terça-feira, 16 de dezembro de 2008

1968

nº 388 jul/ago 2008
Insatisfação com fôlego de gato

Quarenta anos depois, o combate dos anos 60 está longe de ter terminado

CECÍLIA PRADA

Arte PB


A expressão é de Zuenir Ventura, que acaba de reeditar seu livro 1968 – O Ano Que Não Terminou (lançado em 1988), acrescentando um segundo volume com entrevistas de pessoas que desvendam sua maneira de ver o período histórico: 1968 – O Que Fizemos de Nós. No quadragésimo aniversário desse ano memorável – que cristalizou a sinergia de um poder jovem para a chegada da revolução –, uma grande onda nostálgica agita intelectuais e militantes políticos de outrora, com multiplicação de depoimentos, lembranças e interpretações. Pois, como dizia Walter Benjamin, "um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois".

Mas em tudo o que se ouve ou se publica sobre os "meia-oito" há muito mais do que simples rememoração – há a constatação de que o combate iniciado então em vários fronts culturais e políticos está longe de terminado. Está vivo e atuante, renovado, transfigurado e ampliado – basta ver a indignação expressa por algumas personalidades conservadoras, como o presidente francês Nicolas Sarkozy, consciente de que "o espírito de 68 precisa ser eliminado". Uma revolução em termos mais amplos e puros do que a simples tomada do poder por uma esquerda autoritária foi iniciada na década de 1960, e ainda hoje se mantém em plena fermentação sob as camadas de acomodação consumista, sob o horror da violência institucional, sob os escombros de uma sociedade cotidianamente ameaçada pela ambição, pela corrupção generalizada, pela impunidade: nossa vivência.

As várias faces de 68

Na realidade não houve "um 1968" como movimento organizado que fosse se espalhando pelos vários países do Ocidente, mas manifestações de revolta com características diferenciadas nos vários países. Foi um ano de descontentamento generalizado, diríamos até de "reclamações gerais", mas muito mais do que isso: a aceleração histórica reconhecida no período anterior – o do pós 2ª Guerra Mundial – e a convicção de que o advento da Era Atômica, em 1945, marcara irreversivelmente a história da humanidade forneceram o fermento para as várias formas de contestação dos valores e dos privilégios herdados do século 19. Na Europa, especialmente na França, o questionamento assumia os aspectos da "contracultura" e desafiava o saber catedrático e enfatiotado. Sob a liderança do desaforado Daniel Cohn-Bendit, o Dany le Rouge, para surpresa dos pais e furor de Charles de Gaulle os meninos financiados pelas famílias estáveis saíam para armar barricadas e atirar paralelepípedos nos gendarmes. Embebidos de seus mestres de pensamento revolucionário antigos ou contemporâneos, de Marx e Trótski a Mao, Marcuse, Gramsci, Guevara e Debray, reviviam velhos slogans de 1789, "se queres ser feliz, enforca teu proprietário" – havia mesmo os radicalizantes, "enforca teu proprietário na tripa do último cura" –, embora no seu mundo não existissem mais esses mesquinhos exploradores do século 18, substituídos por outras engrenagens mais poderosas de trituração social. O "maio de 68" começou na França como movimento de liberação sexual e de costumes, depois conseguiu cooptar – não sem dificuldades – a desconfiada classe operária, sedenta de colocar em pauta suas reivindicações por maiores salários e melhores condições de trabalho.

O mesmo aconteceu em outros países europeus, como no Reino Unido, onde em março de 1968 havia 3 milhões de trabalhadores em greve. Na Itália, no dia 1º de março 3 mil estudantes tomaram a sede do jornal Corriere della Sera, em Milão – um emblema do conservadorismo. Pelo fim do ano, havia também na Itália 1 milhão de operários em greve. Segundo o historiador britânico Eric Hobsbawn, curiosamente era a prosperidade material do pós-guerra que estimulava tanto os estudantes como as classes trabalhadoras a "pedir mais" de uma sociedade que imaginavam mais justa, mais disposta a mudanças. Enquanto isso, nos países do leste europeu de regime comunista, a rebelião englobava um programa de reformas políticas. Em Varsóvia, os protestos realizados em março foram prontamente dominados e só tiveram como resultado o fechamento da universidade. Na então Tchecoslováquia, porém, a "Primavera de Praga", projeto de "dar uma face humana ao comunismo" eliminando seu autoritarismo, desenvolvido pelo presidente Alexander Dubcek, sofreu violenta repressão, com invasão do país pelo exército soviético, e passou à história como o registro heróico de um povo lutando por sua liberdade.

Nos Estados Unidos, desde o início da década de 1960 os movimentos civis de minorias – negros e mulheres – haviam eclodido, em uma onda progressista favorecida pela eleição do presidente John Kennedy. Após seu assassinato, em 1963, a violência se manifestou nos quebra-quebras de cidades por multidões negras que obedeciam a brados de guerra de seus líderes, como o burn, baby, burn. Em 1966, houve tumultos em 43 cidades, e nos primeiros nove meses de 67, em mais 164. O mais violento deles, em Detroit, deixou um saldo de 43 mortos, 7 mil presos, 1,3 mil construções destruídas e 277 lojas saqueadas – conforme dados revelados no livro The Unraveling of America, de Allen J. Matusow.

Contrabalançando o ódio racial do Black Power, o pastor negro Martin Luther King desenvolveu uma linha pacifista que visava à integração racial, com a obtenção racional dos direitos civis. Seu assassinato, em 4 de abril de 1968, só veio incrementar os conflitos e criar situações limítrofes em todo o país. Em junho de 1968 o irmão de John Kennedy, Robert , candidato à presidência pelo Partido Democrata, foi eliminado a tiros em Los Angeles, após vencer a eleição primária na Califórnia.

O movimento hippie americano que caracterizou a década se autodefinia em seus primórdios com a proclamação do poeta Gary Snyder, em San Francisco: "Nós somos os primatas de uma cultura desconhecida", e para muitos foi subestimado e englobado em um de seus slogans, sex, drugs and rock and roll. Apresentava, porém, uma plêiade de novos escritores e artistas, como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, que com seu não-conformismo e usando um estilo solto e espontâneo ajudaram a mudar o cenário cultural do país. No campo teatral, uma grande modificação de padrões se impôs durante a década de 1960, a partir de dois pólos: Nova York e San Francisco, espalhando-se depois para os países europeus e para a América Latina. O movimento hippie acabou por englobar a luta pelos direitos civis, a contestação das minorias, a liberação sexual – estimulada principalmente pela difusão da pílula anticoncepcional – e a euforia das drogas, da maconha ao LSD, de uso propalado pelo pesquisador Timothy Leary, tido pelo presidente Richard Nixon como "o homem mais perigoso do mundo".

Por volta de 1968 o movimento já ultrapassara o lirismo bem-comportado do make love, not war e endossara o grande brado pacifista que tentava pôr fim à Guerra do Vietnã, reunindo multidões cada vez maiores em "marchas pela paz" nas principais cidades americanas. Se esse objetivo não foi alcançado – a guerra só terminaria sete anos mais tarde –, as grandes passeatas tiveram pelo menos o efeito de fazer o presidente Lyndon Johnson desistir de se candidatar à reeleição.

Na América Latina, as manifestações estudantis ou populares foram exclusivamente votadas à luta contra os governos autoritários e militares. No México, confrontos nas ruas e na universidade deixaram 38 mortos. Mais tarde, um ato público na histórica Praça das Três Culturas (Tlatelolco) acabou em massacre, pois o governo, que se organizava para receber em outubro daquele ano os Jogos Olímpicos (exatamente como acontece atualmente na China) ordenou que se disparasse contra os manifestantes, matando de 200 a 300 pessoas. No Uruguai, vários enfrentamentos terminaram na decretação do estado de sítio. Na Argentina, na Colômbia e na Venezuela, o panorama era o mesmo.

Entre nós

No Brasil, se 1968 passou à história como o ano de um grande enfrentamento por parte de estudantes, intelectuais e classes trabalhadoras com as forças repressivas da ditadura militar instaurada em 1964, temos de lembrar que esse ano representou apenas a explosão de uma situação de radicalização política de ambos os lados, construída em toda a década de 1960. Elio Gaspari, em A Ditadura Envergonhada, caracteriza a década de 1960 no Brasil como "duas rodas (a da autoridade e a dos ‘aquarianos’ revolucionários) que giraram em sentido contrário, moendo uma geração e 20 anos da vida nacional", e faz o inventário de todos os atos terroristas de esquerda e de direita que vieram se alternando, disputando uma triste primazia histórica – se os militares inauguraram o ciclo quando atacaram a tiros o congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) que se realizava em julho de 1962 no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, em julho de 1966, a esquerda marxista-católica da Ação Popular (AP) já estava suficientemente fortalecida para marcar triste presença no atentado do Aeroporto de Guararapes, no Recife, com civis mortos e feridos.

O ano de 1968 foi, para nós, de batalhas, sangue, guerra declarada – em março a Ação Libertadora Nacional (ALN) de Carlos Marighella explodiu uma bomba no Consulado dos EUA em São Paulo, fazendo um ferido grave, e no Rio registrou-se "o episódio do Calabouço": um rapaz de 16 anos, Edson Luís, que almoçava no restaurante universitário assim denominado, foi morto pela polícia, transformando-se no estopim de uma grande batalha de rua entre policiais e estudantes, que teve como resultado quatro mortos – três estudantes e um PM. Em junho, dois ataques contra o governo militar foram realizados em São Paulo, comandados por ex-integrantes das Forças Armadas que haviam passado por treinamento intensivo em Havana: o primeiro , na noite do dia 24, contra o hospital militar do Cambuci, não deixou vítimas. Ao acordar, o comandante do II Exército, general Manoel Carvalho Lisboa, desafiou os revoltosos: "Atacaram um hospital, agora que venham atacar o meu quartel" – que ficava em ponto superprotegido, no Ibirapuera. Dois dias mais tarde, na madrugada de 26, novo ataque terrorista, desta vez contra o próprio quartel-general do Ibirapuera, causando a morte de um soldado de 18 anos que estava de sentinela e ferimentos em seis outros militares. No mesmo dia, horas mais tarde, realizava-se no Rio de Janeiro a pacífica e bem-organizada Passeata dos Cem Mil , que reuniu intelectuais, estudantes e trabalhadores em demonstração contra o governo militar. Durante o ano de 1968 registraram-se no Rio 20 atentados terroristas de direita, com a participação de militares, e foi desencadeada uma grande ação repressiva a espetáculos teatrais, atores, escritores e artistas em geral, em todo o país.

Em 2 de outubro, a Batalha da Rua Maria Antônia opôs estudantes do Mackenzie, membros do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), aos da Universidade de São Paulo (USP). Durou o dia inteiro, resultou no incêndio da histórica Faculdade de Filosofia da USP e na morte de um secundarista. Foi simultânea a atentados cometidos pelo líder comunista Carlos Marighella. No dia 12 de outubro a polícia prenderia 920 jovens reunidos no 30º congresso da UNE em Ibiúna (SP), desmontando a organização estudantil – segundo depoimento de um ex-militante, feito oito anos mais tarde (in Elio Gaspari, obra citada), o evento teria sido denunciado pelos próprios comandantes terroristas, "para que todos fossem presos" e não tivessem outra opção senão a clandestinidade e a luta armada. Zuenir Ventura, ouvindo ex-participantes, confirma que "Ibiúna teria funcionado um pouco como um laboratório da guerrilha, como provavelmente desejava Carlos Marighella". Nos anos seguintes, na guerrilha do Araguaia, morreram 156 jovens, universitários e secundaristas, 19 dos quais saídos do congresso de Ibiúna.

