quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

BLOGS DA SEMANA

Este selo é seu



Parabéns

Deusas do cotidiano


Deusas do cotidiano
Donas da insustentável leveza do ser, as infantes guerreiras enfrentam a lei da gravidade. Permanecem de pé ante aos dragões comedores de sonhos que escondem na gravidade da lei. Das trincheiras do ninho enfrentam moinhos de mós afiadas para protegerem a pança dos pequeninos

Sérgio Vaz

“De todos os hinos entoados em louvor às revoluções nos campos de batalhas, nenhum, por mais belo que seja, tem a força das canções de ninar cantada no colo das mães”

O nome dessas mulheres eu não sei, não lembro e nem preciso saber. São nomes comuns, em meio a tantos outros espalhados por esse chão duro chamado Brasil.

Mas a maioria delas eu conheço bem, são donas de um mesmo destino: as miseráveis que roubam remédios para aliviar as angústias dos filhos. É quando a pobreza não é dor, é angústia também. São as ladras de Victor Hugo.

Donas da insustentável leveza do ser, as infantes guerreiras enfrentam a lei da gravidade. Permanecem de pé ante aos dragões comedores de sonhos que escondem na gravidade da lei. Das trincheiras do ninho enfrentam moinhos de mós afiadas para protegerem a pança dos pequeninos. São as Quixotes de Miguel de Cervantes.

Místicas, não raro, estão sempre nuas em sentimentos. Quando precisam, cruas, esmolam com o corpo, e se postam à espera do punhal do prazer que cravam no seu ventre.

É quando o prazer humilha. São as habitantes do inferno de Dante. Rainhas de castelos de madeiras, sustentam os filhos como príncipes, e os protegem da fome, do frio, e da vida dura e cruel que insiste em bater na porta das mulheres de panela vazia.Quanto aos reis, também são os mesmos: os covardes dos vinhos da ira.

Mágicas, esses anjos se transformam em rochas, quando a vida pede grão de areia.

Em flores quando rastejam e espinhos quando protegem.

Essas mulheres são aquelas que limpam tapetes, mas não admitem serem pisadas.

São domésticas, mas não admitem serem domesticadas.

Sim, são as deusas do dia a dia.
(10/03/2009)

Le Monde Diplomatique

A leitura na vida e na morte do Che


A leitura na vida e na morte do Che
Para Guevara, a leitura foi como um filtro que lhe permitiu dar sentimento à experiência. Um espelho que a definia, dava-lhe forma. Além disso, a leitura serviu como metáfora da diferença entre sua vida política e a pessoal, permanecendo como um resto do passado, em meio à experiência da ação pura, do desprovimento e da violência
Tiago Nery

No poema Lisboa revisitada, Fernando Pessoa escreveu: “(...) só és lembrado em duas datas, aniversariamente: quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste (..)”. Ernesto Che Guevara parece uma dessas pessoas que só são lembradas no aniversário de sua morte. Com freqüência, exalta-se a figura do herói-mártir do voluntarismo revolucionário, do guerrilheiro heróico. No último dia 14 de junho, Guevara completaria 80 anos. Mais uma vez, as poucas referências ao seu aniversário natalício não mencionaram outras dimensões da vida deste ser profundamente complexo e humano.

Guevara passou por várias metamorfoses ao longo da vida, e essas mutações bruscas foram a marca de sua personalidade. Teve muitas vidas simultâneas – a do viajante, a do médico, a do aventureiro, a do crítico social - que se condensaram e se cristalizaram, por fim, em sua experiência de condottiere, como gostava denominar-se. No entanto, pouco se escreveu sobre a paixão que tinha pela leitura, que remonta à sua infância, e que o acompanharia até seu assassinato na Bolívia.

De acordo com o próprio Guevara, seu interesse pela leitura começou ao tentar ocupar-se durante os ataques de asma, quando seus pais o obrigavam a ficar em casa, fazendo inalações prescritas por eles. Devido às crises, a mãe ensinou-o a ler, pois muitas vezes ele não pôde ir à escola. A partir de então, Guevara se transformou num leitor voraz. Alberto Granado, o amigo que o acompanhou na viagem pela América do Sul, ficou intrigado quando descobriu que o jovem Ernesto “já estava lendo Freud, gostava da poesia de Baudelaire e lera Dumas, Verlaine e Mallarmé em seu idioma original, bem como a maioria dos livros de Émile Zola, os clássicos argentinos, como o épico Facundo de Sarmiento, e as mais recentes obras de William Faulkner e Jonh Steinbeck”. [1]

Ao longo de sua trajetória, Guevara procurou unir a leitura à vida. Como leitor, buscava completar o sentido de sua vida por meio de imagens extraídas das leituras que fazia. Assim, viveu a partir de certos modelos de experiência que leu e procurou repetir e realizar; encontrou em cenas lidas um modelo ético de conduta, a forma pura da experiência. Cortázar escreveu um conto, sobre uma passagem na sua vida, em que el Che, ferido, pensando que está à morte, lembra-se de um relato que leu. Assim escreveu em Passagens da guerra revolucionária: “Na mesma hora comecei a pensar na melhor maneira de morrer, naquele minuto em que tudo parecia perdido. Lembrei-me de um velho conto de Jack London, em que o protagonista, apoiado no tronco de uma árvore, toma a decisão de acabar a vida com dignidade, ao saber-se condenado à morte, por congelamento, nas regiões geladas do Alasca. É a única imagem de que me lembro”.

A vida de Guevara foi marcada pela constante tensão entre o ato de ler e a ação política: a leitura, na figura sedentária do leitor e prática, do guerrilheiro que avança. Mais que paixão, a leitura era para ele uma dependência. “Minhas duas fraquezas fundamentais: o fumo e a leitura”. E leitura feita em situações de perigo, em situações extremas, fora de lugar, em circunstâncias de desorientação, de ameaça, de morte. A leitura opondo-se a um mundo hostil, como restos ou lembranças de outra vida. No excelente ensaio Ernesto Guevara, rastros de leitura, o escritor Ricardo Piglia define esses momentos do guerrilheiro nos intervalos da marcha contínua: “essas cenas de leitura seriam o vestígio de uma prática social. Trata-se de uma pegada - um tanto borrada -, de um uso do sentido que remete às relações entre os livros e a vida, entre as armas e as letras, entre a leitura e a realidade". [2]

Existem duas fotos extraordinárias da revolução cubana. Numa Che lia uma biografia de Goethe num acampamento guerrilheiro. A outra captou o momento em que lia na Bolívia, em cima de uma árvore, em meio à desolação e à experiência terrível. Trata-se de Guevara como o último leitor
Para Guevara, a leitura foi como um filtro que lhe permitiu dar sentimento à experiência. Um espelho que a definia, dava-lhe forma. Além disso, a leitura serviu como metáfora da diferença entre sua vida política e a pessoal, permanecendo como um resto do passado, em meio à experiência da ação pura, do desprovimento e da violência. Isso já era percebido no período da luta em Cuba. Em um testemunho sobre a experiência da guerra de libertação cubana, alguém afirma, referindo-se ao Che: “leitor incansável, abria um livro quando fazíamos uma parada, ao passo que nós, mortos de cansaço, fechávamos os olhos e tratávamos de dormir”. Há uma foto conhecida dessa época, em que lia uma biografia de Goethe num acampamento guerrilheiro. Outra foto extraordinária, captou o momento em que lia na Bolívia, em cima de uma árvore, em meio à desolação e à experiência terrível. Trata-se de Guevara como o último leitor.

Ademais, costumava registrar em seu diário a experiência pessoal e a coletiva a qual estava inserido inteiramente. Escrevendo, Guevara fixou a experiência em si, o que permitiria em seguida ler sua própria vida como se fosse a de outro, e reescrevê-la. No entanto, o Diário da Bolívia é excepcional, por não ter sido reescrito.

Na marcha da história, o leitor sobrevive em Guevara, sob o eterno conflito entre ação do ser político e a leitura do ser isolado, sedentário, reflexivo. Há um relato sobre o primeiro combate da guerrilha boliviana em que estava lendo estendido em sua rede, enquanto esperava o momento exato do início à emboscada. Ainda no país andino, quando por fim é capturado, no dia 8 de outubro de 1967, Che, sem forças, carregava seus livros, dos quais não abriu mão, enquanto todos os outros já se haviam desfeito daquele peso supérfluo.

Nos momentos finais de vida, uniram-se o Che leitor e o Che político, talvez porque estiveram juntos desde o início. Enquanto estava preso na escolinha de La Higuera, aguardando ser assassinado, Julia Cortés, professora e única a assumir uma atitude solidária com Ernesto, foi levar-lhe de casa um prato de comida. Quando entrou na sala, encontrou o Che jogado no chão, ferido. Então – e estas seriam suas últimas palavras - Guevara mostrou-lhe uma frase escrita na lousa e disse que a mesma não estava correta; com enfática perfeição, falou: “falta o acento”. A frase era “yo sé leer” (‘eu sei ler’). Por uma dessas ironias do destino, como um oráculo, uma cristalização quase perfeita, a frase que Guevara corrigiu tinha a ver com leitura.

Como afirma Ricardo Piglia, Guevara “morreu com dignidade, como o personagem de Jack London”. Morre o homem. Ficam suas idéias, sua determinação, seu exemplo.
(13/11/2008)

[1] ANDERSON, JL. Che Guevara: uma biografia. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.

[2] PIGLIA, R. O último leitor. São Paulo: Companhia das Letras, 2006

Le Monde Diplomatique

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Bárbaros antigos ou modernos? (parte 1)


Bárbaros antigos ou modernos?
Michel Silva
Graduando de História – UDESC
michelgsilva@yahoo.com.br


Resumo: Pretende-se neste artigo analisar a construção do discurso sobre os persas – chamados “bárbaros” pelos gregos – no filme 300. Partindo da idéia e “orientalismo”, de Edward Said, procuraremos demonstrar os aspectos anacrônicos da representação que o filme faz dos bárbaros, expressando aspectos políticos contemporâneos, estranhos aos gregos antigos.
Palavras-chave: Batalha nas Termópilas; bárbaros; orientalismo; Pérsia.

