennedy, em tributo ao presidente morto no ano passado). No exato instante em que os Beatles pisaram pela primeira vez em solo americano, cerca de 10.000 fãs entraram em delírio à beira da pista. E a cena atraiu a atenção do mundo todo. A histeria da beatlemania é algo até hoje nunca visto, nem nos anos de Elvis Presley.

Histeria: fãs pedem permanência eterna

Humor contagiante - Aproximadamente duzentos jornalistas estavam a postos no saguão do aeroporto. Os repórteres pareciam certos de que conseguiriam arrancar alguma declaração tola ou polêmica dos rapazes. Mas os quatro lançaram mão de seu charme e irreverência e dobraram qualquer resistência à sua chegada. Quando um repórter perguntou sobre um movimento em Detroit para acabar com os Beatles, Paul respondeu: "Nós também temos nosso movimento para acabar com Detroit". Quando a entrevista começou a ficar muito barulhenta, John soltou um sonoro "calem a boca". Todos riram. No dia seguinte, o jornal londrino The Times publicou: "O humor dos Beatles é contagiante".

Os garotos de Liverpool não são, contudo, uma unanimidade. O mundo adulto não sabe bem o que fazer com eles. Boa parte da imprensa "séria" americana tratou o quarteto com condescendência. Como a abertura da reportagem da revista semanal Newsweek: "Visualmente, são um pesadelo. Ternos eduardianos apertados e cabelos em forma de tigela. Musicalmente, um desastre: guitarras e bateria detonando uma batida impiedosa, que afugenta ritmo, melodia e harmonia. As letras (pontuadas por gritos de ‘yeah, yeah, yeah’) são uma catástrofe, um amontoado de sentimentos baseados em cartões do dia dos namorados".

Seguindo a mesma linha, O New York Daily News publicou: "Bombardeada com problemas ao redor do mundo, a população voltou seus olhos para quatro jovens britânicos com cabelos ridículos. Em um mês, a América os terá esquecido e vai ter que se preocupar novamente com Fidel Castro e Nikita Krushev". Mas será mesmo que eles logo mergulharão de volta à obscuridade? Os Beatles podem parecer estranhos a princípio, quase como bonecos. Mas uma os difere do resto das estrelas que dominam as paradas de sucessos hoje em dia: ninguém os manipula. O jovem quarteto provou que artistas pop não têm que ser falsos ou bobos, ou uma combinação de ambos. O importante é que são reais. Fumam, bebem, até falam palavrões. E derrotam seus inimigos com charme e um doce sorriso.

Na virada para 1964, os Beatles se tornaram a maior banda do mundo. Agora, há uma câmera ligada em qualquer lugar em que estejam. A visita aos EUA só potencializou o espantoso assédio a que são impiedosamente submetidos: são filmados ou fotografados dentro do avião, com a multidão à espera no aeroporto, no desembarque, na entrevista coletiva, dentro da limusine, no hotel, nos estúdios de rádio do DJ nova-iorquino Murray the K (talvez o maior incentivador da beatlemania nos EUA), e, claro, no palco do Ed Sullivan Show. As lentes que capturaram a eletrizante apresentação dos quatro no programa, porém, fizeram mágica. Transmitiram para mais de 70 milhões de pessoas uma sensação que já tinha conquistado multidões de fãs do outro lado do Atlântico. Apostar que tenha sido apenas uma febre momentânea parece no mínimo arriscado.

Revista Veja História

Martin Luther King - O ônibus da História

Boicote ao transporte público segregado de uma cidade do
Alabama foi o ponto de partida para solidificar a liderança de
Martin Luther King na causa dos direitos civis nos EUA

Saboreando a vitória: o pastor Abernathy (à esq.) e King (no segundo banco) num ônibus após o fim da segregação no transporte

Aos olhos e ouvidos de todo o mundo, a cena de um oceano de pessoas diante do Memorial Lincoln, na marcha de Washington em 1963, e os vibrantes discursos pela harmonia social e econômica nos Estados Unidos são as mais belas lembranças do que a soul force ("força da alma") de Martin Luther King era capaz de realizar. O maior feito de sua trajetória, contudo, é menos simbólico e muito mais prático. Ao lutar até o fim pelo direito de uma mulher negra se manter sentada em um ônibus de uma pequena cidade no Alabama, sem precisar entregar seu lugar a um passageiro branco, o até então desconhecido pastor batista desafiou o estado e conseguiu uma vitória impensável em um país ainda rachado pela segregação. Foi o primeiro passo de uma histórica jornada pela liberdade, que fez de King o grande líder da comunidade negra e um ícone da batalha ideológica pelos direitos civis ao redor do planeta.

Vitória no tribunal: com a mulher, Coretta, King comemora suspensão de condenação

Em 1º de dezembro de 1955, a costureira Rosa Parks recusou-se a ceder seu assento (na seção reservada aos negros) a um homem branco em um ônibus municipal de Montgomery, no Alabama, conforme determinavam as leis segregacionistas do estado. Informada pelo motorista que acabaria presa caso não repensasse sua decisão, a mulher de 42 anos preferiu ser levada para a cadeia - e, posteriormente, a julgamento. Sua prisão silenciosa fez o Conselho Político Feminino da cidade propor aos negros da cidade um dia de boicote aos ônibus municipais, na exata data em que Rosa Parks deveria comparecer ao tribunal, 5 de novembro. Sua esdrúxula condenação pelo júri levou à formação imediata da Montgomery Improvement Association (MIA), para coordenar as ações seguintes, incluindo a extensão do boicote e o questionamento legal da constitucionalidade da lei de segregação no transporte público. Para não melindrar nenhum ativista local, a presidência da entidade foi entregue a Martin Luther King, que desembarcara havia pouco na cidade como pastor da Igreja Batista da Avenida Dexter. O líder viu a missão como uma oportunidade de melhorar as relações entre as raças e, por tabela, a situação de Montgomery.

Naquela mesma tarde, King discursou para uma multidão reunida diante da Igreja Batista da Rua Holt, já revelando o poder retórico invejável que o faria célebre. "Quero assegurar a todos que trabalharemos com vontade e determinação para fazer prevalecer a justiça nos ônibus da cidade. Não estamos errados. Se estivermos errados, a Suprema Corte desta nação está errada. Se estivermos errados, a Constituição dos Estados Unidos está errada. Se estivermos errados, Deus Todo-Poderoso está errado." Já nesse primeiro encontro, o pastor pediu um compromisso pela não-violência no protesto, traço que marcaria todas as outras manifestações, assim como os valores da ética cristã propagados por King. Poucos dias depois, a MIA tornou pública suas reivindicações: ocupação dos assentos de acordo com a ordem de chegada do passageiro, motoristas negros em rotas predominantemente negras e tratamento cortês pelos funcionários.