Na sinistra sexta-feira 13 de dezembro de 1968 foi decretado o ato institucional número 5, que fez definitivamente ficar para trás um mundo onde ainda eram possíveis passeatas, irreverências, tropicalismos, festivais, cabelos compridos e sexo livre, substituindo-o por uma sombria realidade de torturas, prisões arbitrárias, execuções, exílio e desaparecimentos.

Quadragésimo aniversário

A geração 68 ainda está presente em todos os setores da vida pública brasileira. Mas certamente a visão que aqueles jovens tinham do mundo – bem como a nossa deles – não pode mais ser unívoca e ingênua. Porque 1968 talvez tenha sido realmente o último ano em que foi possível ser ingênuo. Ou sonhar ilimitadamente com uma utopia que vestia formas bem definidas e tão rígidas como a ditadura que pretendia derrubar. A professora e crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda diz, em depoimento a Zuenir: "68 deu para a gente uma vontade quase obsessiva de que as coisas acontecessem e, sobretudo, mudassem". Mas acha que "essa atitude prepotente e intolerante dos anos 1960 e da geração 68, dona da verdade, felizmente acabou", e afirma a vitalidade atual de um novo tipo de cultura que reapresenta a velha energia, mas reciclada – a "cultura da periferia", dos "excluídos da globalização".

Caetano Veloso, autor e intérprete de canções que incomodaram muito os militares, como Soy Loco por ti, América, de Gilberto Gil e Capinan, feita em homenagem a Guevara, não hesita em dizer: "Não tenho de Guevara a imagem heróica que tinha na época [...] Mas, sob a ditadura militar brasileira, homenageá-lo num hino protobolivariano era desafiar a opressão estabelecida". Confessa que não pensa mais que "tudo é política" e diz que faz um esforço "para descontaminar meus gestos íntimos da natureza de mensagem ideológica".

Vai por aí a maioria dos depoimentos que nos vêm sendo dados em livros, jornais, na TV e até em filmes. Como em Hércules 56 , de Sílvio Da-Rin, que tira seu título do avião da Força Aérea Brasileira (FAB) que conduziu ao exílio no México os implicados no seqüestro, em 1969, do embaixador americano no Rio de Janeiro, Charles Elbrick. Os nove guerrilheiros vivos ainda estão admirados de sua audácia – não sem razão. Franklin Martins, ex-militante e hoje titular da Secretaria de Comunicação Social do governo Lula, põe o dedo em uma ferida, a questão da validade da "luta armada" organizada no país após 1968, e confessa: "Acho que, do ponto de vista político, naquelas condições ela não contribuiu para fortalecer a resistência contra a ditadura. Foi um erro que cometi, estando do lado certo". Mas acha que seria pior ter ficado indiferente e omisso.

Em entrevista incluída no livro Histórias do Poder (vol. I), organizado por Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomão, o coronel Jarbas Passarinho, que foi várias vezes ministro dos governos ditatoriais, enfatiza que na realidade depois do golpe os militares "só queriam promover uma intervenção rápida e incisiva no país". Na sua opinião, a provocação da esquerda, a organização da subversão e a guerrilha do Araguaia foram causas atuantes da prorrogação do estado de exceção. Ou, antes, o pretexto. O que também José Serra, saído da Ação Popular marxista-católica, confirma, falando da radicalização da classe média e do establishment militar, assombrados pela "idéia de que havia um perigo subversivo que crescia em progressão geométrica, em vez de crescer em progressão aritmética, que é o que acontecia de fato – muito mais lentamente do que se poderia supor".

Há um sentimento generalizado de que os jovens das duas gerações pós-68 deixaram de se preocupar com política, enrolaram suas bandeiras, murchos, e se tornaram conformistas, medíocres – nada heróicos. Em vez de querer modificar o mundo, os yuppies e subseqüentes estão mais interessados em adquirir status, corpo sarado, camisas de grife, motos endiabradas, e em endeusar o prazer, os esportes radicais, as drogas.

"O sonho acabou", disse John Lennon, ou melhor, cantou, em 1972. Mas isso não é bem verdade. Se essa superficialidade toda houvesse tomado realmente conta da cena, por certo monsieur Sarkozy e outros tantos não estariam de cenho franzido caçando o "espírito de 68" que ainda lhes tira o sono. Fato é que, por detrás de todo o delírio fosforescente do mundo midiático, persistem os "idealistas" de sempre, os "engajados", os "sonhadores" – os que morrem defendendo uma floresta, ou que passam uma vida em pesquisas, em estudos, em obras sociais, cada vez mais desligados de arregimentações espúrias e partidos. A grande agitação que tomou conta do mundo após a 2ª Guerra, o anseio de liberdade dos povos – a revolution of rising expectations inaugurada em outro ano fundamental na história da humanidade, o de 1945 –, a consciência dos problemas ecológicos que o mundo enfrenta, a luta das minorias pelos seus direitos, tudo isso prossegue, sob novas formas.
Revista Problemas Brasileiros

No ápice do tráfico, Brasil recebeu 775 mil crianças escravas

Pablo Uchoa*
De Londres - abril de 2007

Crianças escravas aparecem em imagem de 1857 (Cortesia New York Public Library)
Pelo menos 775 mil crianças africanas foram escravizadas e levadas para o Brasil nos primeiros cinqüenta anos do século 19, em um período em que o tráfico negreiro atingiu o ápice de sua sofisticação, indicam dados cruzados a partir de novas informações sobre a era da escravidão.
Crianças foram ganhando a preferência dos traficantes porque, entre outros aspectos, eram mais "maleáveis" que adultos, indicam novas pesquisas publicadas duzentos anos após a lei britânica que proibiu o comércio de escravos.

No fim da era escravagista, um em cada três africanos escravizados era criança, nas estimativas do historiador David Eltis, da Universidade de Emory, em Atlanta, um dos maiores especialistas mundiais no tema.

Segundo Eltis, cerca de 12,5 milhões de escravos deixaram a costa da África entre 1500 e 1867, quando se tem registro do último carregamento. Em torno de 10 milhões chegaram aos seus destinos nas Américas.

Nos cálculos do pesquisador, dos 5,5 milhões de pessoas que tinham como destino o Brasil, apenas 4,9 milhões desembarcaram em portos brasileiros.

'Maleáveis'

Os dados de Eltis indicam que quase 2,3 milhões de escravos foram enviados ao Brasil entre 1800 e 1850 – destes, ele acredita que 775 mil eram crianças.

A alta proporção de menores de 15 anos entre os escravos já era conhecida dos pesquisadores – há estimativas que a colocam em até metade do total –, mas novos dados oferecem novas explicações para este fato.

Um estudo de caso publicado na última edição do Journal of Economic History pelos pesquisadores David Richardson, da Universidade britânica de Hull, e Simon Hogerzeil, do Centro Psicomédico Parnassia holandês, mostrou que crianças reagiam melhor à travessia que os adultos.

Richardson disse à BBC Brasil que, além disso, "no fim da era escrava havia uma percepção geral, por parte dos mercadores, de que as crianças eram mais maleáveis que os adultos, que poderiam ser treinadas em habilidades específicas".

Analisando 49 viagens de navios negreiros holandeses entre 1751 e 1797, os pesquisadores observaram que crianças eram compradas antes, porque reagiam melhor à experiência traumática.

Comparada à de um adulto, sua taxa de mortalidade era a metade, calcularam os pesquisadores.

No fim da era escrava havia uma percepção geral, por parte dos mercadores, de que as crianças eram mais maleáveis que os adultos, que poderiam ser treinadas em habilidades específicas.
David Richardson, historiador
Assim, uma criança tinha mais chance que um adulto de passar longos períodos – até um ano, no caso estudado – dentro de um navio negreiro, entre todas as fases do tráfico.

Antes que o navio zarpasse para a viagem transatlântica propriamente dita, uma criança passava em média quatro meses dentro da embarcação – um prazo mais de 40 dias superior ao passado por homens.

"Em outras palavras, as estratégias de compra dos mercadores expunham crianças a riscos por mais longos períodos de tempo que os adultos", disse Richardson.

Em uma viagem típica, os navios da Middelburgsche Commercie Compagnie, que operava no oeste africano, zarpariam com 253 escravos, perderiam 33 ao longo do trajeto e venderiam 220 nas Américas.

Sobrevivência

As observações dos pesquisadores não eliminam a validade de explicações levantadas anteriormente, que atribuíam a forte escravização de crianças à escassez de adultos em determinadas áreas da África.

Outra razão, levantada em entrevista à BBC Brasil pelo historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, destaca que senhores brasileiros podem ter sentido necessidade de "importar" mais mulheres e crianças para garantir mão-de-obra futura caso o tráfico negreiro fosse proibido.

Richardson e Hogerzeil destacaram, no entanto, que as condições de aprisionamento dos homens adultos podem estar relacionadas às taxas de mortalidade menores de crianças.

Os homens, comprados aos poucos durante a "fase de carregamento" do navio, entravam em grande quantidade no final da etapa, a menos de um mês ou até a menos de uma semana da partida, verificaram os pesquisadores.

"As condições dos escravos no momento da embarcação é criticamente importante para determinar por que eles sucumbiam mais durante a travessia", diz o estudo.

"Isto pode estar associado a pressões sobre os capitães para levar homens adultos para satisfazer as expectativas dos compradores, o que os encorajava a ser menos rigorosos na seleção."

"Os homens também eram tipicamente vistos como instigadores de rebeliões dentro dos navios, e sofriam mais fatalidades durante esses incidentes."

"Além disso", justificam os pesquisadores, "os homens eram normalmente encarcerados em celas separadas de mulheres e crianças, e normalmente ficavam presos por ferros, sobretudo quando o navio ainda estava próximo da África".
BBC Brasil

* Colaborou Sílvia Salek, de Londres.

Brasil dominou tráfico de escravos no mundo


Jornal de 1860 ilustra navio capturado quando ia para Cuba (Imagem New York Public Library)
O mais completo banco de dados já organizado sobre o tráfico de escravos no mundo confirma que o Brasil e os portugueses tiveram um papel central no comércio negreiro durante séculos.

Hegemonia

Para pesquisadores brasileiros, a nova edição online é ainda mais importante porque o grosso das informações adicionadas no banco trata de expedições à América Latina, em especial ao Brasil.

Mais de 5,2 mil jornadas de navios brasileiros e portugueses foram mapeadas pela primeira vez. Levando em conta todas as nacionalidades, quase 20 mil viagens que já estavam incluídas na primeira edição ganharam novos dados.

Eltis e Richardson sublinham que os novos dados mostram uma hegemonia de portugueses e brasileiros no comércio de escravos "bem maior do que pensávamos há cinco anos".

Embarcações brasileiras e portuguesas carregaram quase 5,8 milhões de escravos, cerca de 95% deles para o Brasil. Navios britânicos, que o senso comum julga serem os mais ativos no comércio negreiro, levaram cerca de 3,1 milhões.