Introdução
De tempos em tempos surgem nos cinemas filmes que ocupam a agenda daqueles que se dedicam à História; dentre esses filmes, um dos mais recentes é 300, baseado nos quadrinhos de Frank Miller. Em função do seu conteúdo ideológico, é um dos filmes mais atuais que passaram pelas salas de cinema nos últimos tempos, embora pretenda narrar fatos ocorridos milênios atrás. Esse filme, que aparentemente mostra apenas uma batalha entre persas e gregos na Antigüidade, tem como tema central uma suposta guerra entre Ocidente e Oriente, “civilizados” e “bárbaros”, Oeste e Leste, “nós” e “eles”. Dessa suposta luta de razão e democracia contra misticismo e tirania, acabam surgindo mártires, lembrados como exemplo de grande bravura.
No filme 300 é narrada a batalha ocorrida no desfiladeiro das Termópilas, em agosto de 480 a.C., no contexto da segunda guerra Médica. Nessa batalha trezentos espartanos, sob o comando do rei Leônidas, e cerca de sete mil soldados de outras cidades helênicas enfrentaram tropas persas de cerca de duzentos mil homens liderados pelo “Grande Rei”, Xerxes. Embora tenham sido aniquiladas, as tropas gregas conseguiram impor grandes perdas ao exército persa, atrasando em vários dias seu avanço. Em setembro de 480 a.C. os gregos derrotaram os persas na batalha naval de Salamina e, um ano depois, em Plataia, as forças combinadas das cidades helenas derrotaram definitivamente as tropas de Xerxes.
Em excelente resenha, Delfino (2007, p 14-16) caracteriza 300 como “violento, caricatural, historicamente impreciso, que comete infidelidades em relação à obra original e que manifesta rasgos reacionários”. O autor chama a atenção para vários aspectos anacrônicos do filme, como a “defesa da justiça, da democracia e da razão”, que servem como argumento para justificar a resistência grega contra a invasão persa. Segundo Delfino, “nenhum desses conceitos nem sequer existia para os gregos, e muito menos para os espartanos, com o mesmo significado que nós lhes damos hoje”. Mesmo realizando essas análises, o autor termina corroborando o discurso ideológico central do filme ao afirmar ser um ato de resistência do rei Leônidas a recusa em se ajoelhar diante de Xerxes.

Outro comentarista, Bonalume Neto (2007, p. 48-9), que não partilha das mesmas posições progressistas do anterior, se refere aos espartanos como “heróis que morreram por uma causa nobre”. Para ele “a grande vencedora das guerras entre gregos e persas foi a civilização”, afinal “a Grécia é o berço do mundo moderno, de conceitos filosóficos importantes, da democracia”. Salienta que teria sido vazia a vitória grega “se não houvesse liberdade de expressão, democracia e respeito aos direitos humanos – os principais valores ocidentais”. Bonalume Neto reivindica simpatia pelas posições de um “sujeito conservador”, Victor Davis Hanson, para quem, caso os persas tivessem derrotado os gregos, teríamos “crônicas do estado em vez de história”, “orgulho da raça em vez de orgulho na cultura” e “uma rígida casta sacerdotal em vez de intelectuais livre-pensantes”.
No mesmo sentido vai a resenha de Marques (2007, p. 69), um historiador: “graças aos 300 de Esparta, que a guerra fez como deuses, os gregos continuariam a ser homens livres”.
Embora partam de pontos de vista diferentes, quiçá opostos, essas análises desconsideram ou corroboram o contexto ideológico do qual 300 é produto. Contada hoje pelo cinema, a batalha nas Termópilas se transforma na guerra entre o Ocidente “civilizado” e o Oriente “primitivo”; quem vence essa batalha é uma abstrata noção de liberdade, estranha aos gregos. No filme, a luta dos espartanos ganha conotação de luta contra um “mal” que quer destruir a “civilização”, destacando-se grandes heróis que dedicam suas vidas a lutar contra o despotismo e a irracionalidade.

Um Oriente imaginado
Em 300 e nos comentários escritos sobre ele percebe-se um “discurso sobre o Oriente” onde este é apresentado como “irracional”, “depravado” e “infantil”, em oposição a um Ocidente “racional”, “virtuoso” e “maduro”. O Ocidente é “normal”, enquanto o Oriente é “diferente”, terra de mistérios, de povos atrasados, dominada por “árabes maus, totalitários e terroristas” (SAID, 1990. p. 38). Esse discurso “orientalista”, construído de fora, cria não apenas um Oriente, mas o próprio oriental, fazendo uma “demonstração altamente artificial daquilo que um não-oriental transformou em um símbolo de todo o Oriente” (SAID, 1990. p. 38). Há uma relação de poder na qual um Ocidente “vencedor” busca a dominação econômica e política sobre o Oriente, criando imagens e vocabulários para expressar aquele “outro” e justificando essa dominação como um mecanismo para levar o “progresso” a esses povos.
Essa dominação se expressa também no cinema. Em sua análise sobre a década de 1970, marcada pelo impacto da resistência palestina contra o genocídio levado a cabo pelo Estado de Israel e da crise do petróleo provocada pelo boicote de países árabes, Said (1990, p. 291) afirma que no cinema e na televisão o árabe “é associado à libertinagem ou à desonestidade sedente de sangue (...) um degenerado super-sexuado (...) essencialmente sádico, traiçoeiro, baixo”, cujo chefe “muitas vezes é visto rosnando para o herói e a loira ocidentais capturados”. Nesses filmes “o árabe é sempre visto em grande número.
Nenhuma individualidade, nenhuma característica ou experiência pessoal. A maior parte das imagens apresenta massas enraivecidas ou miseráveis, ou gestos irracionais” (SAID, 1990, p. 291).
O filme 300 mostra Leônidas como um rei guiado pela razão, a ponto de não cumprir as ordens do Oráculo e dos sacerdotes que em Esparta faziam a ligação entre os humanos e as divindades. Para o rei espartano, as palavras de qualquer divindade não poderiam se sobrepor aos interesses do povo e à defesa da nação, e é em nome disso que decide organizar a defesa da Grécia e de Esparta. E nem sabia Leônidas que as palavras dos sacerdotes eram falsas, pois obedeciam a ordens de Xerxes em troca de dinheiro e de jovens para saciar seus desejos lascivos. Era dever dos sacerdotes convencer Leônidas a não organizar a resistência espartana à invasão persa, ou seja, convencê-lo a esperar que as tropas persas marchassem sobre as cidades com plenas condições de massacrar qualquer um que se colocasse em seu caminho. No filme, Leônidas rompe com o misticismo ao não dar ouvidos ao corpo de sacerdotes, sendo guiado pelas idéias de liberdade e democracia, que não são divinas, mas construções humanas. O filme mostra ainda que uma casta de sacerdotes isolados do conjunto da população torna-se apenas um grupo de farsantes, a ponto de se corromperem pelo dinheiro do inimigo. Com isso, 300 opõe os dogmas religiosos à defesa da “vida”, da “nação” e do “povo”.
Os persas em 300 são associados ao misticismo e à luxúria. Não são guiados pela razão, mas pela adoração cega a um rei que tenta parecer um deus, embora se dedique a enganar a todos. Trapaceiros e covardes, os persas utilizam suas misteriosas magias no campo de batalha quando as armas convencionais não conseguem derrotar o inimigo. Nesse mundo mágico e sem regras moram seres lascivos, que vivem de sexo e luxo, se entregando a prazeres sem quaisquer compromissos. No filme, o mundo dos persas está cheio de “tentações”, onde tudo é possível, onde há mulheres, comida e bebida em abundância. Do outro lado há Leônidas, que não leva uma vida de exageros, que ama e é fiel à sua esposa.
Esta, mesmo cortejada, não trai o marido; aceita o estupro para salvar o exército espartano da morte. Quem a estupra, tentando também humilhá-la e acusá-la de adultério publicamente, é um outro mercenário que recebia gordas quantias de moedas marcadas com a face de Xerxes.
O mundo dos persas descrito em 300 é povoado por criaturas fantásticas, grandes monstros e homens deformados usados como arma no campo de batalha, ligados a imagens repugnantes, feias, deformadas; nesse mundo cabe com naturalidade figuras bizarras que hoje nós associamos a lugares distantes e fantásticos. Em função deste vínculo com coisas repugnantes, um mercenário espartano, Ephialtes, negado ao exército de sua cidade pela deformidade do corpo, é recebido de braços abertos no mundo feio e de magias persa. Em oposição a essa caracterização dos persas, há os homens fortes e robustos de Esparta,
lutadores que não baixam sua cabeça e conseguem erguer sua arma para proteger o irmão ao lado. Esses homens fortes e belos são educados para nunca desistir e nunca se humilhar aos pés de quem quer que seja. Já entre os persas, Xerxes diz, a Ephialtes: “Leônidas te pede que se erga. Eu peço apenas que se ajoelhe”. Xerxes é o rei que quer estar acima de todos, um déspota sanguinário que não poupa esforços, nem que seja preciso apelar à magia e à traição, para derrotar seu inimigo. Leônidas é o rei que busca animar seu exército, fazer seus homens se sentirem confiantes, e não pede que se humilhem a seus pés. É apresentado no filme como um homem exemplar, um grande herói, que mata muitas pessoas em defesa de princípios universais e positivos.

História - Imagens e Narrativas

A busca de Odisseu: sociedade e moral na Grécia Antiga sob o olhar de Homero na Odisséia



Charles Sidarta Machado Domingos
Mestrando em História UFRGS/ PPGHIST
csmd@terra.com.br

Introdução
A Odisséia é considerada uma das maiores obras da literatura ocidental de todos os tempos. Talvez a mais antiga, inclusive. Provavelmente escrita no século VII A.C. por um homem chamado Homero. Mas a autoria do poema tem gerado, ao longo dos anos, muitas discussões.
A Odisséia conta o retorno de Odisseu, rei de Ítaca, para sua ilha após os confrontos em Tróia. E todas suas desventuras no trajeto de volta. Para conseguir voltar a sua terra ele passa por várias situações aventurescas, enfrentando cíclopes, sereias, feiticeiras, deuses e reis. Mas não esmorece de seu objetivo.
Já foi dito que a Odisséia tem um maior número de leitores que outra importante obra de Homero, a Ilíada. Sendo mais preciso, especula-se que tenha na realidade um maior número de leitoras: por ser uma obra mais romanceada, que conta uma história basicamente de amor, um amor que sobrevive a vinte anos de espera. E há uma engenhosa e instigante teoria formulada por Samuel Butler de que a Odisséia teria sido escrita por uma mulher, Nausícaa, a filha graciosa e bela de Alcínoo, o rei da Feácia e de sua consorte Arete.
Dentre essas especulações é que almejo retratar nesse trabalho a importância das mulheres na Grécia Homérica tendo por instrumento de análise Odisseu e suas relações com três importantes personagens femininas do romance: Penélope, Circe e Nausícaa.
Analisar através desses personagens a problemática das mulheres nesse período da História e dos verdadeiros motivos que teria Odisseu para passar tantos trabalhos para alcançar seu objetivo maior: o retorno para Ítaca.
Mesmo com tantas adversidades ele não desiste do fio condutor da narrativa. O que é tão importante para ele afinal? Quais as influências que essas três mulheres tiveram no decorrer da narrativa? A volta para casa representaria glórias, amor, ou honra?
Esse relato, que tanto influenciou a história da literatura ocidental e por extensão a história da cultura ocidental, já foi objeto de diversas análises. E continua sendo. E por um bom arrazoado de motivos continuará a ser. Por tratar-se de uma obra-prima. Mais do que uma idéia de formação de um povo, de sua consciência nacional, a Odisséia traz explicações sobre o destino humano e o sentido da existência, o sentido da vida.