O estopim: Rosa Parks é detida em 1956

Conspiração e multa - A prefeitura de Montgomery não atendeu aos apelos da entidade, que decidiu continuar o boicote. Motoristas de táxi negros organizaram-se para ajudar a comunidade, e foram penalizados pela prefeitura; com isso, organizou-se uma extensa rede de caronas que mobilizou mais de 300 carros. No início de 1956, bombas foram atiradas contra as casas de Martin Luther King e E. D. Nixon, outro líder negro local, sem deixar vítimas. Em fevereiro, invocando uma lei de 1921, que proibia a conspiração contra negócios lícitos, a prefeitura indiciou mais de 80 líderes e participantes do boicote. King foi condenado e teve de pagar uma multa de 500 dólares para evitar um ano de encarceramento. Apesar disso, o boicote continuou, e atraiu a atenção nacional. Pacifistas famosos como Bayard Rustin e Glenn Smiley passaram a aproximar-se de King e apoiar o movimento.

Em 5 de junho de 1956, uma corte federal enfim determinou que a segregação nos ônibus era inconstitucional, decisão ratificada em 13 de novembro pela Suprema Corte. Houve intensa comemoração entre a comunidade negra da cidade, mas a MIA decidiu manter o boicote e o sistema de caronas até que a dessegregação realmente fosse implantada no transporte de Montgomery. Um mês depois, em 20 de dezembro, Martin Luther King anunciou o fim do movimento; no dia seguinte, ele, E. D. Nixon, Glenn Smiley e o pastor Ralph Abernathy embarcaram em um ônibus já integrado. No total, foram 381 dias de boicote, com o apoio de mais de 42.000 negros. Rosa Parks, que no meio do processo perdeu seu emprego numa loja de departamentos, tornou-se alvo de hostilidades de segregacionistas e mudou-se para Detroit em 1957, onde segue envolvida com a causa. Atualmente empregada no gabinete do deputado John Conyers, Rosa, conhecida como a "mãe do movimento pelos direitos civis", perde um de seus principais parceiros, que seguiu pelo resto da vida o lema dos manifestantes: "Melhor andar com dignidade que rodar na humilhação."

Revista Veja Historia

Negros - Três séculos de trevas

Desde a chegada dos pioneiros africanos, em 1619, os
negros da América enfrentam uma contenda laboriosa em busca
de direitos iguais, passando pela escravidão e pela segregação

Mercado de escravos na capital: Lincoln via o comércio de negros de seu gabinete no Capitólio enquanto ainda era congressista

Agora sem uma de suas figuras mais atuantes, o movimento negro nos Estados Unidos seguirá sua dolorosa cruzada para estreitar a fenda racial que se abriu paulatinamente ao longo de mais de 300 anos de História, desde que os primeiros africanos chegaram aos Estados Unidos, em 1619. O Ato dos Direitos Civis, aprovado em 1964, atendeu a muitas das reivindicações das minorias americanas. É evidente, porém, que mais de três séculos de discriminação não poderiam ser reparados por um único documento. Por isso, os esforços pela alteração não apenas das leis, como também da mentalidade e da cultura da América, precisarão ser mantidos por uma nova geração de líderes, de maneira que oportunidades iguais se apresentem tanto a negros como a brancos.

Brancos na frente, negros no fundo: ônibus segregado em Atlanta, em abril de 1956

Em 1619, os pioneiros africanos desembarcaram na Virgínia como servos por contrato - status semelhante ao dos trabalhadores ingleses, que também empenharam anos de trabalho para cobrir os custos da passagem à América. Pouco tempo depois, entretanto, a escravidão, ainda que não regulamentada, já se verificava em muitos estados do país. A cultura do tabaco no Sul dos EUA se alimentou do tráfico negreiro para compor sua mão-de-obra por décadas a fio; como resultado, o censo americano de 1860 registrava uma população de 4 milhões de escravos nos quinze estados em que a escravidão era legal. Nesses estados, a população total era de 12 milhões de pessoas. Cerca de 500.000 negros viviam livres no país naquele tempo.

As vozes abolicionistas, que timidamente apareceram nos EUA no século XVIII, ganharam força com a eleição à presidência de Abraham Lincoln, opositor declarado da escravidão, em 1860. Convencidos de que seu modo de vida estava ameaçado, os estados do Sul se separaram da União e detonaram a Guerra Civil Americana. Em 1863, durante o conflito, Lincoln assinou a Proclamação da Emancipação, libertando os escravos dos estados confederados e proibindo a escravidão em todo o país. Mas era apenas o começo da jornada.

Medo nas ruas: Ku Klux Klan no Alabama

Segregação institucionalizada - No fim do século XIX, os estados do Sul, afetados economicamente com o fim da escravidão, promulgaram as chamadas leis Jim Crow, uma série de determinações para legitimar a discriminação racial e dificultar o acesso dos negros ao voto. Legislações semelhantes apareceram por todo o país, e a segregação passou a ser uma realidade nos Estados Unidos. Prédios e transporte públicos, escolas, restaurantes, cinemas e até cadeias tinham áreas separadas para brancos e negros - a dos negros, via de regra, em estados deploráveis. Casamentos entre brancos e negros ou seu descendentes eram proibidos em diversos estados, para evitar a miscigenação. Na Carolina do Norte, nem mesmo os livros da biblioteca poderiam ser consultados por negros e brancos - se o primeiro a retirá-lo fosse um branco, apenas os brancos teriam acesso ao volume.

Atleta pioneiro: Jackie Robinson em 1947

Entre os anos de 1916 e 1930, uma onda de migração negra do sul para o norte, meio-oeste e oeste do país - regiões onde a tolerância e as oportunidades eram maiores - deu início ao movimento pela igualdade de direitos. Entretanto, apesar de alguns pioneiros terem ultrapassado a barreira racial (como o atleta Jackie Robinson, craque do beisebol, que em 1947 tornou-se o primeiro jogador negro nas ligas maiores da modalidade preferida dos americanos, colocando um ponto final na segregação que durou 60 anos), apenas a partir da década passada é que os resultados coletivos começaram a aparecer. O boicote de Montgomery e a marcha em Washington, ambos marcados pela não-violência e pela tentativa de integração racial pregada por Martin Luther King, tiveram grande repercussão - e, mais importante ainda, resultados práticos. Contudo, alguns líderes e grupos, notadamente Malcolm X (1925-1965) e o recém-formado Black Power, advogam pela ruptura total entre a América negra e a branca, utilizando-se da violência se for preciso. A grande incógnita é o caminho que será tomado pelos herdeiros de King - se a rota da não-violência trilhada pelo reverendo ou uma estrada muito mais sinuosa, manchada de sangue.Abril de 1968

Revista Veja Historia

Assassinato de Luther King - Tumultos

Chagas Abertas
Assassinato de Luther King desencadeia violentos distúrbios
raciais em mais de 110 cidades americanas, com bombas, saques
e incêndios. E a situação está longe de ser controlada