"Os ingleses, na verdade, não foram os maiores mercadores de escravos, como muitos supõem. Agora, parece que a dominância britânica do tráfico de escravos se resumiu a apenas oito de treze décadas entre 1681 e 1807, entre dois longos períodos de hegemonia brasileira e portuguesa em que a participação britânica foi trivial", escrevem os pesquisadores.

'Chutômetro'

Os novos dados conferem nova dimensão a fatos já conhecidos de historiadores brasileiros, como o de que o comércio de escravos era dominado por agentes baseados no Brasil e não em Portugal – ou seja, na colônia, e não na metrópole.

Estudos conduzidos pelo historiador da UFRJ Manolo Florentino mostraram que três quartos dos mercadores que controlavam o tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro entre 1790 e 1830 eram sediados no Brasil.

Outra informação que o banco de dados contesta é a de que um contingente igual ao dos mais de 10 milhões de escravos que chegaram às Américas morreu na travessia.

O mapeamento indica que 12,5 milhões deixaram a costa africana durante o período da escravatura, ou seja, o número de mortos ficaria em torno de 2,5 milhões.

"Estas estimativas foram feitas em uma época em que se trabalhava com o 'chutômetro'", diz Florentino. "O trabalho de Eltis e Richardson tem o mérito de criar uma padronização, e de aproximar da realidade as estatísticas."

Mar de informação

Usuários poderão examinar de onde saiu e onde chegou cada uma das embarcações, a duração da viagem, quantos escravos foram comprados e vendidos (e a que preço), a nacionalidade do navio e até o nome do capitão.

Na introdução da obra, a ser publicada pela imprensa da Universidade de Yale, os organizadores esperam oferecer subsídios para o que chamam "uma nova era de estudos sobre o comércio escravagista".

Os artigos, assinados inclusive por pesquisadores brasileiros, como o historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, oferecerão uma primeira interpretação da mais completa base de dados sobre o tráfico negreiro disponível no mundo.

O professor David Richardson, da Universidade de Hull, explica que a idéia por trás do banco de dados é prover informações para que pesquisadores se debrucem sobre aspectos menos conhecidos do tráfico negreiro.

"Existe uma mudança em relação à pesquisa sobre o tráfico negreiro. Já temos o quadro geral de como a atividade funcionava, agora precisamos desconstruir essas viagens e analisar o que realmente acontecia nos navios", diz Richardson.

"O estudo do dia-a-dia do tráfico negreiro é que vai trazer seres humanos para dentro da História, fazer com que os escravos deixem de ser apenas números."
BBC Brasil - abril de 2007

Cidade Maravilhosa, à beira-mar plantada

edição 19 - Maio 2005

O Rio de Janeiro se transformou sem perder sua beleza natural, realçada por recantos artificiais como a floresta da Tijuca.
por Mirian Ibañez


Cartão-postal do Brasil, no imaginário de quem quer que venha do exterior em busca de suas belezas, o Rio de Janeiro "continua lindo", como diz a letra da canção Aquele abraço, do agora ministro da Cultura, Gilberto Gil. A referência é especialmente relevante se compararmos paisagens antigas com atuais. É o caso da enseada de Botafogo. O contorno sinuoso ganhou esguias palmeiras, assim como prédios onde no início do século havia raras edificações quase debruçadas sobre o mar, em meio à vegetação nativa que não mais existe. O Rio de Janeiro ganhou seu maior adjetivo nos idos de 1934, quando o compositor baiano André Filho lançou a marcha carnavalesca Cidade maravilhosa, sucesso imediato transformado em hino.

A cidade foi fundada em 1o de março de 1565, por Estácio de Sá, sobrinho do 3o governador-geral do Brasil, Mem de Sá. Naquelas origens, o terreno urbano estava localizado na Urca, mas depois foi transferido, por questões de segurança, para o morro do Castelo. O progresso que viveu em seguida levou as autoridades coloniais a elevá-la a capital do vice-reino em 1763. Nessa condição, em 1808, recebeu a família real portuguesa, em sua mudança de domicílio para fugir à ânsia expansionista de Napoleão. E se beneficiou do status de centro de poder consagrado pela proclamação da República, em 1889. Só perdeu a primazia de capital federal em 1960, quando o governo central mudou para Brasília.

Inúmeras são as atrações desse urbanizado perímetro à beira da baía de Guanabara, a começar por sítios tão emblemáticos como o Cristo Redentor e o morro da Urca.
Desde as praias mais conhecidas, como Copacabana, a bairros com charme muito particular, como Ipanema, ela tem muito a oferecer para quem tenha disposição de desvendar seus recônditos. O morro de Santa Tereza, por exemplo, de onde se pode baixar nos velhos bondes que terminam a viagem nos Arcos da Lapa. Estes, construídos entre 1719 e 1725, serviam originalmente de aqueduto para o rio Carioca.


A paisagem exuberante se mescla à obra do homem através do tempo. A própria natureza, aliás, foi recriada ali, na floresta da Tijuca, reconstituída com suas espécies nativas em 1861, por ordem de D. Pedro II. A devastação aconteceu a partir do momento em que a corte portuguesa se transferiu para o Brasil, em 1808, porque o centro urbano se expandia e havia necessidade de usar madeiras como fonte de energia. Mais adiante, cafezais tomaram o lugar da cobertura original. A floresta, marco divisório entre as zonas Norte e Sul da cidade, integra um parque nacional com cerca de 33 km2, aberto à visitação e com pontos de muito interesse, entre os quais a pedra da Gávea. Outro ponto turístico marcante é o Jardim Botânico, criado em 1808 pelo príncipe regente, que mais adiante assumiria o título de D.João VI. Sua primeira designação foi Real Horto, plantado com mudas trazidas das ilhas Maurício.

Revista História Viva

Politicagem à brasileira: o gosto pelo poder



Politicagem à brasileira: o gosto pelo poder
Premiada pelo Arquivo Nacional em 2005, tese faz a gênese da velha arte de governar no Brasil.

A elite quer se perpetuar no poder. Para isso inúmeras estratégias são desenvolvidas por ela. Não importa o tipo de regime adotado, desde a independência em 1822 até o Estado republicano foi sempre do mesmo jeito. A elite quer participar e dar as cartas do jogo político. Seus integrantes são unidos por amplas teias de relacionamentos pessoais, negociações entre o público e o privado, entre grupos e instituições, com sucessivos realinhamentos. A dinâmica dessas relações, embora tenha um caráter aparentemente conjuntural, oculta a lógica do modelo político. Essa conclusão, óbvia à primeira vista, reflete muito bem o modo de fazer política na história do Brasil. Mas é dessa forma que a tese de Maria Fernanda Vieira Martins - A velha arte de governar: um estudo sobre política e elites a partir do Conselho de Estado (1842-1889) - se encerra.

A origem (ou pelo menos parte) do jogo político e das estratégias de poder no Brasil independente pode ser entendida nesse trabalho. O Conselho de Estado (1842-1889) era um órgão que atuava como Poder Moderador e tinha a função de arbitrar as questões nacionais inspirado pelo liberalismo europeu. Isto é, a isenção e o comprometimento com a lei desejáveis numa monarquia constitucional moderna.

Criado em 1823, logo após a Independência, o Conselho de Estado foi extinto em 1834 na reforma constitucional. Recriado em 1841, após a declaração da maioridade de D Pedro II em julho, que acontecera em 1840, atuou de 1842 até as vésperas da proclamação da República em 1889, quando foi extinto.
Para estudar o Conselho, a autora investigou a origem dos membros desse grupo, ou seja, a elite. Maria Fernanda entende como elite brasileira os grupos econômicos ligados aos novos setores (lavoura cafeeira) e a velha nobreza rural. Os homens, filhos dessas poderosas famílias - concentradas nos estados do Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais -, foram influenciados pelos pensamentos liberais europeus e americanos durante seus estudos de direito, principalmente na Universidade de Coimbra. Muitos desses membros da elite alcançavam altos postos na administração pública e poderiam ser simultaneamente capitalistas, negociantes, intelectuais e políticos. Portanto, para entender o Conselho de Estado, diz a autora, é fundamental entender sua relação com as elites.

Esses indivíduos eram políticos de diversas origens e tendências. O cargo era vitalício, e todos os membros deviam atender as consultas dos ministros e do imperador. Deveriam também arbitrar negociações de guerra e paz com outras nações, conflitos entre autoridades administrativas e judiciárias e os abusos da Igreja.

A ênfase desse trabalho vai muito além de simplesmente entender a atuação do Conselho de Estado na política imperial, mas sobretudo em detalhar as redes de relações e estratégias políticas construídas pelos 72 membros que formaram esse grupo, ou, nas palavras da autora, redes de sociabilidade e parentesco. Essas redes definiram as decisões, objetivos e propostas vinculadas aos laços e compromissos assumidos entre os membros dessa elite. É importante ressaltar que a autora entende essas redes tanto como transações inerentes ao próprio Conselho quanto na sua relação com a sociedade, pois muitas vezes os membros estavam ligados entre si por laços de parentesco ou outros tipos de alianças. Para isso recorre aos historiadores da micro-história (Giovanni Levi, Michel Trebitsch, Henrique Espada Lima, entre outros) com o objetivo de analisar o grupo na sua particularidade e na sua relação com o coletivo.

Assim, esses conselheiros encarregados de decidir e aconselhar a política da nova monarquia constitucional muitas vezes trabalhavam em benefício próprio. A lei, representação máxima do Estado moderno, nas mãos de instâncias não representativas - nesse caso as elites deliberando para o Conselho - assume um caráter coercitivo a fim de alcançar seus objetivos e interesses.
O trabalho foi dividido em três partes que comportam um total de cinco capítulos. A primeira delas, "Estado, monarquia e elites do segundo reinado" - capítulo 1 -, contextualiza o cenário político após a independência e as bases do Estado imperial brasileiro no século XIX.

Na segunda parte, "Trajetórias e Redes" - capítulos 2 e 3 -, a autora problematiza o perfil da elite imperial: suas origens, seus bens, sua formação e produção intelectual. Além disso, nessa parte são analisadas as relações de sociabilidade e parentesco. Nesse momento, a tese toma proporções. Percebe-se no detalhe a importância das relações interpessoais, os interesses de grupo e suas estratégias políticas.

Na terceira parte, "A prática institucional" - capítulos 4 e 5 -, a autora mostra a prática política do Conselho de Estado e sua principal função de auxiliar a monarquia a exercer o papel de árbitro dos conflitos e a conciliação de interesses. O último capítulo traz uma reflexão acerca da fase final do Conselho e sua postura diante da escravidão, do declínio de sua ação às vésperas da Proclamação da República em 1889, quando se extingue, consolidando o projeto político da elite no modelo de Estado que foi construído no Brasil.

Com essa tese, Maria Fernanda inova e consolida seu trabalho na historiografia brasileira. Para além da bipolaridade das relações entre conservadores e liberais ou burocratas e a classe senhorial no interior das elites - comuns às análises da historiografia de referência de Ilmar R. Mattos e José Murillo de Carvalho, entre outros -, a autora propõe uma nova abordagem. Esta leva em conta as múltiplas direções que esse processo apresenta na história dessas elites, de sua cultura política e de sua necessidade de manter-se no poder, mesmo que a estrutura estatal mude.