A falta de Penélope ou o retorno ao porto seguro
Dentro da narrativa da Odisséia uma das principais personagens femininas é representada por Penélope. Ao contrário de sua prima Helena, a beleza de Penélope é muito mais dada pelo seu caráter e pela sua conduta que pelo seu corpo. Filha de Icário, ela se casa com Odisseu e com ele vai para a ilha de Ítaca. Ela gera o filho de Odisseu, Telêmaco, e em seguida seu marido vê-se obrigado a partir para o confronto em Tróia.
Quando parte, Odisseu confia sua jovem mulher e seu filho único a Mentor. Sua Ítaca fica sem governo, já que Penélope por ser mulher não podia governar a ilha. Mas essa situação era praticamente a mesma em todo o mundo grego por estarem os reis, com poucas exceções, na guerra.
Penélope era acima de tudo uma mulher dedicada. Mesmo não tendo o poder para governar sua ilha, ficou à espera de seu marido por 20 anos, sendo que nos últimos 10 anos sem a menor certeza de seu marido estar vivo. E mesmo com os 108 nobres a fazer-lhe a corte ela resiste. Utiliza-se da méthis, a mesma méthis de seu marido Odisseu. Enquanto ele utiliza sua astúcia para enganar os troianos no episódio do cavalo de pau, ela utiliza-se de sua méthis para postergar uma resposta aos pretendentes. Ela usa do artifício de tecer uma mortalha para seu sogro, Laertes, mas durante as noites ela a desmanchava. E esse artifício durou três anos, até sua escrava Melanto delatá-la aos pretendentes.
Penélope era uma mulher extremamente fiel ao seu marido. Ao contrário de Helena, que gera muitas dúvidas se realmente foi seqüestrada ou não por Páris, ou de Clitmenestra, que assassina seu marido Agamênon, a esposa de Odisseu “alimenta no espírito justos e honestos desígnios a descendente de Icário guerreiro, a prudente Penélope” (HOMERO, 2001, p. 445-6).
Penélope é uma importante personagem na literatura ocidental por representar a mulher forte, capaz de resistir às investidas dos pretendentes e de viver uma situação desconfortável.
Ela, mesmo quando sua fé na volta de Odisseu esmorece, não se entrega. Resiste! E quando ele volta e se apresenta, ela já não tem porque acreditar que seja o próprio Odisseu. Usa de um estratagema para saber se ele é realmente quem diz ser: “Euricléia, prepara-lhe o sólido leito fora do quarto de bela feitura construído por ele. A cama, pois, lhe prepara do lado de fora e a recobre com boas peles e mantos e colchoas de linha esplendente” (HOMERO, 2001, p. 177-8). E ele corresponde duvidando da proposta de pôr a cama para fora por sua estrutura não permitir. Ele era conhecedor das proporções da cama por tê-la construído. Com isso Penélope acredita na real presença de seu marido.
Sedução e prazeres proporcionados por Circe Nos relatos da Odisséia se torna uma figura de forte apelo popular a representada pela feiticeira Circe. Habitante da ilha de Eéia, é filha de Hélio, deus do Sol e de Persa, uma oceânida (filha de Oceano). Raramente é chamada de deusa, como podemos observar nesse fragmento: “Caros amigos, lá dentro alguém tece, meneando-se ao canto, num grande tear, de tal forma que, à volta, o chão todo ressoa; é talvez, deusa ou mulher; em voz alta chamemos depressa” (HOMERO, 2001, p. 226-8). Há uma dúvida ainda não sanada a seu respeito: seria Circe uma divindade ou uma mortal?
Circe vivia na sua ilha rodeada por porcos, leões e lobos. Transformava os homens que aportavam em sua ilha e se dirigiam a sua casa em porcos, mediante uma mistura de uma funesta droga com a bebida. Mas um dos companheiros de Odisseu salva-se e corre à praia a contar a seus companheiros o que aconteceu. Odisseu então resolve ir em busca de sua tripulação e no caminho Hermes o encontra e lhe instrui a como livrar-se de tão grande mal.
Lhe dá uma erva e lhe diz: “(...)há de bebida oferecer-te e veneno te pôr na comida. Mas impossível ser-lhe-á enfeitiçar-te, que a droga excelente que ora te entrego desfaz esse influxo”. (HOMERO, 2001, p. 290-2).
Odisseu então encontra Circe e se faz recebido em sua casa. Aceita suas ofertas e quando ela vem tocar-lhe com sua varinha, objetivando transformá-lo em porco, ele saca de sua espada e investe cheio de fúria contra a bela Circe. Ao que ela cai a abraçar seus joelhos – uma súplica com forte simbolismo à época- e lhe implora clemência. Ela o reconhece como Odisseu e convida-o para subir ao seu leito. Ele fica reticente, acredita tratar-se de alguma artimanha de Circe. Há faz jurar que nenhuma outra maldade incidirá contra ele. Ela jura e eles sobem ao seu leito. Seus companheiros voltam a sua forma natural e aparecem quatro criadas que a ela serviam.
Num mundo em que as mulheres constituíam a maior parte dos escravos (ROBERTS, 2001, p.194; FINLEY, 1965, p.52) não é estranho que ela tivesse escravas. O estranho era ela ter escravas vivendo numa ilha isolada de tudo. Como chegaram a ilha essas escravas? Eram elas vítimas de guerra?
Mas Circe rende-se aos encantos de Ulisses e o deseja para marido. E ele acaba ficando em sua morada, postergando seu retorno para Ítaca: “ lá nos deixamos ficar pelo prazo de um ano completo, todos os dias à mesa, comendo e bebendo à vontade” (HOMERO, 2001, p. 467-8).
Circe não correspondia as demais mulheres de sua época. Não era escrava, mas também não era rainha e nem mesmo camponesa. Tinha uma posição de destaque por ter o conhecimento da magia. Era proprietária de uma bela casa e tinha muitas posses. Acredita-se que era uma deusa. E seria então uma união entre uma deusa e um mortal através do casamento. Esse tipo de união era muito praticado entre um deus e uma mortal, mas raramente ocorria entre uma deusa e um mortal.
Segundo Finley “(...) até a morte de Odisseu e o casamento de Telêmaco com Circe” (FINLEY, 1965, p.34). O que nos induz a pensar nela senão como deusa, uma feiticeira. Por que Telêmaco casaria com ela algum tempo depois do fim da Odisséia se ela tivesse envelhecido? De que forma ela poderia atrair um jovem que pudesse escolher a esposa que quisesse, dado sua condição de filho de Odisseu? A não ser que ela tivesse se mantido jovem graças a seus encantamentos ou mesmo o tivesse conquistado através de seus feitiços. Mas isso não esclarece se ela era deusa ou feiticeira.
Há algo maior do que a riqueza de Nausícaa Filha de Alcínoo, rei da Feácia e de sua mulher Arete, foi ela quem primeiro encontrou Odisseu quando este desembarca na Feácia. Pala Atena aparece a ela em sonho e lhe manda ir lavar roupa no rio. Era costume as mulheres terem total domínio das lides domésticas, não apenas as escravas como as nobres também. Ela se encarrega de lavar a roupa do pai e de seus irmãos: “É a mim que está afeto isso tudo” (HOMERO, 2001, p. 65). “Ajudada pelas suas servas, Nausícaa, a filha do rei dos feácios, fazia a barrela familiar (FINLEY, 1965,p. 70).
Sendo sua atribuição, Nausícaa vai ao rio com suas servas. Depois do trabalho comem e se divertem. É nesse momento que aparece Odisseu. Um temor é causado nas escravas e só não se manifesta em Nausícaa por estar ela sob proteção de Palas Atena. Odisseu estava sem roupas e demonstra a Nausícaa, de forma galanteadora, suas angústias. Ao passo que ela acaba lhe ofertando roupas e dizendo ser filha de Alcínoo, e oferece levá-lo a cidade. Ela se encanta com ele, como pode ser visto neste trecho: “Ao vê-lo, a princesa foi tomada de admiração e não teve escrúpulo em dizer às suas damas que desejaria que os deuses lhe tivessem mandado um marido assim” (BULFINCH, 2001, p.297).
Mas ao chegar à cidade ela pede que ele espere para não serem vistos juntos. Isso mostra a evidência de um código moral forte e bem definido. Onde as aparências são importantes, pois “Quem será esse estrangeiro, que segue a Nausícaa, tão belo e de tal porte? Onde o achou? Com certeza o escolheu para esposo” ( HOMERO, 2001, p. 276-7).Ela era a filha do rei, e tinha vários pretendentes que desprezava. Não podia ser vista chegando com um homem, ainda mais um homem estrangeiro. Daria motivos para rumores, mesmo em um povo descrito como pacífico por Homero: “pois os feácios, de fato, não cuidam de aljavas nem de arcos” (HOMERO, 2001, p. 270).
No palácio havia cinqüenta escravas. Todas trabalhando nas lides da casa. E junto a elas, trabalhando também a rainha Arete, que fazia panos de fino acabamento: “por ter Palas Atena lhes dado mente elevada e perícia para trabalhos de bela feitura” (HOMERO, 2001, p. 110-1).
No banquete que se dá em honra de Odisseu, Alcínoo acaba oferecendo sua filha em casamento para o bravo guerreiro mesmo sem saber ainda de quem ele se tratava. Isso demonstra que os galanteios que ele dispensara a Nausícaa quando de seu encontro surtiram efeito. E ela era uma mulher belíssima, conforme a descrição homérica: “Nausícaa, a predileta dos deuses, que forma perfeita lhe deram” (HOMERO, 2001, p. 457-8).O que demonstra que Odisseu tinha um firme propósito de retorno. Pois deixava de casar com uma bela mulher, talvez tão bela quanto Helena, e de ter um imenso reinado, repleto de riquezas.
Em busca de uma conclusão
Num período da história grega conhecido como Homérico as mulheres de uma maneira geral eram extremamente relacionadas a idéia da sua casa, da sua propriedade. Estavam refinadas à estrutura doméstica, denominada de óikos. Raramente não estavam inseridas nessa relação doméstica. Podendo ser parte integrante do óikos de seu marido ou mesmo pai, dificilmente tinham uma propriedade própria e quando isso acontecia era justificado como sendo a proprietária uma deusa.
As mulheres tinham como molde de vida executar as atividades domésticas, eram submissas aos homens, conservavam seu silêncio e fragilidade, a vida sedentária e reclusa no interior do óikos. Essa idéia está intimamente ligada e chega a ser a base da conclusão de que as mulheres estavam excluídas da vida social, pública e econômica.
Em uma sociedade onde as mulheres eram divididas socialmente em mulheres ricas, mulheres pobres e escravas era proibido uma mulher de boa família, portanto rica, de trabalhar para os outros. Isso ficava a encargo das mulheres pobres e das escravas. As mulheres da realeza tinham muito que fazer sim, mas em casa. As mulheres ricas não apenas lavavam a roupa da família, como as teciam. A administração da casa era complicada e exigia muitos esforços.
Se uma mulher fosse a única herdeira da propriedade do marido ela deveria casar novamente para poder usufruir de seus bens. O que demonstra o porquê de Penélope ansiar pelo retorno de Odisseu. Era mais que uma simples questão de amor, era uma questão também de propriedade. Propriedade dela e de seu filho. Não vislumbrava como boas as possibilidades de um outro homem tomando conta de seu óikos.
Já as mulheres escravas em sua maior parte eram vítimas de guerras. As guerras tinham a função de obter um maior número de escrava para o desenvolvimento das tarefas domésticas. Eram uma parcela numerosa da sociedade grega apesar de não terem direitos nem voz nas questões de poder. Mas eram parte imprescindível para a manutenção do modelo de sociedade vigente.
A Odisséia é uma obra famosa, sobretudo pelo seu caráter de ser uma história de amor.
A história de um homem que passa por diferentes percalços na tentativa de retornar ao amor de sua mulher e de seu filho. E passa a idéia de uma série de abnegações empreendidas por Odisseu para realizar seu firme propósito de retornar a sua casa para encontrar sua mulher.
Odisseu volta de uma guerra de larga duração vitorioso. Mas acaba insultando um poderoso deus, Poseidon, e este deus faz com que ele não volte para casa. Mas ele tem a firme idéia de voltar. Mesmo enfrentado monstros como o cíclope Polifemo ou como Cila, passando pelos encantamentos da deusa Calipso que o queria por esposo,, até rejeitar o amor de Circe e não aceitar o reino da Feácia, representado numa eventual união com a princesa Nausícaa. A tudo isso ele renuncia. Mas renuncia só por amor a sua mulher Penélope e ao seu filho Telêmaco? Creio que não.
Para Odisseu de fato é importante o amor de sua esposa. Uma dedicada mulher que por ele mantém um amor capaz de resistir aos anos e as angústias de saber o que realmente tem acontecido para retardar o regresso de seu marido. Mostra-se importante o amor a seu filho Telêmaco, uma pequena criança quando partiu e que no desenrolar da história cresce, e que agora é um homem. E que tem o dever de honra de ser o herdeiro das terras de seu pai e cuidar da memória de seu pai. Mas não é só isso.
Por maior o amor que Odisseu tivesse por sua esposa e por seu filho – e eu não estou pondo esse amor em dúvida – a sociedade grega homérica tinha um hermético código de relações sociais. Um código que devia ser seguido por todos, mas mais ainda pelos aristocratas. E esse código era baseado numa muito forte noção de honra. E Odisseu deveria voltar para cuidar do que é seu sobremaneira para restituir sua honra e sua propriedade. Honra e propriedade eram termos indissociáveis para um aristocrata. Qualquer afronta a sua propriedade era uma afronta a sua honra.
E Odisseu sabia que se demorasse a voltar sua esposa ficaria vulnerável a muitos pretendentes a sua beleza e principalmente a sua propriedade. Não era uma questão apenas material, por ter recebido uma oferta muito maior do que seus bens feita pelo rei Alcínoo, quando esse oferece sua filha a Odisseu. Nem uma questão de amor apenas, dado que Circe teria tido o poder para fazer um encanto para Odisseu se apaixonar por ela e amá-la, talvez como tenha feito posteriormente com Telêmaco. Era muito mais. Era uma questão de espírito.
Para Odisseu a volta para casa, para os braços de Penélope e para a companhia do filho, para a restituição de seu óikos, era uma questão de honra. Uma questão de valorar o sentido da vitória na Guerra de Tróia. Era alcançar a condição de vitorioso. Ter lutado pela honra alheia – Menelau – e não ter sido substituído. Era uma questão de grande importância naquela sociedade.
Com isso se pode assegurar que a Odisséia não é uma simples história de amor. Se vê que é uma obra bem mais complexa e que influencia a humanidade por diversos séculos. Ela trata de valores humanos que acabaram por se tornarem universais na cultura ocidental. Trata de amor, honra, luta, riqueza, poder, glórias. O que os homens perseguem de uma forma ou de outra até hoje, passados vinte e sete séculos da criação da obra. A Odisséia mostra ter sido forte influência e ter tido um forte poder de disseminação dos ideais gregos de virtude – aretêque até os nossos dias se encontram como sendo o sentido da busca da vida humana.