Washington em chamas: casas e lojas da capital americana foram incendiadas por negros no dia seguinte à morte de King

Foi necessário apenas um único tiro de rifle, preciso e letal, para fulminar uma das mais eloquentes vozes pela igualdade de direitos que os Estados Unidos jamais ouviram. Entretanto, com a mesma rapidez com que silenciou Martin Luther King, o balázio detonou um estrepitoso barril de pólvora. Milhares e milhares de negros não conseguiram segurar sua indignação, que se faz ouvir por todo o país de maneira assustadoramente impactante. Assim que a notícia do assassinato ganhou as ondas do rádio e se espalhou de costa a costa, mais de 110 cidades americanas viram-se mergulhadas no caos de uma verdadeira guerra civil racial. Nas ruas, tumultos, bombas, incêndios, saques, confrontos armados - um rastro de violência e destruição que levou à convocação da Guarda Nacional e até mesmo do Exército em certos municípios. Pior: a onda de brutalidade ainda parece longe de estar totalmente controlada.

Cerco à Casa Branca: tropas federais protegem o prédio contra possíveis vândalos

A situação mais grave foi registrada na capital do país, Washington, que virou um campo de batalha ainda na noite de 4 de abril. A explosão de violência começou na esquina das ruas 14 e U Noroeste, no setor de Columbia Heights, e rapidamente se espalhou pelos três maiores corredores da cidade - além da rua 14, a rua 7 Noroeste e rua H Nordeste. Várias lojas foram saqueadas e imóveis totalmente destruídos. O prefeito Walter Washington declarou estado de emergência no dia seguinte, determinando um toque de recolher de treze horas, em vigor a partir das 15h30. Uma marcha liderada pelo ativista negro Stokely Carmichael terminou em violento confronto com a polícia. A força local de 3.000 homens não era páreo para as multidões de até 20.000 manifestantes. O presidente Lyndon Johnson, então, determinou a alocação imediata de mais de 13.000 soldados das forças armadas e 1.750 membros da Guarda Nacional, além de 2.000 pára-quedistas, que chegaram no sábado para ajudar as tropas federais. Até o fechamento da presente edição já foram contabilizados seis mortos, cerca de mil feridos, 6.000 prisões e 900 incêndios.

Em Baltimore, a situação é igualmente alarmante. Pela primeira vez desde as greves de 1870, a cidade é patrulhada por forças federais. São mais de 9.000 homens procurando restabelecer a ordem que, desde quinta-feira, já não existe mais nos setores leste e oeste, onde se concentra a maior parte da população negra. O governador do estado de Maryland, Spiro Agnew, decretou toque de recolher, convocou a Guarda Nacional e proibiu a venda de bebidas alcoólicas. As determinações, porém, estão sendo ignoradas pelos arruaceiros, que tumultuam as ruas dia e noite, saqueando comércios e residências. Até mesmo alguns estabelecimentos de negros - que estão se identificando com placas com a inscrição soul brother, "irmão de alma", para evitar ataques - vêm sendo alvo de violações. A prefeitura calcula que pelo menos 600 lojas foram saqueadas. Ônibus escolares estão sendo usados para o transporte de presos - o número de capturas é grande demais. Há 1.700 vagas nas cadeias da cidade, mas 2.200 pessoas, entre saqueadores e pessoas que ignoraram o toque de recolher, já foram detidas.

Prejuízo e tensão: loja de bebidas na rua 14 de Washington foi destruída por jovens

Apelo no gueto - De Chicago e Detroit chegam relatos de selvagerias semelhantes, mas os habitantes de pelo menos duas grandes cidades dos Estados Unidos, Boston e Indianápolis, preferiram a paz e a introspecção ao ódio e à baderna. Ao menos até agora, ambas passaram incólumes aos tumultos. Em Indianápolis, parece ter surtido efeito o emocionado apelo do senador Robert F. Kennedy, que desobedeceu as recomendações de seus assessores e da polícia e mesmo o pedido de sua esposa Ethel para discursar, na noite do assassinato de King, diante de uma plateia negra, em um gueto da cidade. Kennedy se responsabilizou por sua segurança e, de um palco improvisado na caçamba de uma camioneta, reverenciou o legado do líder ativista e conclamou a nação a se unir pela não-violência - apesar de todo o sentimento de raiva e desconfiança que, admitiu ele, muitos negros deveriam estar sentindo. Para isso, o senador usou seu próprio exemplo, num dos raros momentos em que mencionou em público a morte do irmão, o presidente John Kennedy.

Já em Boston, uma das cidades americanas em que a questão racial é mais acirrada, muitos estão creditando a relativa tranquilidade, ironicamente, ao inflamável "Senhor Dinamite" - o mundialmente famoso cantor James Brown. Na verdade, na noite do assassinato, ocorreram confrontos entre civis e policiais em Roxbury. Para o dia seguinte, as autoridades já se preparavam para mais altercações - o que levou o prefeito Kevin White a cogitar cancelar o show que o músico faria no ginásio Boston Garden. Entretanto, assessores políticos e líderes da comunidade negra aconselharam a prefeitura a permitir a realização do espetáculo - e, mais ainda, transmiti-lo ao vivo pela televisão. James Brown não apenas consentiu como encorajou seus fãs a ficarem em casa para ver a apresentação. Dito e feito. Aquela noite foi pacífica em Boston: os únicos estrondos foram provocados pelo vozeirão indomável do astro nascido na Carolina do Sul. Desde então, não foram registrados distúrbios significativos na cidade.

Revista Veja História

sábado, 30 de janeiro de 2010

O dia do czar

A coroação de Nicolau II, o herdeiro do império,
movimenta a Rússia. Celebrações serão opulentas - tudo para ajudar a dissipar
a impopularidade do novo comandante moscovita

Feéricas celebrações: coroação de Alexandre III, em 1883, foi só uma prévia do que será a festa de Nicolau (na escadaria, à esq.)

Está chegando o dia de Nicolau Alexandrovich Romanov. Depois de um longo período de luto pela morte do pai, Alexandre III, o herdeiro do poderoso império finalmente será coroado czar da Rússia no próximo dia 14 de maio, em uma aguardada cerimônia marcada para a belíssima Catedral da Assunção, dentro das muralhas do Kremlin, em Moscou. Um mês inteiro de feéricas celebrações, com farta distribuição de pão e boa dose de circo, é a receita da nobreza russa para que o jovem monarca, de apenas 28 anos, reverta os incômodos ventos de impopularidade que sopram contra Nicolau desde que ele assumiu, de fato, as funções de governante supremo do país, no fim de 1894.