Defendida na Universidade Federal Fluminense em maio de 2005, a tese teve a orientação de João Luís Ribeiro Fragoso e contou com a banca de argüição de Angela de Castro Gomes (UFF), Lúcia Maria Paschoal Guimarães (UERJ), Maria de Fátima Gouvêa (UFF) e Marieta de Moraes Ferreira (UFRJ). Recebeu o prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa no ano de 2005 e será publicada no ano que vem.
Sobre o trabalho
TÍTULO: A velha arte de governar: um estudo sobre política e elites a partir do Conselho de Estado (1842-1889)
AUTORA: Maria Fernanda Vieira Martins
INSTITUIÇÃO: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
ORIENTADOR: João Luís Ribeiro Fragoso
DEFESA: abril de 2005
Revista História Viva

Nassau, um pragmático utópico


edição 32 - Junho 2006

Biografia enfatiza a passagem do representante do poder holandês pelo Brasil, traçando um perfil original a partir de pesquisa inédita e abundância de detalhes.
por Paulo Miceli

Em meio à intrincada trama, tecida pelas rivalidades que, na Europa de fins da Idade Média, opunham e aproximavam os Estados nacionais em formação, a partilha do mundo ocupou lugar de destaque. Enquanto proliferavam alianças e tratados, de pouca eficácia, duração efêmera e obediência mantida apenas pelo uso da força, a guerra moderna acabou transformando em miniatura os exércitos envolvidos nas cotidianas batalhas medievais e, assim como o capitalismo nascente, ampliou seu cenário à escala do planeta. Nesse universo de rivalidades, o Brasil merece registro à parte, já que sua imensa costa, aberta para o Atlântico, emoldurava um território de riquezas que atiçou a cobiça estrangeira, desde o início do século XVI, atraindo os interesses de todas as nações que possuíssem marinha. E foi por conta da ineficácia das ações diplomáticas que coube aos canhões delimitar os territórios do grande mosaico.

Nesse quadro, sumariamente traçado, é possível encaixar o chamado "Brasil holandês", decorrência direta dos conflitos intra-europeus, especialmente quando a unificação das coroas ibéricas (1580-1640) estendeu a Portugal e a seus domínios ultramarinos as rivalidades mantidas pela Espanha, o que incluía a Holanda e, grosso modo, acabou justificando a invasão do Brasil pelos batavos, em 1624. Em meio aos abundantes registros historiográficos sobre a ocupação do Nordeste, destaca-se a figura de João Maurício de Nassau-Siegen, responsável principal pela consolidação da conquista batava, a partir de sua chegada, em 17 de janeiro de 1637.
Curiosamente, faltava-nos uma investigação mais aprofundada sobre o papel desempenhado pelo governador do Brasil holandês, lacuna agora preenchida pela "biografia brasileira de Nassau", escrita por Evaldo Cabral de Mello. "Brasileira", explica o autor, porque embora o livro descreva a trajetória de João Maurício, desde as origens da família (genealógicas ou lendárias), e termine com a baixa no exército holandês (1676) e sua morte, três anos depois, o foco principal da biografia foi o período em que Nassau viveu no Brasil. Além de manter constante a interlocução que teve, e agora perpetua, com o maior conhecedor do Brasil holandês, J. A. Gonsalves de Mello, com quem dialoga em várias passagens do livro, o biógrafo pesquisou documentação abundante - a maior parte inédita no Brasil -, buscada em arquivos e bibliotecas estrangeiras. O resultado foi uma erudita narrativa, construída com minúcias até difíceis de se acompanhar numa primeira leitura, mas que desenham um perfil absolutamente original e preciso de Nassau.

Tendo sempre em mente as influências que o ambiente da "primeira economia moderna" exerceu na formação do governador - como, por exemplo, a tolerância religiosa, que tanto facilitaria sua atuação no Brasil -, Cabral de Mello apresenta-nos os passos iniciais de sua carreira militar, até a destacada atuação em Maastricht, em 1632, quando chefiou forças para romper um cerco imposto pelas tropas inimigas, "proeza que lhe valeu o comando de um regimento de cavalarianos". A partir daí, enquanto prosseguiam as lutas no Nordeste brasileiro, a trajetória de Nassau tomou forte impulso, e a lentidão da ocupação do Nordeste é que teria colocado a necessidade de se escolher "um chefe com autoridade bastante para exercer a gestão unificada da colônia". Nassau foi o eleito, abrindo-se para ele novos e vastos horizontes, capazes de satisfazer "suas ambições de avanço profissional, até então sofreadas pela lentidão da carreira militar".

A formação intelectual de Nassau também mereceu tratamento detalhado no livro, a começar pelo ambiente familiar e pela atuação de tutores, o aprendizado de idiomas e os estudos de retórica, história, filosofia, teologia e astrologia. À matemática, de grande importância para a carreira militar, acrescentaram-se conteúdos destinados a preservar uma cultura militar nobiliárquica, como a equitação e a esgrima, além da música e da dança. Formaram-se, assim, as raízes de sua grande curiosidade artística e científica, responsável pela inclusão, dentre as exigências apresentadas à Companhia das Índias Ocidentais, da possibilidade de trazer ao Brasil seu grupo de artistas e cientistas.
Em síntese, da leitura de Nassau - governador do Brasil holandês, sobra-nos a impressão de que ele conjugava os ideais renascentistas de valorização do indivíduo, o que o habilitaria a organizar, pela razão, o seu mundo e o dos outros, e as aspirações utópicas, materializadas na construção de palácios, em meio a jardins e cidades, cuidadosamente planejados, sem abdicar do pragmatismo a que estava obrigado, por suas relações nem sempre cordiais com o Conselho dos XIX, que dirigia as ações da Companhia das Índias Ocidentais, a partir de Amsterdã. Tudo isso, aliás, era feito, sem que o governador descuidasse de seus interesses particulares, alicerçados em uma brilhante carreira militar e política, sempre muito bem remunerada. Nassau conseguiu, assim, formar razoável patrimônio, que ele tentou ampliar até o final da vida. Exemplo disso foi o oferecimento dos "retratos de todo o Brasil" a Luís XIV, aconselhando-o a utilizar a obra dos artistas que manteve durante seu governo no Brasil na confecção dos gobelins. A brasiliana foi exposta no Louvre, sem a presença de Post, vitimado pelo alcoolismo, Nassau morreu logo depois, antes de receber o pagamento acordado, fabricando-se as famosas séries de tapetes (Anciennes Indes e Nouvelles Indes) apenas dez anos depois.

Enfim, paradoxalmente, da guerra sobreviveu principalmente a arte, mas, depois da leitura deste livro, o perfil do governador do Brasil holandês não poderá mais ser reduzido a seu fracasso militar no Nordeste.
Revista História Viva

Como a elite articulou 1964


edição 34 - Agosto 2006

O complexo Ipes/Ibad foi o verdadeiro partido da burguesia, segundo René Dreifuss em A conquista do Estado.
por Oscar Pilagallo
A interpretação de que a derrubada do presidente João Goulart em 1964 resultou não apenas de um golpe militar deve-se em grande parte ao trabalho de um cientista político uruguaio: René Dreifuss.

Em 1981, quando o ciclo militar aproximava-se do fim, o autor publicou 1964 - A conquista do Estado, em que expôs a minuciosa pesquisa documental que demonstrou a participação da sociedade civil na ação dos militares.Até a divulgação do trabalho de Dreifuss não se tinha a dimensão exata da articulação dos civis. Sabia-se que o afastamento de Jango, um presidente considerado fraco e refém dos sindicalistas de esquerda, ia ao encontro dos interesses do grande capital. Sabia-se também que as manifestações públicas da classe média nos últimos dias do governo civil haviam dado o empurrão final no presidente.

O papel dos civis, no entanto, foi muito mais importante. Dreifuss mostrou a atuação de grande parte do empresariado brasileiro e de representantes de multinacionais reunidos no Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), fundado no final de 1961. "O Ipes não era com certeza, como freqüentemente é descrito, um movimento amador de empresários com inclinações românticas ou um mero disseminador de limitada propaganda anticomunista; era, ao contrário, um grupo de ação sofisticado, bem equipado e preparado; era o núcleo de uma elite orgânica empresarial de grande visão, uma força-tarefa estrategicamente informada, agindo como vanguarda das classes dominantes", na definição de Dreifuss.
Mais focado em estratégias, o Ipes tinha um fundamental braço de apoio no Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que agia como unidade tática, respondendo por atividades secretas.Os dois se complementavam. "No curso de sua oposição às estruturas populistas, ao Executivo nacional-reformista e às forças sociais populares, o complexo Ipes/Ibad se tornava o verdadeiro partido da burguesia e seu estado-maior para a ação ideológica, política e popular."Intelectual de esquerda, René Dreifuss (1945-2003) deixou vários estudos sobre a relação entre forças armadas e sociedade civil na América Latina.

1964 - A conquista do Estado é sua grande contribuição à historiografia brasileira. O trabalho de pesquisa foi tão extensivo que, na época de sua publicação, quando se transformou em best seller das ciências políticas, o autor chegou a ser criticado por expor intelectuais e empresários que teriam tido envolvimento marginal com os institutos. O livro, no entanto, resistiu ao tempo, como se pode verificar em sua reedição pela Editora Vozes. Pela grande quantidade de nomes citados, a obra ganharia em utilidade se tivesse um índice remissivo. Sem contar com esse instrumento de consulta, o leitor é obrigado a enfrentar as quase 900 páginas e cruzar, ele próprio, as referências. É pena que a editora não tenha aproveitado a repaginação, que facilitou a leitura, para oferecer também esse serviço. De qualquer maneira, os historiadores agradecem por não terem mais que garimpar o livro em sebos.
Sobre o livro
1964 - a conquista do estado - ação política, poder e golpe de classe. René Armand Dreifuss; Vozes; 899 págs
Oscar Pilagallo é jornalista e autor de A História do Brasil no século 20 (em cinco volumes), O Brasil em sobressalto e A aventura do dinheiro, todos pela Publifolha.

Revista História Viva

magem de mártir, perfil de herói

edição 39 - Janeiro 2007

Imagem de mártir, perfil de herói


por Adriana de Oliveira
Sua história é bem conhecida: um alferes e dentista mineiro condenado e executado pela Coroa portuguesa em 1792 por lesa-majestade. Seu crime: liderar um movimento pela Independência do Brasil. Sua punição: enforcamento, esquartejamento e exposição pública das partes de seu corpo.

A representação iconográfica mais original de Tiradentes - o imenso quadro pintado em apenas 12 dias por Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905) em 1893, única obra que apresenta o inconfidente enforcado e aos pedaços - ficou "esquecida" por quase um século. Foi desprezada nos momentos em que a história lançou mão do mito de Tiradentes, como no início da República, no governo Vargas e na ditadura militar. A imagem "escolhida" para representar Joaquim José da Silva Xavier no panteão nacional foi a de um homem de cabelos longos e túnica branquíssima, pintada por Décio Villares (1851-1931) em 1890. Em sua tese em história da arte, Maraliz de Castro Vieira Christo analisa a produção, a circulação, a recepção e as releituras da tela Tiradentes esquartejado para compreender seu longo período de esquecimento e recente descoberta, a partir de dois momentos privilegiados de visibilidade - a XXIV Bienal de São Paulo (1998) e a Mostra Redescobrimento do Brasil + 500 anos (2000), ambas em São Paulo.
Apesar de ter sido realizada por um pintor oficial do Império - principalmente por Independência ou morte (1888), que, ao lado de Primeira missa no Brasil (1861), de Victor Meirelles (1832-1903), tornou-se um dos principais símbolos da pintura histórica nacional -, a tela Tiradentes esquartejado foi rejeitada pela crítica em sua primeira exposição no Rio de Janeiro, no ano de sua aparição (1893).