BIBLIOGRAFIA
Fontes primárias
HOMERO. Odisséia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. 4ªed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
Fontes secundárias
BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia. 18ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental. 2ª ed. Porto Alegre: Editora Globo, 1972.
CALVINO, Italo. Por que Ler os Clássicos. 8ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. FINLEY, Moses I. O Mundo de Ulisses. Lisboa: Editorial Presença, 1965.
ROBERTS, J.M. O Livro de Ouro da História do Mundo. 5º ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

História - Imagens e Narrativas

Guerra Fria surgiu da disputa por domínio mundial após 1945

IAGO BOLÍVAR

Materializada com o passar dos anos no Muro de Berlim, nas cercas da fronteira ocidental da Tchecoslováquia e na corrida armamentista, a divisão do mundo em dois lados rivais durante metade do século 20 foi sendo percebida aos poucos pelo público em geral, enquanto a recém-encerrada Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e suas consequências imediatas ainda concentravam muitas das atenções.

Mas alguns enxergaram logo que os aliados que se uniram para derrotar a Alemanha nazista inevitavelmente começariam a disputar o domínio do mundo que emergira do conflito. E essa visão, com as ações que demandava, também alimentou o distanciamento.

Winston Churchill, o então ex-primeiro-ministro que assumira o poder no início dos anos 40 com a determinação de enfrentar Adolf Hitler, depois de anos de política pacifista de Neville Chamberlain, foi o mais explícito em mais uma vez apontar o dedo para o inimigo. Em um discurso nos Estados Unidos em 1946, ele tentou despertar os aliados americanos para a realidade que enxergava: um mundo partido ao meio.

Governo Americano

Churchill, Roosevelt e Stálin discutem o futuro da Europa na Conferência de Ialta, meses antes do fim da Segunda Guerra

"De Stettin no Báltico a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dessa linha estão todas as capitais dos antigos estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia, todas estas cidades famosas e as populações em torno delas se encontram no que devo chamar a esfera soviética, e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não só à influência soviética, mas a um muito elevado e, em muitos casos, crescente controle de Moscou", discursou Churchill.

As declarações foram uma das seguidas tentativas de Churchill de chamar a atenção do parceiro transatlântico, que planejara desmobilizar em dois anos as tropas enviadas à Europa, ceder à ex-União soviética a primazia política sobre o Leste Europeu e se desvencilhar rapidamente de um conflito para o qual fora arrastado a milhares de quilômetros de seu território.

EUA

Ainda durante a guerra, quando a derrota dos nazistas era vista como cada vez mais provável, o presidente americano resumira sua posição nas conferências dos aliados para decidir o que fazer após o conflito de uma forma que desesperava o primeiro-ministro britânico, para quem a ameaça soviética chegava cada vez mais perto do seu país.

"Eu acho que se eu lhe der [ao ditador soviético Joseph Stálin] tudo o que possa sem pedir nada em troca, 'noblesse oblige', ele não tentará anexar nenhum território e trabalhará comigo em favor de um mundo de democracia e paz", disse Franklin Delano Roosevelt, sobre as futuras negociações para definir o mapa da Europa.

O presidente dos EUA via muito da tradição imperial britânica nas tentativas de Churchill de manter a guerra latente, mas a inflexibilidade soviética nas negociações e a recusa soviética em realizar eleições de modo ocidental --"livres", para os americanos, "burguesas para Stálin-- na Polônia fizeram-no mudar seu entendimento poucos dias antes de morrer, em 1945: "Ele [Stálin] quebrou todas as promessas feitas em Ialta".

Para Stálin, as negociações definiam muito da sobrevivência da ex-União Soviética. O país fora o que mais sofrera baixas durante a guerra --cerca de 20 milhões de mortos-- e a presença de um cinturão de contenção entre seu país e a Europa ocidental era considerada vital desde o czarismo. Havia pouco mais de um século, Napoleão tentara o mesmo que Hitler e avançara contra a Rússia imperial.

Stálin e Churchill também perceberam com antecedência que as formas de organização social e econômica dos aliados de leste e oeste eram, por natureza, antagônicas, e que a mensagem de universalismo que o capitalismo liberal e o comunismo de Estado incorporavam não seria contida em um acordo de cavalheiros.

Ameaça comunista

No curso das negociações, a posição dos aliados ocidentais acabou se invertendo, enquanto a soviética permanecia firme. Churchill foi derrotado nas eleições de 1945 pelos trabalhistas, ansiosos pela paz e convencidos de que as dívidas do país tornavam necessário um trabalho de reconstrução, sem preocupações bélicas como prioridade. Enquanto isso, a morte de Roosevelt levou à Presidência americana seu vice, Harry Truman, que foi sendo convencido da ameaça comunista e partiu para a ação.

Um dos pontos seminais da inflexão americana foi o que ficou conhecido como "longo telegrama", escrito pelo embaixador dos EUA na União Soviética. Ele via uma "preocupação neurótica" do Kremlin com a segurança e uma perseverança em expandir o comunismo e o controle do país para além do Leste Europeu, aproveitando o processo de descolonização que se divisava.


8.jan.1951/AP

Truman defende Guerra da Coreia; ele se empenhou em evitar expansão do comunismo
"Em direção às áreas coloniais e aos povos dependentes, a política soviética, mesmo no plano oficial, será direcionada para o enfraquecimento do poder e da influência e contatos dos países ocidentais avançados, e, na suposição de que essa política seja bem sucedida, será criado um vácuo, que vai favorecer a penetração comunista soviética", escreveu o diplomata americano George Frost Kennan, em 22 de fevereiro de 1946. "Elementos 'democratas progressistas' no exterior serão utilizados ao máximo para fazer pressão sobre os governos capitalistas em linhas agradáveis aos interesses soviéticos."

À medida que a influência soviética sobre os países ocupados pelo Exército Vermelho se mostrava não de hegemonia, mas de controle estrito, com eliminação de adversários e constituição de regimes-títeres, os EUA começaram a agir tendo em vista um rival poderoso e potencialmente beligerante.

Reconstrução

Truman lançou uma estratégia de reconstrução da Europa por meio de financiamentos americanos --o Plano Marshall--, que foi rejeitado pelos países do leste sob pressão soviética, ordenou a aceleração do programa nuclear, em uma época em que só os EUA possuíam bombas atômicas e manteve tropas e bases nos países da Europa ocidental. Ao mesmo tempo, os americanos começaram a pressão contra elementos vistos como potenciais agentes do poder soviético, como o Partido Comunista da Itália.

Em março de 1947, o presidente enviou ao Congresso uma mensagem que ficaria conhecida como "doutrina Truman", vista por muitos como uma declaração formal de um novo conflito, uma guerra mundial de baixa intensidade que logo ganhou o nome de Guerra Fria.

"Eu acredito que deva constituir a política dos Estados Unidos apoiar os povos livres que estejam resistindo às tentativas de sujeição por minorias armadas ou pressão externa", escreveu o presidente. "Nós devemos ajudar os povos livres a seguir seus próprios destinos da maneira que escolherem."

Implícita na mensagem estava a ideia de que a escolha pelo comunismo estava vetada por constituir, em si, uma pressão dos grupos identificados como ilegítimos.

Seja pelo cansaço da guerra, pela falta de recursos humanos e materiais na Europa ou pela detenção nuclear -os soviéticos conseguiram sua própria bomba atômica em 1949-- as divisas da Segunda Guerra foram respeitadas, e a "cortina de ferro", separou as fronteiras dos países sob cada lado e a Alemanha ao meio.