Novo czar: impopular e despreparado
Milhares de russos já se dirigem a Moscou para tomar parte nos festejos. A chegada de Nicolau II e da czarina Alexandra Fedorovna ao Palácio Petrovsky, nos arredores de Moscou, está marcada para o dia 6. Três dias depois acontece o desfile imperial, que colorirá as ruas da cidade com milhares de fardas dos diversos regimentos militares e acompanhará o casal do Palácio ao Kremlin, a fortificação erguida às margens do Rio Moscou para proteger a cidade dos invasores. Nos dias 10 e 11, estão marcadas recepções para embaixadores e solenidades para figuras proeminentes do império. Quatro dias depois da coroação, o momento de glória reservado para os súditos: o opíparo banquete popular nos campos de Khodynka, em que serão montados bufês, bares e teatros, além da famosa e geralmente generosa distribuição de presentes pela ocasião. Apenas para esse evento são aguardadas cerca de 500.000 pessoas.

O antecessor com a família: mão firme
'Bon vivant' - Espera-se que a coroação oficial e o clima festivo forneçam a Nicolau um apoio que ainda não teve - muito por seus próprios atos, é verdade. Ao chegar ao trono, em função da doença e morte do pai, resistiu a entregar qualquer tipo de poder a representantes eleitos pela população. Teve a chance de realizar uma série de reformas constitucionais reivindicada pelos trabalhadores e camponeses, mas, contrariando os conselheiros da família imperial, decidiu manter a política de Alexandre III. Além disso, repeliu rispidamente as delegações que se encontravam no Palácio de Inverno de São Petersburgo na esperança de terem seus desejos atendidos. Com isso, deu continuidade ao autoritarismo vigente nos tempos do czar Alexandre. Ao contrário do pai, todavia, Nicolau II parece não ter mão firme o bastante para conduzir o gigantesco império russo. A morte inesperada de seu genitor por falência renal, há dois anos, precipitou a ascensão do primogênito. De acordo com todos os conselheiros, o jovem estava completamente despreparado para as funções. O próprio Nicolau, que jamais se interessou pela política (bon vivant, preferia a companhia das mulheres) sabia disso. É célebre a frase que o herdeiro teria professado a um de seus primos quando soube do passamento do pai, Alexandre III: "O que será de mim e da Rússia?" A resposta, o mundo terá a partir de agora.

Revista Veja História

A devoção à verdade

O líder espiritual e político indiano lança uma autobiografia
e relata sua árdua campanha em favor da independência
do território do domínio dos britânicos. A seguir, um trecho da obra

O líder popular dos indianos trabalha numa roda de fios de algodão: 'conquistar as paixões mais sutis é a parte mais difícil'

Até agora, minha vida tem sido tão pública que não existe quase nada sobre mim que as pessoas já não saibam. Mas tenho me dedicado a um esforço incessante: descrever a verdade, da forma que a vejo, e da exata maneira pela qual cheguei a ela. Com esse exercício, ganhei uma inefável paz mental. Minha experiência como um todo convenceu-me de que não há outro Deus que não a verdade. Por enquanto, porém, só consegui ver alguns relances dessa verdade, e essas dão apenas uma idéia de seu indescritível brilho, um milhão de vezes mais intenso do que o do sol, que vemos todos os dias com nossos próprios olhos.

Para ver o espírito universal da verdade de perto, uma pessoa deve ser capaz de amar até a mais perversa das criaturas como se fosse ela mesma. E um homem que aspira a isso não pode se ausentar de qualquer setor da vida. É por isso que minha devoção à verdade me levou ao campo da política. Posso dizer, sem qualquer hesitação e com toda a humildade possível, que aqueles que dizem que a religião não tem nada a ver com política não sabem o que a religião significa.

Atração e repulsão - A identificação com qualquer ser vivo é impossível sem a autopurificação. Deus não pode ser percebido por alguém que não é puro de coração. A autopurificação, portanto, deve significar a pureza em todos os aspectos da vida. E como a purificação é altamente contagiosa, quando alguém se purifica, purifica também o que está ao seu redor. O caminho para isso, porém, é duro e íngreme. Para conquistar a pureza perfeita, uma pessoa não pode ter paixão no pensamento, no discurso e nas ações; deve ficar acima das correntes de amor e ódio, atração e repulsão.

Sei que ainda não tenho essa tripla pureza, apesar de lutar de forma constante e incessante nesse sentido. É por isso que todos os elogios do mundo não me comovem; na verdade, eles me provocam. Para mim, conquistar as paixões mais sutis é mais difícil do que a conquista física do mundo pela força das armas. Desde meu retorno à Índia, convivi com as paixões que se escondiam dentro de mim. Ter descoberto essas paixões me fez sentir humilhado, mas não derrotado. As experiências que me trouxeram até aqui me deram grande alegria. Mas sei que ainda tenho um caminho difícil a atravessar. Preciso reduzir-me a zero. Se um homem não se coloca por vontade própria como último entre todas as outras criaturas, não há salvação para ele.

Mohandras Karamchand Gandhi, de 60 anos, é advogado e ativista político. Entre 1893 e 1914, morou na África do Sul, onde participou de campanhas ligadas ao movimento de direitos civis naquele país. Na volta à Índia, tornou-se figura destacada nas manifestações em benefício dos pobres e das mulheres. Trabalha há mais de uma década para reduzir as tensões religiosas e étnicas na Índia e, principalmente, pela independência do território, controlado pela Grã-Bretanha. Gandhi, apelidado de "Mahatma" ("grande alma" em hindu), usa métodos que chamaram a atenção de todo o mundo. Ao invés de estimular o conflito violento com os britânicos, usa como armas a desobediência civil e a resistência pacífica para tentar alcançar seus objetivos.

Revista Veja História

No país do Papa

Com poderes ilimitados e polpuda indenização em caixa,
Pio XI molda a estrutura do recém-criado estado do Vaticano. E já
incomoda seu vizinho, o ditador fascista Benito Mussolini

Autonomia e compensação financeira: a assinatura do tratado, em fevereiro último, com representantes do papa e o Duce

Em setembro de 1870, quando as tropas de Vittorio Emanuelle II, proclamado rei da recém-unificada Itália, subjugaram e anexaram a cidade de Roma, o papa Pio IX enclausurou-se nos muros do Vaticano. A essa altura, o Risorgimento italiano já havia tomado a maioria dos estados papais, e o pontífice, para não se submeter à nova ordem política na Velha Bota, rompeu relações com a monarquia e declarou-se um prisioneiro do poder laico. O mal-estar entre o estado e a Igreja finalmente chegou ao fim em fevereiro deste ano, quando o papa Pio XI e o ditador fascista Benito Mussolini, o "Duce", assinaram o Tratado e o Concordato de Latrão, que determinaram a criação do estado soberano do Vaticano, reconheceram o catolicismo como religião oficial da Itália e ainda garantiram à Santa Sé uma polpuda compensação financeira pelas anexações dos rincões papais. Livre depois de quase seis décadas, é o Santo Padre que agora se esbalda com seus poderes de chefe-de-estado, literalmente mandando prender e mandando soltar dentro do Vaticano.