Nela, o artista dispôs o corpo do herói, representado praticamente em tamanho natural, desmembrado em quatro partes, adornado por grilhões, corda e crucifixo. Posicionado aos pés do mártir, o observador vê a alva que destaca o corpo do cadafalso, a túnica azul que o reintegra ao fundo celeste, ao mesmo tempo que o distancia da perna direita espetada em uma haste de madeira, em primeiríssimo plano. Para conferir maior dramaticidade à cena, Pedro Américo coloriu áreas precisas com sangue, que atraem o olhar tanto para a cabeça e a perna espetada quanto para as linhas delicadas do tronco e da perna sobreposta.

Desde 1893 até a década de 70, quando passou ser reproduzida em enciclopédias e livros didáticos, a tela foi considerada desrespeitosa, sendo por isso evitada. O silêncio sobre a obra foi quebrado em 1975 por Pietro Maria Bardi em História da arte brasileira: pintura, escultura, arquitetura e outras artes e apenas em 1990 ganhou uma análise mais detalhada pelo historiador José Murilo de Carvalho em A formação das almas: o imaginário da República no Brasil.

Além de percorrer a fortuna crítica e os usos políticos do quadro de Pedro Américo, Maraliz desenha o contexto em que ele foi concebido e compara o trabalho do artista ao do historiador em sua busca de equilíbrio entre a veracidade histórica e a liberdade de criação. Para pintar Tiradentes esquartejado, Pedro Américo pesquisou vários autores, fiando-se principalmente na obra do historiador Joaquim Norberto de Souza e Silva (1820-1891), História da Conjuração Mineira: estudos sobre as primeiras tentativas para a independência nacional, de 1873, indicação do diplomata José Maria da Silva Paranhos Júnior (1845-1912), o barão do Rio Branco, de quem o artista era amigo e com quem trocou extensa correspondência sobre pintura histórica.
O quadro não foi concebido por Pedro Américo como uma pintura isolada, mas como parte de uma narrativa sobre a precariedade da Conjuração Mineira. Inacabada, a série se constituiria de outras telas: Tomás Antônio Gonzaga representado como um anti-herói a bordar, e não como líder intelectual do movimento, pois na prisão o poeta teria negado seu envolvimento com a conjura, dizendo-se ocupado em bordar a fio de ouro o vestido nupcial de sua Marília; a mais importante das reuniões dos conjurados, onde estes, reticentes, ouvem Tiradentes; a cena da constatação da morte de Cláudio Manuel da Costa, em que o pintor não se decide pelo suicídio ou pelo assassinato do poeta, e evidencia a fragilidade do inconfidente morto por ter denunciado os amigos; a prisão de Tiradentes numa casa antiga à rua dos Latoeiros, preâmbulo à cena do esquartejamento; e, por fim, um Tiradentes supliciado.

A análise do quadro, que tanto pode fascinar quanto repugnar, abre um debate atual na historiografia da arte: a representação do corpo humano e do herói. Nas releituras da obra de Pedro Américo, vários artistas desprezaram a interpretação de Tiradentes como herói e sua tradicional sacralização como citação explícita da Pietà (1499) de Michelangelo (1475-1564), para enfatizar sua violência. Arlindo Daibert (1952-), na série de desenhos Açougue Brasil, de 1978, e Sandro Donatello Teixeira (1945-), em O massacre de Tiradentes, de 1976 e 1992, isolaram a perna espetada para transformá-la numa metáfora da tortura dos anos 70. Ao agigantar o cadafalso e a forca visando evidenciar a fragilidade do corpo de Tiradentes, em Mantenha a liberdade quae sera tamen, de 1979, Wesley Duke Lee (1931-) também alinha o conteúdo da tela do artista à cena da ditadura militar. Na instalação Reflexo de sonhos no sonho de outro espelho, de 1998, Adriana Varejão (1964-) satura o olhar com fragmentos do corpo do inconfidente, refeito em manequim e desfeito em reflexos, aludindo à despersonificação do homem.

O trabalho recebeu o prêmio de melhor tese em história de 2006, concedido pela Capes - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
Adriana de Oliveira é jornalista
Revista História Viva

Em São Paulo, 23 dias de revolução


Autora percorre escombros com “instantâneos” do movimento contra Bernardes
por Alfio Beccari
DIVULGAÇÃO



Marcas dos tiros de fuzis em prédios do Alto da Mooca

O livro Bombas sobre São Paulo – a Revolução de 1924, da historiadora Ilka Stern Cohen, tem, além de outras virtudes, o condão de lançar mais uma pá de terra sobre os velhos, enfadonhos livros de história que tivemos de deglutir nos bancos escolares. Bombas é uma obra que alia o rigor científico a uma saudável e bem-vinda preocupação com o prazer de ler. Para conseguir isso, a autora utiliza técnicas que ultrapassam aquelas corriqueiramente utilizadas pelos historiadores. Com suave competência, ela navega nas águas do jornalismo, da crônica de costumes, da iconografia, da reportagem. Em alguns momentos, tem-se a impressão de ver Ilka, caderninho e caneta em punho, caminhando entre os escombros da cidade bombardeada, a entrevistar paulistanos espantados, colhidos entre os fogos de uma briga que não era deles.

Mais do que escrever sobre um terrível episódio da história da cidade, ela “mostra” o que aconteceu, usando para isso um artifício imbatível: fotos. O livro Bombas tem mais fotos do que texto. Os “instantâneos”, no dizer da época, levam o leitor a percorrer uma São Paulo maltratada, ferida, violentada.

Não satisfeita com esse festival visual, a autora ainda caprichou na descrição da cidade de então, desde os aspectos urbanos até a maneira de falar dos ricos habitantes de bairros chiques como Higienópolis, que não se cansavam de repetir, misturando no português expressões importadas, elogios desmedidos a tudo que vinha do “estrangeiro”. Inclua-se aí um curioso cardápio, todo em francês, do elegante restaurante Trianon.

Assim, conduzindo o leitor pela mão, a historiadora conta o que foi essa revolta que teve início na madrugada de 5 de julho, quando 4 mil soldados do exército, comandados pelo general Isidoro Dias Lopes, marcharam sobre São Paulo, depondo o governador Carlos de Campos e exigindo a renúncia do então presidente da República Arthur Bernardes. A resposta do governo federal não demorou. Nos dias que se seguiram, aviões do exército bombardearam a cidade, atingindo bairros operários, como Brás e Mooca, e de classe média, como Perdizes. Nada menos que 1.800 prédios foram destruídos. Ao mesmo tempo, tropas enviadas do Rio de Janeiro entravam em choque com os revoltosos. Depois de 23 dias, 503 mortos e 4.876 feridos, a paz voltou a São Paulo, com a vitória das forças legalistas e a fuga dos revoltosos para o interior do Estado.


Curiosamente, a Revolução de 1924 é pouco lembrada em São Paulo e negligenciada pela maioria dos historiadores. Mais uma razão para dar as boas-vindas a este livro.
Alfio Beccari É jornalista

Revista História Viva

A paz, o poder e a bomba

edição 45 - Julho 2007

A história da conferência que armou o cenário para a Guerra Fria
por Igor Fuser

Biblioteca Presidencial Truman

Churchill (à esq.), Truman (centro) e Stálin (à dir.) durante a Conferência de Postdam

A paisagem devastada de Berlim após a derrota nazista foi o cenário da Conferência de Potsdam, histórico encontro que reuniu os chefes das três potências vitoriosas da Segunda Guerra Mundial – o presidente americano Harry Truman, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o líder soviético Josef Stálin. Paz em Berlim, de Charles L. Mee, Jr., relata as duas semanas em que os três se dedicaram a uma sucessão de blefes e bravatas para, ao final, se limitarem a ratificar a divisão da Europa em dois campos de influência, o americano e o soviético. Sacramentaram, assim, as linhas de demarcação da Guerra Fria.

O lance mais importante em Postdam, no entanto, não ocorreu na mesa de negociações, e sim em um dos muitos momentos de descontração entre os três dirigentes. Às 19h30 do dia 24 de julho, ao final de uma sessão plenária sem novidades, Truman se dirigiu a Stálin, como quem não quer nada, travando com ele um rápido diálogo. O assunto: a bomba atômica que os Estados Unidos haviam explodido oito dias antes, em segredo, em um deserto do Novo México.

A conversa nada tinha de casual – vinha sendo cuidadosamente preparada por Truman. O presidente discutira com Churchill um meio de informar o ditador soviético sobre a existência da bomba de tal modo que Stálin não percebesse as implicações da nova arma para o panorama estratégico e, ao mesmo tempo, não pudesse mais tarde acusar os americanos de terem sido desleais com seus aliados. Nem Truman nem Churchill sabiam, na ocasião, que Stálin já tinha conhecimento do Projeto Manhattan, por intermédio de seu espião Klaus Fuchs, presente à explosão inaugural em Alamogordo.
Na avaliação de Charles Mee, o breve diálogo em Potsdam assinala o momento exato em que começou a corrida armamentista nuclear. A liderança norte-americana tinha plena consciência de que, àquela altura da guerra no Pacífico, a derrota japonesa já estava consumada. O autor do livro endossa a tese de que a intenção de Truman de jogar a bomba foi, mesmo, intimidar os soviéticos. Em nome desse objetivo, o presidente ignorou as ponderações do seu secretário da Guerra, Henry Stimson, que tentou inutilmente convencê-lo a facilitar a rendição japonesa. A insistência de Truman em exigir do Japão a rendição incondicional em termos humilhantes, visava prolongar os combates até que houvesse condições técnicas de lançar a bomba.


Paz em Berlim é um retrato da frieza e cinismo que constituem a essência da Realpolitik. Lendo o livro é impossível não compartilhar o desconforto que o médico pessoal de Churchill, lorde Charles Moran, manifestou após ser informado sobre a existência da bomba atômica. “Certa vez” escreveu no seu diário, ao sair de uma conversa com o primeiro-ministro em Potsdam, “dormi numa casa em que houvera um assassinato. Sinto-me assim, aqui”.