Guerras


Governo dos EUA/Paul Halverson

Soldados americanos carregam colega ferido na Guerra do Vietnã; EUA falharam em impedir que comunistas vencessem o conflito


Apesar de toda a retórica dos presidentes americanos que se seguiram a Truman, a divisão europeia era vista como um fato consumado, como revelaram a falta de apoio ocidental expressivo às tentativas de liberalização na Hungria (1956) e na Tchecoslováquia (1968), reprimidas violentamente pela União Soviética. Enquanto isso, as duas potências aumentavam seus arsenais militares, convencionais e atômicos, tornando uma guerra um potencial suicídio coletivo, e se engajavam em uma corrida espacial, cuja principal razão de ser era exibir superioridade tecnológica.

Mas, como divisara o "longo telegrama", os impérios coloniais europeus e a própria hegemonia ocidental sobre a Ásia e a África começaram a desabar, e a disputa passou a se dar em campos ao longo do planeta.

Os conflitos significativos envolvendo diretamente um dos dois líderes da nova ordem bipolar --EUA e União Soviética - e países apoiados pelo outro lado foram apenas três em 50 anos: as guerras da Coreia (1950-53 - empate); Vietnã (anos 60 e 70 - derrota americana) e Afeganistão (1979-89 - derrota soviética).

Mas inúmeras "guerras por procuração", travadas entre grupos apoiados por um lado e o outro, aumentaram a partir de meados da década de 60 toda a década de 70 a temperatura do confronto na África, a exemplo da Guerra Civil de Angola, na Ásia, como no Cambodja, e as disputas pelo controle dos países latino-americanos, expressas por meio de ameaças de revoluções comunistas ou a eleição de líderes socialistas que acabaram contidas por golpes militares que deixaram quase todos os países ao sul do México sob governos autoritários apoiados pelos EUA.

Cuba

A exceção nessa região foi Cuba, a ilha caribenha que funcionara desde o fim do século 19 como uma semicolônia americana e sucumbiu a uma revolução armada no fim dos anos 50. A natureza comunista do novo regime foi se revelando claramente após a tomada do poder por Fidel Castro, com desapropriação de propriedades privadas e aproximação com a União Soviética. A ilha permaneceria como um vizinho incômodo, apesar da frustrada tentativa de invasão da baía dos Porcos por cubanos apoiados pelos EUA (1961).

Cuba foi também o palco da Crise dos Mísseis, o momento mais tenso de perigo nuclear durante a Guerra Fria, quando os soviéticos tentaram instalar mísseis balísticos na ilha, iniciativa abandonada em meio a negociações confusas que resultaram também na retirada de mísseis americanos da Turquia.


17.abril.1961/AP

Fidel Castro em um tanque militar na praia Girón, durante a invasão da baía dos Porcos por cubanos apoiados pelos EUA, em 1961

Em meio às perturbações no Terceiro Mundo, uma política ocidental de "détente" (contenção) ajudou a melhorar a relação entre o fim dos anos 60 e o final dos 70. Acordos de redução de armas nucleares, uma missão espacial conjunta, e a ajuda econômica dos EUA e seus aliados europeus a países do bloco soviético, constituíram uma espécie de trégua nas áreas centrais dos dois domínios.

Essa iniciativa foi abandonada com a invasão do Afeganistão pela ex-União Soviética em 1979, e um novo período de tensões. O governo de Ronald Reagan apoiou com armas e dinheiro os rivais islâmicos dos soviéticos no Afeganistão e expandiu os gastos militares, arrastando a União Soviética para uma corrida armamentista para a qual o regime comunista já não tinha fôlego.

A estagnação econômica das economias planificadas, disfarçada em parte pela abundância de petróleo russo enquanto o Ocidente sofria com a crise do petróleo dos anos 70, tornou-se insustentável. O bloco europeu comunista transformou-se em um fardo para Moscou, e um novo líder soviético, Mikhail Gorbatchov, começou um trabalho de reformas liberalizantes que fugiu ao seu controle e significou a capitulação pacífica do bloco comunista, simbolizada na queda do Muro de Berlim, mas também na falta de reação da União Soviética à defecção de um satélite fundamental.

Dois anos depois, a própria União Soviética deixou de existir, exaurida sob o próprio peso.

Folha de São Paulo

Durante 40 anos, Alemanha fez parte de bloco liderado pela ex-URSS

IAGO BOLÍVAR

Durante as quatro décadas em que ficou separada da Alemanha Ocidental, a República Popular da Alemanha foi integrada a um bloco econômico, militar e ideológico comandado pela ex-União Soviética, como parte do núcleo que ficou conhecido como "segundo mundo", representado pelas nações comunistas desenvolvidas.

As fronteiras do bloco foram oficializadas durante as conferências organizadas pelos aliados --entre elas as de Ialta e Teerã e Potsdam-- nos anos finais da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e logo depois do conflito, mas a definição delas só foi feita de fato no campo de batalha.

Yevgeny Khaldei - 1945/AP/ITAR-TASS

Soldado ergue bandeira soviética em Berlim após a derrota nazista

A extensão do domínio comunista no Leste Europeu correspondeu ao avanço do Exército Vermelho contra os nazistas, que os levou a capturar Berlim em 1944, marcando o fim de seis anos de conflito na Europa.

Entre os países que ficaram sob a "esfera soviética", na linguagem diplomática, estavam a Tchecoslováquia --que havia sido invadida pela Alemanha nazista-- aliados de Hitler (Hungria, Romênia e Bulgária) e a Polônia, cuja parte oriental a própria ex-União Soviética havia invadido no final dos anos 30, de acordo com um pacto de partilha assinado com Hitler. O acordo foi quebrado em 1941, quando a Alemanha lançou a Operação Barbarossa, de invasão dos domínios e do território soviético.

Sobre as repúblicas bálticas (Estônia, Letônia e Lituânia), vistas como historicamente pertencentes à Rússia, o domínio soviético acabou sendo total --foram absorvidas na URSS. Nos demais países, a estratégia foi transformá-los em Estados-satélites.

O processo seguiu linhas gerais semelhantes. Primeiramente, formou-se uma aliança de partidos socialistas, comunistas e "antifascistas" para teoricamente disputar eleições livres. Depois, com diferença de ordem de país para país, foram dados os passos seguintes: as forças vistas como burguesas foram perseguidas; as eleições moldadas no estilo soviético de votação; o próprio partido comunista sofreu expurgos para alijar possíveis lideranças nacionais ou muito independentes e os governos eleitos colocaram em prática o modelo soviético de estatização dos meios de produção.


Arte/Folha Online


Colaboração

O resultado foi que, quatro anos após o fim da Segunda Guerra, havia um cinturão de "repúblicas populares" obedientes a Moscou entre a União Soviética e a Europa ocidental. Tentativas de caminho independente foram suprimidas.

A Tchecoslováquia, que manteve parte da estrutura anterior do Estado, com um Parlamento, cogitou receber ajuda americana do Plano Marshall [plano econômico de recuperação da Europa], mas foi dissuadida por forte pressão soviética. O mesmo acabou acontecendo com a Polônia, a quem foi fornecido um empréstimo de Moscou.

Formalmente independentes, os países continuavam com tropas do Exército Vermelho em seus territórios e foram enquadrados em organizações que eram espelhos das novas instituições do oeste do continente. À Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) opunha-se o Pacto de Varsóvia; à Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), correspondia o Conselho para Assistência Econômica Mútua, (Comecon), que a partir do final dos anos 50 passou a ser visto como a alternativa à Comunidade Econômica Europeia, antecessora da União Europeia.

Fora do financiamento americano para a recuperação econômica do pós-guerra, os países desenvolveram estratégias de colaboração técnica e trocas comerciais entre eles, dificultadas pela falta de uma moeda conversível como a adotada no oeste.

Apesar da supremacia soviética, as tentativas de fazer com que a planificação das economias nacionais passasse a ser coordenada acabaram sendo em grande parte infrutíferas, assim como os ensaios de divisão de tarefas econômicas --a Romênia, por exemplo, se opôs a ser relegada apenas ao papel de fornecedor de produtos agrícolas, sem industrialização.

Um dos elementos-chave para o desenvolvimento do bloco nos anos iniciais foi a virtual quebra de patentes da desenvolvida economia alemã, o que permitiu um avanço significativo nas indústrias da região. O preço a pagar foi o desestímulo à inovação tecnológica, o engessamento em uma economia de escala reprodutora que, mesmo com mudanças legais nos anos 70, acabaram levando a um fosso tecnológico nos bens de consumo TVs, carros, eletrodomésticos-- em relação ao ocidente.

Tecnologia

Na outro extremo, a ex-União Soviética conseguiu manter uma tecnologia avançada em setores de ponta, como armas nucleares, mísseis balísticos e na área aeroespacial, da qual os maiores símbolos foram o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik em 1957, e a primeira viagem do homem ao espaço, Yuri Gagarin, em 1961, eventos que desencadearam a reação americana de levar o homem à Lua, em 1969.


Libor Hajsky -21.ago.1968/AP-CTK

Manifestantes atacam tanque durante invasão de Praga para reprimir reformas

Mas, no solo, o descontentamento crescia com a supressão das liberdades "burguesas" de livre expressão, religião e livre empresa, apesar de uma elevação geral do nível de vida quando comparada ao período das guerras mundiais e mesmo ao anterior, embora os governos ocidentais também fizessem grandes avanços na área social, classificados pelos soviéticos de concessões pífias e tentativas vãs de conter a luta de classes.

O levante popular na Hungria em 1956 contra o governo stalinista do país foi contido por tanques soviéticos, e em 1968 uma força conjunta de cinco países do Pacto de Varsóvia invadiu a Tchecoslováquia para encerrar com a política de liberalização do líder tcheco Alexander Dubcek.

A falta de colaboração ativa dos EUA e da Europa ocidental em apoio às tentativas de abertura mostraram claramente que, na Europa, os limites da Cortina de Ferro seriam respeitados e que cabia à ex-União Soviética decidir o futuro de cada um dos países da região.

Resistência

Apesar da posição ocidental, a leste da fronteira entre as duas Europas nem todos os países comunistas se submeteram ao domínio soviético. A primeira resistência importante e com consequências duradouras foi a atitude de independência do general Josip Broz Tito em relação ao ditador soviético Joseph Stálin, que levou à expulsão da Iugoslávia do Cominform, a aliança de partidos comunistas.

Tito havia liderado a resistência aos nazistas nos Bálcãs e não se via como um devedor em relação à ex-União soviética, mas como um líder em igualdade de condições com Stálin, uma situação única no bloco.


Koca Sulejmanovic - 26.dez.2006/Efe

Visitante observa os retratos de Tito (à esq.) e Stálin, expostos em Belgrado em 2006; os dois líderes comunistas romperam em 1948


No outro extremo ideológico, --dentro da limitada gama da época e região-- a Albânia, pequeno país agrícola cuja integração com a Bulgária foi inutilmente defendida por Tito, em desafio à União Soviética, acabou se isolando cada vez mais com o passar dos anos pelo inflexível stalinismo de seu ditador, Even Hoxa. Após a morte de Stálin, em 1953, ele se opôs às críticas feitas ao ex-ditador soviético pelo novo líder da URSS, Nikita Kruschev, que empreendeu uma campanha de denúncias dos massacres e expurgos ordenados pelo antecessor.