O Santo Padre: rádio e jornal próprios

Com a garantia da indenização da administração italiana, de 750 milhões de liras, à vista, e de um bilhão de liras em títulos do governo, o chefe da Santa Sé começa a estruturar uma respeitável aparelhagem estatal – boa parte dela, a seu serviço imediato. Já existe um diário oficial, o L’Osservatore Romano, e Pio XI, de acordo com seus assessores próximos, planeja estruturar no futuro próximo uma rádio oficial para alardear o cristianismo e, claro, a palavra papal. O maior candidato para tocar a empreitada é Guglielmo Marconi. Está em circulação a moeda corrente do Vaticano, a lira vaticana, com a efígie do sumo pontífice, também aceita na Itália e que tem valor parelho ao da lira italiana. O serviço postal do Vaticano foi inaugurado em fevereiro. Já o Corpo da Gendarmaria Pontifícia e o Corpo da Guarda do Papa, com suas coloridas fardas desenhadas por Michelangelo, ganham ainda mais liberdade dentro do Vaticano para assegurar a proteção do agora chefe de estado Pio XI.

Para completar, em junho último, foi promulgada a Lei Fundamental do Estado do Vaticano, que dá ao sucessor de São Pedro a plenitude dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário no enclave de 0,44 quilômetro quadrado ao norte de Roma e em mais doze edifícios espalhados pela cidade, incluindo o Palácio de Castelgandolfo. Os bens da Santa Sé, sua administração, a biblioteca, o arquivo, a livraria e a tipografia do Vaticano também estão diretamente subordinados à vontade do pontífice. Tal lei criou a figura do governador, que pode criar regras para a ordem pública na cidade-estado, com a anuência do Conselho. Porém, a escolha do governador é exclusiva do papa, e pode por ele ser revogada a qualquer momento, sumariamente. Qualquer semelhança com os plenos poderes de Mussolini não é mera coincidência – ao menos para os cartunistas locais, que não se cansam de produzir caricaturas retratando Pio XI envergando a camisa negra do fascismo e o Duce com a tiara papal em sua careca.


O rei Vittorio: encontro simbólico

Os dois manda-chuvas, aliás, trocaram algumas farpas há alguns meses – Mussolini dizendo à Câmara dos Deputados que "a Igreja é soberana apenas no reino da Itália, e não no estado italiano", com a resposta de Pio XI lamentando as declarações hereges do fascista. As arestas ainda não foram completamente aparadas. Para acabar de vez com a animosidade, no fim do ano, de acordo com informações extra-oficiais, o Santo Padre deve receber pela primeira vez no Vaticano o rei Vittorio Emanuele III, em um encontro simbólico para selar a paz entre a monarquia e a Igreja. Mas também aí se descortina um problema diplomático. Pelas rígidas regras cerimoniais do Vaticano, todo soberano católico deve ajoelhar-se ao pé do papa e beijar seu dedão. Benito Mussolini, porém, é radicalmente contra o ósculo, preferindo o tradicional aperto de mão entre dois chefes de estado. Fontes ligadas ao príncipe Umberto garantem que este prefere o cumprimento da formalidade. Este beijo ainda dará muito o que falar.
VEJA, outubro de 1929

Revista Veja História

África: culturas e sociedades (parte 4 - final)

Marta Heloisa Leuba Salum (Lisy)

África: cultura material, filosofia e religião

Antes de mais nada, devemos lembrar que a dissociação entre Religião e outras esferas da Cultura existente no Ocidente, e na Modernidade, não faz parte da natureza da Humanidade. E, como vimos, as sociedades da África pertencem a complexos culturais muito antigos, reciclando valores arraigados pela Tradição, caracterizando-se por uma maneira de produzir bens espirituais e materiais de acordo com sua história e com o meio ambiente onde se formaram.

Para compreendermos os sistemas de pensamento e de crenças das sociedades africanas, devemos ter sempre em mente a dinâmica tradição-modernidade, e, como fizemos com respeito à arte, relativizar o que pertenceu ao passado e o que, e sob que forma, permanece no presente.

Cada cultura africana tinha, antes da ruptura social, sua forma de conceber o mundo, de explicar suas origens e de formular o que lhes convêm, conforme mostram os mitos e lendas, bem como o discurso das pessoas mais antigas, que viveram antes ou durante a situação colonial. Isso demonstra a grande diversidade cultural no continente, correspondente à diversidade de formas e estilos na arte tradicional.

Apesar disso, no plano filosófico, podemos assinalar um aspecto que dá unidade aos povos da África tradicional: o indivíduo é considerado vivo porque tem um ascendente (é filho, neto de alguém), e quem vai lhe garantir a finalidade e memória de sua vida e existência é a perspectiva de seu descendente (seu futuro filho e neto). Portanto a noção de morte está concretamente ligada à de vida : morrer significa não procriar. Sem filhos, a linhagem familiar se extingue - vida e morte não são apenas biológicas, mas sociais principalmente. A existência do indivíduo se traduz através do seu ser-estar (o que implica em tempo e espaço ou lugar) no mundo, através do cotidiano, no trabalho ou no lazer, sempre conectado ao universo social, cósmico, natural e sobrenatural ao mesmo tempo, sendo impossível separar o que é concreto e espiritual, ou determinar o que é sagrado ou profano, na vida desses povos.

Nesse contexto, o exercício da existência volta-se para questões que vão além do poder econômico, o que não exclui a preocupação social e individual com o status (disputado e atribuído a indivíduos de prestígio como sábios e dirigentes), já que ele é uma das chaves para que o grupo tenha uma estrutura para permanecer unido e forte visando ao advento de futuras gerações.

Daí, a profusão de imagens antropomórficas esculpidas a que se chama de "ancestrais", já que normalmente, mas nem sempre como se divulga através de publicações, eram relacionadas, e usadas, no culto de antepassados. Os chamados "fetiches", aí colocados em oposição aos "ancestrais", são objetos, esculpidos ou não, constituídos de vários materiais agregados. O conceito de fetiche é discutível, pois, significando "coisa feita", é relacionado sempre à magia e a feitiçaria num sentido distorcido.


FIGURA 8: Estatueta "buti", do tipo chamada de "fetiche", arte teke, Republica Democrática do Congo, acervo MAE-USP.

Na verdade, os materiais dos "fetiches" entre os quais são também classificadas estatuetas dos Bateke (FIG 8, acima) - simbolizam partes dos mundos animal, vegetal e mineral, aludindo uma idéia de totalidade construída pelos africanos, baseada em seu conhecimento sobre as forças da Natureza (muitas vezes relacionados à cura medicinal) e do Cosmo. Isso explica porque muitas das estatuetas chamadas de "fetiches", em contrapartida, tinham relações diretas com o culto de antepassados, fundado na idéia de acúmulo de forças através de gerações sucessivas e da apropriação do território.