Igor Fuser É jornalista

Revista Historia Viva

O Horror já não causa mais horror

edição 46 - Agosto 2007


O Horror já não causa mais horror
Os últimos 70 anos trouxeram ao morticínio a planificação burocrática e a execução em escala industrial
por Luiz Marques

Biblioteca do Congresso, Washington

Ruínas remanescentes do bombardeio de Dresden, Alemanha, em fevereiro de 1945

A Segunda Guerra Mundial iniciou-se em 1936 com a guerra civil espanhola, que foi, de fato, uma guerra internacional. O uso pelos alemães de bombas incendiárias contra civis na Espanha prenuncia Dresden, Hiroshima e Nagasaki. Impressiona, contudo, a escalada vertiginosa da atrocidade, a se admitir que esta seja quantificável. Em Guernica, as estimativas vão de 200 a 1.700 mortos. Em fevereiro de 1945, Dresden, a “Florença do Elba”, recebe 7 mil toneladas de bombas que incendeiam a cidade e matam em 15 horas 35 mil civis. Segundo o “U.S. Strategic Bombing Survey” (1945), a aviação britânica despejou na Alemanha 1,35 milhão de toneladas de bombas, causando mais de 300 mil mortos e 780 mil feridos. Em 6 de agosto de 1945, em Hiroshima, a bomba de urânio 235, carinhosamente chamada pelos americanos de “Little Boy”, mata em horas 70 mil civis e continua matando outros 200 mil até o final do século XX. Três dias depois, “Fat Man”, de plutônio 239, é experimentada em Nagasaki, com um saldo imediato de 40 mil mortos e 120 mil até o final do século.

Ninguém desconhece essas cifras. Relembro-as apenas para observar como elas parecem módicas ao lado do que testemunhamos nos últimos 50 anos. Entre 1965 e 1973, os Estados Unidos despejaram no pequeno Vietnã 8 milhões de toneladas de bombas, três vezes mais que todos os bombardeios da Segunda Guerra Mundial e o equivalente a 300 toneladas por vietnamita, além de 72 milhões de litros de substâncias químicas letais, que ainda hoje afetam 650 mil pessoas, segundo um relatório de 2003. Além disso, o conhecimento mais circunstanciado dos campos nazistas e soviéticos, Suharto na Indonésia, Pol Pot no Camboja, os genocídios dos curdos e da ex-Iugoslávia, Ruanda, a Chechênia, o Sudão, o Chile, a Argentina, Israel e, de novo, os americanos no Laos (2 milhões de toneladas de bombas), Guatemala, Nicarágua, Afeganistão, Iraque e alhures (além da cumplicidade da CIA em alguns dos massacres acima referidos) tornaram o horror corriqueiro, e banal a idéia da ferocidade humana.

Obviamente o binômio guerra / atrocidade sempre existiu. Mas a “contribuição” dos últimos 70 anos (1937-2007) é específica, já que trouxe ao morticínio a planificação burocrática e a execução em escala industrial. Pode-se dizer, ademais, que nos últimos 20 anos emergem duas outras novidades: 1. a indiferença: os Horrores da guerra, de Goya, Guernica, de Picasso e Apocalypse now, de Coppola parecem definitivamente coisa do passado. Talvez por efeito de saturação e de superexposição à imagem (ao reality show), o Horror, em suma, não causa mais horror; 2. a percepção de que a atrocidade está ao alcance de todos. Não é mais prerrogativa de mentes monstruosas. As experiências de Philip Zimbardo (Stanford, 1971) e de Stanley Milgram (Yale, 1974) mostraram que pessoas “normais” tornam-se facilmente implacáveis torturadores. Dr. Jekyll não precisa mais de sua poção para se transformar em Mr. Hyde. Dormita em cada um de nós alguém que admitíamos existir somente no outro.

Luiz Marques é professor de história da arte medieval e moderna da Unicamp

Revista Historia Viva

O Bolívar simbólico

O nome do herói foi apropriado por um sem-número de políticos na América Latina
por Gilberto Maringoni

©JUAN BARRETO/AFP


Hugo Chávez, à sombra de Bolívar

O presidente venezuelano Hugo Chávez não se cansa de repetir: o ideário que move seu governo é o legado político e histórico de Simón Bolívar (1783-1830). O próprio nome do país foi alterado há alguns anos para República Bolivariana da Venezuela.

Chávez não é o único a reivindicar o personagem. O nome de Bolívar foi apropriado por um sem-número de lideranças e movimentos políticos na América Latina nos quase 200 anos que nos separam de sua morte. Seus seguidores estão espalhados pelas mais diversas vertentes do espectro ideológico. Até que ponto as apropriações de tal legado são fiéis ao pensamento original do chamado Libertador?

É difícil dizer. A “ideologia bolivariana” tem contornos vagos e imprecisos. Bolívar é possivelmente o personagem histórico mais complexo e de maior influência no imaginário político continental. Seu legado é colossal. Além de liderar guerras de independência e de exercer influência direta em pelo menos cinco dos atuais países da região – Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia –, ele deixou vastíssima obra escrita, constituída de artigos, cartas e discursos.
O historiador venezuelano Germán Carrera Damas escreveu um livro fundamental para entender não apenas o personagem histórico, mas o Bolívar simbólico, que segue existindo. O título é preciso: El culto a Bolívar (O culto a Bolívar). Carrera Damas destaca que a admiração despertada por Bolívar em seu tempo e após sua morte não é fruto apenas de laboriosa pregação. Os feitos que liderou repercutiram concretamente na vida de milhões de pessoas. Não sem razão, Bolívar tornou-se objeto de culto, realizado, ao longo dos anos, com os mais diversos propósitos políticos.

Através de variadas interpretações, a figura do Libertador foi reivindicada por todas as classes sociais venezuelanas, como uma espécie de fator de unidade nacional ou até como símbolo da manutenção de determinada ordem. Assim, existe um bolivarianismo conservador, traduzido na profusão das estátuas eqüestres disseminadas nas praças de praticamente todos os municípios venezuelanos, bem como na sacralização estática de lugares e feitos do Pai da Pátria. Esta vertente tenta esvaziar a figura de Bolívar de seu conteúdo transformador e anticolonialista, destinando-a à veneração estéril.

E há um bolivarianismo de esquerda, que busca nas lutas contra o domínio espanhol a inspiração para ações tidas como antiimperialistas. As duas visões envolvem um sem-número de nuances. O ideário bolivariano sempre foi elástico e flexível o bastante para permitir leituras de um lado e de outro.

O culto a Bolívar não é uma criação ficcional, fruto de um patriotismo exacerbado em alguns países. É mais do que isso. Ele constitui uma necessidade histórica e um recurso destinado a compensar o desalento causado pela frustração de uma emancipação nacional que não se completaria. Bolívar seria o elo histórico com um ideal de soberania, liberdade e justiça. Daí sua força, tanto política quanto como objeto de veneração quase religiosa.

Gilberto Maringoni É jornalista, doutor em história social pela FFLCH-USP e autor de A Venezuela que se inventa – Poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Editora Fundação Perseu Abramo)

Revista História Viva

Natal, da igreja ao shopping center

edição 50 - Dezembro 2007

O marketing em torno da festa do dia 25 de dezembro, apoiado em elementos do imaginário religioso, ajuda-nos aentender como o consumo se revela filho legítimo do monoteísmo
por Silvio Mieli

© LOSEVSKY PAVEL/SHUTTERSTOCK


Shopping: o templo do Natal moderno

O cenário do anúncio impresso,lançado às vésperas do Natal de 2005, reproduzia a atmosfera de um quadro renascentista. Uma cliente se aproxima do caixa para pagar suas compras na loja de decoração. Olhar entre virginal e maternal, vestes angelicais, a mão direita apoiada sobre as caixas brancas e a esquerda sutilmente inclinada, segurando um cartão de crédito. Por trás dos seus cabelos dourados, uma baixela de prata pendurada na prateleira da loja conferia à consumidora uma auréola de “madona rafaelita”. “Fazer o bem é mais fácil do que você imagina”, dizia o slogan do cartão de solidariedade do banco.

A peça publicitária parecia ter sido inspirada no tríptico Virtudes teologais (fé, esperança e caridade), pintado por Raffaello Sanzio em 1507. Só que, na versão original, a santa recosta a mão esquerda no peito e a outra segura o cálice sagrado. Mas cada época tem o Raffaello que merece. E reciclando o estoque de imagens universais para fins instrumentais, o
marketing pré-natalino nos ajuda a entender como o consumo é filho legítimo do monoteísmo. Já no Velho Testamento, no capítulo 1 do livro do Gênese, versículo 26, Deus franqueou ao homem o domínio “sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. Sabemos no que deu este apelo explícito ao consumo desmesurado da própria natureza.

No próprio feriado de “Ação de Graças”, comemorado na quarta quinta-feira de novembro, depois de comer o peru em família, uma procissão de americanos afl ui às compras na maior liquidação do planeta. O agradecimento a Deus pela boa colheita de outono, que está na origem da comemoração instituída em 1621, converte-se na celebração do consumo sem trégua, aquecendo o comércio às vésperas do Natal.

Para reagir ao marketing que mistura táticas religiosas com as do universo militar, surgiu a campanha mundial Buy nothing day (um dia sem compras), encabeçada pela canadense Media Foundation, que produz a revista antipublicitária Adbusters. Mas além
da campanha, o ritual fundamentalista do consumo também passou a ser questionado a partir das performances do reverendo Billy. Fundador da Igreja do Anticonsumo, Billy, ao estilo dos “sacerdotes” evangélicomidiáticos, invade lojas aos berros de “No shopping” (não compre). Sua pregação, acompanhada de denúncias contra a exploração de mão-de-obra infantil na fabricação de certos produtos, inspirou grupos de ativistas europeus, que passaram a organizar manifestações no interior das lojas de grandes marcas. Na versão européia, ativistas quedam-se prostrados diante, por exemplo, de um boné da Nike, entoando orações e mantras laudatórios ao venerado produto.

Silvio Mieli é jornalista e professor do Departamento de Comunicação Jornalística da PUCSP, onde desenvolve atividades ligadas ao midiativismo, à análise dos sistemas audiovisuais e à crítica à mídia

Rivista História Viva

Novos e velhos bárbaros

edição 51 - Janeiro 2008

por João Fábio Bertonha
PORTLAND INDEPENDENT MIDIA CENTER


Imigrantes latinos nos EUA reivindicam direitos no 1o de maio de 2006
O crescente número de imigrantes latinos nos Estados Unidos tem levado alguns setores conservadores a comparar a situação de seu país com a do Império Romano em sua fase final

Uma das maiores tentações para quem olha o passado é fazer analogias ou comparações, buscando, no já vivido, uma lógica ou padrão que permita a compreensão do momento presente. É o que acontece hoje nos debates entre americanos que discutem se o seu país é ou não um império. Nesses debates, o Império Romano é apresentado como o exemplo-chave a ser estudado para evitar que o destino de Roma seja seguido por Washington.

Assim, boa parte da direita americana olha para o cenário do seu país com preocupação ao identificar nele sinais de repetição do processo que levou ao fim do Império Romano, há mais de mil anos, em decorrência da invasão de povos estrangeiros.

É claro que cada setor ou pessoa dentro dessa direita olha para o passado e o avalia conforme suas próprias crenças ou interesses, mas todos vêem na situação atual uma possibilidade de repetição da história. A direita religiosa, por exemplo, tende a ver a queda do Império Romano como um efeito, acima de tudo, da decadência moral que estaria se repetindo na sociedade americana, prenunciando o colapso final.
Uma das analogias mais fortes, contudo, é a que compara os imigrantes estrangeiros atuais aos bárbaros do passado. Lá fora estariam as hordas violentas, miseráveis, numerosas e prontas a forçar sua entrada no interior do império, identificado com a civilização, a democracia, a riqueza e a prosperidade. Na Europa, esse “outro” bárbaro é o muçulmano. Nos EUA, em boa medida, são os latinos e, especialmente,os mexicanos.