Hoxa voltou-se então para Mao Tse Tung. A China comunista se tornou o principal parceiro comercial e fonte de financiamento e ajuda técnica da Albânia, mas a aproximação chinesa com os EUA no governo do presidente americano Richard Nixon deterioraram os laços, e Hoxa rompeu definitivamente as relações com a China em 1978, denunciando o "revisionismo chinês" e proclamando a Albânia o único Estado comunista do mundo. O gesto garantiu a simpatia de militantes comunistas em vários países, mas aprofundou o isolamento da Albânia.

Decadência

A crescente falta de dinamismo econômico do bloco soviético nos anos 60 foi em parte compensada por um boom no início da década seguinte, devido ao fornecimento de petróleo e gás russos de jazidas cuja exploração foi em grande parte financiada pelos estados-satélites. O crescimento foi ainda mais significativo porque coincidiu com estímulos dados pelo próprio ocidente na política de "détente", uma tentativa de diminuir as tensões com o bloco comunista por meio de concessão de crédito e de licenças tecnológicas.

Em contraste, a década de 70 foi marcada pela crise do petróleo, que minou as economias ocidentais, o que, em comparação aumentou a visibilidade do sucesso econômico do leste. O fim da détente, em meio ao crescimento das tensões, problemas de pagamento dos créditos e uma crescente ineficiência da máquina burocrática planificada fizeram com que o bloco entrasse em um processo de crescente estagnação, que perdurou do fim da década de 70 até a implosão do sistema comunista de molde soviético na região após as políticas de abertura de Gorbatchov, nos anos 80.


Marek Zarzecki/REUTERS/Kfp

Sindicalista polonês Lech Walesa é levado por grevistas em 1980; em meio a crise econômica, ele fundou sindicato não comunista

A segunda metade da década de 80 foi cheia de presságios do fim do "segundo mundo". O crescimento do sindicato Solidariedade, na Polônia, o visível enfraquecimento soviético durante a invasão do Afeganistão e o sucesso em imagem, mas fracasso em resultados econômicos, das políticas de abertura de Gorbatchov encorajaram manifestações de descontentamento interno e impulsionaram o apoio cada vez mais ativo do Ocidente a grupos locais descontentes.

Colapso

Em 25 de Outubro de 1989, o porta-voz da Chancelaria russa forneceu a senha para o colapso do bloco. Em entrevista ao programa da TV americana "Good Morning America", Gennadi Gerasimov tentou resumir um discurso do ministro das Relações Exteriores soviético, Eduard Shevardnadze, que falara que os soviéticos reconheciam a liberdade de escolha de todos os países, incluindo os membros do Pacto de Varsóvia.

"Nós temos agora a doutrina de Frank Sinatra. Ele tem uma música, "I Did It My Way" [Eu fiz do meu jeito, trecho da música "My Way"]. Assim, cada país decide sobre o seu próprio caminho a tomar". Questionado sobre se isso incluía a possibilidade do fim do domínio dos partidos comunistas nas "repúblicas populares", ele disse: "Com certeza [...] estruturas políticas devem ser decidido pelo povo que vive lá".

O fim da ameaça explícita de uma retaliação do Exército Vermelho encorajou os insatisfeitos e aqueles que já estavam em ação contra os regimes locais.

A Hungria, que passara por uma reforma liberalizante, já havia aberto a fronteira com a Áustria nos meses anteriores, permitindo a fuga de milhares de seus cidadãos e de alemães. Quinze dias depois da declaração do porta-voz soviético, simbolicamente usando uma canção americana em uma TV americana, os alemães escolheram o próprio jeito de reabrir o caminho fechado por um muro desde 1961 entre Berlim ocidental e Berlim oriental.

A partir de então, as repúblicas populares enfrentaram revoluções em grande parte pacíficas, e o segundo mundo deixou de existir, com seus países tentando integrar-se ao sistema econômico e político dos vizinhos vistos como inimigos durante meio século.

Folha de São Paulo

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Religião e magia na Idade Moderna no campo historiográfico (parte 2 - final)


Religião e magia na Idade Moderna no campo historiográfico
Luciano Bezerra Agra Filho
lucianoagra@isbt.com.br
Licenciado em História - UEPB

Dentre essa criação cultural o Iluminismo não era apreciado em certas regiões como na Alemanha e Espanha, visto que existia predominância francesa, concluindo-se que essas canções populares era inspirados em sentimentos nacionalistas.
Dentre de uma estratificação social e cultural, havia o contraste entre os habitantes das terras altas e terras baixas, por isso existiam as diferenças na cultura do pastor em particular era simbolizada por causas especiais como avental, eram pobres e isolados mas se deslocavam de um lugar para o outro pois eram livres e tinham o tempo para eles e se dedicavam ao seu próprios rebanhos, tocando flautas e gaitas.
Haviam os mineiros que tinham suas lendas e tinham seu orgulho de lidar com metais preciosos que eles próprios descobriram. Eles tinham seus próprios santos padroeiros, a sua dança, as suas canções. E como os pastores, desenvolveram sua própria cultura, por terem sido rejeitados pelo mundo que os dominavam, deixam uma rica cultura e teem sua vida retratada pelo clérigo luterano. Segundo João Ribeiro Júnior afirma que:
“ Aonde existir opressão, alienação, ignorância,
interesse em manter o povo marginalizado do
processo histórico, insatisfação, descrença em todos
os argumentos científicos ou desconhecimento
deles; onde existir o desejo de coisas novas e
diferentes que a sociedade de consumo insistir em
produzir, mas que cada vez mais se distancia da
grande massa aí estava a Magia Negra”( RIBEIRO,
1985, p. 35)

Para Ribeiro, como para os seus seguidores, se pode afirmar, quanto ao período moderno, as feitiçarias estão subordinadas à magia negra. E é neste sentido que esses elementos eram totalmente divergentes. Do que foi dito anteriormente encontramos-nos diante da idéia de que a feitiçaria ou de mago trabalha metodicamente, com o exato conhecimento do que está fazendo. Enquanto o bruxo trabalha de modo natural, e muitas vezes instintivamente.
Por outro lado, os bruxos e feiticeiros encontravam-se no Sabá, que representava o elo entre o velho rito pagão dos bruxos e o ritual anticristão, onde satanás era adorado como um Deus. Da mesma forma, a maior parte dessas assembléias praticava-se magia negra, orgias, sexuais, jogos, danças, canibalismo e assim sucessivamente. Podemos dizer que a maior parte dos Sabás, eram dispersos, isto é, não existia lugares nem dias específicos para poder realizá-los. Contudo, entende-se que a sua prática era proibida pela igreja e com ameaça de morte, por vir contra a ideologia cristã.
Apesar dessa noção, na verdade, o intuito de realização do Sabá era proporcionar a seus freqüentadores (homens e mulheres), uma fuga dos rigores de vida, principalmente por parte das mulheres. É evidente, que elas encontravam no Sabá, uma forma de sentir-se livre da repressão que lhes era imposta. Segundo João Ribeiro, afirma que:
“as orgias sexuais eram válvulas de escape para a
satisfação de desejos carnais frustrados ou
reprimidos por exagerados e severíssimos conceitos
religiosos da época, parte do aparato repressivo que
congregava o Estado Monárquico e a Igreja”(
RIBEIRO, 1985, p. 40).

“Aliás, a liberdade de expressão sempre esteve vinculada à liberdade sexual. Onde se reprime a liberdade de expressão também se reprime a liberdade sexual.”( RIBEIRO, 1985, p. 40). Neste sentido, podemos enfatizar que a relação ao vôo no espaço e as fantasias eróticas, eram provocadas pelo uso de drogas. Com isso, as transformações animalescas, são mais invencionice das pessoas que foram forçadas a confessar no tribunal da Inquisição. Seja como for, é inegável que diria que as transformações animalescas são mitos e lendas folclóricas. Além disso, estes Sabás realizavam-se a Missa Negra que é a Missa Católica deturpada com o propósito de aviltar a imagem de Deus.
É bastante provável que as Bruxas e feiticeiros reuniam-se à noite, geralmente em lugares solitários, apareciam em garupas de animais ou então transformados eles próprios em bichos. Mesmo quando os que vinham pela primeira vez deviam renunciar a fé cristã, profanar os sacramentos e render homenagem ao diabo, presente sob forma humana ou como animal. De fato, seguiam-se banquetes, danças e orgias sexuais. Além disso, antes de volta para casa, bruxas e feiticeiros recebiam ungüentos maléficos, produzidos com gordura de crianças e outros ingredientes. É a partir daí que esses são os elementos fundamentais das descrições do Sabá.
Inclusive, observando-se esse momento dos processos por feitiçaria realizado entre o princípio do século XV e final do XVII na Europa, emerge uma imagem do Sabá em que a existência de uma verdadeira seita de bruxas e feiticeiros espalhados por toda parte, praticamente os mesmos ritos horrendos. O importante é que os juízes arrancavam dos acusados por meio de pressões físicas e psicológicas, as denúncias, daí se desencadeava uma verdadeira caçada as bruxas.
De certo modo, para alguns autores, essas confissões, continuam demasiadas extravagâncias tratando-se de elementos não reais. Afinal, para outros, as descrições do Sabá contidas nos processos de bruxaria não eram mentiras extorquidas pelos Juízes nem narrativas de experiências com caráter alucinatório, mas sim descrições precisas de ritos de fato ocorridos.
Dentro dessa vertente o Sabá emergiu por volta da metade do século XVI nos Alpes ocidentais, afloram também elementos folclóricos estranhos à imagem inquisitorial, difundidos numa área muito mais vasta. Deles emergem dois temas, as procissões dos mortos e as batalhas pela fertilidade os que dela participavam se autodefiniam BENADANTI, ou Andarilhos do bem. Carlos Ginzburg diz o seguinte: “ A esse núcleo místico ligam-se também temas folclóricos, como o vôo noturno e as metamorfoses animalescas, os Xamâs, (...) da fusão desses temas surge uma formação cultural de compromisso.(GINZBURG, 1991, p. 123)
Dando ênfase a isto, o fim da perseguição, o Sabá desapareceu, digo dissolveu, mas os mitos sobreviveram ao desaparecimento do Sabá, permanece como um dos centros ocultos de nossa cultura. Sendo o autor Carlo Ginzburg, é possível reconhecer uma formação cultural de compromisso, resultado de um conflito entre cultura folclórica e cultura erudita.
Ainda existem muitas contradições sobre a existência dos Sabás, Haining Peter relata aos algumas pessoas vêem o Sabá Negro como um fato ou inconvecionante de imaginações férteis.
Com a maioria dos depoimentos sobre o Sabá estão nos processos do Tribunal da Santa Inquisição, e muitos desses depoimentos eram feitos sob tortura, teme-se deformações, ocasionada pelas obsessões de inquisidores e Juízes, portanto, esses depoimentos deixam margem a desconfiança.
Carlo Ginzburg procura analisar as contradições da existência do Sabe, através de extrato antiqüíssimo de mitos e processos de exclusão social, ou seja, análise em cima da cultura popular, especialmente o folclore, devido ao vôo mágico e as metamorfoses animalescas, e sob o ponto de vista inquisitorial, considerava mais um complô de um grupo social. Mas enfatiza que não devemos persistir na unilateralidade dos fatos. Devemos unilos para estabelecer, conclusões gerais (HAINING, 1976, p. 21).
Já Peter Haining debruçados nos manuscritos secretos e livros negros, dia que os mesmos são fontes materiais que não deixam dúvidas de sua existência e informa aos praticantes não só os rituais como também “devoluções” e regras a observar.(GINZBURG, 1991, p. 125).
Vale lembrar que os livros negros eram proibidos pela Inquisição, devido a este fato muitos foram destruídos. Mesmo assim, eles existiam, mas era difícil acesso a esses livros, porque partes da sociedade daquela época não sabiam ler e nem escrever. Os que sabiam, procuravam repassar seus conhecimentos. Peter Haining em seus estudos, localizou em um Museu Britânico um desses livros, da era Elizabetana do século XVI – “O Livro de Devoções para Adoradores do Demônio da Era Elisabetana”, escrito por um feiticeiro de Edinburg.
Em Suma, fantasia e realidades se misturam nas práticas mágicas. A busca do conhecimento e a luta para se livrarem de uma estrutura opressiva que ameaçavam os seus costumes e tradições, levaram as camadas mais pobres, a produzirem práticas e devoções mágicas. Para estas pessoas e talvez para todo nós, a fantasia se transforma em realidade e a realidade em fantasia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
• BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
• GINZBURG, Carlo. História Noturna: Decifrando o Sabá, São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
• HAINING, Peter. O Livro do Feiticeiro, Rio de Janeiro: Pallas, 1976.
• RIBEIRO, Júnior João. O que é magia, 29 ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.
• THOMAS, Keith. Religião e o Declínio da magia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
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Religião e magia na Idade Moderna no campo historiográfico (parte 1)