Outras duas características nos sistemas filosófico e de crenças das sociedades africanas tradicionais é a consciência de periodicidade e infinitude, isto é, a idéia de que o descendente vem do ascendente e a idéia, que vem em decorrência disso, de que o passado está intimamente ligado ao futuro, passando pelo presente.

Um indivíduo vivendo em sociedade em um determinado período histórico supõe a existência de outro ou outros indivíduos (filho, neto, bisneto, etc) em períodos subsequentes, graças à existência daqueles que vieram antes dele, e criaram regras para que seus contemporâneos e conterrâneos pudessem seguir vivendo, articulando-se conforme as condições de sobrevivência. Há um provérbio de origem africana em que podemos constatar essa característica de infinitude, de que a vida é infinita: "uma vez que é dia, depois noite, qual será o fim deles?".

Esse tipo de pensamento comporta uma perspectiva dinâmica que não corresponde à idéia de que esses povos não teriam história antes dos europeus chegarem, e que eles viviam sempre do mesmo modo que seus avós e bisavós. Outro provérbio africano nos permite constatar essa característica de periodicidade, de que a vida é periódica - e histórica: "as coisas de amanhã estão na conversação das pessoas de amanhã".

Vemos aqui uma preocupação em regrar o que acontece no presente, o que é uma responsabilidade dos que vivem para garantir a existência do futuro, e que não há nada de estático nisso, ao contrário, há uma previsão de mudança, uma consciência de que há um dinamismo na vida, na existência, não apenas por modificações ambientais naturais, mas também modificações técnicas e filosóficas determinadas pela sucessão de gerações.

Desse modo, os africanos preservavam regras de sua Cultura, modificando-as quando necessário, sem precisar de outras normas vindas de fora, coisa que os Europeus não podiam entender, pois eles se consideravam superiores a todos os povos não-europeus.

Esse sentimento de superioridade vem da constatação da diferença. Na visão judaico-cristã, por exemplo, os africanos foram tidos como povos animistas, isto é, aqueles que atribuem vida às coisas e seres inanimados, e acreditando que plantas e animais são dotados de "alma", sendo portanto capazes de agir como seres humanos. Isso não é verdade e deturpa as formas autênticas de concepção do mundo dos africanos, colocando-os como inferiores, ou "primitivos".

O que ocorre, na verdade, é que na África tradicional a concepção de mundo é uma concepção de relação de forças naturais, sobrenaturais, humanas e cósmicas. Tudo que está presente para o Homem tem uma força relativa à força humana, que é o princípio da "força vital", ou do axé - expressão ioruba usada no Brasil. As árvores, as pedras, as montanhas, os astros e planetas, exercem influência sobre a Terra e a vida dos humanos, e vice-versa. Enquanto os europeus queriam dominar as coisas indiscriminadamente, os africanos davam importância a elas, pois tinham consciência de que elas faziam parte de um ecossistema necessário à sua própria sobrevivência. As preces e orações feitas a uma árvore, antes dela ser derrubada, era uma atitude simbólica de respeito à existência daquela árvore, e não a manifestação de uma crença de que ela tinha um espírito como dos humanos. Ainda que se diga de um "espírito da árvore", trata-se de uma força da Natureza, própria dos vegetais, e mais especificamente das árvores. Assim, os humanos e os animais, os vegetais e os minerais enquadravam-se dentro de uma hierarquia de forças, necessária à Vida, passíveis de serem manipuladas apenas pelo Homem. Isso, aliás, contrasta com a idéia de que os povos africanos mantinham-se sujeitos às forças naturais, e, portanto, sem cultura. Os povos da África tradicional admitem a existência de forças desconhecidas, que os europeus chamaram de mágicas, num sentido pejorativo. Mas a "mágica", entre os africanos, era, na verdade, uma forma inteligente - de conhecimento - de se lidar com as forças da Natureza e do Cosmo, integrando parte de suas ciências e sobretudo sua Medicina.

Esses elementos filosóficos podem ser vistos expressados graficamente nas decorações de superfície de esculturas, na tecelagem e no trançado, e na própria arquitetura, através de figuras geométricas (zigue-zagues, linhas onduladas, espirais - contínuas e infinitas), de figuras zoomorfas (cobras, lagartos, tartarugas - que, além de sua forma, estão associadas à idéia de vitalidade e longevidade).

Trata-se de uma linguagem gráfica simbólica, equivalente a da figura antropomórfica em estátuas e estatuetas, onde se ressaltam cabeça, mãos e pés, seios, ventre, orgãos sexuais (todos considerados, de um modo geral, centros de força vitais). Elas expressam, do mesmo modo que os grafismos, aspectos relacionados ao tema da reprodução humana e à capacidade de produção do conhecimento necessário à perpetuação da espécie humana, mesmo que individualmente, venham a desempenhar funções e a expressar significados específicas(FIG 9).


FIGURA 9: Estatueta "akua-ba", arte ashanti, Gana, acervo MAE-USP

Temas como a fertilidade da mulher e fecundidade dos campos são freqüentes e quase que indissociáveis na expressão artística, estabelecendo a relação entre a abundância de alimento e a multiplicação da prole, um fator concreto em sociedades agrárias. O tema do duplo remete à relação de fatores complementares ou antagônicos (dia-noite, homem-mulher). Todas essas formas gráficas e representativas são um recurso para apresentar, sob forma material, um conjunto de idéias sobre a existência concebida visando ao equilíbrio e à perpetuação biológica e espiritual do grupo social.

Dizem que os africanos não tinham Deus, ou que tinham vários deuses, o que não parece ser muito preciso. Em quase todas as populações da África foram registrados depoimentos da criação do mundo, em que existe apenas um único "Deus". Trata-se de uma força primordial, um Criador que criou o Mundo e os Homens, colocou-os na Terra, e deixou-os ao seu Destino (FIG 10).


FIGURA 10: Topo de máscara, arte senufo, Costa do Marfim, acervo MAE-USP.

Essas histórias de origem podem ser chamadas de mitos porque se trata de seres não conhecidos em vida (que estão na memória coletiva), sendo por isso míticos, sem que se caia no erro de desconsiderá-los, como fizeram os ocidentais, como idéias sem valor científico e histórico. Tais mitos de origem comportam freqüentemente o relato de pares primordiais, de gêmeos ou duplas, que vieram para cultivar e povoar o mundo, e, muitas vezes, seres zoo-antropomorfos que, dotados da tecnologia (instrumentos agrários ou de caça), vieram para ensinar os Homens a produzir e obter alimento, para se multiplicarem, zelando, eles - os Homens -, pela sua própria permanência em vida.

Uma das diferenças dessas idéias com relação às idéias de mundo cristãs é a consciência de que cada ser que está presente no mundo tem seu papel, e que a força dos Homens é humana, e não divina. Daí a necessidade de uma relação constante com os antepassados, visando às futuras gerações. Esse pode ser apontado como um significado substantivo das várias formas de culto de ancestrais.