Alguns autores chegam a difundir a idéia de que estes estariam querendo reconquistar os territórios perdidos em 1848 por meio da imigração maciça para o Texas, Califórnia e outras regiões próximas. Já outros, como Samuel Huntington, acreditam que o problema é a impossibilidade de assimilar os latinos, dado que sua cultura seria estranha e eles estariam chegando em número exagerado.

A analogia que se constrói é clara. Os romanos não teriam conseguido deter o influxo pacífico e, posteriormente, violento dos bárbaros, e acabaram destruídos. Caberia aos ocidentais, especialmente aos americanos, aprender com esse erro e evitar que o fenômeno se repita, mantendo a vigilância nas fronteiras.

Essa analogia não se sustenta, contudo, historicamente. A migração latina para os EUA está, com certeza, transformando o país, que, em 50 anos, poderá ter um quarto da sua população com origens hispânicas. Como aconteceu com tantos outros povos, porém, os imigrantes latino- americanos acabarão ao mesmo tempo sendo assimilados e transformando a cultura dominante. É quase caricatural associar os mexicanos que chegam em busca de trabalhos humildes com conquistadores bárbaros prontos a invadir o império. Analogias e comparações podem ser excelentes meios de compreender a história, mas respeitar os seus limites é tarefa fundamental.
João Fábio Bertonha é doutor em história pela Unicamp e professor da Universidade Estadual de Maringá. É autor de A imigração italiana no Brasil (Saraiva, 2004), entre outros livros
Revista História Viva

Rússia, condenada ao autoritarismo?

edição 53 - Março 2008

O governo centralizador do presidente Vladimir Putin reacendeu o debate sobre o espaço da democracia diante de uma tradição de regimes de força que marca a história política do país
por Angelo Segrillo


Putin discursa em Moscou, em 2003: para alguns, o ex-agente da KGB pode se tornar o czar do século XXI

A chegada ao poder de Putin com um modelo centralizador e autoritário de governo trouxe de novo à baila o tema do autoritarismo na Rússia. Estaria esse país condenado a não conseguir uma democracia plena e seguir sempre regimes de força?

Os defensores de tal visão apontam para a experiência histórica do país. O czarismo, até o início do século XX, era uma autocracia absoluta. Partidos políticos, uma Constituição e um parlamento (Duma) só foram legalizados, a contragosto, durante a chamada Revolução de 1905. Desde então, até 1917, a Rússia teoricamente passara a ser uma monarquia constitucional. Mas, na prática, o regime era autoritário, pois o czar podia dissolver a Duma a qualquer momento, havia censura à imprensa etc. Após 1917, o comunismo soviético também foi um regime autoritário (totalitário, segundo alguns). Assim, antes da abertura de Gorbachev o único período em sua história em que a Rússia foi um país democrático foi entre as revoluções de fevereiro (democrático-burguesa) e de outubro (socialista) de 1917. Neste período o czarismo caíra, todos os partidos tinham liberdade de ação e a imprensa era livre. Mas os críticos afirmam que esta foi a liberdade provinda da anarquia, já que o período foi caótico, com governos provisórios e duplo poder. Os anos 90, sob Yeltsin, deram esperança de que a Rússia pudesse seguir o caminho de uma verdadeira democracia pluralista. Apesar da crise econômica e o seriíssimo episódio autoritário do canhoneio do parlamento em 1993, de maneira geral a imprensa era livre e os partidos atuavam livremente.

A chegada de Putin ao poder, com seu regime centralizador e algo autoritário, fez os críticos retomarem o velho tema: “Viu? a democracia não consegue fincar raízes sólidas na Rússia”.

Como avaliar esse legado? Haverá mesmo esse determinismo pairando sobre o povo de Dostoievski?

Sem negar o peso dos legados culturais, é importante notar que a história demonstra não haver fardos tradicionais que a modernidade (ou pós-modernidade) não consiga, para o bem ou para o mal, romper. Povos que se diziam condenados havia séculos ao imobilismo “de repente” mostram um dinamismo impressionante (veja-se o caso da China atual). A Rússia já demonstrou seu potencial para transformações radicais, com rupturas profundas com o passado, como no caso da revolução soviética em 1917. A própria perestroika de Gorbachev rompeu o estereótipo do totalitarismo soviético como um regime fechado e impermeável a mudanças de dentro. Assim, os russos saberão encontrar seu próprio caminho. Não será por um aprisionamento do passado que a democracia não será possível no pais. Se há algo que a historia ensina é que o passado não aprisiona o futuro.

Angelo Segrillo é professor de história contemporânea da Ásia na USP. Especialista em Rússia e Eurásia, é autor de O declínio da URSS: um estudo das causas (Record, 2000) e de O fim da URSS e a nova Rússia (Vozes, 2000), entre outros livros.

Revista História Viva

1968 ataca novamente

edição 54 - Abril 2008

Os 40 anos dos conflitos e experiências daquele ano convidam a um acerto de contas com os ideais e um balanço de vida diante de um mundo ainda extremamente desigual
por Marcelo Ridenti

BIBLIOTECA DA UNIVERSIDADE SIMON FRASER


Capa da revista Magazine Littéraire com Rudi Dutschke, Che Guevara e Alexander Dubcek apresenta uma “nova ideologia” em 1968

No fim de 2007, antecipando-se à comemoração do 40º aniversário de 1968, o jornalista Elio Gaspari prenunciava em sua coluna o tom (auto)crítico que têm tomado as discussões, ao dizer que melhor seria se aquele ano não tivesse existido, ao contrário de 1989, este sim o ano significativo, devido ao colapso do império soviético. Já o ex-guerrilheiro Fernando Gabeira declarou que gostaria de “dizer adeus a tudo isso”.

São bem-vindos todos os debates, análises, críticas e autocríticas sobre 1968, que deve ser desmistificado. Mas qual 1968? Os movimentos contestadores de então foram muito diversificados, dos que pregavam paz e amor contra a guerra no Vietnã aos que achavam que flores não vencem canhões, inspirados na revolução cubana. O inconformismo ia da Primavera de Praga contra o socialismo real às insurgências contra o capitalismo mundo afora; das lutas específicas de mulheres, negros e homossexuais à contracultura e ao movimento ambientalista.

Acertar as contas com 1968 pode significar coisas diferentes para quem faz um balanço de vida: há os que se penitenciam pela crença na violência popular, os que atestam os exageros da liberdade sexual que redundaram na aids, sem contar que a aposta no potencial libertador do uso de drogas acabou tragicamente, como se sabe.
Por sua vez, os estudos acadêmicos espalham-se por todo o planeta, gerando uma infinidade de interpretações, desde as que vêem 1968 como uma insurgência contra o capitalismo até as que o consideram um exercício de modernização social, prefigurando o individualismo dos anos 70 e 80. O tema não se esgota e o mais provável é que um encadeamento de circunstâncias explique a época de 1968.

O que teria marcado essa época, dando-lhe unidade, apesar das diferenças? O sentimento generalizado de que transformações sociais profundas estavam ao alcance das mãos, e de que o mundo caminhava para elas. Parecia urgente transformar, e não conformar-se com a ordem estabelecida. Há quem interprete os anos 60 como a era da teoria. De fato, não faltavam teorizações. Mas a ação importava muito mais. Mais do que interpretar o mundo, buscava-se mudar a vida em todos os aspectos, construindo alternativas de existência que fugissem da polarização da Guerra Fria entre o capitalismo americano e o modelo soviético de socialismo.

No aspecto político, o que está em jogo hoje no debate sobre 1968 não é tanto a interpretação de suas causas e conseqüências, alcances e limites, mas a luta em novos termos entre os que se acomodaram à nova ordem mundial e aqueles que herdaram o espírito de 1968 e hoje apostam que “um outro mundo é possível”, em que os valores fundamentais não sejam os do lucro, mas da convivência e realização plena dos seres humanos, em suas relações entre si e com a natureza, que se expressam em lutas pela preservação do meio ambiente, pela igualdade entre os sexos, as culturas e as etnias, sem contar os embates renovados por um socialismo democrático.
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Marcelo Ridenti é professor titular de sociologia da Universidade de Campinas (Unicamp) e pesquisador do CNPq. É autor de Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução (Record, 2000), entre outros livros

Revista História Viva

Aristóteles no planalto

edição 58 - Agosto 2008

Aristóteles no planalto
O que pensaria o célebre filósofo grego da Antigüidade diante do sistema político do Brasil contemporâneo? Reconheceria nele as idéias igualitárias da democracia ateniense?
por Edison Nunes

Aristóteles, óleo sobre tela, Francesco Hayes, 1811, Galeria da Academia, Veneza


Aristóteles: o governo atual seria uma mistura de democracia e oligarquia

Não sei se foi por antiga magia ou tecnologia secreta que Aristóteles veio a dar em Brasília. Queria conhecer nossa Constituição, dizendo ser hábito seu empedernido. Encontrei-o por azar; expliquei lhe o básico, alguma bibliografia. E recolhi alguns de seus comentários.

Para ele o nosso sistema político não poderia ser chamado de “democracia” e, de fato, não o é, tecnicamente falando. A palavra designa somente regimes nos quais o povo detém o poder soberano; exercendo-o diretamente em assembléia, sem que tal poder conheça qualquer limite ou contrapeso institucional. Significa literalmente o “poder popular” e sua realização pressupõe a maior igualdade possível de todos perante a lei (isonomia) e quanto ao direito de participar da decisões públicas mediante a fala (isegoria). Tal igualdade fundamental torna impossível a representação política já que esta pressupõe a separação prática e formal entre representantes e representados, entre dirigentes e dirigidos. Assim, qualquer processo de escolha de magistrados, como votação ou concurso de provas e títulos, não é democrática pois toma os indivíduos pelas suas diferenças, ranqueando-os em melhores e piores. Por isso mesmo, a eleição popular de um presidente ou deputado; a de um juiz concursado, configurar-se-iam aristocráticas (de aristói – os melhores). O único método realmente democrático de seleção, quando não se pode decidir diretamente em assembléia, é o sorteio. Só aí não há discriminação de mérito, preservando-se a igualdade.
O governo que aqui se vê é uma mescla de oligarquia e democracia, o tipo mais comum de governo constitucional. Não existe nenhum poder ilimitado que subordine os demais; cada qual com sua autonomia e composição definidas pela Constituição. Compõem aristocracias o Judiciário e o Legislativo, selecionados seus membros entre os melhores do povo. O Executivo, ainda que por tempo limitado, encarna o princípio da realeza. O único componente realmente democrático do sistema encontra-se nas assembléias periódicas que elegem os magistrados (colégios eleitorais). A este governo misto, Aristóteles chamou de “politia” cuja tradução, pelo latim, é “república”.

Contudo, o que mais espantou Aristóteles é o estranho hábito que temos de garantir direitos políticos aos escravos. Calma, prezado leitor: custou-me também entender! É escravo por natureza aquele que não quis ou não pode desenvolver o hábito da escolha prudente, tornando-se assim incapaz de prever. Tal indivíduo necessita da direção de outrem não apenas na política como principalmente no trabalho, estabelecendo um laço de benefício mútuo com seu senhor: este planeja e organiza; aquele provê com sua energia. Note que não é o vínculo jurídico a caracterizar a escravidão, mas sua função: fica evidente que o assalariamento é uma espécie de escravidão por tempo! A questão que mais o perturbou foi a da qualidade da escolha de quem é desabituado dela até na direção de sua vida privada.