Religião e magia na Idade Moderna no campo historiográfico
Luciano Bezerra Agra Filho
lucianoagra@isbt.com.br
Licenciado em História - UEPB
Resumo:
O que vem a ser “magia”? O termo é abrangente, complexo e polissêmico. A fantasia e realidades se misturam nas práticas mágicas. A busca do conhecimento e a luta para se livrarem de uma estrutura opressiva que ameaçavam os seus costumes e tradições, levaram as camadas mais pobres, a produzirem práticas e devoções mágicas. Para estas pessoas e talvez para todo nós, a fantasia se transforma em realidade e a realidade em fantasia no quadro religioso do Ocidente Moderno.
Palavras Chave: Idade Moderna – Magia – Historiografia.

1. A Magia no seio da Igreja Medieval:
Inicialmente, é bom salientar que todas as religiões primitivas são consideradas pelos seus seguidores como meio, como um caminho pelo qual podem alcançar o poder sobrenatural. Essas religiões funcionavam como máquinas que continuam sistemas de explicações, fontes de imposições morais, semiologia de ordem social ou ponte para a imortalidade, significado, também, a perspectiva de um meio sobrenatural que controla o homem sobre a terra. Nesse grupo de religiões incluem-se os cristianismos.
Na época Medieval, a Igreja viu-se conturbada pela tradição de que a realização de milagres era o meio eficaz de monopolizar a verdade. Um pouco antes da Reforma, a Igreja não alegava ter o poder de realizar prodígios, ou seja, sua fé em Jesus. No entanto adquiria prestígio com os efeitos realizados por membros a quem Deus concedera dons de efetuar milagres. Atribui-se igualmente uma eficácia miraculosa às imagens. Os milagres e curas sobrenaturais eram manifestadas no seio da igreja nas vésperas da Reforma e conferiam-se esses milagres, são somente às imagens, mas também às relíquias sagradas, que eram consideradas fetiches milagrosos.
Adoravam os santos e os tinham como parte integrante da estrutura da sociedade medieval. Cada igreja possuía seu santo padroeiro e, às vezes, conferiam a hagiolatria um caráter quase totêmico. Cada santo era profissional em atender um determinado pedido.
Para cada ocasião havia um santo especial. Na dor, no parto, no olhado, nas tempestades, na escassez, na peste, etc... Cada santo era incumbido de atender de acordo com a ocasião.
Havia métodos para abençoar os doentes e tratar dos animais, para afastar o trovão e trazer a fecundidade ao leito matrimonial; o ritual básico era o benzimento com água e sal para a saúde do corpo e a expulsão de demônios.
Dessa forma, o seio da Igreja Católica estava cheio de talismãs, rosários e amuletos eclesiásticos usados para fins milagrosos, destinados a dar proteção numa ampla variedade de contextos. Com uma série de sub-superstições em torno do altar, até a missa passou a possuir um poder mágico e, como os demais sacramentos cristãos, gerou um conjunto de crenças parasitárias, atribuindo-se a cada cerimônia um significado material que os dirigentes da Igreja nunca haviam alegado. O batismo era fundamental para tornar o bebê um ser humano integral, membro da Igreja, possuidor da salvação, e que tivesse um crescimento melhor. Assim como os batismos, as mulheres, após parirem, davam graças a Deus e prestavam uma cerimônia tipo “purificação”.
As orações dos fiéis funcionavam como ponte que dava acesso ao auxílio divino e aos páramos celestiais. A oração assumiu diversas formas, mas o tipo mais diretamente relacionado com os problemas do cotidiano era o da intercessão, com o qual invocava-se a Deus tanto para orientar no caminho da salvação quanto para ajudar em dificuldades materiais. As orações mais constantes eram os pais-nossos, às ave-marias e os credos.
Assim, a Igreja Medieval contribuiu para distinguir uma prece de um encantamento, além de atribuir virtude na mera repetição de palavras sagradas.
De acordo com o que já vimos anteriormente podemos perceber que a Igreja Medieval como um grande reservatório de poder mágico, apto para ser empregado para uma série de finalidades seculares, como a leitura de um versículo para revelar o destino das pessoas, a leitura sistemática da Bíblia para garantir um bom parto à parturiente, e assim sucessivamente. A principal preocupação da Igreja era espiritual, dando ênfase à natureza primariamente intercessora dos rituais eclesiásticos como a precipitação de preces, adoração dos santos, o emprego de água+ benta e do sinal da cruz. Ressalte-se, ainda, que a consideravam esses rituais propiciatórios, não coercitivos.
Não obstante várias circunstâncias contribuíam para consolidar a idéia de que a Igreja era um agente mágico, além de devocional. O antigo culto às fontes, árvores e pedras não foi abolido, mas modificado, associando um santo a uma divindade pagã e incorporando as festas pagãs ao ano eclesiástico. O Ano Novo tornou-se a Festa da Circuncisão, a Festa da Primavera virou o dia de São Felipe e São Tiago, a Noite de Solstício de Verão passou a ser o Nascimento de São João Batista, o Lenho de Dezembro foi introduzindo na celebração do Nascimento de Cristo.
As práticas como a veneração da hóstia, das relíquias, a recitação de preces ou o uso de talismãs e amuletos podiam chegar a excessos, mas os teólogos não consideravam como problema, pois o efeito disso era unir mais o povo à verdadeira Igreja e ao verdadeiro Deus.
2. Cultura Popular, Magia e Sabá
A magia está vinculada à realidade da humanidade desde o pressuposto da civilização. Seria um meio pelo qual, o homem manifesta o desenvolvimento o desenvolvimento dos seus conhecimentos naturais e oculto, com o intuito de corresponder aos desafios de sua realidade.
Com o progresso moral, a magia dividiu-se em magia branca e maia negra. Sendo que a primeira, “é pública, orientada em função de grupo, socialmente aprovada”. Enquanto a segunda, “tende a ser secretas, ilegais, subversivas, socialmente condenadas”.
Segundo alguns estudiosos procura discutir a relevância do assunto, a gênese da magia está nas raízes da cultura popular. Já outros, opõem-se, essa posição, baseada na fragmentação e na insuficiência de argumentos nos documentos estudados. Mas, observa-se nos conceitos da magia, a penetração das características da cultura popular.
É nesse ponto que a cultura popular era muito apreciada até a Idade Moderna por todas as classes sociais. Cabe ressaltar, porque naquele período poucas pessoas tinham acesso ao conhecimento científico e também era uma forma de opor-se ao regime vigente.
Apresentava grandes distinções, devido a descentralização territorial que conseqüentemente provocava a divergência da prática da cultura do campo e da cidade. O poderio econômico acentuava essa situação quando, um camponês não tinha condições financeiras de realizar o mesmo costume do nobre, de aristocrata ou burguês.

É importante chamar atenção para o fato de que o desejo da Igreja Católica era manter o seu domínio ideológico sobre todas as classes sociais, e afastar o fortalecimento de outras religiões, lançam a proposta de condenar uma “cultura unitária”, com o mesmo fim para toda a sociedade. Isto significa dizer que os intelectuais também apresentavam interesse em reformular a cultura popular e queria expandir totalmente o conhecimento intelectual.
É evidente que os reformadores protestantes, iam mais longe com seu plano de afastar a igreja católica do seu caminho. Mas neste caso, acusava-se da prática de magia a fim de desvalorizar o poderio ideológico do cristianismo. De toda forma a Inquisição, foi lançada pela igreja católica e apoiada pelo Estado, levou a julgamento e condenou inúmeras pessoas sob a acusação de heresia, cisma, apostasia, magia e poligamia.
Mas o que é interessante neste fato para ser analisado, é que num período temido pelas normas da Inquisição; marcado pela modernização e transformação na Europa Ocidental, cresceu consideravelmente o uso de magia. Ocasionada pela falta de um conhecimento científico, como também pelas condições sub-humanas a que os povos estavam submetidos, era uma forma de opor-se ao processo de reformulação da religião e dos costumes, que estava sendo empreendido neste momento. Podemos perceber que é muito complexa e rica a cultura popular na Idade Moderna. Podemos exemplificar com a canção e a literatura popular, principalmente na Alemanha, onde a poesia e povo estavam associados na criação desses poemas.
Essa tradição oral estava mais enfatizada na obra dos irmãos Grimm e também Heder que tinham idéias iguais na forma de ver poesias e contos integrados com a natureza, e daí surgiram coletâneas e mais coletâneas de canções populares; como as famosas baladas russas surgindo coletâneas por toda a Europa como no caso as baladas suecas, dinarmaquesas, finlandesas, inglesas, espanholas, etc.
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domingo, 13 de dezembro de 2009

Na história das epidemias, até salmonela já foi grande vilã

Na história das epidemias, até salmonela já foi grande vilã
Peste negra devastou um terço da população europeia na Idade Média.
Conheça algumas das principais epidemias já enfrentadas pelo homem.

Giovana Sanchez
Do G1, em São Paulo - 28/04/09

Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Imagem da época mostra padre abençoando doentes de peste (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)

Epidemias, como a recente gripe suína , causam pânico, preocupação e mortes. Sempre foi assim, desde que o homem começou a conviver com as bactérias, as formas de vida mais antigas do planeta. As doenças têm formas variadas, e as mortes podem ser provocadas tanto por uma enfermidade antiga quanto por um novo vírus.