É por isso que a vida dos povos africanos é tida como muito mais ritualizada que no mundo cristão. O mundo material e o espiritual são concebidos juntos, quase que inseparáveis, o que implica em modelos de culto e religião completamente diferentes do que se adotou no Ocidente, que por sua vez serviu de modelo para outros povos formados na modernidade, como é o caso brasileiro.

Os Candomblés (são várias as formas como essa religião brasileira de origem africana se apresenta) conservam formas de culto muito próximas às de cultos tradicionais da África ocidental (sobretudo dos Fon e dos Ioruba), adotando emblemas, nomes e outras características de suas divindades (e, às vezes, das divindades dos povos de línguas bantu, ou dos chamados Bantos, da África central), bem como a hierarquia de poder iniciático (FIG 11 a 13).


FIGURA 11: Colar de babalaô, arte nagô, República Popular do Benim, acervo MAE-USP

FIGURA 12: Estátua de Iemanjá, arte afro-brasileira, Salvador/Brasil, acervo MAE-USP


FIGURA 13: Opaxorô, arte afro-brasileira, Salvador/Brasil, acervo MAE-USP.

Mas, numa aproximação ainda que a grosso modo, eles teriam uma estrutura de panteão, como a das religiões grega e cristã. Isso quer dizer que existe um Criador e uma porção de outras divindades articuladas em camadas subalternas. Os cultos tradicionais da África, por sua vez, voltavam-se, em linhas gerais, aos antepassados ou a divindades da Natureza. Neste último caso, poderia ser enquadrado o Culto de Orixás - apelação dada às divindades de origem ioruba ou nagô (os voduns, inquices e caboclos são divindades de povos africanos de outras origens) -, em que se baseiam a maioria dos candomblés, muito embora muitas dessas divindades celebram chefes políticos sacralizados, com uma qualidade divina, de uma localidade (ou reino) determinado, onde são considerados como antepassados.

Para concluir, grande parte da escultura antropomórfica seja da África ocidental, seja da central, é uma "presentificação" desses personagens míticos ou mesmo conhecidos em vida - antepassados fundadores de territórios, chefes de linhagem ou chefes eleitos renomados por feitos realizados durante seus governos. Em peças desse tipo transparece a grande relação entre política e religião, motivo pelo qual estátuas, bustos e cabeças, tendo uma força acumulada de vários níveis, não podiam ser vistas por todas as pessoas, se não os altos iniciados nos cultos, ou seja, aqueles que tinham status social e religioso, sendo que em muitas sociedades, o chefe político era também o sacerdote supremo.

E, neste final, resta a contradição: grande parte da arte africana, que tanto nos mobiliza o olhar pelo impacto estético, era feita, antes de ser tirada de seu contexto, para não ser vista, a menos que houvesse uma ocasião precisa para isso. Está aí está a demonstração da grandeza e do poder de uma cultura material, depositária não de segredos, mas de fundamentos, a serviço da história e cultura dos povos africanos, que dentro e fora de seu território original, continuam sua existência, formando novos valores, como acontece entre nós, no Brasil.

Bibliografia

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VERGER, P. Orixás : deuses iorubás na África e no Novo Mundo. São Paulo: Currupio; Círculo do Livro, 1985.

Arte Africana - USP

África: culturas e sociedades (parte 3)

Marta Heloísa Leuba Salum (Lisy)
África: cultura material e arte africana


As artes plásticas da África que vemos nos livros e coleções são produtos desenvolvidos ao longo de séculos. Sejam esculpidos, fundidos, modelados, pintados, trançados ou tecidos, os objetos da África nos mostram a diversidade de técnicas artísticas que eram usadas nesse continente imenso, e nos dão a dimensão da quantidade de estilos criados pelos povos africanos.

Tais estilos são a marca da origem dos objetos, isto é, cada estilo ou grupo de estilos corresponde a um produtor (sociedade, ateliê, artista) e localidade (região, reino, aldeia). Mesmo assim, devemos lembrar que os grupos sociais não podem ser considerados no seu isolamento, e, portanto, é natural que a estética de cada sociedade africana compreenda elementos de contato. Além disso, cada objeto é apenas uma parte da manifestação estética a que pertence, constituída por um conjunto de atitudes (gestos, palavras), danças e músicas. Isso pode determinar as diferenças entre a arte de um grupo e de outro, tendo-se em vista também o lugar e a época ou período em que o objeto estético-artístico era visto ou usado, de acordo com a sua função.

Portanto, a primeira coisa a reter é que, na África, cada estátua, cada máscara, tinha uma função estabelecida, e não eram expostas em vitrines, nem em conjunto, nem separadamente, como vemos dos museus. Outra coisa deve ser lembrada: a arte africana é um termo criado por estrangeiros na interpretação da cultura material estética dos povos africanos tradicionais, diferente das artes plásticas da África contemporânea que se integram, como as nossas, brasileiras e atuais, no circuito internacional das exposições.

Se hoje ainda há uma produção similar aos objetos tradicionais, ela deve-se no maior das vezes às demandas de um mercado turístico, motivado pela curiosidade e exotismo.

Com referência aos objetos muito semelhantes aos tradicionais ainda em uso em rituais religiosos ou festas populares há, assim como no Brasil, na África atual, uma cultura material, que, apesar de sua qualidade estética, é considerada, também pelos africanos de hoje, "religiosa" ou "popular" nos moldes ocidentais, onde o antigo e moderno são historicamente discerníveis. Isso não quer dizer, no entanto, que, através de conteúdos e símbolos, a arte africana atual não esteja impregnada do tradicional, ainda que se manifestando em novas formas. Ao contrário, as especificidades da estética tradicional africana é visível também, nos dias atuais, nas produções artísticas dos países de fora da África, principalmente daqueles, como o Brasil, cuja população e cultura foram formadas por grandes contingentes africanos.

Mas aqui, neste texto, estaremos tratando sempre dessas produções realizadas pelos africanos antes da ruptura entre tradição e modernidade. Daqui para frente, devemos relativizar o uso do tempo verbal, e lembrar que a expressão arte africana é, queiramos ou não, um reducionismo inventado por estrangeiros, mas que está cristalizada entre nós, relativa a toda produção material estética da África produzida antes e durante a colonização, até meados do século XX, trazida à Europa por viajantes, missionários e administradores coloniais.

Não seria difícil encontrarmos nessa arte africana alguns elementos de aproximação com os de correntes da arte ocidental, do naturalismo ao abstracionismo. Mas esse tipo de comparação não é capaz de nos desvendar o verdadeiro sentido da arte africana tradicional, porque esta não foi feita para ser realista ou cubista, isto é, ela não era um exercício de reflexão sobre a forma, ou sobre a matéria, como nas artes plásticas entre nós. Apesar disso, podemos identificar na arte africana os elementos que permitiram a artistas, como Picasso, a revolucionar a arte ocidental.