Depois de explicar-lhes os mecanismos de seleção de elites de nossa república; das diatribes de nossos sofistas (os marqueteiros); dos movimentos de nossos socialmente poderosos, tudo conspirando para a escolha responsável e melhor, entendeu que eu lhe fazia troça e foi à biblioteca ler nossa história política.

Edison Nunes é professor do Departamento de Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.

Revista História Viva

Yes, nós temos máfias

edição 60 - Outubro 2008

Apesar de o crime organizado proliferar no Brasil, a lei atual ainda é confusa, e o Estado, fraco na sua repressão. Um problema que remete à formação da sociedade nacional
por José Arbex Jr.

© WILSON DIAS/ABR

Polícia Federal apreende documentos em operação contra desvio de verbas públicas

Nos últimos anos, a opinião pública brasileira foi tomada de assalto por revelações bombásticas sobre relações íntimas e perigosas mantidas entre banqueiros, empresários, políticos, juízes, advogados, jornalistas – enfim, a fina flor da sociedade. Banestado, “mensalão”, Marka/FonteSindam, bingos, Previdência, Telebrás, Vale do Rio Doce, Daniel Dantas... Os nomes se multiplicam e reverberam sem parar aquilo que todo mundo mais ou menos sabe: este é o país que reserva a impunidade aos “gente fina” (ainda que, ultimamente, a Polícia Federal tenha tentado mostrar que alguma coisa está mudando. Será?).

As evidências indicam que por trás de cada escândalo há uma organização estruturada, ancorada em gente situada em órgãos do Estado e amparada por pessoas que conhecem e manipulam a lei – sem dispensar, é claro, o recurso ao suborno. Ainda assim, tais esquemas não são comumente qualificados como articulações do crime organizado. Em geral, a mídia confunde “crime organizado” com organizações voltadas para o crime, incluindo até pequenos bandos que atuam em favelas. É uma confusão tão primária – e conveniente para os chefões das verdadeiras máfias – que até causa suspeitas.

A ação do crime organizado, tal como é entendida pelas instituições internacionais contemporâneas, incluindo os órgãos da Organização das Nações Unidas, pressupõe uma vasta rede de interesses econômicos, políticos e financeiros, que funciona com base na lavagem de dinheiro, da corrupção, do tráfico de influência e do assassinato. A dificuldade começa, no Brasil, pelo fato de a lei que trata do assunto (10.217/01) ser fraca, confusa e nada efi caz. Se é verdade que o seu texto distingue o crime organizado do promovido por associação criminosa ou bando, não vai muito além disso. A lei brasileira atual torna difícil reconhecer até mesmo o que é o crime organizado.

A Academia Nacional de Polícia Federal do Brasil enumera dez características do crime organizado: 1) planejamento empresarial; 2) antijuridicidade; 3) diversificação de área de atuação; 4) estabilidade dos seus integrantes; 5) cadeia de comando; 6) pluralidade de agentes; 7) compartimentação; 8) códigos de honra; 9) controle territorial; 10) fi ns lucrativos. “Curiosamente, a relação entre o crime organizado e o Estado é sempre apontada como uma de suas características pelas agências de combate ao crime do mundo, mas não no caso da PF brasileira”, observa Adriano Oliveira, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco.

É claro que a indefinição quanto ao combate ao crime organizado no Brasil remete a uma questão que não se esgota na esfera jurídica: refl ete a própria natureza do Estado brasileiro e do processo histórico que o formou, baseado na manutenção de leis que tinham por objetivo preservar o poder de uma diminuta elite sobre a vasta maioria pobre. Esta é a raiz da impunidade dos ricos, cujos interesses privados sempre se impuseram ao próprio Estado.

As máfias tupiniquins só serão devidamente punidas quando o poder público finalmente se impuser à “casa-grande”.

José Arbex Jr. é jornalista, mestre em história, professor da PUC-SP e co-autor do livro O século do crime (Boitempo editorial).


Revista História Viva

O retorno de Malthus

edição 55 - Maio 2008

Os problemas ambientais e a velocidade do crescimento populacional, principalmente nas cidades, trazem de volta a preocupação de quantos seres humanos o planeta é capaz de alimentar
por Luiz Marques
© OLGA KOLOS/SHUTTERSTOCK


Em 40 anos a humanidade deve atingir 9,2 bilhões de habitantes

De todos os filósofos e pensadores da economia política que vicejaram desde o século XVIII, nenhum foi objeto de críticas tão unânimes quanto Thomas R. Malthus, autor em 1798 de um livro famoso: Um ensaio sobre o príncípio da população e sobre o modo como afeta o aperfeiçoamento futuro da sociedade. O pessimismo de sua tese, segundo a qual “há uma constante tendência em todas as formas de vida animada a crescer além dos estoques de alimentação disponíveis para ela”, jamais granjeou consenso. Pois a tal pessimismo, opunham-se dois tipos de otimismo. Os “integrados”, ou seja, os otimistas liberais, sempre acusaram Malthus de miopia apocalíptica, argumentando que a simbiose entre a livre-iniciativa e a tecnologia seria capaz de prover indefinidamente a demanda global de alimentos. A “revolução verde” deu-lhes razão. De seu lado, os “apocalípticos”, vale dizer, os otimistas quanto à capacidade humana de superar o capitalismo, sempre o consideraram um “integrado”, um reacionário empedernido, contrário até mesmo à mais tímida legislação paliativa da pobreza. O progresso da legislação social desde a Revolução Francesa também deu-lhe razão.

Mas as coisas mudaram. Transcorridos 210 anos do ensaio de Malthus, esses dois tipos de otimismo debatem-se em crises terminais, enquanto o pessimismo malthusiano retorna. Dados da ONU: em 2008, a população urbana do planeta está se equiparando à população rural; beiramos hoje 6,8 bilhões; em 70 anos, de 1950 a 2020, mais que triplicaremos; nos próximos 40 anos atingiremos a marca de 9,2 bilhões de indivíduos: 50% a mais que a população de 2000; em 2050, 6,4 bilhões de pessoas – o equivalente à população atual do planeta! – apinhar-se-ão em cidades. Portanto, em 40 anos (2010-2050), a população urbana, sempre sequiosa de alimentos, duplicará.

Haverá 50% a mais de alimentos no planeta em relação à produção já insuficiente de 2000? A resposta é não. A revolução verde atingiu seus limites. Ela foi possível por causa do petróleo abundante e barato e a conseqüente petroquímica dos fertilizantes e defensivos agrícolas. Enxertamos no solo quantidades imensas de energia fóssil. Segundo Richard Manning (The oil we eat, O petróleo que comemos) “as plantações de Iowa [EUA] requerem a energia de 4 mil bombas de Nagasaki por ano”. E esse é o padrão atual da agricultura de escala. Ora, é consenso que a tecnologia será incapaz de descobrir novas jazidas de petróleo em ritmo compatível com o do crescimento da demanda. O esgotamento das reservas petrolíferas é um fato. Ela já acarreta o aumento implacável dos preços do petróleo e o dos alimentos agrícolas, analisado por Paul Krugman em artigo do Washington Post de 7 de abril (“Grains gone wild”, Os grãos enlouqueceram). Isto para não falar no pior: o declínio dos cardumes e a demanda crescente por gado de corte, voraz consumidor de florestas e grãos, com custos ambientais terrificantes. Mas é melhor parar por aqui: neste assunto os carnívoros humanos nem querem ouvir falar.

Luiz Marques é professor de história da arte medieval e moderna da Unicamp.


Revista História Viva

AI-5 - Quarenta anos depois, uma pergunta


edição 62 - Novembro 2008

Quarenta anos depois, uma pergunta
O Ato Institucional nº 5 foi revogado em 1978 porque não era mais necessário. O que precisou ser instituído pela ditadura militar talvez pudesse sobreviver sem ela
por Marcos Silva


ARQUIVO JORNAL ÚLTIMA HORA/ACERVO FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL

Primeira página da edição de 14 de dezembro de 1968 do jornal Última Hora

Foi numa festa familiar que eu soube do AI-5. Um dos presentes veio falar sobre a leitura do documento na televisão. Dava medo e pensei que era mais um passo da ditadura em vigor.

O Brasil já era uma ditadura desde 1o de abril de 1964. Tudo de ruim que qualquer ditadura pratica se tornara corriqueiro. O problema, difícil de acreditar naquela hora, era que o ruim pudesse piorar. Piorou!

É importante estar atento à argumentação justificadora do documento. O AI-5 inicia em nome do Presidente da República, evidenciando que essa república tem um agente que decide (o Presidente), consultando – mas sem depender de suas decisões – o Conselho de Segurança Nacional. Temos, então, a república do Presidente, que ouve aquele Conselho. A “coisa do povo” foi transformada em coisa do Presidente. O nome é república, mas a prática é de despotismo. Quem tem a força é o Presidente, força que emana dele mesmo ou, quando muito, da autodenominada Revolução de 1964.

Os outros poderes constitucionais clássicos – Legislativo e Judiciário – somem, num primeiro momento, do AI-5, para reaparecerem submissos, como impotências. O Presidente da república pode decretar o recesso parlamentar a qualquer momento e os senadores, deputados e vereadores podem ser cassados. O Judiciário é brindado com a perda da vitaliciedade no cargo (juízes também cassáveis), direito que significava alguma garantia de independência; e é suspenso o habeas corpus – alguma garantia de vida para os cidadãos. O Legislativo também é chantageado financeiramente com a redução dos salários à base mínima, em caso de recesso. O Judiciário foi tratado como inexistente: “Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos” (Art. 11). Fora do AI-5, não há solução. O Presidente não pode ser contrariado.

Mas nenhum poder é de um só; não se abole a sociedade tão facilmente; existiam grupos sociais beneficiados pela ditadura como um todo, e pelo AI-5 em particular; e grupos prejudicados por ambos.

Não é distração nem imperícia do texto: os redatores e signatários do AI-5 quiseram mesmo transmitir esses significados de extrema centralização, extrema insegurança, extrema arbitrariedade. O ditador Costa e Silva não era onipotente, mas se apresentava como tal. O AI-5 designava o que quisesse como fora-da-lei, numa espécie de “A Lei sou eu”. Assustador porque era para assustar. E, ao mesmo tempo, esclarecedor: o que é a lei numa ditadura? O AI-5 respondia: um punhado de nada.

O AI-5 vigorou até 31 de dezembro de 1978. Desde meados da década de 70, movimentos sociais, votações crescentes na oposição tolerada, descrédito do ”milagre econômico” e grandes greves a partir de 1978 demonstravam que aquele documento já não dava conta de exercer o controle absoluto a que se propunha. E o governo Geisel se esforçou para aparecer como autor do desmonte da ditadura para garantir a continuidade de muitos de seus personagens e traços – último estertor de um AI-5 que não mais ousava dizer seu nome.

O fim do AI-5, instrumento de radical arbítrio, é motivo de alívio. Falta indagar sobre a possibilidade de que ele tenha sido extinto por falta de necessidade para continuar a existir: o que precisara ser instituído pela ditadura podia sobreviver sem ela.
Revista História Viva

Marcos Silva é professor do Departamento de História da FFLCH-USP