Uma definição de epidemia é dada pelo infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e autor de "A Historia e Suas Epidemias", Stefan Cunha Ujvari: " são ocorrências de casos de uma doença em número superior ao esperado – esperado com base em cálculos, não em adivinhação."

Em muitos momentos da história, populações foram arrasadas por mortes em grande escala. A diferença em relação às epidemias atuais é que, antigamente, não eram conhecidas as causas de muitas doenças e não era possível, como hoje, fazer um trabalho preventivo.

"Hoje, com um mundo globalizado e grande acesso a informação e tecnologia, podemos controlar mais facilmente o desenvolvimento dos casos", explicou Ujvari em entrevista ao G1 por telefone.

Doenças como cólera, varíola, sarampo e gripe mataram milhões de pessoas em diferentes épocas e lugares. Confira algumas das piores epidemias da história:

Praga de Atenas

No verão de 430 AC, uma epidemia assolou a cidade grega de Atenas. O historiador Tucidides, que sofreu ele próprio da doença, descreveu na época os sintomas como 'calores na cabeça, inflamação nos olhos, dores na garganta e na língua'. A epidemia ocorreu durante o começo da guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta, e afetou o exército ateniense. De 25% a 35% da população de Atenas morreu vítima da doença.

Segundo o infectologista Stefan Ujvari, o que favoreceu as mortes foi a aglomeração de pessoas nos muros de Atenas por causa da guerra. "Isso funcionou como um caldeirão para a epidemia." Ele conta que a doença que provocou a praga ficou por muitos anos sendo um mistério. "Até que, há cinco anos mais ou menos, uma cova com corpos dessa época foi descoberta e, dentro dos dentes dos cadáveres, foi encontrado o material genético da salmonela."


Peste dos Antônios

Uma grande epidemia começou em 165 e no ano seguinte atingiu Roma, durando 15 anos. O nome era uma alusão à família que governava o império na época. Cerca de um terço da população morreu. No auge da epidemia, eram registradas quase duas mil mortes diárias em Roma.

Em 180, o próprio imperador Marco Aurélio foi morto pela doença. O médico Claudio Galeno descreveu na época a peste como tendo sintomas de febre, diarréia e erupções cutâneas.

Lepra na Europa medieval

Entre os anos 1000 e 1350, a lepra se desenvolveu na Europa. As vítimas sofriam lesões na pele, deformações e perda das extremidades. As pessoas eram isoladas e sofriam muito preconceito. Nessa época, muitos centros para leprosos foram criados, e a Igreja Católica controlava os doentes, sustentando que as lesões eram sinais de impureza religiosa. O doente identificado recebia uma cerimônia religiosa, a ‘missa dos leprosos’, em que ganhava trajes especiais e um instrumento sonoro para anunciar sua chegada a lugares públicos.

"Uma verdadeira perseguição aos leprosos ocorreu na época. Como a lepra não é uma doença altamente contagiosa, achamos que muita gente que tinha doenças de pele foi rotulada como tendo lepra", explicou Stefan Ujvari.

A pior de todos os tempos: a peste negra

Pior epidemia da história da humanidade segundo o infectologista, a peste bubônica matou um terço da população europeia. Com início em 1347, a doença se espalhou rapidamente, seguindo as rotas marítimas.

Em 1348, a doença já havia atingido as áreas mais densas dos mundos cristão e muçulmano. A peste chegou num momento de crise agrária e fome. Por volta de 1350, toda a Europa central e ocidental tinha sido afetada. Após essa grande epidemia, a doença não desapareceu e continuou provocando surtos de tempos em tempos.

Os sintomas da peste bubônica são mal-estar, febre, dores no corpo e inchaços do tamanho de um ovo, conhecidos como bubões. A coloração azulada que dá o nome à doença, ocorre pela falta de oxigenação da pele, pela insuficiência pulmonar.

Ratos com pulgas contaminadas pelo bacilo foram um grande fator de disseminação da peste na época. Segundo escreveu Ujvari em seu livro "A História e suas epidemias", "as epidemias encontram terreno propício nas regiões com aglomerações populacionais e condições precárias de higiene, em que ocorre grande proliferação de ratos dividindo espaço com os homens.”

Suor inglês: a doença misteriosa

A cidade de Londres foi alvo de uma epidemia no século XV. As características da doença eram febre intensa e calafrios. Em poucas horas, o paciente podia ter convulsões, entrar em coma e morrer. De cada três pessoas que apresentavam o sintoma, uma morria. A doença teve grandes surtos e chegou a atingir boa parte da corte de Henrique VIII. Cidades perderam quase a metade da população.

O ultimo surto da doença, em 1529, atingiu outros países, como Holanda, Rússia e Alemanha. Depois de um quinto surto, em 1551, quando matou 900 pessoas nos primeiros dias, a doença desapareceu completamente e permanece como um mistério ate hoje.

Cólera na era das máquinas

Em 1817, a cólera começou a se espalhar por áreas da Índia, onde já era endêmica. Alguns anos depois, atingiu o leste da Ásia e o Japão. Em 1820, Bangcoc, capital da Tailândia, reportou 30 mil mortes (numa população de 150 mil habitantes).


Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Hospital improvisado no Kansas, durante a gripe espanhola (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)

Foto: Reprodução/Wikimedia Commons Hospital improvisado no Kansas, durante a gripe espanhola (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons) Dez anos mais tarde, em 1831, a doença chegou à Europa pela Inglaterra e atingiu os principais centros industriais e locais de moradia lotados, como cortiços. Durante a epidemia, quase 30 mil pessoas morreram no Reino Unido, a maioria pessoas pobres.

Gripe espanhola

Os soldados que lutavam nas trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial em 1918 enfrentavam não apenas o frio, a chuva, a lama e o inimigo. Nessa época, uma gripe mortal acometeu tropas inteiras e logo se espalhou para a população civil, matando de 40 milhões a 50 milhões de pessoas, primeiro na Europa e nos EUA, depois na Ásia e nas Américas Central e do Sul. Há relatos de pessoas que acordavam bem e, no final da noite, estavam morrendo – tão rápido era o avanço da doença.


No Brasil, a gripe espanhola, como ficou conhecida, apareceu no final do ano, quando marinheiros desembarcaram doentes após uma ida à África. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz, 65% da população adoeceu. “Só no Rio de Janeiro, foram registradas 14.348 mortes. Em São Paulo, outras 2.000 pessoas morreram”, diz o site da Fiocruz.

Gripe asiática

A doença atingiu a China nos anos de 1957 e 58 e chegou aos EUA matando mais de 70 mil pessoas. Diferente do tipo de vírus que causou a epidemia de 1918, esse era rapidamente identificado principalmente devido aos avanços da tecnologia médica. A Organização Mundial da Saúde estima que até 50% da população foi afetada, e a taxa de mortalidade era de uma pessoa a cada 4 mil. O numero de mortes no mundo passou de um milhão.

Gripe de Hong Kong

Nos anos de 1968 e 69, um outro tipo de gripe matou de 1 milhão a 3 milhões de pessoas - quase 34 mil só nos EUA e 30 mil na Inglaterra. Transmitida por aves, a doença matou em muito pouco tempo. Meio milhão de casos foram reportados em Hong Kong apenas nas duas primeiras semanas. A doença chegou nos EUA em setembro de 1968, por meio de soldados vindos do Vietnã. A vacina começou a ser fabricada dois meses após o surto.

Sars

A doença respiratória viral Sars (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave) foi detectada pela primeira vez em fevereiro de 2003, na Ásia. Nos meses seguintes, se espalhou para mais de 12 países na América do Norte, na América do Sul, na Europa e na Ásia. A doença começa com uma febre alta e pode ter dores de cabeça, no corpo e mal-estar. A transmissão ocorre por contato próximo.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, um total de 8.098 pessoas ficaram doentes no mundo, das quais 774 morreram. No mesmo ano a epidemia foi controlada.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Casas de banho da Roma Antiga eram loja, biblioteca e prostíbulo num só lugar

Foto: Marília Juste/G1

Antiga casa de banho preservada na região de Bath, 160 km de Londres, na inglaterra (Foto: Marília Juste/G1)

Casas de banho da Roma Antiga eram loja, biblioteca e prostíbulo num só lugar
Termas construídas antes de Cristo tinham água quente e eram gratuitas.
Espaços podiam abrigar milhares e centralizavam a vida social romana.


Giovana Sanchez

Imagine um só lugar onde você possa fazer compras, alugar livros, fazer ginástica e trilhas, ver obras de arte, comer, tomar um banho quente e até contratar uma prostituta. Pois assim eram as casas de banho da Roma Antiga. Em pleno século II A.C., os romanos criaram estabelecimentos que concentravam tudo o que a vida social exigia - e de graça. As construções eram enormes e chegavam a abrigar milhares de banhistas.

O ato de banhar-se era visto mais como uma atividade social do que como um ritual de higiene para os romanos. Era nas termas que eles fechavam negócios, falavam de política e fofocavam. Os banhos tinham horários separados para homens e mulheres e eram liberados para escravos.

Segundo Katherine Ashenburg, autora do recém lançado "Passando a limpo - O banho da Roma antiga até hoje", "eles faziam o banho ser parte da vida social, um lugar em que eles passavam algumas horas do dia. Era como nossos clubes, nossos cafés, nossos spas. Eles podiam fechar negócios e contratar uma prostituta no mesmo lugar."

As termas de Dioclécio chegaram a acolher até 3 mil banhistas e tinham 13 hectares. As de Caracala, que hoje são ruinas bem conservadas, tiveram mais de 11 hectares.

Água quente

Os romanos tinham um sistema próprio para esquentar a água e distribuir o calor para as várias salas e piscinas. Chamado hipocausto, o método consistia em uma fornalha que esquentava o ar e o espalhava pelos espaços ocos das paredes e subsolos. As águas eram aquecidas em calderões e espalhadas por bombas e canos de chumbo.

Prostíbulos

Apesar de haver uma lei moral que impedia mulheres de se banharem com homens, não havia nenhuma proibição formal para isso. Não eram poucas as mulheres que preferiam comprometer sua reputação a abrir mão de um prazer dentro das casas de banho.

Em conseqüência, quanto mais as termas entravam na moda, mais escândalos de prostituição e promiscuidade surgiam. Para cortá-los pela raiz, entre os anos 117 e 138, Adriano emitiu um decreto que separou os banhos, reservando horas diferentes para homens e mulheres.

Mas isso não impediu a prostituição dentro das casas. De acordo com Ashenburg, "a prostituição dentro das casas de banho era normal e acredito que eram coisas normais na sociedade romana".

Declínio

Com o fim do império romano e a ascensão do cristianismo, as termas entraram em decadência. A cultura do banho romano desapareceu lentamente e as termas viraram elemento de domínio aristocrático nos séculos VIII e IX. A Idade Média chegou e repudiou tanto a prática dos banhos comunitários como quase qualquer lavagem feita com água. "Foi o período mais sujo da história", explica Ashenburg.
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