O cubismo, portanto, é uma invenção intelectual dos europeus, que nada tem a ver com a intenção dos africanos: enquanto no cubismo a representação do objeto se dá de diversos pontos de vista, em diversas de suas dimensões formais ao mesmo tempo, a estética africana busca, ao contrário, uma síntese do objeto ou do tema construído materialmente, plena de objetivo, inspiração e conteúdo.

Uma estátua não representa, normalmente, um Homem, mas um Ser Humano integral, que tem uma parte física e espiritual - do passado e do futuro. Tem, por isso, um lado sagrado, ligado às forças da Natureza e do Universo. Uma máscara ou uma estátua concentram forças inerentes do próprio material de que são constituídas, ou que comportam em seu interior ou superfície, além de sua própria força estética. Elas não têm, portanto, uma função meramente formal.

Ainda assim, podemos observar que algumas produções são mais realistas ou mais geométricas. O realismo ocorre com frequência nas estátuas, talvez por seu caráter representativo (de uma figura humana, da imagem onírica de um antepassado), enquanto que o geometrismo aparece muito nas máscaras, principalmente naquelas que representam espíritos e seres sobrenaturais, melhor dizendo, o desconhecido (mas existente no plano consciente e inconsciente). Mesmo assim, nada disso permite dizer ou não é isso que determina haver uma linha divisória clara entre uma forma e outra, ou um estilo e outro.

Mas podemos distinguir uma arte produzida na África ocidental e a produzida na África central. E dentro dessas grandes áreas geográficas, podemos distinguir estilos seja pelos detalhes, seja pelo tema ou tipo do objeto produzido. Por exemplo, as produções artísticas dos Dogon e Bambara são muito distintas embora situadas, por alguns autores, dentro de uma mesma faixa estilística (chamada de "sudanesa"), já que elas apresentam uma certa continuidade formal ou temática, além do fato de que tais sociedades ocupam territórios contíguos permeados por identidades históricas, geográficas e ambientais. No entanto, as portas de celeiro são renomadas entre os Dogon (FIG 4 ), e o tema do antílope é mais reconhecido, embora não exclusivo, na arte Bambara (FIG 5).

FIGURA 4: Porta de celeiro, arte dogon, Mali, acervo MAE-USP


FIGURA 5: Topo de máscara "tyi-wara", arte bambara, Mali, acervo MAE- USP

Esse tipo de objeto (porta de celeiro) e esse tema (antílope) celebram a arte dos Dogon e dos Bambara respectivamente não apenas porque foram encontrados em abundância entre eles, mas também porque são considerados por esses povos como signos específicos de sua cultura em circunstâncias dadas na sua tradição oral.

É oportuno lembrar que a distinção entre os estilos só pode ser determinada por uma série de estudos interdisciplinares que apoiam a análise morfo-estilística. Entre essas disciplinas estão a arqueologia e etno-história, que, apesar de suas especificidades, estão intimamente ligadas à etnografia e à Antropologia.

Os procedimentos técnicos e a matéria-prima usados na produção material podem "falar" muito sobre o estilo, assim como sobre o meio ambiente em que determinadas sociedades vivem. A madeira era muito usad-a nas regiões de floresta. É por isso que a estatuária africana está concentrada na chamada África ocidental e na África central, regiões onde predominava a floresta equatorial e tropical, e onde se conservam apenas partes dela hoje em dia.

O uso do metal, embora tenha sido corrente em todo o continente, caracterizou as produções artísticas da savana, onde floresceram grandes reinos, tanto na África ocidental quanto na central, onde a arte era fundamentalmente ligada à organização social e política, a serviço de mandatários, através de ateliês oficiais - caso da chamada "arte de côrte" de Ifé e Benin (já ilustrada acima) ou da escultura da associação Ogboni fieta pelo sofisticado processo de fundição pela cera perdida (FIG 6).


FIGURA 6: Ilustração das etapas da fundição de um par de "edan" pela técnica da cera perdida, arte ogboni/ioruba, Nigéria, acervo MAE-USP.




Junto a essas produções de metal devemos mencionar a escultura em marfim, renomada não apenas entre povos do Golfo da Guiné e do Benin (como os ioruba) mas também entre os da embocadura do Rio Congo (como os Bakongo), que desde o século XV era requerida pelos "gabinetes de curiosidade" da Europa (veja acima ou CLICANDO AQUI). Bruto ou trabalhado, o marfim, assim como o cobre, era considerado precioso em todas as sociedades africanas, desde muito antes do tráfico (desde a antiguidade, pelo Vale do Nilo e pelo Saara), mas é certo que o contato com o mundo ocidental, desde o Renascimento europeu, promoveu um desenvolvimento de uma arte africana em marfim já voltada para o comércio e turismo como a da atualidade.

Outras artes, como a cerâmica, cestaria, adornos corporais, eram feitas tradicionalmente por todas as sociedades, respondendo às necessidades cotidianas e rituais, sendo que podemos destacar algumas em que essas técnicas eram mais usadas do que a escultura, de acordo com o modelo de organização social e as formas de expressão estética. Nesses casos, os recursos gráficos eram mais aplicados do que os recursos representativos da escultura. Aqui podem ser compreendidos, particularmente, os produtos de sociedades situadas em regiões semi-áridas, que, em busca periódica de novos territórios, não podiam transportar com facilidade bens móveis de grande porte. Mas às vezes esses modelos de análise se mostram arbitrários, pois a arte decorativa pode imperar também onde as figurativas e realistas são muito destacadas, e onde a produção estética está voltada à legitimação de um poder monárquico e centralizado como dos Bakuba (FIG 7), e que também comporta uma importante estatuária conforme ilustrado acima.


FIGURA 7: Montagem de objetos utilitários com decoração típica, arte kuba, Republica Democrática do Congo, acervo MAE-USP.
Assim, o material nem sempre era usado por sua abundância ecológica e a escolha do material não era arbitrária: como o objeto que iria ser produzido, o material tinha um valor simbólico em cada centro de produção. Algumas máscaras e estátuas deveriam ser esculpidas em madeira de árvores determinadas; a confecção de adornos implicava no uso de determinadas fibras e sementes, e, em alguns casos, de tipos diferentes de contas, se não de um tipo de liga metálica, de marfim e outros materiais de origem inorgânica e animal. Certos detalhes morfológicos dos objetos, como a posição, o tamanho, a distribuição de cores, entre outros, são características diferenciais do estilo com que cada sociedade representa uma forma e um tema. Mas existe uma série de características culturais comuns entre os povos da África e diversas das de sociedades de outros continentes que permeiam suas artes tradicionais de uma forma singular: seus sistemas de pensamento e de crenças.

Arte Africana - USP